Ministra alemã da Agricultura se posiciona contra acordo UE-Mercosul

Klöckner cita desmatamento da Amazônia para criticar pacto que, segundo ela, geraria “distorção da concorrência”. Ministra afirma também que seus colegas de pasta europeus estão céticos em relação ao acordo.

min da agricultura“Nós, ministros da Agricultura, estamos muito, muito céticos”, disse Klöckner

A ministra alemã da Agricultura, Julia Klöckner, se posicionou nesta terça-feira (01/09) contra o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul e citou o desmatamento da Floresta Amazônica para alertar que, com o pacto, agricultores europeus iriam competir com alimentos produzidos de forma prejudicial para o meio ambiente.

A declaração de Klöckner foi dada durante um encontro de ministros da Agricultura dos Estados-membros da União Europeia (UE). Segundo a política da União Democrata-Cristã (CDU), o partido da chanceler federal alemã, Angela Merkel, todos os seus colegas de pasta europeus têm dúvidas em relação ao acordo.

“Nós, ministros da Agricultura, estamos muito, muito céticos”, disse Klöckner, antes de uma reunião com os seus homólogos europeus em Koblenz, na Alemanha. “Não vejo a ratificação do acordo com o Mercosul.”

De acordo com Klöckner, os ministros da Agricultura de quase todos os países da UE são contra a ratificação do acordo em sua forma atual. A ministra destacou ainda que o desmatamento da Amazônia no Brasil para acelerar a criação de terras aráveis e produzir ração e alimento de forma prejudicial para o meio ambiente representa “uma distorção da concorrência”.

As declarações de Klöckner vão contra a postura defendida pelo novo embaixador da Alemanha no Brasil, Heiko Thoms. Em entrevista à DW Brasil, Thoms garantiu que o acordo de livre comércio está no topo de sua agenda e afirmou que a Alemanha “ainda tem a ambição” de assiná-lo no Conselho da União Europeia até o final do ano, mas que “há muita sensibilidade em todo o espectro político alemão sobre temas relativos a clima e meio ambiente”.

“A Alemanha quer o acordo EU-Mercosul, mas precisa ver queda no desmatamento”, disse Thoms. “A Alemanha está totalmente comprometida. Mas precisamos ver progressos concretos. Não promessas ou palavras, mas progresso real.”

Em junho do ano passado, após 20 anos de negociações, a União Europeia e os países que compõem o Mercosul – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – chegaram a um acordo comercial abrangente para a criação da maior zona de livre comércio do mundo. Antes de entrar em vigor, o pacto precisa, porém, ser ratificado por todos os Estados-membros do bloco europeu.

Os parlamentos da Áustria, da Holanda e da região francófona da Bélgica já rejeitaram o acordo negociado. A ratificação do pacto também encontra resistência na França, Irlanda e Luxemburgo. A explosão do desmatamento da Amazônia no ano passado é um dos fatores que levou europeus a se posicionarem contra a proposta.

Recentemente, o acordo também perdeu o apoio de uma de suas principais defensoras, a chanceler federal alemã. Merkel afirmou ter “sérias dúvidas” sobre o pacto. O porta-voz do governo alemão disse que Berlim observa “com grande preocupação” o desmatamento e as queimadas na Amazônia.

PV/dpa/afp/dw

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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!  ].

Destruição desenfreada de florestas ‘irá desencadear mais pandemias’

Pesquisadores dizem à ONU que a perda de biodiversidade permite a rápida disseminação de novas doenças de animais para humanos

pan 1O HIV se espalhou de chimpanzés e gorilas que foram massacrados para a carne de animais selvagens na África Ocidental. Fotografia: agefotostock / Alamy

Por Robin McKie para o “The Guardian”

Os cientistas devem alertar os líderes mundiais de que um número crescente de novas pandemias mortais afligirá o planeta se os níveis de desmatamento e perda de biodiversidade continuarem em seus atuais índices catastróficos.

Uma cúpula da ONU sobre biodiversidade, programada para ser realizada em Nova York no próximo mês, será informada por conservacionistas e biólogos que agora há evidências claras de uma forte ligação entre a destruição ambiental e o aumento do surgimento de novas doenças mortais como a COVID-19.

O desmatamento desenfreado, a expansão descontrolada da agricultura e a construção de minas em regiões remotas – bem como a exploração de animais selvagens como fontes de alimento, medicamentos tradicionais e animais de estimação exóticos – estão criando uma “tempestade perfeita” para o contágio de doenças da vida selvagem para pessoas, os delegados serão informados.

Quase um terço de todas as doenças emergentes teve origem no processo de mudança do uso da terra, afirma. Como resultado, cinco ou seis novas epidemias por ano podem em breve afetar a população da Terra.

“Há agora uma série de atividades – extração ilegal de madeira, desmatamento e mineração – com comércio internacional associado de carne de animais selvagens e animais de estimação exóticos que criaram esta crise”, disse Stuart Pimm, professor de conservação da Universidade Duke. “No caso da Covid-19, ela custou ao mundo trilhões de dólares e já matou quase um milhão de pessoas, então uma ação claramente urgente é necessária.”

Estima-se que dezenas de milhões de hectares de floresta tropical e outros ambientes selvagens estão sendo derrubados todos os anos para cultivar palmeiras, criar gado, extrair petróleo e fornecer acesso a minas e depósitos minerais. Isso leva à destruição generalizada da vegetação e da vida selvagem que hospeda inúmeras espécies de vírus e bactérias, a maioria desconhecida para a ciência. Esses micróbios podem infectar acidentalmente novos hospedeiros, como humanos e animais domésticos.

Esses eventos são conhecidos como spillovers. Crucialmente, se os vírus prosperarem em seus novos hospedeiros humanos, eles podem infectar outros indivíduos. Isso é conhecido como transmissão e o resultado pode ser uma doença nova e emergente.

pan 2Uma serraria na região de Madre de Dios, na floresta amazônica, no Peru. Fotografia: Ernesto Benavides / AFP / Getty Images

Um exemplo de tais eventos é fornecido pelo vírus HIV, que no início do século 20 se espalhou de chimpanzés e gorilas – que estavam sendo abatidos para a carne de caça na África Ocidental – para homens e mulheres e que desde então causou a morte de mais de 10 milhões pessoas. Outros exemplos incluem a febre Ebola , que é transmitida por morcegos a primatas e humanos; a epidemia de gripe suína de 2009 e o vírus Covid-19, que foi originalmente transmitido aos humanos por morcegos.

“Quando os trabalhadores vêm às florestas para derrubar árvores, eles não levam comida com eles”, disse Andy Dobson, professor de ecologia e biologia evolutiva da Universidade de Princeton. “Eles só comem o que podem matar. Isso os expõe à infecção o tempo todo. ”

Este ponto foi apoiado por Pimm. “Tenho a fotografia de um sujeito matando um porco selvagem nas profundezas da selva equatoriana. Ele era um madeireiro ilegal e ele e seus colegas de trabalho precisavam de comida, então mataram um javali. Eles ficaram salpicados de sangue de porco selvagem no processo. É horrível e anti-higiênico e é assim que essas doenças se espalham. ”

No entanto, nem toda doença emergente é causada por um único e importante evento de transbordamento, enfatizou o zoólogo David Redding, da University College London. “Nos locais onde as árvores estão sendo derrubadas, aparecem na paisagem mosaicos de campos, formados ao redor de fazendas, intercalados com parcelas de mata antiga.

“Isso aumenta a interface entre o selvagem e o cultivado. Morcegos, roedores e outras pragas portadoras de novos vírus estranhos vêm de aglomerados de florestas sobreviventes e infectam animais de fazenda – que então transmitem essas infecções aos humanos ”.

Um exemplo dessa forma de transmissão é fornecido pela febre de Lassa, que foi descoberta pela primeira vez na Nigéria em 1969 e agora causa vários milhares de mortes por ano. O vírus é espalhado pelo roedor Mastomys natalensis , que era comum nas savanas e florestas da África, mas agora coloniza casas e fazendas, transmitindo a doença aos humanos.

“O ponto crucial é que provavelmente existem 10 vezes mais espécies diferentes de vírus do que de mamíferos”, acrescentou Dobson. “Os números estão contra nós e o surgimento de novos patógenos é inevitável.”

No passado, muitos surtos de novas doenças permaneceram em áreas contidas. No entanto, o desenvolvimento de viagens aéreas baratas mudou essa imagem e as doenças podem aparecer em todo o mundo antes que os cientistas percebam completamente o que está acontecendo.

“A transmissão progressiva de uma nova doença também é outro elemento realmente importante na história da pandemia”, disse o professor James Wood, chefe de medicina veterinária da Universidade de Cambridge. “Considere a pandemia de gripe suína. Nós voamos ao redor do mundo várias vezes antes de perceber o que estava acontecendo. A conectividade global permitiu – e ainda permite – que o Covid-19 fosse transmitido para quase todos os países do planeta. ”

Em um artigo publicado na Science no mês passado, Pimm, Dobson e outros cientistas e economistas propõem a criação de um programa para monitorar a vida selvagem, reduzir spillovers, acabar com o comércio de carne de animais selvagens e reduzir o desmatamento. Esse esquema poderia custar mais de US $ 20 bilhões por ano, um preço que é superado pelo custo da pandemia Covid-19, que enxugou trilhões de dólares de economias nacionais em todo o mundo.

“Estimamos que o valor dos custos de prevenção por 10 anos seja apenas cerca de 2% dos custos da pandemia COVID-19”, afirmam. Além disso, a redução do desmatamento – importante fonte de emissão de carbono – também teria o benefício de auxiliar no combate às mudanças climáticas, acrescentam os pesquisadores.

“A taxa de surgimento de novas doenças está aumentando e seus impactos econômicos também estão aumentando”, afirma o grupo. “O adiamento de uma estratégia global para reduzir o risco de pandemia levaria ao aumento contínuo dos custos. A sociedade deve se esforçar para evitar os impactos de futuras pandemias. ”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The Guardian” [Aqui!].

Nota de Ricardo Salles causa briga de canivetes no governo Bolsonaro

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O vice-presidente, general Hamilton Mourão, saiu a campo para desmentir a nota de Ricardo Salles sobre a suspensão do combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia

A nota do ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, suspendendo o combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia acabou causando o que pode ser equivaler a uma briga de canivetes. 

É que, confrontado com o teor absurdo da nota de Salles, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, saiu à campo para desmentir a nota de Ricardo Salles, apontando que o ministro do Meio Ambiente teria sido “precipitado“, pois o corte orçamentário nunca teria ocorrido na forma que ele publicizou em sua nota.

Confrontando com o desmentido do vice-presidente, Ricardo Salles afirmou que o corte denunciado em sua nota só teria sido revertido após a repercussão negativa que se seguiu à divulgação da mesma.

Resta saber agora o que de fato está acontecendo com os recursos do MMA, e se de fato as operações do IBAMA e do ICMBio serão mantidas. É que em se tratando do governo Bolsonaro, nunca se sabe onde a verdade e a mentira começam ou terminam.

Ricardo Salles formaliza em nota que não haverá mais combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia

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Pode-se falar o que se quiser do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, mas ele não é uma pessoa de esconder suas motivações e ações. Acusado, com inteira justiça, de ter desarticulado a governança ambiental e ter inviabilizado os mecanismos de comando e controle que precariamente protegiam a Amazônia, Salles resolveu dar hoje um passo ainda mais ousado e notificou o mundo, em nota assinada pela Assessoria de Comunicação do Ministério de Meio Ambiente e não por ele como deveria ser, que irá parar de combater o desmatamento e as queimadas na Amazônia (ver nota abaixo).

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Segundo informa a nota de Salles, a suspensão das atividades contra o desmatamento e queimadas na Amazônia decorrem do “bloqueio financeiro efetivado pela SOF – Secretaria de Orçamento Federal na data de hoje, da ordem de R$ 20.972.195,00 em verbas do IBAMA e R$ 39.787.964,00 em verbas do ICMBio, serão interrompidas a partir da zero hora de 2.feira (31/agosto) todas as operações de combate ao desmatamento ilegal na Amazônia Legal, bem como todas as operações de combate às queimadas no Pantanal e demais regiões do País“.

A nota informa ainda que o bloqueio dos recursos do MMA teria sido decidido “pela Secretaria de Governo/SEGOV e pela Casa Civil da Presidência da República e vem a se somar à redução de outros R$ 120 milhões já previstos como corte do orçamento na área de meio ambiente para o exercício de 2021“.

Como resultado deste bloqueio financeiro, Ricardo Salles informou que “no âmbito do combate às queimadas no IBAMA, a desmobilização de 1.346 brigadistas, 86 caminhonetes, 10 caminhões e 4 helicópteros.”  Salles informou ainda que “nas atividades do IBAMA relativas ao combate ao desmatamento ilegal serão desmobilizados 77 fiscais, 48 viaturas e 2 helicópteros.”  Já no tocante ao ICMBIO, nas operações de combate ao desmatamento ilegal serão “desmobilizados 324 fiscais, além de 459 brigadistas e 10 aeronaves Air Tractor que atuam no combate às queimadas“.

Trocando em miúdos, o governo Bolsonaro fez cortes tão drásticos que não há mais recursos financeiros para combate ao desmatamento e às queimadas em 2020, e tampouco haverá em 2021. Isso equivale ao que na trágica reunião ministerial de 22 abril, o próprio Ricardo Salles equiparou à “passar a boiada, e de baciada“.  Esta situação, é preciso que se diga, equivale ao governo Bolsonaro estar dando um libera geral para desmatadores e todos os tipos de saqueadores ilegais das riquezas amazônicas. As consequências para a suspensão das ações de controle do IBAMA e do ICMBio serão certamente devastadoras.

Em minha opinião esta postura do governo Bolsonaro parte do pressuposto que os principais parceiros comerciais do Brasil vão aceitar calados essa ação anti-Amazônia em nome do fluxo contínuo de commodities baratas que o Brasil fornece às custas da destruição do nosso principal bioma. Resta saber se essa aposta será vencedora como parecem crer que serão os formuladores das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro.

Em sua página oficial na rede social Twitter, o Observatório do Clima apresentou as seguintes observações sobre a nota do Ministério do Meio Ambiente:

“1. É mentira que não haja dinheiro: o Ibama só gastou 20% do que tinha em caixa para fiscalização entre janeiro e julho. O ministério tem R$ 63 milhões EM CAIXA do Fundo Amazônia para o Ibama e mais R$ 37 mi da Lava Jato,

2.  Parece jogo combinado com o Palácio do Planalto   para dar a Jair Bolsonaro desculpa perfeita para furar o teto de gastos e, ao mesmo tempo, isentar o ministro de responsabilidade pela explosão do desmatamento , e

3. Isso tudo SE FOR VERDADE,  Estamos falando do governo Bolsonaro, que nega coisas publicadas no Diário Oficial e assinadas pelo presidente da República. Ja já tiram a nota do ar, negam tudo e Salles solta o clássico “não é bem assim”.

Reino Unido obrigará empresas a rastrear desmatamento no exterior

Importadores terão que comprovar que seguem legislação dos países de origem de produtos como carne e soja

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O governo britânico planeja introduzir uma nova lei para exigir que as empresas assegurem que todos os alimentos e insumos por elas importados não contribuam para o desmatamento. A lei visa combater a “pegada de desmatamento” – a perda de florestas tropicais associada à produção de commodities como soja, óleo de palma, carne de vaca, cacau, polpa e papel, principalmente importados de países da América Latina, da África e do Sudeste Asiático.

É a primeira vez na legislação britânica que se atribui às empresas a responsabilidade de saber de onde vêm estas commodities e que assegurem o cumprimento da lei dos seus países de origem. O governo do Reino Unido informou que as empresas serão multadas se não cumprirem a obrigação. A França adotou uma lei semelhante em 2017.

O anúncio vem com a crescente preocupação dos consumidores quanto aos alimentos que compram poderem contribuir para o desmatamento da Amazônia e de outras florestas tropicais. Em uma recente sondagem do YouGov, 55% dos entrevistados disseram que considerariam não comprar carne ligada ao desmatamento. A maior rede de supermercado do Reino Unido, a Tesco, também apelou por esta lei há algumas semanas e faz parte de um grupo de investidores, empresas de bens de consumo e retalhistas que participaram recentemente na Iniciativa Global de Recursos, um fórum multilateral sobre desmatamento que apelou, entre outras coisas, à criação de uma obrigação de “due diligence” no Reino Unido.

As empresas que fazem parte do comércio multi-bilionário de produtos como soja, carne bovina e óleo de palma esperam que, ao estabelecer requisitos e normas legais mínimas, o Governo as ajude a escapar aos apelos à proibição total ou ao boicote destes produtos; e que a nova lei reduza a contínua escalada de críticas que enfrentam por parte dos consumidores britânicos, cada vez mais inquietos quanto às suas compras semanais estarem relacionadas com a destruição das florestas tropicais.

O atual governo brasileiro tem estado sob fogo de investidores internacionais, empresas e governos, bem como de empresas brasileiras, devido à redução das proteções ambientais e ao aumento das taxas de desmatamento. Em maio, supermercados e empresas como Burger King, ameaçaram boicotes commodities brasileiras por conta do famigerado PL 2.633, de regularização fundiária. A Tesco não compra carne de vaca, frango e porco do Brasil por causa das preocupações com o desmatamento e é possível que a nova lei possa levar outras empresas a seguirem o exemplo.

Os legisladores britânicos propõem que a medida seja introduzida na próxima Lei do Ambiente, que deverá regressar ao Parlamento em Londres em Setembro.

O Brasil de Bolsonaro segue em ritmo de “agro-suicídio”

bolso amazoniaAs ações de desmanche da governança ambiental e dos instrumentos de comando e controle pelo governo Bolsonaro colocam o Brasil em um ritmo de “agro-suicídio” que custará muito caro aos interesses nacionais

Emprestei o título desta postagem de um trecho de um tweet do professor Raoni Rajão em que ele comenta a mudança de postura da chanceler alemã Angela Merkel em relação à ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul em função, principalmente, da condição de “wild wild west” que o governo Bolsonaro instalou na Amazônia com o desmanche promovido nos mecanismos de governança e de comando e controle.

Mas eu diria que a condição de “agro-suicídio em marcha” que acomete o Brasil neste momento é construída por muitas outras coisas que cedo ou tarde, já venho avisando isso há antes, colocaram as exportações de commodities brasileiras em uma espécie de “lista negra”, levando a nossa economia a um estado de completa anomia, visto a dependência proeminente da balança comercial brasileira em relação à exportação de produtos primários.

Uma faceta que apareceu repetidas vezes é o alto teor de resíduos de agrotóxicos que as principais commodities brasileiras, a começar pela soja, estão levando daqui de volta aos países que produzem e mantém proibidos em suas próprias fronteiras os venenos agrícolas que aqui são usados com sofreguidão.

boicote bolsonaroCampanha de boicote aos produtos brasileiros promovida por ONG alemã já ultrapassou 400 mil signatários

O primeiro importante anúncio que foi dado e solenemente ignorado pelas autoridades brasileiras foi o anúncio do Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor) de que poderia proibir as importações de soja brasileira, caso não fosse tomadas providências para diminuir a quantidade de resíduos de Glifosato presente na principal commodity agrícola brasileira. Depois disso foi a Nestlé que anunciou restrições sobre a importação de café brasileiro pelo mesmo motivo.  

Mas um fator que está acelerando a disposição de se impor um banimento das commodities brasileiras é, sem dúvida, a situação explosiva no desmatamento na Amazônia que, sob o governo Bolsonaro, está claramente fora de controle. Além de redes de supermercado no Reino Unido e Alemanha que estão ameaçando suspender a importação de carne brasileira produzida em áreas de desmatamento ilegal, a gigante norueguesa da produção de salmão em cativeiro, Intrafish, foi mais além e baniu a Cargill da sua lista de fornecedores de soja por causa da suposta indisposição da corporação estadunidense de combater a derrubada das florestas amazônicas.

Mas um elemento que contribui para a péssima imagem e as nuvens carregadas que pairam no horizonte das commodities agrícolas brasileiras é sem dúvida nenhuma o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, cuja imagem está mais tostada do que churrasquinho esquecido no fogo. Ricardo Salles, autor da máxima “passar a boiada, de baciada” é visto em muitos círculos internacionais, e com justa razão, como o principal responsável pelo que está acontecendo na Amazônia.

garimpeirosAvião da FAB foi usado para levar garimpeiros ilegais do PA para reunião com ministro Ricardo Salles em Brasília

Uma última estrepulia de Salles, a qual deverá piorar ainda mais a péssima imagem brasileira, foi a constatação que ele usou um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para transportar garimpeiros de ouro que operam clandestinamente na Terra Indígena Munduruku para reunião no Ministério do Meio Ambiente, sob a alegação de que estes eram representantes dos Munduruku, fato esse negado por lideranças deste povo indígena.

Mesmo que Salles se arrisque aqui, quando muito, a tomar um tapinha nas mãos, a circulação dessa informação deverá deteriorar ainda mais sua capacidade de negociar qualquer coisa em reuniões multilaterais, reforçando mais o seu perfil de “culpado inútil” que usa as estruturas do Estado brasileiro para promover interesses não republicanos.

Como a estação de queimadas na Amazônia ainda está longe de chegar ao seu auge em 2020,  o mais provável é que ainda vejamos cenas ainda mais dramáticas do que aquelas vistas em 2019, quando manifestações importantes já ocorreram em diversas partes do mundo contra o Brasil, servindo depois como combustível para diversas campanhas de boicote aos produtos brasileiros.

O governo Bolsonaro e seus aliados no latifúndio agro-exportador continuam ignorando olimpicamente todas as ameaças que pairam sobre as commodities brasileiras por causa dos malfeitos na área ambiental, especialmente na Amazônia.  Eles parecem contar com a fome mundial em torno das commodities brasileiras para continuar levando a vida na base da motosserra e do trator de esteira. Na prática, eles se acham mais inteligentes que o resto do mundo, e continuam com seu comportamento de colonizado altivo como se houvesse a possibilidade de um tratamento de igualdade entre forças tão díspares no cenário geopolítico existente.

Mas a verdade é que essa é uma estimativa equivocada e os ponteiros do relógio continuam avançando para um confronto entre as necessidades de comprar soja e a de manter algum tipo de controle sobre as mudanças climáticas. Por isso é que, na prática, o Brasil está cometendo o que Raoni Rajão corretamente chama de “agro-suicídio brasileiro”. Depois que a vaca for para o brejo que ninguém finja surpresa, pois os sinais de fumaça são muitos.

A região Amazônica continua queimando no Brasil, um mês após a proibição pelo governo Bolsonaro

A floresta tropical no Brasil ainda está em situação de crise. Mesmo um mês após a proibição de corte e queima, a região Amazônica está em chamas.

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Um mês após a proibição das queimadas , a Amazônia brasileira ainda registra um alto número de incêndios ilegais. “Os números mostram que a estratégia do governo não é eficaz para conter a destruição da floresta com a maior biodiversidade do planeta”, disse Christiane Mazzetti, porta-voz da campanha do Greenpeace Brasil na Amazônia.

feuer 1Homem passando de motocicleta por uma área de floresta devastada pelo fogo. AP

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que avalia dados de satélite , detectou 20.473 incêndios entre 16 de julho e 15 de agosto . Só nos primeiros 15 dias de agosto, ocorreram mais de 15.000 incêndios .

Esta é uma redução mínima de 8% em comparação com o mesmo período de 2019. No entanto, nesta época do ano passado não houve proibição de queima, nem o governo enviou militares para combater as chamas.

Bolsonaro defende exploração da Amazônia

Em 16 de julho, o governo brasileiro proibiu a queima de áreas na região amazônica e no Pantanal, maior mangue do mundo, por 120 dias. No entanto, era questionável se o Brasil realmente intensificaria seus esforços contra os incêndios. O presidente Jair Bolsonaro é um defensor da exploração econômica da Amazônia.

feuer 2Uma área de queima de floresta em Nova Maringa, Brasil. – dpa

Seu governo planeja posicionar as forças armadas do país na região amazônica até 2022 . Segundo ambientalistas, as Forças Armadas que estão em cena desde maio podem conter a destruição ilegal da floresta por pouco tempo, mas não podem substituir o trabalho das autoridades ambientais enfraquecidas pelo Bolsonaro.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo portal de notícias suiço “Nau” [Aqui!].

Tragédia anunciada: Amazônia continua ardendo

A Amazônia brasileira continua sofrendo com o descaso das autoridades públicas, enfrentando novos grandes focos de incêndio que consomem a floresta, símbolo da diversidade da natureza do país.

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Em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, se observa um grande aumento das queimadas na ampla floresta amazônica, atraindo fortes críticas da comunidade internacional.

O fogo tem afetado também reservas indígenas, como a do Xingu, na bacia do rio Amazonas, preocupando populações indígenas e ribeirinhas enquanto bombeiros tentam conter o fogo.

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Este material foi iniciado publicado pela Sputnik Brasil [Aqui!].

General Mourão adota saída “a la Leão da Montanha” para escapar de responsabilidades na devastação da Amazônia

vice_presidente_mourao-19083985Confrontado com a crise política causada pela devastação acelerada da Amazônia, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, tenta uma saída “a la Leão da Montanha”

Li em um informe do “ClimaInfo” que o vice-presidente da república, general Hamilton Mourão, teria se manifestado em uma uma videoconferência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, no sentido de  que “crimes ambientais deixam o Brasil “vulnerável a campanhas difamatórias” que permitem a imposição de barreiras comerciais “injustificáveis” contra os produtos brasileiros no exterior, especialmente aqueles do agronegócio; refutou o papel de “vilão” ambiental que, segundo ele, alguns países querem impor ao Brasil, “em um mundo onde grande parte do hemisfério norte queima petróleo e carvão e quer nos culpar pela poluição atmosférica”.

Tirando em miúdos tudo o que general vice-presidente disse, podemos inferir que os dados de desmatamento não são tão ruins que não possamos lembrar que as economias centrais são dependentes do consumo dos combustíveis fósseis.  Essa é uma daquelas saídas “a la Leão da Montanha” (no caso do general Mourão a saída é obviamente pela direita), pois lembrar do erro alheio jamais poderia servir como desculpa para alguém deixe de explicar seus próprios erros.

Outra coisa que o vice-presidente teria dito é que o desmatamento na Amazônia estaria em ascensão desde 2012, o que de fato estava ocorrendo. Entretanto, isto não anula que sob o governo Bolsonaro o que está ocorrendo é um aumento para além da média histórica (ver figura abaixo).  Tal constatação é básica, mas anula facilmente os argumentos leoninos montanheses do vice-presidente.

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Mas superada a análise numérica, é preciso analisar o argumento de que existem em curso campanhas difamatórias contra o Brasil por causa de, nas palavras do vice-presidente, de criminosos ambientais.  Se verificarmos o sentido jurídico da palavra difamação veremos que isto implica em uma “imputação ofensiva de fato(s) que atenta(m) contra a honra e a reputação de alguém, com a intenção de torná-lo passível de descrédito na opinião pública”.

Pois bem, se alguém tem realizado uma campanha difamatória contra o Brasil, esse alguém é o próprio governo Bolsonaro que em pouco mais de 19 meses de duração já comprometeu gravemente a governança ambiental construída a duras penas a partir de 1973, ano de criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), e praticamente desmantelou as estruturas de comando e controle que impediam a ação desenfreada de predadores da Amazônia que em sua maioria agem na completa ilegalidade.

Mas em vez de abandonar o percurso adotado até aqui, o vice-presidente Mourão, enquanto presidente do chamado Conselho da Amazônia optou por  dar assento a 15 coronéis, sendo 12 do Exército e três da Aeronáutica, um general, dois majores-brigadeiros e um brigadeiro. Para completar essa militarização da gestão ambiental da Amazônia, deixou de fora do conselho os representantes de povos indígenas, quilombolas, pescadores ou outras comunidades tradicionais da região, bem como ignorou a necessidade de dar assento para órgãos chaves como o Ibama e a Funai.

O problema é que em breve a comunidade científica adicionará ainda mais más notícias para o governo Bolsonaro, pois certamente neste momento diversas publicações estão no prelo de revistas internacionais de peso, como a Science e a Nature, para mostrar novos ângulos da devastação em curso na Amazônia. E quando isso acontecer, e deve acontecer em breve, a repercussão será muito mais forte do que já está sendo, pois um dos mitos que devem ser incinerados é aquele que apregoa que a Amazônia brasileira ainda possui em torno de 80% de florestas intactas.

Essa falácia que  o rede BBC  rotulou em artigo bastante  denso de “a grande mentira verde” tem sido o último refúgio dos governantes incautos e irresponsáveis, mas não deverá sobreviver por muito mais tempo. E quando isso acontecer, o vice-presidente Mourão vai aprender que discursos “a la leão da Montanha” não irão resolver os problemas que foram ampliados pelo estilo “passa boiada e de baciada” preconizado pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles.  

Aliás, como o vice-presidente certamente assistiu aos episódios do Leão da Montanha, ele deve saber que o simpático leão cor de rosa sempre estava metido em alguma confusão, mesmo sempre tentando ficar longe delas com seu estilo altamente refinado (para os saudosos como eu, posto o clip abaixo com o simpático leão dando uma saída pela direita). 

 

 

Amazônia: alta do desmatamento não é inépcia; é projeto

Alertas de devastação em 2020 têm novo pico, de 9.205 km2, mesmo com Exército na Amazônia; Jair Bolsonaro poderá ser primeiro presidente da história com dois anos seguidos de aumento recorde no corte da floresta

queimadasGrandes queimadas começam a aparecer em Rondônia. Na imagem de satélite da NASA registrada ontem, pode-se ver grandes focos circundando áreas indígenas, como a Karipuna e Uru-Eu-Wau-WAu. São focos de grilagem.

NOTA DO OBSERVATÓRIO DO CLIMA

Somente alguém que tenha chegado ontem de um outro planeta poderia se surpreender com a nova alta nos alertas de desmatamento na Amazônia, que atingiram imorais 9.205 quilômetros quadrados em 2020. A elevação de 34% na velocidade da devastação neste ano, medida pelo sistema Deter, do Inpe, tem dois agravantes: ela vem após um ano que já havia tido o maior desmatamento desde 2008. E ocorreu mesmo após três meses de presença das Forças Armadas na floresta – em tese para combater o desmatamento.

Desde a campanha eleitoral que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República, a área de alertas de desmatamento dobrou na Amazônia. Os alertas do Deter são uma subestimativa; a taxa oficial de devastação, dada pelo sistema Prodes, mais preciso, será conhecida apenas no fim do ano. No entanto, se a variação entre os dados do Deter e os do Prodes ficar na média histórica, poderemos ter cerca de 13.000 quilômetros quadrados de desmatamento, a maior taxa desde 2006 e três vezes mais do que a meta da Política Nacional de Mudança do Clima para 2020. Será também a primeira vez na história que o desmatamento na Amazônia tem duas altas seguidas na casa dos 30%.

dados deter

Acabam de sair dados para o mês de julho do sistema Deter do INPE. Está confirmado: o desmatamento na Amazônia cresce sem controle, mesmo durante a pandemia. Nos últimos 12 meses, o crescimento é de 34% comparado com o mesmo período do ano passado. Foram derrubados 9,2 mil km²

Isso não acontece por incompetência do governo no combate à devastação; acontece porque a agenda do governo Bolsonaro é promover ativamente a devastação. Não é inépcia; é projeto.

Desde o início do governo um amplo grupo de atores – que vai de cientistas a povos indígenas, passando por ex-ministros, organizações ambientalistas, servidores federais e Ministério Público – vem denunciando o desmonte sistemático da governança ambiental brasileira: o fechamento branco do Ministério do Meio Ambiente, o enterro dos planos de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, a banana dada ao Acordo de Paris, a perseguição a fiscais e a omissão ideológica e ilegal em investir no combate a ilícitos ambientais mesmo tendo quase R$ 2 bilhões em caixa.

Tal conjunto de ações e omissões, que o ministro do Meio Ambiente tão bem sintetizou na infame expressão “passar a boiada”, é o responsável direto pelo descontrole do desmatamento, que transforma o Brasil em pária internacional e ameaça levar embora investimentos no momento em que eles são mais necessários, o de recuperação econômica no pós-pandemia.

Declarações de integrantes do Observatório do Clima

“A explosão do desmatamento na Amazônia tem como causa importante o discurso do Presidente da República, que deslegitima a fiscalização ambiental ao mesmo tempo em que estimula a ocupação da região em modelo predatório. O Ministro do Meio Ambiente segue as ordens de seu patrão. Quem lucra com isso é o desmatador ilegal, o grileiro, o investidor no garimpo sem controle que explora trabalho escravo. Se quisesse controlar o desmatamento, e essa realmente não parece ser a intenção, o governo retomaria o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia e reforçaria a atuação do Ibama e outros órgãos ambientais, no lugar de gastar dinheiro com a atuação teatral das Forças Armadas.” – Suely Araújo, especialista-sênior em Políticas Públicas do OC

“Os números mostram, mais uma vez, a verdade que o governo trabalha para esconder. Combate ao desmatamento se faz com transparência, ciência, áreas protegidas, órgãos especializados eficientes e controle social. Tudo o que Bolsonaro odeia. A política de destruição promovida pelo governo empodera os que lucram com a floresta no chão e ameaça os que lutam para mantê-la em pé, arrastando o Brasil para o atraso. Ao ignorar a importância de conservar nossas riquezas naturais, o governo Bolsonaro impacta de forma negativa os brasileiros, a economia do país e o clima global.” – Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil

“Será difícil conter o desmatamento se o governo continuar a intenção de alterar a legislação fundiária para legalizar áreas desmatadas e invadidas ilegalmente. A grilagem de terras públicas é um vetor do desmatamento, que é estimulado com a expectativa de anistia e legalização” – Brenda Brito, pesquisadora-associada do Imazon

“Os dados do Inpe indicam que o Brasil fracassou no cumprimento de sua lei de clima, cuja meta para 2020 era limitar o desmatamento na Amazônia a no máximo 3.925 km2. Isso também nos desvia da rota do Acordo de Paris, o que criará uma série de dificuldades comerciais para o Brasil no período crítico de recuperação econômica no pós-pandemia. O crime tomou conta da Amazônia, incentivado pelo próprio governo Bolsonaro.” – Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima

“A alta nos alertas de desmatamento entre o ano da eleição e este ano é de 101%. Como lembrou um amigo meu, a ex-presidente Dilma Rousseff dizia que quanto atingisse a meta dobraria a meta. Jair Bolsonaro acabou com a meta e dobrou o desmatamento.” – Caetano Scannavino Filho, coordenador do Projeto Saúde e Alegria

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!].