Depois da pantomima Moro-Bolsonaro, voltemos à pandemia da COVID-19

Bolsonaro chora em reunião no Planalto por crise do coronavírus e ...

Depois de termos uma 6a. feira que mais pareceu uma pantomima mal enjambrada dada a crise mais do que anunciada entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, creio que podemos voltar a abordar os resultados do trágico avanço da pandemia da COVID-19 que continua se espraiando desde os grandes centros metropolitanas até o interior do Brasil.

Para não ficar apenas no plano teórico, mostro a situação atual da pandemia entre os 11 países mais afetados pelo coronavírus, chamando a atenção para o número oficial de óbitos do Brasil que agora é de 3.963 óbitos, o que torna o Brasil o 10.o colocado em termos de pessoas que morreram em decorrência da infecção.

placar coronavirus

Em grupos de negacionistas da pandemia, o número de mortos pela COVID-19 é comumente desprezado, pois outras causas matariam mais, e tudo o que está sendo dito pelo coronavírus seria, digamos, exagerado. Entretanto,  este desprezo não possui base real. É que, segundo dados oficiais para o estado de São Paulo, o novo coronavírus pode ser considerado a quinta causa mais letal, superando todo os tipos de câncer, dos acidentes de transporte, da diabetes e de doenças por hipertensão.

E é preciso lembrar que neste momento há uma forte subnotificação de casos de infecção de coronavírus em uma ordem que não foi corretamente estimada, já que o Brasil continua com o pior nível de testagem dentre os países que estão sendo mais impactados pela pandemia.  Eu já li e ouvi acerca de vários estimativas, variando na ordem de 7 a 100 casos não notificados para cada caso oficializado como COVID-19.

Uma das formas que tem sido utilizada para estimar as taxas reais de letalidade da COVID-19 é verificar o número de pessoas mortas por insuficiência respiratória (a chamada Síndroma Respiratória Aguda Grave – SRAG) que explodiu em 2020 em relação a anos anteriores, o que levado a vários especialistas médicos a apontar que essa diferença está diretamente ligada às infecções pelo novo coronavírus.

O problema é que os números persistentemente baixos de testes realizados no Brasil impedem uma estimativa mais próxima se já chegamos próximos do ponto de achatamento da curva das mortes ou não. O mais provável é que ainda estejamos na fase de disseminação comunitária do vírus, muito em parte por causa das pressões realizadas pelo presidente Jair Bolsonaro e seus aliados patronais contra as medidas de isolamento social que foram adotadas por governadores e prefeitos. 

Desta forma, me parece crucial que haja uma priorização das questões que estão postas para os brasileiros neste momento. A prioridade é e continuará sendo impedir que o Brasil se torne o próximo epicentro mundial da pandemia do coronavírus. Mas para impedir que o pior aconteça, vai ser preciso não apenas ampliar as medidas de contenção sanitária da dispersão do coronavírus, mas também os mecanismos de suporte aos segmentos mais pobres da população onde a pandemia está fincando raízes neste momento. Ainda que tenhamos exemplos interessantes de auto-organização das comunidades como nos casos de Paraisópolis em São Paulo e no Santa Marta no Rio de Janeiro, é preciso que haja uma coordenação desses esforços, já que sozinhas essas comunidades não terão como fazer frente à pandemia.

Muito se fala sobre os mecanismos de diálogo com a população, de modo a quebrar a inércia política em que o país está imerso. Pois bem,  para que haja a quebra da inércia, as pessoas vão ter que estar vivas após a pandemia. Assim, impedir a explosão descontrolada da COVID-19 é a principal, e talvez única, prioridad que todos os democratas deveriam ter neste momento no Brasil.  As querelas palacianas, convenhamos, podem esperar.

O delírio de Crapulinski

A demissão de Moro parece endereçar o governo Bolsonaro em rota cada vez mais próxima ao abismo.

bolsonarto crapulinski

Por Ricardo Antunes*

O herói Crapulinski, nosso exemplo de arquétipo representante da ralé da sociedade burguesa, parece que começou a se desmilinguir por derrelição. É verdade que faz tempo que esse cenário vem se desenhando. Devastação na economia, explosão do desemprego, ultra-precarização do trabalho, destruição ambiental, proliferação das queimadas e da extração mineral, massacres nas comunidades indígenas, xenofobia, homofobia, racismo, tudo isso e muito mais sempre esteve presente nesta variante achincalhada de Trumpismo colonial. Seria muito difícil que seu derretimento, em algum momento, não viesse começar a se acelerar.

O culto da ignorância, o desprezo pela ciência, a privatização da res publica, com a consequente destruição da saúde, da educação e da previdência, tudo isso fortemente respaldado pelo ideário e pela pragmática demencial de amplos setores do empresariado, que só queriam ver a força de trabalho ralando para lhes dar mais produção e lhes garantir a boa vida, que tão enfaticamente o nosso Crapulinski sempre achava um jeito de defender. Não sem acrescentar que os beneficiários seriam os “mais pobres”.

E veio, então, o inesperado. A brutalidade da pandemia, a “gripezinha” do mito (ou mico?), pegou o país econômica e socialmente destroçado. Se não bastasse a crise econômica esgarçando ainda mais o tecido social brasileiro, ampliando a corrosão e devastação do trabalho, a pandemia letal do coronavírus encontrou aqui seu cenário ideal: na presidência, um indigente e ignóbil, praticante fidelíssimo do culto da ignorância, do “santo nome em vão”, sempre em linha de depravação, algo que não encontra paralelo em quase nenhuma parte do mundo.

A primeira crise veio com o Ministro da Saúde, Luiz H. Mandetta. Desde logo, é preciso dizer que se trata de um médico neoliberal que desde o início imaginou fazer uma gestão negocial e privatista na saúde. Com a eclosão do coronavirus, entretanto, tomou um banho de realidade, tendo sido sustentado e enquadrado pela dignidade do que se conseguiu a muito custo e trabalho se preservar no S.U.S.

A recente deposição de Mandetta, que poderia ser o mote para a explosão do Fora Bolsonaro!, parece ter inflado o ego do Crapulinski. Imaginando-se fortalecido, depois do ato dos boçais-do-bolsonaro no último domingo (19 de abril), chegou a vez de começar a arquitetar as demissões de seus ministros considerados mais fortes, o da Justiça em primeiro lugar, que lhe fazia uma incomoda sombra eleitoral junto ao eleitorado da extrema direita e da direita.

Para acobertar as práticas clandestinas de seus parceiros nas milícias e nas falanges, que defendem a ditadura militar, a tortura, a brutalidade, o vilipêndio e o abjeto, e também para preservar a sua matilha familiar, o presidente-de-tipo-lumpen jogou a cartada de risco mais forte até o presente. Emparedou ninguém menos que Sergio Moro, o juiz que tinha um faro infalível somente em direção ao PT e seus partidos aliados durante seus governos. Algo que já vinha sendo urdido desde os fins do ano passado e que, depois da demissão de Mandetta, parecia encontrar seu momento oportuno.

Parece que o tiro saiu pela culatra. Moro saiu soltando petardos que municiam mais de um impeachment, além de ajudar a esfacelar ainda mais a base de apoio de Bolsonaro na extrema direitaPara não recordar as tantas afrontas anteriores, este episódio que resultou na demissão de Moro atesta: primeiro, que a motivação foi adulterada (não houve o “a pedido” formal do atual Diretor-Geral da Polícia Federal); segundo, a assinatura digital de Moro foi adicionada sem a sua concordância; terceiro, e que tem a potência de bomba muito explosiva, como se deduz das palavras do ex-MinistroO presidente me disse mais de uma vez que queria ter uma pessoa da confiança pessoal dele, que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência. Seja diretor, seja superintendente. E não é o papel da polícia federal prestar esse tipo de informação”.

Assim, a demissão de Moro parece endereçar o governo Bolsonaro em rota cada vez mais próxima ao abismo. Será difícil para a Câmara (com seu pacato líder Rodrigo Maia) permanecer obstaculizando esse clamor crescente na sociedade (com exceção do que resta das falanges fascistas) e que ganha nova impulsão com os inúmeros desdobramentos políticos e institucionais que já começaram após a explosiva denúncia do ex-juiz da Lava Jato. Imaginar que a intervenção na cúpula da Polícia Federal era causada por causa do atentado sofrido pelo ex-capitão ainda candidato, ou ainda pelas perseguições ao seu filho “04”, conforme as próprias palavras de Bolsonaro em sua resposta a Moro, se assemelha mais a uma história de carochinha….

Qual será, então, a posição dos ministros militares, que imaginavam poder controlar o intempestivo? A primeira reação destes ministros e farda foi se postar ao lado de Bolsonaro, em sua defesa aos ataques de Moro. Irão, então, continuar participando desse governo das cavernas e das trevas?

E como se comportará a tutela militar que até o presente vem respaldando a autocracia de Bolsonaro?

E, por fim, as oposições? O que mais vão esperar, para fazer deslanchar o já tardio impeachment de Bolsonaro, que está levando o país para uma monumental cova coletiva?

* Ricardo Antunes é professor titular de Sociologia do Trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador da coleção Mundo do Trabalho, da Boitempo Editorial. Organizou os livros Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (2007) e Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual (2009), ambos publicados pela Boitempo. É autor, entre outros, de Os sentidos do trabalho (1999), O caracol e sua concha (2005), O continente do labor, (2011) e o mais recente O privilégio da servidão, que acaba de ganhar uma nova edição, revista e ampliada, este ano.

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Este texto foi originalmente publicado no “Blog da Boitempo” [Aqui!].

O baile dos 20 sem máscara e de 1 mascarado

Na coletiva da não explicação do presidente Jair Bolsonaro sobre a demissão com direito a tiroteio de Sérgio Moro, marquei dois ministros: o da Saúde não usava máscara, e o da Economia usava (ver imagem abaixo).

no reino do corona

Minha conclusão acerca do baile dos 20 sem máscara e do 1 mascarado: melhor colocar o ministro da Economia, Paulo Guedes, para coordenar o combate à COVID-19 e o da Saúde, Nelson Teich, para conter a galpante evasão de dólares. Talvez dê certo… ou não.

Líder improvável, Alexandre Frota clama “saiam do Twitter” e organizem o impeachment de Bolsonaro

af jbO deputado federal Alexandre Frota (PSDB/SP) e o presidente Jair Bolsonaro no tempo em que eram aliados

Se há uma máxima imutável na política é que não existe espaço vazio que fique vago por muito tempo. É enquanto os partidos da esquerda têm flagrantemente patinado em relação ao que fazer diante das ações do presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Alexandre Frota (PSDB/SP) resolveu partir para uma defesa aberta para a criação de um movimento suprapartidário cujo objetivo seria apear do poder, via impeachment, o presidente Jair Bolsonaro (ver vídeo abaixo).

Em que pese a linguagem adotada, Alexandre Frota explicita questões objetivas sobre os mecanismos que têm sido adotados para fazer frente aos ataques desferidos pelo presidente Bolsonaro e seus seguidores contra as instituições democráticas e, principalmente, aos esforços de controle e combate à pandemia causada pelo coronavírus.

De forma enfática, Frota coloca o dedo na ferida quando diz que “não adianta ficar no Twitter fazendo críticas, palestrinhas, discursos acalorados e repetitivos. Twitter não é resposta para este tipo de gente. Twitter não é resposta para o Bolsonaro. A resposta é o impeachment“.

Não custa nada lembrar que Alexandre Frota foi, digamos, uma das faces que ajudaram a tornar o candidato Jair Bolsonaro mais palatável para determinados setores da população. E que estando atualmente no PSDB,  Frota não fez nenhum giro ideológico em relação, por exemplo, ao modelo de economia ultraneoliberal que o governo Bolsonaro está impondo.  Desta forma, a consolidação de uma postura pró-impeachment de Alexandre Frota pode representar apenas uma exaustão da utilidade da figura de Jair Bolsonaro para determinados setores das elites brasileiras.

A pergunta que se coloca é a seguinte: os partidos de esquerda e movimentos sociais vão deixar que Frota lidere o caminho do impeachment?

Associação dos Advogados de São Paulo repudia atos de Bolsonaro

Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) manifesta-se, em duas notas de repúdio, sobre atos do presidente Bolsonaro.

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NOTA DE REPÚDIO DA  ASSOCIAÇÃO DOS ADVOGADOS DE SÃO PAULO – AASP

À vista dos recentes acontecimentos, a Associação dos Advogados de São Paulo – AASP vem a público reafirmar seu compromisso com o Estado Democrático de Direito e todos os valores a ele inerentes. A AASP, como sempre, defende o regular funcionamento e o devido respeito às instituições democráticas, o que se impõe e se justifica, com maior razão, nos momentos mais delicados. Associação dos Advogados de São Paulo – AASP

ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

Colégio de ex-Presidentes da Associação dos Advogados de São Paulo – AASP

O Colégio de ex-Presidentes da Associação dos Advogados de São Paulo – AASP vem a público manifestar seu repúdio a qualquer tentativa de ataque à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito. As recentes participações do presidente da República em atos de apoio ao AI-5 e à intervenção militar colocam o governo em rota de colisão com a democracia e as suas instituições. Tal conduta, além de negar o Estado de Direito, é manifestamente contrária às normas de distanciamento social estabelecidas pela OMS e pelo Ministério da Saúde diante da pandemia da COVID-19 que assola o mundo. Nós, que estivemos à frente da AASP, entidade que tem na sua trajetória um histórico de luta pela conquista e manutenção do Estado Democrático de Direito, entendemos que não se pode admitir retrocessos em relação à democracia e às liberdades conquistadas há mais de 30 anos. Todos os brasileiros que compreendem a gravidade humanitária da pandemia do coronavírus e estão comprometidos com a liberdade individual e a autodeterminação coletiva precisam trabalhar juntos, acima de quaisquer diferenças políticas. Estaremos todos sempre vigilantes e atentos para que se mantenha, incólume, o Estado Democrático de Direito. São Paulo, 20 de abril de 2020

Colégio de ex-Presidentes da Associação dos Advogados de São Paulo – AASP
Mário Sérgio Duarte Garcia
Miguel Reale Júnior
Antonio Cláudio Mariz de Oliveira
José Roberto Batochio
Carlos Augusto de Barros e Silva
Antonio de Souza Corrêa Meyer
Clito Fornaciari Júnior
Renato Luiz de Macedo Mange
José Rogério Cruz e Tucci
Mário de Barros Duarte Garcia
Eduardo Pizarro Carnelós
Aloísio Lacerda Medeiros
José Roberto Pinheiro Franco
José Diogo Bastos Neto
Antonio Ruiz Filho
Sérgio Pinheiro Marçal
Marcio Kayatt
Fábio Ferreira de Oliveira
Arystóbulo de Oliveira Freitas
Sérgio Rosenthal
Leonardo Sica
Marcelo Vieira von Adamek
Luiz Périssé Duarte Júnior

Sobre a AASP
A Associação dos Advogados (www.aasp.org.br), entidade que congrega cerca de 80 mil associados (em todos os Estados do País) e completou 77 anos de fundação em janeiro, foi criada com o objetivo de prestar serviços que facilitem o dia a dia do exercício profissional, bem como defender os advogados. Em razão da excelência e qualidade de seus serviços, de sua luta incansável na defesa da advocacia e da cidadania como um todo, tornou-se a maior associação de advogados da América Latina.

Informações para a Imprensa: (11) 9-9936-8252, com Reinaldo De Maria.

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Pesquisador protocola pedido de impeachment de Jair Bolsonaro com base em artigo publicado na Science

bolsonaro tosse

Um pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro foi protocolado na manhã desta segunda-feira (20/04) junto à Câmara Federal, tendo com base resultados de um artigo publicado no dia 17 de Abril de 202 pela prestigiosa revista científica Science (ver imagem abaixo). 

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O autor deste pedido de impeachment é um dos autores do trabalho, o doutorando Lucas Ferrante do Programa de ECologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).  No ofício por meio do qual protocolou o pedido de impeachment do presidente Bolsonaro, Ferrante aponta que o artigo publicado pela Science aponta que ” a medida que a doença de coronavírus do 2019 (COVID-19) se espalha pelo Brasil, o Presidente Jair Bolsonaro negou repetidamente a gravidade da pandemia e  transmitiu informações enganosas e mensagens mistas sobre como responder, defendo o uso de hidroxicloroquina e o fim da quarentena. As evidências científicas atuais contradizem essas informações, e o discurso do Presidente coloca a população em risco.

impeach bolsonaro

Ferrante lembra que o artigo ainda diz que “ na escala nacional o Brasil deve manter uma quarentena nacional para mitigar o impacto da doença. Medidas favorecidas pelo presidente do Brasil, como isolamento vertical ou uma quebra parcial do isolamento, entram em conflito com as recomendações da Organização Mundial da Saúde e com estudos científicos, colocando em risco toda a população do Brasil. A eficácia da hidroxicloroquina não é confirmada, embora seus riscos sejam.

Em seu ofício à Câmara de Deputados, Lucas Ferrante lembra que “com base nessas informações publicadas no maior periódico do mundo torna-se claro que o Presidente da República Jair Messias Bolsonaro vem cometendo crime de responsabilidade
contra a saúde pública colocando todo o povo brasileiro em risco eminente“.

Ainda que não se saiba o destino que será dado a esse pedido de impeachment, o fato é que temos diante de nós uma novidade: em vez de um documento preparado por advogados como foi o caso do impeachment de Dilma Rousseff. Tampouco o pedido está sendo apresentado por um partido político ou representante dele. Em vez disso, o que temos agora são alegações iniciais baseadas em um artigo científico que passou pelo crivo rígido dos editores da Science, simplesmente a maior revista científica do planeta. Um aspecto interessante é que ocorre em face de um presidente que é conhecido por desdenhar do conhecimento científico e por ter um ministro da Educação, o insuperável Abraham Weintraub, que fez do seu ofício principal trabalhar para precarizar as universidades e institutos federais. Se isso não for um tipo de ironia suprema, eu não sei o que seria.

 

Certeza matemática: atos pró-Bolsonaro geraram centenas de novos infectados pelo coronavírus

atos infecçãoAtos promovidos por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro vão, com certeza matemática, gerar novos casos de infecção por coronavírus que vão sobrecarregar ainda mais  hospitais que já se encontram em fase de colapso

Desde ontem vejo muita coisa sendo escrita para descrever as ações realizadas ao longo do dia de ontem por um segmento ínfimo da população brasileira em prol da instauração de um novo Ato Institucional para retornar o Brasil ao período mais obscuro do regime militar que se instaurou em 1964 e governou o nosso país até 1985.

A verdade é que observadas imagens geradas nas redes sociais pelos próprios participantes das mobilizações, a afluência de pessoas foi, com exceção de São Paulo, um fiasco. Mesmo o “ato principal” em Brasília, e que contou com a presença do presidente Jair Bolsonaro, reuniu pouquíssima gente, revelando o grau de isolamento político a que os defensores de um novo ato institucional estão relegados (abaixo o momento em que o presidente Jair Bolsonaro é obrigado a parar seu discurso por tossir copiosamente).

Mas deixando de lado o ato político em si, o que tivemos ontem pelo Brasil afora foi a transformação de ruas e avenidas de muitas cidades brasileiras em focos de infecção pelo coronavírus. É que também foi possível observar que a maioria dos participantes não portava máscaras de proteção, e que estavam presentes grupos de idosos e crianças, sendo que os primeiros são alvos preferenciais para os casos mais graves da COVID-19, e os segundos são tidos como potenciais vetores de disseminação do coronavírus.

O interessante é que a estas altura do campeonato, os participantes desses grupos já foram informados de formas as mais variadas sobre os riscos que todos estão correndo ao formarem aglomerações e de forma desprotegida. A maioria dessas pessoas está colocada não apenas em degraus mais altos da pirâmide econômica, mas como são supostamente mais educados (formalmente pelo menos) do que os milhões de brasileiros que vivem em condições de extrema pobreza.

Como os efeitos da contaminação do coronavírus é normalmente de 5 dias, é provável que já ao fim da semana que se inicia teremos centenas de novos casos de COVID-19, sobrecarregando ainda mais um sistema de saúde que já se encontra fortemente sobrecarregado.  Resta saber como se comportarão aqueles que, por irem a estes focos de infecção, caírem vítimas do coronavírus.

Por último, é preciso notar que não foram apenas em atos de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro aconteceram ontem. Aqui mesmo em Campos dos Goytacazes, centenas de pessoas acorreram ao Morro do Itaoca para fazerem lazer a céu aberto, transformando aquela área de proteção ambiental (APA do Itaoca) em um grande foco de infeccção. E novamente há que se apontar que não estavam ali presentes membros das comunidades mais pobres da cidade. É tipo de descaso ao conhecimento científico e às normas sanitárias que resultará em um aumento exponencial de casos de contaminação. E, convenhamos, tanto nos atos políticos como no uso de áreas ambientais para lazer, os infectados o fazem sabendo dos riscos. Depois que não se reclama a Deus ou da má sorte.

O coronavírus coloca a Teologia da Prosperidade contra a parede

teologia da prosperidadeAlgumas das principais lideranças neopentecostais brasileiras no entorno do presidente Jair Bolsonaro na 27ª edição da Marcha para Jesus, em São Paulo.| Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Não tenho nem conhecimento suficiente nem pretensão de ter em relação ao alinhamento do presidente Jair Bolsonaro com determinadas lideranças  de uma variante cristã que é popularmente conhecida como “Teologia da Prosperidade“. Outros pesquidadores, entretanto, já escreveram textos interessantes sobre os esforços de Bolsonaro em associar sua imagem à lideranças ligadas à Teologia da Prosperidade, um esforço que aumentou com a queda flagrante de sua popularidade em função de sua forma particular de negar a pandemia criada pelo coronavírus.

Um desses pesquisadores, o doutor em Ciências da Religião, que atua no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Fábio Py, acaba de publicar um artigo intitulado “Cristologia pascoal bolsonarista“, onde traça um itinerário para que seja possível entender os esforços do presidente Bolsonaro em ligar a sua imagem e trajetória no trato da pandemia a uma lógica messiânica que, em última instância,  tenta relativizar as consequências mortais da pandemia.

Apresentada a análise do Dr. Fábio Py,  volto ao que realmente me chama a atenção não em relação ao presidente Bolsonaro, mas sim às lideranças neopentecostais que se associaram tão fortemente ao atual presidente, e que também estão colocadas em xeque pelo coronavírus. Sem entrar em nomes, uma característica comum a várias destas lideranças religiosas tem sido a sua oposição ao isolamento social, sob o argumento de que não se pode impedir o direito de culto, mesmo em face do risco real de disseminação do coronavírus entre os seus fiéis. 

Várias análises já foram postas sobre a posição das principais lideranças neopentecostais brasileiras, com a maioria dos analistas insistindo em uma explicação que tem a ver com o aspecto financeiro, já que fica mais difícil coletar dízimos e outras formas de contribuição se não houver a presença física dentro dos templos. Eu diria que essa não é a questão chave que faz com que uma parte significativa dessas lideranças insistam em reabrir templos em tempos de pandemia.

rr-soaresO missionário R.R. Soares, líder  da Igreja Internacional da Graça de Deus, inovou ao solicitar a entrega online de dízimos pelos fiéis em função da ausência de cultos presenciais por causa do coronavírus.

O problema me parece muito mais existencial, pois a Teologia da Prosperidade possui uma tônica que são as promessas de saúde e prosperidade que são os sustentáculos da congregação de seus seguidores. Como o coronavírus desconhece qualquer obediência aos clamores feitos em púlpitos, a própria existência dessa variante cristã está em xeque em face da incapacidade de oferecer uma imunidade concedida ou obtida pela fé.

Muitos analistas do fenômeno neopentecostal tendem a apresentar as congregações que a adotam como sendo monolíticas em termos de práticas e estáveis em termos de congregados.  Eu diria que nem uma coisa, nem outra. E a incapacidade de entregar as promessas de saúde que está ficando evidente por causa da virulência com que o coronavírus está atingindo a todos, independente da opção religiosa. Por isso mesmo, arrisco a dizer que período que se abrirá após a passagem do pico da pandemia criará grandes movimentos das “placas tectônicas” dentro das grandes denominações neopentecostais no Brasil. Suspeito ainda que as denominações protestantes que não abraçaram essa variante estarão atentas para, provavelmente, experimentar uma grande afluência de fiéis desencantados com a Teologia da Prosperidade.

Desvelado pelo coronavírus, Jair Bolsonaro quer forçar a volta de um fictício Mundo de Oz

bozo ozA ansiedade de fazer a volta do funcionamento “normal” da economia reflete um senso de urgência e sobrevivência de Jair Bolsonaro que quer nos levar de volta a um fictício Mundo de Oz.

Independente de sua orientação ideológica, muitos brasileiros hoje se sentem legitimamente estupefatos frente ao tratamento dado pelo presidente Jair Bolsonaro ao combate da pandemia causada pelo coronavírus.  Um dos pontos mais intrigantes se refere à absoluta importância dada  pelo presidente da república ao retorno de atividades não essenciais em detrimento de uma ação mais agressiva em prol do controle e o combate da pandemia.  Em meio a isso surgem as inevitáveis notícias de que as redes hospitalares de muitos municípios e estados já se encontram à beira do colapso, em um prenúncio de que teremos um número incalculável de mortes nas próximas semanas.

Para mim a explicação da aparente obsessão do presidente Bolsonaro com o funcionamento “normal” da economia tem a ver com um senso aperfeiçoado de que seu governo não durará muito tempo se, pelo menos, não for retomada a aparência de que as pessoas estavam tendo sucesso em obter o ganho pão de cada dia.  Essa falsa sensação foi rompida pelo coronavírus que esfacelou essa imagem como um estilete que abre uma ferida infeccionada e deixa o pus acumulado fluir livremente, deixando à mostra a real extensão da ferida.

A verdade é que a situação dos trabalhadores brasileiros já era caótica antes do coronavírus. Com um total estimado de 11 milhões de desempregados, a maioria das famílias brasileiras já vivia no limite das suas possibilidades. Esse número, subnotificado como tantas outras coisas o são no Brasil, esconde o fato de que outros tantos milhões viviam na beira da extrema pobreza, exercendo atividades precarizadas ao léu de qualquer tipo de assistência dos governos. Como eu disse, com a entrada em cena do coronavírus todo o castelo de cartas desabou, mostrando os efeitos perversos das políticas ultraneoliberais que foram iniciadas com a ascensão de Joaquim Levy ao cargo de ministro da Fazenda, ainda no início do segundo mandato de Dilma Rousseff em 2016.

filaFila em busca de Emprego em frente ao Estádio Nacional Mané Garrincha(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Além disso, há que se levar em conta que Jair Bolsonaro foi eleito muito em parte graças ao descontentamento de parte significativa da classe trabalhadora que estava cansada de viver no limite das possibilidades em meio à falta de empregos e da precarização de serviços públicos essenciais como saúde e educação. Agora, espremido entre as demandas da classe trabalhadora que viu nele uma saída para sua situação desesperadora e sua subserviência às elites econômicas, Jair Bolsonaro ensaia uma tentativa de forçar uma volta a uma normalidade que nunca existiu, nem que isto custe o empilhamento de milhares de corpos em caminhões frigoríficos que repetirão por aqui os desfiles macabros que os italianos já assistiram. Ou pior ainda, teremos por aqui o que eu já chamei de via equatoriana com corpos sendo abandonados em vias públicas em face do colapso dos serviços funerários.

italia 1Caminhões do exército italiano carregam mortos pela COVID-19 a caminho de cemitérios e crematórios.

Assim, a saída de Luiz Henrique Mandetta e a entrada de Nelson Teich na direção do Ministério da Saúde são também reveladoras da ânsia de Jair Bolsonaro de voltar a uma normalidade que nunca existiu. É que, apesar de Mandetta e Teich serem ligados umbilicalmente à saúde privada, o novo ministro é um empresário que já acumulou fortunas a partir do sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS).  O problema é que dificilmente Teich vai arriscar o seu pescoço em futuras inquisições de tribunais internacionais caso se consagre aqui o funcionamento de atividades não essenciais cujo único dom será exponencializar ainda mais a disseminação do coronavírus.

Um aspecto que me parece importante nesse cenário de um Brasil em ritmo de “Mágico de Oz a la Bolsonaro” é de que continuemos o processo fundamental de explicação dos mecanismos de controle e proteção contra o coronavírus. Essa ação é fundamental para não apenas minimizar o números de infecções e mortes, mas também para educar os brasileiros sobre a importância da ciência e da saúde pública.  Em meio ao pandemônio criado por Jair Bolsonaro em meio à pandemia, agir racionalmente e de forma a educar o número máximo de pessoas sobre como passar ileso pela pandemia se reveste em um ato ulterior de resistência ao desmantelamento do Brasil como uma Nação soberana.

Finalmente, é preciso que fique claro que Jair Bolsonaro não é o Mágico de Oz e não tem como retornar o Brasil a um Mundo de Oz fictício, que nunca existiu para começo de conversa. Quando muito Bolsonaro é apenas a pessoa errada no lugar errado e no momento errado. Resta a nós nos mantermos vivos e sadios para começar a resolver os problemas que o Brasil real possui depois que o pior da pandemia passar.

Jair Bolsonaro, um pedagogo nato

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Podem dizer o que disserem dele, mas o presidente Jair Bolsonaro é um pedagogo nato. Duvidam de mim? Pois olhem bem, o vídeo abaixo que mostra o presidente da república não apenas quebrando, mais uma vez, o confinamento social recomendado pelo Ministério da Saúde, mas também usando o braço para aparentemente limpar o nariz, segundos antes de apertar as mãos de uma mulher idosa, sem que nenhum dos dois usasse luvas no momento em que se tocaram (a idosa usava apenas máscara, mas Bolsonaro nem isso).

Vamos lá, há alguma forma mais didática de demonstrar como se pode transmitir o COVID-19? É claro que não!

Em tempo, o número oficial de mortes pelo COVID-19 no Brasil atingiu hoje a marca de 1.057.