Ciência sob ataque no Brasil: um problema que vai muito além das excentricidades de alguns personagens

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Para a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, a “Igreja Evangélica “perdeu espaço” na história e na ciência quando “deixou” a teoria da evolução “entrar nas escolas”

Se observarmos alguns dos principais personagens que formam a equipe ministerial do presidente Jair Bolsonaro notaremos uma evidente tendência a colocar em dúvida muitos elementos já exaustivamente debatidos e investigados pela ciência.

O mais exemplo disso foi o vídeo em que o selfmade man e guru ideológico de Jair Bolsonaro, o duble de filósofo e astrólogo autodidata Olavo de Carvalho, que postou vídeo questionando o heliocentrismo, um fato que já foi demonstrado em diferentes períodos da história da ciência por Galileu Galilei e Albert Einstein [1].

Mas enquanto Olavo de Carvalho emana suas posições anti-ciência do conforto desde Richmond na Virgínia (costa leste dos EUA), dentro do governo Bolsonaro foram postados vários de seus seguidores em posições chaves, a começar pelo Ministério das Relações Exteriores e também no de Educação e Cultura.

Entretanto, mesmo se inexistisse a influência olavista na equipe de governo de Jair Bolsonaro, outras figuras têm usado seus cargos para expressar posições que ou questionam as explicações científicas ou colocam em xeque o simples direito de os brasileiros terem acesso a evidências científicas para formar sua opinião.

Dois exemplos disso são o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que tem colocado em questão a prioridade das mudanças climáticas no tratamento das questões pertinentes à sua pasta [2]. Isto, inclusive, clama a pergunta sobre o que fará o ministro do Meio Ambiente se não vai tratar as mudanças climáticas como um elemento prioritário. Outra que vem se destacando é a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que acaba de ser pega em um vídeo onde apontava a entrada da ciência nas salas de aula como uma derrota para a religião (o que, convenhamos, não deixa de ser verdade) [3].

É importante que se diga que estas declarações anti-ciência não são meras “excentricidades” de pessoas peculiares. O fato é que esse discurso aparentemente excêntrico faz parte de um projeto deliberado de desqualificar a ciência para empurrar o Brasil para formas de exploração do trabalho e das nossas riquezas naturais que não podem ser mais aplicadas nos países do capitalismo central, muito em parte ao que a ciência já verificou teórica e empiricamente.

Em outras palavras, o discurso anticiência visa viabilizar uma forma ainda mais agressiva de capitalismo no Brasil. Por isso, seria um equívoco para os cientistas não se postarem publicamente em defesa das evidências que já existem para uma ampla gama de assuntos, a começar pela questão das mudanças climáticas e do processo de degradação dos biomas florestais existentes no Brasil.

Além disso, apesar das ciências ditas humanas serem frequentemente o alvo do ataque de governos de direita, o que torna as outras ramos da ciência mais imunes a cortes de verbas e perseguições ideológicas, o atual cenário brasileiro é indicativo de que o conhecimento científico será atacado como um todo. É que não há como aplicar um pensamento acientífico sem precarizar e inviabilizar o conjunto das ciências, visto que apesar das divisões esquemáticas, o pensamento científico tende a gerar formas comuns de entender a realidade, a despeito das diferentes aplicações que possam ter em termos disciplinares.

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Galileu Galilei (1564-1642), um dos pais da ciência moderna, quase acabou na fogueira da Inquisição por seus estudos que comprovaram a tese do Heliocentrismo.

Assim, é melhor que os cientistas brasileiros adotem o caminho dos seus congêneres estadunidenses que optaram pela ação política pró-ciência desde o início do governo Trump. Essa política resultou, em outras coisas, em uma forte bancada de deputados na Câmara de Representantes. Mas mais do que isso, houve a repetida realização de marchas pela ciência que mobilizarem milhões de estadunidenses de diferentes idades nas maiores cidades dos EUA.

A verdade é que estamos de um momento crucial para a ciência brasileira, uma espécie de “dá ou desce” para os que desejam que o Brasil chegue a um patamar mais elevado não apenas em termos de sua estatura enquanto Estado-Nação, mas principalmente da possibilidade de que possamos chegar a ser um país menos desigual e menos marcado por graves injustiças sociais como somos agora.

Saída do Pacto do Migração aumentará rejeição a brasileiros vivendo no exterior

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Decisão do governo Bolsonaro de saír do Pacto Global da Migração deverá aumentar problemas dos brasileiros vivendo no exterior.

No dia 19 de Dezembro postei uma nota sobre os prejuizos que uma eventual saída do Brasil do Pacto Global para uma Migração Segura, Ordenada e Regular, da ONU, causaria aos brasileiros que hoje escolhem a via migratória para alcançar melhores condições de vida [1].

Ontem, a rede britância BBC confirmou que um documento do Ministério das Relações Exteriores está circulando nas embaixadas brasileiras um documento que confirma a saída do Brasil do Pacto Global da Migração [2]. O primeiro poblema com essa saída é que a mesma claramente visa agradar ao governo de Donald Trump que também se recusou a aderir ao Pacto. O segundo problema é que esta medida tem tudo para dificultar a vida dos brasileiros que estão hoje no exterior na condiçao de imigrantes. É que fora dos auspícios do Pacto Global para a Migração, o imigrante brasileiro passará por dificuldade ainda maiores do que já passa.

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Um elemento a mais é que, pelo menos na Europa, existe hoje a prevalência de manifestações de xenofobia contra os imigrantes em geral.  Imaginemos o que acontecerá com os imigrantes brasileiros quando os grupos anti-migração ficarem cientes de que o Brasil está se retirando de um acordo que visa normatizar o fluxo migratório no mundo.

Nunca é demais lembrar que em diversos países o agora presidente Jair Bolsonaro teve a imensa maioria dos votos. Assim, com essa medida que certamente prejudicará os seus eleitores, o governo Bolsonaro retribui com uma medida salgada a quem lhe a chance de governar o Brasil.

 

Demarcação já!

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Num momento em que graves riscos pairam sobre os povos indígenas e seus territórios, um grupo de artistas acaba de lançar a canção “Demarcação já” . Em minha opinição, divulgar massivamente esse vídeo é uma das primeiras tarefas a serem cumpridas no início de 2019.

É que precisamos assegurar que a simpatia majoritária que existe na população brasileira pelos direitos dos nossos povos originários seja transformada em ação concreta para impedir os planos de destruição do governo Bolsonaro que sinalizam para o avanço da franja de destruição que já grassa fora para o interior de seus territórios.

Demarcação já!

 

Povos indígenas da Amazônia estão sob risco de genocídio por serem guardiões da natureza

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Em 2005 eu e um grupo de colegas publicamos na revista Environmental Conservation o artigo intitulado “Conservation units: a new deforestation frontier in the Amazonian state of Rondônia, Brazil. Naquele artigo, a partir de análises sobre as taxas de desmatamento no interior de unidades de conservação, identificamos uma tendência por parte de vários atores (madeireiros, produtores rurais, garimpeiros) de tratar as áreas protegidas existentes na Amazônia como a próxima fronteira de exploração dos recursos naturais existentes no interior da Amazônia brasileira [1].

Treze anos depois daquela publicação, estamos testemunhando a uma tentativa de desmantelar o sistema nacional de unidades de conservação, com um especial foco nas reservas indígenas. Em um dos seus discursos de campanha, o agora presidente de república prometeu rever demarcações já feitas e impedir a concessão de novas áreas [2]. Esses discursos de campanha estão agora sendo transformados em ação de governo, implicando em graves riscos para a integridade dos povos indígenas e os territórios que eles ajudam a proteger.

Para que se tenha ideia da importância das unidades de conservação e reservas indígenas na manutenção dos ecossistemas amazônicos, bem como se possa entender o risco que os planos do governo Bolsonaro implica para o futuro das mesmas, mostro abaixo uma animação feita a partir da integração de imagens de satélites que mostram as mudanças da paisagem na região no entorno do Parque Nacional do Xingu entre 1984 e 2018 [3].

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O fato é que quando se anuncia que as demarcações de reservas o que já foram concluídas serão revistas, e que as ainda em andamento não serão concluídas, o que temos realmente é uma sinalização de que será permitida a livre ação para a pilhagem dos ecossistemas naturais que elas ajudam a proteger. E, neste processo, as populações indígenas estarão sob grave risco já que, na ausência da ação efetiva do Estado em prol da proteção dos ecossistemas e recursos nelas contidos, elas são de fato as guardiães dos biomas amazônicos.

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Por essas razões é que considero essencial que seja formada uma rede de apoio aos povos indígenas, de modo a protegê-los dos ataques que certamente virão por parte de atores que desejam avançar legal ou ilegalmente sobre seus territórios. Do contrário, o mundo acabará assistindo a um processo de genocídio indígena em pleno Século XXI.

“The Washington Post” convoca boicote a produtos originados de desmatamento na Amazônia

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Desde meados do ano passado venho apontando neste blog para a possibilidade concreta de que o Brasil seria transformado num pária ambiental planetário, caso se confirmasse o retrocesso na legislação ambiental criada para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia brasileira.

Confirmada a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais e iniciado o seu governo foram confirmados os piores temores, já que os primeiros dias de janeiro foram marcados por um profundo ataque ao sistema ambiental brasileiro e aos direitos dos povos indígenas.

Enquanto no Brasil se perde tempo para discutir as afirmações estapafúrdias da ministra Damares sobre quais cores deveriam ser usadas por meninas e meninos, o influente jornal estadunidense “The Washington Post” não perdeu tempo e já sinalizou em um editorial publicado no dia de ontem (04/01) a necessidade de que produtos oriundos do desmatamento da Amazônia sejam o alvo de um boicote internacional (ver tradução do texto completo abaixo).

Em minha modesta opinião, a convocação que foi feita pelo Comitê Editorial do “The Washington Post” é uma sinalização clara de que já está em curso um processo para organizar esse boicote, não apenas nos EUA, mas em outros importantes mercados para as commodities agrícolas e minerais produzidas pelo Brasil.

E de nada adiantará o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, realizar um dos seus discursos anti-globalistas para resolver o problema. Aliás, se ele insistir em manter a postura que vem mantendo desde que foi anunciado que ele ocuparia o cargo mais alto da estrutura diplomática brasileira, o mais provável é que o boicote proposto pelo “The Washington Post” aconteça mais cedo do que tarde.

 

Será que Jair Bolsonaro rasgará as proteções ambientais e colocará em risco a Amazônia?

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A floresta amazônica virgem envolvendo trechos de áreas desmatadas preparadas para o plantio de soja no estado de Mato Grosso, no Brasil, em 2008. (Paulo Whitaker / Reuters)

Pelo Comitê Editorial do “The Washington Post”

O PRESIDENTE TRUMP foi, sem dúvida, o mais eficaz em destruir importantes proteções ambientais. Será que acontecerá o mesmo com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro? O mundo deveria esperar que não.

O Brasil é a maior floresta ininterrupta do mundo. Funcionando como os pulmões da Terra, a Amazônia absorve dióxido de carbono – e mais de 2 bilhões de toneladas deste gás promotor do efeito estufa por ano – e expele oxigênio. Grandes quantidades de dióxido de carbono que se aquecem no planeta são armazenadas nas árvores e outras espécies da região. O desflorestamento, entretanto, libera cada vez mais desse dióxido de carbono preso no ar, mesmo como é. Em todo o mundo, o desmatamento é responsável por 15% das emissões anuais de aquecimento do planeta. Se a floresta amazônica encolher, a luta contra as mudanças climática ficará muito mais difícil. Com  desmatamento no atacado, o trabalho ficaria quase impossível.

Nos últimos anos o Brasil pareceu reconhecer sua responsabilidade especial em cuidar deste recurso planetário insubstituível. Apesar de cerca 4.800 km2 de florestas tropicais perdidas no passado, a taxa de desmatamento do país caiu drasticamente na última década.  O Brasil adotou um código florestal proibindo que proprietários de terras da Amazônia de desmatar mais de 20 por cento de suas terras. As áreas reservadas para os povos indígenas serviram como refúgios cruciais do processo de desenvolvimento.  Reconhecendo a crise climática, o Brasil se comprometeu a reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 43% até 2030, em sua adesão ao Acordo climático de Paris.

Entra Bolsonaro, às vezes chamado de Donald Trump do Brasil. O novo presidente propôs a construção de uma estrada através da floresta amazônica, expressou hostilidade para organizações ambientais internacionais, disse que as comunidades indígenas devem “adaptar ou simplesmente desaparecer”, chamou suas reservas catapora na paisagem e prometeu fundir o Ministério do Meio Ambiente, que abriga as autoridades que supervisionam as proteções da Amazônia, com o Ministério da Agricultura pró-agricultura. Imediatamente após assumir a presidência, ele transferiu a autoridade sobre as reservas indígenas para o Ministério da Agricultura e ordenou novo monitoramento das organizações não-governamentais internacionais. A partir daqui, os agentes ambientais já sobrecarregados poderão ver seus recursos e o apoio diminuir ainda mais.

O senhor Bolsonaro não tem liberdade plena. Ele não pode alterar o código florestal, eliminar as proteções aos povos indígenas ou retirar-se do Acordo de Paris sem a cooperação do congresso brasileiro, no qual seu partido não tem maioria. Enquanto isso, o resto do mundo pode ter algum impacto também. Consumidores, empresas e governos ocidentais devem evitar comprar produtos provenientes de áreas desmatadas e pressionar os parceiros comerciais brasileiros a fazerem mesmo.


O editorial acima foi publicado originalmente em inglês [Aqui!]

A ignorância sobre os povos indígenas e sua capacidade de mobilizar poderá resultar no primeiro boicote ao Brasil na era Bolsonaro

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A maioria dos brasileiros possui uma ignorância em relação aos cerca de 250 povoss indígenas existentes no nosso país [1]. Essa ignorância vem sendo historicamente utilizada para impor um contínuo processo de genocídio que já custou a existência de incontáveis membros de nossos povos originários, fosse por parte de agentes do Estado ou dos grupos e interesses privados interessados em se apossar das riquezas contidas nos territórios milenarmente ocupados por eles.

As recentes medidas do governo recém-iniciado de Jair Bolsonaro fortalecem as intenções daqueles grupos privados (sejam empresas ou indivíduos) que querem avançar sobre os territórios indígenas, independente do custo que isso possa trazer em termos de vidas humanas e dos ecossistemas nos quais os povos indígenas vivem e realizam sua reprodução social.

Pois bem, uma das facetas dessa ignorância é imaginar que os povos indígenas, após mais de 500 de anos de contato com uma forma de sociedade que os quer exterminar, estão assistindo parados aos fatos que estão ocorrendo em Brasília. Quem pensa assim nunca dialogou com os jovens líderes indígenas que hoje estão na ponta da defesa da existência de seus povos e dos territórios que eles ocupam.

Falo isso porque tive a oportunidade de ouvir como informantes principais em minha pesquisa de campo para a minha tese de doutoramento algumas lideranças dos povos indígenas de Rondônia (Cinta Larga, Karitiana e Suruí). Eles mostravam não apenas grande entendimento da forma com que a sociedade brasileira funciona, mas do seu papel enquanto representantes dos interesses de seus povos.  E é preciso que se saiba que essas lideranças já amaduceram e já produziram outros quadros, alguns deles tendo ingressando em universidades para se formar, por exemplo, em Direito e Medicina, duas das profissões mais cobiçadas pela juventude das classes mais abastadas da sociedade brasileira.

Interessante notar que, apesar de todas as clivagens e fricções que existem entre os povos indígenas, existem organizações indígenas dirigidas não por pessoas externas às comunidades, mas sim por membros das etnias que as criam. Por isso, é possível que haja quem se surpreenda com o fato de o primeiro bloqueio ou boicote econômico que o Brasil vá sofrer sob o governo Bolsonaro tenha como motivo o ataque que está sendo desferido contra os povos indígenas.

Digo isso baseado na capacidade de reação que os povos indígenas estão tendo, num momento em que as principais centrais sindicais brasileiras já enviaram até um documento em que objetivamente se prostram diante do governo Bolsonaro. Um pequeno exemplo da habilidade das organizações indígenas de reagir é o vídeo abaixo, produzido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) que já está sendo circulado internacionalmente. 

Como expresso no vídeo, a minha maior preocupação se dá com a situação dos povos indígenas isolados, pois estes ainda não possuem qualquer noção de como enfrentar uma conjuntura histórica onde a primeira coisa que será colocada em questão será o direito deles existirem. 

Mas que ninguém se surpreenda com a reações que os povos indígenas poderão ter contra as tentativas ilegais de avançar sobre seus territórios. É que ao contrário do que insinuou o presidente Jair Bolsonaro, os povos indígenas não são como animais dentro de um zoológico onde ficam mansamente contemplando a realidade.

Por isso é que eu digo que a ignorância sobre os povos indígenas e sua capacidade de mobilizar poderá resultar no primeiro boicote ao Brasil na era Bolsonaro. A ver!

Apoio de proprietários a Jair Bolsonaro gera “black list” de estabelecimentos comerciais a serem boicotados

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Os proprietários de estabelecimentos comerciais em Campos dos Goytacazes que se engajaram publicamente na campanha vitoriosa de Jair Bolsonaro podem estar notando (ou não) uma diminuição no afluxo de clientes, o que poderia ser visto como trivial no período de férias. 

Entretanto, essa diminuição parece não ter nada de trivial. A causa mais provável é a criação e circulação em grupos fechados de uma lista de estabelecimentos a serem evitados por cidadãos que se afiliam à causas que hoje estão sob ataque pelo governo Bolsonaro.

Já tive acesso a pelo menos duas das listas que estão circulando em redes sociais, e pude verificar a inclusão de instituições privadas de ensino (escolas e faculdades), bares, restaurantes, consultórios médicos, clínica de tratamento estético, academias, hamburguerias e até a de uma livraria tradicional que opera na região central de Campos dos Goytacazes.

Concordando ou não com esse tipo de “black listing“, o fato é que ao se dedicarem a apoiar uma candidatura (e agora um governo) que se dedica a aplicar uma agenda considerada como altamente detrimente aos direitos de determinados segmentos sociais, os proprietários destes estabelecimentos esqueceram uma regra de ouro para quem atua no setor de serviços:  o dinheiro pode não ter ideologia, mas o cliente tem. 

E em um momento em que tudo gira em torno das diferenças ideológicas, fazer campanha de forma explícita em redes sociais pode significar que por este mesmo mecanismo eles serão castigados. Isto gera uma nova máxima em tempos de internet: quem com rede social fere, com rede social será ferido.

 

Invasão de áreas indígenas amplifica o risco de genocídio na Amazônia

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Enquanto somos distraídos pelas declarações de ministros exóticos do governo Bolsonaro, ações concretas já estão sendo tomadas para executar a agenda que motivou muitos dos apoios que o candidato Jair Bolsonaro recebeu. 

Um exemplo concreto disso foi a nova invasão da Terra Indígena Arara que está localizada nos municípios de Uruará e Medicilândia, no Pará.  Uma representante da FUNAI se limitou a afirmar que o órgão monitora a situação [1].

Ainda que a invasão de terras indígenas por madeireiros e todo tipo de violador da integridade de áreas públicas ocupadas por povos originários não seja nenhuma novidade, a onda de invasões que está sendo estimulada pela fragmentação dos órgãos de fiscalização e proteção sinaliza um perigoso aprofundamento da situação.

A mídia corporativa brasileira, entretanto, está se dividindo em oferecer uma cobertura facciosa que oscila entre glamourizar os primeiros atos de governo Bolsonaro e a formulação de críticas à partes de costumes que nada servem para que se tenha um olhar estratégico sobre o início do governo Bolsonaro e de vários governos estaduais que abraçaram a sua agenda de regressão socioambiental.

Essa falta de um tratamento mais sério está fazendo com que a mídia internacional, mais uma vez, ofereça análises que são mais apuradas e que, por isso, apresentam os riscos reais que estamos atravessando. Um exemplo disso foi o artigo assinado por Fiona Watson e publicado pelo “The Guardian” onde é apresentado o alerta de que os povos indígenas isolados da Amazônia estão sob o risco de genocídio por causa das políticas que começam a ser aplicadas pelo governo Bolsonaro [2].

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O fato é que o ataque à autonomia dos povos indígenas em territórios demarcados pela União esconde um objetivo que nada tem de moralizante ou civilizador. O que está em jogo na agressão em curso aos povos indígenas é o saque dos ecossistemas dos quais eles dependem para sua sobrevivência,

Entender isso pode não ser suficiente, mas, pelo menos, colocará o debate dentro de um plano que tenha um real significado. Em vez de se ficar debatendo esta ou aquela declaração estapafúrdia por este ou aquele membro do governo Bolsonaro não fará isto, deixando os povos indígenas que vivem na Amazônia sob o risco apontado por Fiona Watson em seu artigo.

 

JP Morgan informa: nuvens negras avançam sobre a economia mundial em 2019

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Enquanto no Brasil se vive uma espécie de transe com todas as medidas já implementadas pelo governo Bolsonaro, os sinais que apontam no horizonte da economia mundial indicam que em 2019 a economia mundial deverá, muito em conta por causa da guerra comercial entre os EUA e a China.

Pelo menos isso é o que acreditam os analistas da J.P. Morgan Chase conforme aponta a jornalista Sarah Feldman no artigo que segue abaixo. Em outras palavras, a coisa está mais para tempestade do que para céu de brigadeiro na economia mundial.

E no meio desse turbilhão, seguirá o Brasil sob o comando do governo Bolsonaro.

Crescimento Global da Economia deverá diminuir em 2019

Por Sarah Feldman para o Statista

Enquanto uma turbulência política e diplomática varreu o cenário mundial no último semestre de 2018, as perspectivas econômicas para 2019 foram atingidas, de acordo com novas estimativas do JP Morgan.

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A China experimentou um crescimento de 6,6% no PIB real em 2018,  mas para 2019 o JP Morgan estima que o país chegará perto de um crescimento de 6,2% no PIB real. Os Estados Unidos experimentaram um crescimento de cerca de 3% do PIB real em 2018. A partir de 2019, segundo o JP Morgan os EUA podem esperar uma taxa de crescimento do PIB real de 2,4%.

Essas taxas de crescimento reduzidas vêm depois do início da guerra comercial entre os EUA e a China atingiu um crescendo no final do ano. Na Cúpula do G20, houve promessas de ambos os lados para aliviar as tensões, embora essas garantias ainda não tenham se traduzido em ações substanciais. No período que antecedeu os feriados, o mercado acionário perdeu todos os seus ganhos desde setembro de 2017. As perspectivas de crescimento global para o mundo e para a área do euro permanecem relativamente estáveis, com pouco ou nenhum crescimento previsto do PIB real.


O artigo de Sarah Feldman foi originalmente publicado em inglês [Aqui!]

Mais veneno na mesa do brasileiro: esse é o alvo da extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional

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Uma das primeiras e mais grotescas decisões do início do governo Bolsonaro foi a edição da  Medida Provisória nº 870, de 1º de janeiro de 2019,  de revogar disposições constantes da Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan), que visa assegurar o direito humano à alimentação adequada. A medida na prática esvazia  o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e encerra décadas de uma esforço coletivo para a eliminação da fome no Brasil.

À primeira vista esse desmantelamento visaria apenas remover da esfera de decisões organizações não governamentais e movimentos sociais de uma área estratégica para a formulação de políticas públicas. Aliás, ninguém que acompanhou a trajetória de Jair Bolsonaro pode se sentir surpreso com a dissolução do Consea.

O problema é que entre as atribuições do Consea estava não apenas garantir que todos os brasileiros tenham acesso cotidiano a alimentos, mas também que estes sejam saudáveis, livres de doenças e contaminações.

E aí que parece residir o nó da questão. Os latifundiários que passaram a exercer forte influência em ministérios estratégicos não possuem o menor interesse de que a população tenha maior controle sobre, por exemplo, o tipo de agrotóxico e a quantidade que é usada na produção dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros.

A extinção prática do Consea impedirá que políticas em prol de alimentos saudáveis possam ser formuladas e, menos ainda, executadas sob o controle da população.  Em termos ainda mais sombrios, o que teremos pela frente é a possibilidade de que a comida que os brasileiros, especialmente os segmentos mais pobres da população, esteja ainda contaminada por resíduos de agrotóxicos, muitos dos quais já foram banidos em outras partes do planeta.