Candidato socialista impõe forte derrota à extrema-direita nas eleições presidenciais em Portugal

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O cargo de presidente é basicamente ceremonial, mas a estrondosa vitória do candidato do Partido Socialista (PS), o professor universitário António José Seguro, contra o representante do Chega, o deputado extremista André Ventura, é uma sinalização de que a propalada guinada para a extrema-direita não é tão inevitável quanto alguns querem nos fazer parecer.  Além disso, o fato de que Seguro superou em número de votos a eleição ocorrida em 1991 na qual se elegeu Mário Soares também do PS é outra prova de que havendo mensagem clara e postura firme, pode-se derrotar a extrema-direita sem que fazer alianças indefensáveis com a direita.

E há que se notar que as eleições ocorreram no dia de hoje em meio à fortes chuvas que estão abalando Portugal há quase duas semanas.  Com isso, se demonstra que mesmo em meio a eventos climáticos extremos, os portugueses decidiram ir às urnas e dar uma mensagem clara contra as propostas xenefóbicas e anti-democráticas da extrema-direira.

Que a vitória de Seguro seja uma lição para os que se consideram de esquerda no Brasil em meio aos preparativos para as eleições gerais que deverão eleger o próximo presidente brasileiro.

Donald Trump (de novo) presidente: os EUA em sua versão original ou o Momento Waldo!

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Por Douglas Barreto da Mata

Uma das grandes sacadas das elites brasileiras, e também das elites internacionais, foi vender a ideia de que os EUA são o “role model” da democracia mundial.  Essa narrativa ganhou corpo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.  Era necessário, primeiro, apagar o peso e importância histórica da URSS na vitória, cujo esforço e 20 milhões de mortos foram imprescindíveis para a derrubada de Hitler, Mussolini, e depois, deixar os EUA livres para derrotarem o Japão. Sem a frente oriental soviética, talvez o mundo falasse alemão hoje, e, por certo, Israel não existisse.

Bem, a partir do fim do conflito, a campanha de marketing para convencer a todos de que os EUA eram os mocinhos teve início, misturando cultura e geopolítica, economia e intervenções (golpes), patrocinados pelo Departamento de Estado dos EUA, sem o menor pudor.

Talvez isso ajude a explicar o fascínio brasileiro pela ideia de que os EUA são uma democracia quase perfeita, e que devemos seguir seu exemplo, desde como lidar com mídia, bancos, minorias, e tudo o mais, ainda que (e porque) sejamos uma cópia mal feita do capitalismo praticado por lá. 

É bom que se diga que os EUA trataram os negros como gente de segunda classe até o fim da década de 60 do Século XX, não muito diferente de nós, mas o fizeram sem salamaleques, com cassetete nas mãos, segregação oficial com estrutura legal e tudo mais.  O tratamento dado aos latinos não é muito diferente, e oscila entre mais ou menos aceitação, dependendo da demanda de mão-de-obra barata. 

A ilegalidade dos imigrantes é um negócio, como qualquer outro nos EUA (na Europa, justiça seja feita, também).

Enfim, por onde quer que se olhe, os EUA não chegam nem perto da definição clássica de democracia, inclusive porque seu sistema eleitoral federalizado, onde os estados determinam as regras, permitem que a forma, os locais e os eleitores sejam deslocados de um lugar para outro (distritos), e essa manipulação descarada, feita com maiorias parlamentares estaduais, o “gerrymandering”, permite alterar o resultado das eleições.

É mais ou menos como se a ALERJ aprovasse leis que alterassem os locais de votação, colocando, por exemplo, os eleitores da 129ª zona eleitoral em Campos dos Goytacazes para voltarem na 98ª, ou dispersar esses eleitores em várias zonas e seções.

Em um país onde o voto não é obrigatório, como os EUA, não há feriado para votar, e em algumas cidades, negros não frequentem certos bairros, seja por questões étnicas ou por ausência de transporte público, essa interferência faz toda diferença.  Por isso tudo eu não entendo muito esse deslumbramento do brasileiro com os EUA.

Também faço aqui uma ressalva, não é democracia, mas para eles funciona, e ponto final.

Hoje, já li e ouvi muita gente boa repercutindo a vitória de Trump, uns lamentando, outros comemorando, como se fosse fazer alguma diferença para nós.  Bem, tudo isso diz muito mais sobre nós do que sobre os EUA, é verdade.  Nossa posição relativa no mundo estará intacta: quintal dos EUA, seja lá quem for o presidente de plantão.

Direita e esquerda brasileiras parecem vira-latas, os primeiros felizes, abanando o rabo para a troca de dono, os últimos rosnando, mas ambos estão na coleira desde e para sempre.

Já em relação à surpresa de alguns com o retorno de Trump, eu sugiro assistir um episódio da série Black Mirror, na Netflix.  Alguns dizem que a série é visionária, e antecipa um bocado de coisa, principalmente em relação à tecnologia, sociedade e política. 

Sei lá, mas no caso das eleições, me parece que eles acertaram em cheio quando criaram o episódio Momento Waldo, que em resumo, é um boneco manipulado por um comediante frustrado, que alcança enorme sucesso. Os desdobramentos eu não vou antecipar, mas digo que vale à pena.

Enfim, com Trump, Kamala, Obama, Bush, o certo é que temos que trabalhar para pagar nossas contas, e os juros mais altos do planeta, que sustentam o American Way Of Life.

Bolsonarismo inova e propõe golpe de estado via manuscrito

torres bolso

O ex-ministro da Justiça Anderson Torres está cada vez mais afundado em um enredo golpista

Os próximos dias deverão ser muito interessantes após a Polícia Federal ter informado que encontrou na residência do ex-ministro Anderson Torres um manuscrito que seria a base para uma espécie de golpe de estado via intervenção na justiça eleitoral. As primeiras explicações vindas dos advogados de Torres são tão pouco favoráveis a ele que dá para pensar que há agora uma grande confusão reinando nas hostes do que se convenciona rotular de “bolsonarismo”.

anderson torres golpe

Após esse manuscrito ter sido encontrado fica a dúvida sobre o retorno ao Brasil não de Torres, mas de Jair Bolsonaro. É que um dos argumentos apresentados pela defesa de Torres é que alguém levou o tal manuscrito para ser apreciado para possível transformação em ato legal. Um desdobramento natural dessa informação é que se faça uma análise caligráfica para determinar quem teria sido o autor da proposta. Se as análises determinarem que a caligrafia não é a de Torres, uma primeira pergunta a ser feito ao ex-ministro da Justiça é de quem ele teria recebido o manuscrito.

Para piorar a situação de Torres, esse tal manuscrito não foi o único documento recolhido na casa de Anderson Torres. Como sempre ocorre brevemente será vazada para a mídia corporativa a informação de quais os outros documentos recolhidos pela Polícia Federal.

Como esses documentos fazem parte das atividades oficiais de Anderson Torres, o mínimo que se pode atribuir a ele é a não transmissão dos mesmos ao novo ministro da Justiça, Flávio Dino. Mas entre outros desdobramentos podem vir as acusações de prevaricação, o que, convenhamos, não é nada bom para Torres.

Resta saber se Anderson Torres, que é delegado da Polícia Federal, vai querer segurar essa bomba toda sozinho ou vai rapidamente demandar o usufruto de uma delação premiada.  

Mas uma coisa é certa: pode-se dizer tudo sobre Jair Bolsonaro e seus operadores, mas que não sejam criativos. Afinal, não me recordo de qualquer outro exemplo de que a prova da preparação de um golpe de estado via anulação dos resultados de uma eleição seja deixada para trás como se fosse um guardanapo onde se rascunhou um poema.

Bolsonaro é ridicularizado por desafio ‘sem sentido’ à eleição brasileira que perdeu no mês passado

O Tribunal Superior Eleitorial ratificou resultados do segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva, mas auditoria de reivindicações do titular encontrou sinais de ‘mau funcionamento’ em algumas máquinas de votação

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O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, contestou sua derrota eleitoral para Luiz Inácio Lula da Silva 

Por Reuters

Jair Bolsonaro contestou a eleição presidencial brasileira que perdeu no mês passado para Luiz Inácio Lula da Silva , argumentando que os votos de algumas máquinas deveriam ser “invalidados”.

A reivindicação de Bolsonaro parece improvável de ir longe, já que a vitória de Lula foi ratificada pelo tribunal superior eleitoral e reconhecida pelos principais políticos do Brasil e aliados internacionais. No entanto, poderia alimentar um movimento de protesto pequeno, mas comprometido, que até agora se recusou a aceitar o resultado.

Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal que atualmente lidera o TSE, disse em decisão vista pela agência de notícias Reuters que a coligação eleitoral de direita de Bolsonaro, que apresentou a denúncia, deve apresentar sua auditoria completa para os dois turnos da votação de outubro em 24 horas, ou ele o rejeitaria.

“Chega de procrastinação, irresponsabilidade, insultos às instituições e à democracia”, escreveu ela no Twitter. “A eleição foi decidida no voto e o Brasil precisa de paz para construir um futuro melhor.

A Social Democracia Brasileira, tradicional rival do Partido dos Trabalhadores de Lula, chamou a denúncia de Bolsonaro de “sem sentido”, tuitando que ela teria resistência “das instituições, da comunidade internacional e da sociedade brasileira”.

A coalizão de Bolsonaro disse que sua auditoria do segundo turno de 30 de outubro entre Bolsonaro e Lula encontrou “sinais de irreparável… mau funcionamento” em algumas urnas eletrônicas.

“Havia indícios de falhas graves que geram incertezas e impossibilitam a validação dos resultados gerados” em modelos mais antigos de urnas, disseram aliados de Bolsonaro na denúncia. Como resultado, eles pediram que os votos desses modelos fossem “invalidados”.

Bolsonaro há anos afirma que o sistema de votação eletrônica do país é passível de fraude, sem fornecer provas substanciais.

Uma das presenças mais visíveis do Brasil nas mídias sociais e em eventos públicos nos últimos quatro anos, Bolsonaro quase desapareceu de vista nas últimas três semanas, com pouca ou nenhuma agenda formal ou declarações públicas na maioria dos dias.

Bolsonaro autorizou seu governo a começar a se preparar para uma transição presidencial nos dias após o segundo turno da eleição de outubro.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Jair Bolsonaro queria imitar Donald Trump. Eis por que ele não pode

As democracias só podem durar se todos os participantes, tanto os vencedores quanto os perdedores, fizerem o que puderem para protegê-las

bolso lossO presidente brasileiro Jair Bolsonaro, em seu primeiro discurso depois de perder por pouco para Luiz Inácio Lula da Silva, não cedeu na terça-feira, mas prometeu seguir a Constituição.Arthur Menescal / Bloomberg via Getty Images

Apesar das previsões em contrário , o presidente brasileiro Jair Bolsonaro parece não ser o negador eleitoral que o ex-presidente Donald Trump é, tornando a democracia no Brasil, por enquanto, mais resiliente do que a democracia nos Estados Unidos.

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro parece não ser o negador eleitoral que o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, é.

Depois que o direitista Bolsonaro perdeu a eleição presidencial para o esquerdistaLuiz Inácio Lula da Silva no domingo por cerca de 2 milhões de votos dos 119 milhões lançados, as atenções iniciais se voltaram para se o “Trump dos Trópicos”, como ele é chamado, concederia a corrida a um ex-presidente condenado por corrupção. O silêncio durou até terça-feira , mas na quarta-feira Bolsonaro concordou com uma transição de poder (sem um discurso formal de concessão), e na quinta -feira ele pediu o fim dos bloqueios de estradas de seus apoiadores que chegaram às centenas.

O que poderia ter sido o início de uma campanha brasileira “Stop the Steal” esta semana fracassou no final da semana, e é duvidoso que ela tenha crescido tanto quanto a campanha para manter Trump na Casa Branca. No entanto, o acordo de Bolsonaro com uma transferência pacífica de poder não impediu que os negadores americanos da eleição “Stop the Steal” pedissem um golpe militar no Brasil para proteger Bolsonaro.

No domingo, uma vez que ficou claro que Bolsonaro não alcançaria a liderança de Lula, o negador eleitoral de extrema direita Ali Alexander pediuaos “irmãos do Brasil” que “tomassem as ruas” com um “espera militar”, observando no Truth Social, sem nenhuma evidência, de que “a equipe de Joe Biden está atualmente ROUBANDO a eleição brasileira para o socialista Lula. Literalmente um GOLPE.” Alexander estava exigindo uma auditoria da votação, um tropo sem fundamento sendo regurgitado por pessoas como os direitistas Steve Bannon e Tucker Carlson .

“A margem de vitória é inferior a 2%”, disse Carlson na terça-feira em seu programa . “Há muitas dúvidas sobre esta eleição, se todas as cédulas foram contadas, por exemplo. E Bolsonaro não cedeu. Mas questionar os resultados das eleições no Brasil não é mais permitido lá ou mesmo aqui.”

Como uma declaração ainda mais distorcida do destino manifesto, os Estados Unidos têm uma história vergonhosa de esmagar os desejos políticos de seus vizinhos do sul, enquanto o tempo todo se gabam de acreditar na democracia e que a democracia aqui é melhor do que a democracia em qualquer outro lugar. Intrometer-se nos assuntos políticos da América Latina e às vezes apoiar ditadores enquanto finge ser um amante da democracia sempre foi uma óbvia hipocrisia americana. Mas há uma ironia particular aqui em ver os conservadores americanos, que costumavam se gabar de que o principal produto de exportação dos Estados Unidos é a democracia, se reunirem para exportar o negacionismo eleitoral. Essa tentativa da direita de exportar essa ideia antidemocrática de que apenas as vitórias da direita são legítimas é preocupante. Mas há duas razões principais pelas quais é provável que falhe.

Primeiro, diferentemente de Trump, Bolsonaro está isolado. Alguns de seus aliados e apoiadores mais proeminentes já concederam a eleição a Lula, esmagando a possibilidade de inúmeras ações judiciais e falsas alegações que emanaram do Trump World após a eleição de 2020 e levaram a uma tentativa de golpe no Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021 .

“A principal diferença é que políticos poderosos de direita, aliados de Bolsonaro, todos se manifestaram assim que os resultados foram anunciados e aceitaram os resultados, parabenizaram Lula, o vencedor, e disseram publicamente que estavam dispostos e ansiosos para trabalhar com o Lula”, disse o professor de estudos latino-americanos de Harvard, Steven Levitsky , ao programa “Meet the Press Now” da NBC na quinta-feira .

Entendendo como funciona a democracia, esses mesmos bolsonaristas podem ser o espinho do mandato de Lula, já que terão poder político no país. Muitos desses mesmos políticos e seus apoiadores tentaram suprimir o voto do campo de Lula, mas uma vez que a eleição acabou, acabou, e eles perceberam a contragosto que haveria um novo presidente, uma percepção que Bolsonaro pode não ter aceitado, de acordo com para Lavitsky, se seus principais aliados não tivessem aceitado.

“Acho que Bolsonaro adoraria disputar a eleição. Bolsonaro adoraria derrubar a eleição, mas ele está sozinho e vai ter que aceitar sua derrota”, acrescentou Levitsky.

Tal admissão de Bolsonaro é realmente boa para o país profundamente polarizado.

O processo eleitoral do Brasil, mesmo com as falsas alegações de fraude de Bolsonaro, se manteve.

Há uma segunda razão pela qual a jovem democracia brasileira pode sobreviver a um de seus maiores desafios desde que foi formada em 1985, após décadas de ditadura militar. O Brasil emprega um sistema de votação eletrônica que leva a resultados e resoluções mais rápidos. Em um esforço para combater processos mais complicados e problemáticos a partir da década de 1990, o processo eleitoral do Brasil, mesmo com as falsas alegações de fraude de Bolsonaro, se manteve . Em contraste com o que os Estados Unidos provavelmente testemunharão durante as eleições de meio de mandato da próxima semana e o que ocorreu durante as mentiras de Trump em 2020, o Brasil parece estar à frente no jogo da democracia.

“Acho que essas eleições realmente mostraram que as instituições brasileiras e nossos sistemas de votação podem resistir à pressão, às críticas”, me disse a diretora de estratégias de contra-desinformação da Equis Research, Roberta Braga, que é brasileira, na Rádio Latino Rebels nesta semana . “As eleições foram conduzidas de maneira livre e justa, com alguns esforços preocupantes para reprimir os eleitores, incidentes isolados no dia, mas não interrupções em massa em escala”.

Mesmo com a esperada onda de desinformação que agora parece fazer parte de todas as grandes eleições ao redor do mundo, o Brasil passou por um grande teste de democracia esta semana. Bolsonaro está definitivamente fazendo um ato de equilíbrio ao reconhecer a frustração e a desconfiança que seus principais apoiadores sentem, mas até agora, mesmo com a direita dos EUA pressionando por um momento do tipo 6 de janeiro no Brasil, a realidade política parece estar se instalando.

As democracias só podem durar se todos os participantes, tanto os vencedores quanto os perdedores, fizerem o que puderem para protegê-las. Bolsonaro não abraçou totalmente a democracia esta semana depois de perder sua eleição, mas fez o suficiente para mantê-la relevante no Brasil. O mesmo não pode ser dito nos EUA, já que “mais da metade” dos candidatos republicanos de meio de mandato estão apoiando alguma posição de negação eleitoral, de acordo com uma nova análise da CBS News.

Isso é perigoso para a democracia nos EUA, e talvez nós, americanos, precisemos recorrer ao Brasil em busca de lições reais sobre como manter a democracia viva.


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Este texto escrito originalmnete em inglês foi publicado pela MSNBC   [Aqui!].

Para entender a extrema-direita é preciso ir além da pós-verdade

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Não devo ser o único que tem visto com algum nível de descrença às cenas bizarras que estão pipocando em diferentes partes do território nacional por parte de brasileiros que discordam do resultado das eleições presidenciais.  Uma hora é gente batendo continência para pneu, outra hora é gente recebendo chuva de bombas de gás rezendo o “Pai Nosso”. Também não faltam marchas diante de quartéis militares demandando, na prática, um golpe militar que já se sabe não irá ocorrer. Até porque o número de militares eleitos para cargos legislativos ou executivos foi grande em 2022, o que diminuiu a necessidade de uma saída autoritária para garantir os privilégios de suas corporações.

A bizarrice fica por conta do fato de que no mundo real, e não aquele em que esses brasileiros vivem suas fantasias autoritárias, as engrenagens já estão se movendo para que o presidente eleito assuma como manda a lei no dia 01 de janeiro de 2023. Se esses brasileiros que marcham em frente de quartéis e que fecharam estradas por quase 4 dias, causando prejuízos humanos e materiais, prestassem um mínimo de atenção, já saberiam que até Silas Malafaia e Edir Macedo já exercitaram o direito de reconhecer o óbvio e passaram a orar pelo sucesso de Lula.

Alguns poderiam dizer que o Brasil do bizarro existe apenas porque há uma poderosa máquina de criar uma pós-verdade onde o presidente cessante é uma espécie de representante da vontade desses brasileiros de verem o mundo por um espectro muito particular, a despeito do que mostram os fatos. Vale lembrar que o cineasta Steve Tesich, um dos primeiros a usar o conceito, definia pós-verdade como sendo “uma espécie de inclinação social em que a verdade não era tão importante quanto o que se imaginava verdadeiro.”. Em outras palavras, que se danem os fatos, pois o que importa é o que quero acreditar que seja verdade é o verdadeiro”. Desta forma, considero que reduzir o problema da extrema-direita no Brasil a um suposto poder mítico das redes sociais é um engano analítico.

Depois de ter travado diversas conversas com apoiadores de Jair Bolsonaro após o último domingo, pude observar que reduzir a raíz das bizarrices que testemunhamos a um seguidismo em torno da figura do presidente é errado. Pelo que pude notar, como outros já o fizeram, Bolsonaro é apenas uma espécie de totem para onde se voltam adeptos de pensamentos que misturam a crença nos valores neoliberais com a defesa do uso da força para impor um mundo desprovido de qualquer tipo de solidariedade.  Aliás, se alguma  engenhosidade existe em Jair Bolsonaro e seu entorno é justamente entender que a extrema-direita é uma espécie de riacho de onde se pode tirar água para beber, mesmo sob pena de ser sacrificado assim que se perde a importância ou uso imediato.

Em outras palavras, o que estamos vendo nessas cenas bizarras é a expressão mais pura do que se convenciona chamar de uma extrema-direita de viés neoliberal. Para esses adeptos da extrema-direita, ao menos pelo que pude notar, não importa se tem gente passando ou se os salários são de fome, pois os culpados são os pobres e sua indisposição de trabalhar, mesmo em um país em que inexistem postos de trabalho para serem ocupados. Por mais que possa ser chocante, é preciso entender que quase quatro décadas de políticas neoliberais fortaleceram um segmento da população que despreza qualquer tipo de solidariedade social, e aposta na imposição autoritária de sua visão de sociedade.

Por tudo o que escrevi até aqui, penso que é muito ingênuo achar que há algum tipo de apaziguamento a ser feito com essa parte da população brasileira, já que seus membros não estão querendo se apaziguar ou serem apaziguados.  E quanto mais rápido se cortar as vias que alimentam o engrossamento do número de pessoas dispostas a abraçar uma visão distópica de sociedade, melhor serão as chances de se colocar a extrema-direita para fora da cena política e da vida social.

Para sorte do Brasil, Jair Bolsonaro perdeu a eleição mais roubada em quase 100 anos

bolso forte

Ainda sem realizar muitas análises do impacto feito pelos bloqueios ilegais realizados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) cujo objetivo explícito era impedir o acesso de eleitores de Luís Inácio Lula da Silva às mesas de votação, eu não hesito em dizer que Jair Bolsonaro perdeu uma partida onde tinha grande parte da equipe de arbitragem (com direito a assessoria de palco do “juiz ladrão”), mas também os meios para controlar as condições do campo onde a partida foi realizada.

Com certeza os historiadores ainda registrarão todos os elementos singulares que marcaram a eleição que acaba de ser vencida de forma inquestionável pelo ex-presidente e presidente eleito Lula da Silva. Mas aqui é preciso lembrar que a vitória se deu sob a égide de duas PECs inconstitucionais, bilhões de reais distribuídos na forma de auxílios, da manipulação dos preços dos combustíveis, e ainda com a distribuição descontrolada de recursos públicos via o chamado “Orçamento Secreto”.

Como alguns comentadores já expuseram, estas foram as eleições mais roubada em quase 100 anos, e mesmo assim Jair Bolsonaro se tornou o primeiro presidente a ser derrotado no cargo enquanto controlavam a máquina e o dinheiro públicos. Desta forma, a derrota se apresenta ainda como a mais vergonhosa que algum presidente já teve na história da república brasileira. 

Mas, convenhamos, o que esperar de um político que viveu sob a égide de esquemas em que a manhas e artimanhas sempre caminharam de mãos dadas?  Como o próprio Jair Bolsonaro sempre revelou que de democrata ele nunca teve nada, apenas só os mais ingênuos ainda poderiam se surpreender com tantas cotoveladas e socos abaixo da cintura que foram disparados ao longo da campanha que se encerrou ontem.

Lula, uma figura histórica

lula gigante

Um reconhecimento óbvio é que Jair Bolsonaro só perdeu ontem porque o adversário se chamava Lula. É que qualquer outro candidato teria sido derrotado. A verdade é que sem a estatura política de Lula não haveria como derrotar as forças do Estado que Jair Bolsonaro instrumentalizou para se manter no poder.

Não é pouca coisa para uma pessoa nascida na mais completa miséria e que se elevou na vida política brasileira para já ocupar, aos 77 anos, um lugar na história do Brasil. E o mais impressionante é que agora Lula terá que responder aos difíceis desafios de assumir a presidência na esteira de um processo de desmanche de políticas públicas nunca antes visto na história deste país. Ah, sim!, há que se lembrar que Jair Bolsonaro apostou todas as suas fichas no desmanche do Estado, apenas para usar suas estruturas para manter a si e à sua família aferroados ao poder.

Por tudo o que marcou esta eleição, Lula se elevou ainda mais no grau de importância histórica. Caberá a ele agora a realizar uma difícil transição administrativa, pois, com certeza, receberá mais problemas do que soluções quando assumir o poder em janeiro de 2023.

E antes que eu me esqueça, volto a uma frase do senador Cid Gomes na campanha de 2018, apenas com um ajuste histórico: apesar de toda a roubalheira, o Lula está eleito, babaca!

Patrões da mídia corporativa são antes de tudo ávidos rentistas que amam Jair Bolsonaro e sua política de fome

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Neste domingo dois grandes veículos de mídia (O Globo e Folha de São Paulo) fizeram editoriais cobrando clareza nos planos econômicos do ex-presidente Lula. O primeiro fincando a demanda nos planos de reindustrialização e o segundo veio com uma manchete tirada do estrategista de Bill Clinton,  James Carville Jr., que cunhou o engenhoso mote “É a economia, estúpido”, que a Folha sacanamente substituiu por Lula.

E as perguntas a serem feitas por Jair Bolsonaro? Para esse nem editorial, nem uma matéria que questiona suas políticas econômicas centradas na desindustrialização que Lula promete reverter.  Mas um analista minimamente informado dos investimentos feitos pelas famílias Marinho e Frias vai logo saber porque seus veículos de mídia não perguntam para Bolsonaro. É que eles estão muito felizes com as altas taxas de juros que propiciam uma renda muito maior do que sua atividade formal que é o da comunicação.

Aliás, se estendermos a teia analítica para outros veículos, a Band TV por exemplo, encontraremos representantes do agronegócio que vem se refastelando com as políticas de desmanche ambiental do governo Bolsonaro.

Assim sendo, muito se fala das redes invisíveis de “fake news” do Bolsonarismo, que são reais e que distribuem uma ampla gama de mentiras, mas se olharmos mais perto, veremos que os grandes veículos de mídia também distorcem a realidade a partir de suas notícias para continuarem propriciando a seus donos as rendas milionárias que o rentismo impulsionado por Jair Bolsonaro lhes oferece.

Ainda sobre os resultados eleitorais: se Bolsonaro foi derrotado, por que dizer o contrário?

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Uma das questões que mais me intrigam no pós-primeiro turno é a insistência de muitos, inclusive de apoiadores do ex-presidente Lula, em ignorar uma evidência: Jair Bolsonaro perdeu feio o primeiro turno, apesar da “pequena” desvantagem que ele obteve nas urnas.  

Mas vamos lá aos fatos: em uma situação muito peculiar de financiamento extra campanha, principalmente via o Auxílio Brasil e o chamado “orçamento secreto”, as forças que apoiam Jair Bolsonaro investiram bilhões de reais para vencerem em primeiro turno as eleições presidenciais. A certeza de vitória era tanta que, desafiando as pesquisas eleitorais, Bolsonaro dizia que venceria em primeiro turno. A coisa era considerada delírio, quando se tratava apenas de um cálculo mal feito.

Algumas análises já mostraram que o voto de Jair Bolsonaro se interiorizou, de forma a compensar o recuo de votos em grandes cidades, especialmente naquelas onde o desemprego avançou mais. Essa tendência, convenhamos, é mais do que normal, pois não foi nas capitais que o governo Bolsonaro enfiou mais dinheiro, mas sim nas regiões mais interiores, principalmente das regiões norte e centro-oeste.

Por outro lado, as análises que enfatizam (e eu cito apenas aquelas que não são feitas para turbinar a candidatura de Jair Bolsonaro) um aspecto derrotista dos resultados desprezam o fato óbvio de que Lula, desafiando a máquina eleitoral do governo federal, venceu em cidades importantes, não se restringindo a derrotar Bolsonaro no Nordeste.  Se fosse assim, o destino eleitoral de Bolsonaro teria sido aquele que ele propalava em seus comícios e não aquele que as urnas entregaram.

O Brasil sempre foi dividido, qual é a novidade?

Outras análises de teor derrotista tendem a enfatizar, e lamentar, o fato de que o Brasil saiu dividido das urnas. Ora, quem diz isso parece desconhecer a história brasileira. A verdade é que sempre fomos divididos, e os resultados eleitorais só mostraram isso mais claramente porque certas forças da direita tenderam ao desaparecimento, com os seus votos coalescendo em torno de Jair Bolsonaro.  Um exemplo disso foi o PSDB que de partido dominante de eleições passadas passou a ser minoritário até em São Paulo.

Assim, o que assistimos foi uma unificação das forças de direita em torno de Jair Bolsonaro, o que atende a interesses diversos até do atual presidente.  Como já vimos isso em outros períodos históricos, qualquer análise que aponte uma suposta “fascitização” atual do Brasil, despreza o fato de que nunca fomos um país efetivamente democrático. Quando muito, somos um simulacro de democracia onde direitos fundamentais só são concedidos às elites, enquanto a maioria da população fica relegada ao descaso e à violência do Estado brasileiro.

Quem despreza o fato de que nossa economia dependente é baseada na opressão e na violência é que acaba caindo nesse tipo de lamento. Quem entende minimamente a nossa formação capitalista dependente deveria se concentrar em organizar a maioria que votou em candidatos opostos a Jair Bolsonaro, em vez de perder tempo com análises que só servem para desmobilizar a classe trabalhadora e a juventude.

A  verdade é que já éramos divididos e continuaremos divididos depois do segundo turno, independente de quem ganhar as eleições.  É que eleições são apenas momentos muito específicos da luta de classe que ocorrem em um terreno muito hostil aos que precisam ter uma mudança radical na realidade em que estamos imersos.

Mas no momento, a tarefa posta é aumentar a votação do ex-presidente Lula para derrotar Bolsonaro nas urnas. Derrotar o seu projeto econômico e social vai ser algo que deverá transpor, e muito, o marco restrito das eleições.

Campos dos Goytacazes, a cidade onde o Bolsonarismo corre abraçado com a miséria e a fome

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Um observador astuto da política de Campos dos Goytacazes me enviou uma reportagem que mostrava que o nosso município foi um dos que deu mais votos proporcionalmente para Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais de 2022 (impressionantes 58,01%).  Há ainda que se celebrar que no primeiro turno de 2018, Bolsonaro havia obtido 55,19% dos votos, o que mostra um notável padrão de consistência.

Para olhos menos atentos, esse resultado soa como surreal, já que temos aqui dados igualmente impressionantes no tocante à pobreza extrema e de famílias passando fome. Analisados pela ótica da necessidade em relação ao voto, os resultados deste ano aparecem como em contradição com a realidade objetiva, carecendo ainda algum tipo de explicação.

A primeira observação óbvia é que resultados eleitorais muitas vezes têm pouco a ver com a realidade das pessoas pobres. O que geralmente explica este tipo de resultado tem mais a ver com a capacidade de organização dos principais candidatos, o arco de alianças em plano local, e, não raramente, o uso de meios ilegais para captação de votos (um caso exemplar disso é a uma animada cerveja realizada em uma praça recém-reformada pela Prefeitura de Campos no Distrito de Travessão, em um ponto bem próximo das urnas eleitorais. Tudo isso enquanto os eleitores ainda estavam na fila  tentando votar).

Nesse aspecto, o fato de que as duas famílias que hoje dominam a cena política campista (i.e., os clãs Bacellar e Garotinho) apoiaram de forma vigorosa a candidatura de Jair Bolsonaro, deixando de lado as brigas locais para se concentrar no plano nacional, já serviria como parte da explicação. Por outro lado, há que se considerar o fato de que o Partido dos Trabalhadores (PT) vem no plano municipal se arrastando em estado de morbidez desde sempre. Para piorar a coisa, alguns dos quadros tradicionais do partido hoje não podem nem ocupar a mesma esquina da cidade sob pena de ocorrer algum estranhamento. Nesse sentido, os caciques municipais do petismo continuam fazendo exatamente o contrário do que os Bacellar e Garotinhos fizeram para juntos ajudar a Jair Bolsonaro a vencer de forma dominante.

Há ainda que se dizer que ao contrário dos Bacellar e Garotinhos que não são “bolsonaristas raiz”, a cidade de Campos dos Goytacazes tem uma história antiga de presença da extrema-direita, tendo sido um dos quartéis generais da famigerada Tradição, Família e Propriedade (TFP). Essa extrema-direita agora tem Jair Bolsonaro como uma espécie de farol para implantar seu projeto conservador de sociedade. Tanto isso é verdade que já estão espalhadas faixas anônimas cobrando o prefeito Wladimir Garotinho que deixe de ser uma espécie de “bolsonarista Nutella” para assumir uma face mais “raiz” (ver imagem abaixo).

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Mas no meio desse caos político, centenas de pessoas continuam labutando em semáforos e esquinas para obter algum tipo de “ganha pão” que minimize o profundo sofrimento a que são submetidas pelas políticas ultraneoliberais de Jair Bolsonaro, aquele mesmo que obteve os acachapantes 58% mencionados no primeiro parágrafo deste texto.  Esta realidade tão irracional na aparência apenas serve para mostrar que se nada for feito para alterar o equilíbrio de forças, candidatos como Jair Bolsonaro continuarão tendo votações expressivas em Campos. É que já está mais do que demonstrado que a miséria e fome não geram consciência política, mas apenas desprezo pelo processo político e submissão aos políticos que manipulam melhor o desespero alheio.

Felizmente, as eleições de 2022 trouxeram um raio de luz nessa escuridão toda por meio das votações expressivas de Zé Maria (PT) e Professora Natália Soares (PSOL). Com jeito distintos de fazer campanha e com propostas distintas, os dois mostraram que há sim espaço para a esquerda em Campos dos Goytacazes. O problema é que para haver alguma viabilidade eleitoral, a esquerda local vai ter que arregaçar as mangas e começar a trabalhar de forma tão diligente quanto fazem os Garotinhos e os Bacellar.