Jair Bolsonaro testa positivo para a COVID-19 e aprofunda a agonia do seu governo

bolsonaro embaixadorTrês dias após celebrar a independência dos EUA ao lado do embaixador estadunidense em Brasília, Jair Bolsonaro testa positivo para a infecção por coronavírus

A informação agora oficialmente confirmada de que o presidente Jair Bolsonaro ontraiu a COVID-19 (ver abaixo imagem com o resultado do exame) é a comprovação de que quem brinca com fogo, cedo ou tarde acaba chamuscado.

resultadoExame do presidente Jair Bolsonaro que testou positivo para a COVID-19. Reprodução/CNN

Mas há desde o resultado da confirmação do contágio algumas diferenças básicas entre a situação do presidente Jair Bolsonaro e milhões de brasileiros pobres que vivem no sobressalto por terem contraído a COVID-19 ou terem que se arriscar todos os dias para sair de casa em busca do seu sustento.

A primeira é que em menos de 24 horas o presidente do Brasil pode acessar seu plano privado de saúde para realizar um teste para detecção do coronavírus e começar um protocolo de tratamento para a COVID-19 em uma unidade hospitalar que poderá tratá-lo no mais alto padrão.

A segunda é que em vez de ter se submeter ao isolamento imposto pela COVID-19 em um quarto apertado em área sem água e serviço de esgotos, Jair Bolsonaro se hospedará em sua residência oficial, onde receberá a atenção ininterrupta de profissionais altamente qualificados em todas as áreas em que ele demandar a devida atenção.

Essas duas diferenças parecem ser triviais, mas não o são para milhares de famílias que hoje se debatem para cuidar de membros que foram acometidos pela COVID-19.  Por isso, sem que eu tenha me juntar aos que desejam o sucesso do coronavírus sobre o organismo  de um presidente do qual discordo frontalmente, penso que é importante notar estas distinções.

Bolsonaro tira a máscara em frente a jornalistasJair Bolsonaro retira a máscara que usava no momento em que fez o anúncio do seu teste positivo para COVID-19, colocando em risco os jornalistas presentes

Lamentavelmente, ao menos em sua primeira entrevista pública após a divulgação do diagnóstico positivo, o presidente Jair Bolsonaro não parece disposto a reconhecer que a sua COVID-19 não é a mesma que está acometendo os brasileiros mais pobres. A maior prova disso foi que ele retirou a máscara que usava no momento em que informou o resultado positivo, colocando em risco a saúde dos jornalistas presentes. Ao trivializar a própria doença e se mostrar em público sem portar uma máscara que o impeça de difundir o coronavírus, o presidente do Brasil contribuiu para banalizar ainda mais uma condição que não tem nada de banal.

Concluo dizendo que a confirmação da infecção por COVID-19 de Jair Bolsonaro ocorre em um momento particularmente ruim, na medida em que a pandemia está fora de controle e o governo federal não demonstra a capacidade mínima de que poderá agir para minorar a catástrofe que se alastra pelo Brasil tal qual fogo em pastagem seca.

Depois de muito brincar com o perigo, Jair Bolsonaro pode ter sido contagiado pelo coronavírus

bolsonaro covid19O presidente Jair Bolsonaro estaria com sintomas de COVID-19 e aguardando o resultado de um teste realizado nesta segunda-feira

Desde março quando a pandemia começou a se espalhar com mais força pelo Brasil, o presidente Jair Bolsonaro trabalhou de forma acintosa para sabotar todos os esforços para combater e controlar de forma eficaz a disseminação da COVID-19.

Evidências do descaso presidencial com a letalidade da infecção causada pelo coronavírus tem sido tão explícito que um juiz chegou a determinar que ele usasse uma máscara de proteção em público.

Agora, a rede CNN Brasil acaba de informar que o presidente Jair Bolsonaro está os primeiros sintomas de que está com a COVID-19, aguardando para amanhã o resultado do laudo que poderá confirmar ou não se isto é verdade.

Em uma rara demonstração de precaução presidencial, a agenda semanal de Jair Bolsonaro já foi cancelada, mesmo porque ele está com sintomas de febre, independente de ser causada pela COVID-19 ou não.

Agora, se o resultado do laudo for positivo, a crise política e econômica em que o Brasil está enfiado deve se aprofundar, pois, ao contrário do que disse inicialmente o presidente brasileiro, sua idade e passado recente com múltiplas intervenções cirúrgicas o colocam em um claro grupo de risco. 

E não nos esqueçamos que no caso de um impedimento mais prolongado, Jair Bolsonaro será substituído pelo general Hamilton Mourão que não representa qualquer garantia de que a crise brasileira será minimizada. Aliás, a chance maior é que aconteça justamente o contrário.

Aguardemos, pois!

A cruzada de Jair Bolsonaro contra as máscaras realça a natureza anti-científica do seu governo

O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores na frente do Palácio do Planalto

Em uma matéria assinada pelo jornalista Daniel Carvalho, o jornal Folha de São Paulo informa que o presidente Jair Bolsonaro ampliou a sua cruzada contra o uso de máscaras cirúrgicas ou artesanais como forma de diminuir a transmissão de coronavírus em diversos tipos de ambientes, incluindo presídios onde hoje a pandemia da COVID-19 dá sinais de estar se ampliando velozmente. A  cruzada é tão abrangente que agora Jair Bolsonaro está isentando estabelecimentos comerciais de  “afixar cartazes informando sobre o uso correto de máscaras“.

Note-se que este mesmo presidente está promovendo uma liberação exponencial para a venda de armas com medidas que impedem, entre outras coisas, que se possa realizar o rastreamento de procedência de munições. 

Mas o que está cruzada revela é a mais perfeita desconsideração com regras mínimas de segurança em um momento que a pandemia da COVID-19 já atingiu números oficiais alarmantes, com 1.604.885 infectados e quase 65 mil mortos.

A razão mais óbvia para esta ação agressiva contra uma ferramenta básica de defesa das pessoas contra um vírus letal é reafirmar a posição de ceticismo frente às evidências amplamente aceitas em relação à utilidade do uso de máscaras no enfrentamento da pandemia. Ao dificultar a imposição do uso e até ao acesso de informações que esclareçam o seu uso correto, Jair Bolsonaro está objetivamente contribuindo para que setores ainda mais amplos da população deixem de se proteger e, por consequência, aumente o tempo de duração da pandemia.

bolsonaro mascaraA marcha de Jair Bolsonaro contra o uso de máscara revela o caráter anti-científico do seu governo

O que mais chama a atenção nesse processo que causa perplexidade em líderes mundiais, inclusive os de direita como o ex-presidente da Colômbia. Juan Manuel Santos, que considerou uma loucura a condução feita por Jair Bolsonaro da pandemia, é a aceitação tácita, e até mesmo a participação na cruzada de Bolsonaro contra as máscaras, parte do judiciário e do legislativo, bem como de governadores e prefeitos.

Uma possível explicação para que o presidente Jair Bolsonaro possa continuar com sua cruzada anti-ciência é a informação de que a maioria dos mortos pela COVID-19 são homens negros e pobres que normalmente habitam as periferias pobres das grandes cidades brasileiras. 

As características demográficas da maioria dos mortos também explica o porquê das cenas de multidões sorvendo bebidas alcóolicas em bairros frequentados principalmente pela classe média branca cuja maioria votou em Jair Bolsonaro para presidir o Brasil. Nesse sentido, há um encontro entre classe e cor da pele entre os que alimentam a cruzada promovida por um presidente que nunca mostrou preocupação pela maioria dos que estão morrendo ao longo de seus quase 30 anos no parlamento brasileiro. A negação das máscaras é, portanto, um encontro perfeito entre criador (a classe média) e a sua criatura (Jair Bolsonaro) (ver vídeo abaixo).

Por fim, nada mais coerente então que deixar os ministérios da Saúde e da Educação abandonados no mar de incompetência em que o governo federal se transformou nas mãos de um presidente que despreza as evidências científicas mais básicas. E segue a cruzada.

MEC ao léu: Renato Feder pede para sair sem ter entrado

feder paranáApós rejeição implacável ao seu nome por “olavistas” e “militares, Renato Feder usa Twitter para declinar convite para ser o próximo ministro da Educação

A situação seria cômica se não fosse extremamente trágica. É que neste domingo, o secretário estadual de Educação do Paraná, Renato Feder, gerou mais uma situação humilhante para o governo Bolsonaro ao declinar via sua página na rede social Twitter o convite que teria sido feito a ele pelo presidente Jair Bolsonaro (ver imagem abaixo).

renato feder declina

A situação de um convite ser “declinado” via redes sociais é insólita, e mostra o desprestígio do convite e de quem o fez. Em um passado não muito distante, o convite para ocupar um ministério seria celebrado e tratado com mais cuidado, e a situação que está posta é rara, mesmo para um país com um sistema político chegado à excentricidades como é o brasileiro.

Com a recusa de Renato Feder, o governo Bolsonaro está com pelo menos dois ministérios importantes sem um ocupante definitivo,  Saúde e Educação, justamente quando eles são chamados a ocupar um papel relevante no combate à uma pandemia letal como é a da COVID-19.

Por outro lado, o tratamento displicente que o presidente Bolsonaro dispensa à indicação dos ministros dessas duas pastas deixa claro que estas duas áreas não são vistas como estratégicas, o que é deixado explícito por essa sucessão de vexames que tem sido a tentativa de encontrar um substituto para um ministro que teve um desempenho para lá de pífio, como foi o caso de Abraham Weintraub no MEC.

Um detalhe mórbido sobre essa recusa pública de Renato Feder foi a oposição que seu nome sofreu de duas alas, ideológica e militar, que se debatem para saber quem determina as linhas de ação do governo Bolsonaro. É que aparentemente, Feder foi rejeitado simplesmente por não ser truculento ou direitista o suficiente. Como eu disse no início desta postagem, a situação do governo Bolsonaro seria cômica se não fosse trágica.

Finalmente, desconfio que neste momento há algum militar engalanado engraxando o sapato e engomando o terno para assumir o MEC. Temporariamente, é claro.

COVID-19: tentativas e erros no desconfinamento social equivalem a jogar gasolina em incêndio

cemiterio

Ao contrário da imagem inicial de que a pandemia da COVID-19 funcionaria como uma sequência de ondas que se sucederiam em amplitude menor (a primeira onda sendo a maior de todas) está sendo substituída por outra, a de um incêndio florestal. Nessa versão, enquanto houver material para queimar, o fogo vai continuar ardendo. 

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Se usarmos a imagem do incêndio nos cenários de desconfinamento que estão sendo usados no Brasil ao arrepio do conhecimento científico acumulado em quase 4 meses de vigência, e agora crescimento descontrolado da pandemia, veremos que governadores e prefeitos que estão relaxando as medidas de confinamento estão apenas jogando mais material para ser queimado, reavivando o incêndio sem que ele tenha dado mostras de que iria ser extinguido.

O problema é que o material que está sendo consumido não é composto de árvores mortas, galhos e folhas, mas de vidas humanas.  No dia de hoje (30/06), a contagem oficial (e subnotificada) é de que quase 1,5 milhão de pessoas já foram infectadas e quase 60 mil já morreram por complicações causadas no Brasil.  Esse número de mortos é quase 100 vezes mais o que o presidente Jair Bolsonaro previu logo no início de sua cruzada contra as regras de confinamento, mas a contagem continua se acelerando. Lembremos que em março, Bolsonaro previu (equivocadamente) que o número de mortos pelo coronavírus não alcançaria os 796 causados pelo vírus H1N1 (ver o vídeo abaixo).

Culpados para esse verdadeiro massacre são muitos, começando na presidência da república e chegando até os comerciantes que pressionam prefeitos e trabalhadores de que é preciso trocar vidas humanas por um simulacro de retomada da normalidade. Somado a isso a fragilização do Sistema Único de Saúde (SUS), temos as condições perfeitas para o levantamento das chamas que cada vez mais se aproximam de nós, levando ou mutilando pessoas conhecidas.

Aqui em Campos dos Goytacazes vejo com um misto de “eu já sabia” e pasmo, a decisão do jovem prefeito Rafael Diniz de permitir a reabertura do comércio e igrejas (muitas delas comércios da fé) a partir de amanhã. A alegação, absurda é preciso se frisar, é que se chegou a um equivalente aceitável entre leitos e doentes, desconhecendo por completo as evidências de que há uma gritante subnotificação de casos.

Alguém já disse, e eu assino embaixo, que de Rafael Diniz, o exterminador das políticas sociais que protegiam minimamente os pobres, não se poderia esperar muito, já que seu governo sempre agiu controlado pelo princípio da necropolítica. E não seria agora que Rafael Diniz se elevaria à condição de estadista que a cidade de Campos dos Goytacazes precisaria para enfrentar uma pandemia letal.  Ainda que isso seja verdade, não deixa de ser chocante a tomada de uma decisão que ignora o conhecimento científico já firmado sobre o fato que um confinamento social estrito é a única forma conhecida de conhecer a pandemia da COVID-19 até que a onda passe ou as chamas do incêndio virem brasas dormentes.

Interessante notar que em Goiás e Paraná, estados que juntos não possuem números que cheguem sequer próximos dos registros no Rio de Janeiro, os governadores estão restabelecendo medidas mais duras de confinamento social após detectarem o crescimento vertiginoso do número de casos. E olhe que estamos falando de Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior, dois governadores conhecidos por suas posições de direita. Mas o processo está sendo reimposto na cidade de Belo Horizonte, governada por Alexandre Khalil, que não é nem de perto uma pessoa que defende ideias de esquerda.

A verdade é que para se combater a ampliação do caos causado pela COVID-19 não devemos nos guiar pela posição do espectro político em que possamos estar, mas pelas evidências científicas já amealhadas para conter e controlar a pandemia. Essa seria uma questão simples para ser entendida, mas que em um país no qual o novo ministro da Educação é pego mentindo sobre o seu currículo acadêmico de forma explícita e não é demitido sumariamente, isto evidentemente não é. Está mais claro do que nunca que as elites brasileiras se preocupam pouco com as evidências científicas, e muito mais com suas próprias necessidades de gerar lucro, nem que isso custe algumas milhares de mortes a mais. Até porque a ciência já demonstrou que quase 70% dos mortos pela COVID-19 no Brasil fazem parte da classe trabalhadora, que é para essas elites apenas material descartável que pode ser consumido no incêndio.

Por isso, aos que estão sendo empurrados para o desconfinamento precoce e jogados à própria sorte dentro do olho do furacão, restará a adoção das medidas de minimização da contaminação pelo coronavírus. Será deste disciplina coletiva que poderá sair o controle que não tem sido propiciado pela ação governamental.

Mas que fique claro que a história irá registrar quem foi que ajudou a manter o fogo aceso.   Por ser exatamente por isso que os historiadores sejam tão detestados no Brasil.

A voz de Bolsonaro

Deutsche Welle ( Voz da Alemanha) demitiu o escritor João Paulo Cuenca por criticar o presidente do Brasil. Cuenca responde à  emissora na Telepolis

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Em uma carta aberta à Deutsche Welle, mais de 100 primeiros signatários da Alemanha e do Brasil criticaram fortemente a demissão do escritor brasileiro João Paulo Cuenca . Anteriormente, a emissora  havia declarado que  cancelava uma coluna regular do escritor em português sem consulta prévia e publicamente depois dele criticar o presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, em sua conta privada no Twitter. Deutsche Welle então acusou Cuenca de “discurso de ódio e incitação à violência”; enquanto o demitido também protestou  no Twitter.

Enquanto a demissão causou entusiasmo no campo de apoio de  Jair Bolsonaro, um processo de resistência foi formado contra a decisão da Deutsche Welle.  Uma carta aberta foi assinada por vários jornalistas e pelo vice-presidente do PEN Club Alemanha, Ralf Nestmeyer.

Não é improvável que os responsáveis ​​na sede da estação em Bonn tenham se envolvido em uma campanha de extremistas de direita brasileiros e, em segundo lugar, não tenham entendido o tweet. Para Cuenca, escreveu sobre o serviço de mensagens curtas: “Os brasileiros só serão livres quando o último Bolsonaro for pendurado no intestino do último pastor da igreja universal”.

Tabaco duro, claro, mas também a paráfrase de uma citação histórica. No início do século XVIII, o francês Jean Meslier, que havia mudado de sacerdote católico para crítico religioso e é considerado um dos primeiros iluministas, citou a citação em seu trabalho Mèmoire” : “O ser humano é o único homem do mundo. les nobres fussent pendus et étranglés avec les boyaux de prètres “, por exemplo:” Seria justo que todas as grandes pessoas do mundo e todos os nobres fossem enforcados e estrangulados com os intestinos dos padres “.

A modificação para Bolsonaro feita por Cuenca – motivada de maneira semelhante – se referia ao apoio maciço do atual governo brasileiro à Igreja Universal do Reino de Deus . Esse movimento de massa evangélica sectária é um dos mais importantes apoiadores da liderança de Bolsonaro – e recebeu recentemente milhões do orçamento do estado.

As críticas de Cuenca a isso aparentemente entristeceram tanto a liderança de Bolsonaro quanto agradaram sua expulsão pública. O congressista e filho do presidente Eduardo Bolsonaro parabenizou pessoalmente a emissora alemã no Twitter pela decisão de demitir Cuenca. Antes disso, representantes do campo de Bolsonaro lançaram uma campanha massiva contra Cuenca.

Cientistas, jornalistas, artistas e ativistas alemães e brasileiros reagiram agora à expulsão e ao apoio dado pelos extremistas de direita do Brasil. Pode-se discutir se a peça de Cuenca com a citação histórica foi bem-sucedida ou de mau gosto, mal formulada ou pouco contextualizada, eles escrevem na carta aberta que Telepolis havia recebido anteriormente: “Se você conhece o trabalho de João Paulo Cuenca, essa frase pode, no entanto, não deve ser interpretado como incitante ao ódio. Por esse motivo, a decisão unilateral da Deutsche Welle levantou preocupações sobre a liberdade de expressão e censura “. A Deutsche Welle deveria repensar sua decisão, afinal Cuenca é uma “voz indispensável na luta contra os crimes cometidos contra os direitos humanos,

Telepolis pediu a Cuenca que escrevesse sua versão do que estava acontecendo. Aqui está sua réplica para a Deutsche Welle.

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Este texto foi publicamente originalmente em alemão no site da revista Telepolis [Aqui!].

Crise no governo do Brasil: escândalos e mais de um milhão de pessoas infectadas com coronavírus

Escândalos, problemas econômicos e infecções crescentes por coronavírus enfraquecem enormemente o governo do presidente de direita Jair Bolsonaro. Os pedidos de demissão estão ficando mais altos

congresso nacionalEdifício do congresso nacional na capital do Brasil, Brasília. Foto: Adveniat / Jürgen Escher

Por Thomas Milz para a KNA

Uma tempestade está se formando no Brasil: vários escândalos estão enfraquecendo o governo de Jair Messias Bolsonaro, enquanto a economia está caminhando para uma queda histórica em face do crescente número de infectados pelo coronavírus. Na última sexta-feira, o Brasil quebrou a barreira de um milhão de infecções. No sábado, a marca de 50.000 mortes por COVID-19 foi ultrapassada. Isso coloca o Brasil em segundo lugar no mundo, atrás dos EUA.

Mais de um milhão de infectados e 50.000 mortos

No início da semana passada, especialistas viram primeiros sinais de queda no número de infectados por coronavírus no estado de São Paulo, o mais populoso do Brasil, o epicentro da pandemia da COVID-19. Com quase 2.000 mortos, um novo recorde semanal foi estabelecido lá, como noticiou a mídia brasileira no sábado. A Organização Mundial da Saúde  (OMS) anunciou outro recorde no domingo: com 54.700 novas infecções em um dia, o Brasil quebrou o recorde do dia anterior, em 26 de abril que pertencia aos EUA.

No entanto, o número de mortes por  COVID-19, localizado em 50.659 no domingo, provavelmente será ainda maior. Segundo especialistas, 21.289 mortes previamente registradas como doenças respiratórias graves podem ser casos de COVID-19. Devido à falta de testes, a verdadeira extensão da doença dificilmente será estimada.

As cidades que haviam afrouxado as medidas de isolamento social para conter a expansão do coronavírus devido à pressão das associações empresariais, agora precisavam apertá-las novamente, como na metrópole de Porto Alegre, na região sul. No Rio de Janeiro, a região mais afetada depois de São Paulo, milhares lotaram as praias bloqueadas no fim de semana. Nem a polícia nem os oficiais do departamento de regulamentação intervieram para fazer cumprir o requisito da máscara.

Os governos locais atualmente estão sozinhos na luta contra o coronavírus. Diante de vários escândalos, o governo federal é quase incapaz de agir, tanto o cargo de Ministro da Saúde como o de Ministro da Educação não estão preenchidos. Não existe uma ideia de como e quando as escolas e universidades abrirão novamente.

Investigação ao filho de Bolsonaro por suspeita de lavagem de dinheiro

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, que está sob investigação por campanhas de ódio e “fake news”  (notícias falsas), anunciou sua renúncia na quinta-feira. Horas depois, ele fugiu para Miami com seu passaporte diplomático. Somente depois que ele desembarcou nos Estados Unidos, o presidente Bolsonaro renunciou oficialmente. Atualmente, os brasileiros estão proibidos de entrar nos EUA com passaportes simples.

O próprio presidente Jair Bolsonaro está sob pressão depois que os investigadores detiveram um ex-policial (Fabrício Queiroz) que estava escondido na casa de seu advogado por mais de um ano na quinta-feira. O ex-policial é amigo íntimo de Bolsonaro há 30 anos e foi considerado um intermediário entre sua família e milícias que operam no Rio de Janeiro. Flavio, filho de Bolsonaro, senador, teria lavado centenas de milhares de euros com a ajuda desse intermediário.

Pedido de demissão

Os problemas legais da família Bolsonaro estão dificultando cada vez mais o trabalho do governo. O ministro da Justiça Sergio Moro renunciou em abril depois que Bolsonaro tentou influenciar a investigação policial do Rio. Enquanto isso, não há ideia de como ajudar a economia atingida pela pandemia causada pelo coronavírus. A produção econômica pode cair em até 9% em 2020, e o déficit orçamentário ameaça aumentar em cinco vezes. No Congresso, as reivindicações pelo impeachment de Bolsonaro estão ficando mais fortes.

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Este artigo foi publicado originalmente em alemão pela Domradio.de [Aqui!].

Acharam (prenderam) o Queiróz, treme a república

queirozFabrício Queiroz é conduzido para a prisão após ser ser apreendido em um situação pertencente ao advogado Frederico Wassef no município de Atibaia (SP)

Em um desdobramento que deverá aumentar a temperatura política no Brasil, a Polícia Civil e o Ministério Público do estado de São Paulo prenderam na manhã desta 5a. feira, o ex-motorista e “jack of all trades” (em português, o bom e velho “pau para toda obra”) Fabrício Queiroz, que estava desaparecido sob as vistas de todo mundo há mais de um ano.

E essa prisão começa imersa em uma mar de ironias. A primeira ironia que eu vejo nessa história em desenvolvimento é que a prisão aconteceu em São Paulo, e não no Rio de Janeiro onde os supostos crimes cometidos por Queiroz teriam sido cometidos.  A segunda é que Fabrício Queiroz teria sido preso em um sítio localizado no já famoso município de Atibaia, onde também existe outro sítio que foi celebrizado por ter sido o objeto da segunda condenação judicial do ex-presidente Lula. A terceira ironia é que o proprietário do sítio onde Queiroz foi encontrado é nada menos que um dos advogados do senador Flávio Bolsonaro, o mesmo para quem o ex-motorista teria agido para, entre outras coisas, recolher parte dos salários dos servidores lotados no gabinete do então deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Uma quarta ironia é que ontem mesmo, o dono do sítio, o advogado Frederick Wassef, esteve presente ontem na cerimônia de posse do novo ministro da Comunicação, o deputado federal Fábio Faria (PSD/RN). A quinta e última ironia que eu consiga lembrar é o fato de que o impeachment do hoje senador Fernando Collor teve como ponto de partida uma denúncia de uma transação irregular envolvendo um veículo Elba da Fiat. A ironia é que o exílio de Queiroz não foi na Ilha de Elba, mas em Atibaia, em uma conjunção inesperado com o destino do ex-presidente Lula, por quem o presidente Jair Bolsonaro não nutre os melhores sentimentos.

O advogado de Flávio Bolsonaro, Frederick Wassef, negando saber o paradeiro de Fabrício Queiroz que passou um ano hospedado em um imóvel de sua propriedade em Atibaia (SP)

Ironias à parte, a prisão de Fabrício Queiroz tem o efeito potencial de fazer tremer a república, pode-se assim dizer. É que essa prisão, somada a outros desdobramentos que ocorreram no Rio de Janeiro, tem o potencial de atingir o presidente Jair Bolsonaro onde ele mais teme ser atingido que são os seus filhos. Como o filho senador é o mais exposto deles, exatamente em função das brechas que já estão abertas pelo esquema da “rachadinha” comandado por Fabrício Queiroz no gabinete  de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. 

Essa prisão também é ruim porque ocorre em um momento em que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro já vinha cambaleando em função da gestão desastrosa da pandemia da COVID-19 que já causou oficialmente 46.665 mortes no Brasil. Agora, com a prisão de Fabrício Queiroz, o risco é que capa de paladino anti-corrupção seja rasgada de vez, e o presidente tenha que explicar, por exemplo, o ainda inexplicado depósito que ex-motorista fez na conta bancária da primeira dama Michelle Bolsonaro.

michelleFabrício Queiroz afirmou ter dado dez cheques, no valor total de R$ 40 mil, a Michelle Bolsonaro Foto: Jorge William / Agência O Globo

Em um sinal que sentiu o golpe, o presidente Jair Bolsonaro deixou hoje de fazer a famosa parada que realiza matinalmente no “cercadinho” fora da residência oficial da presidência. O dia de hoje promete, e a república treme. Eu não me surpreenderia se hoje tivéssemos uma série de declarações de pessoas ilustres dessa mesma república que apoiaram a eleição de Jair Bolsonaro negando que um dia apostaram nele para dirigir o Brasil. A ver!

A reputação das Forças Armadas está em risco, alerta Traumann

Brasileiro confunde FFAA com governo. Militares aceitaram ser parte da tragédia

DiaDoSoladado-Militares-JairBolsonaro-HmailtonMourao-SergioMoro-RicardoSalles-Soldados-23Ago2019Integrantes das Forças Armadas em cerimônia de comemoração do Dia do Soldado, no Quartel General do Exército, em Brasília, em 23 de agosto de 2019.  Sérgio Lima/Poder360 – 23.ago.2019

Por Thomas Traumann*

Em menos de 18 meses, o governo do capitão Jair Bolsonaro mudou a relação do país com as suas Forças Armadas. Trinta e cinco anos depois de deixar o governo pela porta dos fundos do Palácio do Planalto com o presidente general João Figueiredo, as Forças Armadas recuperam com o capitão Bolsonaro um protagonismo único na democracia. São 10 ministros militares e 2.900 com cargos em comissão, recebendo gratificações além do soldo para, em sua grande maioria, desempenhar funções exercidas por civis. Essa simbiose do presidente com as Forças Armadas recolocou o Exército como um dos eixos da política, ressuscitou o espantalho de uma intervenção militar e está fazendo mal à reputação das Forças Armadas.

Pesquisa DataPoder360 revelou uma confusão entre a imagem das Forças e o governo. Nos números frios do levantamento,  29% dos brasileiros confiam totalmente na atuação das Forças Armadas. Outros 35% dizem confiar mais ou menos e 18% confiam pouco –ou seja, 50% afirmam ter alguma desconfiança da atuação militar. Outros 14% afirmaram não confiar nos militares.

A sondagem DataPoder360 mostra que a confiança nas Forças está diretamente vinculada à aprovação do governo Bolsonaro. 54% das pessoas que confiam totalmente na atuação das Forças avaliam o governo como “ótimo” ou “bom”. Somente 5% dos que têm essa percepção sobre o trabalho do chefe do Executivo não confiam nos militares. Entre os que rejeitam a administração do capitão Bolsonaro, 22% afirmam não ter confiança nas Forças Armadas. Ou seja, para muitos brasileiros, o presidente e os militares estão se tornando uma coisa só. Isso é bom apenas para o presidente.

Um outra pesquisa divulgada na 2ª feira (15.jun.2020), pelo Instituto da Democracia também mostra desgaste dos militares. Por esse levantamento, há mais brasileiros que confiam  “mais ou menos” (33,8%) do que “muito” (27%) na atuação das FFAA. A revelação mais importante dessa pesquisa foi a de que para 58,7% a presença dos militares no governo Bolsonaro não ajuda a democracia no país, enquanto 30,1% acham que sim. De novo, os militares estão reduzidos ao terço da população que aprova Bolsonaro.

Esses números estão muito abaixo da média histórica de confiança nas Forças Armadas ao longo da democracia. Em julho de 2019, por exemplo, pesquisa do Datafolha mostrou que as Forças Armadas eram a instituição mais confiável pela sociedade. Naquele momento, 42% dos entrevistados responderam que confiavam muito nos militares, 38% que confiavam um pouco e 19%, que não confiavam. Pesquisas anteriores tanto do Datafolha quanto da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, de 2014 a 2017, sempre mostraram as Forças Armadas como a instituição mais confiável dos brasileiros.

O que está mudando esta imagem é o governo Bolsonaro. Desde a posse, houve duas fases distintas nesta relação. Na primeira, demarcada pela demissão humilhante do general Santos Cruz da Secretaria de Governo, havia uma crença de que o Exército poderia enquadrar o presidente. Bobagem.

Na segunda etapa, a partir da posse do general Luiz Ramos na Secretaria de Governo, e principalmente com a chegada do general Braga Netto na chefia da Casa Civil, o Exército embarcou completamente no governo. Os generais do Palácio do Planalto passaram a misturar os seus desejos legítimos de fazer o governo dar certo como uma missão das Forças Armadas. Essa confusão entre o poder dos generais e a imagem das Forças Armadas terá um preço.

Desde o início da pandemia do coronavírus, o presidente tomou duas atitudes coordenadas que marcarão o futuro do seu mandato e, por consequência, da relação dos militares com a sociedade. A primeira foi minimizar a doença, boicotar o trabalho científico dos técnicos do Ministério da Saúde, romper com os governadores que decretaram interdições em seus Estados, incentivar o desrespeito às quarentenas e abrir uma gigantesca frente de guerra contra o Supremo Tribunal Federal pelo direito de intervir nos Estados. Este movimento incluiu o expurgo de ministros considerados pouco confiáveis (Luiz Mandetta e Sergio Moro), o uso da Polícia Federal contra governadores adversários (Wilson Witzel e Helder Barbalho) e o incentivo às manifestações pela volta da ditadura.

Simultaneamente, Bolsonaro passou a usar abertamente a possibilidade de uma intervenção militar como uma alternativa possível no impasse com o STF. Bolsonaro convenceu a maior parte da oficialidade de que as ações do STF estavam limando o Poder Executivo e que ele, apesar dos maus modos, era a vítima da relação. Mesmo entre os poucos militares que vocalizam críticas ao capitão Bolsonaro, todos consideram que o STF “passou do ponto”.

As Forças Armadas também. Ao aceitar a indicação, ainda que provisória, do general Eduardo Pazuello para o Ministério da Saúde, o Exército cometeu um dos maiores erros dos últimos anos. Sem nenhuma experiência em saúde, Pazuello se cercou de outros militares igualmente inexperientes para tornar-se gerente da pior gestão de combate ao coronavírus no mundo.

Nos 30 dias em que o general comanda a pasta, o número oficial de contaminados  quase quadruplicou (foi de 218 mil para 888 mil), enquanto o número oficial de mortos quase triplicou (de 14.800 no dia 15 de maio para 43.900 casos na 2ª feira). O Brasil já é o 2º país com maior número de mortos e registrou em 7 dias a maior média diária de óbitos provocados pelo novo coronavírus em todo o mundo. Projeção do  Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde da Universidade de Washington, usada pela Casa Branca nos seus monitoramentos, aponta que o Brasil pode se tornar o país com o maior número de mortos do mundo em 29 de julho. Se não houver nenhuma mudança significativa no avanço da pandemia no país, o Brasil teria 137.500 mortos e os EUA, 137.000. É uma tragédia da qual os militares não terão como se livrar.

Em vez de enfrentar o negacionismo do presidente, os militares do Exército cumpriram ordens. Primeiro, eles relaxaram o acesso dos pacientes à cloroquina, droga com efeitos contraditórios no tratamento da covid-19. Depois se envolveram numa estúpida tentativa de manipulação dos dados sobre mortos e contaminados, encerrada por uma pressão da Justiça e a possibilidade de o governo ser desmoralizado pela coleta de informações de um consórcio de jornais. Em vez de cuidar dos pacientes, os militares no Ministério da Saúde foram censurar as planilhas –um dano ao país que juraram servir.

O governo Bolsonaro eventualmente vai passar. Exército, Marinha e Aeronáutica, como instituições de Estado, ficarão. Poderão sair com o respeito que obtiveram ao longo de todos os governos democráticos ou pela porta dos fundos, sendo usados para pressionar as instituições para uso político do detentor do poder e sócias de um desastre sanitário que vai marcar uma geração.

Há sempre alternativas. Em dezembro de 1989, com Fernando Collor eleito e o Brasil em um processo de hiperinflação, o então ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega propôs ao presidente José Sarney que ele renunciasse para antecipar a troca de poder. Sarney chamou uma reunião de apenas 10 ministros, sendo 5 militares. Maílson explicou a situação e o exemplo argentino de Raúl Alfonsin que havia renunciado em circunstâncias semelhantes para dar posse a Carlos Menem.

Maílson foi interrompido pelo então ministro do Exército, o general Leônidas Pires. O general lembrou que a renúncia mancharia a imagem dos militares na transição democrática e que o presidente “não tinha direito de sair e deixar uma bomba-relógio”. Ao final, a posição legalista do general Pires prevaleceu e em março de 1990, o país completou a sua transição para o primeiro governo eleito desde 1961. Assim como naquele impasse, também agora os militares têm a opção de tomar as melhores decisões.

*  Thomas Traumann, 52 anos, é jornalista, consultor de comunicação. Trabalhou nas redações da Folha de S. Paulo, Veja e Época, foi diretor das empresas de comunicação corporativa Llorente&Cuenca e FSB, porta-voz e ministro de Comunicação Social do governo Dilma Rousseff e pesquisador de políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Dapp). 

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Este artigo foi publicado originalmente pelo portal Poder360 [Aqui!].

Vergonha internacional para Jair Bolsonaro e para o Brasil

“Brasil acima de tudo”? Dezoito meses após a posse do presidente Bolsonaro, seu lema é o oposto. Uma vez que a imagem positiva é destruída, muitos amantes do país ficam perturbados.

Brasil Jair Bolsonaro comendo cachorro-quente (Reuters / A. Machado)Bom apetite: Jair Bolsonaro puxa sua máscara para comer um cachorro-quente

Quando ela se encontra com seus amigos alemães, ela agora abaixa a cabeça. “Em certos círculos, sinto vergonha quando digo que sou do Brasil”, diz Bianca Donatangelo. “Nunca foi assim antes.”

Alemanha Brasil Bianca DonatangeloBianca Donatangelo: “Uma tristeza indescritível”

A brasileira é editora-chefe da “Tópicos”, revista  da Sociedade Alemã-Brasileira (DBG). Como muitos outros compatriotas, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a leva ao desespero.

“Está destruindo nosso país, é incrivelmente triste”, diz ela em entrevista à Deutsche Welle. E ela tem certeza: “O Brasil não se livrará dessa má reputação tão cedo, mesmo que um novo governo chegue”.

De anfitrião da Copa do Mundo a forasteiro

O acidente no Brasil é de tirar o fôlego. Há dez anos, o país estava prestes a ultrapassar a França como a quinta maior economia do mundo. Agora caiu para o décimo segundo lugar. Atualmente, a renda per capita no Brasil é um terço menor que a dos chineses.

“O Brasil estragou tudo?” (O Brasil estragou tudo?). Já em setembro de 2013, o “economista” britânico abordou a crise no maior país da América Latina. Nesse ponto, a queda do país ainda não era previsível em sua verdadeira extensão.

Pelo contrário: o Brasil se apresentou como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. E também estava se tornando cada vez mais autoconfiante.

Por causa dos governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) e sua sucessora Dilma Rousseff (2011-2016), o Brasil ganhou reputação internacional. 

capa

Profético: A capa da revista “Economist” de 28 de setembro de 2013. “O gigante verde está despertando”

 

O país participou de missões internacionais da ONU no Haiti, no Congo e nas Colinas de Golã. E foi o líder diplomático no grupo de economias emergentes, os chamados países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Internacionalmente, foi dada muita atenção ao êxito da luta contra a pobreza com vários programas sociais, que ajudaram cerca de 30 milhões de brasileiros a avançar para a classe média. O correspondente do Brasil, Alexander Busch, resumiu o humor eufórico no título de seu livro, publicado em 2009: “Economic Power Brazil. The Giant Green Awakens”.

O lado sombrio  do Brasil

A euforia agora evaporou. “A imagem positiva se foi”, diz Friedrich Prot von Kunow, presidente da Sociedade Alemã-Brasileira, que foi embaixador no Brasil entre 2004 e 2009.

O diplomata atualmente não vê “nenhum progresso social, mas um desastre econômico”. Sua conclusão: “Do ponto de vista alemão, uma personalidade como Bolsonaro é inconcebível. Também é muito difícil para mim pessoalmente”.

Para a brasileira Bianca Donatangelo, o lado sombrio de sua terra natal é revelado pelo governo Bolsonaro. “No Brasil, quatro mulheres são assassinadas todos os dias, e a discriminação contra negros e indígenas está profundamente enraizada na sociedade”, explica ela. “Mas esses tópicos geralmente são suprimidos”.

gripezinhaApenas uma “gripezinha” para o Presidente do Brasil: valas comuns estão sendo escavadas para os mortos do COVID-19 em São Paulo

Isolamento internacional

Bolsonaro continua a impulsionar o isolamento internacional do Brasil. Como seu modelo político, o presidente dos EUA, Trump, ele ameaça deixar o acordo climático de Paris, deixar a Organização Mundial da Saúde e transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém.

“Bolsonaro é ainda mais radical que Trump na crise do coronavírus”, disse o especialista brasileiro Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Universidade Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. “A assinatura do acordo de livre comércio entre o mercado sul-americano Mercosul e a UE está se tornando cada vez mais improvável”, twittou recentemente.

trump bozo

Trump e Bolsonaro parecem ter mais em comum do que apenas um sorriso envolvente

A Alemanha e a Noruega também estão se mantendo à distância . Devido ao aumento dramático do desmatamento na Amazônia brasileira, eles congelaram temporariamente o dinheiro para a proteção florestal em agosto de 2019. O Ministério do Desenvolvimento Alemão (BMZ) está procurando novos parceiros de cooperação no país e está ficando sem projetos existentes.

“Não mostre o ombro frio”

A indústria alemã no Brasil, que Bolsonaro apoiou por sua agenda econômica liberal, agora está sofrendo com a perda de imagem do país. “Não há dúvida de que o Brasil e a América Latina se tornaram significativamente menos atraentes”, disse Philipp Schiemer, chefe da Mercedes-Benz do Brasil, em entrevista ao jornal de negócios alemão “Handelsblatt”.

No entanto, Schiemer não vê tudo de maneira negativa: “O governo tornou as leis trabalhistas mais flexíveis para que demissões em massa ainda não ocorram como nos Estados Unidos”, diz ele. “E ela rápida e eficientemente organizou ajuda financeira de emergência para os pobres”.

Mesmo que a brasileira Bianca Donatangelo não encontre nada de positivo no governo de Bolsonaro: ela está convencida de que seria errado mostrar ao Brasil o ombro frio no momento. “Por causa da crise, você não pode simplesmente jogar toda a história e cultura do país no lixo”, diz ela. “Bolsonaro não é o Brasil.”

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Este artigo foi publicado originalmente em alemão pela Deutsche Welle [Aqui!].