Em novo artigo, futuro ministro das relações exteriores se candidata a ser o Don Quijote do Bolsonarismo

Palácio_Itamaraty_by_Diego_Baravelli

Pode dizer o que se quiser do futuro “ministro das Relações Exteriores” do governo Bolsonaro, o Sr. Ernesto Araújo, mas não que ele não esteja disposto a uma boa briga enquanto for “permanecido” no cargo para o qual foi indicado.

De onde depreendo isso? Da leitura do artigo abaixo que foi publicado pelo jornal “Gazeta do Povo” cuja inexpressividade em número de leitores forçou a passagem de diário impresso para um que sobrevive hoje na sua versão online.

Do artigo se depreende que Ernesto Araújo está pronto para a briga com o PT, com os marxistas culturais (sejam eles quem forem), com a grande mídia internacional e também com a Organização das Nações Unidas (ONU).

O interessante é que ele faz isso tudo em nome de um suposto “mandato popular na política externa”, um espaço que até pouco era ocupado apenas por profissionais capacitados e agora parece ter sido um entregue a uma espécie de “Don Quijote de la Derecha” disposto a enfrentar todos os moinhos de vento que encontrar pela frente.

Mas se não estiver disposto a acreditar em mim, não se faça de rogado ou rogada e passe para a leitura integral do texto publicado pela Gazeta do Povo. Mas se ficar confuso com a mistura de Gramsci, Lukács, Kojève, Adorno e Marcuse para supostamente caracterizar as influências marxistas na sua vida, não se deprima. Em termos de marxismo, o forte embaixador e futuro ministro de relações exteriores parece ser a ignorância e ódio.

Aguardemos o que Ernesto Araújo terá para nos dizer sobre “alarmismo climático”. Deve ser algo na linha do “Deus Trump” que ele diz adorar que foi “eu não acredito nisto” [1].

Mas uma coisa é certa: com tamanha disposição para a briga, Ernesto Araújo vai precisar de muita ajuda de algum Sancho Pança, seja ele quem for e onde estiver.

Mandato popular na política externa

Por Ernesto Araújo [2]

Se a prioridade, segundo o presidente eleito, é extrair a ideologia de dentro do Itamaraty, não lhe parece conveniente ter um chanceler capaz de compreender a ideologia que ali existe?

Algumas pessoas gostariam que o presidente eleito Jair Bolsonaro tivesse escolhido um chanceler que saísse pelo mundo pedindo desculpas. Queriam uma espécie de Ministro das Relações Envergonhadas que chegasse aos parceiros dizendo algo como “Olhem, os brasileiros elegeram Bolsonaro. Não posso fazer nada, é a democracia. Sabem como é, o povo não entende nada. Mas fiquem tranquilos, pois aqui, na frente externa, nada vai mudar. Estou aqui para aguar todas as posições do presidente, para cozinhá-las e transformá-las no mesmo rame-rame que vocês já conhecem, cotinuarei falando a linguagem da ordem global. Estou aqui para não deixar nada acontecer”.

Alguém desse tipo é o chanceler que os comentaristas da imprensa tradicional – nutridos pela convivência com diplomatas pretensiosos – gostariam de ver. Alguém que enquadrasse o novo presidente, pasteurizasse as suas ideias, freasse o seu ímpeto de regeneração nacional, sob a desculpa de que política externa é algo demasiado técnico para ser entendido por um simples presidente da República, muito menos por seus eleitores.

Parece prevalecer nesses meios a tese de que um presidente pode mudar tudo, menos a política externa. Para eles, a política externa seria uma região fechada ao mandato popular, uma espécie de no-go zone fechada ao povo; o Itamaraty seria um Estado dentro do Estado, onde o Presidente só aparece como um convidado ilustre nos jantares oficiais, mas não tem voz efetiva, ou onde a voz do presidente – que é a sagrada voz do povo – sai dublada em idioma da ONU, e ao ser dublada perde o sentido, pois no idioma da ONU é impossível traduzir palavras como amor, fé e patriotismo.

Isso é um gigantesco equívoco. Em uma democracia, a vontade do povo deve penetrar em todas as políticas. Mas as pessoas daquele sistema midiático-burocrático, que gostam tanto de falar em democracia, não sabem disso. Perguntam-se, assustadas: “O que vão pensar de mim os funcionários da ONU, o que vai dizer de mim o New York Times, o que vai dizer o The Guardian, o Le Monde?”

E o povo brasileiro? Vocês não se preocupam com o que o povo brasileiro vai pensar de vocês? Sabem quem é o povo brasileiro? Já viram? Já viram a moça que espera o ônibus às 4 horas da manhã para ir trabalhar, com medo de ser assaltada ou estuprada? A mulher que leva a filha doente numa cadeira de rodas precária, empurrando-a de hospital em hospital sem conseguir atendimento? O rapaz triste que vende panos no sinal debaixo do sol o dia inteiro para mal conseguir comer? A mulher que pede dinheiro para comprar remédio, mas na verdade é para comprar crack e esquecer-se um pouco da vida? O outro rapaz atravessando a rua de muletas, com uma mochila toda rasgada às costas, na qual pregou o adesivo do Bolsonaro, talvez sua esperança de dar dignidade e sentido à sua luta diária? O pai de família com uma ferida na perna que não cicatriza nunca porque ele precisa trabalhar três turnos para poder alimentar os filhos?

Aí está o povo brasileiro, não está no New York Times. Se a política externa não se relaciona com o sofrimento, a paixão e a fibra dessas pessoas, então não serve para nada.

Alguns jornalistas estão escandalizados, alguns colegas diplomatas estão revoltados. Revoltados por quê? Porque pela primeira vez terão de olhar o seu próprio povo na cara e escutar a sua voz?

Você, leitor, diz que quer acabar com a ideologia em política externa? Eu também quero. Essa é a principal missão que o presidente Bolsonaro me confiou: “libertar o Itamaraty”, como disse em seu pronunciamento na noite da vitória. Mas você sabe em que consiste a ideologia que diz ser preciso eliminar? Você diz que é contra a ideologia, mas, quando eu digo que sou contra o marxismo em todas as suas formas, você reclama. Quando me posiciono, por exemplo, contra a ideologia de gênero, contra o materialismo, contra o cerceamento da liberdade de pensar e falar, você me chama de maluco. Mas, se isso não é o marxismo, com estes e outros de seus muitos desdobramentos, então qual é a ideologia que você quer extirpar da política externa? “A ideologia do PT”, você me dirá. E a ideologia do PT acaso não é o marxismo?

Você aprendeu na escola que o marxismo prega a propriedade coletiva dos meios de produção, e deduz que, se o PT não prega o fim da propriedade privada, então não é marxista. Essa era, talvez, a posição do marxismo em 1917 – você está 100 anos atrasado na sua concepção do marxismo. Você se satisfaz com o que escutou de sua professora de História numa aula do ensino médio, nunca mais estudou nada sobre marxismo ou qualquer outra corrente ideológica, e agora vem pontificar e tentar me dizer o que é ou o que não é ideologia? Os marxistas culturais de hoje dizem que o “marxismo cultural” não existe e você acredita, simplesmente porque não tem os elementos de juízo e o conhecimento necessário. O fato é que o marxismo, há muito tempo, deixou de buscar o controle dos meios de produção material e passou a buscar o controle dos meios de produção intelectual – fundamentalmente, os meios de produção do discurso público: mídia e academia. Quem controla o discurso público, nos jornais e universidades, controla a vida social de maneira muito mais eficiente do que a obtida pelo controle das fábricas ou fazendas. Vencida na economia, a ideologia marxista, ao longo das últimas décadas, penetrou insidiosamente na cultura e no comportamento, nas relações internacionais, na família e em toda parte.

As coisas que eu critico, critico-as porque sei que são parte e continuação da ideologia que você diz repudiar. O alarmismo climático (sobre o qual falarei em outra oportunidade), o terceiro-mundismo automático e outros arranjos falsamente anti-hegemônicos, a adesão às pautas abortistas e anticristãs nos foros multilaterais, a destruição da identidade dos povos por meio da imigração ilimitada, a transferência brutal de poder econômico em favor de países não democráticos e marxistas, a suavização no tratamento dado à ditadura venezuelana, tudo isso são elementos da “ideologia do PT”, ou seja, do marxismo, que ainda estão muito presentes no Itamaraty. Mas, quando eu me posiciono contra todas essas pautas, você diz que eu sou ideológico e sustenta que eu não deveria fazer nada a respeito.

Se você repudia a “ideologia do PT”, mas não sabe o que ela é, desculpe, mas você não está capacitado para combatê-la e retirá-la do Itamaraty ou de onde quer que seja. Ao contrário, você está ajudando a perpetuá-la sob novas formas. Se a prioridade é extrair a ideologia de dentro do Itamaraty, não lhe parece conveniente ter um chanceler capaz de compreender a ideologia que existe dentro do Itamaraty? Alguém que estuda essa coisa nos livros, há muitos anos, e não simplesmente ouviu alguma referência num segmento do Globo Repórter? Muitos pensadores marxistas brilhantes estão há 100 anos trabalhando incansavelmente e programando a penetração da cultura social e política, de maneira velada, mas por isso mesmo profunda, em favor de seu projeto de poder – e você acha que para combater isso basta dizer “não existe mais ideologia no Itamaraty”, ou basta pronunciar “pragmatismo” como uma palavra mágica que se instalará sozinha? Gramsci, Lukács, Kojève, Adorno, Marcuse estão rindo da sua cara. Ou melhor, não estão rindo, porque marxista não tem senso de humor, mas você sabe o que quero dizer.

Você é contra a ideologia? Então é preciso alguém que entenda de ideologia. Para curar uma doença, não basta dizer que a detestamos, é preciso conhecer suas causas e manifestações, suas estratégias e seus disfarces.

Você é a favor da democracia? Então deixe o povo brasileiro entrar na política externa.

Ernesto Araújo, embaixador e diretor do Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do Itamaraty, assumirá o Ministério das Relações Exteriores em 1.º de janeiro de 2019.

Com informações da Gazeta do Povo [2]


[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/27/internacional/1543283242_634443.html

Brasil registra o pior nível de desmatamento anual em uma década

Quase 8.000 km² de florestas foram perdidos até julho de 2018 em meio a alarme O novo presidente, Jair Bolsonaro, piorará a situação

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Ambientalistas alertam que o desmatamento provavelmente se tornará mais agudo quando Jair Bolsonaro se tornar presidente em 1º de janeiro. Foto: Bruno Kelly / Reuters

Por Dom Phillips [1]

O Brasil divulgou seus piores números anuais de desmatamento em uma década, em meio a temores de que a situação possa piorar quando o presidente Jair Bolsonaro, assumidamente antiambientalista, assumir o poder. 

Entre agosto de 2017 e julho de 2018, 7.900 km² foram desmatados, de acordo com dados preliminares do Ministério do Meio Ambiente baseados no monitoramento por satélite – um aumento de 13,7% em relação ao ano anterior e a maior área desmatada desde 2008. A área é equivalente a 987.000. campos de futebol. A notícia foi recebida com consternação por ambientalistas que alertaram que o desmatamento provavelmente se tornaria mais agudo quando Bolsonaro se tornar presidente em 1º de janeiro. “

É muita floresta destruída”, disse Marcio Astrini, coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil. “A situação é muito preocupante … o que é ruim vai piorar.”

O Ministério do Meio Ambiente informou que o aumento veio apesar do aumento do orçamento e das operações realizadas pela agência ambiental Ibama.

“Precisamos aumentar a mobilização em todos os níveis de governo, da sociedade e do setor produtivo para combater atividades ambientais ilícitas”, disse o ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, em um comunicado.

Mas o governo parece estar indo na outra direção.

Depois de cair por vários anos, o desmatamento começou a subir novamente em 2013, um ano depois que a presidente esquerdista Dilma Rousseff aprovou um novo código florestal que anistia os desmatamentos em pequenas propriedades. O desmatamento aumentou em quatro dos seis anos desde então, inclusive em 2016, ano em que Rousseff foi cassada e substituída por seu ex-vice-presidente Michel Temer.

Temer fez novas concessões a poderosos interesses do agronegócio em troca do apoio de seus representantes do Congresso – incluindo a aprovação de uma medida que legalizou terras que haviam sido ocupadas na Amazônia, um condutor comum de desmatamento. No ano passado, Temer recuou em medidas para reduzir a proteção de uma floresta nacional chamada Jamanxim e uma área protegida chamada Renca, após protestos de ambientalistas, a supermodelo Gisele Bündchen e até a cantora Alicia Keys no festival de música Rock in Rio. 

Movimentos como esses sinalizaram que o congresso brasileiro não estava mais preocupado com o desmatamento, disse Astrini, incentivando o desmatamento.

“Sentimos em nosso trabalho de campo que essas gangues de desmatamento estão muito confiantes de que obterão anistia ou que estão cobertas”, disse ele.

À medida que mais e mais da Amazônia é cortada, a maior floresta do mundo está se aproximando do “ponto de inflexão” – após o que os especialistas temem que ela possa desaparecer.

“Chegará um momento em que o acúmulo desse desmatamento causará um efeito no qual a floresta deixará de ser uma floresta”, disse Astrini. “Os cientistas calculam que isso é entre 20 a 30%. Estamos muito perto dos 20%.

” O Observatório do Clima – uma rede de mudanças climáticas sem fins lucrativos – calculou que, em 2017, 46% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil foram devidas ao desmatamento.

Também espera que o desmatamento se agrave quando o novo governo de Jair Bolsonaro começar. Ele freqüentemente atacou o que ele chama de “indústria de multas” de agências como o Ibama, e quer permitir a mineração em reservas indígenas protegidas – algumas das florestas menos destruídas da Amazônia – e até mesmo considerado fazer do ministério do meio ambiente parte do ministério da agricultura.

Bolsonaro desfrutou do apoio do agronegócio e seu ministro da agricultura será liderado por Tereza Cristina, chefe do lobby do Congresso.

Seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, argumentou que o aquecimento global é uma trama marxista. Na sexta-feira, seu vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, embora tenha admitido a existência do aquecimento global, disse ao jornal Folha de S.Paulo: “O ambientalismo é usado como instrumento de dominação das grandes economias”.

Bolsonaro apenas recuou sobre os planos de retirar o Brasil do acordo climático de Paris porque os produtores agrícolas argumentaram que a medida arriscou boicotes dos consumidores europeus, informou a mídia local.

“Se o problema está na política e nos políticos e seu poder de decisão, eles precisam ser pressionados”, disse Astrini.


Este artigo foi originalmente escrito em inglês pelo jornal “The Guardian”‘ [1]

Carlos Bolsonaro informa que não tem mais “ascensão” às redes sociais do pai presidente

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O vereador Carlos Bolsonaro (PSC) usou hoje sua conta na rede social Twitter para informar que desde a última 3a. feira (21/11) ão tem mais “ascensão” às redes sociais do pai. Lamentavelmente  ele também informou que agora voltará ao seu mandato na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro (ver imagem abaixo).

Sobre essas informações, fiquei com duas dúvidas. A primeira é que cessados esses anos de dedicados ao que o vereador “acredita”, o que fará ele agora? Dedicará o resto do seu mandato ao que não acredita? Em segundo lugar, será que o vereador Carlos Bolsonaro pretende alguma “ascensão” na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro?

Por último fica a sensação de que algo não ficou bem resolvido com a decisão do pai do vereador de não nomeá-lo para secretariar o setor de comunicação da presidência da república.

O sombrio futuro da Amazônia

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A abordagem ambiental do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, pode ser resumida em uma palavra: exploração. Isso será devastador não apenas para o Brasil – onde dezenas de milhões de cidadãos dependem da Amazônia para alimentação, transporte e meios de subsistência – mas também para o resto do mundo.  

*Por Paulo Artaxo [1]

SÃO PAULO – No mês passado, um Brasil profundamente dividido votou para eleger seu próximo presidente. Diante de uma escolha entre Fernando Haddad, do esquerdista Partido dos Trabalhadores, e o extremista de direita Jair Bolsonaro, os brasileiros escolheram o extremista – um resultado que terá consequências de longo alcance para o meio ambiente, entre outras coisas. 

Com o sólido apoio dos 5% de brasileiros e proprietários de terras rurais mais ricos, Bolsonaro garantiu um apoio popular mais amplo, jogando com os preconceitos e medos das pessoas. Na sua campanha, ele dirigiu-se aos grupos vulneráveis e prometeu reduzir ou eliminar as proteções para minorias, mulheres e pobres. Enquanto isso, ele pretende aliviar as leis de armas restritivas do Brasil, alegando que ao permitir que os cidadãos andem armados, o crime diminuirá.

Quanto ao ambiente, os planos de Bolsonaro podem ser resumidos numa palavra: exploração. Para começar, ele quer reduzir ou eliminar as proteções ambientais na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. E pretende reduzir substancialmente a proteção das terras indígenas que pertencem aos descendentes dos habitantes originais da Amazônia. Irá diminuir as restrições ambientais sobre o uso de pesticidas e sobre o licenciamento para o desenvolvimento de infraestruturas.

“Onde há terra indígena”, disse Bolsonaro em tempos, “há riqueza debaixo dela”Com isso em mente, ele declarou que não serão demarcadas mais reservas indígenas e que as reservas existentes serão abertas para extração.

A agenda de Bolsonaro acelerará dramaticamente a degradação ambiental. A Imazon, uma ONG brasileira, denunciou 444 km2 (171 milhas quadradas) de descampado no passado mês de setembro, um aumento de 84% comparado com setembro de 2017. Os 12 meses totalizam 4859 km2, o maior nível desde julho de 2008. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, INPE, também anuncia um crescimento na desflorestação –cercade 50% por ano em setembro.

No cenário atual, muitos dos agricultores ou madeireiros que exploram a Amazônia fazem-no ilegalmente, arriscando multas ou sanções. A expetativa de que o novo governo não irá impor leis que proíbam tais atividades, já está, provavelmente, a encorajá-los a intensificar as suas atividades. A partir do momento em que essas leis forem enfraquecidas ou abolidas, pode-se esperar que a desflorestação acelere consideravelmente. A aparente inclinação do governo para impulsionar atividades como a extração de ouro na Amazônia só piorará as coisas.

Há poucas razões para acreditar que Bolsonaro não conseguirá cumprir a sua agenda ambiental destrutiva. Afinal de contas, representantes de extrema-direita, aliados a poderosos lobbies empresariais, dominam o novo congresso do Brasil.

Para tornar ainda mais fácil a destruição do ambiente, Bolsonaro comprometeu-se a fundir os ministérios do ambiente e da agricultura, embora já tenha recuado nessa questão. Ele agora está à procura de um ministro do ambiente que seja aliado dos ruralistas, ou grandes latifundiários, e nomeou um ministro da agricultura que quer levantar as restrições impostas no uso de produtos químicos perigosos na agricultura.

Bolsonaro também prometeu, durante a campanha eleitoral, retirar o Brasil do Acordo climático de Paris de 2015. Embora se tenha afastado dessa promessa, ele acaba de nomear um diplomata anticiência, que nega as alterações climáticas, como ministro dos Negócios Estrangeiros. Isso apresentará algumas dificuldades na candidatura do Brasil para acolher a Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP25), no próximo ano.

Além de aumentar a vulnerabilidade dos recursos naturais do Brasil à exploração comercial, os cortes inevitáveis no orçamento ambiental sob a liderança de Bolsonaro prejudicam a capacidade do país de responder a desastres como os incêndios florestais. O Brasil já conta com um aumento desse tipo de incêndios –e com a destruição relacionada com os incêndios –devido à expansão da agricultura, a uma fiscalização e a uma vigilância mais frágeis e ao desmantelamento das corporações de bombeiros. Os planos de Bolsonaro irão agravar o problema.

E esse não é o único problema que a agenda de Bolsonaro irá agravar. A desigualdade sócio-econômica aumentará. À medida que o governo dá mais poder sobre a floresta tropical aos grandes empresários, os cidadãos comuns – incluindo pequenos agricultores e moradores urbanos pobres – estão destinados a sofrer.

Mas os ecossistemas do Brasil são importantes para mais do que apenas aquele país – é o guardião da maior floresta tropical do planeta, um repositório de serviços ecológicos para o mundo inteiro, onde a maior parte da biodiversidade da Terra está concentrada. A Amazônia abriga mais espécies de plantas e animais do que qualquer outro ecossistema terrestre do planeta, e as suas chuvas e os seus rios alimentam grande parte da América do Sul. Além disso, as suas centenas de milhares de milhões de árvores armazenam grandes quantidades de carbono.

Nos últimos 100 anos, o Brasil reduziu a Mata Atlântica em mais de 90%, e desbastou 50% do Cerrado e quase 20% da Amazônia. Numa altura em que o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas está a alertar para o facto de que precisamos de fazer progressos urgentes na redução das emissões de gases de efeito estufa, os planos de Bolsonaro alcançarão exatamente o oposto. Infelizmente para o Brasil, e para o resto do mundo, não há razão para acreditar que ele não possa ou não queira implementá-los.


*Paulo Artaxo é professor de Física Ambiental e chefe do Departamento de Física Aplicada da Universidade de São Paulo. Ele é um especialista nos efeitos climáticos dos aerossóis, particularmente na Amazônia.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Projeto Syndicate [1 ]

Conferência do Clima 2019, mais uma batata quente para Bolsonaro descascar

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O jornal Valor Econômico publicou hoje um artigo assinado pela jornalista Daniela Chiaretti sobre se haverá clima para que o Brasil governado por Jair Bolsonaro possa sediar  a edição de 2019 da Conferência do Clima da ONU, a chamada CoP 25.

As tensões em torno do evento são claras, na medida em que os ministros nomeados e o próprio discurso elaborado pelo presidente eleito ao longo de sua vida parlamentar se encaminham mais no sentido de romper com o conhecimento científico já existente sobre os impactos da ação do sistema capitalista sobre o funcionamento da atmosfera. 

O futuro ministro das relações exteriores, Ernesto Henrique Fraga Araújo, já até escreveu em seu blog que as mudanças climáticas não passam de uma trama comunista para colocar a China no centro do poder mundial. Mas há ainda a futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que não esconde que pretende ver mais florestas desmatadas para garantir o avanço do agronegócio exportador que ela tão bem simboliza.

O problema é que se o presidente eleito der ouvidos aos ministros que nomeou, o Brasil será encaminhado mais rapidamente para a condição de pária ambiental, na medida em que ficará ainda mais claro o descompromisso com a proteção de ecossistemas florestais que cumprem papel estratégico na mitigação das mudanças climáticas. E isto terá um custo econômico claro, especialmente para o latifúndio agro-exportador. Daí que será interessante ver como se comportará o governo que ainda nem tomou posse e será obrigado a decidir se o Brasil sediará ou não a CoP 25 em 2019 .

Quem desejar saber mais sobre mais esta batata quente que o presidente eleito tem em suas mãos, sugiro a leitura completa do artigo assinado por Daniela Chiaretti.

Há clima para a CoP no país de Bolsonaro?

Por Daniela Chiaretti

cop 2019Uma definição que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, terá que tomar antes de sua posse será se o Brasil sediará ou não a próxima conferência do clima das Nações Unidas, a CoP 25, em novembro de 2019. A urgência tem motivo – o anúncio deve ser feito antes que termine a reunião deste

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Não se enganem: Bolsonaro escolheu um “true believer” para chanceler

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Li várias manifestações assombradas em função da nomeação do embaixador  Ernesto Araújo como ministro das Relações Exteriores do futuro governo Bolsonaro. Entre as mais assombradas está a jornalista Miriam Leitão, espécie de porta-voz das organizações Globo para assuntos de política e economia, que considerou as ideias de Araújo como sendo ‘exóticas’ e ‘constrangedoras’.

Como curioso que sou resolvi dar uma visitada no blog “Metapolítica 17- contra o Globalismo” que o embaixador Ernesto Araújo impulsiona certamente nas suas poucas horas vagas no Itamaraty [1]. 

Pois bem, após ler algumas pérolas como a que diz que o Partido Democrata estadunidense está à esquerda de Che Guevara [2] ou que Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, teria tido um encontro com Deus no campo de batalha [3], ou que “o PT, fiel ao “belo ideal socialista”, odeia o ser humano” [4],  estou convencido que o embaixador Araújo é o primeiro quadro genuinamente bolsonariano entre todos os ministros que já tiveram seus nomes divulgados até agora, incluindo Sérgio Moro e Onyx Lorenzoni.  

O embaixador Araújo é como se diz um “true believer” do Bolsonarismo. O problema é que na posição de chanceler, a adoração que ele tem por Donald Trump [5], certamente colocarão o Brasil numa posição de vassalo dos EUA. Até aí tudo bem porque o mundo ideal para o novo chanceler parece ser o que a humanidade experimentou no período Medieval [6]. O problema é que sendo um “anti globalista” como ele diz que Trump é, Araújo vai acabar privando o Brasil de importantes canais de diálogo com seus principais parceiros comerciais, a começar pela China e pela União Europeia.

Mas nada disso deverá abalar a posição de Araújo no futuro governo Bolsonaro, pois, afinal, como eu já disse ele será uma espécie de “true believer” solitário dentro da equipe de governo. 

Ah, sim, como um dia já fez o ministro Celso Lafer ao chegar aos EUA, Ernesto Araújo deverá tirar o sapato para passar na máquina de Raios-X que a imigração estadunidense reserva aos “aliens” que visitam o seu país [7 & 8]. A diferença é que, ao contrário de Lafer que fez isto obrigado, Araújo deverá fazê-lo de bom grado. Afinal, tudo o que os EUA mandam deve ser bom para o Brasil.


[1] https://www.metapoliticabrasil.com

[2]  https://www.metapoliticabrasil.com/blog/a-elbereth-gilthoniel

[3] https://www.metapoliticabrasil.com/blog/antes-da-batalha

[4] https://www.metapoliticabrasil.com/blog/eu-vim-de-graça

[5] https://www.metapoliticabrasil.com/blog/sequestrar-e-perverter

[6] https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/375225/Celso-Amorim-novo-chanceler-coloca-o-Brasil-na-Idade-Média.htm

[7] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2011/06/14/celso-lafer-descalco-em-aeroporto-exemplifica-submissao-de-fhc-aos-eua-diz-estudo-do-ipea.htm

[8] https://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/11/15/novo-chanceler-foi-do-anuncio-para-a-frigideira/?fbclid=IwAR2tzB0NCQt4C3soWmPHPKGUsuhRZoB8enp3A35c1lR3BHX8Yni3kVLkp0U#fotoNav=1

China Daily: Bolsonaro diz que ampliará laços comerciais com os “comunistas” chineses

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Uma das muitas mancadas cometidas pelo presidente eleito do Brasil no pós-eleitoral foi colocar ainda mais em risco a relação comercial com a China, país que hoje é um dos principais parceiros comerciais do Brasil.

A repercussão negativa das declarações dadas durante a campanha serviram para azedar mais o humor dos dirigentes do Partido Comunista Chinês (PCC) que já estava azedo por causa de uma visita realizada por Jair Bolsonaro à Taiwan.

Pois bem, para dar uma amainada no humor dos “comunistas” chineses, o presidente eleito recebeu o embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang.  Esse encontro foi largamente noticiado pela mídia corporativa brasileira.

Mas ao ler a matéria publicada pela China Daily (o mesmo jornal que havia publicado um artigo notando o desconforto dos dirigentes do PCC com o presidente eleito), vi que as declarações dadas ao embaixador chinês vão no sentido diametralmente oposto do que Bolsonaro expressa para seus eleitores em relação à China.  É que segundo o China Daily (ver matéria  completa abaixo [1]), Bolsonaro teria declarado que “seu governo buscará ativamente ampliar e ampliar os laços de cooperação com a China e fortalecerá o relacionamento bilateral.”

Assim, a China que já domina o comércio de commodities agrícolas e minerais, bem como tem participações significativas em portos e hidrelétricas, terá ainda muito negócios a fazer no Brasil, e com as bençãos de um governo que foi eleito com um suposto viés nacionalista. Mas um nacionalismo do tipo “pero no mucho“.

Bolsonaro, presidente eleito do Brasil, destaca laços com a China*

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Jair Bolsonaro, legislador de extrema-direita e candidato presidencial do Partido Social Liberal (PSL), gesticula em uma assembleia de voto no Rio de Janeiro, Brasil, em 28 de outubro de 2018. [Foto / Agências]

RIO DE JANEIRO – O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, disse na segunda-feira que o Brasil atribui grande importância às relações com a China e considera a China como um “grande parceiro de cooperação”. 

Bolsonaro fez as declarações em uma reunião no Rio de Janeiro com o embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang. 

Bolsonaro, que deve assumir o cargo em janeiro, disse que seu governo buscará ativamente ampliar e ampliar os laços de cooperação com a China e fortalecerá o relacionamento bilateral. 

O principal representante da China no Brasil disse que seu país está disposto a trabalhar com o Brasil para promover o desenvolvimento contínuo de sua parceria estratégica abrangente baseada no respeito mútuo, igualdade e benefício. 

Unir forças para buscar a cooperação ganha-ganha cumpriria o objetivo de melhorar o bem-estar de ambos os países e fortalecer a cooperação entre os dois mercados emergentes, acrescentou Li.

* Artigo publicado originalmente em inglês [1]

Estados membros da União Europeia pedem ação dura contra desmatamento para cumprir meta da ONU 2020

Mostre liderança para deter a perda de florestas por causa do agronegócio, diz grupo da Declaração de Amsterdã à União Européia

 

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Uma vista aérea mostra a área desmatada em Apuí, na região sul do estado do Amazonas, Brasil. Foto: Bruno Kelly / Reuters

Por Arthur Neslen [1]

O Reino Unido, a França e a Alemanha pediram à Comissão Europeia que lance novas ações duras para deter o desmatamento até o final do ano.

Um plano de ação da UE há muito adiado deve ser antecipado “o mais rapidamente possível”, diz uma carta à comissão enviada pelo grupo de países da Declaração de Amsterdã que inclui também a Itália, os Países Baixos e a Noruega.

Para ajudar a cumprir uma meta da ONU de deter o desmatamento até 2020, a UE deve mostrar “um papel de liderança, mobilizando sua alavancagem política e de mercado e promovendo um diálogo e cooperação internacional mais amplos”, diz a carta.

Ações devem ser tomadas para alinhar as “oportunidades econômicas” com a “gestão responsável das cadeias de fornecimento globais”, diz a carta assinada pelo ministro do Meio Ambiente da Dinamarca, Jakob Ellemann-Jensen.

Até 80% da perda florestal global é impulsionada pelo agronegócio, embora pesquisas mostrem que melhores soluções de manejo florestal e clima natural poderiam fornecer mais de um terço da mitigação climática necessária até 2030.

Os Estados da UE avançaram na questão, uma vez que as preocupações continuam a se sobrepor à recente eleição do Brasil de um defensor de extrema direita da antiga ditadura militar do Brasil.

Jair Bolsonaro prometeu designar ativistas dos direitos da terra como terroristas” e pavimentar uma rodovia através da Amazônia, potencialmente espalhando o desmatamento para uma área de floresta tropical maior que a da Alemanha.

A sua campanha eleitoral foi apoiada por poderosos interesses do agronegócio no Brasil, mas alguns líderes do setor no domingo pediram que ele mostrasse moderação.

 Géraldine Kutas, chefe de assuntos internacionais da Associação Brasileira da Indústria de Cana-de-Açúcar, disse que a importância da Amazônia para o mundo – e para o Brasil – deve ser respeitada. “Estamos perfeitamente bem com as nossas normas ambientais atuais”, disse ela.

“Estamos realmente comprometidos com eles e não apoiaremos nenhuma mudança que possa relaxar as regras”. 

Leis fortes da UE poderiam reduzir a pegada ecológica de commodities como soja, óleo de palma e carne bovina, que impulsionam o desmatamento na Amazônia, segundo o Greenpeace. Sébastien Risso, diretor florestal da UE no grupo, disse: “Ignorar o problema e adiar a ação só nos levará a mudanças climáticas catastróficas e à extinção de uma grande espécie global”. 

Autoridades da UE notaram que Bolsonaro, que toma posse em janeiro, recuou em algumas promessas de campanha e disse que é cedo demais para considerar verificações mais rigorosas para o desmatamento, apesar das declarações e iniciativas do presidente eleito que visam relaxar a regulamentação ambiental na Amazônia

“Nós o tivemos em nosso radar durante os discursos de campanha”, disse uma fonte da UE. “Vamos avaliar as decisões tomadas, uma vez que são tomadas.”


Artigo publicado originalmente em inglês pelo “The Guardian” [1]

Educação para manter a desigualdade: Bolsonaro para os pobres, Paulo Freire para os ricos

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*Por José Ruy Lozano, publicado originalmente no dia 07 de Dezembro de 2017 pelo LeMonde Diplomatique Brasil

Pipas de várias cores enfeitam o céu. Alunos observam algumas subirem e outras caírem, enquanto tentam compreender como a direção do vento influencia o movimento, além de verificarem na prática conceitos científicos como aerodinâmica, resistência do ar e força da gravidade. Tudo na base da experiência concreta, envolvendo tentativas e erros.

Voltando à sala de aula, professor e alunos discutem, organizados em círculo, o que se aprendeu com aquela vivência. A diferença hierárquica entre mestre e estudantes se dilui, e o professor mostra-se mais como um mediador ou um facilitador do processo de aprendizagem.

Pano rápido. Vamos nos deslocar para outra realidade.

Alunos uniformizados prestam continência e dirigem-se aos policiais, que também são professores, utilizando os termos “senhor” e “senhora”. Nos corredores da escola, com paredes cinzentas, não se veem bedéis, mas guardas, alguns armados. Todos os meninos usam o mesmo corte de cabelo, todas as meninas têm o cabelo preso.

Na sala de aula, o professor fala e os alunos ouvem. Todos os estudantes sentam-se enfileirados e qualquer contato entre eles durante a explanação gera uma advertência. Contabilizadas, as advertências podem provocar a expulsão do aluno.

As primeiras cenas são parte do cotidiano de um grande colégio de elite, recém-chegado à cidade de São Paulo. As seguintes são exemplares da realidade vivida em colégios estaduais administrados pelas polícias militares de cada estado.

As descrições revelam duas tendências – contraditórias – cada vez mais presentes no panorama escolar brasileiro. As escolas particulares mais caras investem em metodologias ativas, considerando os interesses e as individualidades dos alunos, partindo do pressuposto de que eles, alunos, são os protagonistas da aprendizagem. Já escolas públicas de muitos estados brasileiros estão terceirizando sua administração às polícias militares e apostam na disciplina mais rígida e no ensino mais tradicional.

Grandes empresários e grupos de investimento estrangeiros compram ou erguem escolas com tecnologia moderna e formação de ponta, onde os alunos aprendem a explorar o mundo por uma interação lúdica. Enquanto isso, o deputado Jair Bolsonaro espalha nas redes sociais vídeos propagandeando as virtudes das escolas administradas pela PM, cujo mantra é lei e ordem.

Uma agridoce ironia: o ponto cego dos discursos das escolas de elite é admitir que as metodologias que propõem são em grande medida inspiradas em teorias da educação que tiveram Paulo Freire como um de seus expoentes.

Geralmente, esses colégios mencionam programas de formação de universidades norte-americanas, como Harvard e Stanford. O que não dizem é que obras como Pedagogia da Autonomia, um clássico do pensador pernambucano, estão na bibliografia básica das faculdades de educação inspiradoras de seus projetos pedagógicos.

A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em escolas em muito influenciadas por ele, bem como por outros pensadores considerados progressistas no campo da educação, como Jean Piaget ou Maria Montessori.

A ironia continua. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX. Ainda que justamente pensando neles Paulo Freire tenha elaborado suas teses, a eles são negadas sua influência e seu prestígio.

Mas a diferença talvez não seja tão despropositada ou surpreendente como se pode pensar à primeira vista. Afinal, nas escolas públicas estudam os pobres, que serão no futuro funcionários dos alunos ricos.

E o que se espera do trabalhador pobre, a não ser obediência?

Aos ricos, proporciona-se liberdade. Dos ricos, esperam-se criatividade, “empreendedorismo”, autonomia. Ao pobre, destinamos o adestramento, a normalização foucaultiana de condutas, a padronização de comportamentos.

Acima de tudo, não se deve incentivar o questionamento, tampouco uma perspectiva crítica dos filhos das classes menos favorecidas. Isso deve ser reservado àqueles capazes de pagar mensalidades astronômicas, que compram um desenvolvimento cognitivo “diferenciado” para seus filhos.

Assim a educação brasileira cumpre seu papel: o de continuar sendo um dos instrumentos mais terríveis de manutenção da desigualdade social.

Obra de Antony Theobald


 *José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do Conselho Independente de Proteção à Infância (Cipi) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix.

FONTE: https://diplomatique.org.br/bolsonaro-para-os-pobres-paulo-freire-para-os-ricos/?fbclid=IwAR2MbeVVah0PYIJeGs6lwdA88wLPOGSg5gFiNIprwFBuf8hfz9G7N1XBrYU

O Brasil de Bolsonaro nas telas de TV na Holanda: entre a piada e o horror

 

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O brasileiro comum (que votou ou não em Jair Bolsonaro para presidir o Brasil a partir de 01 de janeiro de 2019) não tem como saber como o nosso país está sendo apresentado pelo mundo afora em função da escolha que foi feita no dia 28 de Outubro.  

Mas posso garantir por experiência própria que a imagem do Brasil que nunca foi exatamente boa, agora atingiu níveis de grave degradação.  E nos tornamos uma espécie de piada macabra que será usada para espantar os fantasmas da ultra direita, a começar pela Europa.

Um exemplo disso foi o segmento apresentado no último domingo pelo canal holandês NPO3 no programa Zong met Lubach  (Domingo com Lubach) que é um tipo de programa similar ao que Gregório Duvivier apresenta no Brasil [1]. A diferença é que o congênere holandês, Arjen Lubach, atinge fatias maiores de audiência (ver clique abaixo).

Os nacionalistas mais aguerridos dirão que estão pouco se lixando com a imagem que o presidente eleito e, por extensão, o Brasil possam ter no exterior. Isto seria verdade se uma das principais fontes de renda internas fosse a prestação de serviços a turistas estrangeiras. Do jeito que a coisa vai, mesmo sem que tenha ocorrido a posse formal do novo governo, a quantidade de pessoas dispostas a visitar o Brasil vai diminuir sensivelmente. Afinal, sempre existirão outros países no mundo dispostos a oferecer condições mais amenas para quem está disposto a passar parte do tempo viajando.

Por outro lado, apesar das escolhas de situações para compor um dado material visual, há que se reconhecer que a equipe do “Zondag met Lubach” escolheu algumas das situações menos lustrosas em que o presidente eleito se envolveu ao longo dos seus muitos anos de parlamento. E o resultado disso é que ficamos parecendo um misto de piada com filme de horror.


[1] https://www.npo3.nl/zondag-met-lubach/04-11-2018/VPWON_1282531/POMS_VPRO_13133235