COVID-19: tentativas e erros no desconfinamento social equivalem a jogar gasolina em incêndio

cemiterio

Ao contrário da imagem inicial de que a pandemia da COVID-19 funcionaria como uma sequência de ondas que se sucederiam em amplitude menor (a primeira onda sendo a maior de todas) está sendo substituída por outra, a de um incêndio florestal. Nessa versão, enquanto houver material para queimar, o fogo vai continuar ardendo. 

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Se usarmos a imagem do incêndio nos cenários de desconfinamento que estão sendo usados no Brasil ao arrepio do conhecimento científico acumulado em quase 4 meses de vigência, e agora crescimento descontrolado da pandemia, veremos que governadores e prefeitos que estão relaxando as medidas de confinamento estão apenas jogando mais material para ser queimado, reavivando o incêndio sem que ele tenha dado mostras de que iria ser extinguido.

O problema é que o material que está sendo consumido não é composto de árvores mortas, galhos e folhas, mas de vidas humanas.  No dia de hoje (30/06), a contagem oficial (e subnotificada) é de que quase 1,5 milhão de pessoas já foram infectadas e quase 60 mil já morreram por complicações causadas no Brasil.  Esse número de mortos é quase 100 vezes mais o que o presidente Jair Bolsonaro previu logo no início de sua cruzada contra as regras de confinamento, mas a contagem continua se acelerando. Lembremos que em março, Bolsonaro previu (equivocadamente) que o número de mortos pelo coronavírus não alcançaria os 796 causados pelo vírus H1N1 (ver o vídeo abaixo).

Culpados para esse verdadeiro massacre são muitos, começando na presidência da república e chegando até os comerciantes que pressionam prefeitos e trabalhadores de que é preciso trocar vidas humanas por um simulacro de retomada da normalidade. Somado a isso a fragilização do Sistema Único de Saúde (SUS), temos as condições perfeitas para o levantamento das chamas que cada vez mais se aproximam de nós, levando ou mutilando pessoas conhecidas.

Aqui em Campos dos Goytacazes vejo com um misto de “eu já sabia” e pasmo, a decisão do jovem prefeito Rafael Diniz de permitir a reabertura do comércio e igrejas (muitas delas comércios da fé) a partir de amanhã. A alegação, absurda é preciso se frisar, é que se chegou a um equivalente aceitável entre leitos e doentes, desconhecendo por completo as evidências de que há uma gritante subnotificação de casos.

Alguém já disse, e eu assino embaixo, que de Rafael Diniz, o exterminador das políticas sociais que protegiam minimamente os pobres, não se poderia esperar muito, já que seu governo sempre agiu controlado pelo princípio da necropolítica. E não seria agora que Rafael Diniz se elevaria à condição de estadista que a cidade de Campos dos Goytacazes precisaria para enfrentar uma pandemia letal.  Ainda que isso seja verdade, não deixa de ser chocante a tomada de uma decisão que ignora o conhecimento científico já firmado sobre o fato que um confinamento social estrito é a única forma conhecida de conhecer a pandemia da COVID-19 até que a onda passe ou as chamas do incêndio virem brasas dormentes.

Interessante notar que em Goiás e Paraná, estados que juntos não possuem números que cheguem sequer próximos dos registros no Rio de Janeiro, os governadores estão restabelecendo medidas mais duras de confinamento social após detectarem o crescimento vertiginoso do número de casos. E olhe que estamos falando de Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior, dois governadores conhecidos por suas posições de direita. Mas o processo está sendo reimposto na cidade de Belo Horizonte, governada por Alexandre Khalil, que não é nem de perto uma pessoa que defende ideias de esquerda.

A verdade é que para se combater a ampliação do caos causado pela COVID-19 não devemos nos guiar pela posição do espectro político em que possamos estar, mas pelas evidências científicas já amealhadas para conter e controlar a pandemia. Essa seria uma questão simples para ser entendida, mas que em um país no qual o novo ministro da Educação é pego mentindo sobre o seu currículo acadêmico de forma explícita e não é demitido sumariamente, isto evidentemente não é. Está mais claro do que nunca que as elites brasileiras se preocupam pouco com as evidências científicas, e muito mais com suas próprias necessidades de gerar lucro, nem que isso custe algumas milhares de mortes a mais. Até porque a ciência já demonstrou que quase 70% dos mortos pela COVID-19 no Brasil fazem parte da classe trabalhadora, que é para essas elites apenas material descartável que pode ser consumido no incêndio.

Por isso, aos que estão sendo empurrados para o desconfinamento precoce e jogados à própria sorte dentro do olho do furacão, restará a adoção das medidas de minimização da contaminação pelo coronavírus. Será deste disciplina coletiva que poderá sair o controle que não tem sido propiciado pela ação governamental.

Mas que fique claro que a história irá registrar quem foi que ajudou a manter o fogo aceso.   Por ser exatamente por isso que os historiadores sejam tão detestados no Brasil.

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