Governo Rafael Diniz deixa agricultura familiar subfinanciada para gastar fortunas com sacolões de merenda escolar

Da produção dos assentamentos para o prato da cidade, no Rio de ...

Na Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, parte significativa dos produtos comercializados é originada dos assentamentos localizados em Campos dos Goytacazes.

A partir do blog do economista José Alves Neto pude verificar a profunda involução orçamentária que a Secretaria Municipal de Agricultura sofreu durante o governo Rafael Diniz que chegou a investiu 30 menos do que o fez o prefeito Arnaldo Vianna no distante ano de 2001 (ver gráfico abaixo).

agricul 2020

Fonte: Blog do José Alves Neto

Se pegarmos apenas os 3 anos iniciais do governo Rafael Diniz, o montante aplicado na Secretaria Municipal de Agricultura chega a minguados R$ 1.776.160,00! 

O peculiar (vamos achar assim) é que temos agora a informação de que o prefeito Rafael Diniz (Cidadania) e o agora ex-secretário municipal de Educação, Brand Arenari (PSB), teriam sido instados pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro a devolver a bagatela de R$ 6,7 milhões por superfaturamento em contratos para o fornecimento de merenda escolar, envolvendo as empresas Nutriplus Alimentação e Tecnologia Ltda (sediada em Joinville, SC) , Casa de Farinha S/A (sediada em Recife, PE) e Verde Mar alimentação (sediada em Ortolândia, SP). 

Mas o montante fabuloso que levou à determinação do TCE contra Diniz e Arenari chega a ficar pálido diante do que noticiei aqui em relação à extrato de dispensa de licitação para aquisição de “kits de alimentação” pela Secretaria Municipal de Educação de Campos dos Goytacazes no valor de R$10.184.681,25. O interessante é que coincidentemente também neste contrato há a presença, ainda que indireta, da Nutriplus Alimentação e Tecnologia Ltda que participa do quadro societário da empresa beneficiada pela milionária dispensa de licitação, a  Quotidien Comercial Atacadista Ltda.  

Mas voltando ao ponto inicial desta postagem que é o subfinanciamento da Secretaria Municipal de Agricultura, é preciso notar que apenas no negócio firmado sem licitação com a Quotidien Comercial Atacadista Ltda, o valor gasto em um único contrato é quase seis vezes maior do que o investido pelo governo Rafael diniz na agricultura municipal em seus 3 anos iniciais.

Antes que alguém diga que não existe alimento produzido localmente em escala suficiente no município de Campos dos Goytacazes para justificar a elevação dos investimentos feitos a partir da secretaria municipal de Agricultura, eu mostro o mapa abaixo com os assentamentos de reforma agrária existentes em Campos dos Goytacazes (que estão assinalados em vermelho).

assentamentos

A questão aqui é estes nove assentamentos são um celeiro agrícola que, apesar de negligenciado por diferentes administrações municipais, produz comida que acaba sendo exportada para vários estados brasileiros. E o pior é que parte desta comida produzida em solo campista acaba retornando para cá na forma, sim, isso mesmo!, de sacolões, e com os valores que chamaram tanto a atenção dos técnicos do TCE.

Então, se algum candidato a prefeito me perguntasse o que deveria ser feito para garantir comida abundante e localmente produzido, a minha sugestão seria para que parassem com as compras (muitas vezes sem licitação) e investissem na agricultura familiar que produz, apesar de todo o abandono a quem sido relegado. Aí teríamos mais comida e a preços muito mais econômicos para os cofres públicos municipais. Uma boa iniciativa seria criar uma versão municipal do programa federal de aquisição de alimentos (PAA) ao qual o município nunca efetivamente participou.

 

No Brasil, a próxima pandemia virá na forma de fumaça

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O Brasil sofre neste momento com o crescimento da pandemia causada pelo coronavírus e as próximas semanas deverão ser marcadas por uma quantidade imensa de enterros e cremações, muito em parte pela omissão das forças políticas e instituições em face da postura negacionista que emana do presidente Jair Bolsonaro.

Mas que ninguém pense que o fim da atual pandemia nos permitirá respirar aliviados, pois as informações que nos chegam da Amazônia é que em 2020 será quebrado um recorde no número de áreas novas que passarão por um processo de corte raso das florestas nativas.

Se alguém tiver dúvida disso é só olhar com cuidado a animação abaixo que mostra valores bastante altos para desmatamento para os primeiros meses de 2020 em que ocorrem chuvas contínuas na maior parte da bacia Amazônica.

Antes que alguém pense que isto ocorre por meio de indivíduos que operam à margem da lei, eu diria que os grandes desmatadores amazônicos são normalmente dotados de grandes quantidades de capital que lhes permite comprar máquinas e ferramentas com as quais podem desmatar rapidamente grandes extensões de floresta.

Como o ciclo do desmatamento é seguido pelo das queimadas, a minha previsão é que passado o período chuvoso, o Brasil voltará às manchetes mundiais por causa das grandes extensões de terra que emitirão grossas camadas de fumaça, que anularão todos os ganhos eventuais que estão feitos com a redução das emissões urbano-industriais que vem acompanhando a evolução da COVID-19.

A minha suspeita é que um ambiente  de alta intolerância está sendo criado em muitos países contra o Brasil por causa da forma irresponsável que o presidente Jair Bolsonaro vem tratando da pandemia da COVID-19. Assim, quando as grandes queimadas começarem a revelar o avanço massivo da franja de desmatamento em áreas anteriormente praticamente livres da ação de madeireiros e garimpeiros, é bem provável que o nosso país sofra um isolamento ainda maior do que já está sofrendo. O resultado disso será o aumento da crise econômica e do desemprego.

 

Neurologista adverte: “desacredite da versão oficial”. Coronavírus está matando muito mais

O neurologista Marcelo Eduardo Bigal demonstra em vídeo como o número de mortes por coronavírus no Brasil é muito maior do que indicam as estatísticas do governo: “Desacredite da versão oficial: ela é mentirosa”

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247 – O dr. Marcelo Eduardo Bigal, membro de corpo editorial da The Journal of Headache and Pain, membro de corpo editorial da BioMedCentral Neurology e professor assistente de Neurologia da Albert Einstein College Of Medicine demonstra como a epidemia de coronavírus está muito mais disseminada que a versão das autoridades brasileiras. Bigal demonstra como há muitos mais casos de coronavírus que as estatísticas oficiais apontam e que o número de mortes é maior que os números do governo indicam. “Desacredite da versão oficial: ela é mentirosa”.

 Ele também desmonta o mito da cloroquina num vídeo que postou no Facebook -assista abaixo.

Segundo o médico, há “uma enorme definformação”. Na ausência de testes no Brasil -o país é o que menos testa no mundo. O Brasil testa 296 pessoas por milhão; os Estados Unidos testam mais de 7 mil por milhão e, a Alemanha, 15 mil pessoas por milhão.

Bigal demonstra como o número de 4 mortes por coronavírus para cada milhão de pessoas (5 desde esta sexta-feira, 10) esconde a verdade sobre o número de casos fatais no Brasil.

Ele demonstra como a propaganda da cloroquina é uma mistificação disseminada por Bolsonaro. Ele fala em “irresponsabilidade” do governo e recomenda: as pessoas devem tomar cuidado por si próprias, ficar em casa, usar máscara, lavar as mãos e não tocar no rosto.

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Este artigo foi publicado originalmente pelo site “Brasil 247”  [Aqui!  ].

Flexibilizar o isolamento social é preparar o genocídio dos pobres

virus infecções

Em várias cidades brasileiras a população vem acorrendo às lotéricas e agências bancárias em grandes números, fato esse que está fartamente ilustrado em jornais e redes sociais.  Apesar de todas essas aglomerações, não se vê na maioria das cidades nenhuma ação do estado (em qualquer esfera que seja) para educar a população e disciplinar o acesso aos serviços que continuam funcionando.

Não bastasse isso, diversos governadores (Wilson Witzel (RJ) e Romeu Zema (MG), como exemplos) estão agindo para flexibilizar (na verdade relaxar) decretos anteriores para permitir a abertura do comércio em cidades que estejam com um número oficial de casos de COVID-19.  Além disso, a entrega dos recursos aprovados pelo congresso nacional para auxiliar a parte mais prejudicada da classe trabalhadora está se dando de forma claramente vagarosa, o que contribui para a saída às ruas das pessoas em busca de algum ganho que lhes permita comprar um mínimo de alimentos para não passar fome.

Várias pessoas caminham pelo centro de São Paulo na segunda-feira, 6 de abril.Multidão caminha pelas ruas do centro de São Paulo no dia 06 de abril.

Toda essa situação ocorre em meio ao aumento do número oficial de pessoas contaminadas pelo COVID-19, aumento esse que também está se estendendo ao número oficial de pessoas falecidas como consequência dessa infecção. 

corona-7abr-1Número de infectados pelo COVID-19 até o dia 07 de abril mostra curva em ascendência acelerada.

O fato é que  no momento exato em que as curvas de contaminados e mortos pelo COVID-19 estão dando sinal de aumento explosivo, os governantes estão abrindo as portas do comércio. Para entender que isso nos levará a uma catástrofe sanitário não é preciso ser cientista, pois é só usar o senso comum para ver que exatamente isto o que ocorrerá. 

E para quê abrir o comércio e flexibilizar a forma de milhões de brasileiros de trabalhar sem que seja sequer fornecido o material necessário para os profissionais de saúde trabalharem em um nível mínimo de segurança? Essa é a questão que deveria estar sendo feita, pois a verdade é que o Brasil está flertando neste momento com o genocídio das parcelas mais pobres da sua população.

E como bem disse o neurocientista Miguel Nicolelis: ‘Temos de convencer as pessoas da letalidade do inimigo’, pois o principal a fazer no momento é manter o isolamento social: “Estamos num estado de guerra. O mundo que a gente conhecia desabou”.  Simple assim!

Meu nome é COVID-19, mas pode me chamar de SRAG

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Um dos meios de se abafar um determinado problema é chamá-lo por outro nome.  E esse parece ser exatamente o caminho que os governantes brasileiros estão escolhendo para achatar artificialmente a curva do número de mortes pelo coronavírus (a.k.a. COVID-19).  

É que os dados oficiais estão registrando, e a mídia corporativa noticiando de forma não relacional, o aumento explosivo da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em meio à pandemia da COVID-19, como se uma coisa não tivesse muito a ver com a outra, quando tem.

Vejamos por exemplo, os dados de SRAG que foram compilados pelo jornal “O POPULAR” que é publicado em Goiânia para  o período de 2016 a 2020 (que mal chegou a abril) que demonstram um aumento explosivo para essa condição no estado de Goiás.

doenças respiratórias

Fonte: O Popular

Ainda que a SRAG possa  ser causada por diversos tipos de vírus, o fato é que, neste momento, o número acachapante de casos em meio à pandemia do COVID-19 deveria servir para que providências mais severas fossem tomadas para se testar de forma célere os pacientes para se determinar qual agente infeccioso foi responsável por causar a condição.  Mas até onde se sabe, não é isso que está ocorrendo e muitos estão sendo enterrados sem que os testes estejam sequer sendo realizados.

Por isso é que cresce a taxa de subnotificação e, por consequência, o risco de que o Brasil se torno o próximo epicentro global do COVID-19.  Enquanto isso, os números da SRAG poderão continuar sendo contabilizados, como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra.

Observatório dos agrotóxicos: a inédita lista dos 101 produtos liberados em 2020

agrotoxico-brasil

Em meio ao avanço devastador da pandemia da COVID-19 em todo o mundo, o Brasil incluso, o “Observatório dos Agrotóxicos “, que criei em janeiro de 2019 para informar sobre as liberações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, está lançando a lista completa dos 101 agrotóxicos liberados nos 3 primeiros meses de 2020.

Ainda farei análises adicionais nos próximos dias, mas já observei que a forte predominância de empresas chinesas na oferta dos produtos que estão sendo liberados no Brasil continua firme e forte, com a China sediando 70,3 % das firmas que estão tendo agrotóxicos liberados (ver figura abaixo com os números absolutos por país exportador).

agrotóxicos liberados março 2020

Há ainda que se observar que a influência chinesa pode ser maior na medida em que empresas que foram adquiridas em outras partes do mundo pelas estatais chinesas, como é o caso da Syngenta.

Os dados mostram ainda que o Brasil sedia menos de 6% das empresas que tiveram produtos aprovados.  Um detalhe peculiar dessas aprovações é que todos os agrotóxicos aprovados são do tipo “controle biológico”, o que, em tese, mostraria um potencial para que a dependência externa em agrotóxicos altamente perigosos possa ser diminuída no futuro.

Entretanto, dentre os 101 agrotóxicos liberados, cerca de 30% deles está proibida pela União Europeia, o que reforça a tendência já ocorrida nas aprovações realizadas em 2019 do Brasil se tornar uma espécie de “zona de sacrifício” para onde as grandes corporações multinacionais estão despejando agrotóxicos que já foram banidos nos seus países sedes, inclusive a própria China que já baniu o perigoso Paraquate.

Quem desejar acessar a base completa dos 101 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro até o dia 31 de março, basta clicar [Aqui!]

Subnotificação gigantesca agrava pandemia da COVID-19 no Brasil

Covid-19: número de mortes sobe para 201; são 5.717 casos no Brasil

No dia 25 de março comentei o problema que estava se armando no horizonte em função da evidente subnotificação de casos da COVID-19 no Brasil. Ali mostrei estimativas do Imperial College de Londres de que a taxa de subnotificação brasileira estava na ordem de 11:1. Desde então, já li outras estimativas que colocaram a subnotificação em uma faixa de 11:1 a 100:1, o que torna os números oficiais minúsculos em relação ao que está realmente ocorrendo.

Eis que hoje, o jornalista Fernando Canzian publicou um artigo no jornal “Folha de São Paulo”  cujo o título é “Estados e municípios relatam subnotificação gigantesca de casos” (de COVID-19).  Nesse artigo, a subnotificação foi estimada como estando na ordem de  30:1.  

subnotificação canzian

Assumindo então que a taxa correta de subnotificação é de 30:1, o número oficial de infectados, como fornecido pela Faculdade Medicina da Universidade de São Paulo de Ribeiro Preto (FMRP/USP) que até ontem era de 6.836 pessoas, o valor real de infectados passaria a 205.080  de brasileiros.  Isto faz com que o número potencial de infectados esteja entre 6.836 e 205.080, o que dificulta sobremaneira estimativas mais precisas sobre a evolução da pandemia em território brasileiro. Isto acaba deixando os profissionais de saúde e gestores governamentais completamente cegos em meio à batalha contra a COVID-19.

covid 19 números

A matéria assinada por Fernando Canzian traz duas razões pelas quais o Brasil está hoje em um efetivo voo cego contra a COVID-19.   A primeira seria a  falta de kits para testes, e a segunda a inexistência de uma portaria específica do Ministério da Saúde para determinar quais casos devam ser considerados confirmados ou suspeitos têm feito com que muitos doentes não entrem nas estatísticas. Em outras palavras, o Ministério da Saúde é o lócus primário para a falta de preparação que dificultam a vida dos governos estaduais e municipais, e dos profissionais de saúde que estão à frente do combate à pandemia. 

Por causa dessa situação que é de inteira responsabilidade do governo Bolsonaro, o Brasil está cada vez mais dependente das ações de isolamento social que estão sendo impostas por estados e municípios.  Será graças a elas que o Brasil poderá evitar os piores cenários em termos de mortos pela COVID-19. 

Por outro lado é fundamental que haja uma mobilização política por parte de cidadãos, organizações da sociedade civil, sindicatos, partidos políticos e até de representantes das grandes empresas nacionais para impor uma modificação no curso adotado até aqui pelo governo Bolsonaro no enfrentamento desta pandemia. Do contrário, o que teremos em poucas semanas no Brasil é a repetição agigantada do que está sendo visto agora em países como Itália e Espanha. Afinal de contas, todos já sabem que a COVID-19 não é a gripezinha ou o resfriadinho que o presidente Bolsonaro quer nos convencer que é.

Em meio à pandemia, governo Bolsonaro liberou mais 53 agrotóxicos em março

Pesticide Spraying in Tea Estate in Kerala

Acabo de verificar que nem a pandemia da COVID-19 está servindo para arrefecer o ímpeto do governo Bolsonaro para liberar mais 53 agrotóxicos por meio dos Atos 17 e 22. Com isto, o total de agrotóxicos liberados somente em 2020 chegou a 101, o que somado aos 503 liberados em 2019.   Com essas novas liberações, o governo Bolsonaro totaliza incríveis 604 agrotóxicos liberados em apenas 15 meses de mandato.

Nos próximos dias irei liberar a base completa para o ano de 2020, mas posso adiantar que nos atos 17 e 22 foram liberados consta um “campeão de preferência” que é o Glufosinato de Amônia, um herbicida proibido pela União Europeia.  O caso do Glufosinato de Amônia é ainda mais peculiar quando se verifica que na lista dos 18 produtos liberados pelo Ato 22, este agrotóxico apareceu 9 vezes.

Mais peculiar ainda no caso do Glufosinato de Amônia é notar que a empresa chinesa “Hebei Veyong Bio-Chemical Co., Ltd.” é a principal fornecedora do Glufosinato de Amônia para esta lista de aprovações (sendo que 7 das formulações aprovadas serão fornecidas exclusivamente por essa empresa).

De toda forma, o que se vê é que dentro do caos aparente em que o Brasil está imerso neste momento, a aprovação de agrotóxicos altamente perigosos, e banidos em outras partes do mundo, segue seu curso firme.

 

A modelagem dos cenários da COVID-19 poderá salvar muitas vidas e reduzir perdas econômicas

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No início dos anos 1990 participei de um projeto de pesquisa que envolvia a construção de um modelo de simulação do uso da terra e a perda de florestas em Rondônia, o qual foi denominando de “Dynamic Ecological-Land Tenure Analysis”, ou simplesmente “DELTA“.  Ali se previu com alto nível de acerto o destino das hoje desaparecidas florestas da região central do estado de Rondônia.

A partir do DELTA, muitos outros modelos de simulação envolvendo o uso da terra e seus efeitos na cobertura florestal da Amazônia já foram desenvolvidos, o mais conhecido deles sendo o “Dinâmica EGO” que foi desenvolvido pelo pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, Britaldo Soares Silveira-Filho.

Pois bem, nos últimos dias,  temos visto um crescente debate sobre a acurácia dos modelos de previsão matemática e sua utilidade para orientar as estratégias governamentais para enfrentamento da pandemia da COVID-19. O que já se sabe é que ainda temos um grande número de variáveis cujo comportamento no ambiente de dispersão do coronavírus é de difícil modelagem, contribuindo para o aumento das incertezas.

Mesmo a modelagem produzida pelo respeitado Imperial College of London e que dá números variados de mortes, inclusive para o Brasil, dos diferentes cenários de isolamento sofre com as incertezas geradas pela ausência de informações mais compreensivas de como a pandemia opera em diferentes condições ecológicas, sociais, culturais e econômicas. 

Por outro lado, a possibilidade de que, na ausência de modelos mais complexos, a modelagem se dê de forma mais parcimoniosa, adotando basicamente cenários que dêem a noção mais básica de como a expansão da infecção se dá  usando, por exemplo, as taxas de variação adotada para as medidas adotadas para isolamento social (indo, por exemplo do cenário mais restrito que as autoridades chinesas adotaram para o Wuhan para o que está sendo difundido pelo presidente Jair Bolsonaro).

Um exemplo de modelo de pessoas infectadas de acordo com cenários de intensidade de grau de isolamento social já foi produzido pela Secretaria Municipal de Saúde de Telêmaco Borba (minha cidade natal), que mostra que há sim uma diferença substancial de infecções e de ocupação de leitos hospitalares e de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) (ver figura abaixo).

COVID 19

A grande utilidade de modelos mais simples é a comunicação social em curto prazo, oque serve para aumentar a aderência da população às medidas adotadas em prol do distanciamento social ou, até mesmo, de isolamento total da população, que está ocorrendo em diferentes partes do Brasil.

Por outro lado, para fazer frente aos desafios econômicos de médio e longo prazo que inevitavelmente vão decorrer do impacto da COVID-19 no Brasil, me parece inevitável que a comunidade científica brasileira se concentre no desenvolvimento de modelos que incorporem cenários mais complexos e menos lineares. A boa notícia é que existe conhecimento instalado no Brasil e no mundo para que possamos criar modelos que sejam suficientemente rigorosos para orientar as ações nas diferentes escalas de governo.

O primeiro passo para que possamos começar a construir tais modelos será reverter a concepção dominante no governo federal de que a pandemia não é um problema tão significativo quanto efetivamente o é.  Já o segundo será reverter a noção de que o conhecimento científico não possui utilidade aplicada para que possamos gerar soluções efetivas para o controle da COVID-19 e para o estabelecimento de medidas que permitam uma recuperação mais rápida da atividade econômica. 

Entretanto, por ora, penso que os governos estaduais e municipais sigam o exemplo de Telêmaco Borba e comecem a produzir seus próprios modelos matemáticos de simulação do impacto da COVID-19 em suas respectivas jurisdições.  No mínimo isto orientará onde o montante dos investimentos e onde os mesmos serão melhor aplicados em curto ou até curtíssimo prazo.

Finalmente, o que considero ser uma boa notícia é que, apesar de todos os esforços do presidente Jair Bolsonaro e a pressão de seus apoiadores que querem reabrir o comércio a qualquer custo, a situação geral do Brasil não é que foi vivenciada em países como Itália, Espanha e até nos EUA, pois a pronta de governos estaduais e municipais contribuiu parece ter contribuído para um achatamento mais precoce da curva de contaminação. 

A quem interessa a destruição das Ciências Humanas no Brasil ?

autoconocimiento

Por Luciane Soares da Silva*

No ano de 2018, as Universidades brasileiras foram alvo de fiscalizações acompanhadas de truculência e ilegalidade. No Rio, a Universidade Federal Fluminense (assim como a UENF e outras) foi semanalmente visitada por fiscais após “denúncias”. Por trás destes movimentos, vimos a  tentativa de cerceamento da liberdade de expressão de posições em desacordo com os rumos da política nacional e estadual. Vivemos a experiência concreta da aplicação de exceção na qual cada autoridade pôde estabelecer a escala de democracia que deveria ser aplicada a cada momento do processo eleitoral.

Em 2020 em meio a uma pandemia global, somos diariamente atacados no nosso ofício como professores e cientistas e vemos nossos recursos serem sangrados diariamente. E agora, uma portaria do Ministério de Ciência Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI) exclui a área de ciências humanas da prioridade de projetos de pesquisa financiados pelo CNPq até 2023.

Não é recente a posição do atual presidente Jair Bolsonaro, amparado em seu ministro da educação Abraham Weintraub , de que é preciso “ focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte como veterinária, engenharia e medicina”. 

Há um livro bastante interessante do professor Boaventura de Souza Santos. Neste livro, Boaventura discute alguns paradigmas basilares de fundação da ciência moderna, e refuta com argumentos brilhantes, algumas hierarquizações quanto a separação entre as ciências. Já faz algum tempo que esta discussão tem sido feita por pesquisadores entre os quais estão Thomas Kuhn em “A Estrutura das Revoluções Científicas“, Bruno Latour em “A vida de Laboratório” e o próprio Boaventura, É uma boa leitura para pensar e produzir narrativas sobre conhecimento, ciência e tecnologia. É falsa a separação entre uma ciência “rica” em política (como muito comumente são apresentadas as ciências humanas) e uma ciência mais “pé no chão”. Embora a observação seja um dos requisitos fundamentais das ciências ela é indissociável do observador concreto (político) a considerar até mesmo a escolha do objeto.

O ex-Reitor da UFRJ Roberto Leher discutiu a relação entre ciência e sociedade em entrevista na qual argumentou que falta a Universidade Brasileira pensar a forma como o país está inserido na economia mundial. Se estamos pensando inovação e tecnologia, do que falamos exatamente? A quem deve chegar a inovação tecnológica produzida na Universidade? Quando falamos em transformação social, creio que estamos falando de algo muito mais amplo e estrutural do que a efetivação de parcerias entre Universidade e setor privado.

Quando olhamos o Brasil pós democratização e os indicadores de desigualdade, violência e racismo, devemos nos perguntar, como um país tão rico, permanece tão desigual. Quando olhamos o resultado das formas de urbanização que produziram áreas conflagradas, sem saneamento, devemos nos perguntar como um país com tantos recursos e terras permanece tão inacessível aos seus cidadãos. Quando olhamos as mortes no campo e os indicadores que mostram uma educação ainda precária e incapaz de motivar inovação em regiões como Campos dos Goytacazes, devemos nos perguntar como a política municipal não melhora a vida do homem do campo e de sua família. Quando vemos os jovens ingressando tão cedo em instituições como DEGASI e posteriormente engrossando a massa penitenciária que transcende os limites aceitáveis da dignidade humana, devemos nos perguntar como a Justiça permite tantos abusos aos direitos humanos. Quanto o sistema de saúde pratica violência obstétrica, permite que se naturalize o péssimo atendimento público, aceita o descaso e as pequenas corrupções como forma de fracionar o acesso à saúde, devemos nos perguntar por que programas de prevenção e cuidados básicos não foram implementados em nosso país, em pequenas cidades, investindo em melhor alimentação, tratando questões ligadas a saúde mental da população. Quando o Estado mata pessoas com 80 tiros, confunde furadeiras e sombrinhas com fuzis, atira em crianças de 10 anos e tenta justificar envolvimento no tráfico, devemos nos perguntar por que este mesmo Estado segue aplicando políticas de extermínio contra a população negra e pobre.  Quando ele desapropria com celeridade, agricultores para entregar suas terras e águas na mão de empresários inconsequentes, devemos perguntar que matriz de desenvolvimento é esta que não interessa ao bem comum.

 Nós fazemos estas perguntas, realizamos estas pesquisas e mostramos os interesses que destroem um país rico em recursos humanos e naturais. Mostramos opções menos poluidoras, mostramos possibilidades para alfabetização de crianças e adultos, expomos com outras áreas de conhecimento, as mazelas do sistema carcerário, educacional, de saúde. Discutimos a relação entre desenvolvimento e ecologia. Pensamos as formas pelas quais o racismo ainda permanece em nosso país como uma questão estrutural. Discutimos o feminicídio e as formas ampliadas da família contemporânea brasileira. Enfrentamos temas como aborto, depressão e suicídio.  As ciências humanas não são uma ilha isolada e não há a menor possibilidade de vivermos em um mundo globalizado sem discutir como as decisões políticas afetam as mínimas instâncias de nossas vidas. Da água que bebemos as nossas escolhas religiosas e afetivas.

 Sabemos o quanto este governo tem se esforçado diariamente para  “apequenar” um país moderno, para vendê-lo mais barato, humilhado, destroçado  pela ignorância assombrosa de seus representantes. Mas sabemos que é na defesa do acesso á Universidade Pública, gratuita e socialmente referenciada que encontraremos nosso caminho de volta ao um país melhor, menos desigual.

 O certo é que nós cientistas sociais, permaneceremos aqui, pesquisando, lecionando, realizando projetos de extensão. Seguindo aqueles que antes de nós pensaram o país: Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes , Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Lélia Gonzalez, Ruth Cardoso e centenas de outros. Pensar não o país do futuro, mas o Brasil possível do presente. Tudo que já se falou sobre os perigos de um país sem memória se atualiza hoje, quando vemos a tragédia repetir-se nas ações do atual governo. Mas as formas de resistência também se atualizam com base nos saberes que produzimos ao longo destas décadas.


[1] Este texto foi publicado como nota interna enviada pela ADUENF em abril de 2019. Mas parece que seus argumentos seguem válidos . 

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*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).