Capitalismo precário dá as condições ideais para o coronavírus aumentar sua letalidade

covid precariado

Muita tinta tem se gasto para imprimir artigos científicos e livros sobre os impactos da financeirização do Capitalismo neste início de Século XXI.  Uma quantidade menor de publicações trata da questão da precarização das relações de trabalho, e me lembro imediatamente do excelente “O privilégio da servidão” do sociólogo e professor da Unicamp, Ricardo Antunes.

Para mim, a eclosão da COVID-19 oferece uma chance espetacular de revisitarmos a situação do Capitalismo e dos efeitos da precarização das relações de trabalho na piora significativa das condições de vida da maioria da Humanidade que vive de vender sua força de trabalho.  É que a precarização da maioria tem servido apenas para um enriquecimento exponencial de uma fração específica dos capitalistas, que são os donos de bancos e daqueles que vivem de apostar nos múltiplos cassinos do rentismo globalizado.

Se olharmos de perto a forma pela qual a COVID-19 está a devastar sem dar um tiro sequer a maior potência militar que a Terra já conheceu, não poderíamos entender como os EUA estão desabando com um castelo de cartas, se não olhássemos de perto a extrema precarização das condições de vida da classe trabalhadora estadunidense, que em menos de 30 dias de crise já assistiu a uma perda de pelo menos 16 milhões de postos de trabalho, a maioria deles precarizados.  Por cima disso, o que se vê são filas quilométricas de carros que são conduzidos por desempregados, e que estão se dirigindo para pontos de distribuição de alimentos.  Essas filas são o maior testemunho do desabamento do capitalismo precarizado “Made in USA”.

car lines

Mais de dois milhões de pessoas na Califórnia pediram subsídios de desemprego desde meados de março, quando o coronavírus começou a se espalhar rapidamente pelos EUA. 

Mas e o Brasil nessa situação toda? Como já abordei em outras postagens, vivemos, como bem demonstra Ricardo Antunes na obra acima citada, um reinado absoluto da precarização. A opção por precarizar é tal ordem que desde o golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff em 2016 está em curso uma operação desmanche da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) cujos únicos resultados palpáveis têm sido a perda de massa salarial e o aumento no número de desempregados.

Essa sanha precarizadora não foi detida sequer pela COVID-19, pois em plena madrugada, a Câmara de Deputados aprovou a MP 905 com a qual o governo Bolsonaro pretende implantar a chamada “Carteira Verde e Amarela“,  que na verdade é uma mini contrarreforma trabalhista que se concentra em diminuir direitos trabalhistas e aumentar o poder dos patrões sobre a classe trabalhadora.

arton33211

No meio da pandemia, governo Bolsonaro opera para precarizar ainda mais os direitos dos trabalhadores brasileiros

A precarização das relações de trabalho, entretanto, é apenas uma das faces do estabelecimento de uma versão precarizado do capitalismo dependente brasileiro.  É que nessa nova faceta do capitalismo no Brasil, a classe capitalista está operando para precarizar não apenas os serviços públicos para transformá-los em mercadoria, como também se volta para reprimarizar completamente a economia brasileira. A combinação dessas precarizações é que resulta na opção de deixar muitos morrerem por causa da COVID-19, em vez de realizar todas as ações possíveis para minimizar o número de óbitos.

É por causa desse somatório de precarizações que, muito provavelmente, teremos os EUA e o Brasil como os líderes mundiais de casos de infecção e mortes causados pelo coronavírus. A única forma disso não acontecer será multiplicar as ações de base que já estão acontecendo nesses dois países, onde movimentos sociais e ativistas independentes estão organizando a resistência ao coronavírus dentro dos maiores bolsões de precarizados, que são as periferias urbanas.  Essas experiências podem não apenas reduzir a letalidade do coronavírus, mas também pavimentar o caminho para que haja uma resistência efetiva ao processo de precarização da vida que as elites econômicas adotaram para acumular a maior parte riqueza gerada pelos trabalhadores.

O rápido desmatamento da Amazônia brasileira poderá trazer a próxima pandemia

mong 0

Por  Thais Borges e  Sue Branford 

  • Quase 25.000 casos de COVID-19 foram confirmados no Brasil, com 1.378 mortes em 15 de abril, embora alguns especialistas digam que isso é uma subestimativa. Esses números continuam crescendo, mesmo quando o presidente Jair Bolsonaro minimiza a crise, chamando-a de “nada pior que uma gripe leve” e coloca a economia acima da saúde pública. 
  • Os cientistas alertam que a próxima pandemia emergente pode se originar na Amazônia brasileira se as políticas de Bolsonaro continuarem a aumentar as taxas de desmatamento da Amazônia cada vez mais. Os pesquisadores sabem há muito tempo que novas doenças geralmente surgem no nexo entre floresta e agronegócio, mineração e outro desenvolvimento humano.
  •  Uma maneira de o desmatamento levar ao surgimento de novas doenças é através do fogo, como os incêndios na Amazônia vistos em 2019. Após os incêndios, o habitat alterado geralmente oferece menos comida, alterando o comportamento dos animais, colocando a fauna em contato com comunidades humanas vizinhas, criando vetores para bactérias zoonóticas, vírus e parasitas.][
  • Agora, Bolsonaro está pressionando para abrir terras indígenas e unidades de conservação para mineração e agronegócio – políticas que beneficiam muito os grileiros. A escalada do desmatamento, agravada pelas mudanças climáticas, o aumento da seca e do fogo, aumentam o risco de surgimento de novas doenças, além de epidemias de doenças existentes, como a malária.

mong 1O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta os apoiadores durante uma visita a 10 de abril em um bairro de Brasília, a TV Globo capturou imagens enquanto o presidente limpava o nariz com a mão e depois apertava as mãos de admiradores, incluindo uma idosa usando uma máscara para se proteger contra o coronavírus. Imagem cortesia da TV Globo.

Desde que chegou ao Brasil, o COVID-19 dividiu o país. Um lado pede medidas estritas de isolamento social para conter o vírus, enquanto o outro diz que todos devem voltar ao trabalho agora, exceto os idosos e os mais vulneráveis.

Essas visões conflitantes são evidentes mesmo no coração do governo. O presidente Jair Bolsonaro, em uma recente transmissão na televisão, declarou que a histeria tomou conta do país por causa de uma doença que ele chama de “nada pior do que uma gripe leve”.  O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, contesta isso, dizendo aos brasileiros para ficar em casa.

A desinformação é abundante. Os rumores proliferam nas mídias sociais, particularmente no que diz respeito ao número de mortes, enquanto o governo desacredita a grande imprensa, enquanto tenta relatar a pandemia em rápido desenvolvimento e informar o público.

mong 2Ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta. Sua oposição às opiniões negligentes do presidente Bolsonaro sobre a seriedade da pandemia do COVID-19 pode colocar em risco o trabalho do ministro. Imagem cortesia da Agência Brasil.

Este cenário não é novo. Desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019, Bolsonaro e seu governo difamaram cientistas que tentavam alertar a população sobre os riscos do aquecimento global, ou críticos sobre o enfraquecimento das regulamentações e agências ambientais federais. No primeiro semestre de 2019, houve relatórios conflitantes dentro do próprio governo e entre cientistas e ONGs sobre a escala e a gravidade do desmatamento e, mais tarde no ano, sobre a extensão dos incêndios na Amazônia e sua estreita ligação com grandes desmatamentos.

No entanto, por trás de todo esse debate estridente, está ficando claro para os especialistas que o COVID-19 e o desmatamento na Amazônia poderiam estar ligados – ambos os produtos da devastação natural e humana provocada por uma invasão das florestas remanescentes do mundo através da rápida expansão de extração de madeira, extração mineral, agronegócio industrial e infraestrutura de transporte.

Mesmo que o surto de COVID-19 esteja possivelmente relacionado ao comércio de vida selvagem e à destruição da biodiversidade pela humanidade, os pesquisadores dizem que o momento crescente do desmatamento na Amazônia está criando condições para a erupção de futuras pandemias. De fato, há sinais de que isso já pode estar acontecendo. 

mong 3

Desmatamento ruge, arriscando o surgimento de novas doenças

Em 2019, o desmatamento na Amazônia brasileira atingiu seu nível mais alto em dez anos (9.762 quilômetros quadrados, ou 3.769 milhas quadradas). É importante ressaltar que, nas reservas indígenas protegidas, aumentou ainda mais rapidamente, expandindo-se 74% em 2019 sob Bolsonaro em comparação a 2018.  As taxas de desmatamento na Amazônia continuam aumentando em 2020, dobrando de agosto de 2019 a março de 2020, em comparação com o mesmo período de 2018-19.

Essas não são apenas más notícias para a vida selvagem e os povos indígenas. É sabido entre os cientistas que o grande desmatamento pode levar ao surgimento de novos vírus e bactérias perigosas contra os quais a humanidade tem pouca defesa, levando a epidemias e pandemias.

“Vertebrados selvagens, principalmente roedores, morcegos e primatas, abrigam patógenos que são novos no sistema imunológico humano e, se limparmos seu habitat e nos colocarmos em contato mais próximo com eles, podemos aumentar o risco de ocorrer um evento de transbordamento, introduzindo um novo patógeno”, disse Andy McDonald, ecologista especializada em doenças do Instituto de Geociências da Universidade da Califórnia.

mong 4As doenças infecciosas transmitidas por animais são uma “ameaça crescente e muito significativa para a saúde, segurança e economias globais”. Kate Jones. Imagem cortesia de UCL.

Kate Jones, diretora de Ecologia e Biodiversidade da University College London (UCL), que faz parte da London University, diz que os pesquisadores sabem há muito tempo que as doenças infecciosas transmitidas por animais são “uma ameaça crescente e muito significativa à saúde, segurança e economia globais”.  Em 2008, ela fazia parte de uma equipe de pesquisa que determinou que pelo menos 60% das 335 novas doenças que surgiram entre 1960 e 2004 tiveram origem em animais não humanos.

Um dos principais fatores dessa transferência de doenças de animais silvestres para humanos ocorre como resultado da perturbação do habitat – especialmente a perturbação das florestas tropicais.

“Aproximadamente um em cada três surtos de doenças novas e emergentes está relacionado a mudanças no uso da terra, como o desmatamento”, explicou Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos com sede em Nova York. Daszak foi o principal autor de um estudo intitulado “Emergência de doenças infecciosas e economia de paisagens alteradas“, publicado no ano passado. Esse documento observa que “as doenças causalmente ligadas ao uso da mudança de terra incluem doenças mortais como HIV / AIDS, Ebola e Zika”.   Pesquisas preliminares indicam que agora podemos adicionar a COVID-19 a essa lista – a pandemia mais devastadora que atingiu a humanidade desde a gripe de 1918-19  que matou mais de 50 milhões de pessoas.

mong 5

Uma maneira de o desmatamento levar ao surgimento de novas doenças é através do fogo. Em meados de agosto de 2019, um grupo de especialistas internacionais em doenças zoonóticas (doenças transmitidas de animais para seres humanos) se reuniu na Colômbia para analisar o impacto dos incêndios florestais em andamento na Amazônia. Em seu comunicado, eles alertaram: “A região amazônica do Brasil, endêmica de muitas doenças transmissíveis ou zoonóticas, após um incêndio florestal, pode desencadear uma seleção de sobrevivência e, com isso, alterar o habitat e os comportamentos de algumas espécies animais. Estes podem ser reservatórios de bactérias zoonóticas, vírus e parasitas.”.

Esse cenário de incêndio já ocorreu em outro lugar. Em 1988, grandes incêndios na Indonésia criaram condições que permitiram o surgimento do vírus Nipah, que tem uma taxa de morbidade entre 40% e 70%. Os pesquisadores acreditam que o início dos incêndios fez com que os morcegos fugissem de suas casas na floresta, buscando comida nos pomares. Em seguida, os porcos comiam a fruta que os morcegos mordiscavam, infectando-se com o vírus, infectando a população local, que começou a morrer de hemorragia cerebral. Espera-se que os incêndios na Amazônia piorem muito, pois o agronegócio a utiliza como uma ferramenta para limpar a floresta tropical e as mudanças climáticas intensificam a seca por lá.  

Febre segue-se a ruína ambiental 

De fato, já existem exemplos brasileiros de uma grande perturbação ambiental que provoca doenças. Um desses incidentes diz respeito ao rompimento da barragem de rejeitos de mineração de ferro de Mariana no rio Doce, no estado de Minas Gerais em 2015, que matou 19 pessoas e era considerado na época o desastre ambiental mais grave da história do Brasil.

A bióloga Márcia Chame, da Fiocruz, fundação especializada em ciência e tecnologia da saúde, acredita que um grande aumento nos casos de febre amarela em Minas Gerais em 2016-17, levando o governo estadual a decretar um estado de emergência, foi parcialmente o resultado do desastre que poluiu 500 milhas de rio até o Oceano Atlântico.

Chame argumenta que o rompimento da barragem, que levou a “uma avalanche de 2,2 bilhões de pés cúbicos de lama e resíduos de minas“, despejando o rio Doce, afetou gravemente os animais na bacia hidrográfica circundante, tornando-os menos resistentes a doenças.

“Uma mudança abrupta no meio ambiente terá impacto sobre os animais, incluindo macacos. Com o estresse do desastre e a falta de comida, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, incluindo febre amarela.” Chame diz que muitos macacos na bacia do Doce adoeceram com febre amarela. Esses macacos foram então picados por mosquitos, que por sua vez morderam humanos, levando a doença às cidades da região. Segundo ela, os mosquitos – particularmente Haemagogus leucocelaenus e H. janthinomys – foram “conduzidos por modificações da paisagem, com fragmentos de florestas em áreas peri-urbanas, permitindo interação suficiente [entre macacos, mosquitos e pessoas] para produzir essa epidemia”.

mong 6A pesquisadora Márcia Chame traçou uma relação causal entre um desastre ambiental catastrófico de uma barragem de rejeitos de minas de ferro no rio Doce no Brasil e um grande surto de febre amarela no local. Imagem cortesia de Fiocruz.

Processos semelhantes podem muito bem estar em andamento na Amazônia, embora em sua maioria não sejam examinados e não sejam detectados. Um estudo publicado no ano passado, intitulado “Desenvolvimento, degradação ambiental e disseminação de doenças na Amazônia brasileira” concluiu que “pouca atenção está focada no surgimento e reemergência de doenças transmitidas por vetores que afetam diretamente a população local, com efeitos colaterais em outras áreas vizinhas”.  

“Sabe-se que distúrbios graves na floresta contribuem para a expansão de doenças conhecidas como a malária, diz Mcdonald”. “O principal vetor de mosquitos” na América Latina se sai muito bem em fragmentos de floresta recentemente limpos, nas margens da floresta remanescente (onde há mais água parada para reprodução, temperaturas mais altas que podem facilitar o desenvolvimento mais rápido do parasita do mosquito e da malária, como bem como aumentar as taxas de picadas em humanos).  

Com as pessoas instaladas nessas áreas limpas… isso pode aumentar a transmissão da malária. ” Comparando imagens de satélite e dados de saúde, MacDonald, juntamente com Erin Mordecai, da Universidade de Stanford, determinou que o desmatamento em toda a Bacia Amazônica ajudou a levar a um aumento significativo da malária. MacDonald disse ao Mongabay que a equipe de pesquisa calculou que em 2008 um aumento de 10% no desmatamento, ou seja, cerca de 1.600 quilômetros quadrados (618 milhas quadradas) de corte adicional de florestas, levou a um aumento de 3,3% na transmissão da malária. Isso representou 9.980 casos adicionais em toda a região. 

mong 7A floresta amazônica intacta tem muito menos probabilidade de lançar suas surpresas zoonóticas ao mundo. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay.

Bolsonaro abre caminho para mais desmatamento 

Em meio à crise do COVID-19, o Congresso brasileiro está pronto para votar, transformando uma Medida Provisória temporária de 120 dias decretada por Bolsonaro em dezembro de 2019 em lei permanente. A Medida Provisória (MP) 910, em vez de conter invasões ilegais de terra, recompensa os grileiros que derrubaram ilegalmente florestas em terras públicas na Amazônia antes de dezembro de 2018 – regularizando sua ocupação ilegal, permitindo a compra da propriedade a preços bastante reduzidos, afastando-a do público para privado. Essencialmente, a medida permite que os grileiros violem a lei e se safem dela. 

De acordo com uma nota técnica emitida pela organização sem fins lucrativos IMAZON, a MP poderia levar ao desmatamento de até 16.00 Km2 até 2027, uma área dez vezes maior que a área que levou a um desmatamento. aumento de quase dez mil novos casos de malária no estudo MacDonald. 

Sob os termos atuais do MP 910, as autoridades não são obrigadas a verificar a validade de qualquer reivindicação feita por um potencial proprietário de terras para propriedades com tamanho inferior a 2.500 ha- uma estipulação que supostamente beneficia pequenos agricultores. 

Mas os grileiros da Amazônia são extremamente hábeis em contornar esses limites regulatórios. Uma prática muito comum é utilizar laranjas (literalmente laranjas, mas com mais precisão, patetas). Os grandes proprietários de terras fazem com que parentes amigos ou funcionários registrem uma pequena parcela em seus nomes, evitando a supervisão federal. Mais tarde, os laranjas entregam a propriedade ao grileiro, às vezes em troca de um pequeno pagamento. 

Se um proprietário de terras emprega 20 laranjas, cada uma registrando um terreno de 2.500 hectares (6.166 acres), ele acaba com uma propriedade de 50.000 ha. Outra conseqüência preocupante é que os grileiros podem apreender terras ocupadas por comunidades indígenas que não possuem ações, como está acontecendo com o grupo indígena Sateré-Mawe no estado do Amazonas.  

mong 8Desmatamento mensal na Amazônia brasileira desde 2007. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay, dados fornecidos pelo INPE.

A MP 910 também permite que aqueles que já se beneficiaram com a regularização de terras públicas invadidas, mas que venderam essa propriedade, entrem na fila novamente solicitando um novo lote. Embora reconheça a necessidade de resolver a atual anarquia sobre a posse de terras na Amazônia, Suely Araujo, ex-presidente do IBAMA, a agência ambiental do governo, é crítica ao MP. “Com essa flexibilidade, e sem separar grandes proprietários de terras de pequenos, esta lei legaliza aqueles que vivem da invasão de terras, do desmatamento e da venda de terras públicas”, disse ela a Mongabay. 

Em 27 de março, o ministro Alexandre Moraes, membro do Supremo Tribunal Federal, o tribunal de última instância do Brasil, proferiu uma decisão preliminar por facilitar a aprovação das Medidas Provisórias. Embora a intenção seja acelerar medidas urgentes durante a crise do COVID-19, os ambientalistas temem que o lobby ruralista aproveite esse novo procedimento para avançar mais energicamente com sua agenda. “Se não houver uma decisão política de retirar a MP 910 das medidas a serem votadas, corremos o risco de um sério revés ambiental durante esta crise [da saúde]”, alertou Araújo. 

Mais riscos à frente

Enquanto as taxas brasileiras de desmatamento disparam e as leis de uso da terra na bacia amazônica são prejudicadas, os povos indígenas da América Latina estão tentando chamar a atenção para a gravidade da crise ambiental global, que eles acreditam ter causado o surto de COVID-19. “O coronavírus está dizendo ao mundo o que os povos indígenas vêm dizendo há milhares de anos – se não ajudarmos a proteger a biodiversidade e a natureza, enfrentaremos isso e ameaças ainda piores”, disse Levi Sucre Romero, indígena da Costa Rica em uma conferência de imprensa organizada pela Covering Climate Now na cidade de Nova York em meados de março.

 

mong 9“A cura para a próxima pandemia, e mesmo para esta, pode ser encontrada na biodiversidade em nossas terras indígenas.” – Dinamam Tuxá. Imagem cortesia de Dinamam Tuxá.

Outro líder indígena da reunião, Dinamam Tuxá, coordenador da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), foi igualmente veemente: “A cura para a próxima pandemia, e até para esta, pode ser encontrada na biodiversidade em nossas terras indígenas ”, argumentou. “É por isso que precisamos proteger nossas terras e direitos, porque o futuro da vida depende disso.” Em contrapartida, Bolsonaro está promovendo uma legislação no Congresso que permitirá mineração em larga escala, perfuração de petróleo e gás e agronegócio industrial nas reservas indígenas do Brasil, em grande parte sem a contribuição das pessoas que vivem lá. 

Os especialistas continuam avisando com urgência que mais pandemias estão por vir. “Não estou surpreso com o surto de coronavírus”, disse à Scientific American o ecologista Thomas Gillespie, professor associado do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Emory. “A maioria dos patógenos ainda não foi descoberta”. Estamos na ponta do iceberg. 

John Scott, chefe de risco de sustentabilidade do Zurich Insurance Group, referindo-se ao Ebola, SARS, MERS e outras epidemias recentes, oferece uma mensagem semelhante: “Os últimos 20 anos de surtos de doenças podem ser vistos como uma série de quase acidentes catástrofes, que levaram à complacência e não à crescente vigilância necessária para controlar os surtos. ” 

mong 10Jovens dançarinos mundurucus comemoram seu parentesco com a natureza na Amazônia brasileira. Os povos indígenas em todo o mundo alertam há muito tempo que a falta de respeito da natureza pela humanidade moderna levaria a uma tragédia horrível. A pandemia do COVID-19, dizem eles, prova sua opinião. Imagem de Mauricio Torres.

Mudança climática, desmatamento, pandemias sucessivas

 Os cientistas não se assustaram com a pandemia do COVID-19; eles estavam alertando o mundo sobre esse evento há décadas. Da mesma forma, muitos não se surpreenderão se a crise climática muito negligenciada atingir um ponto sem retorno, com impactos muito mais sérios para o mundo – incluindo a extinção maciça de árvores da Amazônia e grandes liberações de carbono desestabilizadoras da atmosfera, impulsionadas não apenas por políticas favoráveis para capturadores de terras, mas devido a um declínio drástico nas chuvas da Amazônia e a um aumento de incêndios. De fato, muitos dizem que essas múltiplas crises estão entrelaçadas.

Um grande desafio do mundo pós-COVID-19 exigirá que a civilização se recupere da recessão econômica (ou depressão) global que causa sem agravar ainda mais a crise climática por meio da conversão em massa de florestas em minas de ouro, zinco e bauxita ou fazendas de gado e plantações de soja. O perigo: se o desmatamento tropical continuar fora de controle, mal podemos nos recuperar de uma pandemia antes de sermos confrontados por outra.

A próxima praga pode surgir em quase qualquer lugar: na Amazônia cada vez mais perturbada, no Congo, na Indonésia ou mesmo muito além da zona tropical, no Ártico, onde o permafrost está derretendo rapidamente, possivelmente descongelando vírus desconhecidos e inativos que podem desencadear o próximo planeta. crise de saúde. Nesse sentido, o COVID-19 – por mais horríveis que sejam seus resultados – pode ser apenas um prenúncio de pandemias muito piores por vir.

__________________

Esta reportagem foi publicada originalmente em inglês pelo site de notícias Mongabay [Aqui!].

 

Fiocruz divulga nota em defesa da ciência e de seus pesquisadores

fiocr uz

O Conselho Deliberativo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vem a público manifestar seu apoio aos pesquisadores responsáveis pelo estudo CloroCovid-19, que vem sendo realizado por mais de 70 pesquisadores, estudantes de pós-graduação e colaboradores de instituições com tradição em pesquisa, como Fiocruz, Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, Universidade do Estado do Amazonas e Universidade de São Paulo.

A instituição considera inaceitáveis os ataques que alguns de seus pesquisadores vem sofrendo nas redes sociais, após a divulgação de resultados preliminares com o uso da cloroquina em pacientes graves com a Covid-19. Estudos como esse são parte do esforço da ciência na busca por medicamentos e terapêuticas que possam contribuir para superar as incertezas da pandemia de Covid-19. A pesquisa CloroCovid-19 permanece em andamento e foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

A Fiocruz tem trabalhado incansavelmente em diversas frentes de atuação e vem a público clamar pela tranquilidade e segurança de seus pesquisadores, requisitos essenciais para o desenvolvimento de seus estudos. É fundamental alertar que a busca por soluções não pode prescindir do rigor científico e do tempo exigido para obtenção de resultados seguros e que as pesquisas devem se manter, portanto, fora do campo narrativo que constrói esperanças em cima de respostas rápidas e ainda inconclusivas.

A Fundação apoia incondicionalmente seu corpo de pesquisadores, que estão absolutamente comprometidos com a ciência e com a busca de soluções para o enfrentamento dessa pandemia, e reafirma seu compromisso com a missão de produzir, disseminar e compartilhar conhecimentos e tecnologias voltados para o fortalecimento e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população brasileira.

Desvelado pelo coronavírus, Jair Bolsonaro quer forçar a volta de um fictício Mundo de Oz

bozo ozA ansiedade de fazer a volta do funcionamento “normal” da economia reflete um senso de urgência e sobrevivência de Jair Bolsonaro que quer nos levar de volta a um fictício Mundo de Oz.

Independente de sua orientação ideológica, muitos brasileiros hoje se sentem legitimamente estupefatos frente ao tratamento dado pelo presidente Jair Bolsonaro ao combate da pandemia causada pelo coronavírus.  Um dos pontos mais intrigantes se refere à absoluta importância dada  pelo presidente da república ao retorno de atividades não essenciais em detrimento de uma ação mais agressiva em prol do controle e o combate da pandemia.  Em meio a isso surgem as inevitáveis notícias de que as redes hospitalares de muitos municípios e estados já se encontram à beira do colapso, em um prenúncio de que teremos um número incalculável de mortes nas próximas semanas.

Para mim a explicação da aparente obsessão do presidente Bolsonaro com o funcionamento “normal” da economia tem a ver com um senso aperfeiçoado de que seu governo não durará muito tempo se, pelo menos, não for retomada a aparência de que as pessoas estavam tendo sucesso em obter o ganho pão de cada dia.  Essa falsa sensação foi rompida pelo coronavírus que esfacelou essa imagem como um estilete que abre uma ferida infeccionada e deixa o pus acumulado fluir livremente, deixando à mostra a real extensão da ferida.

A verdade é que a situação dos trabalhadores brasileiros já era caótica antes do coronavírus. Com um total estimado de 11 milhões de desempregados, a maioria das famílias brasileiras já vivia no limite das suas possibilidades. Esse número, subnotificado como tantas outras coisas o são no Brasil, esconde o fato de que outros tantos milhões viviam na beira da extrema pobreza, exercendo atividades precarizadas ao léu de qualquer tipo de assistência dos governos. Como eu disse, com a entrada em cena do coronavírus todo o castelo de cartas desabou, mostrando os efeitos perversos das políticas ultraneoliberais que foram iniciadas com a ascensão de Joaquim Levy ao cargo de ministro da Fazenda, ainda no início do segundo mandato de Dilma Rousseff em 2016.

filaFila em busca de Emprego em frente ao Estádio Nacional Mané Garrincha(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Além disso, há que se levar em conta que Jair Bolsonaro foi eleito muito em parte graças ao descontentamento de parte significativa da classe trabalhadora que estava cansada de viver no limite das possibilidades em meio à falta de empregos e da precarização de serviços públicos essenciais como saúde e educação. Agora, espremido entre as demandas da classe trabalhadora que viu nele uma saída para sua situação desesperadora e sua subserviência às elites econômicas, Jair Bolsonaro ensaia uma tentativa de forçar uma volta a uma normalidade que nunca existiu, nem que isto custe o empilhamento de milhares de corpos em caminhões frigoríficos que repetirão por aqui os desfiles macabros que os italianos já assistiram. Ou pior ainda, teremos por aqui o que eu já chamei de via equatoriana com corpos sendo abandonados em vias públicas em face do colapso dos serviços funerários.

italia 1Caminhões do exército italiano carregam mortos pela COVID-19 a caminho de cemitérios e crematórios.

Assim, a saída de Luiz Henrique Mandetta e a entrada de Nelson Teich na direção do Ministério da Saúde são também reveladoras da ânsia de Jair Bolsonaro de voltar a uma normalidade que nunca existiu. É que, apesar de Mandetta e Teich serem ligados umbilicalmente à saúde privada, o novo ministro é um empresário que já acumulou fortunas a partir do sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS).  O problema é que dificilmente Teich vai arriscar o seu pescoço em futuras inquisições de tribunais internacionais caso se consagre aqui o funcionamento de atividades não essenciais cujo único dom será exponencializar ainda mais a disseminação do coronavírus.

Um aspecto que me parece importante nesse cenário de um Brasil em ritmo de “Mágico de Oz a la Bolsonaro” é de que continuemos o processo fundamental de explicação dos mecanismos de controle e proteção contra o coronavírus. Essa ação é fundamental para não apenas minimizar o números de infecções e mortes, mas também para educar os brasileiros sobre a importância da ciência e da saúde pública.  Em meio ao pandemônio criado por Jair Bolsonaro em meio à pandemia, agir racionalmente e de forma a educar o número máximo de pessoas sobre como passar ileso pela pandemia se reveste em um ato ulterior de resistência ao desmantelamento do Brasil como uma Nação soberana.

Finalmente, é preciso que fique claro que Jair Bolsonaro não é o Mágico de Oz e não tem como retornar o Brasil a um Mundo de Oz fictício, que nunca existiu para começo de conversa. Quando muito Bolsonaro é apenas a pessoa errada no lugar errado e no momento errado. Resta a nós nos mantermos vivos e sadios para começar a resolver os problemas que o Brasil real possui depois que o pior da pandemia passar.

Com ministro da Saúde “Bolsonarista raiz”, Jair Bolsonaro abre as portas para implantar a via equatoriana no Brasil

bolsonaro teichjO presidente Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich

A confirmação da anunciada queda de Luiz Henrique Mandetta e o anúncio de um “Bolsonarista raiz”, o médico oncologista e empresário da área da saúde, Nelson Teich, para dar continuidade aos esforços de controle e combate à pandemia da COVID-19.  Um rápido passeio pela internet já mostra bem o perfil empresarial de Teich, o que explica sua proximidade com o agora ex-Posto Ipiringa, o ministro da Fazenda, Paulo Guedes que o levou para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro.

As posições públicas de Nelson Teich em relação ao ponto nevrálgico do desentendimento entre Jair Bolsonaro e Luiz Henrique Mandetta é, no mínimo, dúbia, pois, apesar de defender o isolamento social como ferramenta de controle da difusão do coronavírus, em um artigo na rede social Linkedin, o novo ministro da Saúde defendeu isolar apenas as pessoas infectadas e seus contatos mais próximos. Como o nível de testagem do Brasil em relação à infecção pelo coronavírus é um dos piores do mundo, não será surpresa se Teich rapidamente evoluir (ou involuir) para a proposta favorita dentro do governo Bolsonaro que é a do isolamento vertical, concentrando-se nos grupos de idades mais avançada.

Mas esqueçamos de Nelson Teich por um segundo para nos concentrar nas declarações de vários membros do governo Bolsonaro no sentido de que não apenas é aceitável que haja mortos no Brasil por causa da infecção pelo coronavírus, mas que também que isso seria até desejável, como declarou o presidente do Banco Central, o Sr. Roberto Campos Neto, que declarou para um grupo de investidores (ou melhor, especuladores financeiros) que “quanto maior for o número de novos casos e mortes por coronavírus melhor para a economia”.

Entretanto, não pode ser esquecido que o presidente Jair Bolsonaro também já relativizou o impacto das mortes de cidadãos brasileiros em nome de um suposto funcionamento da economia, dizendo que “Alguns vão morrer? Vão morrer, lamento, lamento, mas essa é a realidade…” (ouça  áudio abaixo).

Mas voltando a Nelson Teich, eu não tenho a menor dúvida de que a sua presença à frente do Ministério da Saúde parte do entendimento de Jair Bolsonaro e seus ministros de que a atividade econômica (seja qual for ela) está acima das necessidades de proteção da saúde dos brasileiros.  Com isso, o que me parece estar sendo preparado é a abertura geral das portas, o que inevitavelmente nos levará a um cenário a la Equador, país que hoje está com dificuldade até para recolher seus mortos, com cadáveres sendo incenerados até em vias públicas.

Por isso, que ninguém se engane, o cenário “a la Equador” só será evitado no Brasil se houver a devida reação social, pois, do contrário, é isto que teremos nas próximas semanas.

Finalmente, algumas considerações sobre o agora ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.  Em minha opinião, Mandetta está deixando o ministério da Saúde de mansinho e posando de pessoa responsável, mas ele sabe bem a bomba relógio que deixou para Nelson Teich.  O Brasil não só está entrando em um período de aceleração dos casos de necessidade de internação porque muitas pessoas infectadas vão agora começar a entrar na fase mais crítica da COVID-19, mas como também nos próximos dias serão conhecidos os resultados de milhares de testes que continuam esperando seus laudos.

Aí o Brasil se verá de um cenário muito mais ameaçador e sombrio do que no dia de hoje.  Mas quando isto acontecer, o principal responsabilizado por oferecer respostas ao drama social que se descortinará não será nem Mandetta ou Nelson Teich, mas Jair Bolsonaro. É que ao insistir no fim do isolamento social para conter a difusão do coronavírus, Jair Bolsonaro se tornou o avalista da via equatoriana que, no Brasil, gerar não os 700 mortos que o próprio presidente da república citou para desqualificar as posições adotadas pelo governo paulista, mas um número muito maior de mortes. Quando isto acontecer, a crise política que já vivemos no Brasil subirá muitos degraus. A ver!

Com a demissão de Mandetta vem por aí a subnotificação da subnotificação

subnotificacao_interna_01042020

A mais do que anunciada demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), poderá se concretizar nas próximas horas.  Mandetta sairá do ministério com um dos menores índices de testagem para a infecção do coronavírus no mundo, e, com isso, deixará (caso sua demissão seja confirmada) o Brasil sem uma política clara de enfrentamento da difusão exponencial da COVID-19. Em que pese as supostas refregas com o presidente Jair Bolsonaro, esse será o real legado de Mandetta.

teste

Número de testes para detecção do coronavírus no Brasil é irrisório e dificulta a coordenação ao controle e combate da pandemia

Mas como no Brasil as coisas sempre podem piorar, há que se ver quem será indicado para preencher o cargo hoje ocupado por Mandetta. É que apesar de fraco e compromissado com os setores privatistas da saúde brasileira, Mandetta acabou se sobressaindo no mar de incompetências que caracteriza o ministério formado por Jair Bolsonaro.  Em outras palavras, o ministro da Saúde acabou se tornando um rei porque tem pelo menos um olho nesse pandemônio em que o sistema político brasileiro se tornou. Outros ministros que antes eram tidos como o filé mignon do ministério de Bolsonaro simplesmente saíram de cena para preservar a própria pele, sendo Sérgio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Fazenda) os principais exemplos dessa postura de desaparecimento em momento de crise aguda. Agora, perigamos ver não apenas um negacionista da pandemia assumindo o cargo, mas alguém que se dedicará a dificultar ainda mais aquilo que Mandetta já tornou difícil.

Falo aqui da correta identificação do número de infectados e óbitos associados à infecção pelo coronavírus.  Essa será uma manobra óbvia que um ministro alinhado à visão negacionista de Jair Bolsonaro deverá realizar.  Mas também deverá ter dificuldades maiores ainda para a realização de testes para a verificação da infecção pelo coronavírus. Esses dois passos criarão em um primeiro momento o reforço de que o problema não é tão grave quanto cientistas e médicos tentam demonstrar, e, depois, uma aceleração exponencial da pandemia em todo o território nacional.

O problema é que como em países onde a COVID-19 já ceifou milhares de vida também no Brasil será difícil ocultar os milhares de cadáveres que vão ser geradas por uma política intencional de negligenciar um vírus cuja letalidade está mais do que demonstrada.  Com isso, saíremos do negacionismo para uma profunda crise política, a qual se encontrará com uma forte recessão econômica.

cemitério© FELIPE RAU/ESTADAO Enterro no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo 

Todo esse cenário reforça a necessidade de que se dissemine o mais amplamente possível a falaciosidade dos embates dentro do governo Bolsonaro em relação a essa pandemia. Todo meio de esclarecimento nesse processo deverá ser utilizado, pois ampliar a informação sobre a situação que realmente enfrentamos será fundamental para se alcancem soluções que, por um lado, minimizem o número de mortos e, por outro, preparem uma resposta organizada aos ataques aos direitos sociais e trabalhistas que estão sendo realizados enquanto grassa a confusão gerada propositalmente acerca da necessidade de enfrentar com a devida seriedade a pandemia que nos ameaça.

 

Brasil pode ser o 2º país mais infectado por coronavírus no mundo

SAÚDE 1

Por Ramalho Lima via nexperts

De acordo com um estudo realizado pelo portal COVI-19 Brasil, que reúne pesquisadores das Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Brasília (UNB), entre outros centros de pesquisas, o número de infectados pelo novo coronavírus no Brasil já ultrapassou os 313 mil indivíduos. Isso seria 15 vezes mais que o número oficial divulgado pelo Ministério da Saúde.

Subnotificação bate recorde no país

A subnotificação está relacionada com o número de testes que são realizados por cada grupo de um milhão de habitantes. Entre os países mais afetados pela COVID-19 no mundo, o Brasil é o que realiza menos testes: são 296 testes por milhão de habitantes. Enquanto isso, os EUA testam 8.866 pessoas por milhão.

SAUDEProfissional de saúde realizando teste rápido de paciente em um hospital do Rio de Janeiro. (Fonte: Agência O Globo/Leo Martins/Reprodução)

Número de infectados pode ser de 12 a 15 vezes maior que o oficial

Dois grupos de pesquisas diferentes apresentaram duas projeções em relação ao número de infectados. Em ambas, a diferença entre as estimativas e os dados oficiais é extremamente alarmante, pois colocam o Brasil como o segundo país do mundo no número de infectados pela covid-19, estando atrás, apenas, dos EUA.

Segundo o estudo feito pela COVI-19 Brasil, até sábado (11), o país tinha 313.288 infectados. Na mesma data, o Ministério da Saúde informava 20.727 casos confirmados.

De acordo com os cálculos do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), formados por cientistas da PUC-RJ, Fiocruz e Instituto D’or, que utilizou uma metodologia diferente da usada pelo grupo anterior, até sexta-feira (12), o Brasil tinha mais de 235 mil casos, enquanto os número oficiais indicavam apenas 19.638. O número é 12 vezes superior ao informado pelo órgão ligado ao governo federal.

saúde 3Fonte: Ministério da Saúde/DivulgaçãoFonte:  Ministério da Saúde 

Número de mortos também seria maior

Se as subnotificações alteram o número real de infecções, o mesmo acontece com o número de pessoas que morreram com COVID-19.

Só em São Paulo, há uma fila de 30 mil exames esperando pelo resultado, incluindo testes que foram feitos com pessoas que já morreram e ainda não foi comprovado se os óbitos têm relação com a doença.

Ministério da Saúde falhou, diz professor da USP

De acordo com Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto e integrante da iniciativa Covid-19 Brasil, os dados mostram que as autoridades brasileiras (representando o Ministério da Saúde), não conseguiram monitorar adequadamente a disseminação do vírus pelo país.

_______________________

Este artigo foi originalmente publicado pelo site TecMundo [Aqui!] .

A crise do coronavírus e o futuro do neoliberalismo

pulso latino

Com Alfredo Saad-Filho e Danilo Enrico Martuscell

Mediação de Cris Cavalcante

A pandemia escancara as contradições entre vida e capital. Vemos como os diferentes países têm tomado suas próprias medidas – alguns deles jogando com a vida em nome da economia -, mas também presenciamos um momento fértil para análises sobre nossos modelos de sociedade. Para alguns pensadores, como o filósofo Slavoj Žižek, estaríamos vivenciando um golpe mortal ao capitalismo e seria tempo de reinventar o comunismo. Para outros, como o filósofo Byung-Chul Han, a saída da crise do COVID-19 poderia levar-nos a um maior autoritarismo, com a exportação do modelo chinês de controle social ao ocidente.

Neste episódio, convidamos o doutor em economia Alfredo Saad-Filho e do doutor em ciências políticas Danilo Martuscelli para pensar a crise do coronavírus e os rumos que a política, a economia e a humanidade vão tomar daqui pra frente.

Você pode ouvir o Pulso Latino no seu agregador preferido

Spotify: https://spoti.fi/2RD9tz

Google Podcasts: https://bit.ly/3ab6R1y

iTunes: https://apple.co/2RAjFZa

Castbox: http://bit.ly/2JWbt0D

Breaker: http://bit.ly/2XZ3CEj

Overcast: http://bit.ly/2YlVzGc

Pocket Casts: https://pca.st/5fyg

Podbean: http://bit.ly/2GkATno

Radio Public: http://bit.ly/2LsOLAx

Stitcher: http://bit.ly/2xZ2mXu

Coronavírus: Brasil lidera em infecções e mortes, mas Venezuela lidera testagem

Drive Through COVID-19 Testing Facility Expands In South FloridaBrasil lidera em infecções e mortes, mas quem lidera na testagem é a Venezuela.

Para quem ainda não conhece, eu recomendo o site “Worldmeters.info” que possui uma página atualizada em tempo quase real para várias estatísticas relacionadas à pandemia causada pelo coronavírus.  Eu visitei este  na tarde de hoje para verificar as estatísticas relacionadas aos 12 países e uma unidade ultramarina que formam a América do Sul, e os resultados são muito reveladores acerca do desempenho do Brasil no controle desta pandemia.

É que segundo os números disponíveis no “Worldmeters”, o Brasil possui o maior número de infectados e mortos pelo coronavírus, mas só possui índices melhores de testagem do que Bolívia e Guiana (ver figura abaixo).

Covid south america

Na questão da testagem, em termos de proporção por milhão de habitantes testados e no número de testes efetivamente realizados, a Venezuela é de longe a líder disparada com 203.208 testes realizados, com uma proporção de 7.143 testes por milhão de habitantes.  Enquanto isso o Brasil aplicou até agora míseros 62.985 testes, com uma taxa de 296 testes por milhão de habitantes. 

Mas a Argentina, um país que se encontra em dificuldades ainda maiores do que o Brasil, no mesmo período aplicou 22.805 testes, em uma taxa de 505 testes por milhão de habitantes.  O interessante é que possuindo uma população de 43.590.368 habitantes, a Argentina tem até agora 2.277 casos oficiais e um total de 102 óbitos por causa da COVID-19. Já o Brasil, com uma população de 211.291.881,00 habitantes, já alcançou 24.232 casos oficiais e 1.378 óbitos.  

A verdade é que toda as alegações de que o Brasil não seguiria as recomendações para aplicar testes para além dos infectados e suas famílias, como recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS), está nos colocando em uma posição vergonhosa até na América do Sul, onde a maioria dos países não possui a mesma força econômica ou a estrutura hospitalar.

Com base nessas estatísticas, fico com a impressão ainda mais forte de que é falacioso o suposto embate entre o presidente Jair Bolsonaro e o ainda ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS). É que por caminhos aparentemente diferentes, ambos estão deixando a população brasileira (especialmente os segmentos mais pobres) em um voo cego contra um vírus altamente letal. Em outras palavras, Bolsonaro e Mandetta são duas faces de uma mesma moeda.

Finalmente, é fundamental que haja um movimento amplo para se pressionar o governo federal para que disponibilize urgentemente uma grande quantidade de testes para que os estados e municípios possam ter algum controle sobre os polos de dispersão do coronavírus em todo o território nacional.

Mapa de densidade de casos confirmados de Covid-19 na cidade do Rio de Janeiro

corona rio

 O mapa abaixo foi divulgado no dia de hoje pelo gerente da Redes Fito, Jefferson Pereira, em sua página pessoal na rede social Facebook, e mostra a evolução da difusão do coronavírus no município do Rio de Janeiro.

corona rio 2mapa cidade do rio de janeiro

Mapas de difusão do coronavírus no município do Rio de Janeiro.

Segundo as análises disponibilizadas pelo Jefferson Ribeiro, as seguintes tendências estariam ocorrendo:

1- A Zona Sul ainda é a área que apresenta a maior densidade de casos confirmados.

2- A Barra da Tijuca possui uma densidade também elevada contudo devido a sua conformação espacial, o bairro  ainda se encontra isolado.

3- Há uma rampa de aumento da densidade de casos em direção a Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, a começar pela região da Grande Tijuca (Tijuca, Vila Isabel, Maracanã, etc) . Esta é a área com maior poder aquisitivo dentro da Zona Norte,  mas o processo de difusão está se dirigindo para o bairro da Pavuna, passando por bairros como Méier, Madureira e outros.

4- Existem duas áreas de densidade relevante na Zona Oeste não litorânea, que se localizam nos bairros de Bangu e Campo Grande.

Por meio do mapeamento da densidade de casos confirmados por Km² na cidade , é possível  observar que a densificação de casos positivos começou a entrar em zonas com menos poder aquisitivo do município.

Em um primeiro momento da pandemia, a difusão dos casos ocorreu nas áreas mais nobres da cidade respondendo a maior concentração de pessoas com poder aquisitivo, que viajaram principalmente para a Europa. Os casos continuarão a se adensar nessas áreas que têm alta densidade populacional e de idosos.

Já no segundo momento, a difusão está se dando através da transmissão comunitária levando os casos para as outras áreas do município. Contudo, até o momento é possível notar que essa difusão está seguindo um padrão espacial que responde como a nível estadual, com uma hierarquia dos polos de centralidade do município, indo das áreas com maior centralidade para as com menor centralidade.

O avanço dos casos para a Zona Norte é preocupante, embora esperado, por conta desta região apresentar alta densidade populacional, alto percentual de idosos e grande contingente populacional vivendo em áreas sem infraestrutura e de baixa renda que já são acometidas por uma série de agravos à saúde das pessoas.

Em minha opinião, apesar da confirmação destas tendências só poderá ser constatada nas próximas duas semanas, os dados da dispersão do coronavírus na cidade do Rio de Janeiro que aparece neste mapa já possibilitam uma melhor organização dos aparatos de saúde e da distribuição de insumos nas diferentes zonas em que está dividido o município de Rio de Janeiro.

_________________

O conteúdo desta postagem reflete em grande parte os apontamentos disponibilizados pelo gerente Redes, Jefferson Ribeiro, em sua página pessoal no Facebook.