O artigo “Emergência climática: o que o Brasil precisa fazer para enfrentar os impactos esperados do El Niño que já começou”, de Regina Célia dos Santos Alvalá, diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com José Antônio Marengo e Marcelo Seluchi, publicado originalmente pelo The Conversation Brasil, traz uma contribuição particularmente oportuna: o El Niño 2026–2027 deixou de ser uma possibilidade distante e exige que previsões meteorológicas sejam transformadas imediatamente em políticas de prevenção, preparação e proteção da população.
O problema é especialmente complexo porque não existe um único “efeito El Niño” para o Brasil. Enquanto o Sul poderá enfrentar chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, partes do Norte e Nordeste estarão mais expostas à seca, aos incêndios e à redução da disponibilidade de água. Centro-Oeste e Sudeste, por sua vez, poderão experimentar temperaturas excepcionalmente elevadas, baixa umidade e ondas de calor. Como lembra Regina Alvalá, os impactos ultrapassam a meteorologia e alcançam simultaneamente agricultura, geração de energia, abastecimento de água, logística, saúde e segurança alimentar.
A questão decisiva, portanto, é preparar as pessoas antes que os eventos extremos ocorram. Isso significa identificar populações residentes em áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos, estabelecer e divulgar rotas de evacuação, testar sistemas de alerta e preparar abrigos. Significa também criar protocolos específicos para ondas de calor, incluindo adaptação dos horários de escolas e trabalhos realizados ao ar livre, disponibilização de água e ambientes refrigerados ou termicamente protegidos e atenção especial a crianças, idosos, trabalhadores expostos e pessoas em situação de rua.
O mesmo princípio deve valer para a saúde pública. O Ministério da Saúde já apresentou um plano para o El Niño 2026–2027 que prevê salas de situação, estoques emergenciais de medicamentos e capacidade de deslocamento de equipes da Força Nacional do SUS. Mas esses mecanismos precisam chegar efetivamente aos estados e municípios, porque é na rede local do SUS que aparecerão inicialmente os casos de desidratação, insolação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e outras consequências do calor, da fumaça dos incêndios, das enchentes e da deterioração das condições sanitárias.
Também será indispensável transformar informação climática em informação pública compreensível. Não basta anunciar que haverá um El Niño “muito forte”. Cada município deveria informar aos seus moradores quais são os riscos esperados naquele território, quem está mais vulnerável, onde procurar ajuda e como agir diante de cada tipo de emergência. Sistemas de alerta por celular, agentes comunitários de saúde, escolas, associações de moradores, rádios locais e redes sociais precisam integrar uma estratégia permanente de comunicação de risco. O próprio Painel El Niño recomenda que a população mantenha atualizado o cadastro para alertas da Defesa Civil e conheça previamente áreas de risco e rotas de fuga.
Há ainda uma dimensão social que não pode ser escondida. Eventos climáticos extremos atingem populações diferentes de maneira profundamente desigual. Quem possui casa climatizada, automóvel, reserva financeira e acesso regular à água enfrenta uma onda de calor de maneira muito diferente de quem vive em uma residência precária, trabalha sob o sol ou depende diariamente do transporte público. Da mesma forma, uma enchente possui consequências muito diferentes para quem dispõe de seguro e recursos para deixar rapidamente uma área ameaçada e para uma família que perderá praticamente tudo o que possui se tiver de abandonar sua casa.
Por isso, preparar o Brasil para o El Niño significa também fazer política social de adaptação climática. Os R$ 1,335 bilhão mencionados por Regina Alvalá para ações relacionadas a abastecimento, segurança alimentar, saúde, monitoramento e prevenção de incêndios são importantes, mas o teste decisivo será verificar quanto dessa preparação chegará efetivamente aos territórios e às populações mais expostas.
O El Niño oferece, paradoxalmente, uma vantagem que terremotos e outros eventos súbitos não oferecem: sabemos antecipadamente que ele está chegando e temos uma ideia razoável dos tipos de impactos que poderá produzir. Se, mesmo dispondo de meses de antecedência, sistemas de monitoramento e conhecimento científico acumulado, continuarmos esperando as enchentes, secas, incêndios e ondas de calor acontecerem para então decretar emergência e distribuir ajuda, não estaremos diante apenas de desastres climáticos. Estaremos diante de desastres anunciados cuja gravidade também refletirá nossas escolhas políticas.
