Novo arco do desmatamento: fronteira de destruição avança em 2019 na Amazônia

Levantamento do ISA encontrou 11 novos municípios que alavancaram a derrubada da floresta e que indicam novas zonas de pressão na floresta em 2019; veja íntegra do estudo

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Queimadas na Floresta Nacional do Jamanxim, em agosto de 2019, Novo Progresso, Pará. | Victor Moriyama – Greenpeace

Por Instituto Socioambiental

Uma nova geografia da destruição avança na Amazônia. Levantamento do Instituto Socioambiental (ISA) aponta que 11 novos municípios alavancaram a derrubada na maior floresta tropical do planeta, expandindo a zona de destruição para o sudoeste e oeste do Pará, sul do Amazonas e oeste do Acre. O estudo do ISA se baseou nos dados do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 2008 a 2018, incluindo a estimativa do período entre agosto de 2018 e julho de 2019. Veja aqui a íntegra do estudo.

A expressão “arco do desmatamento” delimita uma região composta por 256 municípios em que a destruição se concentra historicamente e onde estão focadas políticas públicas de combate do Ministério do Meio Ambiente. É um território que vai do oeste do Maranhão e sul do Pará em direção a oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre. As rodovias Belém-Brasília e Cuiabá-Porto Velho iniciaram o desenho desse arco a partir da década de 1960. A região concentra aproximadamente 75% do desmatamento da Amazônia. O estudo também identificou 22 municípios que não constam nessa lista e configuram uma nova zona de expansão.

Na expansão da fronteira identificada pelo ISA, os vetores são as rodovias BR-163, BR-319 e BR-364 que, como flechas, irradiam a devastação para o interior da floresta amazônica. Enquanto isso, municípios da porção sul do arco do desmatamento, sobretudo no estado do Mato Grosso, e de ocupação mais antiga, tiveram queda na taxa. A notícia não é necessariamente boa: ela indica que a floresta nessa zona foi destruída quase completamente e que os desmatadores buscam novas áreas para derrubar.

Um problema grave é que desses 11 municípios, oito deles não estão relacionados na lista de municípios prioritários para o combate ao desmatamento do Ministério do Meio Ambiente e, portanto, estão fora da alçada das políticas públicas que podem conter essas taxas. “É fundamental que o governo olhe para essas novas frentes de destruição, e estabeleça medidas também para essas áreas”, apontou Antonio Oviedo, pesquisador do ISA e um dos autores do estudo.

No Estado do Acre, destaca-se o município de Xapuru, ao longo da BR-317, Feijó e Tarauacá, ao longo da BR-364 e de Marcelândia e Peixoto de Azevedo e União do Sul, no Pará, ao longo da BR-163.

Outra frente é o estado de Roraima, cujas taxas de desmatamento bateram o recorde em 2019, com aumento de 216%, mostrando o avanço da fronteira ao norte da Amazônia. Quatro municípios (Cantá, Caracaraí, Iracema e Mucajaí) alavancaram o desmatamento na região.

Grandes desmatadores voltam à ativa

O estudo também identificou que um velho ator está de volta: o grande desmatador. Entre os anos de 2002 a 2012, quando houve queda da taxa de desmatamento, as áreas derrubadas se reduziram. O desmatamento passou a concentrar-se em pequenas áreas, ampliações de propriedades, uma espécie de “puxadinho” da propriedade rural. Mas, a partir de 2012, os grandes desmatamentos (acima de mil hectares) passaram a contribuir mais e os pequenos desmatamentos a contribuir menos no cômputo total. Isso nos mostra que o autor desse desmatamento não é alguém que está ampliando sua propriedade, fazendo um “puxadinho”, mas alguém com poder aquisitivo suficiente para abrir uma nova área de grandes dimensões.

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Este artigo foi inicialmente publicada pela ONG Instituto Socioambiental [Aqui!].

Ricardo Salles e seu churrasco celebratório fora de lugar

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Estive fora de combate nos últimos dias e não pude comentar antes o papel jogado pela delegação brasileira no fracasso das negociações no interior da chamada COP25  para que um acordo multilateral em torno dos ajustes necessários para se fazer frente às inevitáveis consequências das mudanças climáticas que estão ocorrendo na Terra, Lá, sob liderança do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o Brasil chegou a negar duas coisas que a ciência já demonstrou faz tempo: o papel dos oceanos e do uso da terra no clima global!

Pelo que li a presença de Ricardo Salles na COP25 se dividiu em duas ações básicas: 1) implorar por dinheiro para “proteger” o meio ambiente e 2) impedir qualquer evolução positiva nas negociações para um conjunto de regras para um ajuste global na produção econômica de forma a manter o clima da Terra dentro um limiar capaz de impedir grandes e trágicas transformações ao longo do planeta.  Essa postura não passou despercebida, e foi classificada por representates de outros governos como “chantagem imatura“.

Essa postura é coerente com quem Ricardo Salles e com o governo que ele representa. Ambos são céticos das mudanças climáticas e negam que os que está sendo visto e medido cientificamente sejam resultado do funcionamento da economia global. Aliás, a coerência entre o ministro e governo é tanta que, logo após impor um acordo extremamente minimalista à COP25, Ricardo Salles resolveu fazer uma piada de mau gosto e postou uma imagem de um churrasco (pago com o dinheiro público com certeza) em algum restaurante de Madri (ver imagem abaixo).

Ricardo Salles veggie

Mas esquecendo um pouco da coerência e pensando mais nos efeitos desastrosos que a presença de Ricardo Salles teve para o lugar ocupado pelo Brasil na discussão das mudanças climáticas, eu diria que outros representantes de governos nacionais toleram o negociador mais duro, mas definitivamente possuem pouco apetite para molecagens. Assim, ao se comportar com um colegial indisciplinado e metido a engraçadinho, Ricardo Salles chamou para o Brasil, as piores consequências dos seus atos.  Ainda que isso não se manifeste prontamente, não há dúvida de que consequências ocorrerão. Mas o fato é que o Brasil saiu isoladíssimo da COP25, e esta posição isolada terá custos.

 

 

Amazônia em chamas: estudo mostra que queimadas são três vezes mais comuns em áreas de pecuária

Investigação revela que 70% dos alertas de incêndio da Nasa estavam localizadas nas zonas estimadas de compra de empresas de carne bovina, algumas das quais exportam para o Reino Unido

guardian 1As zonas de compra estimadas de 128 matadouros foram combinadas com a localização de alertas de incêndio florestal. Foto: Bruno Kelly / Reuters

Por Alexandra Heal, Andrew Wasley, Sam Cutler and André Campos para o “The Guardian”

Os incêndios foram três vezes mais comuns nas zonas produtoras de carne do que no restante da Amazônia neste verão, segundo uma nova análise.

As descobertas mais uma vez chamam a atenção para os vínculos entre a poderosa indústria de carne bovina do Brasil e o desmatamento da floresta amazônica, assim como o mundo debate as mudanças climáticas na COP25.

Em resposta ao trabalho do Guardian e do Bureau of Investigative Journalism (BIJ), os eurodeputados pediram à UE que bloqueie a carne bovina que pode estar ligada ao desmatamento. “É absolutamente urgente que a UE imponha um dever legal às empresas européias para garantir que suas cadeias de suprimentos estejam livres de desmatamento”, disse Heidi Hautala, uma eurodeputada finlandesa.

gado fogoNa imagem acima no lado esquerdo aparecem as áreas estimadas como sendo de pontos de compra de animais para abate pelos grandes frigoríficos. Já no lado direito aparecem os focos de incêndio na Amazônia brasileira. Em dois 2/3 dos casos há coincidência entre os dois fatores.

Há dois anos, a ONG brasileira Imazon coletou dados para estimar as zonas de compra de carne bovina em toda a Amazônia. Eles identificaram 128 matadouros e começaram a estabelecer as áreas a partir das quais essas plantas poderiam comprar seu gado para processamento. Por meio de entrevistas por telefone com a equipe dos matadouros, ou fazendo médias com base em métodos em outras frigoríficas, a equipe de pesquisa coletou informações sobre as distâncias máximas das quais cada um provavelmente obteria gado.

Eles modelaram esses dados com base em fatores locais, como estradas, rios navegáveis e padrões climáticos, e estimaram a zona de compra potencial máxima para cada matadouro. As zonas de compras cobrem grandes áreas de centenas de km e há sobreposição significativa entre as zonas de compras para diferentes empresas. Somados, os dados criam uma imagem convincente das áreas da Amazônia onde o gado está sendo criado para a carne bovina.

Usando métodos projetados pelo projeto de sustentabilidade sem fins lucrativos Chain Reaction Research, o Guardian e o BIJ mapearam os alertas de incêndio da Nasa arquivam dados na área legalmente definida da Amazônia e descobriram que dos 554.000 alertas de julho a setembro, quase 376.000 – cerca de 70% – estavam nas zonas de compra estimadas, apesar de essa área cobrir muito menos da metade da Amazônia legal.

Algumas das maiores empresas de carne do mundo operam na região. Mais de um quarto de milhão de alertas de incêndio foram emitidos nas zonas estimadas de compra da JBS, a maior fornecedora de carne do mundo, por exemplo. Sabe-se que suas fábricas exportam para a Europa, inclusive para empresas do Reino Unido.

Havia quase 80.000 alertas de incêndio nas prováveis ​​áreas de compra da Marfrig, o terceiro maior exportador brasileiro de carne bovina, e mais de 66.000 em torno de matadouros pertencentes à Minerva. Esses três frigoríficos dominam a Amazônia brasileira e respondem por quase metade do gado abatido na região, segundo o Imazon.

guardian 2Algumas das maiores empresas de carne do mundo operam na Amazônia. Fotografia: Marco Antonio Rezende / Getty

JBS, Marfrig e Minerva disseram ao Bureau que estavam comprometidos com as cadeias de suprimento de “desmatamento zero” e que todos monitoram seus fornecedores para garantir isso.

“A correlação teórica baseada em estimativas não é causal e é enganosa”, disse um porta-voz da JBS. “A JBS está trabalhando ativamente para reunir outras partes interessadas e empresas importantes para unir forças para preservar a Amazônia.”

A empresa acrescentou: “Se as fazendas são consideradas não compatíveis com nossas políticas de abastecimento sustentável por qualquer motivo, incluindo o desmatamento, elas estão bloqueadas em nossa cadeia de suprimentos … Não estamos envolvidos nem toleramos a destruição da Amazônia”.

A Marfrig também disse que bloqueou todas as fazendas encontradas envolvidas no desmatamento e que começou a monitorar os focos de incêndio em agosto deste ano. “Sempre que qualquer sobreposição de áreas entre as propriedades e os focos de incêndio é identificada, há um alerta para que a compra seja reavaliada”, afirmou a empresa em seu comunicado.

Minerva disse que não havia evidências de que havia comprado animais de fazendas onde ocorreram incêndios e culpou a crise deste ano pelo clima. Ele disse que “não há conexão comprovada com as atividades do agronegócio”.

Em uma investigação separada, também foram encontrados incêndios em pelo menos três fazendas conhecidas por vender gado diretamente aos matadouros da JBS. Trabalhando com a Repórter Brasil, o BIJ descobriu que pelo menos uma dessas plantas exporta carne e couro globalmente.

Enquanto JBS, Marfrig e Minerva dizem estar confiantes de que o gado que compram não provém de áreas ilegalmente desmatadas, eles também aceitam que não sabem a origem de muitos porque o gado é frequentemente movimentado entre os milhares de fazendas de criação, criação e engorda.

A indústria de carne bovina é vista como uma das principais causas do desmatamento na região amazônica. Os criadores de gado são responsáveis ​​por 80% da derrubada de terra em todos os países com cobertura florestal na Amazônia, de acordo com a Escola de Estudos Florestais e Ambientais da Universidade de Yale.

JBS, Minerva e Marfrig admitem que não podem monitorar as fazendas que estão mais abaixo em suas cadeias de suprimentos. “Atualmente, nenhum dos participantes do setor consegue rastrear fornecedores indiretos”, disse Minerva.

guardian 3Havia mais de meio milhão de alertas de incêndio da Nasa na Amazônia de julho a setembro. Foto: Ricardo Moraes / Reuters

Marfrig disse ao Bureau que mais da metade do gado que abate é originário desses fornecedores indiretos.

Todas as três empresas disseram que estavam trabalhando com o governo ou ONGs para abordar esse ponto cego nos seus processos de monitoramento.

A JBS afirmou: “Estamos trabalhando com autoridades locais, governo e setor em geral para obter acesso aos dados e ferramentas necessárias para resolver esse problema.” A Marfrig disse que solicita informações de compra de gado de seus fornecedores diretos, enquanto Minerva afirma que mais policiais era necessário em todas as etapas da cadeia.

Os incêndios na Amazônia neste verão causaram alarme global. Não há evidências de que esses incêndios tenham sido iniciados em ou por fazendas que fornecem JBS, Marfrig ou Minerva, mas a própria existência de uma colcha de retalhos de fazendas na floresta tropical pode estar ajudando a agravar o efeito geral dos incêndios iniciados em outros lugares. “Todo o clima local é mais seco porque você está obtendo menos evaporação das árvores”, disse Yavinder Malhi, professor de ciência de ecossistemas da Universidade de Oxford.

Especialistas dizem que o aumento dos incêndios foi causado diretamente pelo aumento do desmatamento: a queima intencional de árvores que haviam sido derrubadas meses antes, em vez de incêndios florestais aleatórios. “Depois de limpar a floresta para fazer uma fazenda, você tem muitos materiais mortos espalhados e os agricultores esperam até a estação seca para queimar esse material”, disse Malhi.

O desmatamento tem sido uma questão-chave nas negociações sobre mudanças climáticas em Madri, e importantes empresas do Reino Unido escreveram ao governo brasileiro na semana passada para pedir ações urgentes.

Em resposta às novas descobertas, os deputados Manon Aubry e Heidi Hautala pediram uma ação. “Não pode ser responsabilidade do consumidor garantir que os produtos nas prateleiras dos mercados europeus sejam produzidos de maneira sustentável”, disse Hautala ao Guardian. “O consumidor precisa confiar que apenas os itens produzidos com responsabilidade são vendidos na Europa.” Aubry pediu uma reavaliação do Acordo Comercial UE-Mercosul, que aumentaria as importações para a Europa do Brasil e de outros países da América do Sul.

guardian 4Um número recorde de incêndios florestais no Brasil em 2019 provocou protestos globais. Fotografia: Kenzo Tribouillard / Getty

A UE também tem que questionar o impacto dos acordos de livre comércio que são prejudiciais para o planeta e as pessoas. Um acordo com o Mercosul pioraria a situação e aceleraria o desmatamento na Amazônia. ”

“Nossas descobertas ilustram que incêndios e desmatamento continuam ocorrendo na cadeia de suprimentos da JBS, apesar das políticas e compromissos da empresa”, disse Marco Tulia Garcia, que liderou a pesquisa na Chain Reaction. “É da maior urgência que a JBS resolva esses problemas.”

A JBS recentemente criou um site que permite que os clientes pesquisem códigos de produtos para o nome e as coordenadas da última fazenda para criar o animal antes do abate, em um movimento descrito na imprensa especializada como uma redução da transparência. Os clientes agora são redirecionados para outro site, onde apenas o nome e o município das fazendas são fornecidos.

A empresa afirmou: “Devido a questões legais baseadas no Regulamento Geral de Proteção de Dados do Brasil, a empresa limitou algumas das informações de terceiros publicadas em seu site … A JBS possui uma política de transparência robusta.”

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Saque em caminhão transportando carne: as portas do caos estão sendo abertas no Brasil

carne

Voltei ao Brasil em 1997 e em 1998 e orientei um estudo sobre a forma como a mídia corporativa cobria os saques que ocorriam em todo o Brasil por causa da crise criada por FHC e suas políticas neoliberais.

21 anos depois acabo de encontrar via redes sociais um vídeo mostrando saque de um caminhão, justamente um carregando carne bovino, supostamente no bairro de Acari no município do Rio de Janeiro. Esse é o resultado de pelo menos 5 anos de medidas ultraneoliberais impulsionadas por Michel Temer e Jair Bolsonaro (se contarmos o primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff serão 6).

Erro
Este vídeo não existe

Em 2020 deveremos ter mais dessas cenas em todo o território nacional. A razão é simples: quando não se levam em conta as necessidades básicas dos pobres e se acha que tudo se resolve com repressão e violência, a ação direta deles é inevitável.

Nota do Cimi sobre assassinatos de indígenas Guajajara, no Maranhão, e Tuiuca, no Amazonas

Tais crimes têm acontecido na esteira de discursos racistas e ações ditadas pelo governo federal, como o incentivo a invasões às terras indígenas

cimi logo

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) vem a público para denunciar e repudiar mais um atentado com vítimas fatais contra o povo Guajajara, no estado do Maranhão, e contra um indígena Tuiuca, no Amazonas.

Neste sábado (7) um grupo de lideranças indígenas Guajajara retornava de uma reunião com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Eletronorte quando foram atacados e atingidos por vários disparos de arma de fogo na BR 226, no município de Jenipapo dos Vieiras (MA).

Os dois indígenas assassinados são os caciques Firmino Praxede Guajajara, da Terra Indígena Cana Brava e Raimundo Belnício Guajajara, da Terra Indígena Lagoa Comprida; outros dois indígenas encontram-se gravemente feridos. Os disparos foram praticados por criminosos que estavam em um veículo Celta branco.

Lembramos que em 1º de novembro, a liderança Paulo Paulino Guajajara foi assassinada dentro da Terra Indígena Araribóia, também no Maranhão, atacado por invasores durante emboscada onde Laércio Souza Silva Guajajara acabou alvejado no braço e nas costas, mas felizmente sobreviveu. Até esta data o crime não foi solucionado e os criminosos seguem não identificados e presos.

Neste contexto, ressaltamos ainda que na última segunda feira, dia 2, foi vítima de espancamento e violência extrema o indígena Humberto Peixoto, do povo Tuiuca, do Amazonas, que trabalhava na Cáritas Arquidiocesana. O indígena veio a óbito também neste sábado (7).

Tais crimes, contanto ainda com atentados, ameaças, tortura e agressões ocorridas por todo país contra essas populações, têm acontecido na esteira de discursos racistas e ações ditadas pelo governo federal contra os direitos indígenas. O presidente Jair Bolsonaro tem dito e repetido, em vários espaços de repercussão nacional e internacional, que nenhum milímetro de terra indígena será demarcado em seu governo, que os povos indígenas teriam muita terra e que atrapalham o ”progresso” no Brasil.

Bolsonaro repetiu este discurso na abertura dos trabalhos das Nações Unidas em setembro deste ano, quando várias terras indígenas ardiam em fogo, principalmente na região Amazônica. Também no mês de setembro o ministro das Minas e Energia disse que estava preparando um Projeto de Lei para ser enviado ao Congresso com o objetivo de regulamentar a exploração de minérios e outras atividades da agropecuária nos territórios indígenas.

Protesto-Guajajara-DivulgaçãoApós o ataque, em protesto, indígenas Guajajara fecharam a BR-226. Crédito da foto: Divulgação

Os direitos dos povos indígenas têm sido negociados e entregues à bancada ruralista, que já tem o controle das ações da Funai em Brasília e nas regiões. Nestes últimos dias, o atual presidente da Funai, Marcelo Xavier, determinou que todos os servidores sejam obrigados a solicitar sua autorização para prestar assistência às comunidades indígenas, além de proibir o deslocamento de servidores a terras indígenas não homologadas e registradas.

Seguindo com o projeto de isolar as aldeias das políticas públicas estatais e de desvirtuar a Funai da missão de proteger e promover os direitos dos povos indígenas, Xavier manifestou desinteresse do órgão indigenista em ações judiciais que discutem demarcações de terras indígenas e substituiu antropólogos de larga experiência técnica em Grupos de Trabalho criados para proceder estudos de identificação e delimitação de terras indígenas por ‘pessoas de confiança’, sem competência para o trabalho.

O Ministério da Justiça, ao qual a Funai é subordinada, está omisso e o ministro Sérgio Moro se nega a receber os representantes indígenas que têm solicitado audiências para resolver pendências territoriais.

A ação propositada do governo federal de instrumentalização da política indigenista, em favor dos interesses econômicos dos ruralistas, mineradores e madeireiros, é grave e irresponsável, atenta contra a Constituição Federal e contra todos os acordos e convenções internacionais de proteção dos povos originários, dos direitos humanos e do meio ambiente.

O atentado contra lideranças indígenas Guajajara, neste sábado, é de responsabilidade das autoridades do governo federal, que têm negado os direitos indígenas, incitado o preconceito e o ódio na população e acobertado a invasão dos territórios e a violência física contra os povos.

Vimos, portanto, conclamar às autoridades a se submeterem à Constituição Federal de 1988, que concebe os povos indígenas como cidadãos brasileiros com seus direitos garantidos. Exigimos imediata e isenta apuração dessa onda de crimes contra os povos, que os criminosos sejam identificados e penalizados nos termos da legislação brasileira.  Que as autoridades não deixem mais esse crime contra as lideranças indígenas ficar na impunidade como sempre tem acontecido.

O Cimi se solidariza com os familiares das lideranças assassinadas e feridas, com os povos Guajajara e Tuiuca e com todos os povos indígenas do Brasil nesse momento de profunda dor e indignação.

Brasília, 7 de dezembro de 2019

Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

 

New York Times faz matéria devastadora sobre avanço do desmatamento na Amazônia sob Bolsonaro

O vídeo abaixo abre uma extensa e devastadora reportagem publicada hoje pelo jornal estadunidense “The New York Times” com a assinatura do jornalista Matt Sandy e imagens do fotógrafo Victor Moriyama. O título da matéria é ” The Amazon is completely lawless: the rainforest after Bolsonaro´s first year” (ou em bom português “A Amazônia está completamente sem lei: a floresta tropical depois do primeiro ano de Bolsonaro”,  deixa bem explícita sobre a relação estabelecida pelos editores do maior jornal do mundo entre o caos ambiental instalado na Amazônia e o desmantelamento das estruturas de comando e controle e de governança ambiental que existiam na Amazônia antes de assunção do governo Bolsonaro.

Erro
Este vídeo não existe

Obviamente uma matéria tão rica em dados científicos e imagens sobre o explosivo avanço do desmatamento nos biomas amazônicas não poderia ter vindo em momento pior para o Brasil, pois certamente o conteúdo da reportagem está sendo cuidadosamente estudada pelos representantes de governos de todo o mundo que estão participando da COP25 em Madrid.

Além disso, a estratégia bolada pelo ministro do Meio Ambiente (ou seria anti-ministro), Ricardo Salles, para pressionar os governos dos países ricos a entregarem dinheiro para supostamente preservar a Amazônia que tinha pouca chance de prosperar, agora (desculpem-me o trocadilho) virou cinzas.  É que diante de dados tão detalhados que a reportagem assinada Matt Sandy oferece, o mau humor que já existia certamente vai ficar ainda mais azedo.

Entre outras coisas, a reportagem lembra que Jair Bolsonaro “prometeu abrir a floresta tropical para a indústria e reduzir suas proteções, e que seu governo cumpriu o prometido “cortando fundos e pessoal para enfraquecer a aplicação das leis ambientais“, e que “na ausência de agentes federais, ondas de madeireiros, fazendeiros e garimpeiros entraram nas florestas amazônicas, encorajados por um presidente ansioso em atender as demandas globais (por commodities)“.

Um fato que foi incluído na reportagem e que deverá aumentar ainda mais os constrangimentos impostos a Ricardo Salles e a outros membros da delegação brasileira que está participando da COP25 foi a lembrança que ainda na semana passada, o  Jair Bolsonaro  acusou sem provas  o ator Leonardo DiCaprio de  “financiar incêndios na Amazônia” e que, durante meses,  o presidente brasileiro “desconsiderou as preocupações dos povos indígenas sobre o aumento de invasões de terras protegidas por madeireiros e mineiros, assim como grupos indígenas pediram ao governo proteção contra crescente violência“.

O vídeo abaixo contém um conjunto de imagens que foram utilizadas para ilustrar a reportagem de Matt Sandy. A visão dessas imagens tampouco vai aliviar a situação do Brasil não apenas durante a realização da COP25, mas dos diferentes encontros multilaterais que ainda vão acontecer em 2020, onde a ausência de leis na Amazônia brasileira será utilizada para constranger e isolar o nosso país, em um momento bastante delicado da economia global. 

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Financial Times questiona “pibinho” e aponta que cenário de erros e equívocos criou tempestade perfeita na economia brasileira

bolso guedesPara o Financial Times, medidas restritivas de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes podem ter causado tempestade perfeita  na economia brasileira, a qual pode se agravar em 2020

A mídia corporativa mal teve tempo de celebrar o suposto “pibinho” de 0,6% do terceiro trimestre de 2019 e o jornal Financial Times, o mais importante no trato dos assuntos financeiros globais, soltou um artigo devastador sobre a situação financeira do Brasil sob a batuta de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

Assinado pelo jornalista Jonathan Weathley, o artigo intitulado “Brazilian economic data glitch stirs concerns among analysts” (ou em bom português “Falha nos dados econômicos brasileiros desperta preocupações entre analistas”) aponta para uma série de erros que teriam sido cometidos pelo governo brasileiro na área de calcular o desempenho econômico brasileiro, o que, por sua vez, pode ter resultado em perdas e ganhos econômicos indevidos.

A coisa fica ainda pior para Paulo Guedes, pois Weathley afirma que “O Ministério da Economia do Brasil revisou seus números de exportação pela segunda vez em menos de uma semana, colocando dúvidas sobre os principais lançamentos de dados e deixando os analistas se perguntando se ainda devem confiar na confiabilidade das estatísticas brasileiras”.

Citado no artigo , um analista da Goldman Sachs, Alberto Ramos, afirmou em relação ao cálculo do pinho do terceiro trimestre que “Este é um grande erro“. “Acho que não há jogo sujo, apenas incompetência ou negligência no momento em que os mercados estão ficando preocupados com a erosão do comércio“.  O fato é que erro e incompetência são coisas que o mercado tende a punir mais do que má fé, na maioria das vezes.

Outro analista enttrevistado, Gustavo Rangel,  economista chefe para a América Latina da ING Financial Markets em New York, pontuou um cenário bastante sombrio para a economia brasileira em 2020,  pontuando que “existe até o risco de uma paralisação do governo (brasileiro) no próximo ano, se eles não puderem cortar outros gastos”.  Para Rangel, Paulo Guedes estaria sendo vítima de seus próprios cortes, pois adotou medidas para evitar a contratação de servidores e ainda assistiu a uma corrida às aposentadorias.

A questão aqui é em qualquer outro governo, o ministro Paulo Guedes já estaria recebendo um cartão vermelho em face da situação desastrosa em que colocou a economia brasileira em menos de um ano de governo. O problema é que Guedes é o “Posto Ipiranga” de Jair Bolsonaro e, de fato, seu maior avalista nas relações com o mercado financeiro. Não é difícil prever que a crise aumentará exponencialmente caso Guedes seja sacado do superministério que foi criado especialmente para ele impor sua visão ultraneoliberal de gestão econômica.

Enquanto isso o preço estratosférico da carne bovina já começa a arrastar consigo os dos frangos e porcos. Essa é uma péssima notícia para Jair Bolsonaro, pois o brasileiro tolera muito coisa, menos não poder realizar o churrasco de final de ano. E faltam apenas 27 dias para o ano acabar.

Brasil: sem liderança e nem protagonismo na COP25

Estreia de governo Bolsonaro na Conferência do Clima, em Madrid, será marcada por cobrança sobre o desmatamento e pressão para incrementar as ambições

SPAIN-CLIMATE-ENVIRONMENT-COP25Começa hoje em Madrid a COP25, que seria no Chile, depois da desistência do Brasil. Foto de Gabriel Bouys/ AFP

Por Liana Melo para o Projeto Colabora

Onze meses foram suficientes para o Brasil perder seu protagonismo nas discussões climáticas. É na condição de coadjuvante, e não mais como uma liderança globalmente reconhecida, e respeitada, que o governo Bolsonaro fará sua estreia na Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, a COP25, que começa hoje em Madri. Não será novidade para as delegações do mundo inteiro que vão transitar pelo FIEMA Feria de Madrid, um dos oito maiores centros de convenção da Europa, até o próximo dia 13, o desprezo do presidente pela agenda ambiental – ele anunciou que não tinha interesse em ser anfitrião do encontro, antes mesmo de tomar posse. Em menos de um ano, o governo jogou no lixo um trabalho de décadas, que transformou o meio ambiente na melhor tradução do estilo soft power da diplomacia brasileira.

Sob o lema “Tempo de agir”, o secretário-geral da ONU, António Guterrez, tem dito que quer uma conferência com “ambição, ambição, ambição”. Não é para menos. Às vésperas da COP25 — penúltima antes do início da implementação das metas do Acordo de Paris –, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançou, em Genebra, seu último relatório: Emissions Gap. Para atingir a meta do Acordo de Paris e manter a temperatura da planeta em 1,5°C será necessário triplicar o corte de emissões de gases de efeito estufa (GEE), pulando de uma redução de 2,7% ao ano para 7,6% anualmente. O Brasil chegou a ameaçar sair  do Acordo de Paris, mas não cumpriu a promessa. Já os Estados Unidos saíram do tratado internacional no início de novembro.

“Do Acordo de Paris, só restou mesmo a assinatura do Brasil”, chama a atenção Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. Desde que assumiu, o governo Bolsonaro vem tripudiando sobre o meio ambiente. “O atual governo acabou com a governança do clima”, complementa, acrescentando que o Comitê Interministerial de Mudança Climática foi extinto – o órgão havia sido criado em 2007 e era subordinado à Casa Civil.

A representante do Brasil na parte de mitigação do setor de transporte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), Suzana Kahn, está convencida de que, nesta COP, “teremos que ficar nos explicando sem parar, diante do que vem acontecendo, especialmente sobre os dados de desmatamento”. A imagem do Brasil está bastante arranhada e cresce um certo ceticismo quanto ao compromisso do governo com regras pré-estabelecidas: “Com esse discurso negacionista do aquecimento global, estamos virando palha”, conclui Suzana.

Os apelos da ONU não têm surtido efeito no país. “Não existe nenhuma estratégia em curso para implementar a INDC brasileira”, diz Rittl. A INDC, que na tradução para o português significa “Contribuições Pretendidas, Determinadas em Nível Nacional”, seriam justamente as tais metas mais ambiciosas de que tanto se fala na comunidade internacional.

Gado-4Imagem aérea de uma queimada no Mato Grosso, dentro de um território indígena. Foto Marizilda Cruppe/Anistia Internacional

A Comunidade Europeia saiu na frente – ainda que apenas simbolicamente. Recém eleita, a nova Comissão Europeia vem pressionando o parlamento europeu para declarar “emergência climática” na União Europeia – o termo entrou para o Dicionário Oxford, um dos principais de língua inglesa no mundo, como a sua palavra do ano de 2019. Divergências internas à parte, a pressão é aumentar as ambições para reduzir os gases de efeito estufa (GEE) de 40% para, pelo menos, 50%.

Mesmo sabendo que a COP25 tem uma agenda pré-estabelecida, o chefe da delação brasileira, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já avisou que vai à Madrid pedir dinheiro para combater o desmatamento. A agenda é clara: fechar o Livro de Regras do Acordo de Paris, a bíblia do tratado internacional assinado em 2015 e que não foi concluído em 2018 na COP24, em Katowice, Polônia, e definir o artigo 6 que trata dos mecanismos do mercado de carbono. “Esperamos que a racionalidade prevaleça e o governo brasileiro avance nas negociações para fechar as agenda da COP25”, torce Bruno Toledo, do Instituto ClimaInfo.

Justificando que o Brasil é um modelo em conservação ambiental, Salles vai cobrar pelo menos US$ 10 bilhões dos US$ 100 bilhões ao ano prometidos por países desenvolvidos a nações em desenvolvimento pelo Acordo de Paris. O pleito vem depois de o país ter esnobado o Fundo Amazônia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) registrar um desmatamento recorde, com crescimento de 29,5% em 12 meses. Foram destruídos 9.762 quilômetros quadrados de floresta – duas vezes e meia a mais do que se comprometeu, em 2010, quando o Congresso Nacional aprovou uma lei que limita o desmatamento do país, em 2020, a uma área de 3.900 quilômetros quadrados.

Mesmo que venha a usar de frases de efeito e tente aparar as críticas à política ambiental do governo Bolsonaro, a expectativa é de que Salles exponha o Brasil a constrangimentos na COP25. Na Cúpula do Clima, que antecedeu a Assembleia Geral da ONU, em setembro, em Nova Iorque, por exemplo, o Brasil sequer pode discursar. Só subiram ao palco os países que haviam, de antemão, apresentado planos para aumentar as metas climáticas – além do Brasil, ficaram de fora os Estados Unidos, Austrália e Japão.

O desmatamento não passará despercebida pelos 25 mil delegados internacionais na Feria de Madrid, assim como outras novidades que vão marcar a estreia do governo Bolsonaro na Cop25. Será a primeira vez que o Brasil não terá um estande oficial, onde, costumeiramente,  apresenta os projetos e programas de combate às mudanças climáticas. Oficialmente, a justificativa foi a falta de tempo hábil para montar o estande, depois que a conferência foi transferida do Chile para Madrid – dado o histórico do governo na área ambiental, a explicação não tem convencido. Sem estante oficial, fica no ar a pergunta: onde Salles e sua equipe de negociadores ficarão e onde receberão representantes de outros governos para conversar? Restará a alternativa, por exemplo, de outros países, talvez a Espanha, anfitriã do encontro, fazerem a gentileza de oferecer um sala para o governo brasileiro.

Será no Brazil Climate Action Hub, organizado pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS) e o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que a sociedade vai promover encontros e debates com organizações não-governamentais (ONGs), academia, governos estaduais e prefeituras, e até representantes do setor privado e financeiro.

Outra novidade adotada pelo governo Bolsonaro foi tirar  do alto escalão do Itamaraty a agenda climática – o que mostra total coerência com a decisão de convocar um negacionista climático para o cargo de chanceler, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O chefe da delegação brasileira na COP25,  Leonardo Cleaver de Athayde, é o primeiro-secretário. A estratégia de esvaziar o tema chegou, inclusive, à distribuição de credenciais. Se, no passado, a delegação brasileira já chegou a ser uma das mais expressivas na história das COPs, chegando a estar representada por 800 pessoas, entre representantes do governo e da sociedade civil; este ano, pela primeira vez em mais de 12 anos, a chancelaria brasileira não deu credenciais a ONGs, academia e setor privado.

Salles e a equipe de negociadores terão que se esforçar muito para voltar ao Brasil com alguma verba anti-desmate. Simplesmente porque o tema não está na pauta da COP25. Um ponto-chave da conferência é a discussão sobre os mercados de carbono e as suas regulações. Ou seja, como transformar emissões de carbono em créditos que possam ser comprados e vendidos – um sistema que só vai funcionar se todos os países concordarem em manter suas emissões de carbono abaixo de determinados preços. Chegar a este cálculo é uma tarefa hercúlea. As viagens de avião, por exemplo, estão entre os vilões da emissão de gás carbônico. Conhecido no  jargão da ONU como Artigo 6, esse é um assunto que vem desafiando muitos negociadores, de diferentes países. Sem falar no fato de ser uma discussão que vem se prolongando há vários anos, mas que precisa ser colocado um ponto final em Madrid.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].

O Brasil já perdeu investidores por causa da Amazônia. Vai perder ainda mais

Brazil's President Jair Bolsonaro, Environment Minister Ricardo Salles and Vice President Hamilton Mourao attend a swearing-in ceremony for the country's new army commander in BrasiliaO êxito de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles no retrocesso ambiental na Amazônia já custa caro ao Brasil. Vai custar ainda mais em 2020

O comentarista da GloboNews João Borges publicou uma nota em seu blog no portal G1 dizendo que o Brasil  “já paga o preço pelas queimadas na Amazônia e, de forma geral, pela política ambiental do governo Bolsonaro“. Borges acrescentou ainda que “gestores de grandes fundos de investimentos europeus informaram a autoridades brasileiras que seus cotistas não querem mais ter dinheiro aplicado aqui. Alguns não vão mais aplicar. Outros sinalizam que podem retirar o que já investiram“.

Imagem relacionadaJair Bolsonaro se gabou pelo aumento das queimadas na Amazônia. Investidores estrangeiros não acharam graça

Pois bem, eu particularmente acho que João Borges foi até comedido na forma com que divulgou a informação de que o Brasil, sob Jair Bolsonaro e seus ministros terraplanistas e céticos das mudanças ambientais, já é visto e tratado como uma pária ambiental até pelos grandes operadores do mercado financeiro global.

Esse é o preço do retrocesso na governança ambiental e no desmanche dos mecanismos de comando e controle que existiam para diminuir a sanha destruidora  de diferentes pilhadores dos ecossistemas amazônicos, cuja proteção interessa a todos os que se preocupam com as mudanças climáticas que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é um negacionista contumaz.

O problema é que fora do Brasil há pouca ou nenhuma paciência com a visão de “economia de fronteira” que Jair Bolsonaro almeja impor na Amazônia para atender interesses muitas vezes paroquiais de seus apoiadores “raiz” que estão na cabeça de ponte da pilhagem, a começar por garimpeiros e madeireiros ilegais que estão hoje causando uma ampla devastação em áreas proteção ambiental e terras indígenas.

Como já tenho escrito aqui, em que pesem a natureza intrínseca do Capitalismo de buscar incessantemente novas fronteiras de extração de recursos, as forças mais modernas do sistema querem que a apropriação se dê dentro de marcos que favoreçam os altos investimentos feitos em tecnologia extrativa, em vez de se favorecer aquelas formas mais antiquadas e ultrapassadas como as que parece favorecer Jair Bolsonaro.

Como as previsões para as taxas de desmatamento e números de queimadas são de alta para 2020 em função da inércia do governo Bolsonaro para brecar os piores elementos de sua pauta antiambiental, o mais provável é que tenhamos mais fuga de investidores, o que aumentará as dificuldades cambiais do Brasil. Com isso, teremos ainda um provável aumento na carestia dentro país, o que, por sua vez, aumentará a débâcle econômica do Brasil, que já não é pequena, diga-se de passagem.

Um elemento adicional neste cenário é que cedo ou tarde vão aparecer os números mais completos da degradação florestal na Amazônia, o que aumentará o grau de alarme em torno do destino do maior estoque de florestas tropicais do planeta. Com isso, as pressões sobre o presidente Jair Bolsonaro deverão aumentar ainda mais e, com isso, a crise política que a visão terraplanista de governar que ele representa.

Nota de associação ligada ao grande capital joga navio do governo Bolsonaro nas pedras

Gife736x341Congresso do GIFE em 2016

Uma nota emitida pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE), cuja existência eu desconhecia até o momento em que recebi o documento, é o maior sinal de que as coisas não andam bem para o presidente Jair Bolsonaro e sua equipe de ministros terraplanistas e céticos das mudanças climáticas. 

O GIFE se apresenta em sua página oficial como uma “associação dos investidores sociais do Brasil, sejam eles institutos, fundações ou empresa”, que teria “nascido como grupo informal em 1989, o GIFE – Grupo de Institutos Fundações e Empresas, foi instituído como organização sem fins lucrativos, em 1995“, e que “desde então, tornou-se referência no país no tema do investimento social privado“.

Mas basta olhar para alguns membros da lista de 141 associados e principais apoiadores para saber que no GIFE se reúnem os principais peso pesados da economia brasileira, a começar pela Fundação Lemann, pelo Instituto Unibanco e pelo Instituto C&A, incluindo ainda a Fundação Ford e a TV Globo, apenas para citar alguns dos mais notáveis (veja vídeo institucional abaixo).

A nota em questão é intitulada2019, Cidadania e Estado de Direitoque está centrada no que o GIFE considera “a ação voluntarista e nebulosa da Polícia Civil do Pará deflagrada  contra o Projeto Saúde e Alegria e outras organizações dedicadas à preservação ambiental e à provisão de serviços para a população do estado” é certamente o documento político mais significativo que já foi elaborado contra as práticas governamentais instaladas a partir da instalação de Jair Bolsonaro na cadeira de presidente.

A nota não é apenas particularmente sensível para o governo Bolsonaro e seus aliados que estão sentados na cadeira de governador quando afirma uma plena solidariedade “com o Projeto Saúde e Alegria e todos os demais agentes de cidadania vitimados por essa postura (antidemocrática) hoje no país”.   O problema para Jair Bolsonaro é que a nota também faz um convite generalizado para que haja o “empenho necessário para que possamos como sociedade defender nosso acúmulo democrático e construir de forma inclusiva e efetiva a partir dele, no rumo do país mais justo, dinâmico, sustentável e exitoso que precisamos e podemos ser“.

Indo para além da linguagem polida que caracteriza a nota, não é preciso dizer que o leite parece ter azedado nas relações entre o grande capital e o governo Bolsonaro, indo muito além do caso do Projeto Saúde e Alegria.  E é só olhar para os atuais indicadores econômicos e a incapacidade do todo poderoso ministro da Fazenda, Paulo Guedes, de oferecer saídas palpáveis para a recessão instalada no Brasil para enxergar parte da impaciência explicitada na nota do GIFE. 

As consequências desse desembarque do grande capital da rede de suporte político do governo Bolsonaro deverão ficar mais claras ao longo dos próximos meses, pois a pressão política por resultados palpáveis na economia só deverá aumentar, bem como a impaciência com gestos e ações que só isolem o Brasil de alguns de seus principais parceiros.

Nessa situação toda, o lamentável é que a reação mais palpável ao ataque a “professores, jornalistas, artistas, cientistas e outras vozes plurais” que está sendo realizado pelo governo Bolsonaro não esteja vindo dos partidos e movimentos sociais que se dizem de esquerda, mas de uma associação política financiada pelo grande capital.  Isto, mais do que qualquer outra coisa, é um sinal de que algo precisa mudar na forma com que o governo Bolsonaro vem sendo tratado pela esquerda. É que até o grande capital já parece ter entendido o desastre que este governo está sendo. E, pior, o grande capital está agindo para deixar isto claro, enquanto a esquerda permanece aparvalhada e centrada nas eleições de 2020.