Caos ambiental e descontrole da COVID-19 transformam o Brasil e os brasileiros em párias mundiais

Enterros triplicam, e cemitério de Manaus abre valas comuns para ...A transformação do Brasil no principal epicentro da pandemia da COVID-19 terá efeitos devastadores na sua já debilitada imagem internacional

Há algum tempo comecei a alertar que os inúmeros retrocessos ocorridos na frágil governança ambiental construída a duras penas por sucessivas governos iriam transformar o Brasil em uma espécie de pária ambiental no resto do mundo.  Em 2019 vimos uma sucessão de manifestações acerca dos incêndios devastadores que ocorreram na Amazônia graças ao afrouxamento da governança ambiental e das estruturas de comando e controle que impediam o avanço desenfreado de madeireiros e garimpeiros ilegais sobre as florestas protegidas na forma de unidades de conservação e terras indígenas.  

Aos incêndios na Amazônia ainda se somou o alarme no tocante à aprovação frenética de agrotóxicos altamente perigosos pelo governo Bolsonaro, o que resultou na sinalização da Rússia que iria parar de comprar a soja brasileira caso não fosse diminuída a quantidade de resíduos do herbicida Glifosato. Depois disso veio o anúncio da multinacional Nestlé de que suspenderia a compra de café do Brasil pelo mesmo motivo.

pesticidesA mistura de desmatamento descontrolado e uso intenso de agrotóxicos banidos  em outras partes do mundo tende a fechar mercados importantes para as commodities agrícolas brasileiras

Por cima disso ainda tivemos o incidente em Brumadinho com o rompimento de mais uma barragem de rejeitos da mineradora Vale que resultou no maior acidente de trabalho da história do Brasil, e da contaminação do Rio Paraopebas, afluente do Rio São Francisco.  Neste caso, o resultado prático foi o banimento da mineradora Vale pelo fundo soberano da Noruega, o mais rico do mundo, de seu portfólio de investimentos, o que deverá ser seguido por outros fundos de investimentos de porte similar. 

Incidente ambiental causado na mina em Brumadinho resultou no banimento da mineradora Vale pelo fundo soberano da Noruega, o maior do mundo

Pois bem, esses casos de desconstrução da governança ambiental já tinham causado um esgarçamento inédito da imagem do Brasil, e afastado investidores internacionais que retiraram do Brasil algo em torno de US$ 62 bilhões, sendo que apenas na Bolsa de Valores de São Paulo, a fuga de capitais foi de estrondosos US$ 44,5 bilhões.

Se tudo ia morro abaixo como fruto de ações do governo Bolsonaro que, para dar o devido o retorno aos segmentos que financiaram a eleição de Jair Bolsonaro, ignoraram a mudança de postura dentro das economias desenvolvidas em relação ao descuido com o meio ambiente, a coisa agora tomou area drásticos com a forma pífia de enfrentar a pandemia da COVID-19.

A verdade é que, a despeito de nuances aqui e ali, a imensa maioria dos governos mundiais adotou os protocolos sugeridos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no tocante às respostas a serem dadadas para combater a COVID-19. O Brasil, graças à forma não-científica e atabalhoada que está sendo empregada por Jair Bolsonaro e seus ministros do núcleo duro do seu governo, agora é visto como um dos poucos países (senão o único) onde a pandemia fugiu do controle do governo central. E isso por causa dos próprios vícios do chefe do executivo. Saliente-se que a coisa ainda poderia estar pior se não fosse pela ação de governadores e prefeitos que têm, limitadamente, se insurgido contra a vontade do presidente Bolsonaro, e adotado as sugestões da OMS.

China encara a fatura econômica de vencer o vírus | Economia | EL ...As ações do presidente Jair Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19 têm contribuído para destruir significativamente a imagem do Brasil no exterior

Mas agora o estrago na imagem do Brasil já se tornou evidente, e o que se vê são os governos estrangeiros tentando esvaziar suas embaixadas em Brasília. E esse desdobramento terá consequências econômicas sérias, pois se os representantes desses governos forem removidos do território brasileiro por medida de segurança, o mesmo se dará com os dirigentes das empresas multinacionais. E, pior, isso implicará em mais fuga de capitais, agravando o desequilíbrio do câmbio, o que poderá provocar uma série de desabastecimentos, já que o Brasil de depende de insumos importados para quase tudo o que é produzido por nossa indústria, a começar pela farmacêutica.

Finalmente, haverá ainda consequências sanitárias para os brasileiros que ainda conseguirem viajar para fora do país após a pandemia, seja a turismo ou a trabalho. No momento, qualquer que chega na Europa tem que passar por uma quarentena de duas semanas. Esse prazo será provavelmente será aumentado, dependendo da progressão do número de contaminados e mortos pela COVID-19 nos próximos meses. No momento, já temos mais de 220 mil casos oficiais de contaminados e beiramos a marca de 15.000 mortos Mas esses valores são claramente subestimados, e se estima que a pandemia só regredirá a partir de meados de agosto. Até lá, dependendo do que for feito pelo governo Bolsonaro, o estrago na imagem do Brasil será irreversível, e seremos objetivamente transformados por um bom tempo em párias como país e como indivíduos, e deveremos ser tratados como uma espécie de casta de intocáveis.

Enquanto isso o desmatamento avança na Amazônia (o que causará incêndios ainda maiores dos ocorridos em 2019), o ministério da Agricultura continua aprovando agrotóxicos altamente perigosos como o Fipronil e o Dicamba, e o presidente Jair Bolsonaro insiste em colocar os brasileiros de volta em postos de trabalho inexistentes,  de preferência à base de cloroquina.  O único que, apesar de “surpreso”, parece já ter aprendido alguma coisa nessa situação toda foi o Sr. Junior Durski, da hamburgueria Madero, que previu que a COVID-19 causaria “apenas” algo em torno de 7.000 mortos. É que seus restaurantes reabertos continuam entregues às moscas por causa do medo dos clientes de se contaminarem enquanto mastigam seus sanduíches caros.  A Durski, eu digo apenas….  descobriu o elementar, meu caro Watson!

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