A Ciência está quebrada

ciencia quebrada

Incentivos perversos e o mau uso de métricas quantitativas prejudicaram a integridade da pesquisa científica

Por Siddartha Rhoy e Marc A. Edwards*

O surgimento da universidade de pesquisa do século 20 nos Estados Unidos da América (EUA) é uma das grandes realizações da civilização humana, pois ajudou a estabelecer a ciência como um bem público e avançou a condição humana através de treinamento, descoberta e inovação. Mas se a prática da ciência viesse a prejudicar a confiança e o relacionamento simbiótico com a sociedade que permitiu que ambos florescessem, a nossa capacidade de resolver os problemas críticos enfrentados pela humanidade e pela própria civilização estará em risco. Recentemente, exploramos como os incentivos cada vez mais perversos e o modelo vigente de negócios acadêmicos podem afetar adversamente as práticas científicas e, por extensão, se uma perda de apoio à ciência em alguns segmentos da sociedade pode ser atribuída ao que a ciência está fazendo a si mesma, ao contrário do que outros estão fazendo a ela.

Nós argumentamos que ao longo do último meio século, os incentivos e a estrutura de recompensa da ciência mudaram, criando uma hiper competição entre os pesquisadores acadêmicos. O corpo docente a tempo parcial e adjunto agora compõe 76% da mão-de-obra acadêmica, permitindo que as universidades operem mais como empresas, tornando as posições com estabilidade muito mais raras e desejáveis. O aumento da confiança nas emergentes métricas quantitativas de desempenho que valorizam o número de artigos, citações e dólares de pesquisa levantados diminuiu a ênfase em resultados e qualidade socialmente relevantes. Também há preocupação de que essas pressões possam encorajar a conduta antiética dos cientistas e da próxima geração de pesquisadores de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) que persistam neste ambiente hiper competitivo. Acreditamos que é necessária uma reforma para trazer o equilíbrio para a academia e para o contrato social entre ciência e sociedade, para assegurar o futuro papel da ciência como bem público.

A busca da estabilidade tradicionalmente influencia quase todas as decisões, prioridades e atividades dos jovens docentes nas universidades de pesquisa estadunidenses. As mudanças recentes no meio acadêmico, no entanto, incluindo maior ênfase nas métricas de desempenho quantitativas, competição severa por financiamento federal estático ou reduzido e implementação de modelos de negócios privados em universidades públicas e privadas estão produzindo resultados indesejáveis e consequências não desejadas (veja a Tabela 1 abaixo).

As métricas quantitativas estão cada vez mais dominando a tomada de decisões na contratação, promoção e estabilidade de professores, prêmios e financiamentos, e criando um foco intenso na contagem de publicações, citações, contagens combinadas de publicação de citações (o Índice h é o mais popular), fatores de impacto de periódicos, total de dólares de pesquisa e totais de patentes obtidas. Todas essas medidas estão sujeitas à manipulação de acordo com a Lei de Goodhart, que afirma: quando uma medida se torna um alvo, ela deixa de ser uma boa medida. As métricas quantitativas podem, portanto, ser enganosas e, em última instância, contraproducentes para avaliar a pesquisa científica.

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A crescente dependência de métricas quantitativas pode criar desigualdades e resultados pior do que os sistemas que elas substituíram. Especificamente, se as recompensas são desproporcionalmente dadas aos indivíduos que manipulam as métricas, os problemas bem conhecidos dos antigos paradigmas subjetivos (por exemplo, as redes de compadrios) parecem simples e solúveis. A maioria dos cientistas pensa que o dano devido a métricas já é evidente. Na verdade, 71 % dos pesquisadores acreditam que é possível “jogar” ou “enganar” seu caminho para melhores avaliações em suas instituições.

Esta manipulação das métricas avaliadoras foi documentada. Exposições recentes revelaram esquemas de revistas para manipular fatores de impacto, uso de p-hacking por pesquisadores para extrair resultados estatisticamente significativos e publicáveis, manipulação do próprio processo de avaliação por pares e práticas de super citação. O cientista da computação Cyril Labbé, da Universidade Joseph Fourier de Grenoble, ainda criou Ike Antkare, um personagem de ficção que, em virtude da publicação de 102 documentos falsos gerados por computador, alcançou um h-index estelar de 94 no Google Scholar, superando o de Albert Einstein. Os blogs que descrevem como inflar o Índice h sem comprometer fraude direta estão distantes, de fato, apenas de uma pesquisa no Google.

Desde a Segunda Guerra Mundial, a produção científica medida pelo trabalho citado duplicou a cada nove anos. Quanto do crescimento nesta indústria do conhecimento é, em essência, ilusório e uma consequência natural da lei de Goodhart? Essa é uma questão real.

Consideremos o papel da qualidade versus quantidade maximizando o verdadeiro progresso científico. Se um processo for ultrapassado a qualidade em relação à quantidade, as práticas aceitas podem exigir estudos com dupla ou dupla quadrícula, replicação obrigatória de resultados por partes independentes e revisão por pares de todos e estatísticas antes da publicação. Tal sistema produziria poucos resultados devido ao excesso de cautela e desperdiçaria o escasso financiamento da pesquisa. Em outro extremo, uma ênfase excessiva na quantidade produziria inúmeros artigos de qualidade inferior com um projeto experimental laxista, pouca ou nenhuma replicação, controle de qualidade escasso e revisão de pares deficiente (ver Figura 1 abaixo).  Se medido pelas métricas quantitativas, o progresso científico aparente explodiria, mas muitos resultados seriam errôneos e os consumidores de pesquisa ficariam envolvidos em saber o que seria válido ou inválido. Esse sistema apenas cria uma ilusão de progresso científico. Obviamente, é desejável um equilíbrio entre quantidade e qualidade.

É hipoteticamente possível que, em um ambiente sem métricas quantitativas e menos incentivos perversos, enfatizando a quantidade em relação à qualidade, as práticas de avaliação acadêmica (aplicadas pela avaliação por pares) evoluiriam para estar perto de um ótimo nível de produtividade. Mas suspeitamos que o ambiente de incentivo perverso existente está empurrando os pesquisadores a enfatizar a quantidade de forma a competir, deixando a verdadeira produtividade científica em níveis inferiores ao ótimo. Se o ambiente hiper competitivo também aumentasse a probabilidade e a frequência do comportamento antiético, toda a empreitada científica seria eventualmente lançada em dúvida. Embora praticamente não existam pesquisas que explorem o impacto preciso de incentivos perversos sobre a produtividade científica, a maioria do mundo acadêmico reconhece que houve uma mudança em prol da quantidade na pesquisa.

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Favorecer a saída de artigos sobre os resultados, ou a quantidade sobre a qualidade, também pode criar uma “perversão da seleção natural”. Esse sistema é mais provável de erradicar pesquisadores éticos e altruístas, ao selecionar aqueles que melhor respondem a incentivos perversos. O estudante médio pode ser pressionado a se engajar em práticas antiéticas para ter ou manter uma carreira. Então, de acordo com os “Modelos Limitadores do Comportamento Coletivo” de Mark Granovetter (1978), as ações antiéticas se tornam “incorporadas nas estruturas e processos” de uma cultura profissional. Neste ponto, o condicionamento para “ver a corrupção como permitida”, ou mesmo necessária, se tornará muito forte.  Testemunhos convincentes já vêm surgindo, por parte de professores de sucesso e preocupados com a coisa pública de por que eles estão deixando uma carreira que já amaram. A revista “Chronicle of Higher Education” até inventou um nome para este gênero: Quit Lit. No Quit Lit, mesmo pesquisadores seniores fornecem explicações perfeitamente racionais para deixar suas posições privilegiadas e premiadas, ao invés de comprometer seus princípios em um ambiente de incentivo perverso e hiper competitivo. É preciso perguntar-se se os estudantes pertencentes a minorias ou as mulheres decidem racional e desproporcionalmente optam mais por abandonar o sistema científico do que os grupos que tendem a persistir.

Em resumo, embora as métricas quantitativas ofereçam uma abordagem superficialmente atraente para avaliar a produtividade da pesquisa em comparação com medidas subjetivas, uma vez que elas são alvo, deixam de ser úteis e podem até ser contraproducentes. A continuação da ênfase excessiva nas métricas quantitativas pode obrigar a que todos os cientistas, com exceção dos mais éticos, produzam mais trabalhos de menor qualidade, a “reduzir os cantos sempre que possível”, a diminuir a produtividade real, e selecionar os cientistas que persistem e prosperam em um ambiente de incentivo perverso. É hipoteticamente possível que as realidades da academia moderna afetem a persistência de mulheres e minorias étnicas em todas as fases da linha de produção acadêmica.

Muitas sociedades científicas, instituições de pesquisa, revistas acadêmicas e indivíduos têm argumentos avançados tentando corrigir alguns excessos de métricas quantitativas. Alguns assinaram a Declaração de São Francisco sobre Avaliação de Pesquisa (DORA). A DORA reconhece a necessidade de melhorar as “maneiras de avaliar a pesquisa científica” e exige desafiar as práticas de avaliação de pesquisa, especialmente os parâmetros atuais do fator de impacto periódico. A partir de 1 de agosto de 2017, 871 organizações e 12.788 indivíduos assinaram a DORA, incluindo a Sociedade Americana de Biologia Celular, a Associação Americana para o Avanço da Ciência, o Instituto Médico Howard Hughes e os Procedimentos da Academia Nacional de Ciências. As editoras da Nature, Science e outras revistas pediram que seja minimizada a medida do fator de impacto. A  Sociedade Americana de Microbiologia recentemente tomou uma posição de princípio e eliminou a informação do fator de impacto de todos os seus periódicos para evitar contribuir para o foco inadequado nos fatores de impactos dos mesmos. O objetivo é retardar a “avalanche” de métricas de desempenho não confiáveis que dominam a avaliação da pesquisa. Como outros, não estamos defendendo o abandono de métricas, mas reduzindo sua importância na tomada de decisões pelas instituições e agências de financiamento, até possivelmente ter medidas objetivas que representem melhor o verdadeiro valor da pesquisa científica.

No ambiente de financiamento hiper competitivo da ciência moderna, o governo federal foi a fonte indispensável de recursos, sendo primordial no financiamento de pesquisa e desenvolvimento (P & D), criando novos conhecimentos, cumprindo missões públicas, incluindo segurança nacional, agricultura, infraestrutura e saúde ambiental. A partir da Segunda Guerra Mundial, o governo federal dos EUA suportou em grande parte a maioria dos custos da pesquisa científica de alto risco e de longo prazo. Essa pesquisa científica traz perspectivas incertas ou, por vezes, não possui impactos obsoletos da sociedade em curto prazo, e segue uma agenda comumente estabelecida por cientistas e agências de financiamento. Esta base de financiamento federal criou um ecossistema de pesquisa e conhecimento complementado por universidades e indústrias. Juntos, fez contribuições históricas para o progresso coletivo da humanidade.

Por pelo menos na última década, no entanto, os gastos federais dos EUA em P & D declinaram. A sua “intensidade de pesquisa” (ou o orçamento federal de P & D como parte do produto interno bruto do país) caiu para 0,78% (2014) de cerca de 2% na década de 1960. Na contramão disso, até 2020 a China deverá gastar mais do que os EUA em P&D.

As faculdades e universidades dos EUA também têm historicamente servido para moldar a próxima geração de pesquisadores, que fornecerão educação e conhecimento para o público e para o público. Mas, à medida que as universidades se transformam em “centros de lucro”, focados na geração de novos produtos e patentes, elas estão deixando de enfatizar a ciência como um bem público.

A competição entre os pesquisadores pelo financiamento nunca foi tão intensa, entrando em uma era com o pior cenário de financiamento em meio século. Entre 1997 e 2014, a taxa de financiamento para os subsídios dos Institutos Nacionais dos Estados Unidos (NIH) caiu de 30,5% para 18%. As taxas de financiamento da Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF) permaneceram estagnadas em 23-25% na última década. Agradecidas por pequenos favores, essas taxas de financiamento ainda estão bem acima de 6%, o que é um ponto de equilíbrio aproximado quando o custo líquido da proposta de escrita equivale ao valor líquido obtido de uma concessão pelo vencedor da subvenção. No entanto, o ambiente de concessão é hiper competitivo, sendo suscetível ao viés do revisor, distorcido para agendas de pesquisa de agências de financiamento e fortemente dependente do sucesso anterior, que é medido por métricas quantitativas. Mesmo antes da crise financeira, o premiado com o Prêmio do Nobel, Roger Kornberg, observou que: “Se o trabalho que você propõe fazer não é virtualmente certo de sucesso, então não será financiado”. Essas amplas mudanças levam valioso tempo e recursos para longe da ciência descoberta e tradução, atraindo pesquisadores para gastar quantidades excessivas de tempo constantemente perseguindo propostas de concessão e preenchendo cada vez mais documentos para estar em conformidade com o processo de concessão das verbas.

O crescimento constante dos incentivos perversos e seu papel instrumental nas práticas de pesquisa, contratação e promoção da faculdade, equivale a uma disfunção sistêmica que põe em perigo a integridade científica. Há evidências crescentes de que as publicações cientificas atuais frequentemente sofrem de falta de replicabilidade, dependem de conjuntos de dados tendenciosos, aplicam métodos estatísticos mínimos ou de baixa qualidade, não conseguem se proteger contra vícios dos pesquisadores, e exageram suas descobertas. Em outras palavras, uma ênfase excessiva na quantidade versus qualidade. Portanto, não é surpreendente que o escrutínio tenha revelado um nível preocupante de atividade antiética, falsificação definitiva da revisão pelos pares e retrações. A revista “The Economist” recentemente destacou a prevalência de pesquisas científicas modernas de baixa qualidade e não reprodutíveis e seu alto custo financeiro para a sociedade.  Os editores da “The Economist” sugeriram fortemente que a ciência moderna não é confiável e precisa de uma reforma. Dado o alto custo de expor, divulgar ou reconhecer a má conduta científica, podemos estar bastante seguros de que há muito mais do que foi revelado. Os avisos de problemas sistêmicos remontam a pelo menos 1991, quando o então diretor da NSF, Walter E Massey, observou que o tamanho, a complexidade e o aumento da natureza interdisciplinar da pesquisa diante da crescente concorrência tornavam a ciência e a engenharia mais vulneráveis à falsificações.

“A NSF define a falta de conduta de pesquisa como “fabricação, falsificação ou plágio” intencional na proposição, realização ou revisão de pesquisa, ou no relatório de resultados de pesquisa”. Entre os casos de falhas na pesquisa investigados pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (inclui o NIH) e a NSF, 20 a 33 % são considerados culpados. Os custos anuais, a nível institucional, de US$ 110 milhões são incorridos para todas essas investigações de investigação e de falta de conduta nos EUA. De 1992 a 2012, 291 artigos científicos publicados com financiamentos do NIH foram retraídos por má conduta, representando US $ 58 milhões em financiamento direto da agência. Obviamente, a incidência de má conduta não detectada é maior, e são múltiplos dos casos julgados como tal anualmente.

A verdadeira incidência é difícil de prever. Uma meta-análise abrangente de pesquisa-indícios de conduta inadequada durante 1987-2008 indicou que um em cada 50 cientistas admitiu ter cometido má conduta (fabricação, falsificação e / ou modificação de dados) pelo menos uma vez, e 14% dos cientistas conheciam colegas que tinham feito isso. Muito provavelmente, dada a sensibilidade das perguntas feitas e as baixas taxas de resposta, esses números são uma subestimativa da verdadeira incidência de condutas inadequadas. Desde 1975, na ciência da vida e pesquisa biomédica, a porcentagem de artigos científicos retraídos aumentou dez vezes; e 67% das retrações foram devidas à má conduta. Hipóteses para este aumento incluem a “atração do jornal de luxo”, “publicação patológica”, políticas de má conduta insuficientes, cultura acadêmica, estágio profissional e incentivos perversos. Da Ciência do Clima à Corrosão Galvânica, vimos pesquisas publicadas que mancharam o ethos científico e prejudicam a credibilidade da comunidade científica e de todos.

O princípio do autogoverno na academia é forte, e esta é uma característica distintiva da universidade de pesquisa moderna. Espera-se que a ciência seja auto policiada e auto corretiva. Acreditamos, no entanto, que os incentivos em todo o sistema induzem todas as partes interessadas a “fingir que má conduta não acontece”. É notável o fato de que a ciência nunca desenvolveu um sistema claro para relatar e investigar alegações de condutas inapropriadas por parte de pesquisadores. Indivíduos que alegam que denunciar a má conduta não têm um caminho fácil e evidente para fazê-lo e correm o risco de sofrer graves e negativas repercussões profissionais. Em relação ao que é considerado justo em apresentar pesquisas, práticas de redação de projetos de pesquisa, e promoção de ideias de pesquisa, os pesquisadores operam, em grande medida, em um sistema de honra inaplicável e não escrito. Hoje, existem razões convincentes para duvidar de que a ciência como um todo é auto corretiva. Não somos os primeiros a reconhecer esse problema. Os cientistas propuseram estudos abertos, acesso aberto, revisão por pares pós-publicação, meta-estudos e esforços para reproduzir estudos de marco como práticas para ajudar a compensar as altas taxas de erro na ciência moderna. Por mais benéficas que essas medidas corretivas possam ser, incentivos perversos para indivíduos e instituições continuam sendo o principal problema.

Existem casos excepcionais em que os indivíduos forneceram uma verificação de realidade em comunicados de imprensa de pesquisa, especialmente em áreas consideradas potencialmente transformadoras (por exemplo, o comentário em tempo real de Jonathan Eisen sobre alguma mania em torno do micro bioma). Geralmente, no entanto, as limitações dos setores de pesquisas quentes são minimizadas ou ignoradas. Porque cada mania científica moderna cria uma ganância inesperada por métrica quantitativa para os participantes, e porque poucas consequências são impostas sobre os responsáveis quando uma bolha de ciência explode. O único controle efetivo sobre as patologias da ciência e a má alocação de recursos continua sendo o sistema de honra não escrito.

A falta de conduta não se limita aos pesquisadores acadêmicos. Os incentivos perversos e a hiper competição também são úteis para as agências federais, dando origem a um novo fenômeno da falta de conduta institucional na pesquisa científica. Os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, por exemplo, produziram um relatório errado sobre a crise da água potável em Washington, DC, afirmando que os níveis extremamente elevados de chumbo na água não causaram uma elevação níveis deste elemento químico no sangue nas crianças que a consumiam. Depois de se recusarem a corrigir ou defender suas pesquisas, os investigadores do Congresso estadunidense tiveram que intervir e concluíram que o relatório do CDC era “cientificamente indefensável”. Poucos meses depois de serem castigados no Congresso, o mesmo ramo do CDC escreveu aquilo que uma investigação de jornalistas da Reuters chamou de outro relatório “falho” sobre a contaminação por chumbo do solo, água potável e ar na região leste da cidade de Chicago, em Indiana, que deixou as crianças e minorias vulneráveis em perigo durante pelo menos cinco anos mais do que era necessário.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) também publicou relatórios científicos de consultores com base em dados inexistentes em revistas das indústrias. Mais recentemente, a EPA silenciou seus próprios denunciantes durante a crise da água na cidade de Flint, em Michigan. À medida que as agências competem cada vez mais por uma redução do financiamento discricionário e pela manutenção dos fluxos de caixa existentes (o desejo dos pesquisadores do CDC de se concentrarem mais na pintura de chumbo, em vez de levar na água, por exemplo), eles parecem estar mais inclinados a publicar “boas notícias” em vez disso da Ciência. Em uma era de declínio do financiamento discricionário, as agências federais têm conflitos de interesse financeiros e medos de sobrevivência, semelhantes aos da indústria privada. Dado o equívoco comum de que as agências de financiamento federais estão livres de tais conflitos, os perigos da falta de conduta na pesquisa institucional podem rivalizar ou mesmo superar os da pesquisa patrocinada pela indústria, uma vez que não existe um sistema de cheques e contrapesos, e os consumidores desse trabalho podem ser confiante demais.

Se não reformarmos a empreitada da pesquisa científica acadêmica, arriscamos à desconsideração significativa e à desconfiança pública da ciência. A moderna empresa de pesquisa acadêmica, que The Economist ridiculizou como um “esquema de Ponzi”, opera em um sistema de incentivos perversos que teria sido quase inconcebível para pesquisadores há 50 anos. Acreditamos que este sistema representa uma ameaça real para o futuro da ciência. Se a ação imediata não for tomada, arriscar-se a criar uma cultura profissional corrupta semelhante à revelada no ciclismo profissional (ou seja, 20 dos 21 pódio de finalistas do Tour de France durante 1999-2005 foram vinculados de forma conclusiva ao doping), onde um incentivo perverso descontrolado O sistema criou um ambiente em que os atletas sentiram que tinham que trapacear para competir. Enquanto o pro-ciclismo sofreu um grave descrédito devido a prolíficos escândalos de doping instigados por um desejo ardente de ganhar a qualquer custo, as apostas na ciência são muito maiores. A perda de atores altruístas e a confiança na ciência trazem danos ainda maiores ao público e ao planeta.

Nos últimos anos, a academia tem testemunhado um êxito incondicional ao reconhecer inúmeras questões importantes, incluindo as de diversidade demográfica, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, financiamento, melhor ensino, divulgação pública e envolvimento – tentativas estão sendo feitas para enfrentar muitos desses problemas.

Todos os cientistas devem aspirar a deixar o campo em um estado melhor do que quando entramos pela primeira vez. Os assuntos muito importantes de financiamento estadual e federal estão além do nosso controle direto. No entanto, quando se trata da saúde, integridade e percepção pública da ciência e seu valor, somos os principais atores. Podemos reconhecer e resolver abertamente problemas com incentivos perversos e hiper competição que estão distorcendo a ciência e enfraquecendo a pesquisa científica como um bem público. Algumas etapas relativamente simples incluem chegar a uma melhor compreensão do problema, minerando sistematicamente as experiências e percepções de acadêmicos em campos STEM, através de uma pesquisa abrangente de estudantes de pós-graduação de alto nível e pesquisadores.

Em segundo lugar, a NSF deve encomendar um painel de economistas e cientistas sociais com experiência em incentivos perversos para coletar e revisar a contribuição de todos os níveis da academia, incluindo membros aposentados da Academia Nacional e especialistas distinguidos de STEM. Com uma visão de longo prazo para promover a ciência como um bem público, o painel também poderia desenvolver uma lista de “melhores práticas” para orientar a avaliação de candidatos para contratação e promoção.

Em terceiro lugar, não podemos mais dar ao luxo de fingir que o problema da má conduta de pesquisa não existe. Nos níveis de graduação e pós-graduação, os estudantes de ciências e engenharia devem receber instrução realista sobre esses assuntos, de modo que eles estejam preparados para agir quando, e não se, eles o encontrem. O currículo deve incluir a revisão das pressões, incentivos e tensões do mundo real que podem aumentar a probabilidade de má conduta da pesquisa.

Em quarto lugar, as universidades podem tomar medidas imediatamente para proteger a integridade da pesquisa científica e anunciar medidas para reduzir os incentivos perversos e defender políticas de conduta de pesquisa que desencorajem comportamentos antiéticos. Finalmente, e talvez de forma mais simples, além de ensinar habilidades técnicas, os próprios programas de doutoramento devem aceitar que devem reconhecer a realidade atual de incentivos perversos, ao mesmo tempo em que promovem o desenvolvimento do caráter e o respeito pela ciência como bem público e o papel crítico de ciência de qualidade para o futuro da Humanidade.

Siddartha Roy  é candidato a PhD em Engenharia Ambiental pela Virginia Polytechnic Institute and State University (Virginia Tech) e Marc A. Edwards é  Professor Emérito também da Virginia Tech.

Esta é uma tradução livre feita por mim de um artigo publicado em inglês pelo site AEON.co [Aqui!] , o qual vem a ser  uma versão condensada do artigo científico ” Academic Research in the 21st Century: Maintaining Scientific Integrity in a Climate of Perverse Incentives and Hypercompetition’, que foi publicado na Environmental Engineering Science,  e  quefoi escrito para alcançar uma audiência mais ampla [Aqui!].  Artigo original © Marc A Edwards and Siddhartha Roy, 2016.

Furacão Irma como exemplo didático do impacto das mudanças climáticas

Ainda não recuperados dos efeitos devastadores do furacão Harvey, os estadunidenses estão agora presenciando a presença do Irma que está quebrando todos os recordes já estabelecidos para este tipo de fenômeno climático.

Ainda que furacões sejam uma realidade anual no Caribe e na América do Norte, o que está surpreendendo até os mais céticos é a combinação de fatores que normalmente ocorrem na passagem de qualquer furacão, mas que com Harvey e Irma tomaram proporções épicas.

Talvez agora possamos ter uma discussão séria sobre o que está por vir a partir das inevitáveis mudanças climáticas que estão sendo causadas pela sociedade capitalista. Melhor ainda se começando pelos EUA, possamos ter um debate pautado pelo que já foi estabelecido pela ciência e não pelo ceticismo com que este problema muitas vezes é tratado.

Abaixo um dos muitos vídeos que já foram postados no Youtube sobre a chegada do Irma na Flórida. 

Revolução e contrarrevolução na Alemanha: um ótimo guia para entender o avanço do fascismo no Brasil e no mundo

Em tempos de manifestação aberta de grupos neofascistas e neonazistas em várias partes do mundo há uma corrente desinformação não só sobre a gênese dos movimentos originais ocorridos na Itália e na Alemanha e uma evidente incapacidade de entender os componentes sociais desse ressurgimento, bem como do papel que esses saudosistas de Benito Mussolini e Adolf Hitler desempenham no centro e na periferia do sistema capitalista.

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Para quem desejar entender melhor o contexto e as condicionantes que permitiram a ascensão do nazi-fascismo, eu recomendo a aquisição da obra “Revolução e contrarrevolução na Alemanha” que é o resultado da combinação de uma série de textos escritos por Leon Trotsky entre 1931 e 1933, tomando como caso exemplar o Partido Nacional Socialista de Alemanha. 

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Como não vou  resenhar aqui o livro como um todo, me aterei a dois aspectos que considero fundamentais do livro e que me parecem permanecerem bastante atuais, inclusive para o caso brasileiro.

A primeira se refere ao que Trotsky se referiu a um apelo da pequena burguesia para abraçar o Fascismo para superar os movimentos de grave crise econômica, como é o que vivemos atualmente no mundo e no Brasil. Em relação a isso, Trotsky apontou para o caráter dúbio da pequena burguesia que pode tanto abraçar a revolução como a contrarrevolução. No caso da Alemanha da década de 1930. Trotsky afirmou que “o desespero contrarrevolucionário abraçou a massa pequeno-burguesa com tal força que atraiu importantes camadas do proletariado“.  Qualquer semelhança do que afirmou Trotsky sobre a Alemanha não pode ser negado como mera coincidência com o que andamos vendo no Brasil e também nos EUA em pleno 2017.

A segunda questão que trago desta obra de Trotsky se refere ao processo de fascistização do aparelho de Estado. Neste caso Trotsky apontou que a “fascistização do Estado significa (…) antes de tudo e, sobretudo, destruir organizações operárias, reduzir o proletariado a um estado amorfo, criar um sistema de organismos que penetre profundamente nas massas e esteja destinado a impedir a cristalização independente do proletariado. É precisamente nisto que consiste a essência do regime fascista”.

Essa referência ao processo de fascistização do Estado, além de ser uma primorosa caracterização, também nos auxilia a desmascarar a lenda de que os nazifascistas (ou mais precisamente os nazistas) eram de esquerda.  É que os eventuais vícios que a esquerda cometeu após a Revolução Russa, dificilmente envolverão o receituário apontado por Trotsky em relação à tomada do Estado pelo Fascismo.

Mas o essencial aqui é que a análise de Trotsky nos permite sair do aparvalhamento em que muitos estão imersos neste momento em relação ao aparecimento público de grupamentos que não tem a menor vergonha de pregar a eliminação física de judeus, negros, imigrantes e homossexuais.  É que a partir do entendimento das bases teóricas identificadas no  “Revolução e contrarrevolução na Alemanha” que podemos entender as cenas que reproduziam mensagens nazifascistas nas manifestações que pediam o impeachment de Dilma Rousseff, e agora foram repetidas em um tom ainda mais alto nas manifestações em Charlottesville. 

E que ninguém se engane: o nazifascismo representa a expressão mais aguda do caminho sem saída do regime burguês. Foi assim na Alemanha, e está sendo assim no Brasil e nos EUA.

Ah, sim, o livro pode ser encontrado para compra na Estante Virtual [1] e ou em algumas livrarias mais diversificadas em várias partes do Brasil.


[1https://www.estantevirtual.com.br/

Cenas americanas e a dificuldade de ser dizer as coisas como elas são

Violent Clashes Erupt at "Unite The Right" Rally In Charlottesville

Leon Trotsky realizou uma série de análises sobre as causas do surgimento do Fascismo e até formulou um conjunto de elementos que explicaria porque de tempos em tempos vemos a ascensão de governos que aplicam formas exremas de violência para impor seu controle sobre uma dada sociedade [1].

Tomando o que teorizou Trotsky, o elemento que hoje mais aparece evidente é aquele que alinha a emergência de elementos fascistas a uma frustração das classes médias com a situação objetiva que lhe é imposta por uma combinação de uma crise estrututal do Capitalismo como outra causada pelo processo de superprodução. O Fascismo nesse sentido nada mais é do que uma opção pela extrema violência para obrigar a classe trabalhadora a aceitar o aumento da superexploração do seu trabalho em nome de uma estabilização da crise capitalista.

Como vivemos um período em que a combinação de crises dentro do Capalismo leva a uma exasperação das médias, não chega a ser surpresa que grupos de orientação fascista estejam brotando em diversas partes do mundo.  A maior surpresa talvez seja a incapacidade da mídia corporativa que dar o nome aos bois, no caso bois fascistas.

A maior expressão dessa incapacidade de nominar corretamente é o tratamento que está sendo dado pela mídia mundial, em particular a estadunidense, os grupos envolvidos na ocupação da cidade de Charlottesville (norte do estado da Virginia) com a desculpa de protestar contra a remoção de uma estátua do general confederado Robert E. Lee.   Esses grupos vem sendo chamados de todo tipo de nomes (Alt Right, White Nationalists, White Supremacists) em vez do nome que realmente os define: neonazistas.

neonazis

Essa não é uma dificuldade qualquer porque esconde as raízes deste tipo de movimentação que é, como Trotsky caracterizou, impor pelo terror o consentimento dos trabalhadores com o aumento da superexploração do seu trabalho.  Encobrir este aspecto é fundamental para governos que hoje estão aplicando fórmulas extremas de expropriação da mais valia, seja pela redução dos investimentos em políticas sociais que reduzem os efeitos da apropriação capitalista da riqueza ou pela cassação de direitos trabalhistas que foram duramente conquistados pela classe trabalhadora ao longo do Século XX.

Interessante também notar que no caso dos enfrentamentos de Charlottesville, os que resistiram à marcha dos fascistas (ou neonazistas se for para caracterizar mais precisamente os grupos que lá estacam) também foram chamados de várias coisas, menos pelo que realmente são, antifascistas. E aqui a causa da ausência de caracterização pode ser apenas para deixar fluída a necessidade de caracterizar corretamente o que está se passando dentro dos EUA a partir da chegada ao poder de Donald Trump e sua mensagem de pseudo nacionalismo.  Em minha opinião, o que está ocorrendo por lá é o início de um processo aberto de luta de classes com uma divisão clara dentro das classes médias sobre qual caminho tomar.

Alguém pode se perguntar se o que está acontecendo nos EUA é, de alguma forma, um preâmbulo do que poderá acontecer no Brasil.  Eu particularmente acredito que é justamente o contrário. É que de uma forma perversa, o que está acontecendo lá, já vem acontecendo no Brasil desde que as multidões vestindo a camisa da CBF se postaram nas ruas para em nome do combate à corrupção exigir o fim das políticas de mitigação das desigualdades sociais.  

É preciso lembrar que em todas as manifestações feitas pelo impeachment de Dilma Rousseff a presença de grupos de orientação nazi-fascista era perfeitamente notável. Mas como a mídia corporativa estadunidense, a mídia brasileira escondeu propositalmente a presença e a mensagem desses grupos.  Desta forma, de uma forma bastante inglória, o Brasil se tornou a vanguarda para o atraso dos EUA.

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Nesse sentido, em vez de nos chocarmos com as tochas acesas numa praça de Charlottesville, o melhor  mesmo seria examinar cuidadosamente o que anda acontecendo por aqui mesmo. Afinal de contas, como país periférico tenderemos sempre a experimentar não apenas o pior da crise capitalista, como também das expressões deformadas que são realizadas para contorná-la.  Assim, ignorar a presença ostensiva desses grupos na sociedade brasileira representa um grave erro. E ficar apenas entoando que fascistas não passarão dificilmente resolverá o problema.

Um aspecto  curioso que poucos conhecem é que Robert E. Lee terminou seus dias como presidente de uma universidade que tem suas raízes ligadas ao primeiro presidente dos EUA, George Washington, e que foi rebatizada após sua morte como Washington and Lee University (WLU), a qual está localizada na cidade de Lexington, também localizada no norte da Virginia [2], não muito longe de Charlotesville.  Como presidente da WLU, Lee realizou um interessante processo de recrutamento de estudantes de todas as partes dos EUA e estabeleceu condições para que a universidade chegasse a ser hoje uma das melhores instituições privadas de ensino superior do sul do país [2].  Interessante lembrar que ele morreu no exercício do seu cargo na universidade e  foi enterrado numa capela existente no campus, estando seus restos mortais  ali até hoje. Mas essa parte da biografia de Robert E. Lee não é certamente a que interesse aos fascistas de lá e daqui.

 


[1] https://www.marxists.org/portugues/mandel/1974/mes/fascismo.htm

[2] https://www.wlu.edu/

Existe fome no mundo, mas não é por falta de comida para acabar com ela

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Provocado a pensar sobre uma das minhas próximas aulas na disciplina de Geografia que ministro para estudantes do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), lembrei  de um filme que venceu em 2015 a categoria de “short film” do tradicional Sundance Film Festival que foi criado em 1985 por iniciativa do ator estadunidense Robert Redford (Aqui!)

Este “short film” cujo título em inglês é “Man in the Maze”  (ou em português O homem no Labirinto”) mostra como milhões de toneladas de alimentos em boas condições são simplesmente despejados em lixões no estado do Arizona após serem produzidos no México.  Apesar de ser um filme de apenas 8 minutos, o seu conteúdo acaba de forma inapelável com a falsa noção de que a fome existe no mundo porque não há alimento suficiente para satisfazer as necessidades nutritivas básicas da humanidade.

O que o “Man in the Maze” mostra de forma bastante didática que a fome está diretamente ligada ao processo de transformação dos alimentos em outra commodity envolvida no processo de especulação financeira que hoje controla a economia capitalista. 

Abaixo segue o “Man in the Maze” cuja direção coube a Phil Buccellato e Jesse Ash.

Em tempos de repressão, o humor continua sendo uma arma poderosa

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A chegada de Donald Trump à presidência dos EUA está sendo acompanhada da implementação das medidas extremas que ele havia prometido fazer, e que muitos estadunidenses achavam que apenas um blefe de campanha.

Da ordem para que sejam iniciados os trabalhos para a construção do muro que separará fisicamente as fronteiras dos EUA e do México ao banimento da entrada de muçulmanos de sete países em estadunidense, as promessas de campanha estão sendo aplicadas.

Esse são medidas que efetivamente aumentarão as tensões no mundo, e deverão aumentar os incidentes de violência contra muçulmanos e latinos que já residem dentro dos EUA.

Mas nesses tempos bicudos, o uso do humor como ferramenta de combate ideológico é certamente bastante eficiente para demonstrar o absurdo de determinadas medidas que supostamente visam aumentar a segurança interna dos países ricos.

Abaixo uma prova de uso do humor para ilustrar os paradoxos que envolvem o uso de medidas para coibir o movimento de pessoas e o uso da xenofobia como política de governo.

Meus poucos pitacos sobre a vitória de Donald Trump

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Tenho lido uma série de manifestações postadas em grupos dos quais participo em redes sociais acerca da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais que me deixam convicto de que há muita confusão entre os intelectuais brasileiros e que se pretendem de esquerda. É que muitos pareciam ver na candidatura de Hillary Clinton traços de uma situação melhor para o mundo em caso de sua vitória, e de uma espécie de condição pré-apocalíptica caso Trump viesse a vencer.

Como alguém que morou nos EUA por um período relativamente longo e uma região fortemente republicana que é o sul, a minha maior surpresa não é a eleição de Trump, mas o fato que se deu pelo partido republicano. A verdade é que Trump apenas usou a sigla e não ficarei surpreso se ele pular para fora do barco republicano ao longo do seu mandato. Além disso, a base eleitoral de Trump foi composta por setores mais amplos do que os republicanos conseguiram amealhar nas duas últimas eleições presidenciais e em estados tradicionalmente democratas.

Por que isso se deu? As razões são múltiplas, mas penso que basta olhar para a situação de estados como Michigan, Illinois e Pennsylvania para verificar que parte do eleitorado é originária de uma classe operária que some pelos ralos em razão da lógica da acumulação flexível e sucumbiu ao discurso aparentemente nacionalista de Donald Trump.

Outra razão para o resultado é que boa parte do Partido Democrata não queria Hillary Clinton como candidata e optou por não fazer campanha para ela, mesmo arriscando uma vitória de Donald Trump. Essa indisposição para apoiar Clinton foi acentuada pelas revelações trazidas pelo Wikileaks de que a maioria das elites dirigentes dos Democratas havia sabotado e trabalhado abertamente contra a candidatura mais progressiva do senador pel oestado de Vermont, Bernie Sanders.

Ainda pode se acrescentar nessa equação os efeitos da disposição anti-imigrantes e anti-muçulmanos e anti-minortias que persistem em amplos segmentos da classe média estadunidense, e que não são nada de novo, mas que foi trabalhada com maestria por Trump. Aliás, um dos desafios que Donald Trump terá de enfrentar para ter uma chance mínima de governar é se livrar desta parte do seu próprio enredo. É que, apesar desses sentimentos terem aderência em amplos setores da sociedade estaduninense, há uma quantidade provavelmente maior de pessoas que rejeita esses elementos obscurantistas. E Trump, se quiser governar, vai ter que alcançar algum nível de equilíbrio, o que certamente não será fácil, dado o seu comportamento ao longo da campanha e sua própria personalidade.

No frigir dos ovos, a eleição de Donald Trump é o fim do mundo ou a promessa de que ele está mais próximo? Em minha opinião essa é uma tese furada e que concede um tipo de progressividade a Hillary Clinton que ela simplesmente não aplicaria em seu governo. O fato é que vamos ter de esperar para ver quais serão os tipos de política que Trump vai implementar antes que seja possível determinar qual será efetivamente o rumo que ele tomará.

De toda forma, os primeiros a se desapontarem com  Trump certamente serão os membros da classe trabalhadora que depositaram seus votos na sua candidatura Trump na expectativa de que  a “América voltará a ser grande”. É que ninguém mais do que Donald Trump caiu tanto dinheiro roletando com a decadência da centralidade econômica da indústria estadunidense. E não será porque virou presidente que Trump deixará de ser um homem de negócios. Aliás, há uma chance muito grande de que ele se sirva do seu posto para aumentar o tamanho do seu próprio conglomerado econômico.

 

Sérgio Moro e suas múltiplas palestras nos EUA: sou só eu que acha estranho?

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A revista Veja traz na edição que chega às bancas neste final de semana mais uma daquelas edições premonitórias sobre o fim da carreira política do ex-presidente Lula. Em uma das matérias que compõe essa edição funerária há espaço para uma rápida entrevista com o juiz federal Sérgio Moro após ele conceder uma palestra em um seminário organizado pela escola de Direito da Universidade da Pensilvânia sobre a formação de líderes íntegros e a difusão de bons valores na vida pública (Aqui!).

Dessa situação me aparece a seguinte indagação: sou só eu que acha estranho que Sérgio Moro esteja aparentemente passando mais tempo em solo estadunidense do que no seu escritório em Curitiba?

Como um juiz de primeira instância que guarda a estas alturas um arquivo colossal sobre o funcionamento de uma das maiores empresas petrolíferas do planeta, acho curioso que ele possa estar indo tanto aos EUA, sem que ninguém no Brasil se dê ao trabalho de perguntar que tipo de encontros  ocorrem nas margens de eventos supostamente acadêmicos. E, mais ainda, quem está financiando todas essas viagens.l

É que tendo vivido nos EUA por um bom tempo não me lembro deste tipo de vai-e-vem. Além disso, os EUA são especialistas em bajular para depois obter as informações que precisam. Além disso,  se fosse o contrário e o fosse um juiz de primeira instância cuidando de casos da Chevron ou da ExxonMobil, posso dizer com tranquilidade que pelo menos o FBI estaria acompanhando as andanças do magistrado com extrema atenção.

Mas como estamos no Brasil, pelo jeito a segurança corporativa não é algo que incomode tanto as autoridades de facto em Brasília.

O problema dos bilionários do Brasil

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Para compreender a desigualdade global, primeiro você tem que entender a desigualdade do Brasil .

*Por Patrick Iber

Pouco mais de dois anos atrás, em Abril de 2014 , quando Thomas Piketty lançou o seu livro “O Capital no século XXI”, que foi publicado inicialmente em inglês e tomou o primeiro lugar na lista de best-sellers do New York Times. O livro de Piketty atingiu um nervo, ajudando a disseminar várias ideias-entre elas a de que o capitalismo não gera automaticamente uma distribuição razoável ou equitativa da renda e que prestar atenção ao 1% dos mais ricos é necessário para se compreender a política. Piketty focou sua análise na concentração de riqueza nos séculos 19 e 20 na França, no Reino Unido e nos Estados Unidos, lugares onde a maioria dos dados que disponibilizados para esses períodos. Mas se Piketty se comportasse, em vez do economista que é, como um repórter que trabalha para compreender o mundo que os extremos de desigualdade fizeram hoje, ele não olharia para os países ricos. Ele poderia muito bem ter escolhido para se concentrar no Brasil, como Alex Cuadros fez em seu novo livro intitulado “Brazillionaires”.

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Cuadros, um repórter da Bloomberg, chegou ao Brasil em 2010 com uma missão tipo a encaminhada por Piketty: investigar a vida dos não 1%, mas dos 0,0001% mais ricos dos brasileiros. Parte de seu trabalho foi organizar a classificação bilionários brasileiros na lista da Bloomberg. Uma espécie de US News & World Report do ranking dos super-ricos, bem como para se informar sobre seus negócios e suas vidas pessoais.  No “Brazillionaires”, ele consolidou e moldou tais perfis em um pujante e engajador retrato envolvente do Brasil moderno.

Cuadros usa seu retrato do falecido magnata de mídia Roberto Marinho, por exemplo, para discutir como os principais meios de comunicação do Brasil retratam a questão da raça, e através disso, suas ideias e ideologias sobre as questões raciais. Seu capítulo sobre Edir Macedo, um pregador na linha do “evangelho da prosperidade”, que lhe permite discutir a mudança nas práticas religiosas. Embora cada capítulo seja construído em torno de um perfil de um determinado bilionário, Cuadros inclui reflexões de sua própria lavra e de informações obtidas gastando a sola do seus próprios sapatos. Ele visita os grupos comunitários nas favelas e vai junto no helicóptero $ 1.500 por hora que seus casos de estudo (no caso os bilionários) usam para evitar os congestionamentos de trânsito. O livro pode ser mais revelador do que os bilionários estudados gostariam. Na verdade, ele não estará disponível no Brasil, ´pois um dos bilionários em questão não ficou feliz com o que viu nos rascunhos do livro, e por causa disso os editores recuaram da ideia de publicar a obra em português.

O bilionário mais importante para o livro é, sem dúvida, Eike Batista. Eike, como é conhecido, subiu tão alto que chegou ao posto de oitavo colocado na lista de bilionários da Bloomberg, com uma fortuna estimada de US $ 30 bilhões de dólares. Eike ambicionava se tornar o homem mais rico do mundo. Eike que foi campeão de corridas de lanches tem implantes de cabelo usando as tecnologias mais modernas, e foi casado com Luma de Oliveira, uma modelo que posou para a Playboy e foi rainha do Carnaval. Um de seus filhos, Thor Batista, mostrou seu enorme torso muscular no Instagram e, até pouco tempo atrás, dirigia um Mercedes-Benz SLR McLaren avaliado em mais de um milhão de dólares. Eike e sua família dificilmente poderia ser menos representativos do estilo de vida de playboy bilionário dos ultra-ricos globais.

Portanto, Eike serve como um símbolo dos problemas do Brasil de hoje, e cerca de metade dos capítulos Brazillionaires é dedicada a ele. Apesar do que parece ser diferenças fundamentais na perspectiva e ideologia, Eike forjou uma relação de trabalho pragmática com os governos do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda. Até a presidente Dilma Rousseff, que foi suspensa do exercício do cargo por legisladores hostis em maio deste ano, o país tinha sido governada pelo Partido dos Trabalhadores de centro-esquerda desde 2003, primeiro sob o metalúrgico e líder sindical organizador Luís Inácio Lula da Silva (2003-2011) e depois sob Dilma (2011-2016). Antes de Lula tomar posse, os ricos brasileiros ficaram preocupados com o que iria acontecer quando Lula, um ex-socialista, assumisse o poder. O próprio Eike descreveu-a como uma regressão. Mas Lula que estava determinado a quebrar a associação de governos de esquerda com o caos econômico, e construiu alianças com oligarcas brasileiros.

Lula abraçou um programa desenvolvimentista que Cuadros descreveu como “querendo trazer a nação não tanto para o Século XXI  com alta tecnologia e alta finança, mas para o Século XX, com portos, barragens e grandes empresas brasileiras de base.” Porque Eike controlava um conjunto de empresas inter-relacionadas, principalmente nos setores de mineração e gás, e tinha feito grandes apostas na perfuração offshore, ele recebeu grandes empréstimos de bancos estatal de desenvolvimento. Em função disso Eike se aproximou de Lula.

A corrupção é quase uma parte esperada de negócios e políticos no Brasil, e Eike, embora muitas vezes retratado como um empresário de “estilo americano” e “self-made”, não foi uma exceção. Ele ajudou a financiar um filme biográfico lisonjeiro sobre Lula e gastou quarto de milhão de dólares em um leilão para comprar um terno que Lula tinha usado em sua posse. Mas, apesar da evidência de corrupção e conflitos de interesses através do sistema político, por um tempo todos pareciam estar se beneficiando. A economia do Brasil fez enormes progressos. A classe média cresceu e os padrões de qualidade de vida entre os pobres melhorou dramaticamente. Desnutrição foi diminuída pela metade. Um dos programas com a assinatura de Lula, o Bolsa Família, forneceu transferências monetárias diretas aos pobres, parcialmente em troca de frequência escolar das crianças. Muitos dos bilionários entrevistados por Cuadros justificaram a sua riqueza com alguma versão do argumento “do que é bom para a GM é bom para o país”. A maioria dos brasileiros considerou esta abordagem aceitável: Lula deixou o cargo com a aprovação de mais de 80%.

Mas os problemas surgiram em 2013. O governo do Brasil e seus consumidores tinham tomado dívidas em demasia. Os preços das commodities estavam caindo. As previsões de produção de campos de petróleo offshore de Eike se mostraram ser insuficientes para ele cobrir seus custos e suas empresas começou a colapsar. O seu patrimônio líquido estimado caiu de US$ 30 bilhões para US$ 1 bilhão negativo um em apenas dois anos, e ele se viu perante o tribunal, acusado de fazer uso de informações privilegiadas. Em 2012, seu filho Thor atingiu e matou um ciclista pobre com aquela McLaren avaliada em milhões de dólares. Os julgamentos de Eike e Thor pareciam ser testes para se saber se os poderosos poderiam ser responsabilizados pelas suas ações num momento em que as pessoas comuns estavam sofrendo com a deterioração das suas condições vida e com suas esperanças frustradas.

Em toda a sua ora, Cuadros é crítico dos bilionários que retrata, mas ele não os denuncia. Em alguns deles ele encontra qualidades admiráveis. Mas ele está ciente, de que os mitos contados sobre eles e dos mitos que ele contam sobre si mesmos são profundamente prejudicais. O mais próximo que ele chega a um crítica é quando ele pergunta a funcionários do escritório de Jorge Paulo Lemann (que se tornou o homem mais rico do Brasil depois da queda de Eike, e é dono do Burger King, da Budweiser, e de parte da Heinz), para citar alguma “coisa nova” que ele tivesse criado como um empreendedor adequadamente deve fazer. Eles não deram qualquer exemplo, e ele escreveu “Em uma apresentação recente para investidores recente Heinz apresentou inovações que misturaram mostarda amarela e molhos picantes”. É como se fosse um tipo destruição criativa sem a parte da criatividade.

Muitos dos brasileiros pobres admiram seus conterrâneos ricos, como Cuadros deixa claro. Muitos na classe média direcionam sua ira contra os pobres. Alguns de nós temos que trabalhar duro, mas:

” nós temos estas pessoas que não fazem nada e podem viver uma boa vida boa.” Quando eu perguntei a ela se ela coloca seu dinheiro em certificados de CDBs que recebem altas taxas de juros, ela respondeu que sim. Ela ficou surpresa quando eu argumentei que isto também era um subsídio público, uma muito maior, uma vez que o governo paga enormes somas para os bancos para ter seus títulos. Eu deveria ter mencionado que três de quartos dos adultos apoiados pelo Bolsa Família também precisam trabalhar para sobreviver.

Se Cuadros tem uma agenda, esta pode ser descrita como a ênfase nas contingência dos resultados econômicos, bem como sobre os obstáculos à mobilidade e ao acesso, todos que fazem a ideia de meritocracia pouco mais do que um meio para justificar a desigualdade extrema.

Estas questões-e todos os tipos de conversas sobre mérito, bem estar e distribuição da riqueza, não são, naturalmente, de nenhuma maneira única restritos ao Brasil. Brazillionaires se refere na superfície sobre o Brasil, mas pretende ser mais do que isso.  O Brasil, em alguns aspectos importantes, é mais representativo do mundo do que qualquer outro país.  O Brasil tem sido em décadas recentes um dos países mais desiguais do mundo. Se você combinar todas as pessoas do mundo juntos e medir as desigualdades de riqueza, o que se acha encontra é um nível maior de desigualdade do que existe em qualquer única nação. Ainda assim, o perfil do Brasil é que fica mais próximo de igualar a situação mundial: uma pequena rica e dominante classe alta, uma classe média modesta, e uma grande maioria de pobres que luta por renda e direitos efetivos.

O Brasil é incomum entre os países de desigualdade elevada dado o fato que seus cidadãos estão espalhados por todo o espectro de classes sociais. Nos Estados Unidos, por outro lado, em termos puramente monetários, os pobres são de renda média para os padrões mundiais.  O Brasil tem pessoas que são tão pobres como outros em qualquer outro lugar, e ainda tem, portanto, pessoas que são tão ricas quanto qualquer um em outro lugar qualquer. Apenas um dos entrevistados de Cuadros expressou qualquer tipo de remorso sobre essa situação peculiar. Guilherme Leal, co-fundador de uma empresa de cosméticos sustentáveis (a Natura, grifo meu) disse a Cuadros que se sente desconfortável em ser bilionário em um país tão pobre. “Eu acho que as sociedades mais felizes são os menos desiguais”.  Leal adicionou ainda que:

“Onde todos pudessem ter uma qualidade de vida bastante decente e razoável. Se eu tivesse que desistir de uma parte significativa da minha riqueza, e pagar 30% ou 40% a mais impostos, mas que com isso eu pudesse viver num país com menos desigualdade, eu seria mais feliz.”

Ainda assim, quando sua companhia foi instada a pagar milhões de dólares em impostos não recolhidos, Leal afirmou que: “aqui no Brasil, se você não tentar lidar de forma inteligente com a carga tributária, você vai falir.” Se o nível de desigualdade do Brasil choca a consciência, e leva a injustiças óbvias, então devemos reconhecer que, como uma comunidade humana global, nós somos todo o Brasil.

Cuadros não faz essa comparação global de forma explícita, mas ele espalha trilhas de pedaços de pão para uma terceira interpretação do conteúdo do seu livro. Mesmo o subtítulo da edição nos EUA “Riqueza, poder, decadência e esperança num país americano” visivelmente não diz que “país latino-americano”, mas americano. O ponto, que ele faz com certeza é de que estes problemas não são apenas Brasil, mas também são os dos Estados Unidos. Ambientalistas nos EUA reclamar com desânimo que enormes porções da Amazônia estão sendo desmatadas para o plantio de soja e a criação gado, como também fazem os ambientalistas brasileiros. Mas a atividade de traz ganhos de curto prazo para as áreas pobres do país e, como Cuadros aponta, os EUA tem feito o mesmo cálculo com o uso de fracking nos últimos anos.

Ambos os países são ex-sociedades escravagistas que lutam para enfrenta seus legados de racismo institucional e a violência que acompanha a patologização de um pobre racializado. Ambos são lugares onde os ricos têm aos meios garantir que seus filhos se tornem prósperos e mais se beneficiam até mesmo de bens públicos, como a educação.  A corrupção institucional tem sua cultura particular no Brasil, onde ela tanto pode ser uma frustração cotidiana quanto completamente exasperante. (O juiz responsável pelo julgamento de Eike Batista por manipulação de mercado e uso de informações preferenciais apreendeu alguns dos seus bens pessoais para depois ser flagrado dirigindo o Porsche Cayenne de Eike pelas ruas do Rio de Janeiro)

Mas o que dizer das nossas práticas completamente legais de lobbying na qual a experiência no governo pode ser transformada em riqueza privada, e as corporações e as pessoas ricas tem grande influência sobre a aprovação de leis?  A história de nossos poderosos bilionários não é simplesmente sobre produção de valor social, mas de bolhas, monopólios, negócios preferenciais, e a violência estatal e privada contra os trabalhadores. Os EUA são mais ricos e sua democracia é mais antiga, mas não é assim tão diferentes do Brasil.

Por causa dos Jogos Olímpicos, o Brasil é agora o centro da atenção mundial. Mas o fato de que os jogos acontecem num momento de conflito político e recessão econômica certamente é desapontador para os líderes brasileiros. Mas as legiões de jornalistas estrangeiros que estão caindo de paraquedas para visitas rápidas serão certamente atraídos pelo exótico: a beleza da paisagem e do povo, futebol, Carnaval, as favelas, e assim por diante. Brazillionaires é apenas uma lembrança aos telespectadores nos EUA serão mais bem servidos se não olharem para o Brasil como um lugar exótico com problemas igualmente exóticos. Contemplar as condições do Brasil é contemplar um quadro alarmante, e perceber que nosso olhar não está dirigido a uma pintura, mas a um espelho.

**O texto de Patrick Iber foi originalmente escrito em inglês  e  publicado pelo jornal estadunidense “New Republic” (Aqui!) e foi traduzido pessoalmente por mim para o português.

WikiLeaks expõe Michel Temer como informante do governo dos EUA

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A estas alturas não é mais segredo que o WikiLeaks de Julian Assange liberou documentos demonstrando que o presidente interino era informante da embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) e que passou aos diplomatas estadunidenses uma série de informações que os próprios consideraram coisa de amigo da onça.

Mas resolvi ir até o Twitter oficial do WikiLeaks para ver o que foi dito ao longo desta sexta-feira (13/05). E o pessoal do WikiLeaks realmente resolveu expor as relações de Temer com a embaixada estadunidense de forma escancarada (ver imagens abaixo).

É bem provável que Michel Temer não fique muito amuado com a revelação do WikiLeaks, pois já tem sido chamado de coisa bem pior do que “X9” aqui mesmo no Brasil. A questão não é como Temer reage ao ser desnudado frente aos outros governantes que fazem negócios com o Brasil mas que, não necessariamente, são amigos dos EUA. E a lista é grande, envolvendo parceiros comerciais estratégicos como China e Rússia.

Para quem quiser ter acesso aos documentos disponibilizados pelo WikiLeaks sobre as informações passadas pelo “X9” que agora é presidente interino do Brasil, basta clicar (Aqui!)