Observatório dos Agrotóxicos: com mais 32 agrotóxicos, governo Bolsonaro fez de 2020 um ano recorde de aprovações

Nem a pandemia da COVID-19 serviu para brecar o ímpeto pró-venenos agrícolas, e o total liberado em 2020 chegou a 530 agrotóxicos. Em dois anos, a liberação foi de 1033 agrotóxicos, 34% de todos os produtos em circulação no Brasil

tereza cristinaSob a batuta da ministra Tereza Cristina (DEM/Ms), governo Bolsonaro liberou quantidade recorde de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo

Ainda que estejamos em meados de janeiro de 2021, o governo Bolsonaro continuou com sua enxurrada de agrotóxicos aprovados em 2020. É que em no dia 14 o Diário Oficial da União trouxe a publicação do Ato No. 71 de 28 de Dezembro onde foram liberados mais 32 agrotóxicos, todos produtos técnicos, o que totaliza para 2020 o valor de 530 agrotóxicos liberados, elevando para 1033 agrotóxicos liberados em dois anos de governo Bolsonaro.

Essa verdadeira tsunami de aprovações acontece em meio à mudanças feitas pelo governo Bolsonaro não apenas para agilizar o processo de aprovação, mas também para relaxar os critérios de definição de risco para a saúde humana, o que se reflete em uma curiosa contradição entre as definições de toxicidade ambiental e sobre a saúde humana, visto que os produtos via de regra tiveram seu risco humano baixado, sendo o de ambiental normalmente mais elevado.

A geopolítica da vacina e dos agrotóxicos

china brasil

Um detalhe que saltas aos olhos quando se analisa a origem dos agrotóxicos aprovados é que China e Índia, justamente os países que estão no cerne das dificuldades para o Brasil produzir vacinas contra a COVID-19, são os principais fornecedores de agrotóxicos com que o latifúndio agroexportador está se refastelando em seu esforço de auferir cada vez mais lucros com a exportação de commodities agrícolas.

O caso dos agrotóxicos produzidos por empresas chinesas em território chinês é o mais gritante, visto que eles representam 61% de todos os agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro. Já as empresas da Índia participam com 8%, à frente de países tradicionalmente no mercado internacional de agrotóxicos como EUA (6%), Japão (3%) e Alemanha (2%) (ver gráfico abaixo).

agrotoxicos total 2019-2020

Essa mudança de origem dos produtos sendo aprovados pelo governo Bolsonaro reflete um movimento mais geral da indústria de produção de venenos agrícolas, e que curiosamente aparece no Brasil (que participa do “bolo” com 13% dos produtos aprovados) que é a mudança em curso para o combate biológico das ditas pragas agrícolas.

Mas no frigir dos ovos, o que fica claro é que se o governo Bolsonaro fez todo um teatro para frear a aprovação e uso da Coronavac, produzida pela empresa chinesa Sinovac, o tratamento dispensado às empresas chinesas produtoras de agrotóxicos é de um verdadeiro “mar de almirante”.

Por outro lado, o fato que China e Índia continuam vendendo agrotóxicos para o Brasil sem se importarem com as desfeitas do presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Assim, a alegada “vendetta” que a mídia corporativa vem divulgando em relação ao envio de vacinas e dos insumos básicos para sua produção em solo brasileiro, se real, deve ter outros motivos.

Em vez da modernização prometida, agrotóxicos banidos por serem perigosos demais

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Um dos pontos basilares da política de aprovação de agrotóxicos do governo Bolsonaro seria o abandono de produtos teoricamente ultrapassados por outros mais modernos. Mas um rápido exame dos 1033 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro mostra que em média 30% estão banidos na União Europeia por causarem danos ao meio ambiente e a saúde humana.  Dentre os produtos aprovados e banidos pela UE (UE) podem ser citados a Acefato, a Ametrina, a Atrazina, o Fipronil, o Glufosinato e o Tiametoxam, entre tantos outros.

O fato é que esse uso amplo, e que deve se estar se ampliando em face das aprovações, está gerando um desastre sanitário de grandes proporções no Brasil, e que não está sendo identificado em função do desastre corrente que é o da pandemia da COVID-19.

Não há como negar que ao autorizar a ampliação do uso de agrotóxicos com reconhecida capacidade de causar graves danos à saúde humana, e apenas para apoiar o latifúndio agroexportador, o governo Bolsonaro está gerando um legado de envenenamento com o qual o Brasil terá dificuldades de se confrontar em um futuro não muito distante.

A coisa é tão descabido é que segundo “Robotox“, projeto conjunto da Agência Pública e da ONG Repórter Brasil, o mercado brasileiro possui atualmente com 3064 agrotóxicos em circulação, o que torna o governo Bolsonaro responsável por cerca de 34% dos agrotóxicos liberados pelo uso no Brasil, e isto em apenas dois anos de governo.

Acesso às bases de dados do “Observatório dos Agrotóxicos”

Um primeiro elemento das planilhas que o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski vem divulgando é que todos os dados foram adquiridos a partir da extração manual das informações contidas em cada ato oficial de liberação.  Com isso, pode ser que outras fontes mostrem valores ligeiramente diferentes para o governo Bolsonaro, mas considero que os valores aqui apresentados estão corretos.

Ao longo de 2021, o “Observatório dos Agrotóxicos” continuará fornecendo informações sobre novos atos e apresentando as planilhas respectivas.  Como no caso do Ato No. 71, os interessados em verificar as informações dos agrotóxicos aprovados, basta clicar [Aqui!]. Já os interessados em verificar todos os 1.033 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro em 2019-2020, basta clicar [Aqui!].

Enquanto o Brasil vira anão diplomático, as placas tectônicas da geopolítica global se movem para longe do dólar

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Líderes da Índia, Rússia e China tomam medidas para “desdolarizar” suas economias que alteram balanço geopolítico global.

Enquanto o Brasil sob o Jair Bolsonaro  se move cada vez mais para se comportar como um satélite dos EUA, a Rússia, a Índia e a China estão realizando vários movimentos que deverão colocar Donald Trump sob maior pressão (como se ele precisasse disse a estas alturas do campeonato).

O principal instrumento dessa pressão é a “desdolarização” das economias destes 3 gigantes da economia global, principalmente a Rússia que vendeu cerca de 101 bilhões de dólares de suas reservas cambiais para comprar Yuans (moeda chinesa) e Euros, conforme reportagem assinada pelas jornalistas Natasha Doff e Anna Andrianova para a Bloomberg [1].

desdolarização

Esse movimento russo está sendo acompanhado pela China e pela Índia, o que deverá gerar abundância de dólares no mercado, o que implicará em mais perdas para a economia estadunidense que, convenhamos, já não vem bem lá das pernas.

Para adicionar ainda mais pressão sobre os EUA, há o surgimento de processos de compras de commodities por canais pouco tradicionais que incluem a troca direta de produtos que dispensam o uso de moedas (ou seja uma volta ao  método do escambo que vigorou nos primórdios da colonização portuguesa do Brasil), a começar pelo petróleo que envolvem triangulações entre os membros do RICS (agora que Bolsonaro e seu ministro de Relações Exteriores cético das mudanças climáticas decidiram alinharo Brasil aos interesses dos EUA).

Essas mudanças na forma com que se dão as relações comerciais associadas à “desdolarização” da economia podem indicar que o caminho sendo tomado pelo Brasil é do tipo que se chama de “loose-loose”.  É que com esses novos alinhamentos na geopolítica mundial, escolher ser satélite dos EUA não parece ser a opção mais inteligente.

Índia foca nas universidades para reprimir as revistas predatórias

Mas acadêmicos dizem que os incentivos do governo para publicar são parte do problema.

ministro indianoPrakash Javadekar,  ministro responsável pelo Ensino Superior, diz que as universidades devem ajudar o governo a impedir a publicação predatória. Crédito: Vipin Kumar / Hindustan Times / Getty

Por Subhra Pryiadarshini para a revista “Nature” [1]

A maioria dos acadêmicos considera as revistas predatórias como irritantes – se não uma ameaça – à ciência. Mas na Índia, algumas universidades recomendaram a inclusão de tais publicações na “lista branca” de periódicos aprovados no país. Agora o governo está reprimindo esta prática, que os cientistas dizem que surgiu como resultado de incentivos perversos do próprio governo.

“Vamos acabar com essa ameaça dos periódicos predatórios”, disse Prakash Javadekar, ministro responsável pelo Ensino Superior, no mês passado. As universidades agora têm até o final de agosto para revisar suas recomendações para a lista branca de revistas para evitar publicações predatórias, que ativamente solicitam manuscritos e cobram taxas pesadas dos autores sem fornecer os serviços que anunciam, como edição e revisão por pares.

Revistas predatórias são um problema porque o financiamento da pesquisa é desperdiçado em editores enganosos que não cumprem o que prometeram. Uma grande investigação jornalística internacional, publicada em vários meios de comunicação no mês passado, estimou que o número de artigos publicados por cinco grandes editores predatórios triplicou desde 2013 – passando para cerca de 175.000 artigos.

Link de desempenho

Muitas editoras que hospedam revistas predatórias suspeitas estão baseadas na Índia. E vários estudos descobriram que uma alta proporção de artigos em tais periódicos vem de acadêmicos que atuam no país.

Muitos acadêmicos indianos atribuem essa situação ao sistema nacional de avaliação do desempenho acadêmico. Em 2010, a agência reguladora e de financiamento do ensino superior da Índia, a University Grants Commission (UGC), introduziu um sistema para avaliar os acadêmicos chamado Indicador de Desempenho Acadêmico, que coloca um peso considerável no número de publicações de pesquisa. As universidades devem usar o indicador para contratar e promover membros do corpo docente. Mas cientistas reclamaram que isso encoraja acadêmicos e universidades a se concentrarem na quantidade de publicações, e não em sua qualidade.

Para reduzir a prática de publicação em periódicos abaixo do padrão, o UGC divulgou em janeiro de 2017 uma lista branca de periódicos aprovados. A lista continha aproximadamente 32.000 publicações indexadas em bancos de dados de citações científicas, como Web of Science e  Scopus, além de mais de 5.000 publicações recomendadas pelas universidades. Mas os pesquisadores rapidamente apontaram que esta lista também incluía revistas predatórias.

Virander Singh Chauhan, que preside o comitê de CGU que avalia e credencia instituições de ensino superior e que supervisionou a lista, diz que as revistas predatórias foram recomendadas por algumas universidades, e que a UGC só tinha conhecimento disso depois. A menos que as universidades parem de fazer isso, “nada pode se livrar de revistas fajutas na Índia”, diz Chauhan. Atualmente, diz ele, as universidades podem simplesmente recomendar revistas e fazer um esforço mínimo para verificar a qualidade de uma publicação.

Maior consciência

Em maio, o UGC removeu 4.305 periódicos da lista por motivos de má qualidade, ou porque foram fornecidas informações incorretas ou insuficientes sobre os periódicos removidos . (O grupo atualizará a lista com as recomendações revisadas das universidades.) Chauhan diz que a introdução de critérios mais rígidos para o registro de periódicos na lista do UGC reduzirá o número de publicações predatórias.

O astrofísico Ajit Kembhavi diz que o plano do governo de reprimir periódicos propostos pela universidade é um bom primeiro passo, mas que o maior problema é como as universidades são avaliadas e financiadas.

Uma solução mais permanente seria dissociar as avaliações acadêmicas do número de publicações de um pesquisador, diz Kembhavi, do Centro Interuniversitário de Astronomia e Astrofísica de Pune, um dos sete consórcios universitários criados pelo UGC para permitir que as universidades compartilhem infraestrutura e serviços. Recursos.

Kembhavi diz que mais precisa ser feito para promover uma maior conscientização dos periódicos predatórios entre os acadêmicos da Índia e para educá-los sobre ética em pesquisa.

Na China, onde algumas universidades recompensam os acadêmicos com base no número de publicações, o governo está trabalhando em uma lista negra de revistas que considera de baixa qualidade ou criadas apenas para fins lucrativos. As pesquisas publicadas nessas revistas não contarão para pedidos de promoção ou concessão, e os autores também receberão uma advertência.

Bhushan Patwardhan, biólogo da Universidade Savitribai Phule Pune e crítico ferrenho de práticas de publicação duvidosa, diz que o governo indiano também deve mostrar tolerância zero em relação aos acadêmicos que publicam nesses periódicos. Atualmente, não há repercussões para acadêmicos que fazem isso. Ele diz que o governo deve introduzir regras semelhantes às introduzidas para detectar e punir o plágio nas universidades, que entraram em vigor em julho. “Se os membros do corpo docente estão autorizados a saírem ilesos de tais práticas, o que os impediria de fazer isso de novo?”, diz Patwardhan.

[1] Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela revista “Nature” [Aqui!]

Índia remove 4.305 revistas científicas de baixa qualidade da lista de publicações aceitas para avaliar desempenho acadêmico

Lucas Vallecillos/Alamy Stock Photo

A agência de consultoria de ensino superior na Índia está removendo revistas consideradas de baixa qualidade do seu registro de revistas aprovadas, mas acadêmicos dizem que a lista deve ser abolida.

Por Smriti Mallapaty*

A University Grants Commission (UGC), que financia e supervisiona o ensino superior na Índia, removeu 4.305 revistas espúrias de uma lista de cerca de 30.000 publicações usadas para avaliar o desempenho acadêmico no país. O Comitê Permanente de Notificação de Periódicos da UGC avaliou o subconjunto de periódicos originalmente enviados para inclusão pelas universidades ou listados no Indian Citation Index, e os considerou de baixa qualidade ou para conter informações incorretas ou insuficientes.

O Comitê avaliou as revistas em resposta à reclamações sobre credibilidade. Em março, pesquisadores na Índia e no Canadá publicaram um artigo na Current Science, que descobriu que a grande maioria do subconjunto recomendado pela universidade era de baixa qualidade [1]. As instituições acadêmicas devem consultar a lista ao indicar o corpo docente, avaliar o desempenho do pessoal e conceder o doutorado.

O UGC anunciou as mudanças em seu site esta semana e está revisando mais 191 periódicos no Indian Citation Index. “Este é um processo dinâmico”, diz Virander Chauhan, presidente do comitê de UGC. “Não é uma lista congelada.”

Bhushan Patwardhan, primeiro autor do artigo da Current Science e biólogo da Universidade Savitribai Phule Pune, diz que a decisão de remover os periódicos ilusórios “é boa, embora um pouco atrasada”.

 Tolerância zero

A UGC criou a lista de periódicos aprovados em abril de 2017 como uma forma de ajudar os pesquisadores a distinguir entre periódicos legítimos e predatórios. A lista de cerca de 30.000 títulos foi selecionada a partir de vários índices de citação, como o Web of Science e o Scopus, além de recomendações de comitês de especialistas e universidades. Mas muitos acadêmicos criticaram por dar licença às próprias publicações que procuravam proteger. Em particular, eles questionaram a qualidade de um subconjunto de cerca de 5.500 periódicos apresentados por universidades. Patwardhan queria verificar quantitativamente essas alegações.

Para conduzir a análise, ele se juntou ao epidemiologista clínico David Moher, do Ottawa Hospital Research Institute. Moher já havia analisado 1.907 artigos em mais de 200 supostos periódicos predatórios nas ciências biomédicas e descobriu que a maioria dos artigos vinha da Índia (os Estados Unidos eram o segundo maior contribuinte).

Os pesquisadores avaliaram 1.009 dos periódicos submetidos à universidade, dos quais apenas 112 (11,1%) preencheram os critérios básicos para boas práticas de publicação. Um terço dos periódicos foi desclassificado por não fornecer informações essenciais (ou apresentar detalhes incorretos), tais como endereço, site e editor da revista. Os demais periódicos que não ultrapassaram o limite de qualidade fizeram declarações incorretas ou enganosas sobre sua indexação, detalhes de contato e afiliação de editores, ou processo de revisão por pares. “Nós aplicamos tolerância zero para informações falsas”, diz Patwardhan. Uma análise inédita de todo o subconjunto de periódicos recomendados por universidades corresponde a esses resultados, diz ele.

Subhash Lakhotia, coautor e zoólogo da Universidade Hindu de Banaras, diz que o CGU deveria dispensar inteiramente a lista, concentrando-se em “emitir diretrizes gerais sobre como avaliar a qualidade do trabalho de um pesquisador”.

“As universidades não podem escapar de sua responsabilidade”, diz Lakhotia. “Criamos as condições, participamos e promovemos.”

Integridade da pesquisa

Alguns culpam a crescente prevalência de periódicos duvidosos na Índia sobre regulamentações institucionais que determinam a publicação para o sucesso na carreira. Em 2010, a UGC introduziu Indicadores de Desempenho Acadêmico baseados em pontos para o recrutamento e promoção de professores e professores acadêmicos em faculdades e universidades, o que incluiu uma categoria para trabalhos de pesquisadores. Em 2013, também exigiu que os candidatos ao doutorado publicassem dois trabalhos antes de apresentar sua tese. Isso criou um “desespero” para publicar, diz Patwardhan, que é um convidado especial do comitê de CGU.

O UGC planeja eliminar a exigência de publicação obrigatória para professores universitários.

Outros argumentam que o acesso à tecnologia digital e o modelo pay-to-publish adotado por muitas publicações de acesso aberto criaram condições favoráveis para aqueles que querem ganhar dinheiro rapidamente. “Por que isso acontece? Porque tem dinheiro”, diz Chauhan.

Patwardhan planeja estabelecer um Centro Internacional de Ética na Publicação na Universidade Savitribhai Phule Pune, que manterá uma lista independente de periódicos confiáveis, além de conscientizar sobre boas práticas de publicação. “Pesquisadores publicam hoje em revistas duvidosas por desespero”, diz ele. “Precisamos construir integridade acadêmica em nossa comunidade.”

“A trajetória desse problema é acentuada”, diz Moher no Canadá. “Não vai desaparecer a menos que alguma ação seja tomada.”

“A trajetória desse problema é acentuada”, diz Moher no Canadá. “Não vai desaparecer a menos que alguma ação seja tomada.”

*Smriti Mallapaty é Senior Editor da Nature Index da Nature Publishing Group. Artigo originalmente publicado em inglês pela Nature.index [2]


[1] https://www.researchgate.net/publication/323942993_A_Critical_Analysis_of_the_%27UGC-Approved_List_of_Journals%27

[2] https://www.natureindex.com/news-blog/india-culls-four-thousand-three-hundred-dubious-journals-from-approved-list

A profunda ligação entre a Monsanto e o Facebook

Da plantação até a prateleira do supermercado, tudo será determinado pelos interesses dos mesmos acionistas. Vamos conversar sobre liberdade de escolha?

Por Vandana Shiva – CommonDreams

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Enquanto a Agência Reguladora de Telecomunicações da Índia decide o futuro do programa “Free Basics”, Mark Zuckerberg está na Índia com um bilhão de rúpias, em moeda trocada, para fazer sua publicidade. O programa é um internet.org repaginado ou, em outras palavras, um sistema em que o Facebook decide qual parte da internet compõe o pacote básico para os usuários.
 
A Reliance, parceira indiana do Facebook na empreitada do Free Basics, é uma megacorporação indiana com interesses em telecomunicação, energia, alimentos, varejo, infraestrutura e, é claro, terras. A Reliance obteve territórios para suas torres rurais de celulares do governo da Índia e tomou terras de fazendeiros para Zonas Econômicas Especiais através de violência e golpes. Como resultado e quase sem custo, a Reliance obteve um grande público rural, semiurbano e suburbano, especialmente fazendeiros. Embora o Free Basics tenha sido banido (por enquanto), a Reliance continua oferecendo seu serviço através de suas redes.
 
Um ataque corporativo coletivo está em curso globalmente. Tendo já programado suas ações, veteranos de corporações americanas como Bill Gates estão se juntando à nova onda de imperialistas filantropos, que inclui Mark Zuckerberg. É incrível a semelhança nas relações públicas de Gates e Zuckerberg, perfeitamente ensaiadas, que envolvem um preparo retórico e doação de fortunas. Qualquer entidade com que os Zuckerbergs se unam para administrar os 45 bilhões de dólares investidos provavelmente vai terminar parecendo a Fundação Bill e Melinda Gates; isto é, poderosa o suficiente para influenciar negociações climáticas, apesar não serem efetivamente responsáveis por nada.

Mas o que Bill Gates e Mark Zuckerberg teriam a ganhar quando ditam os termos aos governos do mundo durante a conferência climática? “A Breakthrough Energy Coalition vai investir em ideias que podem transformar a maneira como todos nós produzimos e consumimos energia”, escreveu Zuckerberg em sua página no Facebook. Era um anúncio da Breakthrough Energy Coalition de Bill Gates, um fundo privado com uma riqueza combinada de centenas de bilhões de dólares de 28 investidores que irão influenciar a forma como o mundo produz e consome energia.
 
Ao mesmo tempo, Gates pressiona para forçar uma agricultura dependente de insumos químicos, combustíveis fósseis e transgênicos patenteados (#FossilAg) através da Aliança pela Revolução Verde na África (AGRA). Trata-se de uma tentativa de tornar fazendeiros africanos dependentes de combústiveis fósseis que deveriam ter permanecido no subsolo, além de criar uma relação de dependência com as sementes e petroquímicos da Monsanto.
 
95% do algodão na Índia pertence à Monsanto Bt Cotton. Em 2015, nas regiões de Punjab até Karnataka, 80% de sua plantação transgênica não vingou – isso significa que 76% dos produtores afiliados à Bt Cotton estavam sem algodão na época da colheita. Se tivessem opção, eles teriam trocado de variedade. Mas o que parece ser uma simples escolha entre sementes de algodão é na verdade a imposição de uma mesma semente Bt, comercializada por diferentes companhias com diferentes nomes, compradas por fazendeiros desesperados que tentam combinações de sementes, pesticidas, herbicidas e fungicidas – todos com nomes complexos o bastante para fazê-los se sentir inadequados – até que você não tenha nenhuma “escolha” a não ser tirar sua própria vida.
 
O que a Monsanto faz ao empurrar as leis de Direitos de Propriedade Intelectual (IPR) referentes ao comércio de sementes, Zuckerberg está tentando fazer com a liberdade de internet da Índia. E, assim como a Monsanto, ele está prejudicando os indianos mais marginalizados.
 
O Free Basics irá limitar o conteúdo da internet para a grande maioria de usuários indianos. Já de início, o programa afirmou que não irá permitir conteúdos de vídeo que interfiram nos serviços (leia-se: lucros) das companhias de telecomunicações – apesar da recomendação da própria Agência Reguladora de Telecomunicações da Índia de que conteúdo em vídeo seja acessível a diferentes partes da população.
 
Uma vez distribuída como um serviço gratuito, o que impedirá que as companhias de telecomunicações redefinam o uso da internet para satisfazer seus próprios interesses e o de seus parceiros? Afinal, a proibição ao Free Basics não impediu que a Reliance continuasse oferecendo seus serviços para uma grande base de usuários, muitos deles fazendeiros.
 
Por que deveria ficar a cargo de Mark Zuckerberg decidir o que é a internet para um fazendeiro em Punjab, que acabou de perder 80% de sua colheita de algodão por conta das sementes transgênicas da Monsanto e cujos produtos químicos (que foi coagido a usar) falharam completamente? Deveria a internet permitir que ele se informasse sobre o fracasso das tecnologias de transgênicos ao redor do mundo, que apenas são mantidas através de políticas de comércio injustas, ou deveria ela apenas induzir o uso de outra molécula patenteada em sua plantação?
 
A ligação entre o Facebook e a Monsanto é profunda. Os 12 maiores investidores da Monsanto são os mesmos que os 12 maiores investidores no Facebook, incluindo o Grupo Vanguard. Esse grupo é um grande investidor da John Deere, a novo parceira da Monsanto em “tratores inteligentes”, o que faz com que toda a produção e consumo de alimentos, da semente à informação, permaneça sob o controle de um pequeno punhado de investidores.
 
Não é de surpreender que a página do Facebook “March Against Monsanto” [Marcha contra a Monsanto], um grande movimento americano a favor da regulação e rotulagem de transgênicos, foi deletada.
 
Recentemente a Índia tem visto uma explosão em varejo online. Desde grande corporações a pequenos empreendedores, pessoas de todo o país tem podido vender o que produzem em um mercado previamente inacessível. Artesãos tem conseguido ampliar seus negócios, fazendas tem encontrado consumidores mais próximos.
 
Assim como a Monsanto e suas sementes patenteadas, Zuckerberg quer não apenas uma fatia, mas toda a pizza da economia indiana, especialmente seus fazendeiros e camponeses. O que o monopólio da Monsanto sobre informações climáticas significaria para fazendeiros escravizados através de um canal do Facebook com acesso limitado a essas informações? O que isso significaria para a internet e para a democracia alimentícia?
 
O direito ao alimento é o direito de escolher o que desejamos comer; saber o que está na nossa comida (#LabelGMOsNOW) e escolher alimentos saborosos e nutritivos – não os poucos alimentos processados que as corporações esperam que consumamos.
 
O direito à internet é o direito de escolher quais espaços e mídias nós acessamos; de escolher aquilo que nos enriquece – e não aquilo que as companhias pensam que deveria ser o nosso pacote básico.
 
Nosso direito de conhecer o que comemos é tão essencial quanto o direito à informação, qualquer informação. Nosso direito a uma internet aberta é tão essencial à nossa democracia quanto nosso direito de estocar, trocar e vender sementes polinizadas.
 
No eufemismo de Orwell, o “livre” para Zuckerberg significaria “privatizado”, algo totalmente diferente de privacidade – uma palavra inclusive estranha a ele. E assim como em acordos de “livre” comércio definidos por corporações, o Free Basics significa qualquer coisa menos ‘livre” para os cidadãos. É um cerceamento de bens essenciais, que deveriam ser acessíveis ao povo, sejam eles sementes, água, informação ou internet. Os Direitos de Propriedade Intelectual da Monsanto estão para as sementes como o Free Basics está para informação.
 
Tratores inteligentes da John Deere, utilizados em fazendas que plantam sementes patenteadas pela Monsanto, tratadas com insumos químicos da Bayer, com informações sobre clima e solo fornecidas pela Monsanto, transmitidas ao celular do fazendeiro pela Reliance, conectadas no perfil do Facebook, em terras pertencentes ao Grupo Vanguard.
 
Todos os passos de todos os processos, até o ponto em que você escolhe algo da prateleira de um supermercado, serão determinados pelos interesses dos mesmos acionistas.
 
Que tal conversarmos sobre liberdade de escolha?
 
tradução por Allan Brum

FONTE: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/A-profunda-ligacao-entre-a-Monsanto-e-o-Facebook/6/35309

Mapa que mostra os impactos globais do comércio do minério de ferro é publicado na Índia

mapa

Um mapa intitulado “O Mundo do minério de ferro, mostrando o comércio global de minério de ferro global e seu impacto sobre as regiões em a mineração está sendo realizada foi lançado  na quarta-feira.

mapa do ferro

O mapa foi produzido por Sridhar Maharana, um artista aclamado da vila Raghurajpur no distrito de Puri de Odisha, Índia.

O mapa foi concebido por Samarendra Das, ativista e pesquisador da Odisha baseado em Londres e Rebecca Oliner, uma artista treinada na Escolas de Artes e Ofícios de Camberwell da Universidade de Londres  que visitou Odisha.

O Mundo de Minério de Ferro” é uma tentativa de desvendar os misteriosos padrões do comércio mundial para que as organizações de justiça ambiental que tentam abordar estas questões possamobter uma imagem macro, disse o Sr. Das enquanto apresentava o mapa.

“O que ficou de fora no estilo convencional de mapeamento foi abordado neste mapa pelo Sr. Moharana”, acrescentou.

O Sr. Das disse que é hora de que Odisha e de outros Estados que possuam grandes jazidas de minério de ferro encontrem um equilíbrio entre meio ambiente e o chamado desenvolvimento.

FONTE: http://www.thehindu.com/news/national/other-states/map-on-iron-ore-impact-released/article7037662.ece

O mais novo fantasma da Monsanto

POR JEFF RITTERMAN, M.D.

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Estudo sugere: doença ainda inexplicada, que destrói rins e já matou milhares de agricultores, pode estar relacionada ao glifosato, herbicida-líder da transnacional

Por Jeff Ritterman, no Truthout | Tradução Maria Cristina Itokazu

O herbicida Roundup, da Monsanto, foi vinculado à epidemia de uma misteriosa doença renal fatal que apareceu na América Central, no Sri Lanka e na Índia.

Há anos, os cientistas vêm tentando desvendar o mistério de uma epidemia de doença renal crônica que atingiu a América Central, a Índia e o Sri Lanka. A doença ocorre em agricultores pobres que realizam trabalho braçal pesado em climas quentes. Em todas as ocasiões, os trabalhadores tinham sido expostos a herbicidas e metais pesados. A doença é conhecida como CKDu (Doença Renal Crônica de etiologia desconhecida). O “u” (de “unknown”, desconhecido) diferencia essa enfermidade de outras doenças renais crônicas cuja causa é conhecida. Poucos profissionais médicos estão cientes da CKDu, apesar das terríveis perdas impostas à saúde dos agricultores pobres, de El Salvador até o sul da Ásia.

Catharina Wesseling, diretora regional do Programa Saúde, Trabalho e Ambiente (Saltra) na América Central, pioneiro nos estudos iniciais sobre o surto ainda não esclarecido na região, diz o seguinte: “Os nefrologistas e os profissionais da saúde pública dos países ricos não estão familiarizados com o problema ou duvidam inclusive que ele exista”.Wesseling está sendo diplomática. Na cúpula da saúde de 2011, na cidade do México, os EUA rechaçaram uma proposta dos países da América Central que teria listado a CKDu como uma das prioridades para as Américas.

David McQueen, um delegado norte-americano do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, que posteriormente se desligou dessa agência, explicou a posição de seu país. “A ideia era manter o foco nos fatores de risco chave que poderíamos controlar e nas grandes causas de morte: doença cardíaca, câncer e diabetes. E sentíamos que a posição que assumimos incluía a CKD”.

Os norte-americanos estavam errados. Os delegados da América Central estavam certos. A CKDu é um novo tipo de doença. Essa afecção dos rins não resulta da diabetes, da hipertensão ou de outros fatores de risco relacionados com a dieta. Diferentemente do que acontece na doença renal ligada à diabetes ou à hipertensão, muitos dos danos da CKDu ocorrem nos túbulos renais, o que sugere uma etiologia tóxica.

Agricultor salvadorenho voltando dos campos. Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Agricultor salvadorenho voltando dos campos. Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Hoje, a CKDu é a segunda maior causa demortalidade entre os homens em El Salvador. Esse pequeno e densamente povoado país da América Central tem atualmente a maior taxa de mortalidadepor doença renal no mundo. Os vizinhos Honduras e Nicarágua também têm taxas extremamente altas de mortalidade por doença renal. Em El Salvador e Nicarágua, mais homens estão morrendo por CKDu do que por HIV/Aids, diabetes e leucemia juntas. Numa região rural da Nicarágua, tantos homens morreram que a comunidade é chamada “A Ilha das Viúvas“.

Além da América Central, a Índia e o Sri Lanka foram duramente atingidos pela epidemia. No Sri Lanka, mais de 20 mil pessoas morreram por CKDu nas últimas duas décadas. No estado indiano de Andhra Pradesh, mais de 1.500 pessoas receberam tratamento para a doença desde 2007. Como a diálise e o transplante de rim são raros nessas regiões, a maioria dos que sofrem de CKDu irão morrer da doença renal.

Numa investigação digna do grande Sherlock Holmes, um cientista-detetive do Sri Lanka, dr. Channa Jayasumana, e seus dois colegas, dr. Sarath Gunatilake e dr. Priyantha Senanayake, lançaram uma hipótese unificadora que poderia explicar a origem da doença. Eles argumentaram que o agente agressor deve ter sido introduzido no Sri Lanka nos últimos trinta anos, uma vez que os primeiros casos apareceram em meados da década de 1990. Essa substância química também devia ser capaz de, em água dura, formar complexos estáveis com os metais e agir como um escudo, impedindo que esses metais sejam metabolizados no fígado. O composto também precisaria agir como um mensageiro, levando os metais até o rim.

Mural celebrando a vida agrária tradicional. Juayua, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Mural celebrando a vida agrária tradicional. Juayua, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Sabemos que as mudanças políticas no Sri Lanka no final dos anos 1970 levaram à introdução dos agroquímicos, principalmente no cultivo do arroz. Os pesquisadores procuraram os prováveis suspeitos. Tudo apontava para o glifosato, um herbicida amplamente utilizado no Sri Lanka. Estudos anteriores tinham mostrado que o glifosato liga-se aos metais e o complexo glifosato-metal pode durar por décadas no solo.

O glifosato não foi originalmente criado para ser usado como herbicida. Patenteado pela Stauffer Chemical Company em 1964, foi introduzido como um agente quelante, porque se liga aos metais com avidez. O glifosato foi usado primeiramente na remoção de depósitos minerais da tubulação das caldeiras e de outros sistemas de água quente.

É essa propriedade quelante que permite que o glifosato forme complexos com o arsênio, o cádmio e outros metais pesados encontrados nas águas subterrâneas e no solo na América Central, na Índia e no Sri Lanka. O complexo glifosato-metal pesado pode entrar no corpo humano de diversas maneiras: pode ser ingerido, inalado ou absorvido através da pele. O glifosato age como um cavalo de Troia, permitindo que o metal pesado a ele ligado evite a detecção pelo fígado, uma vez que ele ocupa os locais de ligação que o fígado normalmente obteria. O complexo glifosato-metal pesado chega aos túbulos renais, onde a alta acidez permite que o metal se separe do glifosato. O cádmio ou o arsênio causam então danos aos túbulos renais e a outras partes dos rins, o que ao final resulta em falência renal e, com frequência, em morte.

Por enquanto, a elegante teoria proposta pelo dr. Jayasumana e seus colegas pode apenas ser considerada geradora de hipóteses. Outros estudos científicos serão necessários para confirmar a hipótese de que a CKDu realmente se deve à toxicidade do glifosato-metal pesado para os túbulos renais. Até agora, esta parece ser a melhor explicação para a epidemia.

Outra explicação é a de que o estresse por calor pode ser a causa, ou a combinaçãoentre estresse por calor e toxicidade química. A Monsanto, claro, tem defendido o glifosato e contestado a afirmação de que ele tenha qualquer coisa a ver com a origem da CKDu.

Ainda que não exista uma prova conclusiva a respeito da causa exata da CKDu, tanto o Sri Lanka quanto El Salvador invocaram o princípio da precaução. El Salvador baniu o glifosato em setembro de 2013 e atualmente está procurando alternativas mais seguras. O Sri Lanka baniu o glifosato em março deste ano por causa de preocupações a respeito da CKDu.

Mural celebrando a vida camponesa tradicional, Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

O glifosato tem uma história interessante. Depois de seu uso inicial como agente descamador pela Stauffer Chemical, os cientistas da Monsanto descobriram suas qualidades herbicidas. A Monsanto patenteou o glifosato como herbicida na década de 1970 e tem usado a marca “Roundup” desde 1974. A empresa manteve os direitos exclusivos até o ano 2000, quando a patente expirou. Em 2005, os produtos com glifosato da Monsanto estavam registrados em mais de 130 países para uso em mais de cem tipos de cultivo. Em 2013, o glifosato era o herbicida com maior volume de vendas no mundo.

A popularidade o glifosato se deve, em parte, à percepção de que é extremamente seguro. O site da Monsanto afirma:

O glifosato se liga fortemente à maioria dos tipos de solo e por isso não permanece disponível para absorção pelas raízes das plantas próximas. Funciona pela perturbação de uma enzima vegetal envolvida na produção de aminoácidos que são essenciais para o crescimento da planta. A enzima, EPSP sintase, não está presente em pessoas ou animais, representando baixo risco para a saúde humana nos casos em que o glifosato é usado de acordo com as instruções do rótulo.

Por causa da reputação do glifosato em termos de segurança e de efetividade, John Franz, que descobriu a sua utilidade como um herbicida, recebeu a Medalha Nacional de Tecnologia em 1987. Franz também recebeu o Prêmio Carothers da Sociedade Americana de Química em 1989, e a Medalha Perkins da Seção Americana da Sociedade da Indústria Química em 1990. Em 2007, foi aceito no Hall da Fama dos Inventores dos EUA pelo seu trabalho com o herbicida. O Roundup foi nomeado um dos “Dez Produtos que Mudaram a Cara da Agricultura“ pela revista Farm Chemicals, em 1994.

Nem todo mundo concorda com essa percepção a respeito da segurança do glifosato. A primeira cultura de Organismo Geneticamente Modificado (OGM) resistente ao Roundup (soja) foi lançada pela Monsanto em 1996. Nesse mesmo ano, começaram a aparecer as primeiras ervas daninhas resistentes ao glifosato. Os fazendeiros responderam usando herbicidas cada vez mais tóxicos para lidar com as novas superpragas que haviam desenvolvido resistência ao glifosato.

Além da preocupação a respeito da emergência das superpragas, um estudo com ratos demonstrou que baixos níveis de glifosato induzem perturbações hormonal-dependentes graves nas mamas, no fígado e nos rins. Recentemente, dois grupos de ativistas, Moms Across America (Mães em toda a América) e Thinking Moms Revolution(Revolução das Mães Pensantes), pediram à Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA) para pedir um recall do Roundup, citando um grande número de impactos adversos sobre a saúde das crianças, incluindo déficit de crescimento, síndrome do intestino solto, autismo e alergias alimentares.

O glifosato não é um produto comum. Além de ser um dos herbicidas mais usados no mundo, é também o pilar central do templo da Monsanto. A maior parte das sementes da empresa, incluindo soja, milho, canola, alfafa, algodão, beterraba e sorgo, são resistentes ao glifosato. Em 2009, os produtos da linha Roundup (glifosato), incluindo as sementes geneticamente modificadas, representavam cerca de metade da receita anual da Monsanto. Essa dependência em relação aos produtos com glifosato torna a Monsanto extremamente vulnerável à pesquisa que questiona a segurança do herbicida.

As sementes resistentes ao glifosato são desenhadas para permitir que o agricultor sature os seus campos com o herbicida para matar todas as ervas daninhas. A safra resistente ao glifosato pode então ser colhida. Mas se a combinação do glifosato com os metais pesados encontrados na água subterrânea ou no solo destroi os rins do agricultor no processo, o castelo de cartas desmorona. É isso que pode estar acontecendo agora.

Um confronto sério está tomando corpo em El Salvador. O governo norte-americano tempressionado El Salvador para que compre sementes geneticamente modificadas da Monsanto ao invés de sementes nativas dos seus próprios produtores. Os EUA têmameaçado não liberar quase US$ 300 milhões em empréstimos caso El Salvador não compre as sementes da Monsanto. As sementes geneticamente modificadas são mais caras e não foram adaptadas para o clima ou para o solo salvadorenho.

A única “vantagem” das sementes OGM da Monsanto é a sua resistência ao glifosato. Agora que ele se mostrou uma possível, e talvez provável, causa de CKDu, essa “vantagem” já não existe.

Mural, Concepción de Ataco, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Mural celebrando a vida camponesa tradicional, Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Qual a mensagem dos EUA para El Salvador, exatamente? Talvez a hipótese mais favorável seja a de que os EUA não têm ciência de que o glifosato pode ser a causa da epidemia de doença renal fatal em El Salvador e que o governo sinceramente acredita que as sementes OGM vão proporcionar um rendimento melhor. Se for assim, uma mistura de ignorância e arrogância está no coração desse tropeço na política externa norte-americana. Uma explicação menos amigável poderia sugerir que o governo coloca os lucros da Monsanto acima das preocupações acerca da economia, do meio ambiente e da saúde dos salvadorenhos. Essa visão poderia sugerir que uma mistura trágica de ganância, descaso e insensibilidade para com os salvadorenhos está por trás da política americana.

Infelizmente, existem evidências que corroboram a segunda visão. Os EUA parecem apoiar incondicionalmente a Monsanto, ignorando qualquer questionamento a respeito da segurança dos seus produtos. Telegramas divulgados pelo WikiLeaks mostram que diplomatas norte-americanos ao redor do mundo estão promovendo as culturas OGM como um impertativo estratégico governamental e comercial. Os telegramas também revelam instruções no sentido de punir quaisquer países estrangeiros que tentem banir as culturas OGM.

Qualquer que seja a explicação, pressionar El Salvador, ou qualquer país, para que compre sementes OGM da Monsanto é um erro trágico. Não é uma política externa digna dos EUA. Vamos mudar isso. Vamos basear nossa política externa, assim como a doméstica, nos direitos humanos, na vanguarda ambiental, na saúde e na equidade.

Pós-escrito: Depois que vários artigos a respeito da questão das sementes apareceram na mídia, o The New York Times informou que os EUA reverteram sua posição e devem parar de pressionar El Salvador para que compre as sementes da Monsanto. Até agora, os empréstimos ainda não foram liberados.

FONTE: http://outraspalavras.net/capa/o-mais-novo-fantasma-da-monsanto/