Em meio a blefes, Bolsonaro oferece carestia e fome como vitrines do seu (des) governo

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A estas alturas do campeonato é perceptível um certo cansaço da maioria dos brasileiros (incluindo a base de apoio do presidente Jair Bolsonaro) em relação aos seguidos blefes acerca de um suposto uso de um golpe de força para desmantelar o frágil tecido institucional que rege as relações sociais no Brasil. É que Bolsonaro já ameaçou um golpe militar e agora se abraça a uma conjunção de aliados que combina caminhoneiros (melhor dizendo donos de empresas de transporte), setores radicalizados das polícias militares e cantores sertanejos.  Com isso, Bolsonaro reconhece de forma prática a sua incompetência para sair da figura de presidente eleito para a de um ditador.

Mas se a parte do golpe já está manjada como blefe, a parte prática do governo Bolsonaro segue firme e forte sob o comando do dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, aquele que no desenho animado “Pinky e o Cérebro” seria o segundo, deixando para o presidente Bolsonaro, o papel de ser o Pinky. Só falta em um alguma reunião ministerial, Bolsonaro (Pinky) perguntar a Paulo Guedes (Cérebro) :  o que você quer fazer esta noite?”, e ouvir a famosa resposta “A mesma coisa que fazemos todas as noites, Pinky… Tentar conquistar o mundo!”.

Trabalhadora será indenizada após ser comparada a 'Pink e Cérebro' pela  chefe - Economia - Estadão

Esquecendo um pouco o mundo da ficção, o que temos de prático no Brasil neste momento é o êxito completo das políticas de Paulo Guedes, e que está refletido na carestia e no rápido espalhamento dos bolsões de fome nas cidades brasileiras. Para isso, Paulo Guedes já até sugeriu que restos de comida sejam aproveitados para matar a fome dos mais pobres. Aliás, a recente sugestão de Guedes para que não fiquemos chorando sentados diante do anúncio de mais um aumento nas contas de luz, não passa de uma expressão da ideologia a la Caco Antibes que dá coesão ao projeto econômico que está sendo executado pelo governo Bolsonaro.

O problema é que na impossibilidade de qualquer mudança real na execução de um projeto exitoso, Jair Bolsonaro já identificou que a via eleitoral não será provavelmente aquela que o manterá no poder. Por isso, devemos esperar mais blefes, que deverão assumir tons ainda mais ameaçadores. Resta saber como reagirão não os frequentadores das motociatas e do cercadinho bolsonarista em Brasília, mas os milhões de brasileiros que foram desempregados pelas políticas “cerebrais” de Paulo Guedes, e que hoje convivem com a fome, a falta de moradia e o castigo continuado da pandemia da COVID-19.

Fuzil ou feijão, o que a maioria dos brasileiros quer? Jair Bolsonaro prefere fuzil porque não lhe falta feijão

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A pandemia da COVID-19 vem aumentando o número de pessoas sem emprego e sem casa, trazendo consigo um aumento acelerado das pessoas que estão passando fome no Brasil.  Essa situação deveria sensibilizar a todos os brasileiros, mas pelo menos um parece estar passando ao largo da miséria de milhares de famílias brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro.

É que, aproveitando o cercadinho preenchido com apoiadores, o presidente do Brasil aproveitou esta sexta-feira para fazer uma propaganda da compra de fuzis, enquanto chamava de idiotas aqueles que demandam ações para que o brasileiro possa comprar um item que até recentemente era básico na dieta dos brasileiros, o feijão (ver vídeo abaixo).

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Este vídeo não existe

Ao se buscar o preço do fuzil 762, o que aparente ter a preferência de Jair Bolsonaro, o preço não sai por menos do que R$ 12 mil, ainda que este este possa ser vendido em 12 parcelas, mas ao preçode R$ 14.417,90.

Aí aparece a questão: o que será que a maioria dos brasileiros, e não a maioria de apoiadores que preenchem os cercadinhos abertos por Jair Bolsonaro para reverberar sua agenda política: fuzil ou feijão?

Antes que eu me esqueça: no mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro fazia propaganda de fuzil e criticava quem quer feijão na mão dos brasileiros,  uma de suas ex-esposas, Ana Cristina Valle, que é investigada no conhecido “Esquema das Rachadinhas” da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) se mudou para uma mansão de R$ 3,2 milhões na região do Lago Sul em Brasília para supostamente ajudar os negócios do seu filho Jair Renan a deslanchar.  Com certeza nessa mansão não deverá faltar feijão. 

Esqueçam a Venezuela, o que se busca no Brasil é a saída “a la Bolívia”

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A presidente de facto da Bolívia, Jeanine Añez, levanta um exemplar da Bíblia em sua “posse” após o golpe de estado promovido contra Evo Morales

Vejo com alguma irritação as manifestações de analistas televisivos (incluindo aí alguns intelectuais chancelados) sobre a situação política brasileira, onde invariavelmente as comparações feitas remontam aos passos tomados por Hugo Chavez na Venezuela. A comparação entre a situação venezuelana peca por alguns fatos básicos que comecem pelo caráter nacionalista de Chavez e o viés latinoamericanista de suas políticas. Além disso, diferente do Brasil, Hugo Chavez, foi um crítico contumaz do neoliberalismo, e operou uma série de mudanças no sentido de ampliar a distribuição de renda na Venezuela, um dos países com maior concentração de riquezas do planeta.  Além disso, Chavez operou uma modernização das forças armadas venezuelanas, dotando-as de diversos equipamentos militares de ponta, incluindo o sistema de defesa aérea S-300 que é fabricado pela Rússia.

Nesse sentido, não há como comparar o presidente Jair Bolsonaro com Hugo Chavez, pois as receitas de um são diametralmente opostas ao do outro. Mas, mesmo assim, é rotineiro o uso da comparação da situação política criada por Jair Bolsonaro com o que ocorreu com a Venezuela sob o comando de um líder político que operou transformações, ainda que parciais e de forma precária, que visavam ampliar a cobertura social do Estado em relação aos segmentos mais pobres da população.

Além disso há um elemento de farsa, pois os analistas e intelectuais chancelados sempre omitem um fato básico: Chavez era um líder que falava e conectava com as amplas camadas mais pobres da população venezuelana. Com isso, ele venceu todas as eleições a que concorreu, sem que jamais tenha sido provado qualquer tipo de fraude.

O caso boliviano é mais próximo do que os analistas e intelectuais chancelados querem mostrar

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Se os analistas da mídia corporativa e os intelectuais chancelados que prefere ouvir fizessem uma análise mais séria, o país a ser comparado seria o Bolívia, especificamente o golpe de estado promovido contra o presidente Evo Morales. Foi na Bolívia que ocorreu uma conjunção de forças que, aparentemente, se procura repetir no Brasil, a começar pela participação de lideranças da extrema-direita, leigos ou ligados a grupos religiosos, membros da forças policiais, bem como líderes do latifúndio agro-exportador.  Foi essa combinação de forças que invadiu o presidencial com bíblia na mão, e rapidamente colocou no poder a dublê de apresentadora de TV e senadora Jeanine Añez, que se tornou a presidente “de facto” por um período relativamente curto de tempo.

É preciso que se diga que apesar das forças armadas bolivianas não terem tido participação direta no golpe palaciano que exilou Evo Morales, seus membros se envolveram na dura repressão realizada contra os segmentos da população que se insurgiu contra o golpe perpetrado contra Evo Morales. Aliás, foi a ineficácia da repressão e a forte resistência popular que garantiram as eleições presidenciais vencidas pelo atual presidente da Bolívia,  o professor universitário e economista Luis Arce, do mesmo partido de Morales.

Aliás, há que se ressaltar que no caso do golpe contra Morales, a rápida reação dos sindicatos, movimentos sociais e da juventude boliviana foi quem impôs a realização de eleições presidenciais. Caso contrário até hoje Añes estaria presidindo a Bolívia em vez de estar presa.

Um último aspecto que penso merecer atenção é o incômodo que já parece grassar em parte considerável das elites brasileiras em relação ao comportamento do presidente Bolsonaro.  É que esse incômodo não se dá pelos arroubos retóricos nem pela ameaça de se colocar em marcha um golpe de estado que a maioria sabe tem pouca chance de prosperar.  A questão que parece realmente criar ansiedade é que aqui haja o mesmo tipo de reação popular que ocorreu na Bolívia onde os pobres tomaram o leme da situação política e impuserem a sua vontade. É que se isso acontecer no Brasil, a queda de Jair Bolsonaro seria a menor das consequências políticas. É que razões para uma revolta ir além muito além da remoção de um presidente visivelmente incapaz não faltam.  Basta passar no supermercado ou no posto de gasolina para constatar isso.

Assim, esqueçam a Venezuela por algum tempo, e mirem-se na Bolívia, onde guardadas as devidas proporções, parecem haver as reais semelhanças. Mas mais do que nunca é importante lembrar o destino que foi reservado aos golpes em função da ampla resistência popular que ocorreu por lá. 

Em visita ao Ceará, Jair Bolsonaro sente o gosto amargo da vaia popular

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Acostumado ao ambiente seguro do cercadinho em frente ao Palácio do Planalto para onde acorrem seus apoiadores mais fanáticos, o presidente Jair Bolsonaro sentiu ontem os efeitos ruidosos de uma vaia que ocorreu após ele citar o nome de um parlamentar aliado (o deputado federal Pedro Bezerra (PTB/CE), o que causou uma abrupta mudança de expressão facial (ver vídeo abaixo).

É interessante notar que mesmo que a vaia não tenha sido lhe diretamente direcionada na cidade de Juazeiro, Jair Bolsonaro já deve saber que se arriscar a subir em palanques fora de redutos mais propensos a apoiar seu governo, o risco que corre é de ser fortemente apupado, vistos os efeitos econômicos e sociais desastrosos que suas políticas criaram para a maioria dos brasileiros.

Somado a um descontentamento em expansão, Bolsonaro ainda tem que conviver com os problemas judiciais que ele mesmo criou para si mesmo ao atacar o judiciário, e sabotar os esforços de contenção da pandemia da COVID-19 no Brasil. 

Com isso, as próximas semanas deverão ser marcadas por gestos histriônicos e mais verborragia por parte de um presidente que parece ter também perdido a serventia para significativos segmentos da burguesia brasileira que o levou ao poder.  De certa forma, as vaias de Juazeiro do Norte são uma espécie de prenúncio de tempos difíceis que Jair Bolsonaro deverá ter até o final do seu mandato.

Os problemas do Brasil vão muito além de Jair Bolsonaro

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A votação da chamada PEC do Voto Impresso (eu prefiro chamá-lo de PEC do voto de cabresto) mostrou que os problemas que o Brasil enfrenta para alcançar um nível mínimo de justiça social vão muito além do presidente Jair Bolsonaro. É que, as estas alturas do campeonato, termos 229 deputados a favor do voto impresso sinaliza que há mesmo que Bolsonaro seja despejado da cadeira que ocupa, o “bolsonarismo” continuará forte, com tentáculos em partidos que se dizem pró-democracia como o MDB e o PSDB.

Além disso, um rápido exame das bancadas estaduais me mostrou que em estados como Rondônia e Santa Catarina, a quantidade de votos a favor do voto impresso revela que a disposição de recolocar o eleitor brasileiro em cabrestões eleitorais é grande. Aliás, no caso de Rondônia toda a bancada votou a favor do voto impresso. Como conheci relativamente aquele estado, eu só posso entender que as tendências de controle do eleitorado que sempre estiveram presentes, agora avançaram algumas casas. Assim, não chega a ser surpreendente que Rondônia seja um dos estados campeões em desmatamento e invasões de terras públicas. Com uma bancada dessas, como esperar que haja qualquer esforço para que se cumpra as leis ambientais? 

Há ainda que se lembrar que no mesmo dia em que se derrotou o voto impresso por pequena margem (afinal só faltaram 79 votos para que seja excrescência fosse aprovada, a Câmara de Deputados aprovou por 304 a 133, o texto-base da Medida Provisória 1.045/21, também chamada de minirreforma trabalhista, que criou uma modalidade de emprego em que não há contrato na qual o trabalhador fica desprovido de direitos, no mínimo por dois anos. Além disso, essa mesma legislação irá dificultar o acompanhamento e repressão do trabalho escravo. Tal fato irá com toda certeza aumentar o número de trabalhadores escravos, pois na falta de contrato, como verificar se direitos estão sendo violados. 

A questão aqui é que o atual congresso, eleito na esteira das fake news que mancharam as eleições de 2018, reflete uma tendência de precarizar profundamente as relações de trabalho no Brasil, refletindo um movimento que vai muito além da figura caricata de Jair Bolsonaro. O que temos diante de nós são passados avançados no aprofundamento da reprimarização da economia brasileira, motivo pela qual se aposta em uma precarização das condições de vida dos trabalhadores brasileiros.

Se não entendermos essa situação particular do Brasil em um contexto de crise aguda do sistema capitalista, podemos correr o risco de aceitarmos o rebaixamento da pauta política que deverá nos orientar nas eleições que deverão ocorrer em 2022, em nome de uma suposta frente ampla contra Jair Bolsonaro. A questão aqui é que se essa opção for feita, o foco será centrado apenas no presidente da república, deixando livres as forças reacionárias que se servem dele para regredir direitos e precarizar as condições de vida dos brasileiros.

The Guardian concede selo de “Banana Republic” ao Brasil após tanqueata fumacenta em Brasília

A mídia internacional está reagindo rápido ao episódio da tanqueata organizada pela Marinha brasileira a pedido do presidente Jair Bolsonaro.  O primeiro veículo internacional a se posicionar de forma contundente foi o jornal inglês “The Guardian” que publicou um artigo assinado por seu correspondente no Rio de Janeiro, Tom Phillips, cujo título é “Bolsonaro’s ‘banana republic’ military parade condemned by critics” (ou em bom português “Desfile militar da ‘república das bananas’ de Bolsonaro condenado por críticos”. 

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O maior problema dessa rotulação que prega o selo de “Banana Republic” na teste de cada brasileiro será um inevitável aumento do desgaste da imagem externa do Brasil, o que deverá ter repercussões políticas e, principalmente, econômicas. É que em um momento em que os investimentos estão curtos, colocar dinheiro em um país governado por um presidente vocacionado para o rompimento da ordem democrática não será certamente uma prioriedade.

E aos setores da alta burguesia brasileira que agiram para nos transformar em objeto de achincalhe mundial, espero que estejam felizes em um dia tão pouco memorável da história brasileira.

Uma coisa é certa: se o presidente Jair Bolsonaro pretendia demonstrar força a ponto de coagir o congresso nacional a apoiar o seu desejo pessoal pela adoção do voto impresso, as cenas de tanquetas enferrujadas poluindo o ar da Esplanada dos Ministérios devem ter deixado o rei ainda mais nu, bem como sua imensa fragilidade política neste momento. É o famoso tiro que deverá sair pela culatra.

A tanqueata de Jair Bolsonaro como mais um blefe contra os brasileiros

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Enquanto milhões de brasileiros vivem hoje sem qualquer garantia de que terão um prato de comida na mesa no dia de hoje, o governo Bolsonaro promove uma “tanqueata” em Brasília em um momento em que o Congresso Nacional deverá apreciar a possível volta do voto impresso no Brasil.

Como vivi os estertores do regime militar de 1964 presenciei muitas vezes tanques e caminhões de transporte de tropas pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Como naquele tempo, a tanqueata de hoje é uma demonstração da extrema fraqueza em que se encontra o presidente da república, após desastrosos 31 meses de (des) governo. Jair Bolsonaro sabe que salvo outro incidente obscuro como o da facada de Adélio Bispo de Oliveira, o seu destino eleitoral já está escrito nas estrelas e ele é péssimo para o ex-capitão.

Ao pôr os tanques nas ruas de Brasília, Jair Bolsonaro visa claramente amedrontar um congresso cuja composição lhe é francamente aliada, tanto que a maioria dos seus projetos de desmanche do estado brasileiro tem passado de forma majoritária. E o problema começa aí, pois quem tem de ameaçar aliado é que já assume que perdeu a guerra. Por outro lado, é preciso que se diga que a virtual rejeição do voto impresso não se dá por uma crença na lisura das urnas eletrônicas, mas porque os caciques partidárias (a maioria deles aliados de Bolsonaro) já fez as suas contas, e não viu vantagem alguma no voto impresso.

Aliás, um dia ainda vou descrever com detalhes a minha experiência de fiscal de mesa eleitoral na Ilha do Governador para que quem lê se esse blog saiba como determinados candidatos eram flagrantemente roubados na hora de se separar os votos para a sua contagem.  Mas isso fica para outro dia.

Mas voltando à tanqueata de Jair Bolsonaro, tenho dúvidas se ela terá qualquer efeito sobre a votação que deverá ocorrer hoje na Câmara de Deputados. À primeira vista, penso que esse desperdício do dinheiro público na forma de desfile de tanques (a maioria caindo aos pedaços) só servirá para que os mais espertos subam à tribuna para jurar amor pela mesma democracia que eles pisoteiam sempre que podem.

A questão central é como o comando das forças armadas assimilará (ou não) uma eventual derrota do voto impresso proposto pelo presidente da república: se vão colocar os seus tanques no saco ou vão querer partir para uma elevação da temperatura e mantê-los onde estão. É essa decisão que realmente importa, pois Bolsonaro nesse jogo é apenas um peão. Entretanto, seja qual for a decisão dos comandantes militares, me parece que eles estão conseguindo uma destruição de imagem que nem os 21 anos da última ditadura militar conseguiram. E esse é um custo que talvez deve ter sido calculado pelos comandantes militares, e que lhes poderá custar muito caro. Afinal, a multidão de brasileiros famintos que este governo criou pode não ligar para o próximo blefe de Jair Bolsonaro, já que cão que ladra e não morde acaba a principal ferramenta a seu dispor: a capacidade de gerar medo.

Câmara bolsonarista privatiza os correios e desfere mais um duro golpe nos pobres brasileiros

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O script que vem sendo adotado pelo governo Bolsonaro para fazer com que as suas boiadas passem pela porteira escancarada sem serem muito notadas foi repetido ao longo desta 5a. feira. É que enquanto o presidente Jair Bolsonaro encenava mais cenas burlescas em aparente desespero contra sua perda de popularidade, a Câmara de Deputados aprovou a privatização da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), desferindo mais um duro golpe contra os brasileiros mais pobres que brevemente ficarão desprovidos dos serviços prestados por uma empresa pública.

A privatização da ECT vai no sentido de destruição do Estado brasileiro, com a possibilidade de que tenhamos corporações estrangeiras controlando um serviço estratégico que em outras partes do mundo continua público. Até mesmo nos EUA, o United States Postal Service continua público, apesar das tentativas de diferentes administrações de entregar a empresa às corporações privadas.

No caso brasileiro, e em especial no modelo aprovado pela Câmara de Deputados, as regiões mais prejudicadas serão o Norte e o Nordeste, onde as distâncias são maiores e a população é mais pobre. Quem já presenciou a privatização de outras empresas estatais deve lembrar que a promessa era sempre de universalizar os serviços e baixar os preços dos serviços oferecidos. Essa é uma balela que o brasileiro mais comum conhece de perto, já que nem uma coisa ou outra acabou acontecendo. Basta ver o preço dos serviços de água, eletricidade e telefonia, que hoje estão entre os mais caros do planeta.

Como usuário ocasional dos serviços da ECT tenho testemunhado a alta eficiência da empresa, que está sendo privatizada apesar de ser altamente lucrativa. E o pior é que essa privatização ocorre em meio a uma situação de empobrecimento da classe trabalhadora, o que implicará objetivamente na perda de acesso aos serviços ora privatizados.

Pessoalmente não deposito qualquer expectativa de que a proposta seja barrada no Senado Federal, podendo ainda ser piorada em relação ao que acaba de ser aprovado pela Câmara de Deputados. Tampouco possuo expectativas de que em uma eventual vitória do ex-presidente Lula ele vá reverter essa medida anti-nacional.  A minha expectativa é que em face da necessidade de acesso aos serviços de correio ocorra uma reação da população que poderia forçar uma reestatização da ECT.  Mas isso só ocorrerá se houver muita pressão popular para questionar mais esse absurdo nas ruas, visto que do Congresso Nacional não se deve esperar mudança.

Por ora, resta reconhecer mais uma vitória objetiva do governo Bolsonaro e de sua agenda ultraneoliberal.
Por isso, não se enganem sobre um futuro golpe de Estado, pois ele já está ocorrendo neste momento na forma de um golpe contra o Estado. E que ninguém se surpreenda se a ECT for adquirida por uma empresa estatal de outros país, inclusive da China.

E antes que eu me esqueça, alguns dos nomes que votaram pela privatização são os de nome Aécio Neves e Tábata Amaral, o que mostra que a postura anti-pobre junta novas e antigas gerações dentro do congresso nacional. No caso de Tábata Amaral, ela apenas repete outros votos no sentido de privatizar empresas estatais, o que demonstra que seu discurso supostamente progressista é só fachada.

Troca de golpes em Brasília

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Por Peter Steiniger para o Neues Deutschland

O presidente Jair Bolsonaro definiu o assunto. Há semanas, não são os problemas reais e enormes do país que dominam as manchetes da mídia brasileira, mas sim suas acusações absurdas sobre um sistema eleitoral que se supõe ter sido concebido para falsificar os resultados. A fraude eleitoral seria provavelmente a única maneira pela qual Bolsonaro, que experimenta queda em seus níveis de popularidade, poderia garantir a reeleição em 2022. Ele reclama da eleição eletrônica, que – ao contrário da cédula – se mostrou segura no país mais populoso da América Latina e o determinou como vencedor em 2018.

A eleição de Jair Bolsonaro não se deu de forma limpa, no entanto, a fraude ocorreu antes, com a exclusão do favorito de esquerda, o ex-presidente Lula, por meio de uma conspiração judicial e da campanha de notícias falsas patrocinada por Bolsonaro.

As mentiras sobre o sistema eleitoral também visam polarizar a sociedade. Essa é a única chance do Jair Bolsonaro. Como Donald Trump, ele está mexendo com a lenda de uma eleição roubada.  No conflito com o Supremo Tribunal Federal, que freia o aprendiz de feiticeiro da extrema direita, Jair Bolsonaro corre risco. Um veredicto de culpado por atacar a eleição pode custar a Bolsonaro a sua candidatura. Mas isso acrescentaria muito combustível ao fogo.

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Este artigo foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland [Aqui!].

Missão dos EUA anti 5G chinês coloca Brasil sob dilema sobre o futuro de suas commodities agrícolas e minerais

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A mídia corporativa está anunciando a chegada de uma missão do governo Biden cujo mote principal será a imposição do banimento da empresa chinesa Huawei do mercado que será incluído com a implantação da rede 5G no Brasil. Como se sabe, a tecnologia chinesa é melhor e mais barata do que a oferecida pelas competidoras estadunidenses e, por isso, impedir a sua proliferação para os interesses estratégicos dos EUA.

Como o governo Bolsonaro é conhecido por seu pendor pró-EUA, independente de qual partido esteja ocupando a Casa Branca, eu não me surpreenderia se o Brasil aceitasse passivamente essa pressão, de forma a impedir a presença da Huawei no mercado que será inevitavelmente criado pela rede 5G.

O problema é que hoje o Brasil vive uma situação peculiar de depender fortemente da China para vender suas commodities agricolas e minerais, enquanto compra todo tipo de produtos que alimentam, inclusive, o funcionamento do latifúndio agro-exportador.  Assim, como os chineses são conhecidos por seu pragmatismo político e econômico, um banimento da Huawei significará perda de alguma parcela do mercado chinês, o que, aliás, já foi dito claramente pelo embaixador da China em Brasília.  E isso criará não apenas uma sobra considerável de produtos quem não qualquer mercado para substituir a China em função da crescente resistência a comprar commodities associadas ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

soja-agronegocioSe Bolsonaro banir a Huawei da rede 5G, a China certamente retaliará as commodities brasileiras

Um detalhe que deverá complicar ainda mais a situação do presidente Jair Bolsonaro caso ele cede às pressões do governo Biden é que com isso ele se arriscará a perder o apoio incondicional que atualmente desfruta da bancada ruralista que faz parte da sua base de sustentação no congresso nacional. 

Como se vê, quem se concentra nas atitudes histriônicas do presidente da república em relação à virtual não adoção do voto impresso está passando ao largo de elementos ainda mais dramáticos que estão pressionando Jair Bolsonaro.