Empresas brasileiras temem prejuízos financeiros por ‘antipolítica ambiental’ do governo Bolsonaro

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 Por Lucas Baldez

Especialista afirma que o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima não reflete a prática do governo e que o país precisará de ações efetivas para atrair a atenção de investidores internacionais.

A Cúpula do Clima, realizada na semana passada, trouxe ainda mais luz para o debate sobre políticas ambientais no Brasil. Mas mesmo antes do encontro internacional, organizado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, empresários brasileiros já vinham pressionando o governo federal por medidas concretas na área ambiental.

A preocupação das empresas é que a falta de engajamento do país na preservação do meio ambiente e no combate ao aquecimento global gere também prejuízos econômicos. Isso porque o descompromisso do Brasil provocaria uma redução dos investimentos no país.

Na última quinta-feira (22), durante seu discurso na Cúpula do Clima,o presidente Jair Bolsonaro prometeu reduzir as emissões de gases de efeito estufa e zerar o desmatamento ilegal até 2030, além de fortalecer os órgãos ambientais e duplicar recursos para fiscalização.

Porém, no dia seguinte, na sexta-feira (23), ao sancionar o Orçamento de 2021, Bolsonaro cortou quase R$ 240 milhões em verbas destinadas ao Ministério do Meio Ambiente neste ano.

Segundo a especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, o governo passa um sinal de que apenas atenuou o discurso para o encontro e que, na prática, não pretende alterar sua postura em relação ao meio ambiente.

“Está bem caracterizada uma ‘antipolítica ambiental’. Acredito que as promessas são pouco críveis e que os eventuais financiadores externos já perceberam. Precisa de muito mais do que um discurso atenuado para convencer os outros países de que o Brasil vai realmente cumprir as promessas”, afirmou a pesquisadora em entrevista à Sputnik Brasil. Formada por 56 organizações da sociedade civil, a entidade foi fundada em 2002 com o objetivo de discutir as mudanças climáticas. 

Jair Bolsonaro, à esquerda, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, após condecorá-lo com a Medalha de Mérito Rio Branco, o maior prêmio da diplomacia, em 22 de outubro, 2020.

Jair Bolsonaro, à esquerda, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, após condecorá-lo com a Medalha de Mérito Rio Branco, o maior prêmio da diplomacia, em 22 de outubro, 2020. © AP PHOTO / ERALDO PERES

Um documento do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), enviado antes do encontro aos ministérios da Economia, Meio Ambiente, Agricultura e Relações Exteriores, diz que podem ser gerados US$ 17 bilhões (aproximadamente R$ 92,63 bilhões) até 2030 “a partir de negócios com base na natureza”.

Segundo a entidade, “o PIB do país também pode ter um crescimento vertiginoso com a implantação de práticas de baixo carbono, atingindo um ganho total acumulado de R$ 2,8 trilhões até 2030 em relação à trajetória atual”.

O texto conta com a assinatura de empresas como Bayer, Braskem, Bradesco, BRF, Ipiranga, Itaú, JBS, Lojas Renner, Marfrig, Natura, Shell, Siemens, Suzano e Votorantim.

Pelo Acordo de Paris, o país tem a meta de reduzir em 37% a emissão de gases de efeito estufa até 2025 e em 41% até 2030. O texto foi assinado pelo Brasil em 2015 e confirmado pelo governo em dezembro de 2020.

Mas a entidade deseja que o Brasil vá além da meta estipulada e contribua para um movimento de compromisso de emissão neutra até 2050.

Ou seja, a ideia é compensar as emissões que forem inevitáveis através de medidas ambientais que anulem os efeitos nocivos ao meio ambiente e à camada de ozônio.

A pressão ocorre após a notícia de que o desmatamento na Amazônia registrou o pior mês de março dos últimos dez anos.

Um levantamentodo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) mostrou que a área devastada triplicou em relação ao registrado no mesmo mês de 2020. Foram 810 km² desmatados da Amazônia Legal, área equivalente à cidade de Goiânia.

Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará

Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará. © AP PHOTO / LEO CORREA

Suely Araújo, do Observatório do Clima, afirma que o Brasil não está inserido no debate da reconstrução do mundo pós-pandemia quanto à questão ambiental. Para ela, o país “está sofrendo efeitos negativos do posicionamento do governo Bolsonaro em relação à política ambiental já há algum tempo”.

“O mundo está se preparando para um novo olhar sobre a relação com o meio ambiente. Tem um debate no plano internacional. E o Brasil está olhando para o retrovisor”, disse a especialista.

De acordo com a pesquisadora, poderá haver ainda consequências mais graves no plano internacional, como com relação à participação em tratados e acordos. Ela cita a dificuldade do país na formalização definitiva do tratado de livre comércio entre Mercosul e União Europeia e no ingresso à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

“Estamos perdendo mercado e vamos perder mais. Há um conjunto grande de efeitos negativos, decorrente da postura do presidente Bolsonaro”, afirmou.

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Este texto foi originalmente publicado pela Sputnik New [Aqui!].

“Não confie em Bolsonaro”, seis ativistas ambientais enviam apelo ao Presidente dos Estados Unidos

Jovens do Fridays For Future Brasil enviam carta à Joe Biden no dia da Cúpula do Clima para alertar Joe Biden sobre as políticas ambientais de Bolsonaro

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Nos dias 22 e 23 de abril, o Brasil vai participar de uma reunião virtual com outros 39 líderes mundiais para discutir sobre o aquecimento global. A Cúpula do Clima, ou Summit Action, é uma iniciativa puxada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que recentemente aderiu novamente ao Acordo de Paris.

“Existe muita expectativa em cima de Biden com a volta dos Estados Unidos ao Acordo de Paris, esse encontro servirá de termômetro para vermos se os líderes mundiais terão real compromisso em solucionar a crise climática”, diz Renata Padilha, ativista do movimento Fridays For Future Brasil.

Os ativistas Beatriz Barberato, Dalcio Rocha, Emerson Pataxó, Marcelo Rocha, Mikaelle Faria e Renata Padilha tomaram essa iniciativa com o objetivo de demonstrar seus posicionamentos contrários aos desmontes ambientais do Governo Bolsonaro e alertar Biden para caso haja futuros acordos ambientais com o Brasil. “Bolsonaro não tem compromisso com a vida e nem tão pouco com o meio ambiente, caso algum acordo seja assinado, também estará assinando a sentença de morte para a humanidade inteira”, afirma Emerson Pataxó.

Em carta, os jovens ambientalistas afirmam que “O governo Bolsonaro é inimigo do meio ambiente” e relatam uma série de desmontes ambientais que vêm sendo realizados desde que o atual presidente assumiu o cargo de Presidente da República, destacando alguns acontecimentos como o sucateamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), interrupção no Fundo Amazônia para a preservação da floresta, os constantes ataques aos povos indígenas e os posicionamentos contrários ao Acordo de Paris, os quais podem causar retrocessos nas políticas ambientais propostas pelo acordo internacional firmado em 2015.

Os ativistas destacam que as consequências de uma decisão, de uma assinatura em um novo acordo sem um compromisso real, transparente e comprometido, pode custar a vida de toda a humanidade.
Segundo cientistas, se continuarmos com os negócios de sempre e não tomarmos medidas urgentes contra o aquecimento global e a crise climática, em poucos anos a temperatura média global da Terra poderá subir de 1,5°C até 2°C, ocasionando uma série de mudanças drásticas impactando na disponibilidade de água e alimentos, maior ocorrência de eventos extremos como chuvas fortes, secas e furacões, colocará em risco ecossistemas inteiros, entre outras consequências que os gases de efeito estufa na atmosfera poderão ocasionar ao longo dos anos.

“Estamos em um atual cenário de emergência climática e social, precisamos de medidas urgentes ao combate às alterações climáticas, não há mais tempo para promessas vazias”, diz Mikaelle Faria.

Pedindo também por empatia do Presidente dos Estados Unidos, os seis jovens ressaltam que o governo brasileiro não os representa, e pedem para que Joe Biden não confie no Governo Bolsonaro “Queremos que fiquem do nosso lado, da juventude, do futuro, e o mais importante, do lado da humanidade.” diz Dalcio Costa ativista do Fridays For Future Brasil.

A Cúpula do Clima

A cúpula reunirá 40 países convidados e, além do Brasil, a lista inclui países como Canadá, China, Rússia, México, países da Europa e Ásia, além de Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Nigéria e África do Sul. O encontro é parte do esforço de Joe Biden para tornar a mudança climática real e criar estratégias para o seu enfrentamento.

Às vésperas da Cúpula do Clima, Bolsonaro faz promessas ‘mentirosas’ aos EUA, diz especialista

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Por Serguey Monin para o Sputnik News 

O presidente Jair Bolsonaro participará da Cúpula do Clima, organizada pelos EUA, nos dias 22 e 23 de abril. Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, não há muita perspectiva para que Brasil se comprometa com questões ambientais.

A Coalizão Brasil Clima, Floresta e Agricultura, que reúne pesquisadores, empresas e setores do agronegócio, enviou uma carta ao governo brasileiro fazendo um apelo para que o país assuma compromissos de ter maior ambição climática durante a Cúpula dos Líderes sobre o Clima.

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, disse à Sputnik Brasil que a participação do Brasil nas políticas ambientais e negociações sobre o clima são muito importantes, pois a pauta climática é cada vez mais central e exerce grande influência nas decisões políticas e econômicas atualmente.

De acordo com ele, se o Brasil seguir o curso da política ambiental que vem sendo adotado pelo governo Bolsonaro, o país vai perder a oportunidade de obter vantagens em negociações e prejudicar sua imagem no cenário internacional.

Cartaz diz Não foi o clima, é o sistema, foi Bolsonaro. Defenda a Amazônia é exibido durante protesto em Buenos AiresCartaz diz “Não foi o clima, é o sistema, foi Bolsonaro. Defenda a Amazônia” é exibido durante protesto em Buenos Aires. © AP PHOTO / NATACHA PISARENKO.

“Ou o Brasil vai se interessar pelo tema [ambiental], aproveitando isso como uma oportunidade de tirar vantagem de ser um ator importante e positivo na agenda de clima; ou vai acontecer o que acontece agora com o governo Bolsonaro, o Brasil vai se negar a assumir compromissos, se negar a fazer uma agenda positiva em meio ambiente e vai sofrer problemas de imagem, problemas que vão arranhar a capacidade comercial do Brasil de fazer negócios mundo afora”, afirmou.

Para Marcio Astrini, o Brasil tinha tudo para ser protagonista na pauta ambiental, mas afirmou que a expectativa da participação brasileira na cúpula “infelizmente não é nada boa”. Segundo ele, com o governo Bolsonaro o Brasil “vem passando vergonha, acumulando problemas de desgaste da imagem do Brasil”. 

“Para o discurso que o presidente vai fazer, a gente espera as mesmas mentiras de sempre. Ele vai dizer que faz esforços para a questão do clima, que é uma agenda importante e que preserva o meio ambiente, mas isso não passa de enganação. Todas as medidas que o governo tomou desde janeiro de 2019 só foram no sentido de diminuir a proteção do meio ambiente no Brasil”, frisou Astrini.

“É um governo que inclusive nega as mudanças climáticas. O próprio presidente da República, o ex-ministro das Relações Exteriores, por várias vezes falaram que as mudanças climáticas e o movimento de defesa do meio ambiente não passavam de conspirações internacionais, então independente do que ele [Bolsonaro] vai falar, e normalmente são mentiras, aqui dentro de casa, no Brasil, o governo tem uma agenda contra o clima e contra o meio ambiente”, acrescentou o diretor do Observatório do Clima.

Mata queimada por um incêndio florestal que atingiu a fazenda Santa Tereza, na região da Serra do Amolar, no Pantanal do Mato Grosso do SulMata queimada por um incêndio florestal que atingiu a fazenda Santa Tereza, na região da Serra do Amolar, no Pantanal do Mato Grosso do Sul. © FOLHAPRESS / LALO DE ALMEIDA.

Ao comentar quais seriam as ações que o governo brasileiro poderia adotar para assumir certo protagonismo internacional na pauta ambiental, Marcio Astrini disse que o primeiro passo seria “mudar radicalmente as ações em relação ao meio ambiente aqui no Brasil”.

“Essas mudanças incluiriam, por exemplo, retomar o plano de combate ao desmatamento na Amazônia, um plano muito importante que entre os anos 2004 e 2012 foi essencial para diminuir o desmatamento na Amazônia em mais de 80%”, afirmou.

Ele também citou a importância de retirar da pauta do Congresso as diversas propostas encaminhadas pelo próprio governo que estimulam desmatamento como, por exemplo, projetos de lei que beneficiam os grileiros de terra, e a proposta do governo de abrir terras indígenas para o agronegócio, mineração e outras atividades comerciais.

Promessas de Bolsonaro a Biden

Durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima, muitas das atenções estarão voltadas para a relação entre o presidente Jair Bolsonaro e a administração norte-americana de Joe Biden, que organiza o evento e tem a pauta ambiental como um dos principais focos de sua agenda.

Na última quinta-feira (15), o presidente Jair Bolsonaro enviou uma carta ao presidente norte-americano se comprometendo a zerar o desmatamento ilegal no Brasil até 2030. Bolsonaro aproveitou para pedir apoio aos Estados Unidos para alcançar o objetivo.

Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, fala durante conferência virtual, em 12 de abril de 2021Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, fala durante conferência virtual, em 12 de abril de 2021. © REUTERS / KEVIN LAMARQUE.

O secretário-executivo do Observatório do Clima afirmou que os compromissos estabelecidos pelo governo na carta aos EUA também “são mentirosos”. De acordo com Marcio Astrini, a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030 foi apresentada pela primeira vez no Brasil em 2015, quando o Brasil fez sua submissão para a ONU das promessas climáticas.

“Ele [Bolsonaro] está enviando para o governo Biden uma promessa de desmatamento ilegal zero para 2030 que ele mesmo retirou das promessas do Brasil que foram entregues para a ONU. A outra promessa do governo é abrir escuta de diálogo com a sociedade civil, que também é uma outra mentira. Na verdade, esse governo extinguiu todos os conselhos que tinham no governo federal onde tinha participação da sociedade civil”, argumentou.

“Quando a gente pensa na ação prática do governo Bolsonaro, a gente vê que estamos muito distantes desse tipo de ação. O governo faz tudo ao contrário, por isso que em dois anos de governo Bolsonaro nós tivemos dois anos de aumento do desmatamento, dois anos de aumento de queimadas na Amazônia e no Pantanal, dois anos de aumento de emissões, aumento nas invasões de terras públicas. É tudo o contrário do que a gente deveria ter e o governo faz tudo ao contrário do que deveria fazer”, completou.

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Este texto foi inicialmente pelo Sputnik News [Aqui!].

Com impasse em negociações, EUA desistem de ter acordo ambiental com Brasil antes de cúpula climática

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O azedume está cada vez mais forte nas conversas entre Brasil e EUA em torno da proteção da Amazônia. Faltando menos de uma semana para a cúpula climática convocada por Biden, os dois governos seguem batendo cabeça para conseguir fechar um acordo para facilitar o combate ao desmatamento amazônico. Segundo apurou Beatriz Bulla no Estadão, a Casa Branca deixou de ter qualquer expectativa por um acordo bilateral a tempo do encontro virtual entre os chefes de Estado.

O ponto central das desavenças é a insistência do governo brasileiro em receber recursos financeiros antes de realizar novos esforços para reduzir a devastação ambiental. A carta de Bolsonaro a Biden, enviada na última 4ª feira (14/4), sintetiza o raciocínio: para o Planalto, o país “merece ser justamente remunerado pelos serviços ambientais que seus cidadãos têm prestado ao planeta”. No documento, Bolsonaro também se compromete a zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030 – o que não é nenhuma novidade, já que isso era uma das ações citadas pelo Brasil no primeiro compromisso para o Acordo de Paris, ignorada pelo atual governo em sua nova versão. A carta foi destacada pela Agência BrasilÉpoca e Estadão. No UOL, Leonardo Sakamoto desnudou a polidez diplomática do texto de Bolsonaro e deixou claro como as promessas feitas pelo presidente ao colega norte-americano não param em pé. Já Climate Home e Reuters abordaram a frustração da Casa Branca com o impasse nas negociações com o Planalto.

O Globo entrevistou Salles, que repetiu a ladainha de costume do governo Bolsonaro nas discussões climáticas. Para o ministro, o Brasil não deve ser cobrado por mais ambição climática, já que o país representaria (nas contas dele, vale ressaltar) apenas 3% das emissões globais. O problema é que, considerando as emissões por país, o Brasil está entre o 5o e o 6o maiores emissores de carbono do mundo. Nesse cenário, é difícil para Salles se esconder atrás da questão das responsabilidades comuns, porém diferenciadas para livrar-se das cobranças internacionais.

Alheio às conversas com os EUA, Mourão segue batendo bumbo em favor do mais novo plano do Conselho da Amazônia para combater o desmatamento. A meta apresentada pelo vice-presidente para reduzir o ritmo de desmate para cerca de 8,7 mil km2 no final de 2022, um volume acima daquele registrado antes da dupla Bolsonaro-Mourão assumir o governo, foi bastante criticada por especialistas e ambientalistas. Questionado sobre isso, o general minimizou a falta de ambição do governo federal e disse que a redução do desmatamento precisa ser feita de maneira gradual, “pouco a pouco”, para que se chegue à meta de zerar a derrubada ilegal de árvores na Floresta Amazônica em 2030. G1Folha e Poder360 repercutiram a fala de Mourão e as críticas à meta do Planalto para o combate ao desmatamento.

Em tempo: O Instituto Clima e Sociedade (iCS) publicou uma dupla análise, ambas de fôlego, sobre a nova NDC. Emílio La Rovere, da COPPE, examina o lado científico, dos números, linhas de base e os arcabouços teóricos de sustentação e, baseado na realidade atual, dá seu entendimento sobre a possibilidade e os caminhos de cumprimento das metas. Caroline Prolo e Caio Borges, do Laclima, com um olhar jurídico, analisam a NDC dentro do contexto das negociações climáticas.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Brasil, o pária, ficou mesmo de fora do púlpito da cúpula do clima da ONU

bolsonaro-ricardo-sallesJair Bolsonaro e Ricardo Salles são os principais artífices da transformação do Brasil em pária global

Desde agosto de 2016 venho escrevendo sobre os custos econômicos e políticos que a transformação do Brasil em uma espécie de pária ambiental por sucessivos golpes contra a governança ambiental e as estruturas de comando e controle que foram construídas a duras penas a partir da Conferência da ONU para o Meio Ambiente realizada em Estocolmo em 1972.

Confirmada hoje a exclusão do Brasil da lista de países que poderão se pronunciar na edição de 2020 do “Climate Ambition Summit“, chegamos muito mais próximos da condição de párias dentro da comunidade global. 

Ainda que muitos, dentro e do governo Bolsonaro, batam de ombros com o tapa na cara que o Brasil está levando da ONU por causa, principalmente, da falta de compromisso com as metas de controle das mudanças climáticas, a situação é séria, na medida em que esses encontros estarão decidindo metas de emissões que posteriormente serão utilizadas para regular até as trocas internacionais de mercadorias.

Pode-se até dizer que as mudanças climáticas estão sendo usadas como uma nova forma de controle de comércio internacional, o que me parece até óbvio.  O problema é que, como até naquele momento em que você recebe o golpe do paco, não adianta saber que estamos sendo objeto de uma manobra esperta, há que se estar preparado para não cair nele.  

Ao sabotar intencionalmente o papel do Brasil nas discussões multilaterais em torno do controle e mitigação das mudanças climáticas, o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, estão prestando um grande desserviço aos interesses estratégicos do nosso país. O problema é que para se chegar ao nível pária é relativamente fácil, sair dessa condição é bem mais difícil. Como o governo Bolsonaro ainda tem pelo menos mais 24 meses de existência, a profundidade do buraco poderá ser ainda maior quando este governo chegar aos seus estertores.

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Um grupo de quem eu esperaria uma reação mínima à colocação do Brasil na condição de pária pode ser surpreendente para leitores deste blog, o latifúndio agro-exportador (a.k.a. agronegócio), até agora se mantém em posição de mutismo quase completo. É que o latifúndio agro-exportador é um dos que mais têm mais a perder com a barafunda estabelecida pelo governo Bolsonaro. Assim, ainda que as principais lideranças do latifúndio agro-exportador tenham sido fiadoras ardorosas da candidatura de Jair Bolsonaro, a inação frente ao desmanche da governança ambiental e das estruturas de comando e controle é quase que um atestado de ignorância que equivale ao que alguns chamam de “agrosuicídio”.  Vai entender essa gente…..

Jair Bolsonaro é cortado da Cúpula do Clima, e Brasil paga mico internacional

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A ONU (Organização das Nações Unidas) confirmou que o presidente Jair Bolsonaro não está na lista de líderes que participarão do chamado Climate Ambition Summit (a chamada Cúpula do Clima, marcada para amanhã (12/12).  Isso fica explícito porque, ao contrário de outros países sul americanos (Argentina, Chile, Colombia, Peru e Uruguai), o Brasil não aparece na lista de líderes que poderão se pronunciar no evento. Há que se mencionar que até Cuba deverá se pronunciar no evento que deverá ter como estrelas o presidente Emmanuel Macron (França), a chanceler Angela Merkel (Alemanha) e o presidente Xi Jinping (China).

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Esse é, digamos, um “mico” sem precedentes, pois em décadas recentes, o Brasil era um dos líderes dos debates climáticos, muitas vezes jogando o papel de mediador entre as demandas dos países desenvolvidos e a dos chamados países em desenvolvimento.  Mas tanto fizeram que Jair Bolsonaro e Ricardo Salles conseguiram colocar o Brasil em uma posição inédita de ostracismo, justamente em um momento em que a União Europeia, apenas à guisa de exemplo, decidiu adotar metas ambiciosas de redução de emissão de gases estufa que deverão ser alcançadas até 2020.

Como aquilo que está ruim pode sempre piorar, o grupo  Climate Action Tracker requalificou e rebaixou a situação dos compromissos  de “insuficiente” para “muito  insuficiente”.  Além disso, o Brasil conquistou dois troféus do prêmio de “Fóssil Colossal” dos últimos 5 anos na categoria “Não protege sua população dos impactos das mudanças climáticas” e “Reduz a participação da sociedade civil”.  O anúncio aconteceu nesta sexta-feira (11/12), véspera da Cúpula de Ambição Climática, que marcará o aniversário de 5 anos do Acordo de Paris, e é um evento preparatório para a COP26, que será realizada na Escócia em 2021. Esta é a terceira vez em que Bolsonaro leva o Brasil a receber o prêmio da CAN. Em 2018, o país levou o troféu depois de o então presidente eleito ter anunciado que o país não sediaria a próxima conferência climática e por ainda ameaçar tirar o Brasil do Acordo de Paris; em 2019, pela tentativa de legalizar a grilagem. Na cerimônia de hoje, o país foi descrito como uma nação governada por “Jair Capitão Motosserra Bolsonaro” que parece estar tentando “transformar os pulmões do mundo no pior lugar do planeta para ser uma árvore.”   

popliri@gmail.com on Twitter: "#Brazil, #Amazonia, our natives, our  wildlife, are now in the hands of Bolsonaro, the "Captain Chainsaw"!… "

Para quem acha que esse alijamento do Brasil das decisões multilaterais relacionadas ao controle das mudanças climáticas é, digamos, de menor importância, eu diria que, pelo contrário, essa é uma situação muito grave para os interesses estratégicos do Brasil, a começar pela economia. 

Brasil é sumariamente vetado de discursar na cúpula do clima na ONU

bolsoImagem: Valter Campanato

Por André Zanardo, editor do Justificando

Na próxima segunda (23) em Nova York, acontecerá a reunião da cúpula do clima, um dia antes da 74˚ Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

O evento foi convocado pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres como uma forma de aumentar o diálogo entre os chefes de Estado e possibilitar que se amplie as expectativas dos compromissos com o meio ambiente.

À jornalista Ana Carolina Amaral, do Blog Ambiência da Folha de São Paulo, o enviado especial da secretaria-geral da ONU, Luis Alfonso de Alba afirmou que o Brasil teria sumariamente vetado de participar por não ter apresentado nenhum plano para aumentar o compromisso com o clima.

Estima-se até agora que 63 países irão participar discursando no evento, que terá como um dos assuntos centrais de discussão as queimadas ocorridas na Amazônia. Conforme apresentado por Luis Alfonso Alba, também devem ser impedidos de participar os Estados Unidos, Arábia Saudita, Japão, Austrália e Coreia do Sul.

74˚ Assembleia Geral da ONU

Já sobre a Assembleia Geral da ONU que ocorre na terça (24), existe muita expectativa sobre a participação do Brasil que deve historicamente abrir com o discurso de abertura. Entretanto, existe muitas dúvidas sobre a participação do Presidente Jair Bolsonaro, que ainda não confirmou a participação devido ao boletim médico de autorização que deve ser esperado para sair nesta sexta.

As alegações oficiais do Planalto acusam que Bolsonaro está sob restrição médica e se recupera de uma cirurgia de hérnia desde o dia 8 de setembro. O médico do presidente, Luis Antonio Macedo afirmou que ainda não sabe se o presidente terá alta médica.

Caso o presidente não participe, será designado que Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores assuma o discurso inaugural.

Sob risco de protestos massivos e superexposição negativa da imagem de Bolsonaro, aliados mais próximos como a Deputada Carla Zambelli (PSL), defendem que o presidente não compareça na próxima semana à Nova York. Já o presidente afirmou que comparecerá nem que seja de cadeira de rodas.

O clima que antecede os trabalhos prevê que o Brasil seja criticado por protestos nas ruas e nos discursos dos chefes de Estado durante o evento oficial. O motivo das críticas são o descompromisso do governo Bolsonaro com as pautas ambientais e ataques diplomáticos realizados contra autoridades internacionais.

André Zanardo é editor no Justificando, ativista pelos Direitos Humanos e advogado.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site Justificando [Aqui!].