Por que tanta surpresa com o Chile?

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Apresentado até a última semana como uma prova de sucesso das políticas neoliberais que privatizaram saúde, educação e a previdência social, o Chile está engolfado neste domingo por uma forte convulsão política que obrigou o presidente Sebastian Piñera a colocar as forças armadas para tentar retomar o controle do país (ver imagens abaixo).

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Os desdobramentos de um  aparente quase indolor aumento no preço do metro de Santiago parecem estar surpreendendo a todos, especialmente àqueles setores da esquerda brasileira que assistem com indiferença olímpica a aplicação de uma agenda altamente anti-popular pelo governo Bolsonaro.

Aliás, é interessante que possamos estar vendo de forma pedagógica os resultados da insatisfação popular contra um pacote de medidas que entre nós ainda levará algum tempo para ser sentido, a começar pelas regras draconianas que foram aprovados no congresso nacional para o regime de aposentadorias. É como estivéssemos tendo um preâmbulo via o Chile do que ainda estar por vir no Brasil quando a classe trabalhadora e a juventude finalmente entenderem o tamanho do ataque que estão sofrendo pelas mãos de Jair Bolsonaro e do seu ministro pinochetista Paulo Guedes.

A verdade é que o levante em curso no Chile vai muito além dos 13 centavos que se tentou aplicar nas tarifas do metro, como, aliás, já aconteceu no Brasil em 2013 por causa do aumento das passagens de ônibus. Nesse sentido, o caso chileno também é útil para desmoralizar os argumentos de que as manifestações ocorridas por aqui por causa das passagens de ônibus foram uma espécie de trama da direita.  Se depois o movimento foi capturado pela direita por causa dos ataques que foram feitos contra o Movimento do Passe Livre, o problema é de quem desprezou a agenda política apresentada pela juventude para continuar enchendo os cofres dos donos das empresas de ônibus e não de quem levantou a bandeira da democratização dos transportes.

O que me parece evidente é que não há qualquer razão para surpresa para o que está ocorrendo no Chile neste momento, como não havia também espaço para estupefação para os acontecimentos recentes no Equador quando houve também uma tentativa de onerar os trabalhadores para beneficiar os grandes bancos internacionais. Assim, a lição que fica para o caso brasileiro é de que, dada a existência das mesmas condições sociais objetivas e de ataques ainda mais duros contra direitos trabalhistas e sociais,  cedo ou tarde poderemos assistir uma explosão social semelhante.  Em função disso, que ninguém (muito menos os membros da esquerda institucionalizada) queira fingir surpresa.  Simples assim!

 

O vírus da revolta se espalha na América do Sul: depois do Equador, o Chile

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Depois do equatoriano Lênin Moreno (esquerda), agora é o chileno Sebastian Pinera que enfrenta a ira popular por causa da aplicação de políticas ultraneoliberais, 

Depois da acachapante revolta popular que forçou o presidente Lênin Moreno a retroceder e revogar o seu pacote de medidas ultraneoliberais que aprofundariam as dificuldades dos trabalhadores e da juventude do Equador, agora é o Chile que está enfrentando uma forte mobilização social contra aumentos nas tarifas di metrô de Santiago.

Em um sinal explícito que reconheceu a força da revolta popular, o presidente Sebastian Piñera fez valer uma legislação herdada da ditadura militar de Augusto Pinochet para tentar sufocar a insurgência popular, decretando o chamado “estado de emergência”  para colocar as forças militares no centro da tentativa de controlar a revolta popular.

fogo onibusÔnibus incendiado por manifestantes em Santiago de Chile. A revolta iniciada pelo aumento das tarifas de metrô reproduz os acontecimentos recentes no Equador. 

Curioso notar que a empresa de eletricidade italiana Enel também foi alvo das manifestações e teve sua sede como palco de um grande incêndio em meio às fortes mobilizações que ocorriam nas ruas de Santiago.

Curiosamente a mídia corporativa brasileira está dando uma cobertura minúscula à revolta popular no Chile, reproduzindo um modelo de mutismo midiático que já foi aplicado na cobertura da insurreição ocorrida no Equador.

Se levarmos em consideração que muito pouco está sendo mostrado sobre as eleições que estão ocorrendo em diversos países sul americanos onde os partidos que defendem políticas ultraneoliberais estão correndo o risco de derrotas acachapantes, a começar pelo presidente argentino Maurício Macri. 

Em minba opinião, a combinação de insurreições popular e derrotas de candidaturas com vieses ultraneoliberais estão sendo está sendo ocultada porque são uma espécie de mau exemplo para os trabalhadores e para a juventude do Brasil. É que aqui, apesar de todos os retrocessos e derrotas impostas contra os direitos sociais e trabalhistas, ainda permanecemos em um absoluto estado de inércia política.  Assim, qualquer cobertura mais correta do que estão ocorrendo em nosso entorno deve estar sendo vista como indesejável aos donos dos meios de comunicação que estão entre os poucos vencedores das políticas antipopulares que estão sendo aplicadas pelo governo comandado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Em outras palavras, estamos recebendo uma cobertura pífia por um aparente medo de que o vírus da revolta popular também se instale no Brasil, com os mesmos resultados que estão sendo vistos em toda a América Latina. O problema é saber se ocultar as fortes mobilizações contra as políticas ultraneoliberais será suficiente para impedir que a população brasileira saia da atual inércia para a ação política.

Finalmente, não deixa de ser curioso que o Chile que vem sem sendo apontado pelo presidente Jair Bolsonaro como um modelo de sucesso da direita latino americana esteja agora no olho do furacão político que engolfa a América do Sul neste momento. 

Chile substitui Brasil como sede da Conferência Climática da ONU de 2019

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Presidente do Chile, Sebastián Piñera, cujo governo decidiu sediar a Conferência Climática da ONU de 2019, após a desistência do Brasil sob o comando do presidente eleito Jair Bolsonaro.

A agência Reuters divulgou ontem (14/12) que o governo do Chile, liderado por Sebástian Piñera, resolveu assumir a condução da edição da Conferência do Clima da ONU que ocorrerá em 2019 (a chamada COP25), um desdobramento da retirada da oferta do Brasil de sediar o evento, o que prova que em política raramente espaços deixados em aberto fcam muito tempo nessa condição [1]. A Reuters indica ainda que “a retirada do Brasil se deu em função da pressão feita pelo presidente eleito de extrema-direita” (ver imagem abaixo).

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Apesar da matéria da Reuters ser curta, ela é cheia de mensagens que deveriam ser cuidadosamente interpretadas (mas que certamente não serão) pelos membros do futuro governo brasileiro. O primeiro é que fica evidente que o debate em torno da formulação de políticas internacionais em torno da mitigação dos efeitos das mudanças climáticas vão continuar a despeito dos desejos de determinados governantes.  A razão para isso é simples: as mudanças climáticas estão acontecendo e seus efeitos econômicos e políticos já estão sendo devastadores.  Em função, governos que se alijarem de ocupar papéis centrais neste debate acabarão sendo ignorados na hora de definir metas e punições por não cumprí-las. 

Em segundo lugar, o governo de Piñera que segue uma cartilha neoliberal não hesitou em ocupar o lugar do Brasil porque seus membros já entenderam essa situação básica da geopolítica internacional da governança climática. E, ao contrário de Jair Bolsonaro, Sebastián Piñera optou por participar como jogador ativo do debate em vez de ceder para as ideias descabidas de que as mudanças climáticas não passam de um complô de comunistas para favorecer o governo da China.

Um terceiro elemento que aparece de forma discreta, mas será essencial nas relações comerciais do Brasil nos próximos anos é a caracterização dada pela Reuters ao presidente eleito ao lhe carimbar o rótulo de “extrema direita”.   A questão é que já existe uma extrema má vontade em muitos países que consomem os produtos do agronegócio brasileiro com a figura de Jair Bolsonaro. Ao rotulá-lo de extrema direita, a Reuters oficializa esse pré-julgamento, o que deverá criar ainda mais embaraços para os negociadores brasileiros que irão tentar em vários encontros, a começar pelo encontro anual em Davos, de que a coisa não é bem assim com Jair Bolsonaro, além de tornar corrente a noção de que o Brasil caiu nas mãos de alguém que, por ser de extrema direita, representa um perigo não apenas para os brasileiros, mas para o resto do mundo [2].

De toda forma, o fato é que não basta o desejo de se ignorar grandes temáticas como a das mudanças climáticas para que elas percam a sua relevância.  Uma demonstração disso foi o evento organizado em Londres nesta semana pelo ex-prefeito da cidade de Nova York e bilionário, Michel Bloomberg,  para discutir a importância das mudanças climáticas sobre a sociedade humana, mas também sobre os negócios, com um foco específico sobre a busca de soluções [3].  Este tipo de movimento feitos por um bilionário com grande influência política é uma demonstração de que quem decidir ficar em segundo plano neste debate tenderá a ser ignorado na definição das metas políticas.

E como eu já tenho dito.  Se o governo Bolsonaro mantiver as linhas gerais ditadas por pessoas como os seus ministros de Relações Exteriores e Meio Ambiente, o mais provável é que o Brasil se torne um pária nos debates de cunho ambiental, o que evidentemente atingirá um setor que hoje se tornou estratégico para a balança comercial brasileira. É que certamente haverá pressão contra a compra de commodities agrícolas e minerais cuja produção tenha contribuído para a aceleração das mudanças climáticas e não o contrário.


[1] http://news.trust.org/item/20181214192643-5i5tu

[2]https://news.mongabay.com/2018/12/cop24-will-they-stay-or-will-they-go-brazils-threat-to-leave-paris/

[3] https://www.bloomberg.org/press/releases/bloomberg-philanthropies-vanity-fair-host-first-joint-climate-exchange-highlight-human-impact-climate-change/

 

Fim do ensino superior público pago no Chile, por que o silêncio?

Governo chileno aprova reforma do ensino superior que põe fim às universidades privadas e adota um modelo de ensino superior gratuito e universal Foto: Alex Ibañez/ Presidencia do Chile

Governo chileno aprova reforma do ensino superior que põe fim às universidades privadas e adota um modelo de ensino superior gratuito e universal
Foto: Alex Ibañez/ Presidencia do Chile

*Por Peter Schulz

Há pouco mais de dois meses um fato banal em si transformou-se em grande notícia. O fato era a entrega de um relatório encomendado pelo governo federal, um ”ajuste justo” proposto pelo Banco Mundial. Entre outros, um ajuste bastante divulgado pelos grandes meios de comunicação era o fim da gratuidade no ensino superior público no Brasil[I]. A repercussão foi enorme, lançando-se mão de exemplos bem sucedidos nesse sentido, como o da Inglaterra. A ampla divulgação não trazia junto o “outro lado”, o contraditório. As críticas a essa proposta apareceram em veículos de menor penetração e, em parte, por meio das redes sociais. Uma vez formados esses polos, não ocorreu propriamente um debate público, não apareceram tréplicas para provocar reposicionamentos ou aprofundar as argumentações. Polarizações sem o necessário embate qualificado são comuns e um caso específico foi analisado de forma bastante clara e será útil para entender a pergunta do título: a (des)informação sobre um ataque com mísseis à Faixa de Gaza em 2014. A análise, tanto da cobertura de imprensa de um lado e a omissão de outro, quanto da repercussão nas redes sociais, é de Gilat Lotan da New York University[II]. Vale a pena olhar a imagem da rede de respostas pelo Twitter sobre esse fato a partir de um Twit do Haaretz.com. É possível ver que as comunidades de Twitters “pró-Israel” e as “pró-Palestina” praticamente não se conectam: polarizam-se, mas cada um não se interessa pelo outro lado da história. Um dos “olhos” – como são chamadas as frases em destaque de um artigo – no texto de Lotan é digno candidato a epígrafe: “nós não estamos vendo pontos de vista diferentes e sim mais do mesmo”. Um subtítulo também é sugestivo: “a Mídia constrói a realidade”.

Quanto aos grandes meios de comunicação, Lotan notou que portais de um dos polos anunciaram claramente o incidente, enquanto que os do outro polo pouca menção faziam a isso. Isso lembra bem o caso de poucos dias atrás. Nos desdobramentos do debate (que acabou não existindo) a partir do relatório do Banco Mundial, seria importante uma análise mais aprofundada da realidade nos países onde o ensino superior público é pago, como Estados Unidos ou Inglaterra[III] e, mais perto daqui, o Chile. Nesse contexto, foi quase só por acaso que ficamos sabendo que “O congresso do Chile aprovou lei de gratuidade da educação superior” no dia 24 de janeiro (manchete do eldiario.es[IV]). Para chegar pelo Google a essa matéria, passei primeiro por uma pequena nota Jornal da Ciência da SBPC e pelo blog do Freitas[V], que exibe o link para matéria na Carta Educação, o único veículo de comunicação que parece ter divulgado a noticia por aqui. Assim temos um relatório que propõe uma coisa (ensino superior público pago) amplamente divulgada e um fato importante, mas no sentido contrário (fim do ensino público pago em um país vizinho), que foi obliterado. Lembrando o texto de Lotan: a mídia constrói a realidade?

Voltando ao fato principal, qual é a notícia? A Câmara dos Deputados aprovou com 102 votos e duas abstenções a lei de ensino superior, que universaliza sua gratuidade e introduz outras reformas em um sistema vigente desde a ditadura de Pinochet. O plano já vem de certo tempo e começou a ser posto em marcha em 2016[VI] debaixo de críticas vindo de diferentes pontos do espectro político. O que é comum em várias das narrativas é o alto custo do sistema que agora tem finalmente o marco legal para sua mudança: as mensalidades das universidades chilenas estão entre as mais caras do mundo em termos de paridade de poder aquisitivo[VII]. Esse modelo, que agora é reformado, se correlacionou como uma enorme expansão do ensino superior, mas desonerando o Estado à custa de onerar as famílias e os estudantes. De forma não sustentável. São conhecidos os protestos estudantis no Chile em 2006 e 2011, esses últimos tendo motivado a reforma em questão.

Entender um sistema de ensino em outro país não é tarefa rápida e simples, mas é imprescindível para uma discussão qualificada. Tomar apenas um ou outro aspecto de forma isolada é simplesmente um exemplo do que já foi batizado como sincericídio[VIII]. O que deve ser oferecido, portanto, é acesso a diferentes narrativas. Aqui eu apresentei algumas e acrescento ainda a de J. Salvador Peralta, publicada no portal Times Higher Education[IX] (clique abaixo) em julho do ano passado, ou seja, em pleno debate da lei que foi aprovada praticamente por unanimidade meses depois.

Ao considerarmos exemplos de qualquer lugar que seja, precisamos nos debruçar sobre essas experiências ao longo do tempo como um todo, pois só assim podemos perceber que o que é apresentado por alguns como uma solução ‘mágica’ (e trágica) acabou em farsa e precisou ser substituída. Convido a todos a acompanhar o desenvolvimento do ensino público e gratuito no Chile. Torço por ele, pois Peralta adverte que a reforma estaria condenada por ser boa demais. Espero também que tenhamos mais acesso às informações sobre isso, sem as manipulações de dados, como as confessadas recentemente pelo Banco Mundial[X].

 [I] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/11/27/o-banco-mundial-contra-ataca

[II] https://medium.com/i-data/israel-gaza-war-data-a54969aeb23e

[III] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/universidades-publicas-ameacadas-em-outros-lugares

[IV] http://www.eldiario.es/sociedad/Congreso-Chile-gratuidad-educacion-superior_0_733176683.html

[V] https://avaliacaoeducacional.com/2018/01/28/chile-aprova-gratuidade-no-ensino-superior/

[VI] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/01/1728059-chile-passa-a-ofertar-ensino-superior-gratis.shtml

[VII] https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/reportagens/reforma-do-ensino-superior-chileno-entra-em-pauta

[VIII] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/roberto-romano/sobre-o-sincericidio

[IX] https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/latin-america-university-rankings-2017-unwelcomed-advance-chile

[X] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/14/economia/1515899491_574904.html

*Peter Schulz foi  foi professor do Instituto de Física “Gleb Wataghin” (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

FONTE: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/fim-do-ensino-superior-publico-pago-no-chile-por-que-o-silencio

‘Nunca deveria estar nas mãos do mercado’, Chile aprova ensino superior público universal

Alex Ibañez/ Presidência do Chile

 O governo chileno decidiu aprovar uma reforma do ensino superior que põe fim às universidades privadas e adota um modelo de ensino superior gratuito e universal.

O Congresso chileno aprovou esta semana uma reforma que vinha sendo debatida pelos parlamentares do país desde o início do segundo governo de Michelle Bachelet, em 2014. A promessa de gratuidade universal do ensino superior era a principal promessa da chefe do executivo chileno.

A presidente do Chile, Michelle Bachelet
© AP PHOTO/ MOISES CASTILLO

Além da gratuidade universal, a reforma chilena cria ferramentas para avaliação do ensino superior que possam garantir a qualidade.O Ministério da Educação do Chile divulgou informações de que nos últimos 4 anos o governo conseguiu aprovar um total de 29 leis sobre educação.

A votação se encerrou na quarta-feira (24), e apontou 102 votos a favor e duas abstenções. A aprovação na Câmara dos Deputados é a etapa final para que a lei seja aprovada.

BACHELLET

Segundo informa a Carta Educação, Paula Narváez, porta-voz do governo, teria afirmado que a lei “dá tranquilidade aos jovens para que seus talentos, suas capacidades, sua inteligência possam se desenvolver em um Estado que lhes dá oportunidades”.

A presidente do país, Michelle Bachelet, comemorou a aprovação no Twitter, lembrando que acredita que sua lei de Universidades Estatais “fortalece uma gestão institucional, devolve ao Estado seu papel de protagonismo para assegurar uma educação superior pública de qualidade”.

A reforma é uma resposta a um projeto da ditadura de Augusto Pinochet, considerada a ditadura mais sangrenta da América Latina. Entre 1980 e 1990, uma série de privatizações foram realizadas no país.

A ditadura militar chilena retirou do Estado a responsabilidade de oferecer direitos sociais como a educação, e abriu espaço para um ensino privado. Sem regulamentação, as mensalidades de ensino dispararam nos anos 1990.Até então, o governo financiava escolas privadas e as universidades públicas eram pagas. Dessa forma, estudantes utilizavam financiamentos de bancos privados para que pudessem estudar e iniciavam a vida adulta com dívidas.

Em 2006, esse formato da educação gerou os maiores protestos da história do país desde a ditadura, o que ficou conhecido como “revolta dos pinguins”. Os “Pinguins”, como ficaram conhecidos os estudantes secundaristas chilenos devido ao uniformes com terno e gravata, foram às ruas e ocuparam escolas em todo o país reivindicando gratuidade do ensino e também do transporte. Em 2011, outra onda de protestos de estudantes universitários também exigia mudanças no modelo.

“Ao avançar com a gratuidade na educação superior, queremos construir um país mais igualitário, com igualdade de oportunidades. Com a aprovação no Congresso, consagramos como lei um direito social que nunca deveria estar nas mãos do mercado!”, afirmou a presidente no Twitter.

Bachelet preside o país desde 2014. Ela pertence ao Partido Socialista do Chile, e já foi presidente do país entre 2006 e 2010. Ela foi a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa na América Latina e a primeira mulher a se eleger para a presidência do Chile.

FONTE: https://br.sputniknews.com/americas/2018012710382773-chile-universidade-reforma-educacao/

Banco Mundial e suas travessuras: manipulação de ranking prejudicou governo de Michelle Bachelet

Em uma reportagem publicada pelo Wall Street Journal  no dia 13 de janeiro, e assinada pelos jornalistas Josh Zumbrun e Ian Talley, o economista chefe do Banco Mundial,  Paul Romer, reconheceu que a instituição modificou um dos seus principais rankings, o de competitividade comercial dos países, para prejudicar a colocação de determinados países. Essa manipulação teve efeitos especialmente na avaliação do Chile que era então governado por Michelle Bachelet e acabou perdendo a sua reeleição para Sebastian Piñera [1].

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Mas a coisa não parou por aí e nos anos seguintes o mesmo ranking foi modificado, mas agora para beneficiar determinados, a começar pelo Chile então governado por Piñera que passou a ocupar posições melhores. Estranhamente novas modificações no último mandato de Michelle Bachelet, o Chile voltou a cair no mesmo ranking.

A coisa ficou tão escancarada que Paul Romer levou suas preocupações sobre as potenciais razões políticas por detrás das flutuações observadas no tal ranking para a diretoria do Banco Mundial que concordou em fazer novos ajustes que eliminem os vícios encontrados.

As revelações do economista chefe do Banco Mundial tiveram como uma das primeiras consequências uma manifestação de Michelle Bachelet para que se faça uma investigação completa da possível manipulação deste ranking, visto os graves prejuízos financeiros que podem ter sido causados ao Chile e, convenhamos, a outros países cujos governos não estejam alinhados com a doutrina neoliberal da instituição multilateral.

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Um dos detalhes, digamos mais picantes desse imbróglio, é que o economista Augusto López-Claros, um dos encarregados de preparar o chamado “Doing Business Report”,  é muito próximo do ex-ministro secretário general da Presidência do Chile durante o primeiro governo de Sebastián Piñera, Cristián Larroulet. 

Diante desta admissão de manipulação política de um ranking do próprio Banco Mundial é que fica ainda mais explícito de que o famigerado relatório contratado pelo governo brasileiro, o “Um Ajuste Justo: Análise da Eficiência e Equidade do Gasto Público no Brasil” [2] tem seu conteúdo ainda mais desacreditado. É que se os técnicos do Banco Mundial manipulam seus próprios rankings, o que dirá de um relatório técnico encomendado por um governo-cliente? Talvez seja por isso que ainda não se viu na mídia corporativa brasileira nada sobre esse caso escandaloso envolvendo o Banco Mundial e um de seus principais rankings.


[1] https://www.wsj.com/articles/world-bank-unfairly-influenced-its-own-competitiveness-rankings-1515797620?mod=e2tw&page=1&pos=1

[2] https://blogdopedlowski.com/2017/12/10/artigo-de-professores-da-ufba-traz-estudo-profundo-e-detalhado-de-documento-do-banco-mundial/

 

O que o editorial de “O Globo” esqueceu de mencionar: as universidades chilenas serão completamente gratuitas até 2020!

Comentei ontem o grotesco editorial do jornal O Globo que defendeu o inicio da cobrança nas universidades públicas brasileiras (Aqui!). A reação da maioria dos leitores foi de repudiar o editorial, mas houve gente que se alinhou à proposta sob o argumento de que isto encerraria uma espécie de “socialismo para os ricos”, já que a maioria que frequenta as universidades públicas seriam capazes de pagar por isso.

Afora o fato de que o editorial citou como exemplo de base empírica para o argumento a Universidade de São Paulo (USP), o que limita o alcance da efetividade do argumento, lembrei que países como a Alemanha possuem universidades públicas totalmente gratuitas, e não são nem de perto socialistas.

Mas eu não precisaria sair da América do Sul para ver um exemplo totalmente oposto ao que propõe a família Marinho para a educação superior brasileira. É que no final de 2015 o Chile, usina principal do Neoliberalismo no nosso continente, iniciou um processo de implantar a gratuidade total nas universidades públicas, o que deverá ser completado até 2020 (ver abaixo reprodução de matéria publicada pela Revista Exame em Dezembro de 2015) (Aqui!).

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Obviamente essa postura do Chile não ocorrreu no vácuo, já que nas últimas décadas a juventude chilena foi constantemente às ruas para exigir a gratuidade do ensino superior. Mas a adoção da gratuidade reflete uma mudança substancial da postura que imperou após a chegada da ditadura militar liderada por Augusto Pinochet e que prevaleu durante vários governos civis, inclusive sob Michelle Bachelet.

Assim, ao contrário do que propõe as Organizações Globo, a injustiça social no ensino público gratuito não será corrigida com o seu fim, mas com a sua ampliação. E a ampliação das vagas gratuitas no ensino superior são a principal garantia de que não permaneceremos eternamente presos a uma dependência científica e tecnológica que apenas eterniza nossa dependência econômica.  Simples assim!