Governo Bolsonaro desvia R$ 600 bilhões da Previdência para pagar dívida

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Por Portal Viu!

Por meio de decreto publicado no Diário Oficial da União (edição do último dia 8), o presidente Jair Bolsonaro autorizou a transferência de mais de R$ 600 bilhões da seguridade social para cobrir encargos financeiros do governo. A denúncia é do site Jornalistas Livres.

O decreto também autoriza a transferência de recursos da Previdência Social aos Estados, Distrito Federal e Municípios.

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Os recursos da seguridade social são oriundos do orçamento da previdência social, que é mantida com contribuição de trabalhadores, fatia de impostos e parte do dinheiro das loterias.  

O decreto, que também tem assinatura do ministro da Economia Paulo Guedes, gera desconforto no momento em que o governo tenta promover uma reforma previdenciária sob a argumentação de que a previdência social é detentora de um rombo financeiro que a condena a falência no futuro.

Auditorias independentes, no entanto, afirmam que a previdência social brasileira é superavitária, com orçamento bilionário, mas enfrenta dificuldades em custear a seguridade social, porque tem o dinheiro desviado para cobrir dívidas do governo. 

FONTE: https://www.portalviu.com.br/politica/governo-desvia-r-600-bi-da-previdencia-para-pagar-divida/

Greve geral: o que esperam as centrais sindicais para organizar a autodefesa da classe trabalhadora brasileira?

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Desde a chamada reforma trabalhista imposta pelo governo “de facto” de Michel Temer que removeu direitos e jogou milhões de trabalhadores brasileiros na precariedade, tenho me pergutado sobre quando as centrais sindicais brasileiras irão convocar uma greve geral para deter os ataques programados pelo governo Bolsonaro.

É que passando pela contrarreforma da Previdência e a instalação da precariedade completa sob a enganosa “Carteira de Trabalho Verde Amarela”, o que está se planejando é um retrocesso que só não declara formalmente a revogação da Lei Áurea. É que se tudo passar como desejado pelo “Chicado Boy” Paulo Guedes, a regressão almejada beirará as condições que existiam para os escravos que foram trazidos da África.

Se até agora não fizeram nada, as centrais sindicais e seus dirigentes devem pelo menos ter aquele tipo de instinto para a auto sobrevivência já que as declarações de Paulo Guedes sobre o suposto “caráter fascista” da legislação dos direitos trabalhistas   na Consolidação das Leis do  Trabalho (CLT),  e a condição de meros parasitas dos dirigentes sindicais que vivem às custas dos trabalhadores, nada mais é do que uma declaração aberta de guerra não apenas aos trabalhadores, mas também aos que representam seus interesses dentro dos sindicatos.

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Ministro da Economia, Paulo Guedes,  não esconde a sua disposição de precarizar ainda mais as condições de vida dos trabalhadores brasileiros. CARL DE SOUZA / AFP

Por isso é que fico me perguntando quando os dirigentes das principais sindicais sairão do conforto em que se colocaram durante os anos de governos do PT e vão partir para uma luta encarniçada em defesa dos trabalhadores e, sim, da própria existência dos sindicatos que dizem representar.

Mas uma coisa é certa: o tempo está passando e a margem de tempo para organizar a reação está encurtando. Depois não adianta reclamar nem denunciar na Organização Internacional do Trabalho (OIT). É que o governo Bolsonaro simplesmente não parece dar a mínima bola para as leis internacionais que foram assinadas antes de janeiro de 2019.

 

Ministro do Turismo do Turismo, flagrado usando laranjas para desviar de dinheiro de fundo partidário, é mais um marcado para cair no governo Bolsonaro

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O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antonio, flagrado em esquema de desvio de verbas de fundo partidário do PSL em Minas Gerais, é mais um marcado para cair.

Após pouco mais de 35 dias de governo Bolsonario, o número de ministros citados em situações escabrosas é incrivelmente alto. Ao longo do mês de janeiro se destacaram por suas declarações bizarras e contraproducentes para o Brasil, os ministros das Relações Exteriores (Ernesto Araújo), da Educação (Rafael Vélez Rodriguez), da Agricultura (Tereza Cristina) e a da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (Damares Alves).  Até aqui esses ministros e ministras compunham o grupo que eu considerava marcados para cair, tamanho era o número de situações estapafúrdias em que haviam se metido em tão pouco tempo de governo.

Pois bem, agora se soma a este nada lustroso grupo o ministro do Turismo, Marcelo  Álvaro Antonio,  que, segundo ampla reporagem do jornal Folha de São de Paulo, teria usado candidaturas laranja para desviar recursos do fundo partidário nas eleições de 2018.  A citada reportagem do jornal Folha de S. Paulo revelou que o diretório do Partido Social Liberal (PSL) em Minas Gerais, o mesmo do presidente Jair Bolsonaro, então presidido por Marcelo Álvaro Antonio,  teria empregado dinheiro de candidaturas da cota feminina para empresas ligadas ao agora ministro do Turismo.

Como a reportagem é repleta de dados e documentos, a situação do ministro do Turismo é particularmente grave, na medida em que a denúncia atinge o partido político a que está filiado o presidente Jair Bolsonaro e seus três filhos que possuem mandato parlamentar.  E isto agrava ainda mais a situação de desgaste de um presidente que foi eleito sob a égide de promessas de combate à corrupção no Brasil. 

Assim, vamos ver quanto tempo durará no cargo o senhor Marcelo Álvaro Antonio. De minha parte, estou aguardando o soar das panelas dos eleitores de Jair Bolsonaro. Por via das dúvidas, aguardarei sentado.

 

Socialismo que nada, o verdadeiro alvo do governo Bolsonaro é o Iluminismo

Por isso, os ataques ao direito à educação pública e ao ingresso em universidades

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A imagem acima mostra a Xilogravura de Flammarion, onde um homem medieval com seu bastão, vestido como um peregrino, que olha para o céu como se estivesse encoberto por uma cortina, ele olha como se quisesse conhecer o outro lado da Terra, o que está oculto, o que há além do próprio planeta Terra.

Em uma entrevista que concedi ao jornal português Diário de Notícias no dia 11 de janeiro de 2019, expressei minha preocupação com que eu considero um ataque ideológico contra a ciência no Brasil por parte do governo Bolsonaro.

Pois bem, um amontoado de declarações vindo de diversos dos ministros instalados em cargos chaves para o desenvolvimento social, econômico e cultural do Brasil me fazem agora pensar que o ataque a que me referi vai além da ciência.  É que estão sob ataque também as escolas e universidades, bem como os mecanismos que foram criados para a defesa do meio ambiente.

Um exemplo disso é a proposta da ministra Damares Alves que propõe a adoção de um modelo ainda pouco claro do chamado “home schooling” (ou seja, educação dentro de casa).  Essa proposta atenta contra quase um século (se levarmos o “Movimento da Escola Nova” que foi liderado por Anísio Teixeira na década de 1930) de luta para que seja garantido o direito de que cada brasileiro ter acesso a uma educação pública, laica e a co-educação (i.e., a mesma educação para ambos os sexos). Como um liberal da época, em um pais marcado por profundas desigualdades educacionais, Anísio Teixeira, inspirado no modelo norte-americano, acreditava que todo brasileiro e brasileira deveria ter acesso à escola, pois esta instituição seria capaz de desenvolver as habilidades individuais.

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Ministra Damares Alves, vestindo rosa, com o presidente Jair Bolsonaro.

Com sua proposta de “home schooling”, o que Damares Alves parece avançar é a sua visão de que “meninos vestem e meninas vestem rosa” e de que “as mulheres nasceram para serem mães e que o modelo ideal de sociedade as deixaria apenas em casa, sustentadas pelos homens.”.  Portanto, do alto da sua posição de ministra, Damares Alves avança sua visão de sociedade patriarcal onde cabe à mulher apenas os papéis de reprodutora e cuidadora da prole. Além disso, a proposta desconsidera os múltiplos papéis que a escola desempenha em um país como o Brasil, de possibilitar que os trabalhadores e seus filhos possam se apropriar do conhecimento produzido pela Humanidade e, também, de ser um local de extrema importância no qual muitas mulheres (dados de 2015 apontam que 28,5 milhões de famílias brasileiras eram monoparentais e comandas por mulheres) possam trabalhar e deixar seus filhos em casa.

Não bastasse as ideias retrogradas de Damares Alves, temos ainda as manifestações do ministro da Educação, Ricardo Vélez-Rodriguez, de que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]. Apesar de tentar de desvencilhar do real significado desta posição ao dizer que elite intelectual não é sinônimo de elite econômica, a pergunta que Vélez-Rodriguez é de como ele consegue separar uma coisa da outra em um país onde prevalece uma das concentrações mais abjetas de riqueza no planeta (estando no grupo de 10 países com extrema concentração de riqueza no mundo). Uma única certeza desse projeto de “universidade para as elites” é que se essa ideia vencer, teremos um “branqueamento” das salas de aula a partir do impedimento de que jovens negros e pobres possam almejar educação universitária no Brasil.  Isto se trata de impor um profundo retrocesso, e vai na contramão das políticas educacionais que vem sendo executadas a partir da década de 1990, no qual uma parcela expressiva das classes subalternas teve a oportunidade de ter acesso ao ensino superior.

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Ministro Ricardo Vélez-Rodriguez, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, defende que universidades sejam para a “elite intelectual”.

Como professor de uma universidade pública desde 1998, sou testemunha viva do esforço realizado por centenas de jovens que chegaram ao nível universitário com graves deficiências de formação, as quais foram superadas com grande esforço pessoal e dedicação. E muitos desses jovens são hoje exemplos concretos de alta capacidade intelectual, condição que só puderam alcançar por causa da existência de uma universidade criada por demanda popular no interior do estado do Rio de Janeiro. Essa universidade, a Uenf, é, inclusive, um dos últimos tributos de outro grande líder na luta pela educação pública no Brasil, o antropólogo Darcy Ribeiro, e um dos testemunhos materiais da importância da escola pública no processo de desenvolvimento econômico nacional.

Mas o que a junção das ideias de Damares Alves e Ricardo Vélez-Rodriguez evidencia é que o alvo real dos planos de desmanche do governo Bolsonaro não é uma suposta, mas inexistente, herança socialista deixada pelos parcos anos em que o PT comandou o governo federal. O alvo real são as ideias do Iluminismo do Século do Século XVIII acerca do papel da ciência e da educação no desenvolvimento de uma sociedade que pudesse almejar condições mais dignas de existência de Humanidade.

É essa aversão ao pensamento iluminista que está explicita nas manifestações e projetos que estão sendo gestados pelo governo Bolsonaro. Entender isso e a gravidade do retrocesso que está se montando em diversas áreas essenciais é fundamental para que possamos sair da posição expectante para outra de natureza pró-ativa em defesa da ciência e da educação pública.

Finalmente, imaginemos quão trágico é, em pleno Século XXI, estarmos em uma batalha de vida ou morte para a nação brasileira por ideias que já deveriam ter sido abraçadas desde o Século XVIII. Mas é por é isso mesmo que não há espaço para a dúvida, hesitação ou, menos ainda, resignação. 

Façam suas apostas: onde e quando ocorrerá o próximo Tsulama em Minas Gerais?

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Há quem se incomode com a presença de correspondentes de jornais estrangeiros no Brasil, pois eles tendem a dar uma cobertura que foge do lugar comum que marca a maioria dos veículos da mídia corporativa brasileira que hoje possuem pouquíssimos jornalistas de campo, se resumindo a serem replicadores de materiais que são produzidos por agências de notícias.

Eu já considero a presença dos correspondentes de veículos internacionais uma das poucas garantias de que possamos acessar abordagens mais qualificadas sobre uma série de assuntos, especialmente aqueles que incomodam as autoridades brasileiras, incluindo principalmente aquelas de natureza ambiental.

Um caso mais do que atual é o caso do Tsulama da mineradora Vale no município de Brumadinho onde a mídia estrangeira está dando um show de cobertura, indo além do lugar comum que serve apenas para criar um ambiente seguro para os causadores de mais este grotesco incidente ambiental.  

Como exemplo dessa cobertura cito a matéria assinada pela jornalista Joana Oliveira para o jornal espanhol “El País”.  Esta matéria revela que o estado de Minas Gerais possui o estratosférico número de 450 barragens,  e que pelo menos 22 delas não têm garantia de estabilidade

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Por si só, este número já seria preocupante, mas várias das pessoas entrevistas por Joana Oliveira adicionam um claro grau de preocupação ao revelar o caminho livre que as mineradoras operando em Minas Gerais possuem para atuar e guardar seus rejeitos utilizando tipos de barragens ultrapassadas e que após serem construídas são precariamente acompanhadas pelos órgãos de fiscalização.

Assim, não apenas Minas Gerais possui uma série de “Tsulamas” esperando para acontecer, mas como há pouca ou nenhuma preparação para socorrer as regiões que serão afetadas por derrames de rejeitos que poderão ter gravidade idêntica ao que já se viu em Brumadinho e Mariana. 

Após ler esta reportagem, fica reforçada em mim a impressão de que não se trata de se perguntar se outros Tsulamas ocorrerão em Minas Gerais, mas de quando e onde eles ocorrerão.  De quebra, vários leitores do blog têm me enviado casos de barragens que estariam em condição crítica em várias cidades em Minas Gerais, e que são as  candidatas mais fortes a serem palco do próximo Tsulama.  E entre as candidatas temos várias cidades importantes e com grande valor histórico.

E imaginar que no meio deste cenário caótico, ainda temos o governo Bolsonaro disposto a fragilizar de forma aguda o processo de licenciamento ambiental em todo o território nacional.

Incidente da Vale em Brumadinho pode ter outro capítulo catastrófico

Como todo órgão de mídia (imprensa ou virtual), blogs dependem de fontes para ampliar o grau de informação que se oferece aos seus eventuais leitores. Pois bem, um leitor deste blog que é engenheiro civil, me enviou a sequência de imagens abaixo para alertar para o risco de que aquilo que ser um grande reservatório de água logo acima dos reservatórios que romperam na Mina do Feijão em Brumadinho (MG) pode estar com sua estrutura seriamente comprometida, e com grande potencial para também romper se nada emergencial for feito para impedir isso.

Vejamos então a sequência de imagens que me foram enviadas por este leitor.

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Nesta imagem tomada durante o sobrevoo do presidente Jair Bolsonaro na região do Tsulama de Brumadinho, aparece apenas um pequeno pedação da barragem.  Já na segunda imagem (ver abaixo) dá para se ver que a mesma está posicionada exatamente acima dos reservatórios que já romperam. Note ainda que há claramente infiltração de água aparecendo na base da mesma.

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Mas a dimensão do problema aparece realmente na terceira imagem, pois é nela que se pode ver o tamanho exato e sua localização em relação à área que já foi atingida pelo Tsulama da Vale em Brumadinho.

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Dado o volume de água que está contido, que não parece ser desprezível, uma eventual ruputura desta barragem não apenas ampliaria a região espacial por onde o Tsulama da Vale poderá avançar, mas poderia atingir diretamente todos os que estão enfiados na lama tentando resgatar vítimas ainda vivas e os corpos daqueles que já estão mortos.

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Pelo tamanho da barragem que ainda resiste em Brumadinho é possível verificar que a estimativa inicial da Vale de que algo em torno de 1 milhão de metros cúbicos de rejeitos havia escapado não tinha como ser verdadeira. Resta saber o que mais a empresa não está informando de forma correta, inclusive o número atualizado de 12,7 milhões de metros cúbicos.

 

Ao contrário de Mariana, o Tsulama da Vale em Brumadinho já era esperado

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Bombeiros trabalham na área destruída pelo derramamento de rejeitos da Vale em Brumadinho (MG).

Até onde se sabe, o rompimento da barragem do Fundão da Mineradora Samarco (Vale +BHP)pegou mais ou menos de surpresa a população de Bento Rodrigues.  Entretanto, o mesmo não pode ser dito no caso dos reservatórios de rejeitos da Vale que romperam ontem (25/01) em Brumafinho (MG).

É que o jornal “Em Tempo” publicou hoje uma matéria mostrando que no dia 10 de janeiro de 2019, a presidente de uma associação comunitária protocolou junto ao Ministério Público um pedido de cancelamento da licença de operação da chamada Mina do Córrego do Feijão (ver documento abaixo).

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Em outro documento disponibilizado pelo “The Intercept”, fica demonstrada a tentativa dos representantes do FÓRUM NACIONAL DA SOCIEDADE CIVIL NA GESTÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS de retirar da pauta do Câmara de Atividades Minerárias – CMI/Copam    do estado de Minas Gerais o processo de licenciamento que acabaria autorizando a ampliação das atividades da Vale nas minas de Brumadinho. 

Como já postei aqui o depoimento da professora da Escola de Saúde Pública da Universidade Federal de Minas Gerais, Ana Flávia Quintão, reunião do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) que ampliou as atividades de mineração da Vale e de outras mineradoras em Minas Gerais, fica impedida qualquer alegação de que o ocorrido em Brumadinho não havia como ser antecipado.

Agora que o evitável ocorreu transbordando uma quantidade ainda indeterminada de rejeitos da mineração de ferro nos corpos aquáticos da região de Brumadinho e que a própria Vale reconhece que desconhce o paradeiro de 300 de seus empregados, há se evitar a dramatização deste incidente, pois esta é uma estratégia manjada que visa apenas livrar a Vale e seus controladores das suas responsabilidades civis e criminais. É que está mais do que comprovado que o que ocorreu em Brumadinho não teve nada de acidental, mas decorreu pura e simplesmente da avidez corporativa da Vale por ampliar ainda mais seus lucros já bilionários.

No tocante aos governos de Romeu Zema e Jair Bolsonaro, há que se cobrar a ampliação dos controles sobre o processo de licenciamento ambiental das atividades das mineradores em território mineiro e em todo o Brasil. É que já é sabido que está em curso um processo de extermínio das políticas de licenciamento ambiental no Brasil, em articulação direta com o Ministério do Meio Ambiente. A hora agora é de se mobilizar não apenas para cobrar a punição rigorosa dos culpados, mas também para impedir a precarização das políticas de defesa do meio ambiente  no Brasil. Só assim poderemos honrar os que morreram em Brumadinho e os que morreram há 3 anos em Mariana.

O Tsulama de Brumadinho expõe o ministro do Meio Ambiente condenado por favorecer mineradoras

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O  presidente Jair Bolsonaro manteve Ricardo Salles no cargo de ministro do Meio Ambiente, apesar de sua condenação por favorecer mineradoras. O Tsulama da Vale em Brumadinho poderá mudar a situação.

Tanto o presidente da república Jair Bolsonaro e seu vice, o general Hamilton Mourão, estão tentando se desvencilhar das responsabilidades do Tsulama da Vale que irrompeu hoje no município de Brumadinho levando algo em torno de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineração de ferro no sentido do Rio Paraopeba, um afluente do Rio São Francisco.

Em declaração à imprensa, o general Hamilton Mourão teria dito que o governo não pode ser culpado pelo rompimento da barragem em Brumadinho (MG). Segundo, a Folha de São Filho, o vice-presidente teria dito que “Essa conta não pode vir para a gente, porque nós assumimos há 30 dias“.  De quebra, Mourão teria dito que a Vale é uma empresa privada.

Mas voltando a Jair Bolsonaro, segundo informa o site UOL, ele teria criado dois gabinetes de crise para responder às consequências do Tsulama da Vale em Brumadinho, e ter ainda determinado que os ministros do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, e Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, e o secretário Nacional de Proteção e Defesa Civil, Alexandre Alves, se deslocassem para a região.

Ainda segundo o UOL, Jair Bolsonaro teria informado que  ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também está a caminho de Minas Gerais para acompanhar “in loco” os desdobramentos do Tsulama da Vale em Brumadinho. E é justamente no ministro de Meio Ambiente que a porca torce o rabo.  É que Ricardo Salles foi condenado na justiça por improbidade administrativa, por ter sido considerado culpado de favorecer empresas de mineração ao alterar ilegalmente mapas de zoneamento do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Tietê, que envolve 12 municípios da região metropolitana de São Paulo, inclusive a capital.

Assim, além de ser irônico de ter um condenado por improbidade administrativa na condição de ministro do Meio Ambiente,  Jair Bolsonaro agora é obrigado a mandá-lo para, digamos, o “battle front” criado por um grave incidente ambiental causado pela maior mineradora brasileira.

Eu não me surpreenderia se Ricardo Salles acabar sendo sacrificado para tentar melhorar uma imagem que já apresenta sérios arranhões com menos de 30 dias de governo.

O curioso caso venezuelano e um inquieante paralelo Brasil

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Ao contrário do esperado pelos adversários e por parte significativa da mídia corporativa, comandantes militares venezuelanos ratificam seu apoio ao regime chavista e a Nicolas Maduro.

Se uma liderança parlamentar de esquerda resolvesse repentinamente se proclamar presidente em exercício do Brasil por causa da aparente incompetência de um governo de extrema-direita, sabemos que muito provavelmente essa proclamação seria respondida com a prisão do proclamador.

Já na Venezuela, a autoproclamação de Juan Guaidó foi não só reconhecida rapidamente pelo governo de Donald Trump, mas também por um par de governos de direita na América Latina, numa velocidade que não deixa ocultar o grau de articulação que houve para que o lider da inoperante assembleia nacional resolvesse correr o risco que correu e continuará correndo, quaj seja, de ir parar na prisão.

Tenho acompanhado a cobertura internacional desde o ponto privilegiado em que estou no momento que é a cidade de Lisboa. Sem adentrar em muitos dos detalhes da cobertura que está sendo dada que difere de veículo para veículo, um aspecto é reforçado quase no tom de esperança. Esse aspecto seria a possibilidade dos níveis inferiores das forças armadas venezuelanos romperam a disciplina militar para apoiar Juan Guaidó. Em outras palavras, a mídia corporativa brasileira e mundial aposta na ruptura da estrutura da disciplina militar para viabilizar a derrubada de Maduro. Em outras palavras, a mídia corporativa reconhece a incapacidade política de Guaidó de acabar com o ciclo chavista na Venezuela, e aposta na anarquia militar.

Até agora essa esperança não está sendo acompanhada dos fatos como mostra o vídeo abaixo, pois os líderes militares venezuelanos parecem firmes na defesa de Nicolas Maduro e, consequentemente, contrários às pretensões de Juan Guaidó e seus apoiadores externos, a começar pelos governos de Donald Trump e Jair Bolsonaro.

 

Sem o apoio militar não há como alcançar a substituição de Maduro por Guaidó. Isso, contudo, amplifica ainda mais a dependência do presidente venezuelano de seus comandantes militares.  Esta dificuldade fica maior ainda quando se verifica que também todas as estruturas de estado da Venezuela (com exceção da assembleia nacional) apoiam a permanência de Nicolas Maduro no poder.

O curioso é que no Brasil está se vendo após meros 25 dias de governo o mesmo tipo de dependência em relação ao apoio das forças armadas por parte de Jair Bolsonaro.  Nesse sentido, para quem diz que não quer o Brasil sendo transformado em uma Venezuela, pelo menos neste aspecto estamos ficando bastante parecidos.  No que isso vai dar, ainda é difícil prognosticar. Mas certamente teremos um agravamento das tensões políticas que já não são desprezíveis.

Fala fraca e fuga de coletiva de imprensa em Davos explicitam esclerose precoce do governo Bolsonaro

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O presidente Jair Bolsonaro, no Fórum Econômico Mundial em Davos Foto: Fabrice Coffrini / AFP

Se a repercussão da aparição meteórica na mesa de abertura da edição de 2019 do Fórum Econômico Mundial de Davos já não tivesse sido ruim o suficiente para a imagem de Jair Bolsonaro e um governo em estágio inicial, a coisa ficou pior ainda com a fuga de uma entrevista coletiva onde o presidente e seus principais ministros deveriam expor seus projetos para o Brasil.

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Essa imagem me traz inclusive à lembrança o cantor Nelson Gonçalves e aquela canção que diz que “naquela mesa está faltando ele” (ressalvando-se que no caso de Davos a ausência foi coletiva).

O cenário fica ainda pior para Jair Bolsonaro e seu governo quando se vê que ele esteve disponível para entrevistas no melhor estilo “chapa branca” com veículos da mídia corporativa brasileira que optaram por aderir ao seu projeto político, sabe-se lá por quais razões.

Se essa tática de fugir de situações complicadas para falar com a “imprensa amiga” funciona no Brasil, isso não quer dizer que funcionará fora dele.  E Bolsonaro deveria ter sido melhor orientado nesse sentido, mas o problema é que não foi.

Para adicionar pitadas fortes de constrangimento há ainda o vaivém em torno do escândalo que cerca seu primogênito,  o senador eleito pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro, cujo caso evoluiu da, dizem, corriqueira subtração de parte dos salários de assessores na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para questões bem mais complexas que envolvem negócios com imóveis no melhor estilo “the Flash” para problemas bem mais delicados como o envolvimento com milicianos, incluindo a concessão de emprego para a mãe e a esposa de um deles.

Após parecer que iria jogar o filho “ao mar” para se livrar de possíveis ligações perigosas dizendo que se “ele (Flávio Bolsonaro) errou e isso ficar provado, eu lamento como pai, mas ele vai ter que pagar“; Jair Bolsonaro usou uma das entrevistas “chapa branca” para dizer que o alvo é ele e seu primogênito seria só vítima de um jogo sujo. Ao fazer isso, consciente ou inconscientemente, o presidente do Brasil se reaproximou da frigideira política em que o filho está sendo assado.

Se tudo não estivesse com cara de pudim desandado, Jair Bolsonaro resolveu se envolver diretamente na aventura política de remover Nicolás Maduro do poder na Venezuela. É que ao alinhar o Brasil automaticamente à posição do governo estadunidense que quer impor a derrubada de Maduro, Jair Bolsonaro corre o risco de alienar parceiros comerciais importantes como a Rússia e a China.  Uma amostra do preço deste tipo de alinhamento já foi dada  pela Arábia Saudita que suspendeu a compra de carne de frango de 33 frigoríficos brasileiros  como uma forma velada de protesto contra a anunciada mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

Entre os frigoríficos de carne de frango suspensos pela Arábia Saudita, estão unidades da BRF e JBS

Getty Images. Entre os frigoríficos de carne de frango suspensos pela Arábia Saudita, estão unidades da BRF e JBS.  Fonte: Economia IG. 

A questão é que hoje a saúde balança comercial brasileira depende diretamente da venda de suas commodities agrícolas e minerais para países que estão mostrando posições distintas não apenas no caso da Venezuela e da localização de suas embaixadas em Israel.  Se a posição da Arábia Saudita for seguida por outros países, a crise só tenderá a aumentar.

Todas estas sinalizações apontam para a ocorrência de uma esclerose altamente precoce do governo Bolsonaro. Se ainda nem chegamos ao final do primeiro mês e o novo congresso ainda nem foi instalado, imaginemos o que poderá acontecer ao longo de 2019. Por tudo o que se viu até agora, o calvário de Jair Bolsonaro e seus filhos está apenas começando (para usar uma imagem tão a gosto de sua base neopentescotal). Resta saber se o presidente saberá lidar com todas as pressões que apontam no horizonte.