A modelagem dos cenários da COVID-19 poderá salvar muitas vidas e reduzir perdas econômicas

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No início dos anos 1990 participei de um projeto de pesquisa que envolvia a construção de um modelo de simulação do uso da terra e a perda de florestas em Rondônia, o qual foi denominando de “Dynamic Ecological-Land Tenure Analysis”, ou simplesmente “DELTA“.  Ali se previu com alto nível de acerto o destino das hoje desaparecidas florestas da região central do estado de Rondônia.

A partir do DELTA, muitos outros modelos de simulação envolvendo o uso da terra e seus efeitos na cobertura florestal da Amazônia já foram desenvolvidos, o mais conhecido deles sendo o “Dinâmica EGO” que foi desenvolvido pelo pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, Britaldo Soares Silveira-Filho.

Pois bem, nos últimos dias,  temos visto um crescente debate sobre a acurácia dos modelos de previsão matemática e sua utilidade para orientar as estratégias governamentais para enfrentamento da pandemia da COVID-19. O que já se sabe é que ainda temos um grande número de variáveis cujo comportamento no ambiente de dispersão do coronavírus é de difícil modelagem, contribuindo para o aumento das incertezas.

Mesmo a modelagem produzida pelo respeitado Imperial College of London e que dá números variados de mortes, inclusive para o Brasil, dos diferentes cenários de isolamento sofre com as incertezas geradas pela ausência de informações mais compreensivas de como a pandemia opera em diferentes condições ecológicas, sociais, culturais e econômicas. 

Por outro lado, a possibilidade de que, na ausência de modelos mais complexos, a modelagem se dê de forma mais parcimoniosa, adotando basicamente cenários que dêem a noção mais básica de como a expansão da infecção se dá  usando, por exemplo, as taxas de variação adotada para as medidas adotadas para isolamento social (indo, por exemplo do cenário mais restrito que as autoridades chinesas adotaram para o Wuhan para o que está sendo difundido pelo presidente Jair Bolsonaro).

Um exemplo de modelo de pessoas infectadas de acordo com cenários de intensidade de grau de isolamento social já foi produzido pela Secretaria Municipal de Saúde de Telêmaco Borba (minha cidade natal), que mostra que há sim uma diferença substancial de infecções e de ocupação de leitos hospitalares e de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) (ver figura abaixo).

COVID 19

A grande utilidade de modelos mais simples é a comunicação social em curto prazo, oque serve para aumentar a aderência da população às medidas adotadas em prol do distanciamento social ou, até mesmo, de isolamento total da população, que está ocorrendo em diferentes partes do Brasil.

Por outro lado, para fazer frente aos desafios econômicos de médio e longo prazo que inevitavelmente vão decorrer do impacto da COVID-19 no Brasil, me parece inevitável que a comunidade científica brasileira se concentre no desenvolvimento de modelos que incorporem cenários mais complexos e menos lineares. A boa notícia é que existe conhecimento instalado no Brasil e no mundo para que possamos criar modelos que sejam suficientemente rigorosos para orientar as ações nas diferentes escalas de governo.

O primeiro passo para que possamos começar a construir tais modelos será reverter a concepção dominante no governo federal de que a pandemia não é um problema tão significativo quanto efetivamente o é.  Já o segundo será reverter a noção de que o conhecimento científico não possui utilidade aplicada para que possamos gerar soluções efetivas para o controle da COVID-19 e para o estabelecimento de medidas que permitam uma recuperação mais rápida da atividade econômica. 

Entretanto, por ora, penso que os governos estaduais e municipais sigam o exemplo de Telêmaco Borba e comecem a produzir seus próprios modelos matemáticos de simulação do impacto da COVID-19 em suas respectivas jurisdições.  No mínimo isto orientará onde o montante dos investimentos e onde os mesmos serão melhor aplicados em curto ou até curtíssimo prazo.

Finalmente, o que considero ser uma boa notícia é que, apesar de todos os esforços do presidente Jair Bolsonaro e a pressão de seus apoiadores que querem reabrir o comércio a qualquer custo, a situação geral do Brasil não é que foi vivenciada em países como Itália, Espanha e até nos EUA, pois a pronta de governos estaduais e municipais contribuiu parece ter contribuído para um achatamento mais precoce da curva de contaminação. 

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