Privacidade Vendida: Facebook entregou dados de seus usuários a pelo menos 150 empresas

Facebook entregou mensagens privadas dos utilizadores a 150 empresas

Por Vitor M.*

Os utilizadores parecem ter pouco valor enquanto pessoas e organizações com direito à sua privacidade. São apenas um número para o Facebook fazer dinheiro.

Segundo informações avançadas pelo New York Times, a empresa de Mark Zuckerberg entregou dados e mensagens privadas dos utilizadores a empresas como a Amazon, Microsoft, Netflix, entre outras. Foram mais de 150 empresas que receberam informações dos utilizadores sem que estes dessem a autorização ou que tivessem sequer conhecimento.

*Vítor M. é o  responsável pelo Pplware, fundou o projeto em 2005 depois de ter criado em 1993 um rascunho em papel de jornal, o que mais tarde se tornou num portal de tecnologia mundial. Da área de gestão, foi na informática que sempre fez carreira.

FONTE:  https://pplware.sapo.pt/redes_sociais/facebook-entregou-mensagens-privadas/

Whatsapp se tornou uma ferramenta sob completa suspeita

Mark-Zuckerberg-Facebook-and-Whatsapp

O aplicativo Whatsapp é uma das muitas ramificações da corporação multinacional que se esconde por debaixo do Facebook.  O Whatsapp foi adquirido pela empresa de Mark Zuckerberg pela “bagatela” de US$ 16 bilhões em 2014 e se encontra no topo dos aplicativos de sua natureza, até porque sua instalação é gratuita e promete a completa confidencialidade aos seus usuários.

Recentemente o Whastapp estabeleceu o limite máximo de 20 envios por vez, alegadamente para dificultar a disseminação das chamadas “fake news“.  É que seu uso para a opção preferencial para interessados em disseminar mensagens privadas em campanhas que visam alterar a percepção das pessoas sobre o que está se passando em um determinado contexto.

Mas eis que no dia de hoje o jornal Folha de São Paulo divulgou uma matéria bombástica revelando que um conjunto de empresários estaria envolvido na contratação de empresas para distribuir material contra o candidato Fernando Haddad e a favor de Jair Bolsonaro, o que envolveria o envio de centenas de milhões de disparos no Whatsapp (ver imagens abaixo).

caixa 0caixa 1Independente das consequências eleitorais que esta reportagem da Folha de São Paulo, é essencial que todos os usuários do Whatsapp que se preocupam não apenas com sua privacidade pessoal, mas também com manipulações que alterem o funcionamento do sistema democrático, comecem a avaliar seriamente se não é chegada a hora de procurar outros aplicativos para substituí-lo.   É que como já apontou o jornalista Leandro Beguoci em uma reportagem publicada pelo site VICE, o WhatsApp virou uma realidade paralela (e perigosa) no Brasil [1].

Como já existem outros aplicativos similares (Telegram e Signal, por exemplo),  a possibilidade de mudança não chega a ser difícil.  Resta saber se as pessoas estarão dispostas a sair da égide do oligopólio montado pelo Facebook. A ver!


[1] https://www.vice.com/pt_br/article/j53983/como-o-whatsapp-virou-uma-realidade-paralela-e-perigosa-no-brasil?utm_campaign=sharebutton

 

Myanmar: um genocídio preparado no Facebook

Pakistan Myanmar Attacks

Muitos brasileiros estão surpresos com as mensagens de ódio que campeiam as redes sociais nesta campanha eleitoral e com conteúdos que nos remetem  a períodos de extremo desrespeito aos direitos humanos. Se lerem o artigo assinado pelo jornalista Paul Mozur e que foi publicado pelo jornal estadunidense “The New York Times“, poderá constatar que o Brasil não é o primeiro nem o último lugar onde as redes sociais, especificamente o Facebook, estão sendo usadas para preparar ações violentas contra os que são considerados como “desajustados”, sejam eles gays, feministas, comunistas, umbandistas ou, no caso de Myanmar,  contra os membros de uma minoria étnica que professa religião distinta da maioria dos habitantes daquele nação asiática [1].

genocidio Myanmar

Qualquer pessoa que acompanha a evolução das redes sociais sabe minimamente que elas controladas por um pequeno número de corporações capitalistas cujo objetivo é exatamente o mesmo: enriquecer brutalmente os seus donos e, ao mesmo tempo, realizar um controle da qualidade e da intensidade de informação que circula via a rede mundial de computadores.

Mas o que a maioria não sabe é que, como mostra o caso retratado por Paul Mozur, há uma tolerância por parte das corporações que controlam as redes sociais em relação à participação de entes estatais disfarçados de pessoas comuns. Mais uma vez, o caso de Myanmar é exemplar, na medida em que as forças armadas daquele país se infiltraram por mais de 5 anos no Facebook para preparar uma campanha brutal de limpeza étnica, sem que fossem molestadas pelos filtros e censores da empresa.  Destino muito diferente tem sofrido grupos de direitos humanos e sociais que estão sendo bloqueados e impedidos de transmitir informações que seriam fundamentais para se entender como foi possível, via redes sociais, promover um genocídio em pleno Século XXI e, pior, preparado e transmitido como algo que fosse passível de naturalização.

Interessante notar que nesta reportagem, Mozur detalha a partir de informantes principais que participaram da estruturação de uma rede de “trolls” que criava páginas de notícias e celebridades no Facebook e, em seguida, as inundavam com comentários e postagens incendiários programados para o pico de audiência. A infiltração era feita de forma bem simples: as contas eram criadas como se fossem pertencentes a pessoas comuns que se apresentavam como fãs de grupos de roqueiros e heróis nacionais, mas quase que imediatamente passavam a disseminar mensagens de ódio contra a minoria Rohingya. 

imagens myanmar

Exemplo de imagem usada pelos militares para criar sua campanha de ódio contra os Rohingya e que estavam postadas nas páginas criadas no Facebook

Para se ver o tamanho e  o impacto da rede de trolls criada pelas forças armadas de Myanmar para promover a sua campanha de limpeza étnica contra os Rohingya,  depois de perguntas feitas por Mozur para preparar sua matéria, o Facebook teria informado que tirou do ar uma série de contas que supostamente estavam focadas em entretenimento, mas que estavam ligadas aos militares que promoveram o genocídio dos Rohingya. Segundo o próprio Facebook, essas contas tinham 1,3 milhão de seguidores! Como é impossível que os guardiões que monitoram o Facebook não soubessem da verdadeira identidade dos impulsionadores desta rede de perfis falsos, resta a inevitável conclusão de que a coisa foi tolerada até ser revelada. E claro, tudo em nome dos lucros dos donos da empresa.

Uma coisa é certa: as similaridades entre os que estão emergindo sobre o uso do Facebook em Myanmar, a partir das táticas de disseminação de mensagens de ódio, e o que está acontecendo no Brasil não são meras coincidências. Aliás, muito pelo contrário. Em função disso, os movimentos sociais e ativistas políticos brasileiros terão de repensar num futuro não muito distante a viabilidade de continuar usando as chamadas redes sociais como sua ferramenta primária de veiculação da informação e de disputa ideológica na sociedade. É que sem profissionalismo e disposição para enfrentar as táticas que estão sendo empregadas até por forças armadas nacionais, as redes sociais serão inevitavelmente as portadoras de uma paz dos cemitérios.


[1] https://www.nytimes.com/2018/10/15/technology/myanmar-facebook-genocide.html

 

O neoliberalismo e suas patologias

neoliberal

Independente dos resultados que emergirão das urnas no final deste domingo, em minha opinião estamos presenciando um momento de profunda anomia na sociedade brasileira, o qual está sendo causado principalmente pela falta de um horizonte positivo para muitos que hoje embarcam na tentação de resolver suas questões pessoais e nossos problemas pessoais via o uso da violência contra os que são vistos como elementos antagônicos aos seus ideais de vida.

E quais são estes ideais? Essencialmente eles são determinados por décadas de hegemonia neoliberal em uma sociedade que já era uma das sociedades mais desiguais do planeta. Esses ideais se ancoram na concorrência extrema entre os indivíduos, a erradicação de quaisquer laços de solidariedade e o estabelecimento de uma concepção de que os prejudicados pelo sistema ou escolheram ser assim ou não se esforçaram o bastante para acumular algum tipo de capital.

Após semanas debatendo em grupos de Facebook, alguns deles compostos majoritariamente por servidores públicos que deverão perder o pouco que ainda detém em termos de direitos, pude presenciar como as pessoas que ousam questionar esses princípios são tratadas. A coisa começa com a acusação de que alguém está doutrinado, mas passa pelas acusações de quem alerta para os riscos postos está com medo da derrota ou simplesmente desesperado. Este tipo de ladainha combina ainda citações a um suposto plano bolivariano de dominar e transformar o Brasil numa sucursal da Venezuela.

Ao serem lembrados que a Argertina que recebeu o receituário que  vai ser aplicado aqui se um determinado candidato vencer, a coisa descamba para as ofensas pessoais e a chacota.  Tampouco falam eles sobre o caso do Chile que foi o primeiro país da América do Sul a privatizar a previdência social e hoje possui um dos maiores índices de suicídio entre idosos no mundo.

Além disso, nesses grupos em que debati com os defensores dessa agenda neoliberal foi comum a demanda para que eu fosse excluído sumariamente por “não pertencer” ao grupo, como esse tipo de fórum tivesse algum tipo de DNA do pertencimento.  Como não caí na tentação de me retirar espontaneamente, as demandas cessaram na mesma medida em que aumentaram os ataques ao meu nível de inteligência. Obviamente para eles uma pessoa que se coloque contra o discurso rasteiro que eles oferecem para oferecer respostas para o Brasil (as quais raramente dizem quais são) necessita ser desqualificada, de modo a esconder a inexistência de propostas que não sejam de retirar direitos e impor uma sociedade guiada por rígidos mecanismos de moral social sobre os mais pobres.

Em suma, o que está aparecendo nestas eleições é muito mais do que milhões de pessoas votando em um candidato que já lhes avisou que irá trabalhar para piorar suas vidas. O que temos se manifestando abertamente são os ovos da serpente neoliberal que chocou uma sociedade com segmentos inteiros que perderam os níveis de solidariedade social e hoje apostam em mecanismos de higienismo social com paralelos históricos conhecidos na Alemanha nazista.  

Por causa disso é que muitos que até agora olharam para essa situação e fingiram que nada estava acontecendo precisam sair do seu comodismo e trabalhar para alcançar os milhões de pobres que estão sendo ludibriados e se colocando no papel de agentes de seus próprios algozes. A hora é de retomar o protagonismo político e mostrar que é possível construir uma sociedade mais solidária que não discrimine seus cidadãos com base na cor da sua pele ou da sua orientação sexual.  Mas aviso logo, o trabalho será duro porque os ovos da serpente neoliberal estão bem espalhados e desabrochando em grande profusão.

MBL reage a banimento do Facebook e decide criar sua própria rede social

O auto intitulado Movimento Brasil Livre (MBL) realizou hoje um micro comício na frenre da sede do Facebook para protestar contra de desativar 196 páginas e 87 contas que estariam sendo utilizadas para disseminar fake news e mensagens propugnando conteúdos que estimulam ódio e violência.

Diante do “sucesso” do micro ato, os líderes nacionais do MBL decidiram iniciar a criação de uma nova rede social para disseminar as suas ideias e valores, o Fakebook.

Abaixo o anúncio oficial do lançamento do Fakebook!

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Em “live” vereador Cláudio Andrade confirma que Facebook também pode ser cemitério de reputações

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Eu poderia ter atualizado minha postagem anterior onde apontei para que o vereador Cláudio Andrade (PSDC) era o virtual autor de uma áudio onde transmitia uma mensagem nada “friendly” aos seus assessores para que os mesmos atualizassem suas páginas em redes sociais com conteúdo não especificado, mas provavelmente de loas à sua atuação na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes.

Mas provavelmente assustado com a repercussão do vazamento de um áudio comm conteúdo ameaçador, o vereador Cláudio Andrade resolveu usar a sua página oficial no Facebook para fazer uma “live” (i.e., pronunciamento ao vivo) para explicar porque enviou o tal áudio a um grupo de 12 assessores, dentre os quais ele certamente vai procurar quem fez o vazamento [1].

Ouvi boa parte do conteúdo da live do vereador Cláudio Andrade e na minha modesta opinião ele deu uma de Chacrinha que dizia “Eu não vim aqui para explicar, eu vim aqui para confundir.”  É que em vez de explicar porque enviou uma mensagem de conteúdo claramente ameaçador, ele acabou fazendo um exercício de franco egotismo e não de explicação, com usos repetidos da citação dele mesmo como se outra pessoa (no melhor estilo Romário). É que, entre outras pérolas, ele atribui a si mesmo e ao uso de dinheiro de recursos pessoais a reforma de uma praça em Mussurepe, fato que se for confirmado, deveria merecer uma avaliação por parte do Ministério Público.

Agora, após ter ouvido essa “live”, tenho que dizer que o Facebook é outro espaço que se não for usado com o devido cuidado e precaução que tem tudo para ser mais um imenso cemitério de reputações.  Resta saber se a “live” do vereador Cláudio Andrade vai colocar sua reputação na cova. A ver!


[1] https://www.facebook.com/claudio.andrade.501?hc_ref=ARTnh2u4lAF29njWiTvfJJPHjjFO88NlPu7owxpbyxIM6Dmok5fPK2tCydcBvv4rAxY

A democracia do Google, Facebook e YouTube? Apontamentos sobre o viés ideológico dos motores de busca

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Por Lucas Malaspina

Quando Mark Zuckerberg decidiu anunciar o surgimento do Internet.org, a raiva não tardou em aparecer. Como explicou acertadamente Daniel Leisegang em “Facebook salvará o mundo”, publicado en español por Nueva Sociedad, este projeto surgido em 2013 tinha uma fachada humanitária: permitir acesso à Internet a uma enorme quantidade de cidadãos do Terceiro Mundo que ainda está fora da aldeia global. Para o caso, a ideia era romper as barreiras que impedem, por exemplo, que dois terços  ​​da população índia pudessem se unir ao Facebook.

Além da Índia, o projeto aspirava chegar a um total de 100 países. Acusada de violar a neutralidade da internet, o Facebook teve que trocar o nome do seu projeto: de Internet.org passou a se chamar Free Basics.  E o Facebook teve que se retirar da Índia em 2015 devido à grande quantidade de críticas que recebeu. Por quê?  Porque Facebook não está disponível em secas, mas se tratava de um aplicativo para telefones celulares para os setores de menos recursos da Índia podiam acessar uma versão diminuída da Internet. A ideia, originalmente impulsada com o espírito de que “a conectividade é um direito humano”, terminou mostrando que Zuckerberg pretendia era se apropriar de uma massa gigantesca de dados de uma quantidade significativa dos pobres do mundo (para monetarizá-los).

Facebook está salvando al mundo

Quem decidiria quais serviços estariam disponíveis no aplicativo? De acordo com Chris Daniels, vice-presidente da empresa, a decisão seria tomada pelo Facebook, o governo de cada país e o operador de telecomunicações associado ao projeto. Com razão, poderíamos afirmar que, se a “internet é um direito humano”, com o Free Basics, o Facebook aspirava regulares os “direitos humanos recortados” de metade da população mundial (aquela que não possui acesso à Internet). Estas políticas que ampliam a brecha digital tem que ter pouca inveja do modelo de Coreia do Norte, onde a maioria só tem acesso a uma uma modesta Intranet local que tem apenas 28 páginas disponíveis com conteúdo fiscalizados pelo governo de Kim Jong Un (a exceção é constituída, óbvio, pela elite governante). O Free Basics, que se encontrada em uma fase muito embrionária, tinha em Novembro de 2016 uns 40 milhões de usuários.

Na América Latina, o Free Basics foi implementado em 3 países (dos 23 que se uniram ao projeto em nível mundial) Colômbia, Guatemala e também a Bolívia, cuja inclusão no programa evidencia a discussão insuficiente sobre os problemas do monopólio da informação na área digital por parte dos governos populistas (ou, neste caso, sua colaboração/subordinação a esses monopólios).

O Free Basics não permite acesso ao Google, o mecanismo de busca mais popular do mundo, mas sim ao Bing (de propriedade da Microsoft que possui ações do Facebook).  E o que acontece com os 49,6% (3,7 bilhões de pessoas) que possuem internet sem (aparentes) restrições e dos quais 90% são usuários do Google. Podemos realmente nos gabar de usar uma internet realmente livre e neutra?

Efeito da Manipulação de Motores de Pesquisa

A expressão “Efeito da Manipulação dos Motores de Pesquisa” (Seme, em sua sigla em inglês) foi usada em agosto 2015 por Robert Epstein e Ronald E. Robertson, dois pesquisadores estadunidenses que demonstraram que era possível prever o voto de 20% ou mais de eleitorese indecisos em função dos resultados que o Google oferecia. Em vários artigos e entrevistas, Epstein se refere ao seu estudo e afirma que “em alguns grupos demográficos, “até 80% dos eleitores” podiam mudar suas preferencias eleitorais de acordo com os resultados oferecidos pelo Google [1]. Em Fevereiro de 2016, a mídia inglesa foi palco de uma grande polêmica sobre a ingerência do Google nas preferenciais dos eleitores [2].

Este não só é um problema das democracias ocidentais. Segundo linguista francesa Barbara Cassin, autora do “Googleame: a segunda missão dos Estados Unidos”, o Google teria cedido ao governo da China os perfis de seus usuários, o que permitiu às autoridades chinesas identificar e até prender dissidentes. Para provar o viés ideológico dos motores de pesquisa, Cassin afirmou que se num país diferente da China, o usuário pode obter dados sobre a repressão dos manifestantes naquela praça de Beijing. Mas se o usuário do Google usá-lo dentro da China, ele só obterá referências urbanas pacíficas para a praça”.

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Obviamente, o Google não admite este viés ideológico implícito em seu engenho de busca, mas as recentes políticas da empresa para ajudar a “combater o terrorismo” em geral e o Estado Islâmico (ISIS) em particular, mostrou concretamente o modo em que funciona seu poder sobe as decisões das pessoas. Esse é o caso do Jigsaw [3], um programa piloto de Google baseado em seu sistema de publicidade, mas com um objetivo comercial zero, mas sim político. O plano é localizar usuários propensos a aceitar a mensagem do ISIS, e oferecer-lhes uma série de anúncios específicos através dos quais eles são secretamente redirecionados para conteúdos que refutam as teses do ISIS, e que poderia ajudar a remover de suas cabeças a ideia de se juntar ao ‘Califado’. Poucos poderiam afirmar que o Google convence as pessoas a rejeitar o ISIS, mas é claro que isso revela que o Google está longe de ser “neutro” ou “objetivo” e, pelo contrário, chama a atenção para as possibilidades de manipulação dos usuários.

Batalha contra  as “Fake News” ou a Censura 2.0?

Os tempos mudaram, e com eles também o que encontramos na internet. Em 2010, ao pesquisar sobre política no Google, apenas 40% dos resultados eram fornecidos pela mídia. Já em 2016, essa porcentagem era próxima de 70%. Em 25 de abril de 2017, o Google anunciou que implementou mudanças em seu serviço de pesquisa para tornar mais difícil para os usuários acessar o que eles chamaram de “informações de baixa qualidade”, como “teorias de conspiração” e “notícias falsas”. O Facebook também aplicou uma política similar.

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O Google disse que o objetivo central da mudança em seu algoritmo de busca era proporcionar maior controle na identificação de conteúdo considerado censurável. Ben Gomes, em nome da empresa, afirmou que “melhoramos nossos métodos de avaliação e fizemos atualizações algorítmicas” para “produzir conteúdo mais autorizado”. O Google continuou: “Atualizamos nossas diretrizes para avaliar a qualidade da pesquisa para fornecer exemplos mais detalhados de páginas da Web de baixa qualidade para os avaliadores marcarem corretamente”. Esses moderadores são instruídos a marcar “experiências irritantes para o usuário”, incluindo páginas que apresentam “teorias de conspiração”. De acordo com o Google, essas alterações se aplicam a menos que “a consulta indique claramente que o usuário está buscando um ponto de vista alternativo”.

Desde que o Google implementou as mudanças no seu motor de busca, menos pessoas acessaram a sitíos de notícia de esquerda, progressitas ou opositores de guerras.  Com base na informação disponível nas análises de Alexa, alguns ds sites que experimentaram diminuição no seu ranking de acessos incluem  WikiLeaks, Truthout, Alternet, Counterpunch, Global Research, Consortium News, WSWS,  a Associação Americana de Liberadades Civis (a ACLU) e até a Anistia Internacional . Também no caso do Facebook, o editor do KRIK, um site independente da Sérvia, publicou suas queixas no The New York Times, explicando como as mudanças para combater (aparentemente) as “fake news” prejudicaram seriamente o seu veículo [4].

 Curiosamente, pouco antes dessa decisão do Google, o “The Washington Post” publicou um artigo intitulado “Os esforços de propaganda russos ajudaram a espalhar falsas notícias durante as eleições”. Neste artigo foi citado um grupo anônimo conhecido como PropOrNot que compilou uma lista de falsos sites de notícias espalhando “propaganda russa”. Em 7 de abril de 2017, a Bloomberg News informou que o Google estava trabalhando diretamente com The Washington Post para “verificar” os artigos e eliminar as “fake news” . Isto foi seguido pela nova  metodologia de busca do Google: dos 17 sites declarados “fake news” pela lista negra do Washington Post, 14 caíram em seus rankings globais. A diminuição média no alcance global deste sites foi de 25%, e alguns sites tiveram quedas de 60%. A suspeita  é de que o Google se aliou com os  poderosos meios tradicionais para discriminar a mídia alternativa e independente é reforçada pela ligação desses fatos.

Além do seu próprio mecanismo de busca, o Google controla o YouTube, uma empresa que eles compraram em 2006 (um ano após sua fundação). O YouTube paga os produtores de vídeos a partir de  certa quantidade de visualizações colocando anúncios   sobre eles, atuando como intermediário entre as grandes empresa os produtores de vídeo. A mudança mais séria no YouTube veio como resultado de relatórios como o do  The Wall Street Journal, que publicaram que  anúncios mostrados em vídeos do YouTube  mostravam extremismo e ódio [5]. Quando os grandes anunciantes, como a AT & T e a Johnson & Johnson, retiraram seus anúncios, o YouTube anunciou que tentaria tornar o site mais aceitável para os anunciantes “assumindo uma posição mais forte com respeito a conteúdos ofensivos e depreciativos”. Com esses novos algoritmos, o Google prejudicou os produtores de vídeos progressistas e independentes, causando o que eles chamavam de adpocalypse (apocalipse de anúncios). Basicamente, o mecanismo implementado acabou condenando esses conteúdos alternativos e obrigou os produtores de vídeo para que evitassem evitar opiniões ou pontos de vista censuráveis , de acordo com os padrões políticos do Google / YouTube [6].

Com base em seu estudo, Epstein questionou se o Google e Facebook decidem o que são “fake news” e quais seriam elas. Epstein considera que a posição monopolista do Google e do Facebook os transforma em uma espécie de super editor jornalístico mundial. As práticas do Google em relação aos algoritmos que regulam os motores de busca não só tiveram implicações políticas, mas também comerciais. No âmbito da sua regulamentação antitruste, a Comissão Europeia multou Google com US $ 2,7 bilhões por manipulá-los para direcionar os usuários para o seu próprio serviço de compras, o Google Shopping, usando sua posição dominante [7 ].

A escuridão dos algoritmos: problema democrático elementar

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Cathy O’Neil, uma pesquisadora da área da Matemática e autora do livro “Armas matemáticas de destruição”, adverte sobre a “confiança cega” depositada nos algoritmos para obter resultados objetivos. Segundo ela, a arquitetura da Internet tem uma tremenda influência sobre o que é feito e o que é visto; algoritmos influenciam qual conteúdo se estende mais no Facebook ou aparece no topo das buscas do Google. No entanto, os usuários não estão cientes disso, nem são capazes de entender como os dados são coletados, e como eles são classificados.

Se o Free Basics foi criticado por tentar conectar os desconectados do Terceiro Mundo a uma conexão de segunda classe, acreditando que a Internet é igual ao Facebook, não se pode negar que para a cidadania digital de “primeira classe” o Google é praticamente o mesmo que a Internet,  pois é aquele que nos permite acessar seus conteúdos de forma organizada. Desta forma, a falta de transparência dos algoritmos torna-se um problema democrático elementar. Após uma década de governos populistas ou progressistas na América Latina, não foram tomadas medidas para controlar o poder desses monopólios de informação, e a discussão sobre este tema está completamente atrasada. Mesmo a esquerda dos países desenvolvidos não veio propor um programa conjunto. Talvez, uma das tarefas mais urgentes.

Este artigo foi originalmente publicado em espanhol no site Nueva Sociedad : Democracia y política en América Latina [Aqui!]