Relatório do Greenpeace/Alemanha aponta que Acordo EU/Mercosul aumenta as ameaças à biodiversidade

As duas dimensões dos venenos agrícolas: como as empresas da UE e da Alemanha se beneficiam do comércio de pesticidas perigosos para a biodiversidade

 

greenpeace pestizides

O Governo alemão não impede as empresas europeias de exportarem para o Brasil e distribuírem  ingredientes ativos de agrotóxicos altamente venenosos para as abelhas, e que estão proibidos na União Europeia (UE).  Estes fatos são apresentados em um estudo produzido pelo Greenpeace, que foi lançado no Dia Mundial da Biodiversidade que foi celebrado este ano no dia 22 de maio. Os agrotóxicos são uma parte essencial da agricultura industrializada, que, por sua vez, é parcialmente responsável pela perda da biodiversidade.

Segundo a análise apresentada no relatório do Greenpeace/Alemanha, por  exemplo, muito mais de metade dos ingredientes ativos comercializados pela Bayer e pela BASF no Brasil estão classificados como agrotóxicos altamente perigosos, e alguns deles estão proiboidos na UE.  Exemplo disso são os ingredientes ativos do fipronil, imidaclopride e clorpirifos, que são altamente perigosos para as abelhas (para mais informações ver (Aqui!).

“Estes agrotóxicos são venenosos para a biodiversidade”, diz Jürgen Knirsch, especialista do Greenpeace em questões comerciais. “É por isso que já não estão no mercado europeu. Mas a UE está fazendo um jogo duplo: O que é demasiado perigoso aqui ainda pode obviamente vir para o campo no Brasil – o principal é que o lucro está certo”.  O Brasil é de imensa importância para a biodiversidade, mas ao mesmo tempo é um dos maiores consumidores de pesticidas do mundo. E está a crescer rapidamente. “O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, não quer saber da preservação da biodiversidade, da proteção do clima ou da saúde humana”. Por conseguinte, a Greenpeace apela no sentido da aplicação de uma política comercial sustentável com regras vinculativas em  matéria de protecção do clima e das espécies, de proteção dos direitos humanos, e de normas laborais fundamentais.

Acordo UE-Mercosul: mais venenos para a biodiversidade

A UE negociou um acordo comercial com os Estados do Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – que agravaria muitos problemas sociais e ambientais nos seus países-membros. O acordo, atualmente em processo de ratificação, permitirá aos países do Mercosul exportar grandes quantidades de carne bovina e de frango para a UE em condições pautais favoráveis. Isto aumentaria a procura de soja forrageira – que é cultivada com agrotóxicos altamente tóxicos, como o clorpirifos e o fipronil.  Os agrotóxicos, por sua vez,  serão exportados por empresas europeias para a América do Sul, embora já não sejam mais permitidas na Europa.  Espera-se também que o acordo elimine as tarifas existentes sobre a importação de agrotóxicos, o que provavelmente irá aumentar ainda mais as vendas.

A biodiversidade já está sob enorme pressão; por exemplo, só em Janeiro de 2019, morreram 500 milhões de abelhas no estado brasileiro de Santa Catarina devido aos
agrotóxicos utilizados no cultivo da soja.  Na Europa, a resistência ao acordo do Mercosul está aumentando. Mas enquanto países como a Áustria e  a França pedem melhorias nos termos do acordo,  a Alemanha, entre todos os países, está exercendo pressão no sentido de uma ratificação rápida. “Se a Alemanha não puser termo ao acordo na sua forma atual, será uma recompensa e uma confirmação para  as políticas de Bolsonaro, que está a espezinhar a proteção ambiental”, resume Knirsch. “Como vai ocupar a Presidência do Conselho da UE no segundo semestre de 2020, o governo alemão tem os meios para agir”.

Para baixar o relatório do Greenpeace da Alemanha, basta clicar [Aqui!]

Os interessados em obter maiores informações sobre este relatório devem contactar Jürgen Knirsch, Tel. 0171 8780 816 ou a assessora de imprensa Agneta Melzer, Tel. 0171
7249543. 

Com o governo federal paralisado, a pandemia avança para os rincões do Brasil

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No último dia do mês de maio, o Brasil está fortemente consolidado como o segundo principal foco da COVID-19 no mundo, tendo já ultrapassado 500.000 infectados e beirand os 30.000 mortos, apenas se considerando os dados oficiais. E isso é especialmente lamentável porque não teria que ter sido assim, já que o Brasil teve tempo suficiente para evitar a confirmação dos piores cenários (ver tabela abaixo).

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O avanço da pandemia no Brasil caminha “pari passu” com a paralisia do governo Bolsonaro, que após demitir dois ministros da Saúde que procuravam imprimir um mínimo de racionalidade científica às ações do governo federal (e quando digo mínimo é isso mesmo, mínimo). Após a demissão de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, e a ascensão de uma espécie de protetorado militar no Ministério da Saúde, o fato objetivo é que se perdeu qualquer capacidade de gestão centralizada. O resultado dessa ação, orquestrada a partir das posições negacionistas do presidente Jair Bolsonaro, foi o avanço rápido da ascensão da curva de contaminação e, consequentemente, de mortos.

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Plataforma criada para analisar avanço da COVID-19 mostra rápida interiorização da pandemia no Brasil.

É essa natureza política do avanço da pandemia que tornou o Brasil um concorrente sério a passar das 100.000 mortes por COVID-19.  Mas o pior é que se persistirem os esforços para reabrir o comércio, o número de óbitos poderá ser o dobro do que o limite atualmente estipulado.  Nesse caso, é preciso enfatizar que as pressões para reabrir atividades não- essenciais resultam da indisposição do ministro Paulo Guedes em liberar recursos para as micro- e pequenas empresas que têm carregado o piano nas costas em meio a uma crise econômica que já perdura desde 2016.  Guedes manifestadamente só se preocupa com os bancos, em uma espécie de “cuidar dos seus” já que ele é ligado diretamente ao setor.

Em outras palavras, o avanço da pandemia no Brasil tem origem em uma opção de gestão da nossa economia com olho na saúde dos bancos, e não do povo, especialmente dos segmentos mais pobres. Tivesse o governo Bolsonaro qualquer preocupação real em conter a pandemia, uma linha especial de crédito, tal qual a que foi criada para as grandes instituições financeiras, já teria sido criada, retornando os R$ 20 bilhões que foram retirados do orçamento do Ministério da Saúde em 2019. Mas nem gastar o que foi orçado para o ano de 2020 está se gastando.

Com surto em lar de idosos e frigorífico, Passo Fundo tem mais ...Trabalhadores de frigoríficos estão entre mais contaminados por coronavírus no Brasil.

Um aspecto que tem sido negligenciado no avanço da pandemia é aquele que revela que os grandes focos de contaminação estão hoje associados ao agronegócio e à mineração, com milhares de casos sendo concentrados em frigoríficos e áreas de mineração, onde os trabalhadores seguem sendo obrigados a se expor ao coronavírus para manter as atividades das grandes empresas aptas a exportar suas commodities agrícolas e minerais, aumentando ainda mais a concentração da renda no Brasil. A razão dessa negligência é só uma: o agronegócio e as mineradoras são aliadas de primeira hora do presidente Jair Bolsonaro, e cada vez mais são estratégicas para a sua manutenção no poder. Em troca desse apoio, esses setores receberam uma espécie de passe livre para expor seus trabalhadores aos riscos de contaminação.

Por isso, considero que todos os ruídos que estão sendo causados nas redes sociais e nas ruas pelos apoiadores do governo Bolsonaro não passam de uma tática diversionista para permitir que as ações anti-nacionais e anti-povo continuem sendo realizadas, no melhor estilo “passa boiada” de Ricardo Salles.  Mas não há propaganda de cloroquina que possa apagar as evidências já consolidadas de que o presidente Jair Bolsonaro tem sido uma espécie de “melhor amigo do coronavírus”, e as pesquisas de opinião pública revelam claramente que a maioria das pessoas já entendeu isso perfeitamente. 

“Basta!”: Juristas compram página inteira da Folha e do Estadão para divulgar manifesto contra Bolsonaro

Manifesto que condena ataques de Bolsonaro às instituições e que prega o fim da “noite de terror que cobre o país” é assinado por mais de 600 renomados juristas; leia aqui em primeira mão

BASTA

Um grupo de mais de 600 juristas comprou uma página inteira dos jornais Folha de S. Paulo e Estadão para divulgar, como um informe publicitário, um manifesto contra o presidente Jair Bolsonaro e seus constantes ataques às instituições.

O manifesto, intitulado “Basta!”, será publicado nas edições de domingo (31) dos dois jornais paulistas (ver figura abaixo).

Basta!

No texto, os juristas afirmam que “o Brasil, suas instituições, seu povo não podem continuar a ser agredidos por alguém que, ungido democraticamente ao cargo de presidente da República, exerce o nobre mandato que lhe foi conferido para arruinar com os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito, contra a saúde dos brasileiros, agindo despudoradamente, à luz do dia, incapaz de demonstrar qualquer espírito cívico ou de compaixão para com o sofrimento de tantos”.

“Todos nós temos a firme convicção de que o Direito só tem sentido quando for promotor da justiça. Todos nós acreditamos que é preciso dar um BASTA a esta noite de terror com que se está pretendendo cobrir este país”, diz ainda o manifesto, que é finalizado com a seguinte frase: “Sejamos intolerantes com os intolerantes!”.

Entre as mais de 600 assinaturas, estão a de juristas de renome, como de Antonio Claudio Mariz de Oliveira, Dalmo Dallari, Celso Lafer, Pedro Estevam Serrano e Mario Sergio Duarte Garcia, Sebastião Tojal, Claudio Lembo.

Confira aqui, em primeira mão, a íntegra do texto.

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Este texto foi originalmente publicado pela “Revista Fórum” [Aqui!].

A encruzilhada de Bolsonaro

Sustentação de popularidade em segmentos mais pobres da população benefício emergencial de R$ 600 cria situação quase implausível para o presidente que foi eleito com o apoio das elites

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Segundo artigo do colunista Josias de Souza, que não é propriamente um bolchevique, estando mais para uma das mais conservadoras vozes na mídia corporativa brasileira, a mais recente pesquisa do Datafolha indica que Jair Bolsonaro mostra que sua popularidade não despencou porque a passou a ser escorada  no segmento do eleitorado que passou a receber o chamado “coronavoucher”  de R$ 600,00.

Além disso, Josias de Souza aponta que, dos 33% que apoiam Bolsonaro,  apenas 22% são bolsonaristas empedernidos, enquanto que os  11% são compostos por eleitores pobres que não votaram nele, mas foram seduzidos pelo “coronavoucher“.

Assim, sem apoio dos mais pobres, Jair Bolsonaro já estaria em apuros maiores do que já se encontra, porque sua taxa de reprovação saltou de 38% no mês passado para 43% agora.

Essa dependência dos mais pobres coloca Jair Bolsonaro e as políticas ultraneoliberais em uma encruzilhada, na medida em que se não prolongar para além de três meses o pagamento do auxílio emergencial criado pelo Congresso Nacional, o seu índice de popularidade beirará um limite bastante crítico, do qual não poderá se levantar facilmente. E isto já se sabe, poderia ser a senha para um rápido processo de impeachment.

Por outro lado, se estender o “coronavoucher” ou ainda um auxílio pós-pandemia, o que estará em jogo será a permanência de Paulo Guedes e sua equipe de economistas ultraneoliberais. O nó do laço fica ainda mais apertado porque inevitavelmente há o risco dos níveis de desemprego atingirem níveis estratosféricos ainda em 2020.

Então esqueçam dos embates de fachada porque a encruzilhada do presidente Jair Bolsonaro é quase um beco sem saída, estando já muito próxima de uma sinuca de bico. Talvez por isso, as declarações mais ácidas do que costume nos últimos dias.

 

A blitz em Wilson Witzel e o aprofundamento da crise política no Brasil

witzel bolsoO hoje governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC/RJ), posando com camisa do então candidato Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018.

A população do Rio de Janeiro amanheceu mais uma vez com notícias de ações da Polícia Federal para apurar supostas irregularidades na área da Saúde cometidas por um governador em exercício, no caso o ex-juiz Wilson Witzel. Essa operação alcunhada de “Placebo” por causa de alegado superfaturamento na montagem dos famigerados hospitais de campanha é uma espécie de “déjà vu” porque nos últimos anos tivemos casos rumorosos envolvendo os ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão.

A diferença nesse caso é a rara celeridade com que a detecção das supostas irregularidades no governo estadual do Rio de Janeiro resultou em uma operação da Polícia Federal que a mídia corporativa informa está vasculhando endereços oficiais e pessoais de Wilson Witzel.  E, curiosamente, com um destacamento da Polícia Federal lotada no Distrito Federal.

Essa celeridade inaudita já levanta o espectro da perseguição política por parte do presidente Jair Bolsonaro que hoje tem em Witzel um enorme desafeto. Contribuiu para a presença desse espectro, as declarações de véspera da deputada federal Carla Zambelli (PSL/SP) (uma das ardorosas aliadas da família Bolsonaro no congresso nacional) que teria previsto com o poder de um oráculo a deflagração da operação policial de hoje. Se isso for confirmado, há, inclusive que se apurar se isso não contribuiu para a destruição de provas, já que entre o anúncio de Zambelli e a deflagração da operação Placebo passaram-se horas suficientes para destruir um caminhão de provas.

Mas colocando-se de lado a evidente disputa política que ocorre atualmente entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador fluminense, ninguém pode discordar de que é necessário apurar se realmente, em meio a uma pandemia letal, ocorreram crimes contra o estado do Rio de Janeiro com a prática de sobrepreço, por exemplo.  Ser contra a apuração e a punição de crimes de corrupção não parece razoável, especialmente se isso ocorre quando milhares de pessoas estão pessoas por falta de estruturas próprias de saúde.

Além disso, é preciso lembrar que, embora brigados no momento, Jair Bolsonaro e Wilson Witzel são praticamente inseparáveis em termos ideológicos, especialmente no que tange ao uso da força extrema para obter um apaziguamento social que se mostra totalmente deletério para o interesse da maioria pobre da população fluminense. A ligação entre Bolsonaro e Witzel é tão grande que o secretário de Ciência e Tecnologia, Leonardo Rodrigues, um dos acusados de terem praticados crimes de corrupção, é o segundo suplente do senador Flávio Bolsonaro, tendo convivido de forma próxima com o próprio presidente Jair Bolsonaro.

xleonardo_flavio.jpg.pagespeed.ic.YTdaazNep0Leonardo Rodrigues, suplente de Flávio Bolsonaro e atual secretário de Ciência e Tecnologia Foto: Reprodução / Redes Sociais

Além disso, sob o comando de Wilson Witzel, as polícias do Rio de Janeiro adotaram uma tática de violência extrema dentro de comunidades controladas pelo narcotráfico, o que motivou o jornal estadunidense a publicar uma longa matéria intitulada “License to Kill: Inside Rio´s Record Year of Police Killings” (ou em português “Licença para matar: dentro do ano recorde de assassinatos pela polícia”). Nesse sentido, há ainda que se lembrar que mesmo durante a pandemia da COVID-19, ocorreram diversos assassinatos de jovens negros dentro de comunidades da cidade do Rio de Janeiro, sendo que em algumas delas as operações policiais ocorreram durante a distribuição de cestas básicas para famílias que se encontram em dificuldades para adquirir alimentos.

license to killMatéria publicada pelo “The New York Times” no dia 18 de maio de 2020 abordou as ações letais em número recorde realizadas pela polícia fluminense em comunidades pobres da região metropolitana do Rio de Janeiro em 2019.

Desta forma, me parece que qualquer propensão a tomar posição em favor de Wilson Witzel em razão da possível interferência do presidente Jair Bolsonaro deverá levar em conta os diversos aspectos envolvendo não apenas os fatos já publicizados sobre as acusações de corrupção envolvendo o governo do Rio de Janeiro, mas também a natureza da relação política que levou os dois ao poder.

De toda forma, há ainda que se esperar o pronunciamento do governador Wilson Witzel, um ex-juiz com esperada experiência na análise processual deste tipo de operação. Se ele encontrar furos nos procedimentos que levaram à autorização da operação Placebo, é bem provável que ele saia rapidamente da defesa para o ataque. E dependendo do calibre que ele tiver nas mãos para realizar este contra-ataque, é bem possível que tenhamos um aprofundamento ainda maior da crise política que hoje se mistura com o avanço da pandemia da COVID-19.

O conveniente silêncio do Escola Sem Partido sobre a “Escolinha do professor Bolsonaro”

esp bolsonaroDeputado federal Eduardo Bolsonaro durante debate realizado em 2017 sobre Projeto Escola sem Partido na Comissão Especial da Câmara dos Deputados

O movimento “Escola Sem Partido” ganhou notoriedade nos últimos anos no Brasil por seu suposto esforço para eliminar das escolas brasileiras a contaminação político-ideológica provocada por “um exército organizado de militantes travestidos de professores prevalece-se da liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo.”

Mas agora que o governo Bolsonaro está literalmente destroçando a autonomia universitária e encurtando ainda mais os investimentos em educação, o “ESP” mantém-se em uma posição silenciosa, enquanto continua atuante na tentativa de impor leis inconstitucionais que firam o pouco da liberdade de cátedra que seus membros tanto abominam.

O interessante é que neste momento, tanto na presidência da república como no Ministério da Educação (MEC) estão dois personagens que não hesitam em utilizar termos os quais certamente o ESP não iria querer ver sendo proferidas em sala de aula, mas, que, entretanto, não motivou ainda nenhum pedido de polidez pública por parte de um movimento que não hesitaria em pedir a demissão de qualquer professor que fizesse isso em sala de aula (vejam exemplo no vídeo abaixo que reproduz sequencialmente  falas do presidente Jair Bolsonaro durante a agora famosa reunião ministerial de 22 de abril).

Erro
Este vídeo não existe

Esse absoluto silêncio do ESP sobre a “Escolinha do professor Bolsonaro” é particularmente revelador da dupla moral que orienta seus militantes. É que o ESP afirma em sua declaração programática que “basta informar e educar os alunos sobre o direito que eles têm de não ser doutrinados por seus professores; basta informar e educar os professores sobre os limites éticos e jurídicos da sua liberdade de ensinar.” 

Entretanto, isso só parece valer para aqueles conteúdos que soam de “esquerda” para os militantes do ESP, pois o silêncio para o que emerge da “escolinha do professor Bolsonaro”, não há contrariedade alguma para ser explicitada. Isto é, por sua vez, revelador das reais intenções de um movimento que se apresenta como contrário à doutrinação, mas objetivamente possui elementos doutrinários claros. E estes seguem na mesma linha do “pofexor” Bolsonaro, apesar do rompimento público que supostamente ocorreu em 2019.

As entranhas do governo Bolsonaro são expostas ao vivo na TV

reunião

A tarde hoje começou com uma ameaça nada velada do general da reserva e do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno Ribeiro Pereira, que chegou a falar em uma ameaça institucional caso seja aprovada a decisão de recolher o telefone celular do presidente Jair Bolsonaro (ver imagem abaixo).

carta general heleno

A manifestação do general Heleno foi entendida por muitos como uma ameaça ao Supremo Tribunal Federal às vésperas da decisão do ministro José Celso de Mello Filho sobre a liberação do vídeo completo da reunião ministerial do dia 22 de abril que terminou motivando o pedido de demissão do então ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Se a intenção do general Heleno foi realmente coagir a decisão do ministro decano do STF, Celso de Mello, a aposta foi um famoso “tiro pela culatra”, pois neste momento milhões de brasileiros já estão assistindo ao vídeo da reunião ministerial de 22 de abril no que pode ser classificada como uma exposição ao vivo das vísceras de um governo em plena pandemia da COVID-19.

Das partes que já foram mostradas, a mais significativa é a que indica que o ex-ministro Sérgio Moro efetivamente foi pressionado a mudar a direção da Polícia Federal no estado do Rio de Janeiro por causa do medo expresso pelo presidente Jair Bolsonaro de que amigos e familiares poderiam ser alcançados por investigações em curso.

Obviamente outras partes, especialmente aquela em que o presidente Jair Bolsonaro diz querer “armar o povo” para impedir uma ditadura.  Esse “armar o povo” certamente demandará a explicação a que o povo se referiu o presidente.

Com certeza, os próximos dias serão cheios de novas imagens dessa reunião, o que deverá aprofundar ainda mais a crise política que consome o Brasil em um momento que milhares de brasileiros estão morrendo por causa da COVID-19.

Para quem tiver interesse em ler a íntegra do que foi dito durante a reunião ministerial de 22 de abril, basta clicar Aqui!

Financial Times prevê mais de 100.000 mortos por COVID-19 no Brasil

APTOPIX Virus Outbreak BrazilFinancial Times prevê que número de mortos por COVID-19 no Brasil deverá ultrapassar 100.000 nos próximos meses

O jornal britânico “Financial Times”, que não chega nem de perto de ser uma versão contemporânea do “Gazeta Renana” de Karl Marx, publicou ontem um artigo assinado pelos jornalistas Bryan Harris e Andres Schiapini sob o título “Brazil emerges as a top global coronavirus hotspot” (ou em português “O Brasil emerge como um dos principais epicentros de coronavírus do mundo”).   Com base nas previsões de vários especialistas consultados, Harris e Schiapini apontam que mais de 100.000 brasileiros irão morrer por causa da COVID-19 no mundo, com a possibilidade de que este número esteja subestimado em função da flagrante subnotificação de casos e falta de uma política de testagem em massa da população.

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Entre as razões estruturais pelas quais a COVID-19 deverá ter um efeito tão devastador no Brasil está a profunda desigualdade social e econômica existente no Brasil, que torna extremamente difícil que os habitantes dos cinturões de pobreza extrema possam adotar as medidas de isolamento social que estão sendo propostas por governadores e prefeitos.  Uma expressão usada para exemplicar esta situação de superpopulação em áreas pobres,  Harris e Schiapini apontam que “as pessoas estão vivendo nas favelas umas em cima da outras”.

Um dado colocado na matéria é particularmente chocante para os que não conhecem o Brasil, pois é citada a cifra de que em 2019 ” a renda média mensal dos 1%  brasileiros mais ricos foi mais de 33 vezes a renda média dos 50% inferiores da população”. Tal desproporção de renda é que estaria alimentando a dispersão particularmente agressiva nas áreas mais pobres.

Entretanto, a matéria do Financial Times é particularmente crítica da postura adotada pelo presidente Jair Bolsonaro na gestão da pandemia da COVID-19 no Brasil, a pontos dos jornalistas incluírem a afirmação que o nosso país está enfrentando dois vírus neste momento: o coronavírus e o bolsonarovírus.  Harris e Schiapini apontam ainda que o tratamento da pandemia por Jair Bolsonaro já levou à saída de dois ministros da saúde, sendo que o último, Nelson Teich, foi substituído por um oficial militar, que não tem experiência na área da saúde ou no complexo serviço de saúde pública do Brasil.

A matéria lembra ainda que a gravidade do surto combinada com a falta de uma resposta política coerente abalou a confiança dos negócios e levou a moeda a cair.  Em função disso, desde janeiro, o real caiu 32% em relação ao dólar, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) deverá cair 7% ou mais em 2020.

O fato é que, dado o público leitor preferencial do Financial Times, esta matéria deverá repercussões sérias entre os chamados investidores internacionais. À parte da “toxicidade” do Real, a instabilidade social e política que deverá se seguir ao imenso número de mortos deverá tornar os investimentos no Brasil pouquíssimo interessantes, mesmo para especuladores do mercado financeiro.

Mas enquanto o Financial Times traça um perfil tão sombrio para a evolução da pandemia no Brasil, as elites econômicas e os governantes parecem estar em um processo paralelo de compreensão da realidade (como se vivem na “Matrix”  das irmãs Wachowski). É que apenas no dia de ontem, ouviu-se a mesma ladainha de que a vida precisa voltar ao normal e o comércio reabrir, inclusive na cidade do Rio de Janeiro onde a própria prefeitura estima que nas próximas duas semanas mais de 40.000 pessoas deverão ser infectadas pelo coronavírus.

Aliás, a cereja no bolo dos negacionistas da gravidade que a pandemia assumiu no Rio de Janeiro foi a volta aos treinos da equipe do Clube de Regatas do Flamengo. É que dada a imensa de massa de torcedores que o time tem não apenas no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil, as imagens dos seus jogadores batendo bola alegremente, como se não houvesse pandemia, certamente será usada em imagens televisivas para defender a volta ao trabalho.

A verdade inescapável é que se dependermos do compromisso do presidente Jair Bolsonaro e da maioria dos governadores e prefeitos, a pilha de mortos poderá ser maior do que o estimado na matéria do Financial Times. Esta é a verdade pura e simples, pois a realidade é que as elites brasileiras nunca se preocuparam com a vida (e muito menos a morte dos pobres que o modelo de capitalismo implantado no Brasil gerou). A saída para impedira concretização dos piores cenários para esta pandemia terá de sair da ação de movimentos sociais, sindicatos e da população organizada. Lamentavelmente esse esforço terá de se dar em meio à condições marcadas pela extrema miséria e pela violência do aparelho de estado, como vem ocorrendo no Rio de Janeiro nos últimos dias.

Boatos.org e o caso da tubaína: a pressa na verificação não é amiga da checagem dos fatos

wp-1590075395075.jpgMétodo de tortura por afogamento que foi utilizado pela Inquisição teria recebido o apelido de “tubaína” no Brasil.

Repercuti hoje neste blog uma postagem publicada pelo site “Diário do Centro do Mundo” que indicou que o termo “tubaína” utilizado recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro se tratava de uma referência a um método de tortura utilizado nos porões do regime militar.

Pois bem, mais tarde verifiquei o site “Boatos.org“. que se apresenta como um uma espécie de plataforma de checagem de veracidade (o famoso “fact checking”) de notícias, publicou uma material em que analisava o conteúdo da informação relacionando “tubaína” a um tipo específico de método de tortura. Após elencar uma série de elementos de checagem, o pessoal do “Boatos.org” concluiu que “não há comprovação de que Tubaína seja relacionada à tortura por afogamento tampouco é possível que Bolsonaro usou uma linguagem para o termo“. Com base nessa auto-constatação, o pessoal do Boatos.org concluiu que “tudo que é dito ao contrário disso é uma superinterpretação da fala sem provas que a embase“.

boatos

Pois bem, como este blog tem fontes com familiaridade nos recônditos da caserna, fiz a minha própria checagem e ouvi não apenas que Tubaína está de fato ligada a um uso, digamos,  metafórico com uma prática específica de tortura por afogamento, e que a mesma continua sendo praticada no Brasil, ainda que sem a mesma intensidade dos tempos mais duros do regime militar de 1964.

A minha conclusão é que a “Boatos.org” poderia ter seguido o meu exemplo e procurado contactar alguém com conhecimento além do registrado em livros e documentos para fazer uma verdadeira checagem dessa notícia. Ao não fazer isso, parece que a “Boatos.org” chancelou algo como que seria, no mínimo, uma “superinterpretação sem provas” de uma fala do presidente Jair Bolsonaro. Em suma, a pressa, como sempre, foi inimiga da perfeição. E, observo, em um caso particularmente sensível para o momento político que estamos vivendo em meio à pandemia da COVID-19.