Desvelado pelo coronavírus, Jair Bolsonaro quer forçar a volta de um fictício Mundo de Oz

bozo ozA ansiedade de fazer a volta do funcionamento “normal” da economia reflete um senso de urgência e sobrevivência de Jair Bolsonaro que quer nos levar de volta a um fictício Mundo de Oz.

Independente de sua orientação ideológica, muitos brasileiros hoje se sentem legitimamente estupefatos frente ao tratamento dado pelo presidente Jair Bolsonaro ao combate da pandemia causada pelo coronavírus.  Um dos pontos mais intrigantes se refere à absoluta importância dada  pelo presidente da república ao retorno de atividades não essenciais em detrimento de uma ação mais agressiva em prol do controle e o combate da pandemia.  Em meio a isso surgem as inevitáveis notícias de que as redes hospitalares de muitos municípios e estados já se encontram à beira do colapso, em um prenúncio de que teremos um número incalculável de mortes nas próximas semanas.

Para mim a explicação da aparente obsessão do presidente Bolsonaro com o funcionamento “normal” da economia tem a ver com um senso aperfeiçoado de que seu governo não durará muito tempo se, pelo menos, não for retomada a aparência de que as pessoas estavam tendo sucesso em obter o ganho pão de cada dia.  Essa falsa sensação foi rompida pelo coronavírus que esfacelou essa imagem como um estilete que abre uma ferida infeccionada e deixa o pus acumulado fluir livremente, deixando à mostra a real extensão da ferida.

A verdade é que a situação dos trabalhadores brasileiros já era caótica antes do coronavírus. Com um total estimado de 11 milhões de desempregados, a maioria das famílias brasileiras já vivia no limite das suas possibilidades. Esse número, subnotificado como tantas outras coisas o são no Brasil, esconde o fato de que outros tantos milhões viviam na beira da extrema pobreza, exercendo atividades precarizadas ao léu de qualquer tipo de assistência dos governos. Como eu disse, com a entrada em cena do coronavírus todo o castelo de cartas desabou, mostrando os efeitos perversos das políticas ultraneoliberais que foram iniciadas com a ascensão de Joaquim Levy ao cargo de ministro da Fazenda, ainda no início do segundo mandato de Dilma Rousseff em 2016.

filaFila em busca de Emprego em frente ao Estádio Nacional Mané Garrincha(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Além disso, há que se levar em conta que Jair Bolsonaro foi eleito muito em parte graças ao descontentamento de parte significativa da classe trabalhadora que estava cansada de viver no limite das possibilidades em meio à falta de empregos e da precarização de serviços públicos essenciais como saúde e educação. Agora, espremido entre as demandas da classe trabalhadora que viu nele uma saída para sua situação desesperadora e sua subserviência às elites econômicas, Jair Bolsonaro ensaia uma tentativa de forçar uma volta a uma normalidade que nunca existiu, nem que isto custe o empilhamento de milhares de corpos em caminhões frigoríficos que repetirão por aqui os desfiles macabros que os italianos já assistiram. Ou pior ainda, teremos por aqui o que eu já chamei de via equatoriana com corpos sendo abandonados em vias públicas em face do colapso dos serviços funerários.

italia 1Caminhões do exército italiano carregam mortos pela COVID-19 a caminho de cemitérios e crematórios.

Assim, a saída de Luiz Henrique Mandetta e a entrada de Nelson Teich na direção do Ministério da Saúde são também reveladoras da ânsia de Jair Bolsonaro de voltar a uma normalidade que nunca existiu. É que, apesar de Mandetta e Teich serem ligados umbilicalmente à saúde privada, o novo ministro é um empresário que já acumulou fortunas a partir do sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS).  O problema é que dificilmente Teich vai arriscar o seu pescoço em futuras inquisições de tribunais internacionais caso se consagre aqui o funcionamento de atividades não essenciais cujo único dom será exponencializar ainda mais a disseminação do coronavírus.

Um aspecto que me parece importante nesse cenário de um Brasil em ritmo de “Mágico de Oz a la Bolsonaro” é de que continuemos o processo fundamental de explicação dos mecanismos de controle e proteção contra o coronavírus. Essa ação é fundamental para não apenas minimizar o números de infecções e mortes, mas também para educar os brasileiros sobre a importância da ciência e da saúde pública.  Em meio ao pandemônio criado por Jair Bolsonaro em meio à pandemia, agir racionalmente e de forma a educar o número máximo de pessoas sobre como passar ileso pela pandemia se reveste em um ato ulterior de resistência ao desmantelamento do Brasil como uma Nação soberana.

Finalmente, é preciso que fique claro que Jair Bolsonaro não é o Mágico de Oz e não tem como retornar o Brasil a um Mundo de Oz fictício, que nunca existiu para começo de conversa. Quando muito Bolsonaro é apenas a pessoa errada no lugar errado e no momento errado. Resta a nós nos mantermos vivos e sadios para começar a resolver os problemas que o Brasil real possui depois que o pior da pandemia passar.

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