O Brasil de Bolsonaro segue em ritmo de “agro-suicídio”

bolso amazoniaAs ações de desmanche da governança ambiental e dos instrumentos de comando e controle pelo governo Bolsonaro colocam o Brasil em um ritmo de “agro-suicídio” que custará muito caro aos interesses nacionais

Emprestei o título desta postagem de um trecho de um tweet do professor Raoni Rajão em que ele comenta a mudança de postura da chanceler alemã Angela Merkel em relação à ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul em função, principalmente, da condição de “wild wild west” que o governo Bolsonaro instalou na Amazônia com o desmanche promovido nos mecanismos de governança e de comando e controle.

Mas eu diria que a condição de “agro-suicídio em marcha” que acomete o Brasil neste momento é construída por muitas outras coisas que cedo ou tarde, já venho avisando isso há antes, colocaram as exportações de commodities brasileiras em uma espécie de “lista negra”, levando a nossa economia a um estado de completa anomia, visto a dependência proeminente da balança comercial brasileira em relação à exportação de produtos primários.

Uma faceta que apareceu repetidas vezes é o alto teor de resíduos de agrotóxicos que as principais commodities brasileiras, a começar pela soja, estão levando daqui de volta aos países que produzem e mantém proibidos em suas próprias fronteiras os venenos agrícolas que aqui são usados com sofreguidão.

boicote bolsonaroCampanha de boicote aos produtos brasileiros promovida por ONG alemã já ultrapassou 400 mil signatários

O primeiro importante anúncio que foi dado e solenemente ignorado pelas autoridades brasileiras foi o anúncio do Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor) de que poderia proibir as importações de soja brasileira, caso não fosse tomadas providências para diminuir a quantidade de resíduos de Glifosato presente na principal commodity agrícola brasileira. Depois disso foi a Nestlé que anunciou restrições sobre a importação de café brasileiro pelo mesmo motivo.  

Mas um fator que está acelerando a disposição de se impor um banimento das commodities brasileiras é, sem dúvida, a situação explosiva no desmatamento na Amazônia que, sob o governo Bolsonaro, está claramente fora de controle. Além de redes de supermercado no Reino Unido e Alemanha que estão ameaçando suspender a importação de carne brasileira produzida em áreas de desmatamento ilegal, a gigante norueguesa da produção de salmão em cativeiro, Intrafish, foi mais além e baniu a Cargill da sua lista de fornecedores de soja por causa da suposta indisposição da corporação estadunidense de combater a derrubada das florestas amazônicas.

Mas um elemento que contribui para a péssima imagem e as nuvens carregadas que pairam no horizonte das commodities agrícolas brasileiras é sem dúvida nenhuma o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, cuja imagem está mais tostada do que churrasquinho esquecido no fogo. Ricardo Salles, autor da máxima “passar a boiada, de baciada” é visto em muitos círculos internacionais, e com justa razão, como o principal responsável pelo que está acontecendo na Amazônia.

garimpeirosAvião da FAB foi usado para levar garimpeiros ilegais do PA para reunião com ministro Ricardo Salles em Brasília

Uma última estrepulia de Salles, a qual deverá piorar ainda mais a péssima imagem brasileira, foi a constatação que ele usou um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para transportar garimpeiros de ouro que operam clandestinamente na Terra Indígena Munduruku para reunião no Ministério do Meio Ambiente, sob a alegação de que estes eram representantes dos Munduruku, fato esse negado por lideranças deste povo indígena.

Mesmo que Salles se arrisque aqui, quando muito, a tomar um tapinha nas mãos, a circulação dessa informação deverá deteriorar ainda mais sua capacidade de negociar qualquer coisa em reuniões multilaterais, reforçando mais o seu perfil de “culpado inútil” que usa as estruturas do Estado brasileiro para promover interesses não republicanos.

Como a estação de queimadas na Amazônia ainda está longe de chegar ao seu auge em 2020,  o mais provável é que ainda vejamos cenas ainda mais dramáticas do que aquelas vistas em 2019, quando manifestações importantes já ocorreram em diversas partes do mundo contra o Brasil, servindo depois como combustível para diversas campanhas de boicote aos produtos brasileiros.

O governo Bolsonaro e seus aliados no latifúndio agro-exportador continuam ignorando olimpicamente todas as ameaças que pairam sobre as commodities brasileiras por causa dos malfeitos na área ambiental, especialmente na Amazônia.  Eles parecem contar com a fome mundial em torno das commodities brasileiras para continuar levando a vida na base da motosserra e do trator de esteira. Na prática, eles se acham mais inteligentes que o resto do mundo, e continuam com seu comportamento de colonizado altivo como se houvesse a possibilidade de um tratamento de igualdade entre forças tão díspares no cenário geopolítico existente.

Mas a verdade é que essa é uma estimativa equivocada e os ponteiros do relógio continuam avançando para um confronto entre as necessidades de comprar soja e a de manter algum tipo de controle sobre as mudanças climáticas. Por isso é que, na prática, o Brasil está cometendo o que Raoni Rajão corretamente chama de “agro-suicídio brasileiro”. Depois que a vaca for para o brejo que ninguém finja surpresa, pois os sinais de fumaça são muitos.

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