A importância de se poder identificar e coibir a publicação em revistas de “ciência trash”

Não faz muito tempo, a inundação da minha caixa de e-mails por convites vindas de revistas obscuras não passava de um  incômodo que eu resolvia com o simples uso da tecla “Delete”.  Lamentavelmente com o passar do tempo, fui  tomando consciência que aquele atitude não era nem perto suficiente. É que uma simples verificação de uma amostra de aleatória do currículos da base Lattes me mostrou que a possibilidade do crescimento rápido da lista de publicações havia fisgado muitos pesquisadores brasileiros, indo desde os mais jovens até alguns figurões da ciência nacional.

Nesse sentido, as recentes reverberações contra a lista compilada pelo professor e bibliotecário da Colorado University-Denver, Jeffrey Beall, (Aqui!) continuam sendo para mim uma distração oportuna dos graves problemas com que a ciência brasileira está se deparando neste momento. É que tomados pelos padrões produtivistas impulsionados pelos principais órgãos de fomento (i.e., CNPq e Capes), aqueles que caíram no canto da sereia do “trash science” fogem da “Lista de Beall” como o diabo foge da cruz.

Uma das acusações mais cínicas que eu já li é de que a “Lista de Beall” é produto de uma e só opinião, o que desqualifica todo o trabalho que Jeffrey Beall fez em prol de uma produção científica minimamente rigorosa. Além disso, a outra preferida, e ai também oferecida sem nenhuma prova empírica, é de que Jeffrey Beall está a serviço das grandes corporações de edição de material científico.  

Entretanto, quem é que já se deu ao trabalho de, após receber um dos encantadores e-mails oferecendo publicação rápida e barata em alguma revista científica obscura, de ir até a página da “Lista de Beall” para verificar se a mesma está inclusa? Pois bem, eu me dei a esse trabalho que, sem a referida lista, seria impossível, diga-se de passagem. 

Vejamos, então a sequência que começa com um e-mail que chegou na minha caixa de correio eletrônico institucional na Universidade Estadual do Norte Fluminense.

trashMensagem oferecendo publicação no “Academia Journal of Environmental Research”

A partir dai, me dirigi à página onde está a “Lista de Beall” e procurei o nome do editor da dita revista e, voilá, vejam o que eu encontrei!

trash 2

Editor da “Academia Journal of Environmental Research” é identificado como predatório (trash) por Jeffrey Beall

Os mais céticos poderiam me perguntar como posso ter certeza que Jeffrey Beall “acertou” na colocação” desse editor como predatório ou não. Eu diria que a maioria dos pesquisadores já sabe a resposta, mas vou usar os critérios que o próprio Jeffrey Beall já ofereceu numa entrevista a este blog (Aqui!  ):

“Mas eu analiso as editoras e as revistas em termos de sua ética e suas normas de publicação. Eu olho para o uso de mentiras, falta de transparência, e desvio dos padrões acadêmicos que prevalecem no ramo das publicações científicas. Eu uso critérios documentados que me guiam na análise dos periódicos.”

Pois bem, quem é que utilizando os mesmos critérios iria negar que o e-mail que eu recebi é com alta chance oriunda de uma editora produtora de trash science? E esse me parece ser o elemento crucial neste debate. É que todos sabem com algum grau de confiança quando estão de uma revista “trash”, seja ela de acesso aberto ou não.  E se isto for mesmo verdade, por que ainda temos pesquisadores e, mais importante ainda, a Capes e o CNPq oferecendo tanta demora em reagir ao problema que as publicações “trash” representam para a produção científica de qualidade por parte da comunidade científica brasileira?

A resposta ao enigma acima não parece ter uma só resposta. De toda forma, creio que se demorarmos ainda mais a reconhecer a existência do problema causado pelo invasão de revistas predatórias e que se manifesta de forma aberta (e eu acrescentaria descarada) em um número nada desprezível de currículos da Base Lattes, estaremos fadados a uma condição catastrófica de periferização ainda maior da nossa produção acadêmica.  

Agora, o que eu espero é que aqueles que criticam a Lista de Beall por ser o produto de uma só mente, apareçam com mecanismos institucionalizados de banir o lixo científico e impedir que os seus praticantes continuem a ser beneficiados com as cobiçadas bolsas de produtividade do CNPq e a dominância em editais das nossas agências de fomento. Em outras palavras, se a “Lista de Beall” não é suficiente ou confiável, que se faça um esforço institucionalizado para produzir listas mais confiáveis.  É que como diz o velho ditado “ajoelhou, tem que rezar”.  

 

Trash science é apenas a ponta do iceberg

iceberg

A postagem que fiz aqui neste blog sobre a cassação de um título de mestre pela Universidade Federal de Viçosa e uma retratação de um artigo publicado pelo autor da dissertação cassada na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (RBGG) (Aqui!) gerou (plagiando o ex-presidente Lula) um tráfico nunca visto na história deste blog e obteve inúmeros comentários relativos aos problema. Da leitura desses comentários, eu verifico que os problemas relacionados a variados tipos de plágio parecem estar assumindo uma característica epidêmica, pois os relatos, apesar de variados em forma, apontam para o problema de que muitos pós-graduandos estão se valendo do trabalho alheio para concluir as suas tarefas e para publicar seus próprios artigos científicos.

Um desses comentários atacou para mim um problema que me parece crucial, qual seja, a forma atomizada e varejista de se fazer ciência que parece estar entranhada nos programas de pós-graduação brasileiros, muito em função das determinações da agência reguladora que é a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes).

Mas para mim a novidade não é nem se ver críticas à forma pela qual a Capes vem regulamentando a pós-graduação no Brasil, com todos os efeitos perversos que foram notados pela pessoa que enviei o comentário. Para mim a novidade é que as pessoas estejam dispostas a falar abertamente no assunto, tocando em aspectos que são incompreensivelmente tabus, a começar pela disseminação de diferentes tipos de plágio. Essa disposição de tocar no assunto é indicativo de que há uma reação salutar que começa a emergir, a qual poderá obrigar a Capes e também o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) a repensarem as suas formas de premiação e qualificação da produção científica nacional. Aliás, só mesmo uma reação generalizada e explícita teria essa capacidade de mudança, visto que a cultura atual de se premiar a quantidade em vez da qualidade está bastante entranhada e ouso dizer, naturalizada entre aqueles que deveriam estar buscando um aperfeiçoamento de nosso sistema nacional de pós-graduação.

A questão crucial,  como observou um dos comentaristas da postagem citada acima, o que será da pesquisa brasileira  amanhã com um quadro composto por pessoas de péssima formação?

Graças à “Lei de Gerson”, trash science está instalado no topo da pirâmide científica no Brasil

e3 journals

Graças a um colega que me repassou um convite feito por uma das muitas editoras predatórias que existem atualmente no mercado de publicações científicas (a E3Journals Aqui!), resolvi verificar se havia algum pesquisador brasileiro nos corpos editoriais das diversas revistas que a empresa disponibiliza e, bingo!, achei dois bolsistas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico (CNPq). Aliás, um desses pesquisadores é como dizem os franceses da “crème de la crème“, ou seja, o melhor do melhor, já que está no nível 1A, o máximo em que alguém pode ser classificado pelo CNPq, e de onde decorrem vários benefícios financeiros diretos e indiretos. O outro pesquisador vinculado a essa editora predatória também é bolsista de produtividade no nível 2, algo que também não é fácil de se conseguir.

Ao verificar aos currículos acadêmicos desses dois pesquisadores na Base Lattes que é mantida pelo próprio CNPq, notei algo peculiar: ambos os pesquisadores indicam que são membros de não apenas uma revista classificada como predatória pelo professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver (Aqui!), mas de várias e com localizações e endereços em vários países fora do que se pode considerar de ponta na produção científica mundial. Em outras palavras, a vinculação a editoras predatórias e revistas científicas desqualificadas é feita por dois bolsistas de produtividade (um deles no topo da cadeia meritocrática) sem qualquer parcimônia. É como se a vinculação a revistas “trash” fosse uma medalha ao honra ao mérito, e não o que é realmente, uma nódoa no currículo de qualquer pesquisador sério e comprometido com o avanço da ciência brasileira.

Esse escancaramento do descompromisso com o rigor científico é que me parece mais chocante, já que fica evidente que a chamada “Lei de Gérson” está fortemente entranhada em, pelo menos, parte da comunidade científica e exatamente entre pesquisadores que são considerados como sendo “produtivos” pelo CNPq

Diante dessa situação é que ninguém deve mesmo se sentir surpreendido pelo caso que mostrei aqui mesmo nesse blog sobre a cassação de um título de mestre na Universidade Federal de Viçosa em função de acusações de fraude e plágio (Aqui!). É que o vale tudo da “Lei de Gerson” que está estabelecido entre pesquisadores seniores, como é que se espera que jovens pesquisadores escolham um caminho oposto? Eu pessoalmente só vejo um caminho: o CNPq mudar suas regras de concessão de bolsas de produtividade. O problema aqui é se alguém dentro da agência vai querer mexer nesse vespeiro.

Trash science: ofertas mirabolantes de editores obscuros enchem caixas de correio eletrônico dos pesquisadores brasileiros. Quantos estão resistindo à tentação?

starwarsitsatrap

A existência de editoras científicas predatórias que oferecem serviços fáceis a preços módicos a incautos (aliás, nem sempre tão módicos assim) se tornaram conhecidas no Brasil a partir de uma série de matérias publicadas pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog que está hospedado no site UOL (Aqui!). 

Mas o que muitos não sabem é que ofertas mirabolantes chegam cotidianamente nas caixas de correio eletrônico dos pesquisadores brasileiros, como mostra a imagem que me foi enviada por um colega, que se mostrou indignado com a óbvia desfaçatez da oferta, bem como do desmazelo com que os editores de uma revista desconhecida tentaram chamar sua atenção para as “facilidades sendo oferecidas”

trash science

Em sua justa irritação, esse colega ainda me perguntou “será que há alguém disposto a entrar nessa?” A minha resposta, baseando-me no pouco que já foi desvelado pelo trabalho do Maurício Tuffani é que, sim, há muita gente disposta a entrar nessa!

E o pior é que se os comitês assessores do Conselho de Desenvolvimento Científico Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) começassem a olhar de forma mais rigorosa os currículos dos pesquisadores brasileiros vão acabar descobrindo que não são apenas jovens pesquisadores imaturos que estão enveredando pelo caminho fácil de engordar seus CVs com publicações em editoras predatórias, onde que vale é pagar seja quanto for, para colocar no ar qualquer coisa que seja, apenas para atingir índices de produtividade que omitem a necessidade da qualidade e do impacto científico.  

A essas alturas, desconfio que até pesquisadores do topo da cadeia meritocrática montada pelo CNPq em cima de quantidade, e não da qualidade, estão aceitando o tipo de convite que meu colega julgou óbvio demais para ser levado à sério. Afinal, a pressão pelo número é muito forte, e as ofertas tentadoras aparecem todos os dias!

A pergunta que se coloca é a seguinte: qual é o tamanho da parcela dentro da comunidade científica brasileira que está resistindo à essas promessas mirabolantes? Interessante seria ver se a Capes e o CNPq estão dispostos a começar a apurar. A ver!

CNPq descontinua componente que informava impacto das publicações dos pesquisadores na base Lattes por erros e incompletudes de informações

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Até muito recentemente, a Plataforma Lattes do Conselho Nacional Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) possuía um componente que informava o número de citações dos artigos inseridos pelos pesquisadores em seus currículos acadêmicos. Mas quem quiser acessar essa informação agora encontra a seguinte e prosaica advertência

Citações: Acesso temporariamente indisponível em razão de erros e incompletudes das informações do DOI, ISSN, página inicial, edição e volume de parte dos currículos registrados na Base.

Em outras palavras, os pesquisadores brasileiros estão preenchendo seus currículos de forma incompleta, omitindo informações básicas, mas essenciais, de seus artigos científicos, e impedindo assim que se determine o impacto do que está sendo publicado. 

Uma pessoa mais desinformada poderia se questionar sobre a importância desse fato. Eu começaria pelo fato de que o chamado “Fator H” (Aqui!) que é usado para estimar o grau de impacto das publicações incluídas pelos pesquisadores em seus currículos, sendo assim um dos indicadores básicos para o próprio CNPq decidir quem recebe ou não recursos oferecidos por aquela agência de fomento, a começar pelas cobiçadas “Bolsas de Produtividade” .

Há que se lembrar que as bolsas de produtividade representam não apenas um ganho extra e isento de recolhimento de imposto de renda, mas que acabam orientando toda a concessão de financiamentos nas diferentes modalidades que o CNPq premia aqueles pesquisadores que são considerados mais produtivos em seus respectivos campos disciplinares.

Como a Base Lattes já existe desde 1999, a omissão desse dados não deve estar relacionada ao desconhecimento por parte da comunidade científica da forma correta de se realizar o preenchimento dos currículos. Mas se não é desconhecimento, então o que é? 

Até que esse componente seja restabelecido, a pergunta que se faz é a seguinte: como irá o CNPq determinar o tão decantado mérito científico que, em última instância, baliza todo o sistema de premiação e distribuição de recursos públicos para a comunidade científica brasileira? A ver!

Percalços da “trash science”: sua revista favorita entrou em manutenção sem avisar e nem dizer adeus

site_offline

As peripécias dos pesquisadores que enveredam pelo caminho do “trash sicence” são muitas. Mas a maioria dos que enveredam por esse caminho só fica mesmo em alerta quando algo mais do que esperado ocorre: a revista onde se colocam “n” artigos repentinamente sai do ar, sem deixar maiores vestígios ou informações de quando deverá retornar ao ar para permitir acesso aos arquivos que contem, os arquivos com o material publicado.  

Essa situação, que era impensável até o advento da internet, hoje assola muitos pesquisadores em diferentes momentos de suas carreiras, os quais sacrificam o rigor e a qualidade em nome da quantidade que, no frigir dos ovos, é que premiações, enquadramentos e progressões e, ainda mais importante, financiamentos de agências de fomento e ministérios. Mas hoje não são raros os casos em que um pesquisador se vê diante da situação insólita de clicar no link do “Document Object Identifier” (DOI)  (Aqui!) que deveria levar ao seu artigo, e descobrir que a revista simplesmente não está mais operacional. Em outras palavras, a revista simplesmente tomou chá de sumiço.

Quando isso acontece é um tremendo “Deus nos acuda” porque não há mais prova virtual de que o artigo sequer existiu caso o pesquisador não tomou o cuidado de imprimir uma cópia física ou salvar o documento em um repositório digital.   E as consequências para isso não poucas, a começar pelo fato de que  o preenchimento do famoso Currículo Lattes contem um aviso de que quaisquer preenchimentos falsos implicam em crime de falsidade ideológica. 

O interessante é que acabei de identificar esse fenômeno com uma revista muito utilizada por pesquisadores que eu conheço, e que, inclusive, se encontra qualificada por diversos comitês técnicos da CAPES que determinam a classificação de revistas no sistema Qualis. E para não ter dúvidas no momento de escrever esta postagem, tomei o cuidado de ligar para a instituição onde a revista estava hospedada até recentemente, e lá fui dirigido ao Serviço de Informática. Ao falar com um dos técnicos que trabalham nesse departamento, o mesmo me ofereceu uma resposta que considerei enigmática: o serviço a que a referida revista estaria associada está em manutenção por tempo indeterminado, mas que brevemente deverá online. Em outras palavras,  apesar de eu insistir, não me foi dada uma informação mais precisa de quando, ou mesmo se, a revista voltará a ficar disponível online.

Agora, a pergunta que se coloca é a seguinte: o que farão os pesquisadores em diferentes momentos de formação que enviaram seus artigos para esta revista? Essa é uma boa pergunta para o CNPq, que é responsável pela base Lattes, e para a CAPES, responsável pela base Qualis.  A ver!

Do “Salami Science” ao “Trash Science”: como pudemos afundar tanto e tão rápido no precipício da ciência predatória?

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Em 14 de Dezembro de 2013 usei o espaço deste blog para tratar do problema do “Salami science” que é uma prática bastante conhecida de partir uma mesma pesquisa em diversas publicações com fins de aumento de pontos na comunidade científica (Aqui! e Aqui!). Naquele momento, o número de acessos foi relativamente baixo e a repercussão entre os meus pares na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) foi marcada por uma indiferença quase total. Apenas uns poucos colegas se dispuseram a comentar sobre o que eu estava apontando, e esses eram normalmente os que não tinham a prática de fatiar para multiplicar suas pesquisas. Em suma, quem não devia é que se dispôs a refletir sobre um problema que se espraia pela comunidade científica mundial.

Mas eis que menos de dois anos depois das minhas postagens, nos vemos defrontados com algo muito pior do que o “Salami science” que é a prática ainda mais nefasta (como se o “Salami science” já não fosse extremamente danoso e antiético) que é da publicação de pseudo-artigos em editoras especializadas em publicar lixo científico. Mais uma vez o que eu tenho visto é um silêncio quase ensurdecedor que normalmente ocorre quando ninguém quer falar sobre um crime praticado por uma facção criminosa dentro de uma das centenas de milhares de comunidades carentes que existem no Brasil.

Mas o problema aqui é que não estamos falando de gente pobre e esquecida pelo Estado brasileiro. Aliás, muito pelo contrário, pois ainda são raros os pesquisadores que saíram das camadas mais pobres da população para ocuparem postos em universidades públicas e centros de pesquisa de excelência. E, apesar dos pesares e eles são muitos, ainda há bastante dinheiro público circulando para incentivar a produção da ciência no Brasil.

Então por que este fenômeno de mutismo frente à disseminação de lixo científico que serve para turbinar currículos na Base Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e que serve para determinar progressões funcionais, concessão de bolsas de mérito por produtividade científica, e financiamentos de projetos de pesquisa como corretamente apontou em artigo recente (Aqui!) o jornalista Maurício Tuffani? Ao menos para mim, esse silêncio é explicado pela inaptidão da universidade brasileira de exercer o elemento básico da autocrítica que, pasmemos todos, é um dos bastiões da construção de sistemas universitários sólidos. E, além disso, esse silêncio revela que poucos estão dispostos a nadar contra a corrente, pois sabem que esse exercício traz mais riscos do que prêmios.

Agora, um fato que não pode ser escondido é de que ou os dirigentes da CAPES e do CNPq tomam medidas drásticas para banir as publicações predatórias do Qualis Capes para restabelecer critérios de credibilidade nesse ranking ou estaremos diante de um precipício bem fundo, de onde poucos conseguirão se levantar. E o problema é que mesmo na atual fase do Capitalismo, marcado pelo domínio das operações financeiros, a produção de ciência de excelente qualidade é a única forma das universidades contribuíram para o desenvolvimento nacional. Se abdicarmos de cobrar que não premie o lixo científico que bate nas nossas portas com a volúpia em que o lixo urbano invade nossos rios e baías, é melhor logo fechar as portas e partir para outra atividade que seja menos exigente em termos de critérios de validação.

Lixo científico “made in Brazil”

made in brazil

Venho faz algum tempo tratando aqui neste blog da difusão e banalização do que muitos chamam de “publicações predatórias”, e eu (seguindo o que disse o físico Rogério Cézar Cerqueira Leite num polêmico artigo no jornal Folha de São Paulo) denomino de “lixo científico”.  Os sucessivos casos de pesquisadores sendo pegos com artigos e outros tipos de publicações que mimetizam descobertas científicas em revistas onde o único requisito é pagar para publicar é um fenômeno global. As “editoras” estão espalhadas por diferentes partes do globo, ainda que países como China e Índia seja rotineiramente apontados como locais preferenciais para o estabelecimento de empresas especializadas em distribuir lixo científico a preços nem sempre módicos. 

O fenômeno não é novo, mas se espalhou como o vírus da peste negra após a emergência da internet que serviu para validar publicações que não necessariamente vão ser impressas.  Além disso, o surgimento da internet serviu para conectar prestadores de serviços (editoras predatórias) e fregueses (profissionais interessados em turbinar seus currículos sem as exigências da revisão por pares), o que contribuiu para criar um imenso mercado para personagens obscuros.  Esse fenômeno gerou até imensas listas de identificação de publicações predatórias como a criada pelo professor Jeffrey Beall, da University of Colorado-Denver, que se tornou uma referência mundial no esforço para conter o avanço do lixo científico (Aqui!).

Pois bem, se alguém pensou que o Brasil não possui o seu próprio estoque de publicações “trash”, pensou errado. Após me interessar pelo assunto, comecei a pesquisar (usando o Qualis Capes como ponto de partida) determinadas publicações que possuíam o que o jornalista Maurício Tuffani caracterizou em seu blog como  a “classificação quântica” do Qualis Capes (Aqui!). E o que eu acabei descobrindo é que, apesar de ainda faltar a mesma estrutura logística das editoras predatórias localizadas em outras partes do mundo, há sim no Brasil um mercado emergente de publicações onde determinados personagens são, ao mesmo tempo, dos corpos editorial e científico, exercem o papel de revisores e, sim, ainda publicam seus “artigos científicos”.  Em suma, são o policial, promotor de justiça, juiz, e carrasco! Além disso, essa rede de publicações junta personagens em instituições localizadas em diferentes partes do Brasil, de modo que fica difícil verificar num primeiro momento que são sempre os mesmos personagens envolvidos.

Esse fenômeno “editorial” tem graves implicações para a comunidade científica brasileira, na medida em que os órgãos de fomento como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) utilizem critérios que favorecem a quantidade e não a qualidade das publicações no momento em que concedem financiamentos (no caso do CNPq) ou certificam programas de pós-graduação (no caso da CAPES).  A existência e persistência desse sistema de medição é que está na origem do fenômeno das publicações predatórias em nível mundial, e não é diferente no Brasil. Mudar essa situação vai passar por uma urgente reestruturação dos sistemas de medição de mérito, visto que o que estamos vivendo no Brasil é apenas a primeira fase da invasão e colonização da ciência brasileira por revistas predatórias “made in Brazil”. 

Produção acadêmica e lixo científico no Brasil

Em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo no dia 06/01/15, o físico Rogério Cerqueira Leite, professor emérito da Universidade de Campinas (UNICAMP), e membro  do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNPq) levantou uma lebre que há muito está sendo falada em voz baixa nos corredores das universidades brasileiras, mas que até agora era quase um tabu (Aqui!), qual seja, o baixo impacto da maioria das publicações produzidas pelas nossa comunidade científica.  Em seu arrazoado construído a partir de um levantamento feito pela revista britânica “Nature”, Cerqueira Leite apontou que o Brasil aporta 2,5% das publicações indexadas em revistas internacionalmente, atrás até do Chile. Além disso, Cerqueira Leite também notou que boa parte do que é incluído nos currículos dos pesquisadores brasileiros se dá na forma de jornais openscience (abertos), e que a maioria dos artigos não passa mesmo é de lixo científico.

O que Cerqueira Leite não disse é que essa situação se dá às barbas, e muitas vezes sob impulso das duas principais agências de fomento à produção científica no Brasil,  o CNPq e a CAPES. O fato é que essas agências foram tomadas pela lógica da quantidade para ocultar a falta de qualidade que decorre do contínuo sucateamento financeiro e intelectual das universidades brasileiras, especialmente em anos da vigência da máxima “Brasil grande, Estado pequeno” que se instalou após as reformas neoliberais impostas no governo de Fernando Collor de Melo.  

Esta realidade é hoje conhecida até do mais jovem pesquisador que está iniciando os seus estudos de Iniciação Científica, e foi elevada aos momentos quase sacralizados pelo Currículo Lattes, que se tornou a principal forma de se obter recursos, cada vez mais escassos diga-se de passagem, e que acabam ficando quase sempre nas mesmas mãos.  Além disso, qualquer avaliação que seja feita hoje pela CAPES e pelo CNPq irá utilizar o total de produções, seja o artigo publicado na Nature ou no “Journal of Applied Sciences da Universidade Federal de Atol das Rocas”.  Mas o pior é que dai decorre uma lógica cínica de que é preciso publicar, seja lá o que for, em nome da sobrevivência. E ai de quem quiser refletir ou criticar essa hegemonia quantitativa!

É dessa adesão quase irrefletida a princípios quantitativos para se aferir mérito que decorre a adesão a pseudo-revistas científicas publicadas em prédios localizados em algum bairro central em países como Romênia, Índia e China. E como, apesar da lembrança colocada no momento do envio do CV Lattes ao CNPq que falsidade ideológica é crime, punições por fraude científica são quase tão raras quanto prisão por crime do colarinho branco. Em função disso, o que se vê é uma inundação de pseudo-artigos que aparecem normalmente em revistas que são colocadas em listas internacionais como devendo ser evitadas por suspeitas de serem fajutas (Aqui!).

Sair dessa cultura de quantidade sobre qualidade não será fácil, pois se prende a uma lógica de mérito que está institucionalizada. Entretanto, se não houver a devida disposição para enfrentar o problema, a ciência brasileira continuará num processo de auto-enganação cujo resultado final é nos manter como um país periférico na produção acadêmica qualificada e, pior, imerso nas profundas desigualdades sociais e econômicas que se mantém intactas por causa dessa situação científica capenga.

Aproveitando a deixa, ainda digo que se alguém está surpreso no número de notas “zero” na prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), esta surpresa seria ainda maior se fossem lidas algumas dissertações e teses, e artigos científicos produzidos até nas melhores universidades brasileiras. A baixa proficiência no uso da língua portuguesa é de tal proporção que chega a ser assustador para uma pessoa que, como eu, teve pais cuja escolaridade não passou dos dois anos iniciais do antigo ensino primário. É que, em comparação, meus pais tinham melhor controle e garbo no tratamento da língua portuguesa!  

Agora, parafraseando Karl Marx, para evitar jogar a criança fora com a água suja do banho, eu diria que a saída para esta armadilha criada por quem quer destruir o nosso incipiente parque científico nacional será exigir que se reverta a lógica do mérito a partir de critérios que coloquem a importância e a necessidade de uma produção intelectual que sirva efetivamente para resolver os graves problemas que afligem o Brasil.  E aqui há que se valorizar sim a produção científica qualificada, e que esteja submetida a critérios de robustez, independente da disciplina em que estiver incluída. Do contrário, continuaremos a produzir lixo acadêmico e a sermos motivo de escárnio. E, o que é pior, afundados num ciclo social que mistura pobreza, segregação e violência. 

1996: o ano em que FHC cortou a minha bolsa e eu tive que me virar

Vou dizer logo de cara que não votarei em Dilma Rousseff.  É que as diferenças profundas que mantenho com o projeto de governo que ela representa não me permitem cruzar o rabecão e declarar um voto útil em sua continuidade. 

Agora que já deixei claro porque não voto em Dilma, deixe-me dizer uma das razões, que pode parecer pessoal mas não é, pelas quais eu jamais votaria em Aécio Neves e o seu partido lesa-pátria, o PSDB.  Estava eu no início do meu quarto ano de doutorado na Virginia Polytechnic Institute and State University quando recebi a notificação de que minha bolsa de doutorado estava encerrada, apesar do meu desempenho para lá de satisfatório. É que contrariando documentos que eu havia assinado ao obter a minha bolsa de doutorado no exterior pelo CNPq, o governo Fernando Henrique havia decidido não mais dar a extensão de um ano a que eu tinha direito pelo meu desempenho.

Liguei para o CNPq e de lá ouvi uma resposta curta e direta da servidora que ouvia as minhas ponderações sobre o efeito de que aquele cortado injustificado teria na minha vida: se  vira!

Como não iria voltar para o Brasil sem um título de doutor que estava praticamente nas mãos, fiz o que todo estudante duro faz: fiz empréstimos bancários e terminei o meu doutorado com um dívida que girava em torno de US$ 10 mil, já que tive de pagar todas as taxas que o CNPq havia me dito que pagaria, além do aluguel e alimentação. 

Passei quase 10 anos pagando essa dívida, mas não graças ao governo FHC. É que após ser forçado a voltar para o Brasil por exigências contratuais com o CNPq, cheguei num país onde não havia concursos para professores nas universidades federais que viviam comendo o pão que o diabo amassou nas mãos de FHC e do seu ministro da Educação, Paulo Renato.

Se não fosse pela UENF, eu certamente teria arrumado as minhas malas e voltado para o exterior, como muitos colegas fizeram naquela época.

Assim, posso não votar em Dilma, mas Aécio e PSDB, nunca!