Em meio à pandemia, Bolsonaro edita MP que permite suspender contratos de trabalho por 4 meses

bolsonaro vendaJair Bolsonaro, indo de encontro ao que resto do mundo está fazendo, pune ainda mais a classe trabalhadora ao permitir a suspensão de contratos de trabalho em meio à pandemia do coronavírus

Seguindo os passos diametralmente opostos da maioria dos governos mundiais que estão liberando grandes volumes de dinheiro para proteger os trabalhadores, o presidente Jair Bolsonaro fez publicar uma Medida Provisória (a MP 927) que permitirá aos patrões suspender por até 4 meses o contrato de trabalho de seus empregados, segundo informam os jornalistas William Castanho e Alexa Salomão em matéria publicado pelo jornal “Folha de São Paulo”.

mp suspensão

Que Jair Bolsonaro possui uma grande dívida política com as elites nacionais não há dúvida. Sem o dinheiro e o apoio político dos ultrarricos brasileiros nas eleições de 2018, é bem possível que hoje tivéssemos um  outro presidente no Brasil neste momento.  E como naquela máxima de quem “paga a orquestra, escolhe a música”, o governo Bolsonaro acaba tentando jogar sobre as costas dos trabalhadores o ônus de uma pandemia que continua a ser negligenciada por Jair Bolsonaro, que a a apresenta como uma “gripezinha“.

O problema é que o Brasil possui uma das maiores concentrações de renda do planeta, o que possibilita que nesta hora de grande dificuldade, o patronato possa ser chamado a dar a dose de sacrifício que as vastas fortunas acumuladas às custas do suor alheio permite.  Como disse o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, em relação aos ricos salvadorenhos, os ricos podem viver facilmente por várias gerações com uma perda mínima nas suas fortunas neste momento.

20-paises-concentracao-renda

Já os trabalhadores, cujo volume de sacrifícios tem sido gigantesco ao longo dos últimos anos, já se encontravam em graves dificuldades antes da erupção da pandemia do coronavírus.  Esperar que eles aceitem ficar com contratos suspensos (e sem salários) é uma grande maldade que, entretanto, poderá gerar uma convulsão social sem precedentes na história do Brasil. Assim, até por motivos de autopreservação, caberá ao grande empresariado brasileiro recusar esse passe livre que está sendo ofertado pelo governo Bolsonaro. É que não haverá como impedir saques a supermercados e empresas se esse plano  sinistro for concretizado.

O que mais poderia se esperar de um governo composto por negacionistas, senão negação?

jair bolsonaro ministério

Vejo em muitas pessoas a completa surpresa pela postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro em relação aos riscos colossais que estão sendo impostos sobre a população brasileira, especialmente sobre suas porções mais pobres, por causa da pandemia do coronavírus. 

Pessoalmente eu fico surpreso com esse elemento de surpresa, visto que o governo Bolsonaro é composto por negacionistas de várias estirpes em algumas áreas estratégicas. O ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo é um negacionista das mudanças climática, negação essa que é compartilhada de forma velada pelo ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

Já a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, não apenas nega o perigo imposto pelo uso extensivo e intensivo de agrotóxicos altamente perigosos e banidos em outras partes do mundo.  Tereza Cristina transformou a negação sobre os ricos riscos  trazidos por agrotóxicos para a saúde humana e o meio ambiente em um verdadeiro tsunami de aprovações de agrotóxicos altamente tóxicos que até os países produtores, incluindo a China, querem distância, apesar de vendê-los de forma frugal no Brasil. 

Por outro lado, o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda Paulo Guedes, o Posto Ipiringa de Jair Bolsonaro, nega o óbvio naufrágio de suas políticas ultraneoliberais e ainda tenta surfar na crise do coronavírus para empurrar mais privatização e mais perda da soberania nacional como a única solução para que o Brasil saia da recessão prolongada em que se encontra.

Também temos a ministra Damares Alves que nega até a necessidade de termos políticos que protegem a saúde e a integridade das mulheres brasileiras, apesar de seu ministério ser, em tese, voltado justamente para garantir a proteção delas.

No timão dessa nau de negacionistas, temos Jair Bolsonaro que antes de negar a gravidade da pandemia do coronavírus já havia negado tantas outras coisas, incluindo a existência de um regime militar entre 1964 e 1985, sendo ele próprio um defensor dos instrumentos de coerção que marcaram os 21 anos de duração do regime de exceção.

Então por que poderia se esperar qualquer ação racional e lógica, a começar pela imediata retomada dos investimentos em ciência que pudesse dotar os cientistas brasileiros dos recursos de que necessitam para desenvolver uma vacina para o coronavírus? A resposta é simples: não há como esperar qualquer coisa que beire o reconhecimento de que vivemos um momento singular na história do Brasil, momento este que requer uma participação ativa da comunidade científica, dos serviços público de saúde e da ação solidária da nossa população para que possamos atravessar a pandemia como  um mínimo de perdas de vidas humanas.

Felizmente para todos nós, a conta do custo de tantos negacionismos acumulados desde janeiro de 2019 está chegando para Jair Bolsonaro. E eu me arrisco a dizer que as próximas semanas poderão ser palco de uma mudança drástica na forma com que a maioria dos brasileiros se relaciona com a postura negacionista de Jair Bolsonaro e seus ministros negacionistas em questões chaves nacionais.

Na hora que mais precisamos dela, governo Bolsonaro impõe mais cortes à ciência brasileira

png-pesquisa

Governos em todas as partes do mundo estão neste momento procurando saídas científicas para a pandemia do Coronavírus, o que implica em alocar mais recursos para os sistemas nacionais de ciência e tecnologia.  Mas como o Brasil possui hoje um governo que objetivamente despreza a contribuição da ciência para a resolução dos grandes problemas nacionais, o que temos é mais cortes de bolsas de pós-graduação, sendo o que informa o “Direto da Ciência“.

Segundo o que informa o “Direto da Ciência”, a direção da CAPES está abandonando uma portaria anterior  que foi negociada com o Fórum Nacional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (Foprop), entidade que reúne pró-reitores de pós-graduação de cerca de 250 instituições brasileiras. 

É preciso lembrar que os valores das bolsas de pós-graduação são relativamente baixos e não trazem consigo nenhum tipo de direito trabalhista, jogando esses anos de formação altamente especializada em uma espécie de limbo trabalhista. De quebra, os bolsistas, mesmo aqueles que estudam doenças altamente contagiosas, realizam suas atividades sem a proteção de planos de saúde, o que deixa por conta deles os custos de tratamento para acidentes ou enfermidades adquiridas durante o período de vigência das bolsas.

O impressionante é que atravessamos um momento em que o orçamento das agências de fomento já estão precarizados por causa de vários anos de desinvestimento. Ao aprofundar os cortes nas bolsas, o governo Bolsonaro contribui para a aceleração da destruição do sistema nacional de pós-graduação. 

E tudo isso em um momento em que o mundo atravessa uma das piores crises sanitárias da história recente com a pandemia do coronavírus. E justamente neste momento de grande demanda para o desenvolvimento de medicamentos e instrumentos de testagem, o governo Bolsonaro decide aprofundar a crise financeira da ciência brasileira. Se isso não for atentar contra a segurança nacional, eu não sei o que poderá ser.

Finalmente, é preciso notar que há vários não se vê a presença pública do ministro da Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes.  Essa ausência não seria nada se uma pasta tão estratégica para a conjuntura que atravessamos não estivesse sendo completamente asfixiada.

O potencial devastador do coronavírus sobre os pobres e o que isso nos diz sobre o futuro do Brasil

Tendler-2Os chamados para distanciamento social ignora as flagrantes diferenças econômicas que separam ricos e pobres nas cidades brasileiras

Estou há alguns dias aplicando regras de distanciamento social que poderão me poupar da contaminação por coronavírus.  Essa distância foi facilitada por decisões do governo Witzel e da reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sendo uma delas a possibilidade de que eu possa trabalhar na modalidade de “home office”  Como possuo carro, não estou tendo que utilizar os precários serviços de transporte público que existem em Campos dos Goytacazes. Por fim, moro em uma casa ampla que compartilho com uma gata, e aqui não há falta de espaço para nós dois.

Essas condições descritas acima mostram como sou um privilegiado, e como as condições pelas quais estou me preparando para a pior fase da pandemia do coronavírus me diferencia de milhões de brasileiros que vivem em habitações diminutas, sem esgotamento sanitário e com acesso precário a água. De quebra, muitos desses brasileiros não possuem fonte de renda, não tendo como se alimentar e, em consequência, não possuem as reservas energéticas para manter seus sistemas imunológicos funcionando de forma adequada.

Não podemos nos enganar ou tentar enganar. Neste momento, milhões de brasileiros pobres estão sendo contaminados pelo coronavírus, e em breve isto se tornará evidente, formando uma onda de doentes que precisará acorrer ao sistema público de saúde. O problema é que os serviços públicos de saúde foram gravemente sucateados que já se encontram sob forte pressão de outras epidemias que correm o Brasil de uma forma relativamente silenciosa, a começar pela dengue e chegando na tuberculose.  O quadro que se desvela é, desta forma, assustador, principalmente para os habitantes das áreas mais pobres das nossas cidades.

Enquanto isso, ao contrário da maioria dos governos mundiais, o do Brasil se comporta com insensibilidade e indiferença singulares, enquanto tenta aprofundar as reformas ultraneoliberais que foram iniciadas no governo de Michel Temer.  Assim, em vez de assegurar renda mínima para todos os brasileiros pobres, as medidas anunciadas pelo dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, indicam ainda mais ataques contra os direitos sociais e trabalhistas de que os trabalhadores ainda possuem. As parcas medidas adotadas por Paulo Guedes vão no sentido de proteger os interesses das grandes corporações financeiras que controlam a economia brasileira com mão de ferro.

Por outro lado, os panelaços que ocorreram por duas noites seguidas, mormente nas áreas ricas das principais cidades brasileiras, revelam que uma parcela significativa dos que elegeram Jair Bolsonaro presidente começou a se descolar do programa ultraneoliberal de Paulo Guedes.  Esse descolamento vai se aprofundar quando os efeitos econômicos da pandemia do coronavírus se agravarem, pois esses setores já se encontram estressados por uma recessão que se prolonga desde o início do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Entretanto, não há ainda uma pressão organizada que possa impor a quebra do teto de gastos que hoje asfixia o SUS e impede uma resposta ampla que impeça que o Brasil seja engolido pelo tsunami que o coronavírus irá criar sobre um sistema de saúde que já funciona em condições crítica.  Desta forma, a principal tarefa política do momento é garantir que haja dinheiro para dotar a rede pública de saúde dos equipamentos e insumos que serão necessários para impedir que o Brasil viva uma crise sanitária sem precedentes.

Finalmente, não haverá como conter esse cenário quase apocalíptico se não houver a devida solidariedade social com os mais pobres que hoje se encontram totalmente despreparados para enfrentar esta pandemia. Se não praticarmos solidariedade de forma genuína, que pelo menos façamos em nome da sobrevivência e a saúde de nossas próprias famílias.  É que não haverá como impedir as piores projeções do impacto do coronavírus no Brasil se os pobres forem deixados à mercê da própria sorte.

Yes, habemus coronavírus!

A imagem abaixo nem precisa de legenda, pois se trata do reconhecimento (tardio é verdade) de que o Brasil passa por uma grave crise sanitária e que pode ter tido sua amplitude aumentada pela irresponsabilidade do presidente Jair Bolsonaro que saiu às ruas quando deveria estar confinado, segundo orientações do seu ministro da Saúde.

MINISTÉRIO MASCARADOEm cadeia nacional, Jair Bolsonaro informa que 17 membros da comitiva que o acampanhou a Miami contraíram o coronavírus.

Agora, convenhamos, quem imaginaria há uma semana ver Sérgio Moro, Paulo Guedes e Jair Bolsonaro portando máscaras cirúrgicas? Seria cômico, se não fosse trágico e, pior, perigoso.

Os panelaços voltaram… o alvo agora é Jair Bolsonaro

Há alguns dias acompanho a movimentação nas redes sociais em prol da realização de um panelaço neste dia 18 de março a partir das 20:30 (ver um dos cartazes de convocação abaixo).

wp-1584497295053.jpg

Mas eis que na noite desta 3a. feira, 24 horas antes do protesto que está sendo convocado nas redes sociais, as principais capitais brasileiras (principalmente em suas áreas mais ricas) eclodiram um estridente panelaço, do mesmo tipo daqueles que ocorreram durante a campanha em prol do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (ver abaixo vídeo mostrando este protesto no bairro de Vila Madalena na cidade de São Paulo).

Ainda que seja precoce dizer qualquer coisa sobre a capilaridade da revolta que aparece nas áreas ocupadas pelas classes médias e altas nos setores mais pobres da população, o certo é que se o governo Bolsonaro fosse um barco, o melhor nome para ele seria “Titanic”, e o que estamos vendo hoje é apenas a ponta de um gigantesco iceberg.

Como amanhã há outro protesto marcado e com as mesmas características do que aconteceu espontaneamente na noite de hoje. Vamos conferir se a toada será a mesma ou não. Se for, poderemos afirmar coisas mais concretas.

Incrivelmente, a degradação do suporte político ao governo Bolsonaro não parece vir de nenhuma ação coordenada da chamada esquerda institucional, e sim da sequência de manifestações irresponsáveis do próprio presidente Jair Bolsonaro (incluindo as feitas sobre a pandemia do coronavírus) e sua trupe de ministros sinistros. A noite deverá ser tensa no Palácio do Planalto. Essa esquerda deve estar tão surpresa quanto os bolcheviques quando entraram no Palácio de Inverno do Czar em São Petersburgo.  E não ficarei surpreso se dentro do que se chama de “esquerda” vierem pedidos de respeito à institucionalidade. A ver!

Não, a mídia não está exagerando em relação à pandemia do Coronavírus

pandemia

Vindo de diferentes segmentos da sociedade brasileira, estamos ouvindo a afirmação de que a pandemia causada pelo Coronavírus não é o bicho papão que mídia estaria fazendo crer. A essas pseudo vozes de uma razão irracional que não, a mídia não está exagerando em relação ao grave problema de saúde coletiva que está forçando países inteiras a simplesmente fecharem seus cidadãos em casa para diminuir a velocidade do contágio. 

Um dos problemas do Coronavírus, especialmente em países que privatizaram as suas redes de saúde e enfraqueceram o serviço público é que agora há um inevitável choque entre a demanda do bem comum e o único interesse dos capitalistas que controlam a maioria dos hospitais que é simplesmente aumentar suas taxas de lucro.

Por causa desse desencontro entre o bem comum e a busca do lucro que a Espanha acaba de nacionalizar (em outras palavras colocou sob controle do Estado) a rede particular de saúde do país para melhor fazer frente aos desafios postos pela pandemia do Coronavírus.

Mas voltando ao Brasil, o que estamos vivenciando é uma demora em determinar medidas duras para diminuir a circulação de pessoas, o que poderá elevar o número de óbitos de forma exponencial. É que, como já mostrou com extremo sucesso a Coréia do Sul, a ferramenta mais eficaz para diminuir a sobrecarga dos hospitais é diminuir a circulação de pessoas logo no início do surto. Ao não fazer a mesma coisa que os coreanos do sul, estamos criando uma bomba de tempo que rapidamente explodirá e deixará nossas cidades em situação de calamidade pública.

O caso brasileiro é ainda complicado pelo fato de que cerca de 100 milhões de pessoas não possuem serviços de esgotos, enquanto que 35 milhões não possuem fontes de água de tratada. Essa precariedade total impedirá que uma parcela significativa da população não possa realizar as medidas profiláticas básicas para se proteger do coronavírus, aumentando ainda a possibilidade contaminação dos que possuem.

Para complicar o que já é bastante complicado, vivenciamos uma situação em que ocupantes de diferentes níveis de governo estão entre aqueles que negam a periculosidade associada ao coronavírus, a começar pelo presidente da república, o ex-capitão do exército Jair Bolsonaro.  Com seu negacionismo obtuso, esses governantes estão atrasando a adoção de medidas que poderiam conter a disseminação exponencial do coronavírus. Para melhor entendimento do problema que resultará desse negacionismo oficial, posto abaixo duas simulações feitas pelo jornal “The Washington Post” sobre disseminação do coronavírus: a primeira sem restrição de movimento e a segunda com restrição.

1) Disseminação do coronavírus com livre movimentação de pessoas

2) Disseminaçaõ do coranavírus com restrição de movimentação de pessoas

Finalmente, é essencial que saiamos da posição de expectantes dessa pandemia e passemos a ser ativos disseminadores do conhecimento existente sobre o coronavírus. Falo isso especialmente para membros da comunidade científica que, por má fé ou desconhecimento, estão negando a gravidade da situação.  Que ocupantes de cargos públicos possam se dar à liberdade de brincar com fogo e atuar como negacionistas da pandemia do coronavírus, dos membros da comunidade científica seria esperado que ajam guiados pela aplicação das regras básicas do método científico em que lógica e racionalidade, e não preconceito ou interesses particulares, devem resultar em uma informação mais rigorosa sobre o que está de fato acontecendo.

E não, a mídia brasileira não está exagerando o problema da pandemia do Coronavírus. Na verdade até aqui vem se omitindo em prol das ditas reformas do governo Bolsonaro.

Asfixiada financeiramente e perseguida ideologicamente, ciência brasileira terá papel chave no combate ao Coronavírus

Virus Outbreak Brazil

Depois de indicar que a pandemia do coronavírus era uma fantasia criada pela mídia, o presidente Jair Bolsonaro teve de se submeter a testes para verificar se estava contaminado.

No dia 11 de janeiro de 2019 concedi uma entrevista ao Diário de Notícias, jornal publicado em Lisboa, e apontei para um fato que já estava mais do que anunciado, qual seja, o ataque ideológico que a ciência iria sofrer por parte do recém-empossado presidente Jair Bolsonaro. Desde então, tenho presenciado a lamentável confirmação das minhas próprias previsões, visto que o governo Bolsonaro impôs fortes retrocessos não apenas no orçamento da Ciência e Tecnologia que já vinha definhando, mas também em termos da autonomia de ação dos cientistas brasileiras. O resultado disso foi o início de uma forte evasão de cérebros, tal como já havia ocorrido durante o período da ditadura de 1964.

Resultado de imagem para evasão de cérebros bolsonaro

Um dos aspectos mais notáveis da ação do governo Bolsonaro tem sido a desqualificação do saber científico em prol de versões mal acabadas do que efetivamente está ocorrendo na realidade. Um exemplo disso é a posição negacionista em face do processo de mudanças climáticas sobre o qual há uma robusta concordância de que a Terra passa hoje por um inédito processo de ajuste do funcionamento do seu sistema climático, o qual deverá impor fortes impactos sobre assentamentos humanos e suas áreas de produção de alimentos. Em função desse negacionismo é que o Brasil regrediu décadas em seus esforços para ter um modelo de governança que nos permitisse fazer frente aos eventos climáticos extremos que iremos inevitavelmente presenciar.  O fato é que, em vez de se orientar pelo conhecimento científico já comprovado, o presidente Jair Bolsonaro e vários de seus ministros preferiram abraçar a versão que associa as mudanças climáticas a um complô marxista.

A mesma posição foi oferecida até poucos dias em relação à pandemia causada pelo coronavírus. Apesar de todas as evidências científicas que imputam ao Coronavírus uma letalidade considerável em determinados segmentos da população mundial, o presidente Jair Bolsonaro imputou à mídia a criação de uma fantasia acerca do alcance e riscos deste vírus. Agora que está comprovado que vários de seus auxiliares diretos estão contaminados (e ele próprio sob suspeita de haver contraído o coronavírus), o presidente Jair Bolsonaro resolveu sair de sua posição negacionista para um reconhecimento pálido de que estamos no limiar de uma grave crise de saúde pública.

Aqui é preciso que se diga que pandemias não são superadas sem muito investimento público em ciência e tecnologia e saúde pública. Mas não estou aqui falando de um investimento pontual para vencer uma situação pontual, mas de financiamento continuado, daquele tipo que permita que grupos de pesquisa se consolidem e tenham condições de realizar pesquisas longitudinais que sejam capazes de gerar conhecimento compreensivo. E a comunidade científica brasileira não poderia estar mais longe dessa condição de sustentabilidade do que no atual momento, muito em função do desinvestimento realizado pelo governo Bolsonaro que dizimou grupos de pesquisas e exilou jovens pesquisadores em outras partes do mundo. 

Como os cientistas brasileiras são acima de tudo otimistas insuperáveis e com alta resiliência, é provável que avanços importantes sejam alcançados no conhecimento sobre o coronavírus e nas melhores formas de combatê-lo. Mas é preciso que se diga que os pesquisadores brasileiros foram deixados em uma condição de penúria e desmoralização e entrarão nessa guerra em condições muitos desiguais, visto que o “inimigo” (no caso o Coronavírus) já demonstrou sua alta efetividade em países cujos investimentos em ciência tem sido muito mais alto do que os feitos pelo governo Bolsonaro.

Finalmente, há que se lembrar que enquanto não se vence pandemia sem ciência, não há como fazer ciência sem dinheiro. Essa verdade óbvia vai ter que ser entendida pelo presidente Bolsonaro e seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes. Do contrário, não haverá disposição para a luta que segure o coronavírus e tantos outras doenças que correm soltas pelo Brasil neste momento. Simples assim!

Caos à vista: Com economia paralisada, o Brasil vê no horizonte uma recessão global

guedes

E o tamanho do PIB é…. 

Ontem ouvi por poucos minutos um entrevistado de programa local analisando a situação econômica do Brasil em meio às “reformas” de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes que nos isolaria de uma crise que se levanta na economia global.  A similaridade de argumentos e a defesa de mais “reformas” não me deixaram dúvidas, e mudei rapidamente de estação. É que até para ouvir besteira há limites.

O problema é que qualquer observador minimamente capacitado de oferecer uma análise superficial da situação teria dito ao “locutor” que a situação do Brasil já beirava o dramático antes da erupção da pandemia do Coronavírus e da eclosão das disputas entre os países produtores acerca dos preços do petróleo.  Com esses dois desdobramentos, passamos do dramático para o desesperado.

A verdade é que o Brasil já ensaia uma recessão desde que a então presidente Dilma Rousseff iniciou seu segundo mandato praticando um estelionato eleitoral quando colocou no cargo de ministro da Fazenda o neoliberal Joaquim Levy. Como a história já mostra, esse estelionato eleitoral abriu espaço para um golpe parlamentar que tirou Rousseff do poder, colocando em seu lugar Michel Temer que, efetivamente, aprofundou as medidas neoliberais de Levy, o que foi consumado com a aprovação da chamada PEC do Teto de Gastos (PEC-241 na Câmara de Deputados e PEC-55 no Senado Federal).

Ao congelar os investimentos públicos por pelo menos 20 anos, Michel Temer jogou o Brasil ainda mais para o pântano recessivo em que Dilma e Levy já tinham colocado o país. A eleição de Jair Bolsonaro e a assunção de Paulo Guedes resultaram apenas em mais recessão. Em função disso, o nosso país está atolado em uma situação calamitosa, visto que o Estado não investe por causa dos limites impostos pela PEC do Teto de Gastos, e os barões da iniciativa privada estão mais preocupados em migrar seus dólares para paraísos fiscais para salvá-los do naufrágio do que colocar suas fortunas a serviço da recuperação econômica brasileira.

Mas como não há nada que não esteja tão ruim que não possa piorar, agora temos todos os elementos indicadores de que a economia global entrará em uma recessão tão ou mais profunda do que aquela experimentada em 2008. A primeira consequência dessa situação é a fuga de divisas, pois os especuladores internacionais vão colocar suas fortunas em ativos mais seguros, e consequente depreciação acachapante do Real. Mas outra consequência importante é a perda de valor das commodities agrícolas e minerais cuja comercialização é hoje a principal boia de salvação do comércio exterior do Brasil. Com isso, temos o somatório de dois fatores que servirão para tensionar ainda mais as contas brasileiras, devendo ainda obrigar o governo Bolsonaro a torrar as reservas nacionais de dólar que foram acumuladas nos anos dourados de Lula e Dilma. Em suma, não há nada de bom ou estável no horizonte, especialmente porque os preços do petróleo dos quais a União e os chamados estados produtores dependem para obter renda não deverão se recuperar tão cedo.

20200128_coronavirus_jitters

Variação dos preços do petróleo e do cobre após a erupção da crise do coronavirus

Demonstrando sua completa incapacidade de oferecer respostas que façam o Brasil se mover para fora do lamaçal econômica onde está colocado, o governo Bolsonaro tem apenas uma receita a oferecer: mais recessão e mais ataques à capacidade de investimento do Estado brasileiro disfarçados de “reformas“.  Com isso, uma situação que já é profundamente problemática tenderá a se agudizar.   Mas novamente,  é preciso dizer que aquilo que está ruim sempre pode piorar. Assim, eu não me surpreenderei nenhum pouco com uma saída intempestiva de Paulo Guedes do governo Bolsonaro, culpando inclusive o chefe pela patranha onde estamos metidos. Se isso acontecer, quem terá que se preocupar com o próprio destino será o presidente Jair Bolsonaro.

Resumo da ópera: quem ainda tiver algo a perder, melhor pensar bem sobre os próximos passos. Já para os que já perderam tudo, não há nada de bom no horizonte.  Simples assim!

Jair Bolsonaro pinta calmamente em Miami, enquanto o Real e ações derretem

oil crashQueda do preço do petróleo faz com que as bolsas globais entrem em colapso

A economia global amanheceu hoje sobre os escombros de um rápido colapso das bolsas de valores em todo o mundo; processo este alavancado por um mistura de pandemia do coronavírus e uma guerra aberta dentro da organização dos países produtores do petróleo (OPEP). Com isso, o Real, que já era uma das moedas mais desvalorizadas do mundo, está passando por um rápido derretimento, com o dólar turismo chegando a R$ 5,26; euro a R$ 5,93, e a libra esterlina a R$ 6,94 em São Paulo.

Esses são sinais péssimos para o Brasil que possui uma economia completamente aberta às idas e vindas dos especuladores financeiros globais e com uma balança comercial que depende de forma exagerada da exportação de commodities agrícolas e minerais. É que com uma recessão global apontando no horizonte bem próximo, países como o Brasil serão os grandes perdedores de mais este ciclo de recessão global. E isto tudo em meio a uma recessão interna que já criou algo em torno de 13 milhões de desempregados.

Se eu fosse presidente da república, o dia de hoje já teria me obrigado a sair de onde estivesse para retornar rapidamente a Brasília onde um gabinete de crise estaria instalado para tentar estabelecer os melhores e mais eficazes mecanismos para isolar o Brasil da tsunami que está se montando nos mercados globais.

Mas o presidente da república da vez é o ex-capitão do exército Jair Bolsonaro e ele parece ter encontrado uma forma de aliviar as eventuais tensões do atual momento político e financeiro. É que como mostra o vídeo abaixo, o presidente Bolsonaro não apenas continua nos EUA, como está por lá se dedicando a atividades lúdicas como a pintura.

Erro
Este vídeo não existe

Mas a bem da verdade é que o presidente Jair Bolsonaro não é o único que parece reconhecer a gravidade do momento que atravessamos.  Outro exemplo peculiar de calma é o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes. É que em entrevista concedida no dia de hoje, Guedes disse apenas que “o preço do petróleo vai cair”, quando se sabe que o preço dessa commodity mineral já baixou para níveis semelhantes a 1991, ano da primeira guerra do Golfo Pérsico. E isso em um momento em que a balança comercial depende fortemente da estabilidade dos preços de suas commodities para se manter acima do nível crítico.  Além disso, Guedes continua apostando nas suas reformas ultraneoliberais, como se não existisse um quadro externo que literalmente tritura os ganhos mínimos que as mesmas poderão trazer em um momento de crise sistêmica.

A verdade é que o momento é extremamente grave para toda a economia global, mas isso não parece estar sendo devidamente apreciado pelo governo Bolsonaro. Os próximos dias deverão determinar o tamanho do buraco em que a economia global vai se meter, e isto deverá nos mostrar quão fundo será o poço em que o Brasil estará entalado. Uma primeira análise indica que o fundo desse poço será bem profundo, o que apenas deverá piorar o estado de humor dos especuladores financeiros que estão retirando seus dólares do Brasil em direção a ativos mais seguros do que a instável economia brasileira.