A “nota de nojo” dos netos de Luiz Gonzaga contra o governo Bolsonaro

bolso musica

O presidente Jair Bolsonaro apresentou uma live na quinta-feira (2), ao lado do presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães (à esquerda), e do ministro do Desenvolvimento Regional (Rogério Marinho), à direita. Ao fundo, o presidente da Embratur tocou e cantou a música ‘Riacho do Navio’, com alterações da letra — Foto: Reprodução

NOTA DE NOJO

Diante da impotência e da impossibilidade de processo por propaganda indevida,
por dupla apropriação, da canção de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e do projeto do Rio São Francisco; nós, filhos de Luiz Gonzaga do Nascimento Jr, netos de Luiz Gonzaga, o Gonzagão, apresentamos uma NOTA DE NOJO diante deste governo mortal e suas lives. Governo que faz todos os gestos ao seu alcance para confundir e colocar em risco a população do Brasil, enquanto protege a si mesmo e aos seus.

Não estamos de acordo com o uso da canção Riacho do Navio, nem sua alteração, nem sua execução (com duplo sentido) pelo Senhor Gilson Machado Neto, presidente da Embratur, em transmissão ao vivo pelo Senhor Presidente.

E, AINDA QUE SIMBOLICAMENTE, não autorizamos ao Governo Federal o uso das canções assinadas por nenhum de nossos familiares, ou, ao menos, das respectivas partes que nos cabem.

Sonhamos com o dia em que nosso país volte a ser e a ter respeito e honestidade em relação à sua história, suas injustiças e desequilíbrios.

Sonhamos o dia em que se volte a reconhecer, dentro do país, a importância da Cultura, das artes Brasileiras, e seu imenso legado por gerações, assim como o é em todo o mundo.

Sonhamos com o dia em que a informação e o conhecimento sejam distribuídos democraticamente à todOs, para, apenas recomeçar, sanarmos essa doença que não faz distinção, além da social, como costuma ser na nossa violenta história. E depois, para que o poder e o espaço, em toda instância, possa ser equalizado e distribuído.

Sonhamos dias sem mortos pela violência do Estado, seja ela direta ou indireta.

Finalmente; sonhamos com quando poderemos dançar e cantar abraçados, sem medo, nos bailes de forró e nas tantas festas as quais o Brasil faz e das quais é feito.

Trabalhamos todos os dias por realizar estes sonhos, que não são apenas por nós, mas por todas as gentes deste país.

Por hora, trabalhamos em casa, cumprindo as indicações internacionais da Organização Mundial de Saúde e pedimos que, todos que possam, também o façam.

03/07/2020

Amora Pêra Gonzaga do Nascimento
Nanan Gonzaga
Daniel Gonzaga

fecho

Esta “nota de nojo” foi originalmente publicada na página de Amora Pêra Gonzaga do Nascimento na rede social Facebook [Aqui!].

Carlos Alberto Decotelli mostra no Lattes como fazer do limão, uma limonada

limonadaCarlos Alberto Decotelli fez dos limões, uma limonada

Fala-se o que se falar de Carlos Alberto Decotelli, o brevíssimo terceiro ministro da Educação do governo Bolsonaro, mas ele é um homem que sabe fazer dos limões que o destino atira em sua vida belas limonadas.

Demitido após apenas cinco dias no cargo de ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, atualizou no dia de ontem o resumo biográfico do seu currículo vitae na Base Lattes para incluir a importante informação de que “entre 25 e 30 de junho de 2020, atuou como Ministro da Educação do Brasil” (ver imagem abaixo).

decotelli limonada

Uma coisa é certa: da próxima que eu me sentir deprimido por causa de algum sobressalto em minha vida, vou lembrar do professor Decotelli e seu exemplo de fabricante de limonadas.

A vitoriosa onda verde/vermelha na França sinaliza problemas graves para o governo Bolsonaro e para o Brasil

eleições francesesA unidade de ecologistas com a esquerda resultou em vitórias surpreendentes nas eleições municipais francesas

As eleições municipais recém ocorridas ficarão marcadas por vitórias acachapantes de candidaturas de ambientalistas em cidades importantes, mas também porque parte dessas vitórias resultou de uma aliança com partidos e personagens que estão alinhados com a esquerda, inclusive aquelas da chamada “esquerda radical”, no que pode ser considerada uma onda verde e vermelha. Dentre os principais derrotados está o partido do presidente Emmanuel, o “La Republique en Marche“, e o de Marianne Le Pen, o partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional.

A derrota com grande magnitude já forçou Emmanuel Macron a sair a público para declarar a adoção de políticas com claro viés pró-ambiente. Além disso, Macron já anunciou publicamente (ver vídeo abaixo) que analisa a possibilidade de retirar a França de tratados multilaterais que não respeitem o Acordo de Paris (2015), pois, segundo o presidente francês, “chegou a hora de fazer, de agir.  É o tempo de ações concretas. Eu já estava comprometido com isso, mantenho minha palavra“.

E adivinhem qual será um dos primeiros alvos contra o qual Macron pretende? Certamente o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), acordo que ele já se manifestou contrário no passado, mas que deverá agir de forma redobrada para atender a sinalização vinda das eleições municipais franceses.

Mas, convenhamos, com a proximidade dos grandes incêndios que irão ocorrer nos próximos dois meses na Amazônia brasileira, Macron terá a desculpa concreta para dobrar a primeira-ministra Angela Merkel que é a fiadora de fato do acordo da UE com o Mercosul. 

Apesar da inviabilização do acordo Mercosul-UE não ser um contratempo apenas para o Brasil, mas para todos os membros do bloco sul americano, certamente é o nosso país que está posto em pior condição neste momento por dois motivos aparentemente não relacionados. Primeiro é o papel evidente do governo Bolsonaro no avanço desenfreado da pandemia da COVID-19. Segundo, é a responsabilidade pela expansão acelerada do processo de desmatamento em regiões da Amazônia que até recentemente estavam fora do chamado “arco de desmatamento”.

E não adiantará tentar jogar a culpa em quem expõe o papel negligente que o governo Bolsonaro vem cumprindo nessas duas esferas por uma suposta piora na imagem internacional do Brasil.  É que o mundo, especialmente a Europa, sabe muito bem o que está acontecendo no nosso país neste momento, não apenas em termos da real situação da pandemia da COVID-19 e da aceleração do desmatamento na Amazônia, mas também sobre quem engendrou e, provalvemente, criou a sinergia entre esses dois processos.

Finalmente, que fique bem claro a lição vinda do eleitorado francês: em um mundo marcado por uma pandemia letal e o avanço da crise climática, a escolha está sendo por quem defende combinar a defesa dos direitos sociais com a do meio ambiente.

É preciso parar o Acordo Mercosul – União Europeia

Há um ano, Bolsonaro, Macri, Macron e Merkel anunciaram a “maior área econômica do mundo”. Mas nada virá do acordo.

FILE PHOTO: An aerial view shows a deforested plot of the Amazon near Porto VelhoFloresta destruída em Porto Velho, Rondônia, Brasil. Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

A campeã mundial de exportação da Alemanha sempre foi a defensora mais veemente dos chamados acordos de livre comércio . Durante a Presidência do Conselho da União Europeia (UE), o governo alemão quis promover dois acordos comerciais transatlânticos – um TTIP light e o “Acordo de Associação” com a união aduaneira da América do Sul Mercosul, que foi proclamada bombasticamente há um ano.

Mas com o coronavírus, as prioridades mudaram : dada a crise sistêmica, a máxima de Angela Merkel e Emmanuel Macron é agora salvar a UE neoliberal. Sob o lema “Europa global”, a Comissão da UE tenta, desde 2006, tornar suas empresas mais competitivas e amarrar os países do sul como fornecedores de matérias-primas e compradores de excedentes agrícolas da UE, por exemplo, através de acordos de “livre comércio”. Como a pioneira da Attac, Susan George, preferimos falar de contratos de vampiros – se vierem à luz, as coisas são ruins para eles, raramente resistem a um debate democrático.

O Acordo Mercosul – UE é um exemplo didático. O projeto foi lançado no Rio em 1999, quando o neoliberalismo na América do Sul já havia passado do zênite. Mas então veio a onda rosa com Lula da Silva no Brasil, Néstor Kirchner na Argentina e Hugo Chávez na Venezuela. Em 2005, na presença de George W. Bush, os três políticos de esquerda em Mar del Plata, Argentina, enterraram outro projeto neo-imperial: a zona de livre comércio da ALCA do Alasca à Terra do Fogo.

A nova autoconfiança no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai também impôs um acordo assimétrico com a União Européia, e as negociações foram lentas. Por outro lado, por boas razões, a UE nunca abriu suas portas para a carne bovina e a soja geneticamente modificada do Mercosul sem limites. Uma “parceria estratégica” entre Alemanha e Brasil não mudou esse fato desde 2008.

Design conhecido apenas no esboço

A maré virou com o golpe frio contra a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, em 2016, a escandalosa condenação e prisão de Lula e a subsequente vitória de Jair Bolsonaro: com o extremista de direita assumindo o cargo no início de 2019 – na Argentina, o empreendedor neoliberal Mauricio Macri – as negociações estavam em andamento de repente em pleno andamento. Depois de apenas seis meses, havia um rascunho na sala que ainda é conhecido apenas em detalhes. No entanto, Bolsonaro, Macri, Macron e Merkel celebraram o acordo político na cúpula do G-20 em Osaka no final de junho de 2019 – também como um sinal contra o protecionismo de direita à Trump.

Esse acordo avançaria ainda mais a recolonização da América do Sul. Mas isso não é do interesse do povo de ambos os lados do Atlântico, nem da natureza, como mostram os estudos de Misereor, Greenpeace ou European Greens. Se fosse assinado e implementado, seria um triunfo das corporações transnacionais e sua lógica de lucro.

Desde 1492, a Europa está particularmente interessada em recursos como ouro, madeira preciosa e agora lítio na América Latina. Após as tentativas de emancipação nos anos 90, os países do Mercosul também devem ser “reprimidos”. Na melhor das hipóteses, os negócios agrícolas e o setor de importação se beneficiariam de uma redução gradual das barreiras tarifárias. Trabalhadores, pequenos agricultores e povos indígenas, por outro lado, pagariam pelo estabelecimento do capitalismo dos proprietários de escravos, destruindo ainda mais seus direitos e meios de subsistência.

A liberalização planejada do comércio exacerbaria a pressão salarial e os cortes de empregos.De acordo com a Comissão da UE, os grupos devem economizar 4 bilhões de euros em impostos anualmente. Eles também esperam encontrar novas oportunidades de negócios nos setores de telecomunicações e TI. Além de uma expansão ecologicamente sem sentido do comércio mundial, os negociadores da UE insistem em aumentar a proteção de patentes, o que prejudicaria o fornecimento de sul-americanos, por exemplo, com genéricos acessíveis. As multinacionais da UE devem poder desempenhar um papel igual nas compras do governo no Mercosul, que costumam ser usadas para fortalecer as empresas locais. No entanto, ainda não existem sanções por compartilhar a responsabilidade por crimes ambientais ou violações de direitos humanos.

Jogo fácil com governos neoliberais

Com os governos neoliberais do Brasil, Paraguai e Uruguai, a UE tem um trabalho fácil. Mesmo sendo cortejados pela Câmara de Comércio Alemão-Brasileira: é escandaloso que o desumano destruidor de florestas tropicais Bolsonaro e seus militares sejam parceiros de uma Europa democrática. A Argentina é diferente: o presidente Alberto Fernández, um social-democrata equilibrado, governa o país desde dezembro de 2019. Como seu velho amigo Lula, ele quer relacionamentos ao nível dos olhos e, portanto, é ignorado pela mídia predominantemente conservadora – ou difamado como coveiro pelo Mercosul.

A destruição não apenas da região amazônica, mas também dos ecossistemas ricos em espécies Cerrado e Chaco, já é dramática, eles precisam dar lugar a monoculturas com risco de vida. Mas a Bayer-Monsanto quer vender ainda mais sementes transgênicas e venenos agrícolas, a Tönnies & Co. importa soja transgênica. BMW, Daimler e VW, cuja administração brasileira já trabalhou com os torturadores da ditadura militar há quase 40 anos, não usariam mais peças de automóveis argentinas, mas chinesas, a longo prazo.

O acordo UE-Mercosul é um projeto neocolonial, anti-humano e ambiental, na verdade um único anacronismo – e, portanto, fracassará.

fecho

Este artigo foi publicado originalmente em alemão e foi publicado pelo Die Tageszeitung [Aqui!].

Com Renato Feder, Bolsonaro mantém ministro com zero impacto acadêmico e perfil privatista no MEC

O presidente Jair Bolsonaro informou hoje que o atual secretário estadual de Educação do Paraná, Renato Feder, será o próximo ocupante da chefia do MEC, mantendo um perfil que se repete desde a indicação do professor Ricardo Vélez Rodriguez que é o de ter a pasta ocupada por personagens com baixíssimo ou nenhum impacto acadêmico. No caso de Renato Feder, ao contrário da versão mitômana de Carlos Alberto Decotelli, a visita à Base Lattes mostra que Feder não possui qualquer preocupação com seu perfil acadêmico, pois a currículo que lá está depositado não é atualizado desde Dezembro de 2002 quando ele sequer tinha terminado o seu mestrado em Economia pela Universidade de São Paulo (ver imagem abaixo).

renato feder

Mas o perfil acadêmico de impacto inexistente não é o problema real de Renato Feder.  O pior mesmo são suas ideias privatistas e contra a educação pública (ver abaixo sequência de imagens com o que pode ser considerado o pensamento Feder em estado puro).

Ainda que agora Feder esteja dizendo que abandonou parte das suas ideias, que foram apresentadas no livro “Carregando o Elefante – como transformar o Brasil no país mais rico do mundo” publicado em parceria com Alexandre Ostrowiecki em 2007 (ver foto dos dois em uma performance na empresa Multilaser na qual os dois são sócios) (ver imagens abaixo).

 Mas como já dizia o profeta Jeremias “o leopardo não pode mudar a variedade das suas manchas”. E isto ficou verificado na atuação de Feder como secretário estadual de Educação do Paraná. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores da Educação Pública do Paraná (o APP Sindicato), Renato Feder marcou sua gestão por um enfoque no “controle das ações das equipes escolares, por meio do desenvolvimento da tecnologia, criação das funções dos tutores (professores lotados nos núcleos regionais de educação que desenvolvem a função de verdadeiros capatazes dos seus iguais), das avaliações externas e da retirada de autonomia das unidades escolares“.

Um dos “feitos” de Renato Feder enquanto secretário estadual de Educação do Paraná foi contratar, com dispensa de licitação, de uma rede afiliada da TV Record  para transmitir vídeo-aulas para alunos da rede estadual durante a pandemia de Covid-19.  Um detalhe curioso marcou essa contratação com dispensa de licitação: a empresa contratada não possuía sinal de transmissão em quase a metade do estado, o que deixou, segundo o site “The Intercept“, “mais de 2 milhões de pessoas vivem nas cidades que ficaram no escuro educacional – o que é quase um quinto da população do Paraná”.

Por essas nuances todas, eu me atrevo a fazer um trocadilho medonho que é dizer que com Renato Feder no MEC, as coisas têm tudo para feder.  Assim, para quem esperava algum tipo de refresco nos enfrentamentos em defesa da educação pública, sugiro esquecer e arregaçar as mangas para impedir retrocessos ainda mais graves. A ver!

Gigante norueguesa da área de produção de salmão em cativeiro pune Cargill por ligações com desmatamento na Amazônia

desmatamento

Em uma matéria assinada pela jornalista Rachel Mutter no site especializado “Intrafish“, a gigante do setor da produção de salmão em cativeiro, a norueguesa Grieg Seafood informou que excluiu uma subsidiária da multinacional estadunidense Cargill de sua lista de fornecedores por supostas ligações com o desmatamento ilegal no cerrado e na Amazônia brasileiros.

intrafish

A matéria informa ainda que a decisão está vinculada aos R$ 558 milhões em títulos verdes (green bonds) recém-captados pela Grieg Seafood. Trata-se de títulos emitidos para financiar projetos sustentáveis e voltados à mitigação do processo de mudanças climáticas. Com a medida, a Cargill Aqua Nutrition ficou excluída das fornecedoras para compras com esses papéis, usados para financiar a compra de rações inovadoras que melhorem o bem-estar e a saúde dos peixes.

Em declaração à Rachel Mutter, a gerente de comunicação global da Grieg Seafood, afirmou que “O desmatamento precisa parar porque estamos em uma crise climática e porque precisamos proteger a biodiversidade.”

Essa desdobramento na Noruega não chega a ser surpreendente, na medida em que ainda em 2018, a organização não-governamental Norway Rainforest Foundation publicou um relatório intitulado “Salmon on soy beans — Deforestation and land conflict in Brazil” (Salmão em soja – Desmatamento e conflito de terras no Brasil) onde uma série de denúncias são feitas sobre a produção de soja em áreas recentemente desmatadas na Amazônia brasileira.

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Como de lá para cá, sob a batuta do improbo Ricardo Salles, o Brasil literalmente soltou a boiada para dentro das florestas amazônicas, não deveria surpreender ninguém que ações concretas estejam sendo tomadas não apenas contra quem desmata, mas também contra as empresas multinacionais que controlam o mercado global de grãos, a começar pela Cargill.

O interessante é que ontem (01/07) recebi uma nota da assessoria de comunicação da Cargill não apenas dando conta dos esforços da empresa para controlar a origem dos seus produtos, mas também para “transformar sua cadeia de suprimentos para ser livre de desmatamento, protegendo a vegetação nativa além das florestas“. Ao que tudo indica, a Cargill já está tentando responder às crescentes críticas vindas até de grandes clientes de que não está fazendo o suficiente para impedir que haja um avanço do desmatamento em todas as regiões em que adquire seus grãos, a começar pela Amazônia.  Agora, com essa decisão da Grieg Seafood, é provável que a Cargill seja obrigada a ser ainda mais diligente do que diz estar sendo.

E nessa confusão toda como fica o Brasil que se prepara para presenciar uma estação de incêndios amazônicos maior do que os que aconteceram em 2019? Eu repetiria apenas o meu prognóstico de que cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), o nosso país será alvo de um intenso bloqueio econômico, pois, como mostra um relatório recém liberado pela própria Cargill, a destruição das florestas tropicais não é necessariamente sinônimo de mais negócios. Aliás, muito pelo contrário, conservação dos biomas tropicais está cada vez mais se tornando uma espécie de mantra corporativo. 

E se o governo Bolsonaro acha que vai enganar o resto do mundo sobre o que está de fato sendo permitido na Amazônia, melhor pensar de novo.

Abatido por inconsistências em seu currículo, caiu Carlos Alberto Decotelli, o brevíssimo ministro da Educação de Bolsonaro

decotelli demissão

Após míseros 5 dias como ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli apresentou seu pedido de demissão (pedido este que foi rapidamente aceito pelo presidente Jair Bolsonaro), após ter seu currículo acadêmico reduzido a pó por causa de uma série de adições indevidas, a começar por um inexistente título de Doutor pela Universidade Nacional de Rosário.

O caso Decotelli não é apenas um embaraço pessoal, mas para todo o governo Bolsonaro, especialmente para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), comandado pelo general da reserva Augusto Heleno, que falhou miseravelmente na tarefa básica de checar a veracidade do currículo de um candidato a ocupar um ministério em que os dois ministros anteriores (Velez Rodriguez e Weintraub) já causaram graves danos ao seu funcionamento.

Mas os problemas causados pela colocação de uma pessoa contumaz em, digamos, embelezar seu currículo acadêmico vão além dele e do governo ao qual ele breve pertenceu em duas coisas ocasiões (lembremos que Decotelli também ocupou rapidamente a presidência do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE)). 

É que ao cair por ser associado à, no mínimo, ao enriquecimento indevido de currículo, Decotelli também prejudica diretamente os esforços para garantir o acesso de afro-brasileiros a cargos chaves no Brasil.  É que efetivamente existem pouquíssimos afro-descendentes em postos de comando, e quando um consegue chegar logo é abatido por motivos que efetivamente não contribuem para que outros possam ser alçados a cargos de poder, em função do racismo sistêmico (ou estrutural) que existe em nosso país.

Um detalhe correlato, e que não passará despercebido por quem luta pela igualdade racial no Brasil, é que Carlos Alberto Decotelli não foi o único ministro do governo Bolsonaro a ser pego com incongruências entre o declarado e o real no tocante ao currículo acadêmico. Dois casos exemplares são os do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que foi pego com um título de mestrado “ghost” de Direito Público na Harvard University e a ministra da Mulher, Familia e Direitos Humanos, Damares Alves, que teve desmentidos seus supostos títulos de “Mestre em Educação e de Direito Constitucional e Direito da Família”.  Entretanto, ao contrário de Carlos Decotelli, tanto Ricardo Salles e Damares Alves continuam firmes e fortes em seus cargos de ministro.

De toda forma, a demissão de Carlos Alberto Decotelli é um exemplo claro de que com em tempos de informações amplamente disponíveis na rede mundial de computadores se torna um risco assumir graus acadêmicos que efetivamente não são possuídos.  O interessante é, que mesmo diante disto, há quem se faça de desentendido e insista em declarar produções científicas inexistentes; existindo casos em que mesmo um erro desse gênero tendo sido avisado em debate público, o docente avisado nunca se deu ao trabalho de corrigir o erro.  Isto para mim sinaliza que o meio acadêmico brasileiro ainda é, no mínimo, muito tolerante com esse tipo de prática. E, por isso, de tempos em tempos, somos pegos com casos similares ao que agora ocorreu com o agora ex-ministro Decotelli.

Mas é bom lembrar que essa tolerância não é universal, como bem demonstrou o reitor da Universidade Nacional de Rosário que foi o primeiro a vir a público para começar a desfazer o castelo de areia acadêmico que Carlos Alberto Decotelli construiu e conseguiu deixar de tempo por muito tempo. Que este caso, e o inglório fim do brevíssimo ministro da Educação sirva de exemplo aos incautos.

Quem é o bandido?

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Por Lúcio Flávio Pinto*

A quem o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, queria favorecer quando sugeriu ao presidente Jair Bolsonaro aproveitar que as atenções gerais do país, em especial da imprensa, estavam concentradas na epidemia do coronavírus para simplificar a legislação ambiental?

Salles adotou uma linguagem tão crua e direta que causou espanto ao ministro da Saúde, Nelson Teich, seu vizinho na mesa de reunião, que acolheu todo governo Bolsonaro na famosa reunião de 22 de abril.

Provavelmente por achar que se tratava de um encontro fechado, a ser mantido sob sigilo (quebrado por decisão do Supremo Tribunal Federal, que exigiu a entrega do vídeo pelo Palácio do Planalto), Salles – só menos agressivo na sua intervenção no agora ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub – disse, literalmente:

“Precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de Covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando as normas”.

O ministro paulista não estava atendendo ao grande capital internacional. Nesta semana, em carta aberta ao Brasil, os representantes de 29 investidores globais manifestaram sua preocupação com a política ambiental do país e sobre os direitos humanos, sobretudo dos nativos e indígenas. Esses empresários detêm 3,7 trilhões de dólares em ativos administrados ao redor do mundo. É valor equivalente a todo PIB brasileiro, que deverá encolher –– de 4% a 8% – neste ano por causa da pandemia do coronavírus.

O crescente desmatamento nos últimos anos, combinado com informações sobre o desmantelamento de políticas ambientais, de direitos humanos e de agências de fiscalização “estão criando incerteza generalizada sobre as condições para investir ou prestar serviços financeiros ao Brasil”, diz a carta.

Uma preocupação específica imediata é com o projeto de lei 2.663, que legaliza ocupações em áreas públicas, sobretudo na Amazônia. Os investidores temem o aumento de riscos para a reputação dos seus clientes. “Por isso, instamos o governo do Brasil a demonstrar um compromisso claro com a eliminação do desmatamento e a proteção dos direitos dos povos indígenas”.

“Políticas robustas para a redução do desmatamento e proteção dos direitos humanos são soluções-chave para gerenciar esses riscos e contribuir para mercados financeiros eficientes e sustentáveis no longo prazo”, acrescenta o documento.

Ele sugere que, se, a eliminação desse risco, os empresários podem sair do Brasil, num momento em que, no mundo inteiro, há uma busca ansiosa por investimentos na forma de capital de risco. Já o Brasil, segundo o Banco Central, perdeu mais capital estrangeiro durante a pandemia do que a média observada em países emergentes.

O relaxamento contínuo e acelerado das medidas de proteção à natureza e ao habitante da Amazônia, desde o início do governo Bolsonaro, já haviam provocado, sem setembro do ano passado, iniciativa semelhante de 230 fundos, representando investidores num total de 16 trilhões de dólares (mais de 30 vezes o PIB nacional).

Se o ministro não é porta-voz dos maiores capitalistas do mundo, que parecem vê-lo como inimigo, quem Ricardo Salles defende e procura favorecer com suas polêmicas iniciativas? A resposta parece óbvia, mas exige algumas reflexões mais profundas, que considerem os propósitos e resultados da ação do governo e dos capitais externos a região nela aplicados.

A doutrina de segurança nacional, na sua manifestação mais explícita, a partir de 1964, mas sempre ativa, sob outra roupagem geopolítica, desde a ocupação da Amazônia pelos europeus (15 mil ou 20 mil anos depois da primeira presença humana na imensa bacia hidrográfica), sempre considerou os estrangeiros uma ameaça à integridade da região.

Os portugueses, os europeus que por mais tempo nela exerceram o seu domínio, a mantiveram sob mão militar forte, combatendo – e vencendo – espanhóis, ingleses, holandeses e franceses. Tentaram manter a Amazônia sob seu controle quando o Brasil se tornou uma nação independente.

Só admitiram a perda do Norte do país quando a maior revolta popular, a cabanagem lhes tirou o controle político, que ainda mantinham, à custa de muito sangue. Estima-se que 20 a 30% da população (então de 150 mil pessoas) tenham morrido nos ferozes combates. Hoje, seriam algo como 5 milhões de mortos.

O governo brasileiro continuou a encarar a possibilidade de nações estrangeiras se valerem da extensão da Amazônia e da sua baixa densidade demográfica para aventuras de conquista, sobretudo por países com problemas de superpopulação. No século XIX surgiu um projeto de transferir para a Amazônia 2 milhões de negros americanos, atacando dessa forma o problema racial dos Estados Unidos. Mas era uma iniciativa isolada de um visionária, o tenente da marinha Matthew Maury. A Casa Branca não o endossava. A migração foi pequena.

Recentemente, nos anos 1990, falou-se tanto em planos americanos de invadir a Amazônia que o governo brasileiro instituiu o Sivam e o Sipam (sistemas de vigilância), projetos que combinavam geopolítica com tecnologia para melhor conhecer e proteger a Amazônia de atividades ilegais ou predatórias.

O foco da preocupação continuava se concentrando em governos estrangeiros, apesar das claras provas de que o tamanho do Brasil (físico, humano e econômico) era antídoto natural a esse tipo de empreitada. Derrotado num país muito menor, como o Vietnam, os EUA se envolveriam numa complicação monumental, sem saída previsível.

Concentrada em ameaças internacionais permanentes, a ação do governo nacional para garantir a integridade da Amazônia acabou tendo efeito mais nocivo do que os problemas para os quais deveria ser a solução. A ocupação humana valia por si, por preencher os “espaços vazios”, independentemente da forma de uso dos recursos naturais.

Os efeitos sociais, culturais e ecológicos negativos sempre foram considerados um preço necessário para que brasileiros se espalhassem pelas margens dos rios, pelas fronteiras internacionais e tivessem acesso às áreas até então isoladas, que se tornaram acessíveis pela abertura de estradas, os instrumentos mais eficientes de destruição da natureza.

O Banco Mundial acabou se tornando uma espécie de consciência crítica desse “modelo” de ocupação acelerada, caótica e conflituosa. Foi o BIRD que impôs a inclusão de um capítulo de cuidados com o meio ambiente no Polonoroeste, que levou a devastação a Mato Grosso, Rondônia e Acre. Foi também o banco multilateral que exigiu um capítulo sobre os índios no projeto Grande Carajás, que possibilitou a exploração da maior província mineral do planeta.

Logo depois do golpe militar de 1964, uma CPI na Câmara Federal, relatada pelo deputado e brigadeiro Haroldo Veloso, que era de extrema direita, provocou escândalo ao revelar a profundidade da penetração de estrangeiros na propriedade de terras. Hoje, o capital estrangeiro fundiário é mínimo.

As grandes empresas preferem controlar o circuito internacional das mercadorias produzidas pela Amazônia, quando não é aconselhável, rentável ou simplesmente viável o controle nominal das empresas que geram esses bens. Se precisam dessa participação, nada na legislação as impede de obtê-la se aceitam seu enquadramento nas regras em vigor, que são, em regra, permissíveis.

Como a mais valia relativa do capital, relacionada à imagem e à capacidade de se explicar em situações embaraçosas (como os acidentes com as mineradoras em Minas Gerais), se tornou importante num mundo cada vez mais preocupado com a natureza, elas se comportam como os grupos de investidores se manifestou.

Os empresários brasileiros fazem o mesmo, com a mesma ênfase e frequência, ou é pensando nesses capitães do mato que o ministro Ricardo Salles usou a simbologia da boiada para burlar as regras de proteção à Amazônia?

fecho

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Acesse o novo site do jornalista aqui www.lucioflaviopinto.com.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo site Amazônia Real [Aqui!].

Alguém avise o MEC: treino é treino, não é jogo, e o novo ministro da pasta não é doutor

certificado decotelliO MEC acaba de divulgar o certificado  acima para atestar que novo ministro da Educação completou as disciplinas do doutorado em Administração na Universidade Nacional de Rosário. Agora falta mostrar o diploma de doutorado de Carlos Alberto Decotelli. Sem isso ele não é doutor, mas apenas alguém que cursou disciplinas de doutorado. Se fosse futebol seria algo como “participou de todos os treinos, mas acabou não entrando no jogo”.

Para ser doutor tem que ter defendido uma tese de doutorado. Simples assim!

Desmatamento sob Bolsonaro afasta investidores e ameaça acordo Mercosul-União Europeia

Diplomatas afirmam que alerta feito por fundos internacionais deve ser levado em conta, se Brasil quiser se aliar com bloco europeu. Em alta, desmatamento na Amazônia bateu recordemadeiraMadeira sendo transportada pelo rio Xingu, na região de Porto de Moz, no Pará.LILO CLARETO

Por Afonso Benites para o El País

A ineficiência apresentada pelo Governo Jair Bolsonaro no combate ao desmatamento da Amazônia já começa a apresentar seus primeiros efeitos e, se os resultados práticos de redução dos índices não aparecerem rapidamente, pode botar em risco o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. A avaliação foi feita por cinco de seis fontes diplomáticas europeias consultadas pelo EL PAÍS nesta quarta-feira. A que não concorda com as demais, entende que o acordo sairá independentemente de como o presidente brasileiro agirá. Todas elas concordam, contudo, que a decisão de alocar o vice-presidente Hamilton Mourão na coordenação do Conselho da Amazônia representa um sinal positivo, já que exclui o radical ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, da linha de frente desse processo.

No início de junho, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais constatou que, entre agosto de 2018 e julho de 2019 foram desmatados 10.129 km2 de floresta – a área equivale a quase nove vezes o município do Rio de Janeiro. É o maior índice desde 2008. O número representa um aumento de 34,4% do desmatamento na Amazônia, em comparação com o período entre agosto de 2017 e julho de 2018. Agora, em 2020, o desmatamento segue em alta e o período de seca e consequente temporada de incêndios amazônicos ainda nem começou.

“Queremos ajudar o Brasil. Temos participado de várias reuniões com o vice-presidente e com sua equipe do Conselho Amazônia. Demonstramos nossa preocupação. Agora, depende mais do governo daqui do que de nós para frear esse desmatamento”, afirmou um diplomata ouvido pela reportagem.

Um dos alertas mais contundentes de que o país pode começar a perder dinheiro foi dado nesta semana, quando fundos internacionais de investidores, que gerenciam ativos de cerca de 21 trilhões de reais (4 trilhões de dólares), cobrou maior efetividade do Brasil na área ambiental. Em uma carta aberta entregue em embaixadas do Brasil pela Europa, Ásia e América do Sul, os representantes dos fundos disseram estar preocupados com “o impacto financeiro do desmatamento, bem como as violações dos direitos dos povos indígenas” e que acreditam que, sem a mudança de rumo, seus clientes veem “potenciais consequências para os riscos de reputação, operacionais e regulatórios”.

A maior parte dos fundos que assinou a carta compõem o Investor Initiative for Sustainable Forests (Iniciativa de Investidores pelas Florestas Sustentáveis), da qual participam empresas expostas ao desmatamento por seus investimentos na pecuária bovina e na sojicultura. Entre esses fundos estão a francesa Comgest, a britânica LGPS Central e o KLP, o maior fundo de pensões norueguês.

“Agora, além dos prejuízos ambientais conhecidos, temos a provável perda de investimentos internacionais em todos os segmentos da economia, o que poderia afetar até o programa de privatização que a gestão Bolsonaro pretende implantar”, disse Virgílio Viana, superintendente geral da ONG Fundação Amazônia Sustentável. A organização trabalha com projetos de sustentabilidade e geração de renda na região amazônica.

Outra fonte diplomática ouvida pela reportagem afirmou que a carta dos fundos de investimentos pode gerar um resultado positivo, a médio prazo. “Esse despertador tocado pelos fundos de investimento é o resultado das informações nada animadoras que agora chegam do Brasil. Pode ser bom para seguir nessa linha que, finalmente, o governo começou a tomar, de mudar o rumo no combate ao desmatamento”, declarou o diplomata.

Se não bastassem os sinais que vêm de fora, internamente também houve quem reclamasse da política ambiental e de seu impacto na economia. A cúpula dos dois maiores bancos privados do país, Itaú Unibanco e Bradesco deram declarações nesse sentido nesta semana. “No momento em que a sociedade se percebe frágil, a gente deve olhar para outros perigos. As consequências ambientais podem até vir de uma maneira mais lenta do que as da saúde como a covid-19, mas são mais duradouras e difíceis de reverter”, afirmou o presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, em um debate promovido pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban).

“Todo mundo falava de sustentabilidade, de problema com o planeta, de aquecimento global, reflorestamento, derrubada, de qualidade do ar, da água. Todo mundo falava sobre isso, mas de fato nós temos de reconhecer que fizemos muito pouco em relação a isso”, ponderou o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, no mesmo evento.

Se não bastassem as possíveis fugas de investimentos, o Brasil já abriu mão de receber recursos que costumava ter na área ambiental. Em 2019, o primeiro da gestão Bolsonaro, o Governo viu 2,2 bilhões de reais (cerca de 400 milhões de dólares) ficarem retidos por conta de uma decisão unilateral do Ministério do Meio Ambiente. No ano passado, outro grupo que representa 230 fundos de investimento já havia enviado alertas à gestão federal. Na ocasião, a cobrança era para que o Poder Executivo intensificasse o combate às queimadas, que devastaram boa parte do território amazônico.

Regras frouxas

Outros fatores que têm preocupado os investidores da área ambiental são propostas do Governo Bolsonaro e de seus aliados no Congresso que devem impactar diretamente no desmatamento. Uma delas prevê a redução de unidades de conservação, como parques nacionais e reservas extrativistas, para a construção de estradas, ferrovias e portos. Há ainda o projeto que pretende autorizar a exploração mineral em territórios indígenas, a medida provisória que faz a regularização fundiária sem muitos critérios e o afrouxamento nas regras de fiscalização de madeiras exportadas pelo Brasil.

Em março, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente decidiu relaxar a fiscalização de madeiras que são exportadas pelo Brasil. O presidente do órgão, Eduardo Bim, decidiu acabar com a necessidade de o órgão autorizar a exportação de madeiras retiradas de florestas brasileiras. A definição contrariou parecer assinado por cinco técnicos de carreira do instituto. E isso ocorre no período em que o país registrou aumento de 30% nas queimadas na Amazônia.

No governo Bolsonaro, os discursos são distintos. Quando indagado sobre a carta dos fundos de investimentos, o presidente disse que havia muita desinformação nessa área e reclamou que vários dos países que o criticam sequer conseguiram preservar suas matas ciliares. Nesta quarta-feira, o vice-presidente e coordenador do Conselho da Amazônia, tentou apaziguar os ânimos dizendo que a resposta será dada com trabalho. “O Brasil responderá com a verdade e com trabalho responsável em prol da proteção e preservação da Amazônia”, afirmou Mourão ao jornal O Estado de S. Paulo.

A corrida de Mourão agora é contra o relógio. Nesse mês, está sendo editado os termos do acordo do Mercosul com a União Europeia, no qual estão destacados os compromissos ambientais. O próximo passo é levar o texto para os parlamentos de todos os países envolvidos. Até agora, os Congressos da Áustria e da Holanda já aprovaram moções para que o bloco europeu rejeite o compromisso por conta do desmatamento amazônico. Ainda não é uma sentença de morte para o acordo, mas é uma sinalização de que ainda há muito a ser feito para que ele sobreviva.

fecho

Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal El País [Aqui!].