Por onde andavam as centrais sindicais enquanto o governo Bolsonaro destruía a previdência social?

reforma 1Sem o apoio político e a mobilização de centrais sindicais e movimentos sociais, a bancada de oposição levou uma goleada de 379 a 131 na votação da contrarreforma da previdência.

Passei a tarde toda acompanhando a precária cobertura online que foi oferecida tanto pela mídia corporativa quanto pelos portais e blogs da chamada mídia alternativa. Enquanto se preparava o massacre da previdência social, algo que estava explicitamente óbvio da cobertura da mídia era que as principais centrais sindicais brasileiras não estavam do lado de fora se manifestando de forma massiva para inocular algum tipo de preocupação no coração dos nobres deputados que puderem assim em maioria esmagadora aprovar o projeto de contrarreforma que o governo Bolsonaro preparou para alimentar o sistema de especulação financeira que hoje asfixia a economia brasileira.

O placar final pela aprovação do chamado texto principal foi de 379 votos a favor e 131 votos contra, um verdadeiro baile da agenda de destruição da previdência social pelo governo de extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro.

Mas é interessante notar que este placar nos remete a um número muito similar que foi o do impeachment da presidente Dilma Rousseff.  Assim, nada de novo na capacidade das forças de direita mobilizarem um batalhão de deputados cuja compreensão das dimensões de determinadas decisões beira o zero.

Por isso, se há que se olhar para um lugar onde devem ocorrer correções para os graves embates sociais que ocorrerão em um futuro não muito distante é justamente dentro do sistema sindical e dos movimentos sociais que ontem, como já havia ocorrido no impeachment de Dilma Rousseff,  não se organizaram para defender conquistas duramente conquistadas pela classe trabalhadora brasileira. É neste e deste campo que precisamos cobrar explicações, de modo a que os seus dirigentes parem de fazer pose de estátua enquanto se amplia o massacre sobre os pobres brasileiros.

Uma curiosidade sobre a votação de ontem foram os votos dos deputados Tábata Amaral (PDT/SP) e Tiririca (PL/SP).  É que enquanto a primeira, muito festejada por segmentos da esquerda por sua participação na derrubada do pífio ministro da Educação  Ricardo Vélez-Rodriguez, votou a favor da destruição da previdência social dos trabalhadores, o segundo foi o único deputado do seu partido a votar contra. Esses dois votos mostram bem como o parlamento brasileiro não é um lugar onde pode se cair na primeira impressão ou esperar coerência.  Por isso mesmo a importância da organização popular e o fim de qualquer esperança de que o parlamento é um veículo útil para a luta dos trabalhadores e da juventude.

Finalmente, ficou demonstrado que a tal “nova política” do presidente Jair Bolsonaro só serve mesmo para iludir seus eleitores, pois na hora que foi preciso o que valeu mesmo foi a velhíssima política do tomá lá, dá cá.  E segue o cortejo!

A cobertura fragmentada da greve geral indica sucesso da mobilização contra a reforma da previdência

Estou desde cedo acompanhando a cobertura altamente fragmentada do dia de greve geral em diferentes partes do Brasil, e não há como deixar de notar que os principais veículos da mídia corporativa brasileira estão fazendo um esforço hercúleo para não deixar que a população saiba o que realmente está se passando.

Esse esforço é parte de uma aritmética mais ampla, pois os grandes grupos de mídia são parceiros do governo Bolsonaro na imposição de uma contrarreforma que causará graves danos aos trabalhadores e a própria economia brasileira.  

Por isso, a cobertura fragmentada e concentrada em vias de circulação onde há “certa normalidade” como falam os jornalistas que cobrem as manifestações. Também o recurso de visitar pontos de acesso a transportes públicos onde pessoas “sofrem” as consequências do movimento.  

Essa não é a primeira vez que a mídia corporativa brasileira se comporta mais como desinformadora do que informadora, nem deverá ser a última. É que os donos desses veículos são parceiros da desnacionalização da nossa economia, e da voracidade rentista que abocanha a riqueza nacional.

Para nos informarmos melhor, o caminho será aguardar a cobertura da mídia internacional, especialmente daqueles veículos que possuem “sucursais” no Brasil, como o espanhol “El País“, a alemã “Deutsche Welle“, a inglesa “BBC” e a francesa “Rede França Internacional“.

Uma coisa que é possível ver, para além das névoas da desinformação que a mídia brasileira impõe a partir do acompanhamento das redes sociais, é a força do movimento em determinados estados e a relativa fragilidade em outros.  Esta diferença se deve principalmente ao nível de engajamento heterogêneo das centrais sindicais nos estados onde são hegemônicas esta ou aquela força política.  Identificar onde o movimento foi sabotado pela omissão de determinadas centrais sindicais será fundamental para os inevitáveis próximos capítulos que ainda ocorrerão ao longo de 2019.

Greve geral: o que esperam as centrais sindicais para organizar a autodefesa da classe trabalhadora brasileira?

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Desde a chamada reforma trabalhista imposta pelo governo “de facto” de Michel Temer que removeu direitos e jogou milhões de trabalhadores brasileiros na precariedade, tenho me pergutado sobre quando as centrais sindicais brasileiras irão convocar uma greve geral para deter os ataques programados pelo governo Bolsonaro.

É que passando pela contrarreforma da Previdência e a instalação da precariedade completa sob a enganosa “Carteira de Trabalho Verde Amarela”, o que está se planejando é um retrocesso que só não declara formalmente a revogação da Lei Áurea. É que se tudo passar como desejado pelo “Chicado Boy” Paulo Guedes, a regressão almejada beirará as condições que existiam para os escravos que foram trazidos da África.

Se até agora não fizeram nada, as centrais sindicais e seus dirigentes devem pelo menos ter aquele tipo de instinto para a auto sobrevivência já que as declarações de Paulo Guedes sobre o suposto “caráter fascista” da legislação dos direitos trabalhistas   na Consolidação das Leis do  Trabalho (CLT),  e a condição de meros parasitas dos dirigentes sindicais que vivem às custas dos trabalhadores, nada mais é do que uma declaração aberta de guerra não apenas aos trabalhadores, mas também aos que representam seus interesses dentro dos sindicatos.

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Ministro da Economia, Paulo Guedes,  não esconde a sua disposição de precarizar ainda mais as condições de vida dos trabalhadores brasileiros. CARL DE SOUZA / AFP

Por isso é que fico me perguntando quando os dirigentes das principais sindicais sairão do conforto em que se colocaram durante os anos de governos do PT e vão partir para uma luta encarniçada em defesa dos trabalhadores e, sim, da própria existência dos sindicatos que dizem representar.

Mas uma coisa é certa: o tempo está passando e a margem de tempo para organizar a reação está encurtando. Depois não adianta reclamar nem denunciar na Organização Internacional do Trabalho (OIT). É que o governo Bolsonaro simplesmente não parece dar a mínima bola para as leis internacionais que foram assinadas antes de janeiro de 2019.

 

Brasil de Temer: rumando ao Século XVI e a graves conflitos trabalhistas

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Este 11 de Novembro deverá ficar marcado na memória da classe trabalhadora brasileira como o dia em que direitos duramente conquistados foram arrancados com uma facilidade que impressiona a quem já se deu conta do retrocesso em que estamos subemergindo neste momento. Basta olhar a arte abaixo, preparada pelo PSOL, para entender a gravidade do ataque está sendo executado pelo governo “de facto” de Michel Temer contra todos os trabalhadores brasileiros.

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Os primeiros sinais de que a regressão será grave está  sendo a imediata redução de salários e compensações que eram garantidos anteriormente e até mesmo o fim da contratação de empregados em troca de pagamento de salários. Mas isto deverá transbordar para outras áreas, jogando a classe trabalhadora brasileira num ambiente cada vez mais conflituoso com os patrões e seus gerentes dentro dos locais de trabalho. É que determinadas regressões irão ser tão aviltantes que não restará outro caminho aos trabalhadores que não enfrentá-los, ainda que de forma desorganizada.

Com a entrada em vigor da  contra-reforma trabalhista  de Michel Temer, um hospital da ZonaSul da cidade de São Paulo já informou que irá cancelar o direito a folgas e remuneração em dobro até então pagas para quem trabalhasse durante  feriados [1].

O interessante é que ainda há gente que fala em alianças com uma obscura “burguesia nacional”, a qual será atingida diretamente pela redução dos salários trazidos pelo fim da Consolidação das Leis do Trabalho que a contra-reforma de Michel Temer  representa, já que salários menores representarão menor capacidade de consumo interno. Mas a burguesia nacional, seja lá o que for isso, está bem ajustada ao fato de que será pelo aviltamento de direitos que garantirá as suas taxas de acumulação de riqueza, principalmente pelo estabelecimento de alianças mais próximas com o setor rentista da economia. Em suma, falar em aliança com a burguesia nacional será tão útil quanto enxugar gelo em um dia de sol nos trópicos.

Cabe ainda lembrar o papel traidor que foi cumprido pelas grandes centrais sindicais, a CUT inclusa, que nada fizeram para pressionar o congresso nacional. Agora que o governo “de facto” de Michel Temer não vai mais entregar o biscoito prometido pela letargia demonstrado no período da aprovação das novas regras trabalhistas (uma nova forma de contribuição sindical que manteria os aparelhos sindicais em funcionamento) é até possível que vejamos arroubos discursivos contra o fim  da CLT.  Mas não haverá discurso que apague a traição cometida pelas centrais sindicais contra a classe trabalhadora. É que na hora “H”, as centrais sindicais se omitiram e sabotaram todas as tentativas de uma reação organizada contra a base governista no congresso nacional.

De toda forma, agora que a burguesia brasileira conseguiu o que procurou por muitas décadas e nem o regime militar de 1964 ousou fazer, é provável que vejamos o início de uma onda de greves e enfrentamentos. E a burguesia brasileira só terá a si mesma a culpar.  É que quem não tem nada a perder porque tudo já lhe foi tirado, não costumo reagir de forma moderada e pacífica. A ver!


[1] http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/hospital-corta-folga-e-pagamento-em-dobro-para-quem-trabalhar-no-feriado/

Quando “modernizar” quer dizer simplesmente “retirar direitos”

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De tempos em tempos, as forças mais retrógradas do Brasil aparecem com uma palavra que é o próprio antônimo ambulante do que elas mesmas significam para o nosso país: Modernizar.

Olhando em qualquer dicionário “modernizar” significa basicamente “tornar(-se) moderno, acompanhando a evolução e as tendências do mundo atual.”.  

E é aí que começa o problema, pois o mundo capitalista está cheio de tendências a partir de elementos particulares de evolução que se dão em cada Estado-Nação. No caso de países como a Noruega, “modernizar” significa, por exemplo, a adoção da política de desmatamento Zero. Já no Brasil, a “modernização”´é justamente liberar o desmatamento em todos os biomas,condições topográficas e importância ecológica. A modernização aqui é embalada por uma sonota onde a motosserra é o principal instrumento.

Mas a palavra “modernizar” está sendo atualmente mais utilizada para justificar mudanças profundas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), as quais possuem aspectos que mereceriam serem modernizadas, como a questão da unicidade e o pagamento obrigatório de taxas sindicais.  

Contudo, não são as partes efetivamente atrasadas que se quer modernizar. O alvo da sanha do patronato, do governo interino de Michel Temer e de incontáveis analistas da mídia corporativa são as garantias e direitos que a CLT concede aos trabalhadores brasileiros.  Pelos discursos que vejo e as matérias que leio, se depender dessa gente, teremos uma regressão tão profunda que as condições de trabalho existentes nos “sweatshops” existentes Bangladesh e em países da América Central serão vistas como o modelo a ser seguido.

Agora modernizar a estrutura de taxação fiscal e cobrar as dívidas bilionárias que os mais ricos possuem com o Tesouro nacional, é óbvio que não há nenhuma disposição sequer para se falar do assunto. Nessa área, o “atraso” é muito mais do que bem vindo.

Como os planos regressivos estão claros e evidentes, a minha expectativa é de que haja uma forte reação da classe trabalhadora, apesar da posição pelega que hoje domina a maioria das centrais sindicais brasileiras.  Aliás, é bem provável que aquilo que marcou a reação da classe trabalhadora francesa ao pacote de “modernização” de François Hollande também ocorra aqui, qual seja, a revolta das bases sindicais que terminaram obrigando a que as direções sindicais a se mobilizarem para evitar seu desaparecimento da cena política. A ver!