Vacina contra o coronavírus pode estar pronta para uso emergencial dentro de meses, diz especialista chinês Zhong Nanshan

Zhong Nanshan, especialista em doenças respiratórias diz que o desenvolvimento da imunidade do rebanho vai custar milhões de vidas, então a única maneira de derrotar o Covid-19 é inocular pessoas. 

Zhong  afirma que as vacinas para uso em emergências podem estar prontas até o outono, mas o uso em larga escala pode demorar até dois anos.

zhangZhong Nanshan disse que a vacina estará pronta para uso emergencial no final do ano. Foto: Xinhua

Por Zhuang Pinghui em Beijing

A China poderia ter uma  vacina para uso em emergências já neste outono, de acordo com o principal especialista em doenças respiratórias do país,  Zhong Nanshan.

A estimativa de Zhong ecoou os comentários do mês passado que foram feitos por Gao Fu, chefe do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, de que estava elaborando diretrizes para determinar quem seria elegível para receber a vacina, quando tomá-la e o que constituiria uso emergencial.

O chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, Antony Fauci, fez comentários semelhantes, dizendo que 100 milhões de doses podem estar prontas até o final do ano, mesmo antes do final dos ensaios clínicos.

Zhong disse que a “imunidade do rebanho sem intervenção não poderia ser alcançada sem um alto número de mortos, tornando a inoculação o único meio viável de obter imunidade ao rebanho“.

A imunidade natural precisa de 60 a 70% da população de um país para ser infectada pelo novo coronavírus, o que poderia causar um número de mortes de 30 a 40 milhões“, disse Zhong em um evento ao vivo realizado pelo gigante da tecnologia Baidu. “A [única] solução ainda é a vacinação em massa”.

[A imunidade do rebanho] ainda depende do desenvolvimento de vacinas. A vacinação em larga escala levará de um a dois anos. A nova vacina pode ser usada em caso de emergência já neste outono ou no final do ano.”

Cinco vacinas desenvolvidas por cientistas chineses estão passando por testes em seres humanos, de acordo com um documento oficial do governo publicado no domingo.

Uma das vacinas candidatas, desenvolvida pelo Instituto de Produtos Biológicos de Pequim, publicou seus dados pré-clínicos na revista Cell no sábado.

Os dados mostram que em macacos a vacina, que usa um patógeno inativado, induziu altos níveis de anticorpos que defendem o corpo e forneceu uma proteção altamente eficiente contra o Sars-CoV-2, o vírus que causa o Covid-19.

Os macacos foram imunizados duas vezes no dia zero e no dia 14, enquanto um grupo placebo recebeu solução salina.

No dia 24, todos os macacos foram expostos ao Sars-CoV-2.

O grupo placebo manteve uma carga viral alta durante o período de avaliação de sete dias após a exposição, mas as zaragatoas dos macacos vacinados mostraram que a carga viral atingiu o pico no quinto dia e foi significativamente menor no sétimo dia.

No sétimo dia após a exposição ao vírus, todos os animais foram sacrificados para exame patológico.

Laboratório chinês produz possível vacina contra o coronavírus ...Cinco vacinas chinesas estão passando por testes em humanos. Foto: AFP

Nenhum macaco nos grupos de baixa e alta dose apresentou carga viral detectável nos lobos pulmonares, diferentemente do grupo placebo.

“Em conjunto, todos esses resultados demonstraram que as vacinas de baixa e alta dose conferiram proteção altamente eficiente contra Sars-CoV-2 em macacos sem aumento observado da infecção dependente de anticorpos”, escreveram os pesquisadores.

Yang Xiaoming, presidente do China National Biotec Group, empresa controladora do Instituto de Produtos Biológicos de Pequim, disse ao portal de notícias Thepaper.cn no mês passado que o grupo estava se concentrando no desenvolvimento de uma vacina inativada porque era experiente nesse campo e poderia ser produzido com segurança.

Outra subsidiária, o Instituto Wuhan de Produtos Biológicos, está conduzindo testes em humanos com outra vacina inativada. O grupo construiu instalações de produção de alta biossegurança que podem produzir 200 milhões de vacinas por ano.

O grupo também está desenvolvendo vacinas que usam outras técnicas – incluindo uma vacina de proteína recombinante que usa engenharia genética – mas essas são de menor prioridade.

O especialista em vacinas de Xangai, Tao Lina, disse que diferentes tecnologias de vacinas têm suas vantagens e desvantagens e ainda é cedo para dizer que tipo de vacina estará pronta para ser usada primeiro.

“Os inativados geralmente precisam de duas ou três doses, enquanto outras tecnologias podem precisar de apenas uma dose. As vacinas que usam a tecnologia de DNA ou RNA provavelmente entrarão em ensaios mais tarde do que as vacinas inativadas, mas é mais fácil expandir a capacidade de produção para elas ”, disse Tao.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “South China Morning Post” [Aqui!].

Mais de 70 entidades assinam nota contra ocultação de dados da COVID-19 pelo governo Bolsonaro

ocultação

A nota foi divulgada nesse domingo, 7 de junho,  pela SBPC e pela ABC. “Repudiamos qualquer omissão ou deturpação de dados relativos à covid-19. A subtração e a manipulação de dados não mudam a realidade. E não aliviam o peso de milhares de mortes sobre aqueles que preferirem a ficção à ação, abdicando de seu dever de proteger a saúde da população”, escrevem as entidades

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), divulgaram nesse domingo, 7 de junho uma nota contra a ocultação de dados da covid-19 pelo governo. Até o momento, o documento foi subscrito por mais de 70 entidades e instituições de todo o País.

Na carta, as entidades alertam que a atitude do atitude do Governo Federal em não revelar os dados da pandemia permite a manipulação das informações sobre a evolução da doença no Brasil, além de impedir o correto acompanhamento e contenção do vírus que já infectou centenas de milhares de pessoas e levou dezenas de milhares à morte.

“Repudiamos qualquer omissão ou deturpação de dados relativos à COVID-19. A subtração e a manipulação de dados não mudam a realidade. E não aliviam o peso de milhares de mortes sobre aqueles que preferirem a ficção à ação, abdicando de seu dever de proteger a saúde da população”, escrevem as entidades.

O documento foi encaminhado ao Ministério da Saúde (MS), à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (SCTIE) do MS, ao Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), ao Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e ao Conselho Nacional de Saúde (CNS).

Leia a carta na íntegra:

NOTA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E DA SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA SOBRE A OCULTAÇÃO DOS DADOS DA COVID-19

Na noite de sexta feira, 5 de junho de 2020, foi retirado o acesso ao portal do governo federal que divulga os dados diários da COVID-19. O referido portal foi reaberto no sábado, 6 de junho de 2020, contendo informações reduzidas, com a justificativa de adoção de nova sistemática de contabilização de casos e óbitos causados pela doença.

A atitude do Governo em não revelar os dados da pandemia permite a manipulação das informações sobre a evolução da COVID-19 no país e impede o acompanhamento e a contenção da doença que tem afetado centenas de milhares de brasileiros. Um cenário de desinformação contribui para que a população se sinta abandonada à sua própria sorte. A ocultação de dados prejudica também a programação para volta de atividades e circulação de pessoas, impactando o planejamento econômico para a saída da recessão, e atenta contra a imagem do Brasil no exterior.

Os dados epidemiológicos são fundamentais para esse planejamento e impactam não somente o conhecimento da evolução da doença no país, mas também no exterior, pois são coletados por instituições  como a tradicional universidade John Hopkins dos Estados Unidos e o Imperial College do Reino Unido. É inaceitável a omissão dos dados sobre a pandemia

É, portanto, indispensável e urgente que sejam restabelecidas a transparência e a clareza na divulgação dos dados, em tempo real, para toda a população e para o mundo, condição necessária para o enfrentamento dessa terrível pandemia. Só assim será possível, a partir da análise científica baseada em dados confiáveis, sair da crise e reduzir o número de vítimas.

Repudiamos qualquer omissão ou deturpação de dados relativos à COVID-19. A subtração e a manipulação de dados não mudam a realidade. E não aliviam o peso de milhares de mortes sobre aqueles que preferirem a ficção à ação, abdicando de seu dever de proteger a saúde da população.

Rio de Janeiro, 7 de junho de 2020

Ildeu de Castro Moreira

Presidente da SBPC

 Luiz Davidovich

Presidente da ABC

Veja o documento aqui.

 

Além da SBPC e da ABC, subscrevem o documento as seguintes entidades:

Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP)

Academia Pernambucana de Ciências (APC)

Associação Brasileira de Antropologia (ABA)

Associação Brasileira de Bioinformática e Biologia Computacional (AB3C)

Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação (ABECO)

Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP)

Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas (ABCF)

Associação Brasileira de Cristalografia (ABCr)

Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM)

Associação Brasileira de Engenharia e Ciências Mecânicas (ABCM)

Associação Brasileira de Estatística (SBE)

Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED)

Associação Brasileira de Etnomusicologia (ABET)

Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

Associação Brasileira de Limnologia (ABLimno)

Associação Brasileira de Linguística (Abralin)

Associação Brasileira de Mutagênese e Genômica Ambiental (Mutagen-Brasil)

Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (ABRAPEC)

Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor)

Associação Brasileira de Química (ABQ)

Associação Nacional de História (ANPUH)

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (ANPARQ)

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP)

Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL)

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS)

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED)

Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE)

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR)

Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF)

Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação (COMPÓS)

Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE)

Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação (SOCICOM)

Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FESBE)

Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC)

Sociedade Astronômica Brasileira (SAB)

Sociedade Brasileira de Automática (SBA)

Sociedade Brasileira de Biofísica (SBBfis)

Sociedade Brasileira de Biologia Celular (SBBC)

Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq)

Sociedade Brasileira de Computação (SBC)

Sociedade Brasileira de Ecotoxicologia (ECOTOX-Brasil)

Sociedade Brasileira de Eletromagnetismo (SBMAG)

Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos (SBEC)

Sociedade Brasileira de Farmacognosia (SBFGnosia)

Sociedade Brasileira de Física (SBF)

Sociedade Brasileira de Fisiologia (SBFis)

Sociedade Brasileira de Fisiologia Vegetal (SBFV)

Sociedade Brasileira de Genética (SBG)

Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC)

Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE)

Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI)

Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI)

Sociedade Brasileira de Inflamação (SBIN)

Sociedade Brasileira de Matemática (SBM)

Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC)

Sociedade Brasileira de Microbiologia (SBM)

Sociedade Brasileira de Microeletrônica (SBMicro)

Sociedade Brasileira de Micro-ondas e Optoeletrônica (SBMO)

Sociedade Brasileira de Microscopia e Microanálise (SBMM)

Sociedade Brasileira de Ornitologia (SBO)

Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP)

Sociedade Brasileira de Parasitologia (SBP)

Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat)

Sociedade Brasileira de Pesquisa Operacional (SOBRAPO)

Sociedade Brasileira de Protozoologia (SBPz)

Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP)

Sociedade Brasileira de Química (SBQ)

Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT)

Sociedade Brasileira de Virologia (SBV)

Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB)

União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc-Brasil)

Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE)

Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (ECOECO)

Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO)

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Esta matéria foi inicialmente publicada pelo jornal eletrônico da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) [Aqui!].

Ruas lotadas, vendas baixas… e o vencedor é o coronavírus

A imagem abaixo mostra uma multidão ocupando uma rua central da cidade de Campinas (SP), após a decretação do fim do isolamento social pela Prefeitura Municipal comandado por Jonas Donizete (PSB).

rua lotada campinas

Lojistas entrevistados pelo jornal A Cidade mostraram um resultado heterogêneo, mas houve comerciante que ficou desapontado com o baixo nível de vendas. É que, segundo um lojista entrevistado, a maioria das pessoas que estava no centro de Campinas nesta segunda-feira foi lá para passear e não comprar.

Em cerca de duas semanas (que é o tempo de leva para o coronavírus completar o seu ciclo mortal) é muito provável que Campinas esteja com um alto número de mortes pela COVID-19. É que o alto nível de infecção que inevitavelmente ocorreu hoje, já que a liberação do comércio campineiro se deu em um momento de elevação da curva, resultará em muitos óbitos.

Os culpados para a tragédia que está sendo montada com a abertura precoce na maioria das cidades brasileiras serão os governantes que estão optando por abrir espaço para a ampla disseminação de um vírus letal em troca sabe-se lá do que.

Felizmente no Rio de Janeiro, um juiz que honra a toga, o meritíssimo Bruno Bodart da 7a. Vara de Fazenda Pública, suspender partes dos decretos que relaxavam o isolamento social no estado e município do Rio de Janeiro.  Co m isso, o juiz Bruno Bodart está salvando milhares de vidas, pois, como se viu em Campinas, toda a confusão criada acerca da letalidade da COVID-19 terminou criando um ambiente social que beira a anomia. 

Maquiagem estatística na divulgação dos dados da COVID-19 foi ideia de Luciano Hang, o “véio da Havan”

O novo método do governo de Jair Bolsonaro para esconder os  mortos da Covid-19 tem como referência a sugestão feita pelo dono da rede Havan, Luciano Hang, braço direito do ocupante do Planalto e também investigado pela PF no inquérito das Fake News

bolso véio

Luciano Hang, Jair Bolsonaro e Cemitério Vila Formosa, em São Paulo (Foto: Reprodução | REUTERS/Amanda Perobelli)

247  – O novo método do governo de Jair Bolsonaro para esconder os cadáveres da Covid-19  é baseado em sugestões dadas por Luciano Hang, dono da Rede Havan, que enviou aos militares da cúpula da Saúde um vídeo por Whatsapp, informa reportagem do portal Valor Econômico. 

No vídeo, Hang promete fazer uma live com o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) para “mostrar o que está por trás dos números” recorde de mortes pela covid-19. Hang exibe, então, uma gráfico com dados de cartórios mostrando uma curva de óbito sem trajetória descendente. Assim, defende que o governo passe a publicar apenas as mortes confirmadas no mesmo dia. Segundo funcionários da Saúde, no entanto, a curva mostrada por Hang é descendente “porque os dados de mortes recentes são muito preliminares”.

A reportagem ainda acrescenta que, sob o comando do general Eduardo Pazuello e aparelhado por militares nomeados a mando de Jair Bolsonaro, o Ministério da Saúde pressiona inclusive a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que produz relatórios internos para informar o presidente, para maquiar dados e esconder o número real de mortos pelo coronavírus.

Saiba mais

Jair Bolsonaro divulgou neste sábado uma nota do Ministério da Saúde que oficializa uma política de menor transparência na divulgação dos dados de mortes e contágio por coronavírus no Brasil. 

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo portal “Brasil 247” [Aqui!].

Em plena pandemia, atos públicos contra o governo Bolsonaro ocorrem em todo o Brasil. A democracia brasileira respira

wp-1591565026599.jpgTomada aérea do ato público em defesa da democracia em Brasília.   Foto: Ricardo Stuckert.

Encarando uma pandemia letal, ameaças de truculência policial e pedidos de intelectuais tensos com a possibilidade de um golpe militar, milhares de pessoas saíram às ruas de cidades brasileiras neste domingo em defesa da democracia (ver cenas do ato realizado em Brasília).

Ainda que não seja possível realizar um balanço definitivo em termos numéricos, especialmente na comparação daqueles que saíram às ruas nos últimos meses para defender o fechamento do congresso nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), o que temos no Brasil é uma situação alvissareira, pois depois de quase um ano e meio de contenções e recuos,  aparecem os primeiros sinais de que haverá reação de massas ao “não projeto”  do governo Bolsonaro (que é só um governo de negações e não de proposições para resolver a grave crise econômica, política e sanitária que temos no Brasil neste momento).

Ato antirracismo na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio Foto: Bruno MarinhoAto em defesa da democracia na Avenida Presidente Vargas na cidade do Rio de Janeiro. Foto: Bruno Marinho

Um dos aspectos mais óbvios dos atos do dia de hoje é que a maioria deles (a exceção foi no Rio de Janeiro onde a Polícia Militar usou da usual força excessiva contra os manifestantes em um aparente esforço de diminuir a afluência aos atos que acabaram ocorrendo em diferentes pontos da cidade) transcorreu de forma pacífica, sem uma intervenção truculenta das forças policiais, como temia o cientista político Luiz Eduardo Soares (abaixo uma imagem do ato realizado no Largo da Batata em São Paulo mostrando os cantores rap Mano Brown, Thaíde e Dexter)

wp-1591565295544.jpgMano Brown, Thaíde e Dexter participam do ato público no Largo da Batata em São Paulo.

Ainda que seja cedo para fazer maiores análises sobre o porquê da aparente tranquilidade dos atos de hoje, eu me arriscaria a dizer que muito disso teve a ver com a ação desastrada do Ministério da Saúde que criou uma espécie de vazio informacional sobre a situação da pandemia da COVID-19, e colocou o governo Bolsonaro sobre uma pressão cada vez maior perante a maioria da população no tocante à qualidade da gestão realizada para evitar o avanço desenfreado do coronavírus no Brasil.

Esse novo desgaste não só empurrou mais gente para protestar contra o governo federal para as ruas, como também inibiu parte da truculência que se dizia estava preparada para ocorrer, inclusive abrindo as portas para um golpe militar segundo Luiz Eduardo Soares.

O avanço da pandemia e o aumento do número de mortos ainda colocará muita pressão não apenas sobre o governo federal, mas também sobre governadores e prefeitos que decidirem relaxar o isolamento social em um momento em que a curva de contaminação continua em franca ascendência.

Por mais arriscado que tenha sido para os participantes dos atos de hoje, o fato é que essa coragem de enfrentar o vírus e as ameaças de truculência mostra que, como eu já disse aqui, o jogo em defesa da democracia continua sendo jogado. E como mostram as cenas nos EUA e em outras partes do mundo, é bem possível que os opositores do governo Bolsonaro saiam rapidamente da posição defensiva para outra mais questionadora do estado de coisas que vige neste momento no Brasil.

Desmatamento na Amazônia explodiu porque a pandemia deixou a vigilância manca

Um aumento no desmatamento ilegal aumenta o risco de incêndios na floresta tropical brasileira ainda mais destrutivos do que aqueles que provocaram indignação global em 2019.

desmata 0Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Por  Ernesto LondoñoManuela Andreoni e 

As consequências da pandemia exacerbaram a degradação ecológica desencadeada pelas políticas do governo de Bolsonaro , que favorece a expansão do desenvolvimento comercial na Amazônia e vê as regulamentações ambientais como um obstáculo ao crescimento econômico. Mas alguns funcionários de carreira ainda estão trabalhando para fazer cumprir as proteções ambientais.

Estima-se que 464 milhas quadradas de cobertura  vegetal na Amazônia foram cortadas de janeiro a abril, um aumento de 55% em relação ao mesmo período do ano passado e uma área aproximadamente 20 vezes maior que Manhattan, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (Inpe), a agência governamental que rastreia o desmatamento com imagens de satélite.

Já no ano passado, o desmatamento na Amazônia atingiu níveis nunca vistos desde 2008.

Ao mesmo tempo, o coronavírus matou mais de 34.000 pessoas no Brasil, que agora está registrando o maior número diário de mortes no mundo. Também alimentou a polarização política e dominou as manchetes e os debates sobre políticas nos últimos meses, eclipsando o aumento dos danos à floresta tropical.

desmata 4Pessoas que usavam máscaras no mês passado em São Paulo por causa da pandemia de coronavírus.Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que apóia a flexibilização da regulamentação ambiental por Bolsonaro, disse no final de abril que viu a pandemia como uma oportunidade de reduzir as restrições enquanto a atenção estava concentrada em outros lugares.

“Precisamos nos esforçar aqui durante esse período de calma em termos de cobertura da imprensa, porque as pessoas estão apenas falando sobre Covid”, disse ele durante uma reunião do gabinete em 22 de abril. Um vídeo da reunião foi tornado público.

As declarações, que Salles disse mais tarde que se referiam a seus esforços para simplificar a burocracia, levaram os promotores federais a pedir uma investigação sobre o que eles disseram que resultou em abandono do dever.

A associação que representa os trabalhadores ambientais do governo emitiu uma declaração chamando Salles de “criminoso” que está “esvaziando” seu próprio ministério.

As ações de execução da principal agência de proteção ambiental do país, o Instituto Brasileiro de Recursos Naturais e Renováveis, ou Ibama, caíram acentuadamente durante 2019, primeiro ano de mandato de Bolsonaro, de acordo com um documento da agência obtido pelo The New York Times.

Em 2019, o Ibama registrou 128 casos de crimes ambientais, uma queda de 55% em relação ao ano anterior. A quantidade de madeira extraída ilegalmente apreendida pela agência caiu quase 64% de 2018 a 2019, de acordo com o documento.

desmata 3Agentes do Ibama durante uma ação de fiscalização perto de Rio Pardo no ano passado. Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Funcionários do governo e ativistas ambientais dizem que o aumento do desmatamento está sendo impulsionado pelo senso predominante entre madeireiros e mineiros ilegais de que derrubar a floresta tropical acarreta um risco mínimo de punição e produz recompensas significativas.

O governo Bolsonaro demitiu três altos funcionários do Ibama em abril, depois que a agência realizou uma grande operação visando mineradores ilegais no estado do Pará, no norte.

Em maio, um oficial da lei de uniforme foi agredido por madeireiros ilegais no Pará depois que um caminhão com madeira foi interceptado. Depois que uma pequena multidão atacou o agente, um dos madeireiros o atingiu no rosto com uma garrafa de vidro, de acordo com um vídeo do incidente.

No final de maio, o governo transferiu a supervisão das reservas naturais federais do Ministério do Meio Ambiente para o Ministério da Agricultura, abrindo caminho para o desenvolvimento comercial em áreas protegidas.

O governo também está defendendo iniciativas legislativas que dariam títulos de posse de posse de posse de terras na Amazônia e em outros biomas.

desmata 2A extração de madeira, legal e ilegal, é uma grande indústria no Brasil.Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Aproximadamente 50% da cobertura de árvores perdidas durante os primeiros quatro meses deste ano foram em terras públicas, segundo o Ipam Amazônia, uma organização de pesquisa ambiental. Ane Alencar , diretora de ciências do Ipam Amazônia, disse que grande parte da destruição é de pessoas que esperam ser reconhecidas como donas legítimas da terra.

“Vejo o oportunismo alimentando a ilegalidade, pois as pessoas se aproveitam da fragilidade do momento em que vivemos, tanto política quanto economicamente”, disse ela. “Essa crise de coronavírus também está se transformando em uma crise ambiental.”

Eduardo Taveira, o principal funcionário ambiental do estado do Amazonas, disse que os madeireiros ilegais, que geralmente se esforçam para evitar serem multados e ter seus equipamentos destruídos por agentes federais, estão operando mais abertamente do que nos anos anteriores.

“Há uma sensação de que o governo está focado apenas no combate ao coronavírus, então esse tipo de atividade ilegal está acontecendo com mais ousadia do que nos últimos anos”, disse ele.

desmata 1Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Depois que o governo do Brasil foi criticado pelos incêndios no ano passado, Bolsonaro mobilizou as forças armadas para apagá-las e impedir que novas fossem colocadas. Isso deixou grande parte da terra limpa em 2019 pronta para ser queimada este ano.

“Isso significa que as áreas que foram cortadas no ano passado, mas não foram queimadas, podem ser queimadas este ano”, disse Haliuc, o promotor federal. Para piorar a situação, acrescentou, este ano foi mais seco que 2019, aumentando o risco de chamas controladas se transformarem em incêndios.

As organizações criminosas parecem estar fazendo investimentos significativos para expandir as operações, acrescentou Haliuc, com base em dados de vendas para o tipo de escavadeira usada para abrir caminhos na floresta densa.

Temendo uma nova onda de condenação internacional, o governo Bolsonaro enviou em maio alguns milhares de soldados para a Amazônia e encarregou-os de impedir crimes ambientais por 30 dias.

desmatamentoCrédito: Victor Moriyama para o New York Times

“Não queremos que o Brasil seja retratado na frente do resto do mundo como um vilão ambiental”, disse o vice-presidente Hamilton Mourão quando a iniciativa foi lançada.

Em uma declaração por e-mail, o Ministério da Defesa disse que havia dedicado 3.800 militares, 11 aeronaves, 11 barcos e 180 veículos para apoiar a missão. A operação, segundo ele, “demonstra claramente a firme determinação do Brasil em preservar e defender a Amazônia”.

Ativistas ambientais dizem que são bem-vindos a qualquer aumento na fiscalização, mas a maioria vê a operação militar como uma manobra de relações públicas que não mudará a trajetória do desmatamento ou levará à punição das pessoas-chave que conduzem a destruição.

O histórico do Brasil em questões ambientais durante a era Bolsonaro desencadeou boicotes às exportações brasileiras e ameaça a implementação de um acordo comercial entre a União Européia e quatro países da América do Sul.

Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira de Agronegócios, disse que a falta de controle sobre o desmatamento criminoso pode ser trágica para seu setor.

“Embora exista uma barreira clara entre o bom agro e essas pessoas, a imagem sempre se mantém no agronegócio”, disse ele. “Isso trará prejuízos para nós.”

Adriano Karipuna, líder indígena do estado de Rondônia, onde o desmatamento ilegal aumentou, disse que sua comunidade se sente cada vez mais vulnerável.

“Eles lançam uma grande operação, mas é apenas para divulgá-la”, disse ele. “Eles nunca realmente prendem ninguém.”

Karipuna disse que a facilidade com que madeireiros e mineiros ilegais estão destruindo a floresta está colocando comunidades indígenas remotas – incluindo tribos isoladas – em grave perigo.

“Essa dinâmica pode desencadear um genocídio ao espalhar o coronavírus dentro das áreas indígenas”, disse ele. “O governo brasileiro será responsável se isso acontecer.”

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo “The New York Times” [Aqui!]

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Levantamento global da “Der Spiegel” coloca Brasil no grupo dos países com curva de contaminação em ascensão

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Curva de contaminação do Brasil calculada pelo European CDC entre 18 de março e 07 de junho de 2020.

A prestigiosa revista alemã “Der Spiegel” publicou hoje em seu caderno de Ciências, um levantamento do comportamento da curva de contaminação por coronavírus em escala planetária, e dividiu os países em 4 situações possíveis : Sinken (Queda),  Sinken Stark (Queda forte), Steigen (Ascensão), Steigen Stark  (Ascensão Forte) and Konstant  (Constante).

O Brasil, apesar da tentativa de desaparecimento dos dados que vem sendo feita pelo Ministério da Saúde, aparece no grupo de países que se encontram com a curva de contaminação em ascensão, com uma taxa de 15% de novos casos diários (ver figura abaixo).

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Legendas: Sinken (Queda), Sinken Stark (Queda Forte), Steigen (Ascensão), Steigen Stark  (Ascensão Forte) and Konstant  (Constante).

Por outro lado, é importante notar que outros países como  Inglaterra, Itália, Perú e Alemanha estão colocados como estando com a curva de contaminação em queda. Já Estados Unidos e Rússia estão com a curva em estado constante, o que indica proximidade do pico de contaminação. Já a Índia está no mesmo comportamento do Brasil e a uma taxa maior de novos casos de contaminação.

Um país que não está na figura, mas que aparece na versão completa da tabela, e que apresenta pergil de Ascensão Forte é a Suécia, que foi, por um tempo, apresentada pelo governo Bolsonaro como exemplo de país que não adotou o isolamento social e teve um comportamento considerado excelente.  A questão é que agora a Suécia apresenta um perfil semelhante de ascensão aos apresentados por África do Sul e Equador, dois países com economias de pior nível de desenvolvimento (ver figura abaixo).

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Suécia que não adotou o isolamento social agora é palco de uma forte ascensão dos novos casos de contaminação por coronavírus

Mas voltando ao Brasil, os dados da Der Spíegel mostram que definitivamente não é o momento de governadores e prefeitos adotarem medidas de afrouxamento do isolamento social. É que o ritmo atual de 15% de casos novos pode atingir rapidamente os níveis que estão ocorrendo em países com ritmo de ascensão forte como é o caso da antes tão decantada Suécia.

Sociedade Brasileira de Infectologia repudia falta de transparência nos dados sobre a COVID-19

enterroAté a manhã deste domingo (07/06) o Brasil contabiliza 676.494 infectados e 36.044 mortos pela COVID-19

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) se somou à onda de indignação causada pela decisão do Ministério da Saúde em relação à divulgação dos dados confirmados de infecção e de óbitos por COVID-19 no Brasil, e lançou uma nota pública de repúdio no dia de ontem (ver abaixo).

 

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Segundo a SBI,  a nova forma de divulgação dos dados da COVID-19,  “somente com informações epidemiológicas confiáveis será possível a avaliação das medidas atuais e o planejamento de ações para combater a propagação do novo coronavírus, que vem causando danos avassaladores no mundo e especialmente no Brasil.

A nota de repúdio da SBI vai ao encontro das declarações da presidente Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade Lima que afirmou que ” a divulgação de dados do coronavírus é tão vital quanto uma vacina”.

Resta saber agora o que fará o Ministério da Saúde, mas uma coisa é certa: o estrago na reputação do Brasil já foi feito, e não é pequeno. Afinal, que tipo de governo tenta esconder dados que são estratégicos no controle de uma pandemia letal? Provavelmente um que está destinado a ser alijado das principais decisões que venham a ser tomadas no mundo nos próximos anos.

Mandetta usa termos duros para definir decisão do governo Bolsonaro de mudar divulgação dos dados da COVID-19

mandettaPara o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a decisão de mudar a divulgação dos dados da COVID-19 seria resultado de uma mentalidade militar que prioriza promoções.  Imagem: Andressa Anholete/Getty Images

Em entrevista que deverá ter amplas repercussões políticas no Brasil e no mundo, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, imputou à ala militar do governo Bolsonaro, as decisões que resultaram nas mudanças de estratégia do Ministério da ?Saúde para a divulgação de dados da pandemia da COVID-19.

Em termos particularmente duros, Mandetta afirmou que pessoas ligadas à carreira militar, e não à Saúde, priorizam outro tipo de abordagem, “que chegue às suas promoções por atos de bravura ou de lealdade extrema, mesmo que burra e genocida“. 

É importante notar que até agora o uso da palavra “genocida” (ou ainda de “genocídio”) estava restrita a menções indiretas para se referir à gestão errática da pandemia da COVID-19, sem que ninguém do porte de um ex-ministro da Saúde do próprio governo Bolsonaro tivesse tido a disposição de proferir isso em público.

Ao fazer isso, Luiz Henrique Mandetta deu uma imensa contribuição para aprofundar a crise política no Brasil, na medida em que ele colocou em xeque a capacidade técnica dos membros das forças armadas que hoje ocupam cargos estratégicos dentro do Ministério da Saúde, a começar pelo general Eduardo Pazuello, uma espécie de ministro interino permanente da Saúde.

Como Mandetta fez uma série de afirmações particularmente duras contra a estratégia de divulgação dos dados da COVID-19 pelo governo Bolsonaro, é bem provável que ele o fez de caso pensado, já que não é conhecido por ter um temperamento explosivo, ao menos em público.

Assim, se as manifestações programadas pela oposição para este domingo precisavam de um ingridiente a mais, Mandetta acabou de fornecer um bem agudo.

CONASS repudia acusação de manipulação de dados sobre COVID-19 feita por Carlos Wizard

wizard 1Recém-empossado no cargo de secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, o milionário Carlos Wizard, é alvo de carta de repúdio do CONASS por causa da sugestão de que os dados de óbitos pela COVID-19 são falsos.

O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), Alberto Beltrame (que é secretário estadual de Saúde do Pará), publicou nota oficial onde repudia com “veemência e indignação” as afirmações do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard, de que os dados  sobre óbitos decorrentes da  COVID-19 estariam sendo falsificados em busca de mais “orçamento” do governo federal ( ver imagem abaixo).

nota oficial Conselho Nacional dos Secretários de Saúde.

A nota afirma que Carlos Wizard,  “além de revelar sua profunda ignorância sobre o tema, insulta a memória de todas aquelas vítimas indefesas desta terrível pandemia e suas famílias“, produz uma “tentativa autoritária, insensível, desumana e antiética de dar invisibilidade aos mortos pela COVID-19“.

A nota do CONASS enfatiza que a tentativa  do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde não prosperará, pois as vítimas não será esquecidas, e,  tampouco a tragédia que se abate sobre o Brasil.

O CONASS afirma ainda que Carlos Wizard “ofende Secretários, médicos e todos os profissionais da saúde que têm se dedicado incansavelmente a salvar vidas” e, que ao fazer isso,  ele “menospreza  a inteligência de todos os brasileiros, que num momento de tanto sofrimento e dor, veem seus entes queridos mortos tratados como “mercadoria”.

Finalmente, a nota afirma que a declaração de  Wizard é “grosseira, falaciosa, desprovida de qualquer senso ético, de humanidade e de respeito, merece nosso profundo desprezo, repúdio e asco“.