Os números da eleição de governador mostram que Pezão deve botar os pezões de molho

Eu não sou muito de celebrar abstenções, brancos e nulos. Não que eu considere isso uma desgraça ou qualquer tipo de atentado contra a democracia, mas porque revela falta de opção dentro de um sistema político que se mostra hermético à real situação das pessoas.

Mas as eleições para governador (ou seria (des) governador?) do Rio de Janeiro trouxeram números que revelam o profundo desgaste dos partidos e da classe política fluminense, como bem mostram os números abaixo, onde o boicote às duas candidaturas restantes é mais do que óbvio.

numerosA questão que resulta desses números é óbvia: o (des) governador Pezão é muito provavelmente o que assumirá seu novo mandato com o maior risco de explosões sociais. E aqui não se trata de catastrofismo, mas de observar como se encontram serviços públicos essenciais após oito longos anos de estilo “O Rio é só para pessoas especiais” que Sérgio Cabral implantou. Além disso, como Pezão já declarou que “contará muito com Sérgio Cabral” para governar, a receita para a revolta está pronta.

Um elemento final que ainda poderá acrescentar mais pimenta é o fato de que Dilma Rousseff já sabe que Pezão fez jogo duplo durante toda a eleição, acendendo uma vela para ela e outra para Aécio Neves. E tudo isso enquanto fazia juras de amor. No entanto, a análise dos mapas eleitorais dos municípios mostra que o “Aezão” comeu solto, o que poderia ter custado caro a Dilma e ao PT, se não fosse a margem alcançada em Minas Gerais. Depois disso tudo, é possível que o tratamento mais do que especial que foi dispensado pelo governo federal ao longo dos últimos oito anos seja diminuído. Se isso acontecer, ai é que a crise financeira do Rio de Janeiro vai se tornar insuportável, e os problemas sociais vão eclodir com toda força. A ver!

 

Meu voto: de presidente a deputado estadual

Meu voto frente de esquerda, já que a esquerda mesmo não fez a frente que precisávamos, tem a seguinte escalação:

 

luciana

 Luciana Genro (50)

tarcisio

Tarcísio Motta (50)

 eduardo

Eduardo Serra (211)

cyro garcia

Cyro Garcia (1616) e

marcelo

Marcelo Freixo (50123)

E sim, eu sei, depois das eleições que a unidade da esquerda vai ter que ser feita, já que independente do candidato da ordem que ganhar, o que virá por ai será uma afronta total ao direito dos trabalhadores e da juventude.

As grandes questões ausentes no debate eleitoral

Reprodução

A política se reduziu a propaganda e se tornou um produto a ser vendido. Não estamos mais só na economia do livre mercado.Agora estamos numa sociedade mercantilizada e numa política subserviente aos mercados, totalmente mercantilizada

Por Cândido Grzybowski

Estamos mergulhados na conjuntura eleitoral, com propaganda em rádio e televisão, cabos eleitorais nas ruas, adesivos por toda parte. Mas debate político acalorado, que é bom, nada. O maior fato político e eleitoral neste começo foi a morte em acidente aéreo do Eduardo Campos e a ascensão de Marina Silva a candidata presidencial travestida de PSB, pois o que ela queria e quer é viabilizar seu projeto consubstanciado na Rede Solidariedade.

Dentro de um mês e pouco, pelo voto, deveremos decidir sobre os rumos para o país. Mas a campanha eleitoral não é sobre caminhos possíveis, que supostamente candidatas e candidatos para a Presidência, o Senado, o Congresso Nacional, os Governos Estaduais e as Assembleias Legislativas deveriam estar propondo e defendendo. Pelo contrário, estamos submetidos a um bombardeio de propaganda eleitoral feita para não pensar e sim para nos convencer o quanto de benefícios nos pode propiciar esta ou aquela candidatura. A política se reduziu a propaganda e se tornou um produto a ser vendido. Não estamos mais só na economia do livre mercado.Agora estamos numa sociedade mercantilizada e numa política subserviente aos mercados, totalmente mercantilizada.

Torna-se necessário esclarecer este meu argumento. O espaço da política, mesmo mercantilizado, é e continua sendo, por excelência, o locus da construção do comum e do coletivo possível, num contexto histórico dado, tendo a força propulsora a incontornável igualdade e diversidade de que somos como membros de uma mesma humanidade.A mercantilização, por força do poder de certos interesses e classes, subordina a política, a privatiza, mas seu impacto continua sendo sobre o coletivo, sobre a sociedade como um todo. Portanto, mesmo numa conjuntura de submissão e subserviência da política à economia, no espaço da política se decidem em disputa questões sobre as contradições e as possibilidades do comum e do coletivo apontarem o rumo a ser perseguido e acabarem prevalecendo democraticamente.Ou seja, sempre existe espaço a ser disputado, por menor que seja. Não dá para abandonar a arena da disputa democrática.O impossível pode se tornar possível na volta da esquina.

Com tal visão estratégica, avaliemos o momento eleitoral criado no Brasil de 2014, a 50 dias do primeiro turno. Não temos condições de mudar no imediato o quadro eleitoral, com estas campanhas que nos “vendem” candidatos. Mas o momento é de pensar na sociedade que estamos construindo. Podemos sempre definir um conjunto de ideias do que fazer e demandar aos candidatos e às candidatas que respondam a elas, ao menos àqueles mais próximos, dispostos a ouvir a cidadania ativa (coisa rara!). Listo algumas das questões que são, no aqui e agora, definidoras do rumo que estamos buscando com nosso voto, talvez sem o saber, para o Brasil, um país gigante com impacto no mundo todo.

Começo pelo que me parece o mais intolerável e injusto: a questão indígena. Continuamos o extermínio, mesmo tendo feito uma louvável trégua com as conquistas da Constituição de 1988. É uma questão que está no centro do poder, com uma perspectiva de flexibilizar, de negar direitos. As insurgências indígenas dos últimos anos testemunham a nova investida de interesses privados sobre seus territórios. Está na pauta do Congresso uma agenda de mudança constitucional tanto sobre a demarcação de terras, como sobre exploração mineral nos territórios já definidos e até sobre o tal direito de consulta prévia, como na construção de grandes hidrelétricas na Amazônia. Você conhece algum candidato ou candidata que fale de tal questão nesta conjuntura eleitoral? Será que temos o direito de decidir sobre o destino dos indígenas que sobreviveram à conquista e colonização? Vamos continuar colonizando o Brasil em nome do desenvolvimento?

Aliás, a mineração extrapola a questão indígena. O novo código mineral pode tornar irreversível um processo de entrega à exploração predatória privada de amplas áreas do território, um bem comum que nos cabe zelar pela sua integridade. Por que comprometer o futuro de novas gerações e, mais, do Planeta com este afã de fazer dinheiro rápido aqui e agora, com um extrativismo insustentável de uma perspectiva socioambiental? Cadê o debate sobre esta questão que já está na pauta do Congresso? Não deveria ser uma questão de amplo debate e de decisão direta pela cidadania como um todo?

Nesta linha a gente pode agregar o modelo energético. Que debate estamos tendo sobre, literalmente, tão quente questão? O Pré-Sal, depois daquela caça ao possível tesouro sobre a distribuição dos royalties, nem mais conversamos. Será que vale a pena para nós e a humanidade extrair petróleo do fundo do mar, com alto risco, acima de nossas necessidades atuais, simplesmente para fazer excedente comercial e com isto contribuir substancialmente para a mudança climática? Energia é negócio ou necessidade vital? O que é prioridade? Precisamos de energia e o quanto mais renovável melhor. Caminhamos neste rumo ou de ré? Esta questão vale até para a energia renovável das hidrelétricas. Quanto, no atual modelo, ela é renovável e quanto é destrutiva de uma perspectiva socioambiental? Onde está o debate sobre a nossa matriz energética nesta conjuntura eleitoral?

Uma questão associada é a da água. Com a crise de abastecimento em São Paulo, com impactos possíveis no Rio, a ficha caiu e começamos a ver que esta é uma questão séria. Mas quem traz proposta para o debate nestas eleições? Parece até o contrário, pois os candidatos tudo fazem para impedir que a questão da água – um bem comum indispensável à vida, a qualquer forma de vida – seja convertido em tema quente, já que eles nada fizeram e nada fazem. Simplesmente esperam que volte a chuva e tudo fique normal. Aliás, esta é atitude de absolutamente todos e todas que disputam eleições no tocante à dramática perspectiva de mudança climática. Continuamos pensando que moramos “…num país tropical, abençoado por Deus…”, uma exceção no Planeta e que aqui não teremos os desastres anunciados de aquecimento global. Acompanhando a campanha eleitoral, mesmo com a ambientalista Marina disputando, o que se nota é uma declarada opção por disputar formas de fazer mais e melhor do mesmo desenvolvimento destruidor da natureza e gerador de desigualdades sociais.

Aqui entra o tema presente, mas escamoteado, do agronegócio. Todos sabem que temos um modelo de agricultura insustentável, com uso intensivo de venenos, transgênicos, contaminações e destruições de biodiversidade, agricultura predadora do meio ambiente. Mas é um dos itens principais na geração de excedentes comerciais nas nossas transações internacionais. Será que vale a pena uma tal bomba? Não estamos contaminando nossas próprias vidas? O silêncio na campanha eleitoral sobre o tema é revelador do quanto a tal “governabilidade” é estruturalmente dependente da “bancada ruralista”. Não é que os ruralistas são muita gente, pelo contrário a estatisticamente pequena classe de donos do agronegócio tem grande poder de financiar campanhas eleitorais de subservientes a seus interesses. O agronegócio modernizado, de algum modo, continua sendo “dono” do país do atraso.

Isto nos remete a um dos temas mais ausentes na campanha eleitoral: a refundação da própria política. Estamos diante de mais uma eleição ignorando totalmente o difuso sentimento no seio da sociedade civil brasileira, já majoritário, de descrédito na política como ela é hoje. Questiona-se toda forma de representação, pela usurpação do mandato delegado pelo voto e a tendência dos políticos de se sentirem “donos” dos cargos a que foram eleitos. Na verdade, eles são mais fiéis e devedores de seus financiadores de campanha do que da cidadania que os elege, em última análise. Este foi o recado mais amplo dado pela grande onda de mobilizações de junho de 2013. Será que não está em questão o sentido mesmo da democracia? Como não destruir a sofrida conquista de espaços democráticos? Como ampliá-los ao invés de reduzi-los, como apontam e revelam as iniciativas parlamentares de criminalização das manifestações e de oposição frontal à proposta de uma política de participação social? Por que os e as disputantes de cargos e mandatos não enfrentam tais questões? Afinal, o futuro da democracia no Brasil depende de uma profunda refundação da política como bem comum, sem “direitos garantidos” como nossos políticos eleitos se consideram.

Mas é no mais prosaico para qualquer eleição – o como prover direitos iguais de cidadania – que as contradições da conjuntura eleitoral se revelam com radical intensidade. Os direitos mais básicos, como transporte, saúde, educação, segurança, direito à diversidade e tantos outros, até entram na campanha. Mas nunca como direitos e sim como favores a serem garantidos pelo ou pela disputante de representação, se a vencer. A campanha eleitoral da maioria dos deputados federais, estaduais e senadores, mas também de quase a totalidade de governadores, é sobre possíveis benefícios que sua vitória garantiria neste campo de violações claras de direitos iguais para toda a cidadania.

Muito mais poderia ser destacado aqui. Na campanha presidencial, por exemplo, parece que não fazemos parte de um mundo interdependente.Temos responsabilidade pelo que se passa no mundo, sem dúvida. Mas isto não quer dizer que chegou a nossa vez de partilhar o poder de dominar o mundo. Até parece que existe um consenso entre candidatas e candidatos de que o Brasil tem o “direito a ter mais direitos” na geopolítica mundial.Será este o Brasil que o mundo precisa? Por que não o contrário, brasileiros e brasileiras construir um Brasil como força instituinte e constituinte de um mundo solidário, sem imperialismos e nem guerras, com igualdade na diversidade, lugar comum de todas e todos?

A gente não pode desistir, mas está difícil discutir tais questões na confusa conjuntura eleitoral comandada por uma lógica de “venda” de imagem de boa mocinha ou bom mocinho, provedores de favores, ignorando direitos.

Cândido Grzybowski é sociólogo e diretor do Ibase.

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/29653

RJ: alianças eleitorais escandalosas mostram centralidade no cenário político nacional

A evolução das chamadas “alianças” que estão juntando gregos, troianos e espartanos, e até os persas em nominatas que olhadas por aqueles que vivem no Rio de Janeiro parecem coisas feita por ETs recém-chegados ao planeta Terra.

Mas num segundo olhar é interessante notar que a confluência heterodoxa que ocorra no Rio de Janeiro está se dando por todo o Brasil, com partidos da base do governo e da dita oposição se misturando como se tudo não passasse realmente de uma suruba ou de um bacanal partidário.

A explicação para tanta liberalidade não está apenas na fraqueza ideológica dos partidos brasileiros ou na fraca institucionalização da democracia brasileira. O problema parece ser mais estratégico, pois o que está se desenhando é a posição que a burguesia brasileira terá para enfrentar uma crise sistêmica do Capitalismo que promete se agravar em 2015. Ai fica a disputa entre o “neoliberalismo” e o “neodesenvolvimentismo” que são apenas duas faces da mesma moeda podre. E nisso tudo, o Rio de Janeiro é o laboratório mais avançado desse redesenho entre quem diz ser de oposição ou de situação.

Felizmente, há algum movimento no que se chama de esquerda e alguns candidatos poderão mesmo sem o horário eleitoral ajudar na consolidação de uma alternativa política aos que está se desenhando por cima.

Uma nota final cabe ao que decidirá o deputado federal Anthony Garotinho. Do jeito que ele é pragmático e sempre olha o tabuleiro político com olhos de Lince, eu não me surpreenderia se ele acabasse no palanque de Lindbergh Farias. Ai é que a coisa ficaria ainda mais heterodoxa. Mas ele também poderá apostar no fenômeno que Brizola causou nas eleições de 1982 e derrotou até a Rede Globo. A ver!

Eleições 2014 no RJ: suruba ou bacanal?

Os últimos arranjos de alianças entre os partidos que dominam a política fluminense estão provocando reações inusitadas até mesmo dentre os que sempre ganharam com as opções que são feitas para garantir melhores chances eleitorais. O interessante é que essas reações estão sendo manifestadas por meio de metáforas que veiculam a ideia de praticas sexuais. O primeiro a usar uma metáfora nesse sentido foi o deputado federal Alfredo Sirkis (com certeza uma vestal ideológica) que equiparou a aliança que juntou Romário e Lindbergh numa mesma nominata como sendo uma “suruba”.  Agora ao reagir a uma aliança igualmente curiosa foi a vez do prefeito do Rio de Janeiro de classificar a chapa que unirá Pezão e César Maia como sendo um “bacanal”.

A primeira reação de todo cidadão fluminense que preza o seu voto e acompanhou a situação em que estamos neste momento é de dizer a Sirkis e Paes que eles deveriam se responsabilizar pelo que eles mesmos ajudaram a construir. Se chegamos a esse ponto agora, o fato é que esse tipo de aliança despudorada (só para usar um jargão que parece ser tão caro a Sirkis e Paes neste momento) se tornou capaz por sucessivas ocasiões onde o interesse da população foi colocado abaixo dos interesses fisiológicos dos partidos.

De minha parte, só posso dizer que felizmente existem alternativas de voto nessas eleições e que implicam em nos retirar de um tipo de política que oscila entre a suruba e o bacanal.

Com Luciana Genro candidata a presidente, PSOL sai da armadilha em que se colocou

Não tenho me entusiasmado muito com toda a discussão pré-definição de candidaturas presidenciais, mas a providencial retirada de Randolfe Rodrigues e a entrada de Luciana Genro na cabeça de chapa do PSOL me dá algum ânimo de que os que são contra a manutenção das políticas neoliberais implantadas por Fernando Collor terão alguém que possa expressar uma alternativa da esquerda brasileira ao modelo dominante. No mínimo, pela trajetória e firmeza ideológica, Luciana Genro habilitará o PSOL a dialogar com as centenas de milhares de brasileiros que saíram às ruas a partir de junho de 2013 para protestar contra os efeitos malévolos do atual modelo econômico que a aliança conservadora liderada pelo PT vem impondo sobre a juventude e a classe trabalhadora do Brasil.

Agora, espero que haja também um diálogo genuíno com outras forças de esquerda que resulte na formação de uma aliança eleitoral que consiga dialogar com os descontentes e marginalizados, de modo a preparar o caminho para a necessária reorganização política que a crise sistêmica do capitalismo requer. Afinal, não há nada a esperar das candidaturas de Dilma, Aécio e Campos. Aliás, há sim. Mais arrocho e repressão, variando apenas a intensidade.