Webinar “O enfrentamento da COVID-19 nas favelas”

Na próxima segunda, dia 04 de Maio, às 17:00 h, participe do próximo webinar da série #Corona360, que tratará do tema “O enfrentamento do COVID-19 nas favelas” com a presença de Raquel Willadino (Observatório de Favelas), Lidiane Malaquine (Redes da Maré) e Renata Trajano (Coletivo Papo Reto).

webinar

Neste momento em que estamos praticando o distanciamento social, a comunidade do MAPI/IRI/BPC (PUC-Rio) se reuniu para organizar uma série de conversas com especialistas, operadores de políticas e tomadores de decisão para nos ajudar a compreender os efeitos da pandemia em suas mais diversas dimensões. Essa é a série Corona 360. #cooperacovid

Evento online através do Webinar da plataforma Zoom.

Para inscrições e mais informações sobre a série, acesse: http://www.iri.puc-rio.br/mapi/corona-360/

Quando as gangues cuidam da sua saúde

rio de janeiro favelasEm muitas favelas do Rio de Janeiro (nesta imagem vê-se o Morro da Coroa), as condições de higiene são preocupantes. (Foto: Mauro Pimentel / AFP)

Por Christoph Gurk para o Süddeutsche Zeitung

Pelo menos quando o sol se põe, o bairro fica quieto, diz Lidiane. Ela prefere não ver seu sobrenome no jornal, nem mesmo na Alemanha distante, porque muita atenção pode ser perigosa onde ela mora.

O jovem de 29 anos é da Cidade de Deus, uma favela do Rio de Janeiro. Estima-se que 40.000 pessoas moram aqui em pequenas casas aninhadas. Em 2002, o bairro pobre ganhou fama mundial pelo filme de mesmo nome do diretor Fernando Meirelles, no final de semana passado, pelo menos infelizmente em todo o país, porque a Cidade de Deus registrou o primeiro caso oficial de infecção por corona em uma favela.

Desde então, a vida mudou, diz Lidiane. “As ruas estão vazias à noite”, diz ela, e assim que escurece, há um silêncio estranho. O jovem de 29 anos acredita que as pessoas têm medo do vírus, mas também dos traficantes de drogas que patrulham as ruas depois da noite para que ninguém viole o toque de recolher que eles impuseram.

A partir das 20h, ninguém pode estar na rua, então a facção que comanda o local determinou. Para que todos saibam, eles dirigiram pelas ruas com carros de alto-falante, diz Lidiane. Também haveria uma mensagem do WhatsApp, que supostamente veio da facção: “Queremos o melhor para a população”, afirmou. “Se o governo não acertar, o crime organizado tomará o assunto por conta própria”.

“Para servir de exemplo”

As facções que atuam em outras favelas da cidade veem a situação da mesma forma. Em favelas como Rocinha, Rio das Pedras ou Morro dos Prazeres, os líderes dessas facções impuseram toque de recolher, em alguns lugares as festas populares foram canceladas e, em outros lugares, as pessoas só podem sair às ruas em pares durante o dia, relatam os moradores. Se você for pego à noite,  você será usado como um exemplo.

Existem várias centenas de favelas no Rio, estima-se que dois milhões de pessoas moram aqui, ninguém sabe exatamente. Alguns locais são dominados por facções clássicas do tráfico de drogas, outros pelas chamadas milícias, que são compostas por criminosos locais e ex-policiais . O estado se retirou da grande maioria das favelas faz um longo tempo.

As facções do narcotráfico e as milícias estão no controle, não apenas sobre o tráfico de drogas, mas também sobre coisas mundanas, como a venda de canais ilegais de TV a cabo. Os comerciantes geralmente precisam deduzir o dinheiro da proteção, as empresas de transporte pagam pedágio. As leis brasileiras podem ter pouco significado em muitas favelas, mas as áreas pobres não são sem lei, muitas vezes existem regras e proibições claras, cujo cumprimento é monitorado pelas facções e punido com punições que são muitas vezes draconianas.

Bolsonaro ignora todos os avisos

Sob essa perspectiva, é apenas paradoxal à primeira vista que as facções de traficantes   estão fazendo o que o Estado brasileiro até agora deixou de fazer. Embora o Brasil tenha sido o primeiro país da América Latina a registrar a infecção pelo COVID-19, ainda não existe uma estratégia nacional contra o vírus. Pelo contrário: o presidente Jair Bolsonaro chamou Corona de “gripezinha”, ou seja, uma pequena gripe.  Bolsonaro ignorou todos os avisos e recomendações de seu próprio ministro da Saúde e instou o Brasil a voltar ao normal. Enquanto isso,  Bolsonaro fala do “maior desafio para nossa geração”.

O comportamento passado de Bolsonaro levou a uma disputa aberta com os governadores dos estados brasileiros, a maioria dos quais há muito ordenou medidas por conta própria. A maioria das escolas em todo o país está fechada, São Paulo e Rio de Janeiro estão em quarentena desde a semana passada, e o fato de as  facções que dominam os bairros pobres estarem ajudando a reforçar as restrições mostra o quão dramática é a situação.

Porque de políticos a traficantes ou chefes de  facções – todos sabem que isso quase inevitavelmente levará a uma catástrofe se o coronavírus se espalhar amplamente nas favelas. É uma ironia do destino que a doença tenha sido trazida de avião dos ricos para o Brasil, disse o professor Paulo Buss, do renomado centro de pesquisas da Fiocruz.

Extremamente densamente povoado

Enquanto os pacientes da classe alta mais abastada costumam receber cuidados saudáveis ​​em hospitais particulares depois de serem infectados na Europa antes de retornar a seus apartamentos com elevador e ar condicionado, as favelas geralmente carecem de atendimento médico adequado, nenhum sistema de esgoto ou água corrente. A lavagem regular das mãos, conforme exigido por todos os profissionais de saúde é quase impossível. Além disso, as favelas também costumam ser extremamente densamente povoadas, até 50.000 pessoas vivem em um quilômetro quadrado, grandes famílias geralmente sob o mesmo teto, divididas em duas ou três salas. Sob essas condições, o distanciamento social é impossível.

Lidiane divide um pequeno apartamento de dois quartos com os pais, avó, namorado e filha de dois anos. Ela mesma trabalha como faxineira, o pai como vendedor ambulante e a amiga faz todo o trabalho que pode conseguir. O dinheiro é escasso, principalmente porque a vida pública quase parou. E não há economia. “Não podemos ficar em casa”, disse Lidiane.

É assim que se sente a grande maioria das pessoas nas partes pobres do Brasil. Mais de um terço da força de trabalho no país não tem contrato de trabalho, nem segurança. O governo agora quer pagar 600 reais por mês aos milhões de pessoas que têm empregos informais, quase 100 euros, mas a maioria das pessoas ainda não recebeu o dinheiro.

Então as pessoas tentam se ajudar da melhor maneira possível. Associações de moradores e organizações de ajuda em várias favelas começaram a distribuir pacotes de sabão e alimentos. E com ela na vizinhança, diz Lidiane, alguns traficantes não apenas impuseram um toque de recolher, mas também tomaram outras medidas de precaução: eles ainda vendem drogas nas esquinas, mas, mais recentemente, usam máscaras faciais e luvas de borracha.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo Süddeutsche Zeitung [Aqui! ].

O potencial devastador do coronavírus sobre os pobres e o que isso nos diz sobre o futuro do Brasil

Tendler-2Os chamados para distanciamento social ignora as flagrantes diferenças econômicas que separam ricos e pobres nas cidades brasileiras

Estou há alguns dias aplicando regras de distanciamento social que poderão me poupar da contaminação por coronavírus.  Essa distância foi facilitada por decisões do governo Witzel e da reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sendo uma delas a possibilidade de que eu possa trabalhar na modalidade de “home office”  Como possuo carro, não estou tendo que utilizar os precários serviços de transporte público que existem em Campos dos Goytacazes. Por fim, moro em uma casa ampla que compartilho com uma gata, e aqui não há falta de espaço para nós dois.

Essas condições descritas acima mostram como sou um privilegiado, e como as condições pelas quais estou me preparando para a pior fase da pandemia do coronavírus me diferencia de milhões de brasileiros que vivem em habitações diminutas, sem esgotamento sanitário e com acesso precário a água. De quebra, muitos desses brasileiros não possuem fonte de renda, não tendo como se alimentar e, em consequência, não possuem as reservas energéticas para manter seus sistemas imunológicos funcionando de forma adequada.

Não podemos nos enganar ou tentar enganar. Neste momento, milhões de brasileiros pobres estão sendo contaminados pelo coronavírus, e em breve isto se tornará evidente, formando uma onda de doentes que precisará acorrer ao sistema público de saúde. O problema é que os serviços públicos de saúde foram gravemente sucateados que já se encontram sob forte pressão de outras epidemias que correm o Brasil de uma forma relativamente silenciosa, a começar pela dengue e chegando na tuberculose.  O quadro que se desvela é, desta forma, assustador, principalmente para os habitantes das áreas mais pobres das nossas cidades.

Enquanto isso, ao contrário da maioria dos governos mundiais, o do Brasil se comporta com insensibilidade e indiferença singulares, enquanto tenta aprofundar as reformas ultraneoliberais que foram iniciadas no governo de Michel Temer.  Assim, em vez de assegurar renda mínima para todos os brasileiros pobres, as medidas anunciadas pelo dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, indicam ainda mais ataques contra os direitos sociais e trabalhistas de que os trabalhadores ainda possuem. As parcas medidas adotadas por Paulo Guedes vão no sentido de proteger os interesses das grandes corporações financeiras que controlam a economia brasileira com mão de ferro.

Por outro lado, os panelaços que ocorreram por duas noites seguidas, mormente nas áreas ricas das principais cidades brasileiras, revelam que uma parcela significativa dos que elegeram Jair Bolsonaro presidente começou a se descolar do programa ultraneoliberal de Paulo Guedes.  Esse descolamento vai se aprofundar quando os efeitos econômicos da pandemia do coronavírus se agravarem, pois esses setores já se encontram estressados por uma recessão que se prolonga desde o início do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Entretanto, não há ainda uma pressão organizada que possa impor a quebra do teto de gastos que hoje asfixia o SUS e impede uma resposta ampla que impeça que o Brasil seja engolido pelo tsunami que o coronavírus irá criar sobre um sistema de saúde que já funciona em condições crítica.  Desta forma, a principal tarefa política do momento é garantir que haja dinheiro para dotar a rede pública de saúde dos equipamentos e insumos que serão necessários para impedir que o Brasil viva uma crise sanitária sem precedentes.

Finalmente, não haverá como conter esse cenário quase apocalíptico se não houver a devida solidariedade social com os mais pobres que hoje se encontram totalmente despreparados para enfrentar esta pandemia. Se não praticarmos solidariedade de forma genuína, que pelo menos façamos em nome da sobrevivência e a saúde de nossas próprias famílias.  É que não haverá como impedir as piores projeções do impacto do coronavírus no Brasil se os pobres forem deixados à mercê da própria sorte.

Incêndios e o o ciclo nada virtuoso da higienização social em São Paulo

 Imagem relacionada

Já perdi a conta de quantas vezes assisti nos últimos anos à imagens nas redes de TV mostrando incêndios gigantescos que devoravam barracos em alguma favela na cidade de São Paulo. A suspeita de muitos é que o fogo se tornou a principal ferramenta de higienização social na capital paulista, pois os incêndios rotineiramente começam de forma misteriosa, e terminando destruindo comunidades inteiras, deixando os que já têm pouco com menos ainda.

Mas o problema é que apesar de até existir uma bibliografia acerca do fenômeno dos incêndios em favelas situadas nas regiões mais centrais de São Paulo, não há efetivamente um processo de investigação mais profundo sobre como o fogo começa, nem como terminam as famílias que perdem tudo quando os mesmos ocorrem.

Entretanto, há quem suspeite de quem não há nada de espontâneo na combustão que consome favelas que não raramente são substituídas por empreendimentos privados destinados ao consumo das classes mais abastadas. Afinal, nos últimos 20 anos, mais de 1,2 mil incêndios foram registrados nas favelas da cidade de São Paulo, sendo que metade deles ocorreu entre 2008 e 2012 [1].

latuff fogo

Por isso tudo é que o incêndio que consumiu o edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, no Centro de São Paulo. me deixou com a pulga atrás da orelha. É que incêndio sucedido por desabamento completo é algo que até pode acontecer, mas que nem por isso deixa de ser estranho.

Agora, a pulga fica do tamanho de um elefante quando se lê que um anúncio de um empreendimento imobiliário para “pessoas de bem” já traz a área onde o mesmo se localiza sem a incômoda presença do prédio que desabou, matando sabe-se lá quantas pessoas pobres (ver imagens abaixo) [2].

anúncio

Área destacada na imagem devia conter o prédio ocupado que desabou no dia 1º devido ao incêndio de grandes proporções

Podem me chamar de cínico, mas não vou me surpreender nem um pouco se no futuro se descobrir que o anúncio que eliminava o edifício Wilton Paes de Almeida não tinha nada de premonição, e que repentinamente se descubra que fogo foi a ferramenta preferida na aceleração da gentrificação da região central de São Paulo. Afinal, aonde há fumaça, há fogo.


[1] https://www.cartacapital.com.br/blogs/speriferia/documentario-expoe-o-que-esta-por-tras-de-incendios-nas-favelas-de-sao-paulo-7454.html

[2] http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2018/05/em-anuncio-lancamento-imobiliario-ja-eliminava-predio-ocupado-que-desabou

A execução de Marielle Franco na capa do “Washington Post” revela as piores facetas da sociedade brasileira

Se ainda havia dúvidas sobre o alcance global alcançado pela execução da vereadora Marielle Franco, elas acabaram no dia de hoje com a publicação de uma matéria de capa pelo jornal estadunidense “Washington Post” que é um dos principais veículos da mídia mundial [1].

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A diferença essencial desta matéria em relação à muitas que li anteriormente é que a mesma toca no espinhoso assunto das inequalidades raciais que existem no Brasil, de uma forma que poucos jornalistas (e muito menos seus patrões) têm coragem ou disposição de abordar. E mais importante do que abordar o problema das chances desiguais a que os negros estão submetidos na sociedade brasileira, a matéria vai além e aborda a questão da extrema violência a que as populações pobres e majoritariamente negras das favelas estão submetidas pelo aparelho de estado brasileiro.

marielle

Outro aspecto que me pareceu singular no tratamento dado pelos jornalistas do Washington Post foi a relevância dada não apenas à militância política de Marielle Franco, mas também ao fato de que ela era uma intelectual que estava num processo de evolução e que militava no tópico em que realizava suas pesquisas. Esse aspecto da execução de Marielle Franco tem sido negligenciado na cobertura, apesar de ser muito importante. É que a execução de Marielle não privou o PSOL apenas de uma ocupante de cargo eletivo, mas também e principalmente uma intelectual que atuava numa área extremamente sensível para o tipo de militância política no qual o partido claramente ainda engatinha.

É muito interessante notar que novamente é a mídia internacional que oferece matérias mais densas e completas sobre um fato ocorrido no Brasil, indo além do emocionalismo e a espetacularização que permeou boa parte da cobertura dada pelos veículos nacionais com o interesse claro de diminuir a contribuição política que Marielle Franco dava para o necessário debate em torno da violência estatal contra a maioria negra da população brasileira.

Finalmente, há que se reconhecer que com essa matéria a intervenção militar decretada pelo presidente “de facto” Michel Temer foi desnudada frente à opinião pública mundial, bem como as grossas diferenças de direitos vigentes no Brasil, e que atingem diretamente os segmentos mais pobres da nossa população.


[1] https://www.washingtonpost.com/world/the_americas/a-black-female-politician-was-gunned-down-in-rio-now-shes-a-global-symbol/2018/03/19/98483cba-291f-11e8-a227-fd2b009466bc_story.html?utm_term=.597897dc0e53

Para a direita, a voz das urnas só é boa quando seus partidos ganham

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Não é preciso ir longe para dizer que desacredito completamente nas eleições burguesas como um instrumento de validação da vontade da maioria pobre da população brasileira.  Um sistema eleitoral como o nosso, onde quem tem dinheiro carrega chances muito maiores do que os que não tem não pode construir governos que estejam efetivamente antenados com a realidade da maioria. Esse é claramente um sistema voltado para manter os privilégios de uma minoria que é privilegiada desde que os portugueses encostaram as suas naus na costa brasileira. O famoso pessoal do 1% dos mais ricos que adora passear na Europa, mas quer nosso povo vivendo eternamente em favelas e guetos.

Mas de vez em quando são eleitos determinados partidos que se afastam um pouco da cartilha que defendem apenas os interesses daquele 1% que fica com quase toda a riqueza gerada pelo trabalho da maioria. Quando isso acontece normalmente a culpa é dos mais pobres que se deixaram levar por promessas populistas e vantagens passageiras. No caso de Campos dos Goytacazes, essas “vantagens” (que na verdade são medidas meramente paliativas voltadas para suavizar o profundo social criado pela concentração da renda) incluem a passagem a R$ 1,00 e o Cheque Cidadão. Nestes momentos em que os partidos do 1% perdem, as eleições são apontadas como viciadas e controladas por populistas que as usam com propósitos sempre escusos. E o pobre, coitado do pobre, é um ser vil e venal, incapaz de ver o que se passa diante de seu nariz.

Entretanto, quando ganham os partidos que, por exemplo, apoiaram o golpe de estado que apeou a presidente Dilma Rousseff ilegalmente do poder, o que se vê é que as eleições mudaram magicamente a condição política do país e das cidades. Aí a população pobre é repentinamente formada por sábios e críticos, capazes de discernir propostas e candidatos. Esse fenômeno de conversão do pobre vendilhão em sábio democrático está presente aqui mesmo em Campos dos Goytacazes com a vitória de Rafael Diniz do  Partido Popular e Socialista (sic!) que foi um dos mais ativos organizadores do golpe de estado “light” contra Dilma Rousseff.  Agora, os antes manipulados pelas benesses populistas estão sendo transformados em iluminados defensores da democracia.

Qual é a lição que eu tiro dessa repentina aclamação do voto dos pobres em candidatos da direita? Que a voz das urnas só é boa quando eles ganham. Mas, me perdoem os mais entusiasmados, vamos ver como a coisa fica quando em nome da governabilidade que só serve aos membros do 1% forem cortados os programas sociais que tem melhorado a vida dos mais pobres.  E não tenho dúvidas, esses programas serão cortados em Campos dos Goytacazes,  como já estão sendo cortados em nível federal. A ver!

 

 

Está tendo Copa, e daí?

Estou vendo e lendo uma reação quase de orgasmo dos apoiadores do governo Dilma Rousseff sobre o andamento da COPA FIFA. Eu que nunca vi a questão do movimento “Não vai ter copa” como algo que tivesse como objetivo final a realização do megaevento da multinacional do futebol, penso que tanta celebração é apenas um elemento a mais na degeneração ideológica do PT e seus neoapoiadores. Digo isso porque não vejo e nunca vi os atrasos nas obras como o real problema da preparação deste megaevento. Afinal, quando estive em Londres em 2012, vi o mesmo tipo de problema acontecendo.

O problema real e que será uma das muitas heranças malditas desta COPA foi a remoção de milhares de famílias pobres para regiões periféricas das cidades-sede, apenas para beneficiar os ganhos já bilionários das empreiteiras e incorporadores imobiliárias. Além disso, o o superfaturamento das obras e o custo final dos estádios contribui de forma direta para a persistência, e quiçá o aprofundamento, do imenso fosso social existente no Brasil.

Além disso, há que se lembrar que qualquer tentativa de manifestação pública para denunciar os malfeitos deste megaevento está sendo duramente reprimida por uma mistura de tropas federais, estaduais e municipais. As graves violações de direitos constitucionais, com agressões e prisões arbitrárias de manifestantes e jornalistas, são uma expressão evidente de uma disposição de negar que seja dado voz aos que mais estão perdendo com todas as intervenções que foram feitas para realizar a terraplanagem social para viabilizar que os ricos possam maximizar seus lucros com a COPA FIFA.

Ao não fazerem o devido balanço do megaevento da FIFA, os seus apoiadores jogam para debaixo do tapete todas as suas questões em nome de um ufanismo sobre a capacidade do Brasil realizar algo cuja repercussão final será banal. Enquanto isso, muitos estádios continuarão sendo a expressão acabada de uma sociedade ancorada na segregação social e, também, espacial.

Finalmente, tenho que refletir sobre os aeroportos que foram turbinados para serem entregues à iniciativa privada, como é o caso do Aeroporto Internacional do Galeão. Como passei por vários deles ao longo de 2014, penso que muitos correm o mesmo risco da “Arenal Pantanal” e da “Arena Amazônia”, que é o de virarem elefantes brancos que, cedo ou tarde, serão retornados para a administração pública, já que o empresariado brasileiro gosta mesmo é de lucro fácil e, sim, de imensos e generosos subsídios estatais.

Nada de Neymar, Google homenageia as favelas!

Por incrível que pareça , o Google está mais avançado do que muita gente dentro do Brasil que fica repetindo que devemos esquecer os roubos, os superfaturamentos, os estádios que nunca mais serão usados depois do final da COPA FIFA. É que hoje quem for fazer uso do Google para fazer buscas, vai ver uma lembrança das favelas que continuam a ser a expressão mais óbvia e ululante do profundo fosso social que separa ricos e pobres no Brasil. O interessante é que o artista que produziu este “doodle”, Matt Cruickshank, usou como referência a Favela da Rocinha, onde foi assassinado o pedreiro Amarildo cujo corpo se encontra desaparecido até hoje.

Que belo gol de placa do Google, e que vergonha para os comentaristas que nos querem empurrar o conformismo em relação aos gastos escandalosos que foram feitos e às milhares de famílias que foram removidas em prol da especulação imobiliária.

 

favelas

Especulação imobiliária contribui para expulsões ligadas à Copa do Mundo

Obras no Itaquerão, São Paulo, 2012.

Obras no Itaquerão, São Paulo, 2012.

Flickr/Ze Carlos Barretta
Silvano Mendes

A expulsão de milhares de pessoas de suas casas por causa das obras de preparação da Copa do Mundo foi um dos assuntos que mais suscitaram polêmica nos últimos meses. A questão chegou a ser tema de uma campanha da Anistia Internacional no Brasil e esteve no centro de debates em Paris. Mas para especialistas ouvidos pela RFI, as expropriações camuflam uma situação muito mais complexa, na qual a especulação imobiliária tem um papel fundamental.

Dois dias antes do pontapé inicial da Copa do Mundo, as associações francesas Autres Brésils e Ritimo organizaram em Paris a projeção dos filmes Jeux de pouvoir, de Susanna Lira, e A caminho da Copa, de Carolina Caffé e Florence Rodrigues. O evento tinha como objetivo discutir a questão do direito à moradia no Brasil, levando em consideração as denúncias de remoção forçada de milhares de moradores de suas casas nos meses que antecederam o mundial.

A professora brasileira Teresa Peixoto Faria, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), participou de uma mesa-redonda organizada logo após a projeção na capital francesa. Para ela, essas “remoções são práticas que já existiam anteriormente, sobretudo no período militar”. No entanto, a pesquisadora, especialista em estudos urbanos, lembra que com a “desculpa da Copa”, o fenômeno tem se acentuado. Ela chama a atenção para os interesses especulativos camuflados por essas expulsões. “Essas populações já estavam há muito tempo e alguns assentamentos já existiam há mais de 30 anos, mas o grande interesse surge quando esses terrenos estão em áreas que hoje estão sendo valorizadas”.

Renata Neder, assessora de direitos humanos da Anistia Internacional Brasil e coordenadora da campanha “Basta de remoções forçadas!”, comenta essa valorização ligada aos grandes eventos esportivos. Baseada em um estudo feito pelo arquiteto Lucas Faulhaber, que traçou um mapa das remoções cariocas, ela explica que “no Rio de Janeiro, as pessoas estão sendo removidas do início da zona norte, do centro, da zona sul e da Barra da Tijuca, que são as zonas mais nobres da cidade, para serem reassentadas nas áreas periféricas da zona oeste, que são muito distantes e controladas pelas milícias”.

Segundo ela, os estudos levam a crer que “existe um padrão de relocalização das famílias mais pobres nas regiões mais afastadas da cidade, mesmo se há terrenos públicos em áreas centrais do Rio de Janeiro que poderiam recebê-los”. Para ela, esse é um dos fatores que contribuem para a especulação imobiliária e o aumento dos preços dos imóveis. “Um prédio em Copacabana que está ao lado de uma favela vale menos que um prédio que não está ao lado de uma favela”.

Mas a representante da Anistia ressalta que a bolha imobiliária atinge todos, inclusive aqueles que não oficialmente expulsos de seus lares. Além disso, ela explica que esse fenômeno não é novo e também não é uma exclusividade do Brasil. “Remoção, encarecimento do custo da moradia a o processo e ‘gentrificação’ já foram documentados em outros países. Em cidades como Pequim, por exemplo, isso levou a mobilidade de quase um milhão de pessoas. É como se existisse um padrão do impacto negativo da realização dos megaeventos esportivos. O lamentável é que os governos não estejam atentos para isso e não tomem medidas para prevenir”.

FONTE: http://www.portugues.rfi.fr/geral/20140611-especulacao-imobiliaria-contribui-para-expulsoes-ligadas-copa-do-mundo

El País: As favelas se levantam contra a violência policial

O Rio registra mais de 500 mortos por mês, além dos milhares de desaparecimentos, provocados por uma violência desmedida

 
 Rio de Janeiro 

Quatro ônibus foram incendiados neste sábado em Niterói. / AGÊNCIA O GLOBO

Não é notícia que no Rio do Janeiro os principais indicadores de segurança tenham piorado de forma alarmante no último ano. Mas é notícia que os moradores das favelas, cansados de pagarem a conta das intervenções policiais indiscriminadas contra as quadrilhas de traficantes e das tristemente populares balas perdidas, tenham decidido romper o silêncio e encarar um Estado que historicamente os trata como cidadãos de segunda. Uma imagem que vem sendo habitual nos últimos meses é a de grupos de moradores de diferentes favelas cariocas interrompendo o tráfego de ruas e avenidas, incendiando ônibus e veículos públicos, montando barricadas ou recebendo a polícia a pedradas. As fotos são muito claras: nelas se observam mulheres e homens de idade avançada, mães e jovens sem armas de fogo que, estimulados pelas permanentes manifestações que se estendem pelo Brasil, lançam agora um grito de cansaço desesperado, contido durante décadas.

Nas imediações da favela do Caramujo, em Niterói, os moradores interromperam uma rodovia nesta sexta-feira e atearam fogo a quatro ônibus e três carros em resposta a duas mortes registradas nas últimas horas na mesma região. Pouco depois de deixar a igreja de Nossa Senhora de Nazaré, Anderson Santos Silva, de 21 anos, se viu encurralado em um fogo cruzado entre narcotraficantes e policiais que pretendiam reprimir um baile funk que acontecia naquela noite na favela. Ao tentar proteger a seus familiares do tiroteio, Anderson recebeu um disparo e morreu horas depois. Sua irmã também ficou ferida. O jovem Emanoel Gomes circulava de moto pelo mesmo subúrbio quando foi atropelado por um blindado do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Ambas as mortes levaram um nutrido grupo de moradores a tomar a justiça nas próprias mãos, incendiando ônibus e carros e interrompendo o trânsito. Protestavam contra uma polícia que parece retornar aos velhos hábitos de perseguição e destruição dos traficantes, geralmente agindo sem muitos melindres com a população local.

A ONG Rio de Paz resumiu as estatísticas publicadas durante os últimos oito anos (2007-2014) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio do Janeiro. E os números são alarmantes: no Estado de Rio, foram registados neste período 35.879 homicídios dolosos, 285 lesões corporais seguidas de morte, 1.169 roubos seguidos de morte, 5.677 mortes derivadas de intervenções policiais, 155 policiais militares e civis mortos em ato de serviço. Total: 43.165 falecidos. Ou seja, mais de 500 mortes por mês provocadas por uma violência desmedida. Esses números não levam em conta os mais de 38.000 desaparecidos nem as mais de 31.000 tentativas de homicídio.

No Complexo da Maré, recém-ocupado pelo Exército brasileiro, também foram registrados nos últimos dias duas mortes de civis suspeitos de trabalharem para o narcotráfico. O fato gerou uma onda de indignação entre os moradores do complexo, que não entendem como uma ocupação militar com fins pacificadores pode começar causando vítimas mortais desde o primeiro momento. Claudia Silva Ferreira, a mulher de 38 anos que no último dia 16 de março morreu vítima de balas perdidas numa favela da zona norte do Rio e que, para maior escárnio, foi arrastada ao longo de 250 metros por um veículo da Polícia Militar que a levava para ser atendida em um hospital, se tornou outro dos ícones dos últimos tempos contra a violência policial. A morte de Claudia também desatou a ira dos moradores e uma enxurrada de críticas à polícia nas redes sociais.

No começo de abril, um grupo de moradores da favela do Cantagalo, no rico bairro de Ipanema, desceu do morro, interrompeu as ruas e incendiou caçambas de lixo depois que dois dos seus moradores ficaram feridos a tiros. Nas imediações da favela de Vila Kennedy, outro grupo de cidadãos interrompeu no fim de fevereiro a movimentada Avenida Brasil. A morte de um morador em um confronto armado entre policiais e narcotraficantes foi igualmente o estopim da fúria coletiva. Dias depois, o Batalhão de Operações Especiais ocupava a mesma comunidade para sua futura pacificação.

Mas o caso que mais rios de tinta e mais protestos gerou foi o do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, torturado até a morte e desaparecido por um grupo de policiais pacificadores na favela da Rocinha. A pressão gerada pelos constantes protestos e mobilizações organizados pelos moradores da maior favela do Rio conseguiu algo inédito até hoje: que os responsáveis tenham sido identificados e estejam respondendo perante a Justiça. Enquanto isso, as operações policiais continuam ocorrendo nas favelas do Rio, a menos de dois meses do início da Copa do Mundo. Nelas, registram-se mortos e feridos, mas raramente a polícia se responsabiliza por eles.

FONTE: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/04/20/politica/1397952771_527057.html