Pesquisadores da UENF convidam para pesquisa sobre animais de companhia em tempos de pandemia

pets

Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), que é liderado pelos professores Enrique Medina-Acosta e Isabel Candia Nunes da Cunha,  está realizando uma pesquisa científica sobre a saúde dos animais de companhia (PETs) durante e após a pandemia da COVID-19.

Para participar, basta preencher um formulário online que visa explorar a elegibilidade dos interessados para ser parte da pesquisa científica em questão.

Os pesquisadores informam que responder o questionário toma um total aproximado de 3 minutos.

O link do  formulário online  é https://bit.ly/2Z4OaLe

Para maiores informações acesse o site do  projeto no sentido endereço eletrônico: https://sites.google.com/a/uenf.br/petcovid19/

Usando proteômica, pesquisadores alemães da Universidade de Frankfurt identificam ponto fraco do coronavírus

Ao estudar as alterações provocadas em células, cientistas alemães encontraram vulnerabilidade do Sars-CoV-2. Substâncias já existentes conseguiram impedir a replicação do micro-organismo, e duas delas estão sendo testadas em humanos

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Com roupas de proteção, cientistas trabalham em laboratório de alta segurança na Alemanha: empresas interessadas na realização de testes clínicos(foto: AFP / JENS SCHLUETER)
Por Paloma Oliveto para o Correio Braziliense
O aparentemente invencível Sars-CoV-2, causador da COVID-19, também tem seus pontos fracos. Para conhecê-los, pesquisadores da Universidade Goethe e do Hospital Universitário de Frankfurt, ambos na Alemanha, fizeram observações detalhadas do processo pelo qual o vírus infecta as células humanas. Eles descobriram brechas que podem ser alvo de medicamentos já existentes. Em um artigo publicado na revista Nature, os autores relatam que uma empresa canadense iniciou testes clínicos baseados no resultado do estudo. Outra companhia, norte-americana, também prepara os primeiros ensaios em seres humanos.
No início de fevereiro, antes de a COVID-19 ser considerada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), virólogos da Universidade de Frankfurt começaram a cultivar células infectadas pelo Sars-Cov-2 para estudá-las. A primeira linhagem foi produzida a partir de amostras retiradas do cólon de indivíduos infectados em Wuhan, cidade chinesa considerada o berço do novo coronavírus.
Poucos meses antes, a Universidade de Goethe havia desenvolvido uma técnica baseada em espectrometria de massa, capaz de calcular a taxa da síntese de proteína dentro de uma célula. Usando esse método, as duas instituições passaram a estudar, em detalhes, como o micro-organismo altera os processos naturais celulares para benefício próprio.
Assim, os pesquisadores conseguiram visualizar a progressão da infecção por Sars-CoV-2. E, dessa forma, descobriram os pontos fracos. De acordo com os pesquisadores, ao entrar no organismo do hospedeiro, os micro-organismos usam o maquinário das células para se reproduzirem. A maioria dos vírus, ao fazer isso, “fecha a fábrica” de proteínas do infectado, em benefício próprio. Contudo, o novo coronavírus não age assim.
O estudo mostrou que, quando a célula é infectada pelo Sars-CoV-2, ela continua produzindo suas proteínas, embora, agora, também as virais. Com esse conhecimento, os pesquisadores conseguiram reduzir significativamente a reprodução do micro-organismo, usando substâncias conhecidas como inibidores da tradução, que interromperam a produção de proteínas do coronavírus. Outra molécula, que impede a produção dos blocos construtores do RNA viral, também foi capaz de brecar a multiplicação do Sars-CoV-2.
Produção
Antes de publicar o estudo na Nature, os pesquisadores disponibilizaram o manuscrito on-line à comunidade científica, uma prática comum desde o início da pandemia. Com isso, companhias interessadas em produzir medicamentos contra a COVID-19 começam a usar os resultados em estudos. “Tanto a cultura da ‘ciência aberta’, na qual compartilhamos nossas descobertas científicas o mais rápido possível, quanto a colaboração interdisciplinar entre bioquímicos e virologistas contribuíram para esse sucesso. Em menos de três meses, foram reveladas novas abordagens terapêuticas para a COVID-19”, comemora Ivan Dikic, diretor do Instituto de Bioquímica da Universidade de Frankfurt.


A proteômica das células hospedeiras infectadas com SARS-CoV-2 revela possíveis alvos da terapia. Início acima: Projeto experimental, as células foram infectadas com SARS-CoV-2 e as alterações no proteoma da célula hospedeira e nas proteínas virais foram monitoradas ao longo do tempo. Esquerda abaixo: Aumento das proteínas virais SARS-CoV-2 ao longo do tempo. Direita abaixo: Alterações nos aglomerados de biossíntese de ácidos nucléicos após infecção por SARS-CoV-2.
Entre as substâncias que interromperam a reprodução viral no sistema de cultura celular, está a 2-desoxi-D-glicose (2-DG), que interfere diretamente no metabolismo de carboidratos necessário para o processo. A empresa americana Moleculin Biotech tem uma substância chamada WP1122, uma pró-droga semelhante à 2-DG.
Recentemente, a companhia anunciou que está preparando um ensaio clínico com essa molécula, com base nos resultados de Frankfurt. Outra molécula testada pelos pesquisadores alemães é a ribavirina, que está sendo utilizada em um ensaio clínico com 50 pessoas, conduzido pela canadense Baush Health Americas.
“Graças à tecnologia que desenvolvemos, fomos capazes de rastrear, pela primeira vez, as alterações celulares ao longo do tempo, após a infecção. O fato de que nossas descobertas, agora, podem desencadear imediatamente mais estudos in vivo com o objetivo do desenvolvimento de drogas é incrível”, comenta Christian Münch, chefe do Grupo de Controle de Qualidade de Proteínas do Instituto de Bioquímica II e principal autor do estudo. “Além disso, também existem outros candidatos potencialmente interessantes entre os inibidores testados, alguns dos quais já foram aprovados para outras indicações.”
“O uso bem-sucedido de substâncias que são componentes de medicamentos já aprovados para combater o Sars-CoV-2 é uma grande oportunidade na luta contra o vírus”, disse, em nota, Jindrich Cinatl, do Instituto de Virologia Médica de Frankfurt. “Essas substâncias já estão bem caracterizadas e sabemos como são toleradas pelos pacientes, razão pela qual existe atualmente uma busca global por esses tipos de compostos. Na corrida contra o tempo, nosso trabalho agora pode dar uma importante contribuição sobre quais direções devem levar mais rapidamente ao sucesso”, assinalou.
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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal Correio Braziliense, e teve científico material adicionado para ampliar a clareza do seu conteúdo [Aqui! ].

Caos ambiental e descontrole da COVID-19 transformam o Brasil e os brasileiros em párias mundiais

Enterros triplicam, e cemitério de Manaus abre valas comuns para ...A transformação do Brasil no principal epicentro da pandemia da COVID-19 terá efeitos devastadores na sua já debilitada imagem internacional

Há algum tempo comecei a alertar que os inúmeros retrocessos ocorridos na frágil governança ambiental construída a duras penas por sucessivas governos iriam transformar o Brasil em uma espécie de pária ambiental no resto do mundo.  Em 2019 vimos uma sucessão de manifestações acerca dos incêndios devastadores que ocorreram na Amazônia graças ao afrouxamento da governança ambiental e das estruturas de comando e controle que impediam o avanço desenfreado de madeireiros e garimpeiros ilegais sobre as florestas protegidas na forma de unidades de conservação e terras indígenas.  

Aos incêndios na Amazônia ainda se somou o alarme no tocante à aprovação frenética de agrotóxicos altamente perigosos pelo governo Bolsonaro, o que resultou na sinalização da Rússia que iria parar de comprar a soja brasileira caso não fosse diminuída a quantidade de resíduos do herbicida Glifosato. Depois disso veio o anúncio da multinacional Nestlé de que suspenderia a compra de café do Brasil pelo mesmo motivo.

pesticidesA mistura de desmatamento descontrolado e uso intenso de agrotóxicos banidos  em outras partes do mundo tende a fechar mercados importantes para as commodities agrícolas brasileiras

Por cima disso ainda tivemos o incidente em Brumadinho com o rompimento de mais uma barragem de rejeitos da mineradora Vale que resultou no maior acidente de trabalho da história do Brasil, e da contaminação do Rio Paraopebas, afluente do Rio São Francisco.  Neste caso, o resultado prático foi o banimento da mineradora Vale pelo fundo soberano da Noruega, o mais rico do mundo, de seu portfólio de investimentos, o que deverá ser seguido por outros fundos de investimentos de porte similar. 

Incidente ambiental causado na mina em Brumadinho resultou no banimento da mineradora Vale pelo fundo soberano da Noruega, o maior do mundo

Pois bem, esses casos de desconstrução da governança ambiental já tinham causado um esgarçamento inédito da imagem do Brasil, e afastado investidores internacionais que retiraram do Brasil algo em torno de US$ 62 bilhões, sendo que apenas na Bolsa de Valores de São Paulo, a fuga de capitais foi de estrondosos US$ 44,5 bilhões.

Se tudo ia morro abaixo como fruto de ações do governo Bolsonaro que, para dar o devido o retorno aos segmentos que financiaram a eleição de Jair Bolsonaro, ignoraram a mudança de postura dentro das economias desenvolvidas em relação ao descuido com o meio ambiente, a coisa agora tomou area drásticos com a forma pífia de enfrentar a pandemia da COVID-19.

A verdade é que, a despeito de nuances aqui e ali, a imensa maioria dos governos mundiais adotou os protocolos sugeridos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no tocante às respostas a serem dadadas para combater a COVID-19. O Brasil, graças à forma não-científica e atabalhoada que está sendo empregada por Jair Bolsonaro e seus ministros do núcleo duro do seu governo, agora é visto como um dos poucos países (senão o único) onde a pandemia fugiu do controle do governo central. E isso por causa dos próprios vícios do chefe do executivo. Saliente-se que a coisa ainda poderia estar pior se não fosse pela ação de governadores e prefeitos que têm, limitadamente, se insurgido contra a vontade do presidente Bolsonaro, e adotado as sugestões da OMS.

China encara a fatura econômica de vencer o vírus | Economia | EL ...As ações do presidente Jair Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19 têm contribuído para destruir significativamente a imagem do Brasil no exterior

Mas agora o estrago na imagem do Brasil já se tornou evidente, e o que se vê são os governos estrangeiros tentando esvaziar suas embaixadas em Brasília. E esse desdobramento terá consequências econômicas sérias, pois se os representantes desses governos forem removidos do território brasileiro por medida de segurança, o mesmo se dará com os dirigentes das empresas multinacionais. E, pior, isso implicará em mais fuga de capitais, agravando o desequilíbrio do câmbio, o que poderá provocar uma série de desabastecimentos, já que o Brasil de depende de insumos importados para quase tudo o que é produzido por nossa indústria, a começar pela farmacêutica.

Finalmente, haverá ainda consequências sanitárias para os brasileiros que ainda conseguirem viajar para fora do país após a pandemia, seja a turismo ou a trabalho. No momento, qualquer que chega na Europa tem que passar por uma quarentena de duas semanas. Esse prazo será provavelmente será aumentado, dependendo da progressão do número de contaminados e mortos pela COVID-19 nos próximos meses. No momento, já temos mais de 220 mil casos oficiais de contaminados e beiramos a marca de 15.000 mortos Mas esses valores são claramente subestimados, e se estima que a pandemia só regredirá a partir de meados de agosto. Até lá, dependendo do que for feito pelo governo Bolsonaro, o estrago na imagem do Brasil será irreversível, e seremos objetivamente transformados por um bom tempo em párias como país e como indivíduos, e deveremos ser tratados como uma espécie de casta de intocáveis.

Enquanto isso o desmatamento avança na Amazônia (o que causará incêndios ainda maiores dos ocorridos em 2019), o ministério da Agricultura continua aprovando agrotóxicos altamente perigosos como o Fipronil e o Dicamba, e o presidente Jair Bolsonaro insiste em colocar os brasileiros de volta em postos de trabalho inexistentes,  de preferência à base de cloroquina.  O único que, apesar de “surpreso”, parece já ter aprendido alguma coisa nessa situação toda foi o Sr. Junior Durski, da hamburgueria Madero, que previu que a COVID-19 causaria “apenas” algo em torno de 7.000 mortos. É que seus restaurantes reabertos continuam entregues às moscas por causa do medo dos clientes de se contaminarem enquanto mastigam seus sanduíches caros.  A Durski, eu digo apenas….  descobriu o elementar, meu caro Watson!

Teich, o breve, honra o Juramento de Hipócrates e pede demissão

bolso teichO médico Nelson Teich cansou-se rapidamente das humilhações diárias e interferências descabidas e pediu demissão do cargo de ministro da Saúde do governo Bolsonaro

Antes mesmo de completar um mês na condição de ministro da Saúde do governo Bolsonaro, o médico Nelson Teich tomou a primeira medida honorável que eu tenho lembrança em seu curto mandato no ministério chave para qualquer país que queira seriamente debelar a pandemia da COVID-19.  É que o Ministério da Saúde acaba de informar que Nelson Teich pediu demissão, configurando o que foi uma das mais brevíssimas ocupações de uma cadeira da qual tenho lembrança em meus quase 60 anos de vida.

Surpreendentemente, Nelson Teich teve menos paciência do que Luiz Henrique Mandetta para aturar as humilhações diárias e interferências descabidas do presidente Jair Bolsonaro.

Nelson Teich deve ter calculado que seria melhor passar para a história como um médico que honrou o Juramento de Hipócrates do que um que colaborou para impor uma medicação, no caso a cloroquina, que todos os experimentos científicos sérios mostram ser de alto risco e mormente improdutivo. Em suma, melhor ser breve, do que cúmplice.

E agora sem Teich, em uma toada destrambelhada segue o governo Bolsonaro.

Instituto Alana lança série de vídeos sobre infância e tecnologia em tempos de quarentena

Especialistas analisam como é possível que os pequenos tenham uma relação saudável com a tecnologia diante do cenário atual

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A rotina familiar mudou desde o início da quarentena causada pelo COVID-19 no Brasil e no mundo. Com as crianças em isolamento social, pais, mães e responsáveis se veem imersos nas diversas demandas do dia a dia. Nesse contexto, o ambiente digital aparece como um recurso que oferece oportunidades de conexão, socialização com os amigos e familiares e aparece como um novo espaço para aprender e brincar. Para contribuir e auxiliar famílias nas relações das crianças com as telas, o Instituto Alana desenvolveu uma série de vídeos com depoimentos de especialistas, que apresentam conteúdos sobre como as famílias podem ajudar os pequenos a terem relações éticas, saudáveis e criativas com as tecnologias.

Pesquisadores e especialistas, bem como as recomendações de organizações como sociedades de pediatras, UNICEF e Organização Mundial da Saúde defendem que em uma relação saudável com a tecnologia devem prevalecer boas experiências e o respeito à privacidade e a capacidade de desconectar das crianças, reconhecendo que o universo digital também apresenta desafios que precisam ser conhecidos e cuidados. Por isso, a série busca proporcionar reflexões sobre temas relacionados à tecnologia e infância como os benefícios da tecnologia durante a quarentena, a qualidade de conteúdo, o equilíbrio entre as experiências digitais e atividades sem telas, a publicidade infantil, entre outras.

Ao todo, a série é composta por nove vídeos, que contam com a participação de especialistas do Instituto Alana: Maria Isabel Barros, pesquisadora do programa Criança e Natureza; Laís Fleury, coordenadora do programa Criança e Natureza; Livia Cattaruzzi, advogada do programa Criança e Consumo; Pedro Hartung, coordenador dos programas Criança e Consumo e Prioridade Absoluta e Raquel Franzim, coordenadora da área de Educação. A relação completa dos vídeos poderá ser vista no link .

Sobre o Instituto Alana

O Instituto Alana é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que aposta em programas que buscam a garantia de condições para a vivência plena da infância. Criado em 1994, é mantido pelos rendimentos de um fundo patrimonial desde 2013. Tem como missão “honrar a criança”.

Em entrevista Oscar Schmidt defende confinamento social e critica despreparo de Jair Bolsonaro

oscarOscar Schmidt: de eleitor convicto a crítico cáustico de Jair Bolsonaro

Oscar Schmidt é um dos atletas mais reverenciados e premiados da história do basquetebol mundial, tendo sido introduzido em pelo menos 3 salas de honra para atletas deste esporte.  A par de uma carreira esportiva que o coloca entre um pequeno número de brasileiros cuja atravessaram fronteiras nacionais, Oscar Schmidt agora entrou para outro panteão, o dos eleitores arrependidos do presidente Jair Bolsonaro.

oscar entrevista

Se Oscar Schmidt viesse a público apenas para se dizer arrependido já seria ruim para um presidente que se cada vez mais isolado e dependente dos seus ministros militares para continuar no cargo.  Mas hoje em entrevista à jornalista Patrícia Calderón do site UOL, Oscar ofereceu uma das mais cáusticas avaliações da atuação de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil, em especial na sua forma de tratar a pandemia da COVID-19.

Entre outras coisas, Oscar Schmidt afirmou que é “incrível como o presidente do meu país se mostra tão despreparado para o cargo que caiu no colo dele”. Essa frase sintetiza um corolário de críticas que são feitas por alguém que, não apenas votou em Jair Bolsonaro, mas cuja influência pessoal levou a que milhares de outros brasileiros fizessem a mesma opção.

Além disso, como alguém que pode ser facilmente rotulado como um “direita raiz”, Oscar Schmidt oferece a possibilidade do aumento do descolamento de segmentos da população que se alinharam com por Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Não esqueçamos ainda que Oscar Schmidt tem uma gênese familiar dentro das forças armadas e pratica um gênero de patriotismo que o faz uma espécie de sujeito adorável em amplos segmentos das forças armadas.

Por isso, seria equivocado apenas ironizar o arrependimento de Oscar Schmidt como se ele tivesse sido um eleitor qualquer.  A crítica pública e feita de forma cáustica como foi deve ter aumentado as preocupações palacianas em torno da sustentação política de um presidente que, como o próprio Oscar Schmidt frisou, se mostra tão despreparado para o cargo que caiu no colo dele.

E o pior para Jair Bolsonaro que vem tentando recrutar a nata do dinheiro do Brasil para quebrar o confinamento social adotado para conter a disseminação do coronavírus, a entrevista de Oscar Schmidt é uma espécie de ode a adoção deste tipo de medida, e motivo maior do seu abandono do presidente que ajudou a eleger.

Capitão anti-coronavírus arriscou sacrificar carreira, mas salvou comandados

crozierO capitão do SS Theoredore Roosevelt, Brett Crozier, discursando para seus comandados antes de ser removido por denunciar a contaminação da tripulação pelo coronavírus

No dia de hoje, o general da reserva e atual vice-presidente da república, Antonio Hamilton Martins Mourão publicou hoje um artigo no jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”  sob o título de Limites e responsabilidades” que parece um daqueles arrazoados escritos no (ou sobre o) manicômio onde atuava o Dr . Simão Bacamarte do célebre “O Alienista” de Machado de Assis.  É que em linguagem sincopada, o vice-presidente desfere ataques para todos os lados, mas esquece de nos dizer que mais de 70% dos brasileiros já concluíram, qual seja, que o maior problema da pandemia reside no ex-capitão que atualmente senta na presidência da república.

Mas esqueçamos um pouco daquele que muitos já chamam jocosamente de “Capitão Cloroquina” para contar a história de um outro capitão que arriscou por a pique uma ilustre carreira  para salvar os seus comandados da morte certa pela COVID-19 em face da inação do alto comando da Marinha estadunidense.  

Falo aqui do Capitão do SS Theodore Rossevelt, um porta-aviões movido a energia nuclear, Brett Crozier, que removido sumariamente do seu posto pelo agora ex-Secretário da Marinha dos EUA, Thomas Modly, após escrever uma carta denunciando a situação de catástrofe sanitária que se abatia por sua tripulação. A demissão de Crozier foi seguida por uma despedida calorosa dos seus ex-comandados (ver vídeo abaixo) e da queda em completa desgraça de Modly que, entre outras coisas, acusou o capitão de ser “frouxo” por denunciar os contornos graves que a COVID-19 havia tomado dentro do SS Theodore Roosevelt. 

O mal estar que decorreu da forma pela qual o Capitão Crozier foi removido do seu posto por optar pela saúde dos seus comandados, mesmo colocando em risco um posto difícil de ser ocupado na Marinha dos EUA,  vem se prolongando desde o dia 03 de Abril quando ele saiu do SS Theodore Roosevelt sob os aplausos da sua tropa. 

É que Brett Crozier passou a ser visto como um líder em tempos de pandemia, uma espécie de “Capitão anti-coronavírus”. E isso em um país que tende a elevar os seus chefes militares à posição de semideuses, ter um Brett Crozier sendo visto como um injustiçado não pegou nada bem, dentro e fora das tropas. 

Agora, já se sabe que Brett Crozier foi apontado para um posto na Base Aérea e Naval de San Diego no sul da Califórnia, em uma espécie de exílio momentâneo, antes que seja retornado ao posto que era seu no SS Theodore Roosevelt.

A questão que proponho aqui é que verdadeiros líderes militares estão mais para Brett Crozier do que para Jair Bolsonaro.  É que líderes são aqueles que se colocam em posições de tomar posições duras em prol não apenas dos seus comandados, mas dos cidadãos que as forças militares são criadas para proteger.  E não é isso que estamos vendo no Brasil, pois toda o proselitismo em prol da volta ao trabalho que o ex-capitão, e hoje presidente faz, passa ao largo do conhecimento científico e do que propõe as autoridades sanitárias da OMS, e dos governos de estados e municípios.

Ao se negar a aceitar o óbvio e a realidade factual, e insistir em algo que até Donald Trump teve que aceitar,  Jair Bolsonaro,  indo no caminho exatamente oposto do trilhado por Brett Crozier, está colocando o Brasil no rumo de uma grande catástrofe humana, econômica e política. E sobre isso, nem ele ou o seu vice-presidente, poderão se eximir de responder pelo que está por ocorrer. 

A verdade é que o Brasil precisaria urgentemente de ter um Brett Crozier entre seus oficiais mais graduados, o qual mostrasse a seus comandados e a população que a hora é grave e que precisa que seus líderes esteja à altura de produzir as respostas que ela requer. Em tempo: no momento que concluo esta postagem, o Brasil já conta 196.375 infectados e 13.555 mortos pela COVID-19.

 

A floresta tropical como presa

Madeireiros e fazendeiros continuam a penetrar na floresta tropical e a devastar mais áreas do que nunca. O presidente Bolsonaro até quer legalizar a apropriação de terras griladas – também às custas dos povos indígenas.

serraria humaitáMais de duas vezes mais áreas desmatadas do que em 2019: serraria perto da cidade de Humaitá, no sul do estado do Amazonas.  (Foto: Ueslei Marcelino / Reuters)

Não se sabe muito sobre os Ituna-Itatá. A comunidade indígena vive em auto-isolamento voluntário nas profundezas da floresta amazônica brasileira. Quantas pessoas pertencem ao grupo étnico é amplamente desconhecido; você nem sabe o que os Ituna-Itatá se chamam. Com todas essas ambiguidades, uma coisa é certa: o habitat de Ituna-Itatá está sob séria ameaça.

A área em que vivem é de 142.000 hectares. Floresta intocada até onde os olhos podem ver, pelo menos é essa a teoria, afinal a Terra Indígena Ituna-Itatá está protegida. Pessoas de fora só podem entrar na área com uma permissão especial. No entanto, a realidade é diferente. Imagens da organização ambientalista Greenpeace mostram florestas em chamas e fumaça sobre as copas das árvores. O Greenpeace documentou a destruição com voos e mapas. Somente no ano passado, 12.000 hectares de floresta foram destruídos. Isso faz de Ituna-Itatá um triste recordista como a área indígena mais destruída no Brasil em 2019, mas também um exemplo particularmente drástico de um desastre natural causado pelo homem.

A situação da floresta amazônica tem sido difícil nos últimos anos, mas a situação piorou novamente após a crise mundial da coroa. Enquanto a atenção do mundo está focada no combate ao vírus que se espalha, lenhadores, garimpeiros e fazendeiros estão penetrando mais profundamente na floresta amazônica. Em janeiro, fevereiro, março e abril deste ano,  imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) documentaram a limpeza de cerca de 1.200 km2 de floresta. Mais do que nunca, desde que a coleta de dados começou em 2015 e um aumento de mais de 50% em comparação a 2019; também foi um ano ruim para a  floresta tropical .

Desde que assumiu o cargo no início do ano passado, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fez pouco para impedir a destruição. Ele vê um tesouro na Amazônia que deve finalmente ser criado. O político de extrema direita deseja usar a região economicamente, especialmente para a poderosa indústria agrícola. Bolsonaro também deve sua ascensão aos barões da carne e soja, agora ele deve retribuir o favor, com novas áreas para gado e campos. Além disso, os operadores de minas desejam os tesouros que estão adormecidos sob as raízes dos gigantes da selva.

Leis de proteção ambiental têm sido continuamente enfraquecidas por Bolsonaro e seu gabinete, e agências de proteção enfraquecidas. As conseqüências dessa política logo se tornaram aparentes: milhares de hectares de floresta pegaram fogo em meados do ano passado, densas nuvens de fumaça escureceram até cidades distantes como São Paulo. O mundo ficou assustado. Porque a floresta amazônica é enorme, mas também extremamente frágil. Se a floresta continuar sendo cortada, todo o ecossistema poderá tombar, a floresta se tornará uma savana – com consequências imprevisíveis para toda a humanidade.

O coronavírus pode acabar com grupos inteiros de povos indígenas

Ambientalistas, pesquisadores e políticos, portanto, deram o alarme. Houve protestos contra os incêndios e até boicotes aos produtos brasileiros. O presidente Bolsonaro relutou em agir. Ele proibiu por 60 dias a queima de áreas florestais na floresta tropical e enviou tropas, com sucesso, a limpeza diminuiu, as chamas se apagaram. Mas assim que os soldados voltaram para o quartel, os madeireiros e fazendeiros começaram tudo de novo, sem diminuir.

O governo brasileiro reagiu no início deste ano. No início desta semana, ela ordenou tropas para proteger a floresta na região amazônica. Ao mesmo tempo, no entanto, toda uma série de leis e iniciativas devem ser aprovadas que representam uma ameaça maciça à floresta e às pessoas que vivem nela. Um projeto visa permitir que as empresas explorem minerais e extraiam petróleo nas regiões indianas sem que os povos que vivem lá tenham uma opinião maior. Ao mesmo tempo, a autoridade do estado para a proteção dos povos indígenas introduziu novos regulamentos que facilitam a obtenção de títulos legais para ocupantes de terras em áreas indígenas. E, finalmente, há a “MP 910”, um decreto emitido por Bolsonaro em dezembro que fornece uma espécie de anistia para piratas na Amazônia. Embora uma continuação tenha sido removida da agenda do Congresso brasileiro nesta semana após muitos protestos, Bolsonaro continuará tentando converter o decreto em lei. Porque o momento é favorável. Quem está interessado na legalização de pastagens e campos ocupados ilegalmente em tempos de pandemia?

O Brasil  foi o primeiro país da América Latina a ser diagnosticado com COVID-19. Para não enfraquecer a economia, o governo ainda não emitiu uma quarentena em todo o país, Jair Bolsonaro descreveu o vírus como uma gripe e chamou os governadores, que impuseram toque de recolher como assassinos de emprego. A situação agora é dramática, atualmente existem quase 180.000 casos registrados oficialmente e mais de 12.000 pessoas já morreram. O patógeno está se espalhando cada vez mais rápido e há muito tempo chegou à região amazônica. Lá ele atingiu principalmente a metrópole de Manaus, as pessoas mortas são enterradas em valas comuns, o sistema de saúde entrou em colapso, e há uma preocupação crescente de que a pandemia também possa levar à extinção em massa as comunidades indígenas de todo o Brasil.

Quando madeireiros e garimpeiros penetram cada vez mais profundamente em áreas como Ituna-Itatá, eles não trazem apenas motosserras e gasolina como aceleradores de incêndio, mas também patógenos como o coronavírus.  Esses patógenos podem se espalhar rapidamente em comunidades tradicionalmente coexistentes, e grupos e comunidades inteiros podem ser eliminados quando forasteiros levam a COVID-19 para suas áreas, diz Carolina Marçal, do Greenpeace. O governo brasileiro não apenas desviaria o olhar, como também facilitaria o trabalho de ladrões de terra, lenhadores e garimpeiros. “Bolsonaro é um criminoso e deve ser detido”, diz Marçal, para o bem do povo, mas também para o bem da floresta.

De fato, no final, foram principalmente os membros das comunidades tradicionais que protegeram a floresta com violência armada, mas também pressionando as autoridades a defender seus direitos especiais. Agora, no entanto, mais e mais pessoas estão se retirando cada vez mais fundo nas florestas por medo de infecção pelo coronavirus. Madeireiros e garimpeiros agora estão agindo livremente em muitas áreas. Eles não parecem temer o coronavirus, e há muito tempo perceberam que não precisam ter medo do governo, que deveria proteger as áreas indígenas e as que as florestas que existem nelas.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo jornal “Süddeutsche Zeitung” que está sediado na cidade de Munique [Aqui!]. 

Brasil deve registrar quase 90 mil mortes por Covid-19 até agosto, diz estudo nos EUA

O Brasil deve registrar cerca de 88,3 mil mortes por Covid-19 até o dia 4 de agosto deste ano. O número está no novo relatório do Instituto para Métrica e Avaliação de Saúde (IHME, na sigla em inglês) da Escola de Medicina da Universidade de Washington, divulgado nesta quarta-feira (13). 

hospital santo andréOs pacientes afetados pelo coronavírus são tratados em um hospital estabelecido em uma academia em Santo André, São Paulo, Brasil, em 11 de maio de 2020. AFP

Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

O documento inclui ainda projeções para oito estados do país, os primeiros a registraram mais de 50 casos. São Paulo deve ser o ente da federação mais afetado, com quase 39 mil óbitos e o Paraná o mais poupado, com menos de 250.

O cenário pode ser mais ou menos desolador, a depender dos desdobramentos desta crise no país. A projeção é feita com base em uma espécie de fotografia do momento.

Como esses números são calculados por estatísticas matemáticas e consideram uma série de variáveis que serão atualizadas frequentemente, eles levam em conta uma faixa de flutuação. Isso quer dizer que, na melhor das hipóteses, o país poderá contar neste período indicado pelo estudo 30,3 mil mortos pelo novo coronavírus, e 193,8 mil, na pior.

“Desafio assustador”

“As projeções do IHME para o óbitos no Brasil indicam claramente que sistema de saúde público do país está enfrentando um desafio assustador”, disse o diretor do instituto, Christopher Murray. “O nosso objetivo ao anunciar esses dados é informar às autoridades que determinam as políticas para que possam agir e se mobilizar para lidar com a Covid-19”, completou.

Murray afirma que outros estados do país devem ser acrescentados ao estudo e reitera que as estimativas do IHME serão revistas na medida em que novos dados forem incorporados e analisados pelas pesquisas. O Brasil teve 11.519 mortes pelo novo coronavírus contabilizadas oficialmente até terça-feira, quando o número de casos chegava a 168.331.

O estudo destaca ainda a preocupação com a falta de recursos necessários para que o país possa lidar com a pandemia. Estima que o Brasil tem um déficit de mais de 3.000 leitos de tratamento intensivo, número que deve crescer ao longo da crise. A falta de leitos deve afetar os estados de maneira diferente. Segundo o IHME, só no Amazonas faltavam 1.000 leitos de tratamento intensivo até terça-feira, assim como em São Paulo.

O documento também apresenta estimativas para os outros países da região mais afetados pelo vírus: México (6,8 mil; com faia de 3,6mil a 16,8 mil) Peru (6,4 mil; com faixa de 2,7 mil a 21,7 mil) e Equador 5,2 mil; com faixa de 4,8 mil a 6,1 mil). Feito com a ajuda da Organização Panamericana de Saúde e a rede de colaboradores do IHME, que já somam mais de 5 mil pessoas em 150 países.

“É importante para os países e regiões olharem com atenção a capacidade dos hospitais, recursos necessários, e a atual trajetória dos casos do novo coronavírus. A epidemia na América Latina está acontecendo depois da Europa. É hora de sermos vigilantes, acompanhar os dados e implementar as medidas de saúde pública relevantes”, disse o diretor-assistente da organização, Jarbas Barbosa.

Projeções

O instituto ainda atualizou as projeções que já havia feito para os óbitos nos Estados Unidos em 147 mil. Trata-se de 10 mil mortes a mais do que esperava há alguns dias.

As projeções do IHME de mortes por Covid-19 em oito estados brasileiros*:

· São Paulo: 36.811 óbitos (Faixa de 11.097 a 81.774)

· Rio de Janeiro: 21.073 óbitos (Faixa de 5.966 a 51.901)

· Pernambuco: 9,401 óbitos (Faixa de 2.468 a 23.026)

· Ceará: 8.679 óbitos (Faixa de 2.894 a 18.592)

· Maranhão: 4.613 óbitos  (Faixa de 868 a 12.661)

· Bahia: 2.443 óbitos (Faixa de 529 a 8.429)

· Paraná: 245 óbitos (Faixa de 170 a 397)

Fonte: IHME (*os dados são projetados até 4 de agosto de 2020)

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Rede França Internacional [Aqui!].

Trabalho docente e ensino a distância nas escolas privadas

“A delinquência acadêmica caracteriza-se pela existência de estruturas de ensino em que os meios (técnicas) se tornam fins, e os fins formativos são esquecidos(…).” Maurício Tragtenberg

covid ead

Por Andréa L. Harada Sousa para o LeMonde Diplomatique Brasil

Covid-19 e escolas privadas

A necessidade de distanciamento social imposta pela pandemia de coronavírus se impôs também na educação. Desde o dia 23 de março, as aulas foram interrompidas nas escolas públicas e privadas do estado de São Paulo, e algumas escolas particulares já tinham suspendido aulas na semana anterior.

A suspensão das aulas é uma medida drástica do ponto de vista pedagógico e dos sentidos mais amplos da educação: rompem-se processos de ensino-aprendizagem em andamento, suspende-se a interação e a vivência propiciadas pelo ambiente escolar e toda sua complexidade, desmonta-se a rotina de estudantes e de suas famílias, para citar alguns elementos. Posto isso pretendo discutir aqui o trabalho de professoras e professores, bem como alguns efeitos colaterais das medidas adotadas. 

Com a interrupção das aulas e o fechamento das escolas privadas, houve um deslocamento da escola para dentro da casa dos estudantes, mais precisamente para a tela de seus computadores e celulares. Escolas privadas, em sua maioria, disponibilizaram plataformas, sistemas, aplicativos e redes que pudessem simular alguma normalidade nesse período. 

Embora a repercussão em torno da eficiência da escola privada em prover alternativas diante da crise tenha sido grande e entusiasmado diferentes mercadores educacionais interessados em aproveitar a oportunidade para a ampliação de um mercado (de programas e serviços educacionais mediados por tecnologias) potencializado pela crise, há um aspecto fundamental na transferência da escola e de seus saberes para as casas de estudantes: o trabalho de professoras e professores. 

Da tela pra cá é diferente: a rotina de professores durante a interrupção das aulas

Professores e professoras são fundamentais e indispensáveis nesse processo. Parece óbvio. Assim como parece óbvio que a tecnologia aplicada à educação básica não pode prescindir do trabalho de professores e professoras. Mas não é. Escolas que adotaram atividades remotas com uso de tecnologias educacionais durante essa crise parecem sugerir que a tecnologia espontaneamente executa o trabalho pedagógico. 

Repentinamente, professores e professoras viram suas casas transformadas em estação de trabalho para produção de conteúdos, aulas-online e atendimento remoto para que a “escola” pudesse continuar funcionando na casa e na tela dos estudantes. Visando oferecer uma solução rápida aos seus clientes, que supostamente viabilizasse a continuidade das atividades pedagógicas, as escolas estimularam o ensino a distância. Não houve tempo suficiente e tampouco planejamento para essa mudança. 

Essa alteração abrupta trouxe consigo problemas imediatos para os docentes:  adaptação a novas linguagens e ferramentas, suporte para aulas, necessidade urgente de criar diferentes estratégias pedagógicas, providenciar equipamentos adequados a essa nova demanda, disponibilizar canais pessoais para esclarecer dúvidas e desenvolver outro repertório, superando inclusive dificuldades subjetivas, para momentos de interação virtual. Sem ignorar os problemas enfrentados pelos estudantes, que também são vários, muitos docentes ao relatarem seu cotidiano de trabalho constatam que da tela pra cá é diferente.

Muitos professores passaram a vivenciar uma realidade dramática, para além de toda a crise deflagrada pela Covid-19. Alguns – experientes e habituados com a sala de aula – não conseguiam gravar aulas (uma professora com vinte anos de experiência me disse que tentara por 5 horas gravar uma aula, mas que ela tinha dificuldades com a câmera); outros perceberam que sua jornada tinha se alongado demais após a interrupção das aulas, obrigando-os a trabalhar muito mais para alimentar os diversos recursos tecnológicos adotados pelas escolas, preparar novas abordagens e atender alunos, além do trabalho habitualmente realizado: preparar aulas, corrigir atividades e provas.

Dois outros elementos compõem esse cenário: maior cobrança das escolas para que os prazos sejam cumpridos, para que novos conteúdos sejam enviados e para que a máquina tecnológica “entregue” a eficiência que a escola prometeu aos seus clientes; e maior vigilância por parte das escolas e das famílias que, em alguns casos, passaram a acompanhar aulas, rompendo noção elementar do mundo trabalho docente: a liberdade de cátedra. A combinação entre pressão por produtividade e maior vulnerabilidade diante de espectadores alheios ao processo pedagógico em si também tem resultado em angústias e sofrimento psíquico, comprometendo a saúde mental dos docentes.

Já quem leciona para Educação Infantil e Fundamental I vive uma dificuldade adicional, pois crianças nessas faixas etárias dependem ainda mais da intervenção direta da professora para realização de atividades, o que tem levado algumas docentes a fazerem, além das atividades para alunos e alunas, tutoriais para os pais poderem desenvolver e aplicar atividades em casa.

Ademais, professores e professoras viram-se diante da necessidade de oferecer – eles próprios – os instrumentos para execução de seu trabalho: local adequado, computadores, fones, câmeras, cadeiras, energia elétrica, conexão de banda larga, sendo obrigados a compartilhar os custos do negócio com seus patrões. Nesse sentido, a fronteira entre casa e escola, assim como entre a vida pessoal e o trabalho foi rompida, contribuindo para uma rotina de trabalho permanentemente intensificada.

Algumas escolas rejeitam o emprego do termo EaD para designar o que ora acontece na educação privada e já começa a acontecer nas escolas públicas, preferem “escola a distância”, “atividades online” ou “educação remota” e o fazem alegando que o EaD tem uma legislação que o disciplina. O problema neste caso está longe de ser terminológico, até porque a legislação disponível sobre EaD, sobretudo no que diz respeito ao trabalho de professores e professoras, mais indisciplina que disciplina. Essa posição parece indicar o desgaste que o modelo EaD já sofre por conta do esgotamento a que conduziu cursos importantes no ensino superior, sobretudo os de licenciatura, que hoje têm quase a totalidade da oferta de vagas na modalidade a distância. Por isso sustentamos que para além da questão terminológica, está a ameaça que nos ronda.

EaD e as ameaças ao trabalho docente

Muito antes da pandemia e da crise que ela encerra, a educação básica vinha sendo objeto de interesse de grandes grupos educacionais mercantis que anunciavam sua estratégia de transferência de foco empresarial do ensino superior privado para a educação básica1. A experiência do que ocorreu nas faculdades pode nos ajudar a antever os riscos diante dos quais estamos.

Essa debandada deveu-se, especialmente, ao encolhimento do Fundo de Financiamento da Educação Superior (Fies), que restringiu o acesso dos empresários da educação ao dinheiro público que subsidiava bolsas do ensino superior. Como medida compensatória, houve o afrouxamento progressivo da legislação para oferta de cursos na modalidade “a distância” – o EaD –, que hoje supera o presencial em número de vagas.

O uso de recursos tecnológicos e o avanço do EaD no ensino superior tornaram obsoletos grandes campi, os quais viraram salas ociosas e prédios fantasmagóricos. Há muitas particularidades no ensino superior em relação à educação básica (nosso objeto, neste texto), entretanto pretendemos demonstrar que a pandemia ofereceu o contexto oportuno para que a lógica de funcionamento da educação a distância fosse testada em larga escala na educação básica, convertendo a totalidade das escolas e dos setores em um grande laboratório para sua experimentação.

Isto porque a tecnologia aplicada à educação fez crescer o interesse em diferentes recursos – de plataformas a aplicativos – defendidos por empresários, como recursos que serviriam tanto para estreitar a comunicação da escola com a família, como também para tornar mais modernos e eficientes os sistemas de ensino.

Ocorre que tais recursos encontravam resistência na educação básica. E não sem motivo.

No ensino superior, a defesa da expansão do EaD sustentou-se entre outros fatores2 em uma suposta autodidaxia por parte dos estudantes que parecia favorecer a modalidade em que o convívio, a interação e o relacionamento fossem secundários. O que não se vislumbra na educação básica, com crianças e jovens mais dependentes da interação e do relacionamento, além de a escola cumprir um papel mais universal de formação.

É certo que as tecnologias apropriadas pelo capital nos mais diferentes setores têm como pano de fundo amplos interesses neoliberais – econômicos, políticos e ideológicos – que criaram um arcabouço de estratégias de mesma matriz – a eficiência e o controle sobre os processos de produção e, para que essa ideia fosse difundida, criaram também um vocabulário correspondente que hoje ilustra a linguagem utilizada nas propagandas do EaD. Entre os conceitos que compõem esse léxico neoliberal, destaca-se a ideia de flexibilidade.

No caso da educação, a referida flexibilidade se aplica tanto à estrutura física da escola (com espaços multifuncionais), como aos currículos (que devem incorporar a autonomia dos estudantes em percursos próprios na busca pelo conhecimento) e professores (que precisam abandonar suas funções tradicionais em favor da mediação e da animação), e tem servido de substrato para a defesa da formação de indivíduos adaptáveis a diferentes mudanças do mundo contemporâneo, principalmente no mundo do trabalho.

Algumas tendências pedagógicas, antes mesmo do avanço tecnológico, reivindicavam equiparação entre ensinar e aprender e pretendiam elevar a autonomia dos estudantes (como exercício de autodidaxia precoce), ainda que mascarada genericamente pelo slogan “aprender a aprender”. Essa suposta autonomia dos estudantes tem sido também utilizada, mais recentemente, em metodologias como a chamada sala de aula invertida e reivindicado para educação processos “dinâmicos”, “disruptivos”, “integrados”, “simultâneos”, “híbridos”. Um dos problemas desses modelos pedagógicos é que eles compreendem como fundamentais os processos de aprendizagem e secundarizam o ensino como parte do mesmo processo. Resulta também daí a hipótese, ora em teste pelos mercadores da educação, de que a centralidade do professor (como categoria profissional) na educação tenha de ser redimensionada ou flexibilizada para abrigar novos interesses “modernos”.

De modo geral, as pedagogias da inovação sempre estiveram relacionadas aos “reformadores empresarias da educação” (FREITAS, 2012) que transferiam experiências do mundo corporativo, inclusive do corporativo educacional, para escolas. Daí a já conhecida influência de institutos e fundações privados na gestão da educação pública.

O que a pandemia tem a ver com tudo isso? Como dito anteriormente, a interrupção das aulas tem sido a circunstância adequada para experimentar a aplicação de recursos tecnológicos à educação. Ocorre que tais recursos, se não forem tomados como contingenciais e transitórios, poderão levar a uma desconfiguração do trabalho docente, que implica em precarização: redução do número de aulas – e, portanto, da remuneração-, intensificação do trabalho, fragmentação das atribuições docentes, perda da autonomia sobre os processos de trabalho docente e automação da educação. Não esqueçamos: até aqui, esse foi o produto do EaD no ensino superior privado no tocante ao trabalho docente. Senão, vejamos: segundo Censo da Educação Superior, entre 2008 e 2018, período de expansão dos cursos EaD, houve um crescimento de 49,7% nas matrículas no ensino superior privado. Em 2008 estas representavam 4.255.064 e, em 2018, 6.373.274, ao passo que o númeto de docentes empregados nesse setor cresceu apenas 0,48%. Em 2008 eram 209.599 e, em 2018, 210.606. Em outros termos isso significa que em 2008 eram 20,3 alunos por docente e, em 2018, 30,2 alunos (Inep, 2018).

Por isso, é claro que o EaD anima empresários que veem na tecnologia um recurso mais adequado, mais eficiente e, sobretudo, mais barato que professores e professoras. Há uma indústria educacional fabricando, há tempos, insumos e derivativos dos produtos voltados para educação. Indústria essa que já reivindica a continuidade do uso de recursos tecnológicos pós pandemia.

O problema do EaD não é apenas o uso que faz da tecnologia, mas a concepção de educação que ele engendra: uma concepção automatizada afeita a um novo tecnicismo e aligeirada que, se reduz custos, reduz qualidade igualmente. Pior ainda: retira a centralidade do professor nos processos educativos, faz dele figura assessória, o transforma em apêndice do maquinário tecnológico e precariza sua condição profissional.

Medidas provisórias e retirada de direitos de professores

A crise provocada pelo coronavírus poderia ser diferente se os governos, que devem oferecer respostas para a crise, estimulassem saídas mais consistentes que improvisadas. Mas estamos diante de um governo, cuja única resposta para a crise é mais crise, cuja preocupação central está em manter a economia e não em salvar vidas. Em proteger empresários e não trabalhadores.

Por isso, a edição das medidas provisórias 927 e 936 por Jair Bolsonaro provocam um ambiente em tudo desfavorável aos trabalhadores de modo geral e aos professores e professoras em particular. A MP 927, entre outras coisas, permitiu a divisão e a antecipação das férias dos trabalhadores, contudo as férias de professores são coincidentes com férias escolares e são coletivas. De forma apressada e diante de um cenário de incertezas quanto à duração da interrupção das aulas, muitas escolas anunciaram desde logo a antecipação: algumas para abril, outras para maio e outras ainda irão decidir se serão dois períodos de quinze dias. Ocorre que professores e professoras muitas vezes lecionam em mais de uma escola ou rede, o que a rigor significa que muitos poderão passar um ano sem férias propriamente ditas.

Já a MP 936, que institui o chamado Programa Emergencial de Emprego e Renda, autorizou a redução de jornada com redução de salário ou a suspensão temporária do contrato de trabalho por meio de “acordos” individuais e algumas escolas tentam aplicá-la. Tal medida é também lesiva ao conjunto dos trabalhadores, mas as particularidades do trabalho docente deveriam ser consideradas para impedir sua aplicação a professores. Ora, professores não produzem coisas que podem deixar de ser produzidas a qualquer tempo. Há uma continuidade no trabalho docente. Há um compromisso com o currículo e com as horas letivas firmado pelas escolas com pais e em consonância com o que determina a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Não havendo suspensão do ano letivo, como poderá se efetivar tal redução sem ferir o compromisso com a família ou a legislação educacional?

Por exemplo: a possível redução de 50% da jornada de uma professora de matemática e consequente redução de 50% no salário deve resultar em 50% a menos de conteúdos pedagógicos trabalhados. Porém, não há como, durante três meses, produzir 50% a menos do trabalho que realizamos sem ferir o que determina a legislação educacional ou o contrato firmado com as famílias. Porque, como afirmamos, há continuidade no trabalho docente que se caracteriza por ser processual. Ou ainda: as escolas, ao defenderem a redução de jornada e salário dos professores, fornecerão o argumento para os pais que poderão reivindicar também 50% de desconto nas mensalidades, não por conta da crise, mas porque receberão, durante três meses, 50% a menos do serviço que contrataram.

Algumas escolas alegam que estão juntando turmas para reduzir jornada e se ajustar à nova realidade e asseguram o cumprimento do currículo, entretanto ainda que duas ou mais turmas sejam reduzidas a uma, a única esfera do trabalho docente efetivamente reduzida é o momento da aula. Todas as demais atividades continuarão acontecendo com trabalho de professores e professoras. Nem o trabalho docente se restringe ao momento da aula, nem os conteúdos se reduzem as aulas expositivas. Há muito trabalho sendo executado por professores antes e depois das aulas: planejamento, atividades, relatórios, correções… para citar alguns.

Outras instituições justificam que o currículo está sendo cumprido, de forma suplementar, com atividades online que dispensam a participação de professores e professoras, o que explicaria a redução. Mais uma vez é preciso reafirmar: tecnologias não funcionam sozinhas na educação. É preciso que professores alimentem de informações, orientações e atividades qualquer recurso tecnológico que esteja sendo utilizado neste momento de crise. Afirmar a possibilidade de recursos tecnológicos operarem de forma autônoma é pretender ocultar o trabalho docente.

Importante lembrar, que assim como em outras categorias, são muitos os trabalhadores informais ou com contratos precários também na educação privada. São professores de disciplinas extracurriculares, auxiliares de classe, os corretores de redação, assistentes de laboratório, estagiários, monitores, além de professores que são “empresários de si mesmos” e que trabalham como microempreendedores individuais (MEI), para todos estes a ameaça é maior e muitas vezes se apresenta como desemprego.

Sabemos, não é de hoje e nem da crise, que a relação entre patrões e empregados é desigual. Sabemos que a “oferta” de um acordo em nome da superação da crise e para salvaguardar o próprio emprego tem algo de assedioso e de constrangedor, que pode transformar, de forma eufemística, ameaça em “oferta”. Apesar disso, também não há como negar que a possibilidade de aplicação de mais esta MP à categoria dos professores e professoras só pode significar um engodo, porque na prática a única coisa que será reduzida é o salário, ao passo que o trabalho docente será ainda mais intensificado. Ou como diria Guimarães Rosa, “em língua de segunda-feira”: trabalhar mais e ganhar menos.

E depois do fim?

Notamos que mais de um mês após a interrupção das aulas um conjunto de práticas tem induzido ao esgotamento de professores e professoras pelo excesso de trabalho remoto e pelo uso de novas ferramentas virtuais que têm se somado à intensificação da devastação dos direitos trabalhistas e a ameaça permanente de que esse quadro se torne ainda mais perverso pela edição de nefastas medidas provisórias e pela combinação destes elementos.

Depois do fim da pandemia será preciso recolher os cacos dessa experiência para superá-la. Precisaremos avaliar se teremos condições de impedir que a Covid-19 – dramática em si – seja também utilizada para ampliar a precarização do trabalho docente e, para isso, é fundamental reconhecer esse período como atípico e excepcional e, nesse sentido, as respostas oferecidas devem ter o mesmo caráter de excepcionalidade. Propor desde já a continuidade do trabalho remoto, após o fim da pandemia, é medida precoce e oportunista. Tão precoce e oportunista quanto a antecipação das férias e a redução de jornada tem se mostrado. Tão precoce quanto sobrecarregar professores de afazeres virtuais e não ter sequer meios de avaliar o resultado dessa investida. Tão precoce quanto alçar a tecnologia aplicada à educação à condição de salvadora da pátria durante a crise. Isso seria confundir “meios e fins”, assim como seria negligenciar os “fins formativos” em favor de novos modelos tecnicistas, como adverte Maurício Tragtenberg em importante e ainda atual análise de 1978, “A delinquência acadêmica”, da qual emprestamos a epígrafe para estas considerações.

É importante que o compromisso de professores e professoras com estudantes e com a educação não tenha como contrapartida a retirada de direitos, o controle e a vigilância sobre seu trabalho, a submissão da docência à tecnologia, o acúmulo de atividades e a estafa física e mental. Em pouco mais de um mês já se constata que a aparente normalidade no curso do ano letivo por meio das tecnologias não suprime as contradições desse momento, tampouco pode ocultar o excesso de trabalho a que tem submetido professores e professoras.

Andréa L. Harada Sousa é professora de literatura, diretora-presidente do Sindicato dos Professores e Professoras de Guarulhos – Sinpro Guarulhos, doutoranda na Faculdade de Educação da Unicamp e pesquisadora do NETSS – Núcleo de Estudo Trabalho, Saúde e Subjetividade da Unicamp.

1  Em 7 de outubro de 2019, a Kroton, maior empresa de educação do mundo, anunciou mudança de nome e redistribuição do foco em quatro novos segmentos, entre eles dois destinados à educação básica: a Saber, voltada para serviços educacionais; e a Vasta Somos, para serviços de gestão para escolas e produção de material didático. Disponível aqui: Em fevereiro deste ano foi anunciada a compra da mansão do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira por Janguiê Diniz, do Grupo Ser Educacional, com a finalidade de ali instalar uma escola de educação básica.

2 Em geral os defensores da EaD apresentam como vantagens desta modalidade a inclusão digital, democratização do acesso , redução de distâncias geográficas, flexibilidade de tempo e espaço. No livro Políticas de formação de professores a distância no Brasil: uma análise crítica, a autora faz amplo levantamento bibliográfico sobre os argumentos dos entusiastas da tecnologia e constata que grande parte destes autores tem algum vínculo com empresas privadas de educação: “Esses autores, conforme conferimos no Currículo Lattes de cada um durante a pesquisa (entre 2006 e 2007), trabalhavam em universidades privadas e em empresas educacionais ou, em alguns casos, até trabalhavam em universidades públicas, mas mantinham fortes relações com organismos internacionais e empresas educacionais”. (MALANCHEN, 2015, p.58)

Referências

FREITAS, L.C. Os reformadores empresariais da educação: da desmoralização do magistério à destruição do sistema público de educação. Educação e Sociedade, Campinas, v. 33, n. 119, p. 379-404, 2012.

MALANCHEN, Julia. Políticas de formação de professores a distância no Brasil: uma análise crítica. 1. ed. Campinas: Autores Associados, 2015.

SOUSA, Andréa L. Harada. Mercantilização e automação do Ensino Superior privado: o caso da educação a distância. In PIOLLI, Evaldo; OLIVEIRA, T. (Org.) . Educação e trabalho docente no Brasil: gerencialismo e mercantilização. 1. ed. São Paulo: Fonte Editorial Ltda, 2019.

TRAGTENBERG, Maurício. Sobre educação, política e sindicalismo. 1.ed. São Paulo: Editora UNESP, 2004 (Coleção Maurício Tragtenberg; v.1)

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Le Monde Diplomatique Brasil [Aqui!].