Insegurança: não há espaço para reabertura das escolas, diz professor de Medicina da USP

Em audiência no Senado, líder do laboratório que monitora a COVID-19 em tempo real na USP, o benefício do retorno às aulas pode ser superado pelas perdas

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A volta às aulas presenciais na pandemia é considerada uma falsa solução para o problema da pandemia

Por Cida de Oliveira para a RBA

São Paulo – A reabertura das escolas sem a testagem em larga escala antes da vacinação contra a COVID-19 é condenada pelo professor de medicina Domingos Alves, da USP de Ribeirão Preto. Em audiência pública no Senado nesta sexta-feira (14), para discutir estratégias para o retorno seguro às aulas presenciais, ele afirmou que os benefícios em reabrir escolas e universidades para aulas presenciais não podem ser ultrapassados pelas perdas acarretadas pela iniciativa.

“O que é necessário é uma solução real para o problema. E não uma solução falsa, que torne o problema da pandemia ainda mais grave. Os níveis seguros (para a reabertura) resultam da redução da transmissão comunitária, que deve ser a medida real para autorizar o retorno das atividades presenciais. Para isso é preciso rastreamento de casos e isolamento”, explicou Alves, que lidera o Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS), que monitora a COVID-19 em tempo real com base na ciência de dados.

O especialista contestou dados apresentados pelo médico Márcio Sommer Bittencourt, do Hospital Universitário (HU) da USP, de que crianças se contaminam menos e transmitem menos o novo coronavírus, além de sofrerem menos complicações e óbitos que os adultos.

Retorno às aulas presenciais

“Até agosto de 2020, o número de mortes na faixa etária de 0 a 19 anos causadas pela COVID-19 era de 718, o que correspondia a 0,68% do total de óbitos pela doença em todo o país. No começo de abril, o número subiu para 5.216, equivalente a 1,43% do total de casos”, disse, com base em estatísticas de boletins do Ministério da Saúde.

Alves também contestou argumento do epidemiologista Wanderson de Oliveira, então técnico da pasta e da equipe do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. Atual secretário de Serviços Integrados de Saúde do Supremo Tribunal Federal (STF), Wanderson defendeu a reabertura das escolas, especialmente em municípios onde o número de novos casos diários em grupos de 100 mil habitantes seja inferior a 5. “Até onde eu sei, nenhum município chegou a esse patamar”, afirmou.

Defendida pelo Fundo Internacional da ONU para a Infância (Unicef) para a redução das desigualdades sociais e educacionais, a reabertura das escolas, inclusive universidades federais, é tema do projeto de Lei (PL) 5.595/2020. A proposta inclui a educação no rol dos serviços essenciais. Aprovado na Câmara, o PL que agora tramita no Senado é de autoria da deputada e empresária apoiadora de Bolsonaro Paula Belmonte (Cidadania-DF). Ela é casada com Luis Felipe Belmonte, Aliança pelo Brasil, mas o projeto naufragou. Luís Felipe Belmonte, um dos fundadores da Aliança Pelo Brasil, partido criado para abrigar Bolsonaro, mas cujo projeto naufragou. Por sua vez, ele é investigado em inquérito que apura financiamento de atos antidemocráticos, além de ser suspeito de enriquecimento ilícito. .

Faltam recursos

Na audiência, o representante do Ministério da Educação, Mauro Luis Rabelo, defendeu o retorno imediato das aulas presenciais, alegando que repasses de programas mantidos pelo governo federal são suficientes para garantir a implementação de medidas de segurança. Mas não acenou recursos novos para essa finalidade.

A fala de Rabelo foi contestada pela gestora de educação no município de Oliveira (MG), Andrea Pereira da Silva, que representou a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). E também pela vice-presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Joana Angélica Guimarães, reitora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

“Não há como fazer educação remota, porque a maioria dos alunos não tem computadores e nem acesso à internet. E o direito à educação pressupõe o direito à vida: Não podemos fechar os olhos a todos os problemas nas escolas que impedem um retorno seguro. E os recursos para isso são insuficientes”, disse Andrea. O veto do presidente Jair Bolsonaro à Lei da Conectividade, que prevê recursos para compra de tablets e acesso à banda larga deverá ser apreciado no Senado nesta próxima semana.

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Governo e apoiadores de Bolsonaro querem a reabertura das escolas Foto: Agência Senado

Aulas presenciais

Joana afirmou que as universidades vêm se preparando para o retorno às aulas. Já há aulas presenciais em alguns cursos em diversas instituições, ao passo que avança o ensino híbrido. Mas quaisquer medidas requerem investimentos, enquanto o setor enfrenta cortes orçamentários e recursos em patamares iguais aos de 2004. “Essa discussão é muito importante. Educação é essencial. Mas não há vacinas para todos. E pensar em um retorno fica muito difícil com grande redução de recursos. Esta é a grande questão”.

A crítica ao retorno e ao PL que o determina foram criticados ainda pela deputada Professora Dorinha Seabra Rezende (DEM-TO), relatora do PL 2.949/2020, do retorno seguro. “Precisamos construir condições para que escolas funcionem para receber os alunos”, disse, destacando a situação de quase metade delas. Segundo dados oficiais, 49% sequer tem água, carteira e pátio para atividades externas. Já muitas outras chegam a ter a circulação de 1.500 alunos.

A senadora Zenaide Maia (Pros-RN) fez coro à fala de Dorinha: “Quem lida com educação está mais do que consciente do papel da escola além do ensino, da socialização e também na segurança alimentar de grande parte de alunos – pilares estes que foram apropriados pelos defensores da reabertura das escolas. E questionou a importância do PL em discussão. “Paula (Belmonte), com todo respeito, não há necessidade desse PL para melhorar a educação. A gente já sabe o que precisa para o retorno: vacinação”.

PL do retorno seguro

Iniciativa do senador Jean Paul Prates (PT-RN), a audiência ouviu ainda, entre outros palestrantes, o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Heleno Araújo. O dirigente pediu a aprovação do “PL do retorno seguro” e a derrubada dos vetos no PL da Conectividade . “O PL 5.595 nos leva à infecção e morte.”

Também manifestou-se o professor da Faculdade de Educação da USP, Daniel Cara, que pediu ao Senado mudanças no PL 5.595 aprovado na Câmara. Entre elas, retirar a menção da educação presencial como serviço ou atividade essencial. E inserir que o retorno presencial deverá ser quando for seguro do ponto de vista epidemiológico. “Reitero a necessidade de o Senado fazer as alterações necessárias e encaminhe no sentido de construir um retorno seguro às atividades presenciais nas escolas brasileiras”

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Este texto foi publicado inicialmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Universidade de Oxford promove webinário para discutir as crises climática e da COVID-19 no Brasil sob o governo Bolsonaro

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Em 2020, o Brasil registrou o maior nível de desmatamento na Amazônia em 12 anos. Esse aumento preocupante está relacionado ao desmantelamento de importantes políticas e regulamentações ambientais, à redução ou congelamento de recursos para a proteção das florestas e de suas populações tradicionais, e às propostas de legalização da ocupação privada de terras públicas.

O país está agora sob pressão crescente devido à Covid-19, que causou o pior colapso do sistema de saúde da história brasileira  A pandemia da COVID-19 já causou mais de 400.000 mortes de brasileiros, o segundo maior número de mortes causadas pela pandemia no mundo.

O Brasil também enfrenta crises econômicas e de fome. Um estudo lançado recentemente constatou que mais da metade da população vive com algum nível de insegurança alimentar.

Junte-se a nós neste webinar de uma hora e meia para discutir como os brasileiros foram profundamente afetados por este momento catastrófico e conecte-se com o trabalho e as reflexões de organizações ambientais e escritores no Reino Unido.

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Palestrantes:
– Adriana Ramos, Coordenadora de Políticas e Leis do Instituto Socioambiental (ISA), membro coordenador do Observatório do Clima
– Douglas Belchior, professor de História, fundador da Uneafro Brasil, membro da Coalizão Negra pelos Direitos do Brasil e do Fundo Brasil de Direitos Humanos
– Eliane Brum, jornalista, escritor e documentarista brasileiro, colunista do El País
– Erika Berenguer, Pesquisadora Associada Sênior do The Environmental Change Institute, membro da Amazon Brazilian the Sustainable Amazon Network
– Jay Griffiths, escritor britânico premiado, autor de ‘Wild, an Elemental Journey’, ‘Kith: The Riddle of the Childscape’, e agora lançando ‘Why Rebel?’
– Niki Mardas, Diretora Executiva da Global Canopy
– Sonia Guajajara, líder indígena brasileira, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

Mediada por Jonathan Watts, Editor de Meio Ambiente Global da Guardian. Hospedado pela Global Canopy e pelo Oxford Centre for Tropical Forests.

Haverá interpretação ao vivo para inglês e português.

Os interessados em se increver neste evento, podem clicar [Aqui!].

Em editorial, revista Nature aponta Brasil e Índia como exemplos do custo humano de se marginalizar a ciência

Os governos que ignoram ou atrasam a ação de acordo com os pareceres científicos estão perdendo uma oportunidade crucial de controlar a pandemia

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Um centro de atendimento COVID-10 em Nova Delhi. A Índia tem registrado 400.000 casos e mais de 3.500 mortes por dia de COVID-19. Crédito: Imtiyaz Khan / Agência Anadolu / Getty

Na semana passada, o número total de mortos no Brasil no COVID-19 ultrapassou 400.000. Na Índia, a pandemia está ceifando cerca de 3.500 vidas todos os dias e gerou uma resposta global, com ofertas de oxigênio, ventiladores, leitos de terapia intensiva e muito mais. Embora esses dois países estejam separados por milhares de quilômetros, as crises em ambos são o resultado de falhas políticas: seus líderes falharam ou demoraram a seguir os conselhos dos pesquisadores. Isso contribuiu para uma perda inescrupulosa de vidas.

A maior falha do Brasil é que seu presidente, Jair Bolsonaro, caracterizou erroneamente o COVID-19 como uma “gripezinha” e se recusou a seguir os conselhos científicos na definição de políticas , como impor o uso de máscaras e limitar o contato entre as pessoas.

Os líderes da Índia não agiram tão decisivamente quanto era necessário. Eles têm, por exemplo, permitido – e, em alguns casos, encorajado – grandes reuniões. Essa situação não é nova. Como vimos durante a administração do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, ignorar as evidências da necessidade de manter o distanciamento físico para combater o COVID-19 tem consequências catastróficas. Os Estados Unidos registraram mais de 570.000 mortes pela doença – ainda o maior número de mortes COVID-19 do mundo em termos absolutos.

Como relata a Nature em um artigo da World View , os líderes da Índia tornaram-se complacentes depois que os casos diários de COVID-19 atingiram um pico de quase 96.000 em setembro antes de diminuir lentamente – para cerca de 12.000 no início de março. Durante esse tempo, as empresas reabriram. Seguiram-se grandes reuniões, incluindo protestos contra as polêmicas novas leis agrícolas que trouxeram milhares de agricultores às fronteiras de Nova Delhi. Os comícios eleitorais e as reuniões religiosas também continuaram durante os meses de março e abril.

Dificuldades de acessar dados

E a Índia tem outros problemas. Uma é que não é fácil para os cientistas acessarem os dados da pesquisa do COVID-19. Isso, por sua vez, os impede de fornecer previsões precisas e conselhos baseados em evidências ao governo. Mesmo na ausência de tais dados, os pesquisadores alertaram o governo em setembro passado para ser cauteloso quanto ao relaxamento das restrições do COVID-19 ( Lancet 396 , 867; 2020 ). E no início de abril, eles avisaram que uma segunda onda poderia ver 100.000 casos COVID-19 por dia até o final do mês.

Em 29 de abril, mais de 700 cientistas escreveram ao primeiro-ministro Narendra Modi, pedindo melhor acesso a dados como resultados de testes COVID-19 e desfechos clínicos de pacientes em hospitais (consulte go.nature.com/3vc1svt ), bem como um programa de vigilância do genoma em grande escala para identificar novas variantes (consulte go.nature.com/3vd7fak ). No dia seguinte, Krishnaswamy Vijayraghavan, o principal assessor científico do governo, reconheceu essas preocupações e esclareceu as maneiras pelas quais pesquisadores de fora do governo podem acessar esses dados. Essa medida foi bem recebida pelos signatários da carta, mas eles disseram à Nature que alguns aspectos do acesso aos dados permanecem obscuros.

Uma carta de protesto não deveria ser necessária em primeiro lugar. Ao se identificar, os signatários correram um risco: no passado, o governo Modi não reagiu bem à organização de pesquisadores para questionar suas políticas. Dois anos atrás, uma carta de mais de 100 economistas e estatísticos instando o fim da interferência política nas estatísticas oficiais não foi bem recebida pelas autoridades. A carta foi escrita após a renúncia de altos funcionários da Comissão Nacional de Estatística da Índia sobre o que consideraram uma interferência no momento da divulgação dos dados do governo .

Nunca é bom quando as comunidades de pesquisa têm um relacionamento difícil com seus governos nacionais. Mas isso pode ser fatal no meio de uma pandemia – quando as decisões precisam ser rápidas e baseadas em evidências. Ao colocar seus cientistas de lado, os governos do Brasil e da Índia perderam uma oportunidade crucial de reduzir a perda de vidas.

Durante uma pandemia, todos nós precisamos que nossos governos tenham sucesso. No entanto, é difícil tomar boas decisões rapidamente, ainda mais com informações incompletas – é por isso que os dados de saúde precisam ser precisos e acessíveis a pesquisadores e médicos. Negar ou ocultar esse acesso corre o risco de prolongar a pandemia.

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Este editorial foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista Nature [Aqui!].

Com 1.192 mortos pela COVID-19, Campos vive misto de relaxamento de regras de isolamento,falta de vagas de UTI e caos na vacinação

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As notícias da manhã desta 4a. feira (12/05) sobre a situação da pandemia da COVID-19 em Campos dos Goytacazes mostra um momento, no mínimo, contraditório.  Após se alcançar o total de 1.192 mortos, a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes decidiu relaxar as regras  de confinamento social e ampliou os horários de funcionamento de uma série de atividades comerciais.  Ao mesmo tempo, apareceu a notícia de que a unidade preferencial para tratamento de doentes com COVID-19 atingiu sua lotação máxima ao receber 17 pacientes apenas em um dia, o que obrigou a distribuição dos casos adicionais para outras unidades de saúde do município.

Por outro lado, noto com alguma perplexidade que o critério para o relaxamento das regras de isolamento social teria sido exatamente a existência de vagas em Unidades de Terapia Intensiva especializadas em COVID-19!

Finalmente, eu gostaria de saber por que o critério para relaxar as regras de isolamento não está sendo a taxa de contaminação em vez da disponibilidade de vagas de UTI. É que o nível de contaminação é que determina qual é o estoque potencial de UTIs de que se necessitará nas próximas semanas.

Enquanto isso, a campanha de vacinação contra a COVID-19 aparece imersa uma situação que beira o caos, especialmente no tocante ao oferecimento da segunda dose da Coronavac. 

Daí é que eu pergunto: essa é realmente a hora de relaxar?

Estudo sobre o Hantavírus mostra que a restauração de florestas pode reduzir o risco de doenças zoonóticas

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  • Cientistas brasileiros descobriram que a transmissão do Hantavírus, uma infecção mortal, poderia ser reduzida em 45% se o Brasil restaurasse sua Mata Atlântica aos níveis exigidos por sua Lei de Proteção da Vegetação Nativa.
  • O hantavírus, transmitido pelo contato com roedores infectados, pode se tornar mais prevalente em uma paisagem quando as florestas são derrubadas e as populações de roedores aumentam.
  • Embora as simulações do estudo devam ser confirmadas por estudos de campo, esta pesquisa inicial mostra que a redução do risco de doenças zoonóticas por meio da restauração florestal é promissora.
Por  Anna Nordseth para o Mongabay News

A pandemia de COVID-19 trouxe as doenças zoonóticas para os holofotes globais de uma forma que nada fez por um século, embora as zoonoses – doenças transmitidas entre humanos e animais – sempre representaram uma ameaça à saúde pública. A pandemia de coronavírus, no entanto, nos forçou a confrontar a conexão entre a saúde humana e a ambiental e as dolorosas consequências do rompimento dessa relação.

A pesquisa já ligou o desmatamento ao aumento do risco de doenças zoonóticas, descobrindo que, à medida que o habitat é perdido, a dinâmica ecológica não é mais tão adepta da regulação de doenças. Mas a restauração de florestas pode nos proteger de doenças zoonóticas? Possivelmente, diz um estudo recente liderado por Paula Ribeiro Prist, pesquisadora da EcoHealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos com sede em Nova York.

Simulações feitas por Prist e colegas descobriram que a restauração da Mata Atlântica do Brasil poderia diminuir a prevalência da síndrome cardiopulmonar por hantavírus, uma doença zoonótica altamente letal, ao reduzir as populações de pequenos mamíferos que abrigam a doença. A equipe concluiu que, se as florestas forem restauradas aos níveis exigidos pela legislação brasileira, a transmissão do hantavírus pode ser reduzida em até 45% na região mais populosa do Brasil.

Para ver como a restauração florestal pode impactar a prevalência de doenças zoonóticas, Prist e seus colegas aproveitaram os dados de abundância de roedores em áreas florestadas e desmatadas em todo o estado de São Paulo. A equipe usou esses números para estimar a prevalência do hantavírus em um cenário de negócios como de costume versus os níveis de restauração exigidos pela Lei de Proteção da Vegetação Nativa do Brasil.

“Este foi o primeiro estudo que abordou [doenças zoonóticas e restauração] em áreas tropicais”, disse Prist, “e pelo menos até onde sabemos, o terceiro que faz a ligação entre doenças zoonóticas e restauração em todo o mundo”.

A síndrome cardiopulmonar do hantavírus, ou hantavírus, é transmitida pela urina, fezes e saliva de roedores infectados. A transmissão aumenta quando as populações de roedores portadores são grandes e a densidade populacional é alta; as taxas tornam-se ainda mais altas quando as temperaturas aumentam localmente, o que acontece quando as florestas são cortadas ou desmatadas. O aumento da prevalência de hantavírus em roedores pode levar a surtos em populações humanas próximas. Embora o hantavírus seja altamente letal para humanos, raramente se espalha entre as pessoas. Isso significa que, embora seja improvável que inicie uma pandemia global do tipo COVID-19, ela ainda pode ser devastadora nas regiões locais.

As descobertas dos cientistas somam-se a uma lista crescente de incentivos para restaurar florestas, incluindo a Mata Atlântica.

A restauração florestal é uma das principais metas internacionais destinadas a combater a mudança climática, salvar espécies e melhorar a vida das comunidades que dependem da floresta, disse Matthew Fagan, professor da Universidade de Maryland, e colegas em um artigo na Conservation Letters . Mais notavelmente, o Bonn Challenge, iniciado pela Alemanha e pela IUCN em 2011, visa restaurar 350 milhões de hectares (865 milhões de acres) de floresta até 2030 por meio de compromissos voluntários dos países participantes.

hantavirus-miceDois dos principais reservatórios animais para a síndrome cardiopulmonar do hantavírus, o rato-pigmeu de pé preto (Oligoryzomys nigripes; acima) e o camundongo bolo de cauda peluda (Necromys lasiurus). Imagens cedidas por Thomas Puttker e Pablo Gonçalves.

A Mata Atlântica do Brasil é um ecossistema de importância global, com biodiversidade notavelmente alta e grande potencial de armazenamento de carbono. A crescente pressão humana ao longo dos séculos, porém, tem cobrado seu preço. Antes da chegada dos europeus, há 500 anos, a Mata Atlântica cobria mais de 150 milhões de hectares (370 milhões de acres) do que hoje é o leste do Brasil – uma área aproximadamente do tamanho da Mongólia. Hoje, a outrora gigantesca Mata Atlântica sustenta mais de dois terços da população brasileira, incluindo as megacidades de São Paulo e Rio de Janeiro, e perdeu mais de 90% de sua cobertura florestal nativa .

Embora a pesquisa de Prist e colegas descubra que a restauração florestal pode ajudar a mitigar o hantavírus, o conservacionista Niall McCann diz que é mais complicado na prática.

“Ecossistemas intactos com dinâmica predador-presa estabelecida regulam naturalmente o número de roedores e outras espécies que carregam doenças com alto potencial zoonótico”, disse McCann, diretor de conservação do National Park Rescue e presidente rotativo da nova organização EndPandemics. “É a complexidade desses sistemas que precisa ser protegida e restaurada, não apenas a cobertura de árvores.”

Mas mesmo com os pesquisadores pedindo mais restauração e proteção para combater as doenças, os líderes do Brasil têm eliminado as proteções florestais .

“O ‘Antigo Código Florestal’… garantiu a manutenção de florestas e outras formas de vegetação natural em áreas consideradas fundamentais, como em torno de nascentes e margens de rios”, disse Prist a Mongabay, referindo-se à legislação inovadora aprovada em 1965 que exigia que os proprietários de terras preservassem um certa porcentagem de floresta.

Em 2012, no entanto, mudanças no poder político levaram à introdução de um novo código florestal, a Lei Brasileira de Proteção da Vegetação Nativa (BNVPL). Embora o BNVPL ainda determine uma área mínima de vegetação nativa em terras privadas, ele enfraqueceu drasticamente as diretrizes do antigo código florestal, permitindo o aumento do desmatamento.

hanta 3Projetos de restauração como este são exigidos pela Lei de Proteção da Vegetação Nativa do Brasil de 2012 para recuperar florestas nativas em terras privadas na Região da Mata Atlântica. Imagem cortesia de Anazélia M. Tedesco.

A perda de floresta não é o único fator potencial de aumento do risco de hantavírus; as mudanças climáticas podem já estar piorando a situação. Um estudo de 2017 liderado por Prist e publicado em PLOS Neglected Tropical Diseases descobriu que pequenos aumentos na temperatura, mesmo sem o desmatamento da floresta, poderiam colocar mais de 30% mais pessoas em risco de contrair a doença mortal.

Prist disse que pretendem validar suas descobertas com estudos de campo em locais de restauração. Ele acrescentou que a equipe também espera desenvolver uma compreensão mais sutil de como as comunidades de animais se reagrupam à medida que as florestas são restauradas.

“Também queremos avaliar se a restauração teria o mesmo benefício de outras doenças zoonóticas aqui no Brasil, como a febre maculosa e a febre amarela”, disse Prist ao Mongabay, “e qual seria a configuração mais adequada para paisagens restauradas para prestar esse serviço . ”

A pandemia COVID-19 mostrou o quanto está em jogo quando as doenças passam dos animais para os humanos devido aos impactos nas florestas e na vida selvagem. Embora o risco de propagação de doenças zoonóticas nunca seja zero, o caso de redução potencial de hantavírus na restauração florestal no Brasil mostra que as comunidades e os governos têm agência na redução da probabilidade de transbordamento.

Citações

Fagan, ME, Reid, JL, Holland, MB, Drew, JG, & Zahawi, RA (2020). Quão viáveis ​​são os compromissos de restauração florestal global? Conservation Letters ,  13 (3), e12700. doi: 10.1111 / conl.12700

Prist, PR, Uriarte, M., Fernandes, K., & Metzger, JP (2017). Mudanças climáticas e expansão da cana-de-açúcar aumentam o risco de infecção pelo Hantavírus. PLOS Neglected Tropical Diseases ,  11 (7), e0005705. doi: 10.1371 / journal.pntd.0005705

Prist, PR, Prado, A., Tambosi, LR, Umetsu, F., de Arruda Bueno, A., Pardini, R., & Metzger, JP (2021). Mudando para paisagens mais saudáveis: A restauração florestal diminui a abundância de roedores de reservatório de Hantavírus nas florestas tropicais. Science of the Total Environment ,  752 , 141967. doi: 10.1016 / j.scitotenv.2020.141967

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo Mongabay News [Aqui!   ].

 

Direto do Restaurante Popular em Campos dos Goytacazes: cenas de uma reinauguração transformada em palanque

Como previsto a reinauguração na manhã desta 6a .feira do restaurante popular em Campos dos Goytacazes teve a presença do governador Cláudio Castro e de outras autoridades e ex-autoridades. As imagens abaixo mostram um governador contrito, provavelmente temeroso de alguma manifestação popular contra os efeitos devastadores da mega operação policial (que o jornal The Washington Post classificou como operação de guerra) na comunidade do Jacarezinho.

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Um dado curioso é que a reabertura do restaurante popular teria sido postergada por causa da pandemia da COVID-19. Entretanto, para sua reinauguração e o palanque em torno dela, a aglomeração correu mais do que solta, mesmo que se saiba que uma nova variante do Sars-Cov-2 esteja circulando neste momento na região Norte Fluminense. Em outras palavras, preocupação com aglomeração só para reabrir, mas para formação de palanque está tudo liberado.

Mas passado o momento do palanque, minha expectativa é de que a comida servida seja capaz de matar a fome do número diário prometido nos discursos de hoje. Afinal, como diz a camiseta que o governador Cláudio Castro e o prefeito Wladimir Garotinho usavam: “quem tem fome, tem pressa”.

Luiz Henrique Mandetta: uma testemunha chave na CPI da COVID-19

Mandetta desgraçou Bolsonaro na CPI da COVID-19

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Ex-Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta

Por  Peter Steiniger para o Neues Deutschland

Até ser expulso, em 16 de abril de 2020, Luiz Henrique Mandetta fazia parte do governo brasileiro como Ministro da Saúde. Na frente do comitê parlamentar da COVID-19, ele agora relata como todos os seus conselhos profissionais foram rejeitados pelo presidente Bolsonaro, que sabotou a proteção contra infecções e tentou forçar a indicação da droga mágica cloroquina para combater o coronavírus.

Mandetta nasceu em 1964 em Campo Grande, capital do estado de Mato Grosso do Sul, que faz fronteira com o Paraguai. Ele vem de um clã familiar que é influente na política local. Ele se formou em medicina no Rio de Janeiro e se especializou em ortopedia e ortopedia pediátrica na universidade local e em Atlanta nos EUA. Após o serviço militar como médico no Hospital Central do Exército do Rio, trabalhou em Campo Grande, onde foi eleito chefe da cooperativa médica da Unimed. Em 2004, Mandetta assumiu a presidência do vereador de saúde da cidade, provavelmente com a ajuda de “vitamina B”. Aqui ele conquistou mérito em campanhas de combate à dengue.

Mandetta apoiou o golpe parlamentar contra a presidente de esquerda Dilma Rousseff . A partir daí, o médico foi trocado como candidato ao cargo de governador de Mato Grosso do Sul, mas inicialmente se retirou para a vida privada.

Um lobby da política e da medicina promoveu sua nomeação como ministro a partir de 2019. Nessa função, ele manteve o bolonarismo em seu campo e se recusou a expurgar os partidos políticos. Seu sucessor, Nelson Teich, também médico, renunciou após apenas um mês . Por quase um ano, apesar da pandemia, a secretaria de saúde foi dirigida por um general que não entendia muito sobre o combate ao vírus.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

 

Vacinação suspensa por falta de doses sinaliza 3a. onda ainda mais mortal da COVID-19 no Brasil

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Como os leitores deste blog já foram informados, fui vacinado contra a COVID-19 na última 6a .feira (30/04) com uma vacina produzida pela Astrazeneca/Oxford. Após dois dias sentindo uma leve e ininterrupta dor de cabeça e dores musculares, amanheci neste domingo sem qualquer sintoma colateral.  Como ouvi narrativas de efeitos bem mais fortes do que os que tive, posso me sentir duplamente felizardo.  É que além de ter adentrado a ínfima parcela de brasileiros já vacinados contra a COVID-19, tive efeitos colaterais leves.

Mas o duro mesmo é verificar na página oficial da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes que por “falta de envio de novas doses pelo Ministério da Saúde, tivemos que suspender momentaneamente o calendário de vacinação de 1ª dose dos grupos prioritários“.  Em outras palavras, algo que já vinha ocorrendo de forma lenta pela ação negligente do governo federal, agora está temporariamente suspenso. Com isso, as possibilidades de que teremos uma terceira onda ainda mais forte de contaminações da COVID-19 em Campos dos Goytacazes, como de resto no Brasil, cresce assustadoramente (ver informe completo abaixo). 

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Não custa lembrar que o número de mortos no Brasil já ultrapassou a estratosférica quantidade de 408 mil mortos, sendo que só em Campos dos Goytacazes perdemos até o  dia em que fui vacinado 1.127 campistas, o que representa um verdadeiro desastre social, que enluta um número impressionante de famílias.

E aqui não cabe nada mais do que um forte repúdio à ação do governo Bolsonaro que tem sistematicamente sabotado as medidas de isolamento social e uso de medidas preventivas, além de ter agido para postergar a compra de vacinas, como ficou demonstrado na ação displicente em relação à oferta da vacina da Pfizer, que já se encontra aprovada pela Anvisa. Isto se falar da ação, no mínimo, peculiar que atrasando a liberação da vacina russa Sputnik V

Ainda que não seja nenhum consolo para as famílias enlutadas, a história registrará esse capítulo horrendo como algo que foi causado pela existência de um governo anti-pobre que é sustentado pelo ódio de classe e pela extrema desvalorização da vida humana.

Vacinado contra a COVID-19: momento feliz e triste. E a luta continua!

Hoje fui finalmente vacinado contra o Sars-Cov-2 nas dependências da Fundação Municipal de Esportes (FME), e dei meu passo pessoal para ser imunizado e deixar de ficar propenso aos sintomas mais graves da COVID-19. Como definiu a cantora Anitta, esse é um momento  feliz porque com a vacina, Astrazeneca por sinal, eu me coloco para mais longe dos efeitos mortíferos do novo coronavírus, mas é triste porque minha condição de vacinado está ainda dentro de uma ínfima minoria não apenas no Brasil, mas em todo o planeta.  Neste momento, por exemplo, o vírus faz sua corrida mortal em alta velocidade na Índia, com centenas de milhares de novos casos de contaminação todos os dias.

Por isso, ser vacinado para mim não é um momento de baixar a guarda, mas de me manter como alguém que procura disseminar informação de qualidade sobre a epidemia com base no conhecimento científico existente, suas causas, responsáveis pelo seu descontrole, e da necessidade de que cobremos que a cobertura vacinal seja a mais ampla possível no Brasil.  Mas não só isso, precisaremos nos manter ativos politicamente para que os crimes cometidos contra o povo brasileiro, especialmente os segmentos mais pobres e socialmente marginalizados, não fiquem impunes.

Por ora, o meu agradecimento aos profissionais da saúde de Campos dos Goytacazes e ao pessoal que atua no suporte em todas as unidades de vacinação, mas especialmente para os que me atenderam na FME onde tive um tratamento exemplar desde que me coloquei na fila. Ao contrário do que se diz, os servidores públicos brasileiros são essenciais para que se construa uma sociedade verdadeiramente democrática e livre das chagas criadas pela profunda desigualdade social que existe em nosso país.

Anvisa: que os critérios das vacinas sejam usados para os agrotóxicos

agrotoxicos

No dia de ontem, a diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu de forma unânime o uso da vacina Sputnik V , produzido pelo Instituto Gamaleya, e impediu um esforço importante para aumentar a quantidade de imunizantes disponíveis para os brasileiros. O curioso é que a Sputnik V já está sendo usada de forma ampla em diversos países do mundo, incluindo a Argentina que agora está produzindo internamente a vacina  russa. Mas é preciso lembrar que outros países com grande contingente populacional como o Paquistão e o Vietnã também estão fazendo uso da Sputnik V, sem que haja qualquer notícia de efeitos colaterais ou de baixa eficácia contra o Sars-Cov-2.

As razões levantadas pela diretoria da Anvisa são em sua maioria de natureza burocrática, causando uma reação natural dos fabricantes da Sputnik alegue que, na prática, a proibição tem um caráter político, visto que os EUA já se manifestaram claramente contra o uso da Sputnik V pelo Brasil.

Mas deixando de lado as suspeitas em torno das razões pelas quais a Sputnik V está tendo seu uso dificultado, eu me deteria na outra face desta moeda: é que a mesma Anvisa que utiliza argumentos essencialmente burocráticos para impedir que os brasileiros tenham acesso à Sputnik, liberou 1.172 agrotóxicos apenas desde o início do  governo Bolsonaro. E não custa nada lembrar que em torno dos 30% dos agrotóxicos liberados pela Anvisa estão banidos na União Europeia por ter sido apontados como causadores de uma ampla gama de impactos à saúde humana (diferentes tipos de câncer, alterações no funcionamento do sistema glandular, alterações cromossômicas, malformação de fetos, enfermidades do sistema nervoso humano, etc).

De quebra, a Anvisa fragilizou o sistema de avaliação da toxicidade humana dos agrotóxicos e aumentou o grau de tolerância para a quantidade de resíduos presentes nos alimentos e na água de consumo. Com isso, a Anvisa contribuiu para que os brasileiros estão mais expostos às consequências devastadoras de substâncias altamente tóxicos e perigosas que ela mesmo liberou.

Com isso, a minha conclusão é que precisamos cobrar da Anvisa que seus técnicos e diretores usem os mesmos critérios aplicados na aprovação de vacinas contra a COVID-19 na hora em que são avaliados os venenos agrícolas que outros países já decidiram banir em nome da segurança e da saúde dos seus habitantes.

Em suma: que as estritas regras para a liberação das vacinas que irão proteger os brasileiros da COVID-19 também sejam aplicados na hora de liberar agrotóxicos altamente tóxicos que em um futuro não muito distante se provarão ser um flagelo inclemente para a saúde dos brasileiros.