A re(criação) da classe trabalhadora

Os teóricos da globalização escreveram inúmeros obituários para a classe trabalhadora, mas ignoraram o fato de que o capitalismo cria sucessivamente novas classes trabalhadoras com novas fontes de poder, sofrimento e demandas.

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Beverly J Silver para Jacobin America Latina 

Quando os cientistas sociais se referem ao período 2019-2021, destacam três sinais de uma profunda crise sistêmica: primeiro, a incapacidade da maioria dos Estados de responder adequadamente à pandemia COVID-19, grande reveladora das falhas sociais e governamentais. Em segundo lugar, a aceitação dos Estados Unidos do fracasso da guerra no Afeganistão, o que deixou claro que a “guerra ao terror” falhou em reverter a perda de poder dos EUA globalmente. Por último, mas não menos importante, o tsunami de protestos sociais globais, que começou em 2010-2011 – como consequência da crise financeira de 2008 – e não parou de crescer até 2019.

Se olharmos para o futuro, é claro que qualquer estratégia operária e socialista terá que levar em conta o terreno em que se desenrolam as lutas, ou seja, a instabilidade hegemônica dos Estados Unidos no marco de uma crise capitalista mundial sem paralelo. mais tarde, dos anos 1930. Tal como aconteceu durante a primeira metade do século XX, a atual crise do capitalismo global assume a forma de uma enorme crise de legitimidade: o slogan “socialismo ou barbárie” é urgentemente levantado de novo.

A criação, destruição e reconstrução da classe trabalhadora mundial

O que as mobilizações de classe podem fazer para impedir a queda do presente em direção à “barbárie”? Até poucos anos atrás, a resposta dos teóricos da globalização, esquerda e direita, era unânime: “Não muito”. A tese da “corrida para o fundo” postula que a globalização criou barreiras intransponíveis para a mobilização da classe trabalhadora. Desde a década de 1980, defensores dessa perspectiva escreveram inúmeros obituários para a classe e o movimento operários, enfocando o enfraquecimento e a destruição das classes trabalhadoras existentes, especialmente – e isso é significativo – aquelas engajadas na produção industrial nos Estados Unidos. países.

Esta abordagem alternativa concentra-se na criação e reconstrução das classes trabalhadoras, que por sua vez respondem aos lados criativos e destrutivos do processo de acumulação de capital. Com efeito, a onda mundial de mobilizações dos anos 2010-2011 foi marcada pelos protestos das novas classes em processo de formação e das classes existentes que lutaram pela preservação dos direitos conquistados nos ciclos anteriores. O espectro abrangeu greves de trabalhadores industriais na China, greves ilegais nas minas de platina da África do Sul, jovens desempregados e subempregados que se dirigiram para as praças ao redor do mundo e protestos anti-austeridade que se espalharam do Norte da África aos Estados Unidos.

Há quem pense que a lição dos anos 2010-2011 é que as lutas de classes passaram dos locais de produção para as ruas. Ainda assim, embora não devamos subestimar o significado de “lutas de rua”, seria um grave erro subestimar as greves no local de trabalho, visto que são as fontes de poder por trás desses movimentos. Assim, por exemplo, embora a história padrão dos levantes egípcios de 2011 se centre na ocupação da Praça Tahrir, a verdade é que Mubarak renunciou ao cargo apenas quando os trabalhadores do Canal de Suez – um local fundamental para o comércio internacional e nacional – foram em greve.

Desde a década de 1980, a adoção generalizada da produção “just in time” – o fornecimento de insumos é mantido em níveis mínimos com a perspectiva de redução de custos distribuindo-os “just in time” – aumentou a vulnerabilidade das fábricas localizadas mais adiante. cadeia a greves que ocorrem nas instalações dos fornecedores. Isso acontece mesmo que a fábrica que pare seja na mesma província, como aconteceu, por exemplo, quando uma greve de uma empresa de autopeças obrigou a Honda a fechar todas as suas montadoras na China.

A pandemia e o bloqueio do Canal de Suez em março de 2020 deixaram claro que as cadeias de abastecimento globais são vulneráveis ​​a várias formas de interrupção, incluindo greves de trabalhadores. Até certo ponto, isso não é novidade. No século XX, os trabalhadores do setor de transporte detinham grande poder em virtude de sua localização estratégica nas cadeias de suprimentos globais e nacionais. Daí o papel central que desempenharam no movimento trabalhista em geral. As cadeias de abastecimento globais sem dúvida serão diferentes em meados do século 21 – na verdade, a pandemia e as tensões geopolíticas estão forçando-as a se reestruturarem – mas os trabalhadores de transporte, armazenamento e comunicação provavelmente continuarão a ter mais poder (e talvez mais relevante) ,

Da mesma forma, seria tolice descartar o significado futuro das greves dos trabalhadores industriais, uma vez que a difusão mundial da produção em grande escala, iniciada durante o século XX, resultou na formação de novas classes trabalhadoras e sucessivas ondas de classe trabalhadora. conflitos. No início do século XX, quando o epicentro da produção industrial em larga escala se deslocou para o continente asiático, também mudou a luta dos trabalhadores: se confirmou a tese de que onde há capital há conflito.

Essa frase tem um significado geográfico, pois o capital, quando realocado em busca de mão de obra dócil e barata, acaba criando classes trabalhadoras e novos conflitos em seus locais de destino. Mas também tem um sentido intersetorial, uma vez que à medida que o capital se desloca para novos setores da economia, novas classes trabalhadoras são criadas e surgem conflitos originais.

Uma perspectiva hegemônica do trabalhador

Em quais setores devemos nos concentrar hoje? Sem dúvida, muito importante é a “indústria da educação” que, segundo a UNESCO, passou de 8 milhões de professores em todo o mundo em 1950 para 62 milhões em 2000, e cresceu mais 50% em 2019, atingindo um total de 94 milhões de professores. Além do crescimento meteórico dos números, existem outras razões para pensar que os professores estão desempenhando um papel fundamental no movimento operário mundial, análogo ao desempenhado pelos trabalhadores da indústria têxtil no século 19 e pelos trabalhadores da indústria automobilística.

A tendência para o conflito dos trabalhadores na “indústria da educação” tornou-se um fato inquestionável no final do século 20, mas as mobilizações da última década marcaram um ponto de inflexão. Nos Estados Unidos, esse ponto correspondeu ao surgimento da organização Caucus of Rank-and-File Educators (CORE), que, com amplo consenso social, conduziu os professores de Chicago a sua greve de sucesso em 2012. O conflito conseguiu instalar a ideia que os professores não lutavam apenas pelos seus próprios interesses, mas pelos dos alunos e famílias. A greve de Chicago foi seguida por uma onda nacional de greves e mobilizações em todo o país, especialmente em distritos escolares localizados em estados com fortes políticas anti-sindicais.

No Chile, professores de escolas públicas que fizeram greve sob a direção do Colegio de Profesores de Chile (CPC) —com o apoio de estudantes, vizinhos e outros trabalhadores— tiveram um papel central no ciclo de protestos nacionais que exigiam o acesso universal à educação e o abandono da constituição neoliberal herdada da era Pinochet. Ações semelhantes foram observadas na Costa Rica, Honduras e Colômbia e, no Peru, o presidente de esquerda Pedro Castillo chegou ao poder com o apoio do sindicato dos professores.

Essa nova onda de militância docente responde a uma série de reivindicações baseadas em um claro processo de proletarização, que inclui a intensificação do trabalho, a deterioração das condições de trabalho e a perda de autonomia e controle sobre o processo de trabalho nas salas de aula. Em parte, as greves de professores são bem-sucedidas porque suas demandas são complementadas por um forte poder de barganha em seus locais de trabalho. É possível argumentar que a “indústria da educação” fornece os bens de capital mais importantes do século 21, ou seja, aqueles trabalhadores qualificados que devem então ser inseridos em uma “economia da informação”. Ao contrário da maioria das atividades de manufatura, é impossível pressionar os professores ameaçando realocar a produção (além dos experimentos virtuais após a pandemia, o ensino deve ocorrer onde os alunos estão). Da mesma forma, a ‘indústria da educação’ parece resistir à automação (a substituição de professores por robôs não está no horizonte).

Além disso, os professores ocupam um lugar estratégico na divisão mais ampla do trabalho social. A greve dos professores gera um efeito dominó que atinge toda a divisão social do trabalho: interrompe a rotina das famílias e dificulta o trabalho dos pais. Nesse sentido, o poder estratégico dos professores, embora em última instância baseado na sua capacidade de desagregar a economia, é bastante singular, pois depende sobretudo da centralidade da sua atividade na sociedade. No entanto, a menos que esse poder seja exercido no quadro de uma perspectiva hegemônica mais ampla, os professores estão expostos a serem usados ​​como bodes expiatórios e sujeitos à repressão do Estado e do capital. Em efeito,

No entanto, as maiores greves da última década mostram que os professores têm potencial para formular tal perspectiva, ou seja, mostrar que suas lutas particulares envolvem a defesa dos interesses de toda a sociedade. O seu próprio trabalho coloca-os diariamente em contacto com círculos muito mais amplos da classe trabalhadora, visto que são testemunhas de todos os problemas enfrentados pelos alunos e pelas suas famílias. Então, basta que difundam a ideia de que, mesmo que suas demandas busquem um benefício que os afete especificamente como professores, também promovem os interesses dos alunos, de suas famílias, de seus bairros e de suas cidades. Claro, esse potencial hegemônico, fundado em condições estruturais,

Solidariedade para sempre

A automação promovida pela Inteligência Artificial levou muitos intelectuais a sugerir que estaríamos chegando ao “fim do trabalho” e que, conseqüentemente, as disputas trabalhistas vão acabar. Ainda assim, a total desconsideração do trabalho humano nos processos de produção permanece uma fantasia elusiva, e não devemos subestimar a importância contínua das lutas dos trabalhadores nos locais de produção.

Também seria um erro subestimar as manifestações de rua. Na verdade, é possível derivar o entrelaçamento essencial desses dois locais de luta – o local de trabalho e a rua – do Volume I do Capital. Por um lado, chegando ao meio – onde descreve o conflito ininterrupto entre capital e trabalho sobre a duração, intensidade e ritmo da atividade – Marx se refere ao que acontece na “sede oculta da produção”. Por outro lado, no capítulo 25, Marx esclarece que a lógica do desenvolvimento capitalista não só leva a lutas constantes no local de trabalho, mas também a conflitos mais amplos no nível social, uma vez que a acumulação de capital avança junto com a ‘acumulação de miséria. ‘, especialmente na forma de expansão de um exército industrial de reserva de trabalhadores desempregados,

Nesse sentido, a história do capitalismo é caracterizada, não apenas pelo processo cíclico de destruição criativa no ponto de produção, mas também pela tendência de longo prazo de destruir os modos de vida existentes em um ritmo mais rápido do que define a criação de novos. . Isso implica a necessidade de conceituar três tipos de conflitos operários: (1) os protestos das classes operárias em seu processo de formação; (2) os protestos das classes trabalhadoras existentes que estão sendo destruídas e (3) os protestos daqueles trabalhadores que o capital ignora e exclui, ou seja, os membros da classe trabalhadora que, embora dependam exclusivamente dela para sobreviver, é eles podem nunca ser capazes de vender sua força de trabalho.

Os três tipos de conflitos operários são diferentes manifestações de um único processo de desenvolvimento capitalista. Todos os três são visíveis nas lutas atuais. O destino de cada um está intimamente ligado ao dos outros. Uma estratégia socialista deve abranger todos eles. De fato, a perspectiva estratégica de Marx e Engels – articulada no Manifesto do Partido Comunista e em outros lugares – convocou os sindicatos a organizar esses três segmentos da classe trabalhadora mundial em um projeto comum.

Nem é preciso dizer que essa é uma tarefa gigantesca. Mas, além disso, enquanto ainda pecava de certo otimismo, Marx assumiu que esses três tipos de trabalhadores – aqueles que são incorporados como assalariados durante as últimas fases da expansão material, aqueles que são expulsos durante a última rodada de reestruturação e aqueles que são excedentes do ponto de vista da capital – habitavam as mesmas casas e bairros da classe trabalhadora. Eles viveram juntos e lutaram juntos.

Em outras palavras, as distinções dentro da classe trabalhadora – entre trabalhadores empregados e desempregados, ativos e na reserva, capazes de impor perdas onerosas ao capital e capazes apenas de se manifestar nas ruas – não se sobrepunham com diferenças de nacionalidade, raça, etnia ou Gênero sexual. Então, os trabalhadores que incorporaram qualquer um desses três tipos formaram uma única classe trabalhadora com o mesmo poder e as mesmas demandas, e com a capacidade de gerar uma perspectiva pós-capitalista sobre a emancipação da classe como um todo.

Porém, em termos históricos, o capitalismo se desenvolveu ao lado do colonialismo, do racismo e do patriarcado, ou seja, dividiu a classe trabalhadora em função de sua condição e limitou suas capacidades de gerar uma visão comum de emancipação. Em períodos de grandes crises capitalistas, como a que estamos vivendo, essas divisões tendem a se endurecer. O capitalismo em crise fortalece direta e indiretamente os “monstros” do “interregno” gramsciano (movimentos neofascistas, racistas, patriarcais, anti-imigrantes e xenófobos). Então, formas coercitivas de controle social e militarismo são implantadas contra um movimento socialista que é “muito forte” para ser ignorado (pelo capital) e “muito fraco” (até agora) para salvar a humanidade de uma longa era de caos sistêmico.

No entanto, também estamos testemunhando um recrudescimento das lutas dos trabalhadores sem precedentes em um nível histórico em termos de escala e alcance. Embora a magnitude do desafio que a crise do capitalismo global representa para a humanidade também seja inédita, esses novos movimentos estão construindo pontes e, em alguns casos, são capazes de apoiar os protagonistas dos três segmentos da classe trabalhadora a que nos referimos. . É nestas lutas – e através delas – que surgirá um projecto emancipatório capaz de nos tirar deste capitalismo destrutivo, para um mundo onde a dignidade humana vale mais do que o lucro.

* Beverly J Silver, professora de sociologia, diretora do Arrighi Center for Global Studies da Johns Hopkins University e autora de Forces de trabajo (Akal, 2005).

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Este texto foi publicado em espanhol pela revista Jacobin America Latina [Aqui! ].

UFSC e sindicatos promovem Ciclo internacional sobre futuro do trabalho

“Assédios, violências, saúde e cuidado” em debate, nesta quarta-feira

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Os efeitos da pandemia sobre a saúde dos trabalhadores estarão no centro do debate nesta quarta-feira, no segundo painel do Ciclo Internacional “O Futuro do Trabalho”, realizado online numa parceria entre a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sindicatos de trabalhadores de dois estados do Sul (SC e RS). A conferência “Assédios, violências, saúde e cuidado” terá início às 18h30 e vai analisar como essas questões impactaram e seguem trazendo consequências para a classe trabalhadora. O seminário terá transmissão pelos canais do Youtube do Fazendo Escola e do Lastro. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas AQUI. Será fornecido certificado de 12 horas para quem participar de pelo menos cinco seminários. O evento teve início na semana passada e o tema de abertura foi  “A pandemia e o mundo do trabalho: tecnologias e trabalho” – o seminários são semanais, às quartas-feiras, e vão ocorrer até 24/11.

Para promover as reflexões sobre como a pandemia afetou essas relações de trabalho e a saúde, o seminário contará com a participação do Doutor Estudios Sociales de América Latina pela Universidad Nacional de Córdoba (UNC/Argentina) Pedro Lisdero, e a Doutora em Sociologia e professora da Universidade Federal do Acre (UFAC), Luci Praun. A mediação será de Ellen Pereira.

Pandemia e a saúde dos trabalhadores

Para a doutora em Sociologia Luci Praun, um dos principais pontos é que o contexto pandêmico foi utilizado por parte das empresas, em meio ao crescente desemprego, para tornar o trabalho ainda mais precarizado/uberizado: “Um exemplo evidente é a expansão das atividades realizadas por aplicativos, como o trabalho dos entregadores, e as atividades em teletrabalho”, aponta.

Outro aspecto destacado pela professora da UFAC é a dissociação entre as infecções e mortes por coronavírus das atividades laborais. Além dos profissionais da área da saúde, que estiveram na linha de frente em situação de exaustão física e emocional, outras atividades laborais também foram afetadas. 

“Nesse terreno, é sugestivo o levantamento feito a partir de dados do CAGED que indicam um aumento de 70,3% (até agosto de 2021) de desligamentos por morte entre trabalhadores de carteira assinada, com destaque para motoristas de caminhão, faxineiros e vendedores”, aponta Luci Praun

Papel das entidades sindicais no pós pandemia

Diante de um cenário de avanço da vacinação e redução das taxas de contágio da Covid-19, surge outra urgência: como atender os trabalhadores afetados pela pandemia, seja por questões de saúde ou sociais?

Conforme Luci Praun, neste contexto temos três questões prioritárias para analisar em relação ao futuro do trabalho: a assistência às pessoas que tiveram graves sequelas da Covid-19, algumas incapacitantes para o retorno ao trabalho; o avanço da precarização/uberização do trabalho, com a perda crescente de direitos e preservação da saúde física e mental; e o amparo aos trabalhadores que estão à margem de qualquer remuneração, em situação de miséria e disputando restos de comida para sobreviver.

Em todas essas situações, a questão principal é um novo olhar do sindicalismo e das entidades ligadas ao mundo do trabalho para a conjuntura pós-pandemia: “É necessário que as entidades representativas dos trabalhadores criem formas de ações comuns, que extrapolem os limites das categorias representadas, que sejam capazes de atingir e criar lastros de solidariedade entre os diferentes segmentos que compõem o mundo do trabalho”, finaliza a socióloga.

A programação completa com os demais seminários do Ciclo Internacional “O Futuro do Trabalho” está disponível em: futurodotrabalho.ufsc.br

Organização

O Ciclo de Seminários é realizado pelo Laboratório de Sociologia do Trabalho da Universidade Federal de Santa Catarina (Lastro/UFSC), e pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Trabalho Público e Sindicalismo (Fazendo Escola), que é vinculado ao Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário do Estado de Santa Catarina (Sinjusc), Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (Sindjus/RS) e Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal no Estado de Santa Catarina (Sintrajusc). (Texto: Joice Proença)

Serviço

“A pandemia e o mundo do trabalho: tecnologias e trabalho”

Data: 27 de outubro (quarta-feira)

Horário: 18h30

Transmissão: YouTube “Fazendo Escola”

Inscrição: AQUI

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Confira o currículos dos conferencistas

Pedro Lisdero (Conferencista):

Doutor em “Estudios Sociales de América Latina” pela Universidad Nacional de Córdoba – UNC, pesquisador do “Consejo Nacional de Investigaciones Cientificas y Técnicas” (CONICET), co-director do “Programa de Estudios sobre Acción Colectiva y Conflicto Social”, do “Centro de Investigaciones y Estudios sobre Cultura y Sociedad” (CONICET y UNC), pesquisador do “Centro de Investigaciones y Estudios Sociológicos (CIES).

Luci Praun (Conferencista):

Doutora (2014) em Sociologia e Docente da Universidade Federal do Acre (UFAC). Desenvolve pesquisas relacionadas ao trabalho, especialmente com os seguintes temas: Precarização do Trabalho; Educação e Trabalho Docente; Saúde dos/as Trabalhadores/as; Movimentos Sociais; Direitos Humanos; Trabalho e Gênero.

Programação:

20/10 – A pandemia e o mundo do trabalho: tecnologias e trabalho

27/10 – Assédios, violências, saúde e cuidado

03/11 – Liberdade, precariedade e trabalho compulsório

10/11 – Desigualdades estruturais e mercado de trabalho

17/11 – Políticas de austeridade e reformas no mundo do trabalho

24/11 – Trabalhadores e trabalhadoras reinventam formas de organização

Links:

Programação completa: https://futurodotrabalho.ufsc.br/ 

Inscrição gratuita no site: https://bit.ly/SeminarioFazendoEscola 

Para acompanhar o seminário:

https://www.youtube.com/channel/UCTDZqH-u_LPprUwmuosp7TA 

https://www.youtube.com/channel/UCneDgPe7rXh6VWpmLrDPIJg 

A lição da vitória de Pedro Castillo nas eleições presidenciais peruanas

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Agora é oficial: com 100% das urnas apuradas, o professor e militante sindical de esquerda Pedro Castillo Terrones venceu as eleições peruanas por uma margem de 0,25% dos votos válidos, derrotando a herdeira da ditadura fujimorista Keiko Fujimori (ver figura abaixo com dados oficiais da justiça eleitoral peruana).

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Ainda que a tendência seja a de que a direita parlamentar tentará inviabilizar o governo de Castillo, o simples fato de que um professor e militante sindical, apoiado em uma plataforma eleitoral que pode ser definida como de esquerda, venceu a máquina partidária da direita peruana, contra todas as expectativas que foram geradas quando houve uma unidade total em torno da candidatura de Keiko Fujimori.

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Poderia escrever bastante sobre os diferentes significados e lições da vitória de Pedro Castillo,  mas vou me concentrar em apenas uma. O fato é que recusando o abandono de uma plataforma que aponta para a nacionalização das reservas nacionais de gás natural, bem como a reforma de um sistema de pensões que vitimiza a classe trabalhadora, Castillo conseguiu passar para o segundo turno e costurar as alianças que precisava para vencer no segundo turno. 

Em outras palavras, Castillo só teve a chance de vencer porque ofereceu uma mensagem clara e dialogou diretamente com a classe trabalhadora e com a juventude peruana. Esse foi o movimento que abriu o caminho da vitória. Pode parecer simples, mas se olharmos a situação brasileira, vemos que as forças que se pretendem de esquerda está fazendo justamente o contrário ao propor alianças até com forças que realizaram o golpe parlamentar de 2016 contra a presidente Dilma Rousseff, esquecendo de construir uma plataforma que energize o povo para lutar por seus direitos.

Celebrações do 1o. de Maio no mundo sinalizam o avanço da luta da classe trabalhadora

Em uma conjuntura de graves dificuldades para a classe trabalhadora do Brasil que vive os efeitos dramáticos de uma taxa de emprego elevadíssima, as celebrações do Dia do Trabalhador servem para que possamos não apenas refletir sobre o presente estado de coisas, mas também sobre os caminhos que sindicatos e movimentos sociais deverão trilhar para impor uma pauta que favoreça os trabalhadores e os pobres e não as grandes instituições financeiras que hoje controlam a economia brasileira.

E nada melhor do que lembrar que este primeiro de maio está sendo celebrado em grande parte do mundo como um momento de luta e solidariedade entre os trabalhadores para sabermos que só por meio de uma ampla unidade entre trabalhadores do campo e da cidade é que começaremos a trilhar um caminho oposto ao que vem sendo imposto por um governo que claramente não possui um projeto de Nação e que, por isso, está promovendo uma desnacionalização sem precedentes na história nacional.

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A condenação de Lula finalmente acabará com as manifestações alegóricas que paralisam a classe trabalhadora e a juventude?

Ricardo Stuckert

Como um observador privilegiado da situação política brasileira desde 2003 já que vivo e trabalho no Rio de Janeiro (estado que concentrou todos os males e graças do Neodesenvolvimentismo lulista), vi o paulatino abandono das táticas tradicionais de luta da classe trabalhadora e da juventude e o aparecimento do que venho chamando de “manifestações alegóricas”.  Tais manifestações não passam de showmícios onde oradores ou cantores (dependendo da ocasião) se revezam para estabelecer um ambiente de completa esterilização da disposição de luta.

Vimos bem os efeitos dessas alegorias nas seguidas derrotas que foram impostas aos trabalhadores brasileiros nos últimos anos.  Casos exemplares das manifestações alegóricas que resultaram fragorosas foram o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a aprovação da malfadada reforma trabalhista. Em ambos os casos,  trabalhadores e jovens responderam ao chamado para a luta apenas para serem transformados em “sitting ducks” para as forças reacionárias do congresso nacional passaram por cima do estado democrático e dos direitos dos trabalhadores.

Eu atribuo a essa forma de manifestação até a condenação por unanimidade do ex-presidente Lula pelos desembargadores do TRF4. Mais uma vez, viu-se a aceitação pacífica de um jogo de cartas marcadas que visa apenas e unicamente aplicar um golpe de exceção na candidatura de Lula para as eleições de 2018. Um dos resultados mais lamentáveis dessas derrotas auto aplicadas é a desmoralização dos militantes e a sua transformação em vítimas da violência estatal.

Agora com a condenação de Lula e determinação de que ele seja preso, a minha expectativa é de que, finalmente, sindicatos e movimentos sociais desistam de fingir que estão enfrentando a agenda ultraneoliberal que está sendo aplicada no Brasil sem que haja qualquer reação próxima daquela que está acontecendo em outros países, a começar pela Argentina.  Neste sentido, é inaceitável que até o momento as principais sindicais brasileiras não tenham movido uma palha para realizar uma ampla greve geral que impeça que o presidente “de facto” Michel Temer passe seu trator neoliberal sobre o direitos previdenciários dos brasileiros.

E antes que alguma liderança destes movimentos e sindicatos alegóricos apareça para dizer que estamos diante de um refluxo de massas no mundo inteiro, quero lembrar que no pequeno Nepal o Partido Comunista e seus aliados venceram as eleições parlamentares e provinciais, alcançando uma maioria de quase dois terços [1]. E o caso do Nepal não é único, pois existem focos de enfrentamento em diversos países que tentam enfrentar medidas semelhantes às que foram impostas por Michel Temer, a começar pela França.

A questão a ser encarada de frente é que as grandes corporações financeiras que hoje controlam a economia mundial estão impondo um sistema que deixará pouco mais do que migalhas para os trabalhadores do campo e da cidade. Continuar fingindo que tudo se resolverá com uma eleição presidencial que se dará num clima de exceção política será um erro histórico que terá graves proporções.

Por isso é que digo:  que as manifestações alegóricas extintas e que a classe trabalhadora e a juventude brasileira assumam o grau de proeminência que nunca deveriam ter deixado de ter.  E o quanto antes isto ocorrer, menos derrotas ocorrerão. 


[1] https://pcb.org.br/portal2/18221/comunistas-vencem-as-eleicoes-gerais-no-nepal

Lula e o segredo da esfinge da luta classes no Brasil

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Militei no Partido dos Trabalhadores (PT) de 1981 a 1990 e objetivamente passei esses anos todos utilizando o máximo da minha energia para a construção de um partido que permitisse elevar a consciência de classe da classe trabalhadora.  Quis o destino que eu passasse quase 7 anos fora do Brasil, e quando voltei em 1997 o partido que eu havia ajudado a construir tinha começado seu inexorável movimento pendular para a direita, tendo como seus timoneiros Lula e José Dirceu.

A minha decisão já no momento da volta foi de me afastar do PT e adotar uma posição de distanciamento da militância partidária, optando por usar o meu conhecimento na formação de jovens pesquisadores que olhassem a realidade brasileira com lentes críticas que eventualmente ajudariam a consolidar um processo de entendimento útil para a transformação da nossa abjeta realidade social.

Ao longo dos anos de dominância do PT e de seu projeto de conciliação de classes fui um crítico quase solitário das múltiplas mazelas da visão neodesenvolvimentista que foi aplicada para injetar centenas de bilhões de recursos públicos em projetos capitalistas que eram social e ambientalmente destrutivos, vide o caso lapidar do Porto do Açu.  A própria aproximação do ex-bilionário Eike Batista das hostes petistas foi para mim uma confirmação de que o PT está literalmente perdido no sentido de um projeto de transformação da sociedade brasileira. O PT é acima de tudo um partido da ordem social que seus dirigentes buscam preservar a todo custo, em que pesem os custos pesados que eles mesmos recebem das elites ingratas a quem tão bem servem.

Agora, convenhamos, apesar de todos esses elementos, seria um erro primário desconsiderar o alcance que a figura política de Lula ainda possui para milhões de  brasileiros pobres e, por isto mesmo, é tão grande a perseguição para que ele se ajuste ainda mais à defesa da ordem. Essa pressão que ora aparece na forma de pressões judiciais não é nova, mas assume todos de caricatura jurídica para garantir que Lula siga cumprindo seu papel de artífice da conciliação de classes.

Nesse quadro todo fica ainda mais evidente o despreparo e a inépcia dos chamados partidos da esquerda revolucionária para romper a bolha do petismo nos movimentos sociais e sindicatos. Eu pessoalmente associo essa incapacidade a uma falta de superação da crise causada pela implosão da URSS da qual a maioria da esquerda mundial ainda se ressente. Nesse sentido, a persistência do ônus da dominância stalinista na esquerda mundial surge no Brasil como um espectro que impede o florescimento de alternativas reais a Lula e ao PT. Para somar a isso há ainda a armadilha das multi identidades que foi imposta para fragmentar a classe operária, de forma a impedir que se possa superar a crise na organização mundial do proletariado. 

Tal situação impõe tarefas claras para o período imediato, na medida em que os ataques aos direitos dos trabalhadores somente tenderão a aumentar.  Mas para que haja uma solução de fato há que se superar a fragmentação na esquerda no interior dos estados nacionais e que se parta para a formação de algo que se assemelhe a um organização mundial.  Essa é a tarefa pendente desde que Josef Stalin domesticou a III Internacional ao seu projeto de “socialismo em um só pais”. Resta saber se haverá disposição para enfrentar essa tarefa hercúlea. 

Enquanto isso, querendo ou não, viveremos na dependência da disposição de Lula para minimizar os estragos que sua própria política de conciliação de classes vem causando aos trabalhadores brasileiros. Não deixa de ser um “catch 22”, mas é o que temos para o momento. E como dizia o coelho Pernalonga ao fim de cada um dos seus episódios… That´s all folks!

A “nova esquerda” e o complexo de avestruz frente à velha luta de classes

Podem me chamar de ortodoxo ou de qualquer outro adjetivo assemelhado, mas juro que não aguento mais esse papo de “nova esquerda” ou “novas esquerdas” como uma indicação de uma direção a ser adotada pela classe trabalhadora  e pela juventude para enfrentar a opressão e a violência gerada pela crise sistêmica em que o Capitalismo está enfiado.

É que a imensa maioria desses “novos esquerdistas” é formada por sujeitos que perderam a perspectiva de que o Capitalismo poderá superado enquanto forma de organizar a presença humana na Terra.  É esta ausência de perspectiva revolucionária (adotando aqui o sentido descrito por Karl Marx na Ideologia Alemã) que transforma todo essa conversa de novas formas de organização pela esquerda em mero reconhecimento tácito de uma suposta durabilidade “ad eternum” do Capitalismo.

A verdade é que se olharmos o que está ocorrendo na França neste exato momento poderemos notar que é pela mão dos sindicatos e das organizações políticas que recusam o ajuste neoliberal que está se dando uma gigantesca lição de como se enfrentar os planos de miséria e regressão de direitos sociais engendrados pelo Partido Socialista de François Hollande. 

O fato é que toda essa conversa de “nova esquerda” procura embaçar a necessidade da construção de uma organização mundial para alavancar as lutas da classe trabalhadora, esteja ela onde estiver. Ao isolar o problema que os trabalhadores enfrentam para avançar a sua luta ao dilema do novo contra o velho, o que se faz na prática é impedir que a necessária unidade seja forjada no processo de enfrentamento que já está ocorrendo no plano prático.

Por isso, é que essas “novas esquerdas” possuem um caráter intrinsecamente reacionário e conservador, apesar do palavrório supostamente modernizante.  O que essa “nova esquerda” adoraria é que todos os que resistem ao Capitalismo internalizem o mesmo complexo de avestruz em que seus ideólogos estão metidos. Por isso mesmo é que devemos ignorar esses chamados por um suposto novo que já nasceu decrépito. E que venha a luta de classes!