Uma pergunta inconveniente: para onde está indo a madeira extraída ilegalmente na Amazônia brasileira?

illegal loggingA pergunta inconveniente: quem está comprando a madeira extraída ilegalmente na Amazônia brasileira.

Tenho visto uma série de vídeos vindos de diferentes regiões da Amazônia mostrando filas razoavelmente grandes de caminhões carregando dezenas de árvores recém abatidas,  e com grande frequência de áreas onde estão localizadas unidades de conservação e terras indígenas.

Uma primeira questão que me vem à mente e que me parece bastante relevante para entendermos a atual dinâmica do desmatamento que está explodindo em diferentes regiões da Amazônia brasileira: quem está comprando toda essa madeira?

O Instituto Socioambiental (ISA) avalia que “apenas entre março e abril de 2019, cerca de 13.865 hectares de novas manchas, que correspondem ao desmatamento, surgiram na área da bacia do Xingu que incide sobre o estado do Mato Grosso“.

desmatamento_azulDesmatamento legal e ilegal no estado de Mato Grosso entre março e abril de 2019 apenas na baxia do Rio Xingu. Fonte: ISA.

A pergunta me parece relevante na medida em que historicamente o principal mercado da madeira extraída (legalmente ou ilegalmente) na Amazônia é o mercado nacional, com significativa participação do setor da construção civil, especialmente estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Mas como o Brasil está efetivamente em grave crise econômica desde meados de 2015 e a construção civil está em um momento de baixa em termos de iniciar novos empreendimentos, a possibilidade maior é de que a madeira que está sendo extraída de unidades de conservação e terras indígenas esteja sendo exportada para mercados internacionais.  Entretanto, essa possibilidade  também tem problemas para ser confirmada, na medida em que exportar madeira não é algo tão simples, ao menos se feita dentro de canais formais e, portanto, legais.

Conversando com um colega cujas pesquisas são centradas na Amazônia, ele levantou a hipótese de que as áreas que estão sendo desmatadas em 2019 já tinham sido desprovidas de espécies com valor comercial antes, o que criaria então um baixo nível de madeira de valor comercial. Nesse cenário, o essencial seria determinar o que está sendo plantado nessas áreas (soja e/ou cana de açúcar, por exemplo) e qual a porcentagem das áreas desmatadas estão tendo algum tipo de uso da terra efetivo, ou quanto está indo direto para a especulação financeira.

Ainda que este colega esteja parcialmente correto, tendo a achar que o volume de madeira que está saindo das áreas mais intensamente desmatadas em 2019 não é assim tão desprezível, e que o mais provável é que uma parte significativa desta madeira está saindo do Brasil de forma ilegal.

Uma questão que dificultará sobremaneira a avaliação do que está ocorrendo em termos de destino da madeira extraída ilegalmente é o virtual desmanche das equipes de fiscalização do IBAMA e do ICMBio que o ainda ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, efetivamente conseguiu fazer desde que assumiu o cargo.

Tenho certeza que eventualmente teremos acesso a dados que ajudem a elucidar esse mistério, visto que esforços estão sendo realizados por organizações não governamentais e movimentos sociais para estabelecer o percurso completo da madeira que está sendo retirada ilegalmente de unidades de conservação e terras indígenas.

 

O longo braço do socialismo de mercado chinês alcança a Amazônia brasileira

madeira

Em mais uma daquelas matérias que a mídia corporativa brasileira opta por ignorar, o jornal britânico “The Guardian” revelou no último domingo que dois empresários chineses foram pegos num esquema que desmatou 6 km de floresta no estado do Amapá [1].

china

O interessante é que , segundo o que o jornalista Dom Philips revela, esses dois empresários chineses estavam fomentando um esquema de corrupção que poderia ter causado danos ambientais estimados em 30 milhões de dólares.  Sinal que as estritas regras anti-corrupção adotadas na China não valem para quando seus agentes capitalistas penetram em outros países, especialmente aqueles da periferia como é o caso do Brasil.

Mas a extração criminosa de madeiras certamente não é o único negócio em que empresários chineses ou não estão envolvidos neste momento na Amazônia brasileira. Um exemplo claro é a própria monocultura da soja onde grandes corporações multinacionais estão fomentando a expansão da cultura, ainda que se saiba que às custas do desmatamento de áreas ocupadas por florestas nativas.

Não custa lembrar que a China é um dos principais mercados consumidores da soja brasileira.


[1] https://www.theguardian.com/world/2017/dec/17/brazil-amazon-china-corruption-amazon-amapa?CMP=share_btn_fb