David Duke, líder da ultra racista KKK, elogia Bolsonaro: “ele soa como nós”

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Bandeira de inspiração dos neonazistas dos EUA foi exibida em manifestação pró Bolsonaro no dia 14 de outubro em São Paulo. [1]

Se algo de bizarro faltava na atual campanha presidencial, o historiador David Duke, líder histórico da organização supremacista e ultra racista dos Estados Unidos da América, a Ku Klux Klan (KKK) elogiou publicamente Jair Bolsonaro afirmando que “Ele soa como nós”, conforme matéria publica pela rede inglesa BBC [2]

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Convenhamos que para os adoradores do “mito” não serão abalados por esse selo de confiança aplicado por David Duke, já que para eles tudo não passa de uma justa cruzada contra os “esquerdopatas” do PT. Certamente eles vão desdenhar de mais essa evidência de que defendem um candidato que agora acaba de receber o selo de garantia da ultra racista KKK.

Agora, me interessa saber como deverão se sentir aqueles membros de igrejas e membros ditos respeitáveis do Brasil (as ditas pessoas de bem) quando se depararem com este tipo de elogio a um candidato que agora até tenta esconder suas ideias no estilo “jogando parado” como definem seus assessores de campanha.

É que com o reconhecimento de David Duke de que as ideias de Bolsonaro e da KKK soam como sendo a mesma ficará mais difícil negar o conteúdo racista de muitas das declarações públicas que foram dadas ao longo de 28 anos de mandato;  bem como dos inevitáveis desdobramentos que se seguirão à eleição de alguém que conta com o apoio de uma organização comprometida com o racismo supremacista.

Para quem nunca ouviu falar de David Duke, posto abaixo um trailer do filme “BLACKkKLANSMAN” onde ele aparece abrindo a sequência de cenas.


[1] https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/bandeira-inspirada-no-nazismo-e-exibida-em-manifestacao-pro-bolsonaro/

[2] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45874344

 

O uso de “camisas negras” não é a única semelhança entre Mussolini e Bolsonaro

A Milícia Voluntária para a Segurança Nacional foi um grupo paramilitar da Itália fascista que mais tarde passou a ser uma organização militar. Devido a cor de seu uniforme, seus membros ficaram conhecidos como camisas negras (em italiano: camicie nere). Os camisas negras foram organizadas por Benito Mussolini como uma violenta ferramenta militar do seu movimento político.  Os fundadores foram intelectuais nacionalistas, ex-oficiais militares, membros especiais dos Arditi (Arditi foi o nome adotado pela tropa de assalto de elite do exército italiano na Primeira Guerra Mundial).  O nome deriva do verbo italiano Ardire (“ousar”) e traduzindo como “os mais ousados”, e jovens latifundiários que se opunham aos sindicatos de trabalhadores e camponeses do meio rural. 

Os métodos dos camisas negras se tornaram cada vez mais violentos a medida que o poder de Mussolini aumentava, e usaram da violência, intimidação e assassinatos contra opositores políticos e sociais.  Além disso, entre seus componentes, que formavam um grupo muito heterogêneo, incluíam-se criminosos e oportunistas em busca da fortuna fácil.  O trágico fin de Mussolini que foi enforcado ao final da Segunda Guerra Mundial fez com os que os camisas negras também sofressem uma dura perseguição pelos vencedores do conflito, processo que os fez entrar no armário por muitas décadas, tendo reaparecido com muita força nos últimos anos.

Pois bem, se nos movermos para o Brasil dos dias de hoje, estamos vendo não apenas apoiadores de Jair Bolsonaro usando camisas de cor preta mostrando sua face, mas também os mesmos métodos de uso da violência, intimidação e assassinatos contra quem ousa discordar nas ruas da mensagem que circula nos grupos fechados do Whatsapp e do Facebook. E, sim, a defesa da militarização da escola pública como foi feito na Itália fascista (ver imagem abaixo de crianças italianas sendo treinadas no uso de armas!).

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Esses métodos emprestados do fascismo de Mussolini é que levaram o roqueiro inglês a colocar Jair Bolsonaro no crescente grupo de líderes com tinturas fascistas que estão tomando de assalto vários países do mundo, a começar pelos Estados Unidos da América.

Quanto mais cedo os ativistas que Jair Bolsonaro disse querer “erradicar do Brasil” acordarem para essa linha de continuidade entre camisas negras de ontem e de hoje, melhor. Não é mais possível continuar a ação política como se não houvesse uma força política organizada que está usando métodos de violência para se impor. É fundamental que se adotem mecanismos de auto proteção individual e coletiva, principalmente por partidos políticos (por exemplo, o PSOL) e movimentos sociais que se tornarão alvos inevitáveis caso o Bolsonarismo não seja derrotado nas urnas. Como ocorreu na Itália, os casos de violência atuais são apenas a primeira onda de um imenso vagalhão que deverá ocorrer no Brasil para que os ideais dos camisas negras tupiniquins sejam alcançados.

A hora para os militantes que defendem os interesses da classe trabalhadora no Brasil é muito grave, e quanto mais cedo eles entenderem isso melhor.

O sinal de Bolsonaro alcança nossas crianças e compromete o nosso futuro

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O candidato Jair Bolsonaro já foi fotografado em diversas ocasiões ensinando crianças a fazer o seu sinal característica da arma nas mãos. Seus apoiadores e a mídia corporativa tendem a descaracterizar a gravidade dessa ação de incitação à violência como uma “excentricidade” ou uma “brincadeira” de Bolsonaro.

Acontece que não nada de excentricidade ou brincadeira num gesto dentro de um país que possui um dos maiores índices de assassinatos por armas de fogo no planeta. Essa “brincadeira” sinaliza que o caminho para se resolver a violência que assola nossa sociedade é na bala, preferencialmente usada contra os mais pobres.

Pois bem, como a atual campanha eleitoral está fortemente ancorada nas redes sociais, não faltam imagens que nos mostram o alcance e a capilarização da mensagem de extermínio que a “brincadeira” de Jair Bolsonaro, inclusive em crianças que já o assistiram outras crianças a fazê-la.  

Vejamos a imagem abaixo, por exemplo!

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Como a formação intelectual e moral das pessoas se inicia nos níveis iniciais de educação formal, não há como deixar de se preocupar com o impacto que essa ode à violência trará sobre este grupo de crianças que fazem um gesto coletivo que também está ocorrendo em templos e outros locais de convivência social.

Os brasileiros precisam recusar este caminho, pois, do contrário, as décadas que virão serão marcadas por um nível de conflagração social que manterá o Brasil como um dos países mais atrasados do mundo.

Enquanto isso em Portugal, meu filho está tendo aulas em museus e espaços verdes para aumentar sua capacidade de interagir e sociabilizar de forma tolerante e democrática. Isto tudo num sistema público de ensino que ainda precisa evoluir bastante, mas já nos deixa muito para trás.

No ritmo de Carlos Marighella: Bolsonaro rebate Mourão que rebate Bolsonaro

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Já narrei aqui a história imortalizada na página 424 do livro de Mário Magalhães sobre a vida de Carlos Marighella (Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo). Esta passagem narra um encontro frustrado entre Carlos Marighella e Carlos Lamarca onde o líder da Aliança Libertadora Nacional não conseguiu que sua organização e a Vanguarda Popular Revolucionária lançassem um documento comum, apesar da concordância do seu interlocutor.  O que impediu a assinatura do documento que indicaria uma unidade política entre a ALN e a VPR foi a oposição de Onofre Pinto, outra liderança da organização liderada por Lamarca. O fracasso da negociação teria então irritado Marighella, já que Onofre Pinto era sargento, enquanto Carlos Lamarca era capitão. Em função disso, Marighella teria dito que “nunca vi capitão obedecer a sargento“ [1].

Relembro dessa história por causa de mais um imbróglio envolvendo a dupla Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão que lideram a corrida presidencial.  A coisa começou no dia de ontem (08/10) quando em entrevista na TV Globo, Jair Bolsonaro foi perguntado sobre uma declaração de seu vice, Hamilton Mourão, que citou a possibilidade de um inusitado autogolpe. Naquele mesmo dia, o general Mourão declarou a sua posição de que seja escrita um nova constituição por um grupo de notáveis, já que ele teria muitas críticas à chamada Constituição Cidadã de 1988. Em sua resposta na TV Globo, Bolsonaro desautorizou mais uma vez as declarações de Mourão, lembrando que apesar dele ser capitão e o vice um general, o presidente seria ele.

Hoje, questionado acerca de mais essa desautorização pública por parte de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão afirmou que “Falei  para ele proceder com sua visão. Tenho minhas críticas. Agora, o presidente, como ele disse, é ele. Só não sou um vice anencéfalo. Tenho minhas opiniões” [2]. 

Diante de mais troca de “gentilezas” entre capitão e general, ou melhor presidente e vice, não tenho como deixar de lembrar de Marighella quando ele disse no episódio supracitado que ““nunca vi capitão obedecer a sargento“. No caso em tela, difícil mesmo é ver general obedecendo capitão. E segue a barca brasileira rumo à queda d´água!


[1] https://blogdopedlowski.com/tag/carlos-lamarca/

[2] https://br.noticias.yahoo.com/mourao-rebate-bolsonaro-tenho-minhas-opinioes-190704363.html

 

O Rio de Janeiro poderá viver um banho de sangue inédito sob Witzel e Bolsonaro

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Eu, assim como praticamente a totalidade da população do Rio de Janeiro, nunca tinha ouvido falar do tal Witzel antes dessas eleições, candidato com mais de 40% dos votos para governador do estado. Então, fui pesquisar seu programa de governo, disponibilizado pelo site do TSE, e compartilho aqui alguns dos pontos mais absurdos que integram suas propostas, dentre eles:

segurança pública tem que ser caso de polícia e não de política

plano habitacional que garanta o fácil acesso da polícia nas favelas

autorização para abate de criminosos

privatização de presídios

programa de demissão voluntária de servidores públicos

apoio financeiro à rede privada de saúde

militarização da educação

criação da disciplina obrigatória de “Constituição e Cidadania” (alô ditadura!, alô “Moral e Cívica”!)

chamar a iniciativa privada para a UERJ

-destinar as bolsas de pesquisa da FAPERJ para “projetos de interesse do Estado”

Quem ainda tiver dúvida sobre o caráter dessas propostas, sugiro assistir ao vídeo abaixo.

Erro
Este vídeo não existe

É importante frisar que esse pacote  mistura um receituário ultraneoliberal e uma ação ainda mais truculentas das forças policiais tem o potencial de criar um banho de sangue inédito no Rio de Janeiro se houver a vitória combinada de Witzel  e Jair Bolsonaro, especialmente em face da presença expressiva de membros do PSL na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Assim, impedir a vitória dessa dupla passa a ser uma obrigação democrática, independente das críticas que se possa ter a Fernando Haddad e Eduardo Paes. É que o povo pobre do Rio de Janeiro não merece passar por essa agenda combinada de extermínio dos pobres.

Cristofascismo à brasileira na eleição de 2018

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O fascismo é uma fase histórica do capitalismo (…)
Uma forma mais nua,
sem vergonha,
mais opressiva
e mais traiçoeira do capitalismo
” 

(Brecht)

Por Fábio Py

Às vésperas do pleito eleitoral acaloram-se os debates, obrigando os candidatos a explicitar mais claramente seus posicionamentos. Alguns candidatos, alinhados ao conservadorismo, vêm demonstrando de forma mais aberta as posturas fascistas1. Mais especificamente, percebo em tais posturas uma modulação de um cristofascismo à brasileira, praticado entre políticos cristãos quando carregam o vocabulário de táticas de combate aos inimigos da fé e da nação, atentando contra a “família” e “paz da nação” em nome de Cristo. Prova dessa relação cristofascista são algumas das mais recentes expressões do projeto eleitoral justificado em nome da família “tradicional” percebida na atuação de dois candidatos nas campanhas eleitorais atuais: o deputado Marco Feliciano pelo Podemos de São Paulo, e o presidenciável Jair Bolsonaro, do PSC no Rio de Janeiro.   

O que denomino como cristofascismo brasileiro é um reflexo do cristofascismo na Europa, um termo cunhado pela teóloga Dorothee Sölle, em 19702. Para sua autora, o cristofascismo seria uma “traição aos pobres, uma arma milagrosa a serviço dos poderosos (…) a serviço das famílias tradicionais do centro-europa preocupadas com a paz sem a paz incomoda Cristo”. Ela fundamenta o conceito ao abordar as relações de membros do partido nazi com as igrejas cristãs no processo de desenvolvimento do estado de exceção alemão. Para Sölle, as lideranças da igreja alemã ajudaram na construção do governo nazista, da mesma forma que, aqui, seguem favorecendo posturas preconceituosas na política contemporânea. 

Evidentemente, creio que a relação entre cristianismo, conservadorismo e religião esteja sendo amplificada no pleito eleitoral de 2018, o qual vem sendo palco explícito de táticas virulentas contra minorias, contra diferentes expressões de gênero, contra os negros e índios amplamente apoiados pelo cristianismo hegemônico. 

Cristofascismo em Marcos Feliciano: o “deputado da família”

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Interessante que nas suas chamadas da candidatura, Marcos Feliciano já se designa “pastor” antes de se dizer candidato a deputado federal, deixando explícito a relação de religião-política na sua candidatura. Natural de Orlândia, interior de São Paulo, atualmente é pastor da Catedral do Avivamento (ligada à Assembleia de Deus). Já é deputado federal e foi filiado ao Partido Social Cristão (PSC). Agora está ligado ao partido “Podemos”. Foi líder da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados do Brasil, em 2013, no mandato de Dilma Rousseff, e, nessa condição, fez declarações sobre a homossexualidade, chegando a indicar que duas mulheres que se beijavam em público deveriam sair algemadas/presas do lugar.

Outra expressão ligada ao seu cristofascismo ocorreu quando justificou teologicamente o “atraso” do continente africano. Argumentou tendo em vista a teoria da “Maldição de Cam”, que tem seus esboços nos séculos XVIII e XIX. A teoria justifica a escravidão imposta pelos protestantes no Sul dos EUA, afirmando que os africanos são amaldiçoados por serem descendentes de Cam, um dos filhos preteridos de Abraão. Se não bastassem esses elementos, em outro momento, ele crítica à luta histórica das mulheres por trabalho quando diz que “sua parcela como mãe começa a ficar anulada (…) Eu vejo de uma maneira sutil atingir a família”.

A linha central de seu racismo e preconceito religioso se molda em prol da defesa da família tradicional como se vê no slogan de sua campanha eleitoral atual: “A nossa família merece respeito”. A justificativa de Feliciano para sua intolerância se baseia na ideia da família tradicional idealizada de pais heterossexuais e filhos, buscando ao máximo ser identificado com ela. Para isso, diz ser o “pastor que defende da família brasileira”. Novamente, liga explicitamente a função religiosa de pastor com a arena eleitoreira. Em outro jingle, diz em tom bélico que “minha família merece respeito; é por isso que meu voto é para quem sabe guerrear”. Ou seja, sua proposição da família está absolutamente implicada com o tom de guerra para afirmação dela mesma contra seus verdadeiros “inimigos”, que seriam aqueles que defendem o “aborto e a legalização da maconha”.

Agora, voltando ao ponto importante. O candidato Marcos Feliciano a todo momento se designa “pastor” na campanha. Age de forma tendenciosa, pois em sua página no facebook dedicada à campanha eleitoral indica agendas de suas pregações confundindo diretamente a atuação no púlpito e os compromissos da campanha. Ou seja, mistura de forma explícita seu cristianismo fascista de ódio à pluralidade e às minorias com a agenda partidária. Promove essa grave mistura em prol da conservação da família tradicional se autodesignando: “deputado da família”. 

Cristofascismo de Bolsonaro: defesa da família em prol da nação 

Não se pode comparar o cristofascismo de Feliciano com de Jair Bolsonaro. Melhor, não se pode falar de cristofascismo à brasileira de 2010 para cá sem tocar no nome de Jair Bolsonaro, mesmo que ele não seja evangélico (maioria da bancada BBB), mas sim, católico. Contudo, o candidato busca reiteradamente a aproximação com a tradição evangélica. Afinal, em termos eleitorais, os segmentos evangélicos formam hoje parcela significativa da população brasileira. Também, não se pode esquecer que Bolsonaro é signatário da tradição intolerante formado nas fileiras da Ditadura Civil-Militar. 

Um dos episódios de sua tentativa de aproximação se viu no debate na Rede TV, em 17 de agosto deste ano. O episódio, implicitamente, colocou em questão a disputa pelo voto evangélico e a concepção de laicidade do Estado brasileiro. No debate, Bolsonaro selecionou Marina Silva para perguntar sobre o desarmamento. Diante da resposta negativa da Marina sobre o armamento, ele então a julgou: “Temos aqui uma evangélica que defende o plebiscito para o aborto e para maconha”. Agiu de forma agressiva para com a candidata usando a pertença religiosa contra ela, isso porque os dois temas (o aborto e a liberalização da maconha) não são apoiados pelo público evangélico. 

Na réplica, Marina o desafia por sua truculência. Diz: “(Bolsonaro) Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência. Mas, somos mães. Nós educamos nossos filhos”. Na resposta, Marina faz referência aos gestos públicos do Bolsonaro “você fica ensinando para os nossos jovens que tem de resolver as coisas na base do grito (…) um dia desses pegou a mãozinha de uma criança e ensinou como é que faz para atirar”. Bolsonaro, sentindo-se diminuído com a resposta da Marina afirmou: “Leia o livro de Paulo!”. Para os não-cristãos a interjeição pode parecer casual. Para os cristãos, a fala de Bolsonaro revelou um ponto crucial de todo seu preconceito. Ao falar sobre o livro de Paulo, estava se remetendo às passagens relacionadas explicitamente sobre silêncio das mulheres ou sobre a importância das mulheres ficarem caladas. Ou seja, usando a linguagem religiosa (logo, cristofacista) diante de um debate público, Bolsonaro manda Marina Silva se calar, utilizando um símbolo religioso da tradição da tradição evangélica isto é, os textos do apóstolo Paulo. Claro, ele erra a dizer “o livro de Paulo”, porque não existe um livro de Paulo. Na verdade, são vários. E, uma parte trazem, de fato, indicações sobre o silenciamento feminino (como: 1Timoteo, 1 Coríntios, Efésios, 1Tessalonicenses). Contudo, mesmo que, em uma prova de sua tentativa de aproximação com o setor evangélico seja artificial, está dizendo que as mulheres não devem discutir publicamente perto de um homem.                

Por fim, quero destacar outra aproximação que buscou fazer com o público evangélico. Essa, julgo ser mais grave. Ocorreu no domingo dia 19 de agosto de 2018, quando foi chamado a ir à frente do púlpito frente da Igreja Batista Atitude pelo pastor presidente da igreja, Josué Valandro. Na ocasião, o pastor refere-se ao candidato como “meu deputado”, indicando explicitamente sua opção de voto por ele no púlpito da igreja. Na oração, o pr. Josué Valandro diz que Bolsonaro tem “valores cristãos” e que, embora não seja protestante, “é amigo da igreja evangélica”. Mostra com isso que existe também uma vontade de lideranças das grandes corporações evangélicas com o projeto truculento fascista do candidato – tal como ocorreu no continente europeu no passado. 

O mais sério ainda foi quando o sacerdote concedeu a palavra a Bolsonaro por trinta segundos. Naquele momento, o candidato se disse emocionado e que jamais tinha pensando em estar nessa posição em que se encontrava. Afirmou: “Eu tenho a paz dentro de mim, e graças a Deus, eu tenho uma família maravilhosa na figura da minha esposa (…) nós temos que unir esse país, nos temos que valorizar a família, fazer com que as crianças sejam respeitadas na aula, devemos varrer o comunismo do Brasil”. Encerrou sua fala com a emblemática frase: “o Estado pode ser laico, mas eu sou cristão”. Novamente, o pequeno dito do candidato tem vários elementos em que busca se vincular ao público evangélico. Junto à valorização da família, busca unir o país, supostamente sob o pretexto de cuidar das crianças contra a ideologia de gênero e o comunismo. Nessas poucas palavras, Bolsonaro se aproxima do raciocínio das mentalidades dos tempos da Ditadura Militar. O candidato repete a velha fórmula ao utilizar o medo e a paranoia injustificada, localizando uma absurda ameaça comunista no Brasil. Na linha de pensamento de Bolsonaro, tudo deforma a “família” tão cara para a nação brasileira. Em defesa da família e da nação deve-se varrer o comunismo do Brasil. Um discurso de ódio que era muito bem cabível aos tempos da Ditadura civil-Militar. 

A partir da fala de Bolsonaro, percebe-se que na eleição vem brotando uma nova modalidade no vocabulário tático do cristofascismo à brasileira. Ele, que é tão central, virou slogan da campanha do Bolsonaro: “O Estado pode ser laico, mas eu sou cristão”. Recita o slogan estrategicamente, diante do público da igreja afirmando o benefício cristão na sua candidatura a presidência da república.  Aciona, assim, todos os benefícios dados aos cristãos desde a formação brasileira como a religião majoritária do país assumindo-se como candidato à presidência se diz cristão, e, em vários momentos assumindo que as demais minorias devem se curvar ao desejo da maioria cristã. Isso, porque, assume que as “famílias cristãs estão sendo prejudicadas” e um dos fatores disso é por “conta do estado laico tem de aceitar as ideias das minorias”. 

Por fim, táticas no período eleitoral…

slogan da campanha do Bolsonaro dito na Igreja Batista Atitude é uma composição de algo que ele já vinha esboçando há tempos. Em uma das suas polêmicas declarações antes das campanhas disse que com ele não “tem essa historinha de estado laico não”. Assume uma lógica nociva e perigosa: se o estado, ou a “maioria dele é formado por famílias cristãs”, que as outras ou se curvem ou se mudem do país. Afinal, diz ele, que “as famílias brasileiras estão sendo prejudicadas diante da ideologia de gênero”, escolas com ensino ‘esquerdista’, fora a “questão da morte das criancinhas com a questão do aborto”. Portanto, o dispositivo do cristofascismo no Brasil nesse período pré-eleições de 2018 vem sendo constantemente ativado mediante a uma defesa bélica e tática das famílias tradicionais. Se Marcos Feliciano diz ser o “deputado da família”, Bolsonaro usa seu slogan “Deus acima de todos”, para defender sua idealização das famílias. 

Ambos, pragmaticamente espalhando seu racismo, preconceitos e violências contra todos que se dizem diferentes. Esse nosso cristofascismo é quase um reflexo perfeito das demais campanhas que os signatários dos fascismos produziram na história da humanidade agindo violentamente contra as minorias, porque seriam um afronte as suas famílias idealizadas, perfeitas que buscam a paz classemediana. Particularmente, faço votos, nas minhas orações, que Deus nos livre de uma presidência de qualquer super-homem cristão, branco, hétero que defenda as famílias e a pátria. Afinal, não precisamos de qualquer Messias, mas antes, de sociedades engajadas verdadeiramente no devir democrático.                

Fontes da internet:

https://www.youtube.com/watch?v=WrsDn13QlCY&t=4s.; https://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Felicianohttps://www.facebook.com/PastorMarcoFeliciano/

https://www.youtube.com/watch?v=NChrkvaw6dUhttps://www.youtube.com/watch?v=WrsDn13QlCY&t=4s

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/04/1257600-feliciano-volta-a-afirmar-que-africanos-sao-amaldicoados.shtml

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1 Tomo a noção de fascismo de Walter Benjamin quando admite que o continente europeu experimentou práticas regulares de tortura e barbárie realizadas na relação com as colônias, que serviram para o desenvolvimento do estado fascista, vide, “O capitalismo como religião”, São Paulo: Boitempo, 2013, p.171. Ao mesmo tempo, entende que a barbárie fascista não é meramente um estágio de regressão civilizacional, mas está contida nas próprias condições de reprodução da civilização burguesa, sendo que “se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, da moral, da família considerado como uma norma histórica”, transformando todo nacional em um “estado de exceção efetivo” (“Teses sobre o conceito de historia” de 1940).
2 Dorothee Sölle , Beyond Mere Obedience: Reflections on a Christian Ethic for the FutureMinneapolis: Augsburg Publishing House, 1970, p.81-83. 

FONTE: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Eleicoes/Cristofascismo-a-brasileira-na-eleicao-de-2018/60/41803

Jair Bolsonaro, amarelou e foi assistir ao debate no sofá via o NETFLIX

Munido de um daqueles atestados médicos para lá de convenientes, o deputado federal Jair Bolsonaro evadiu o último dos debates presidenciais do 1o. turno.  E depois de arranjar forças para dar uma entrevista à TV Record comandada pelo bispo Edir Macedo, ele foi sentar no sofá e assistir o debate via o NETFLIX (ver imagem abaixo).

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O ar zombateiro que Bolsonaro mostra na imagem acima é típica daqueles que nutrem profundo desprezo pela democracia. Mas nem todo o sorriso do mundo vai esconder um fato inequívoco: ele amarelou!

É que Bolsonaro claramente não é bobo, e não iria arriscar expor suas conhecidas limitações justamente num momento decisivo da campanha que ele só pode vencer se acabar no primeiro turno.

E lembremos que esse candidato que descansa em sofá esplêndido tem um programa de governo que deverá regredir as relações entre capital e trabalho no Brasil para antes da década de 1930 quando nem ainda se havia instalado o Estado Novo.

Aos trabalhadores que ainda não entenderam a mensagem escondida por detrás do discurso anti-corrupção, há que se lembrar que a dupla Bolsonaro/Mourão pretende acabar com o 13o. salário, com o adicional de férias, com a estabilidade dos servidores públicos, e privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o que ainda resta de público na Petrobras.

Por isso, é fundamental que ele seja derrotado tanto em sua agenda de contrarreforma trabalhista, como em sua clara propensão para a implantação de um modelo particularmente autoritário no Brasil.

Mas que “coincidência”! Programa de Jair Bolsonaro favorece empresas de Paulo Guedes

O Brasil 247 repercutiu hoje uma matéria assinada pelo jornalista Rodrigo Matos e que foi publicada pelo site UOL onde é mostrada uma convergência direta entre o programa de governo de Jair Bolsonaro e os interesses da Bozano Investimentos que é diretamente ligada a Paulo Guedes, o guru econômico do deputado federal [1].

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Assim fica fácil entender porque Paulo Guedes vem propondo a eliminação de direitos trabalhistas e o fim da estabilidade no serviço público. Ele aparentemente quer potencializar os seus já fabulosos lucros como sócio da Bozano.

E ainda tem trabalhador que se ilude com a capa de paladinos contra a corrupção de Jair Bolsonaro e sua turma!

PROGRAMA DE BOLSONARO FAVORECE EMPRESA DO ‘POSTO IPIRANGA

247 – O ‘Posto Ipiranga’ de Jair Bolsonaro, o economista Paulo Gue des, anunciado pelo candidato de ultra-direita como virtual ministro da Fazenda com plenos poderes se vencerem a eleição, preparou um programa de governo à medida para favorecer sua empresa, a Bozano Investimentos. Todas as áreas em que investe a empresa são  beneficiadas pelas propostas de Guedes, conforme reportagem de Rodrigo Matos, do UOL [1].

Guedes é sócio e membro do comitê executivo da Bozano Investimentos, que gere R$ 2,7 bilhões em seus fundos – o comitê é a cúpula da empresa que decide seus rumos e avalia o gestor. A Bozano tem investimentos diretos ou por meio do mercado de ações em empresas que atuam em setores para os quais o economista defende novas regras.

Uma das áreas-foco da Bozano é a educação. Nos diversos fundos da Bozano, há oito empresas de educação. A maioria delas explora a educação à distância online ou redes de universidades, informa a reportagem de Rodrigo Matos. Enquanto Guedes fatura com educação à distância, a principal proposta de Bolsonaro para educação é… prioridade total para educação à distância, inclusive para o ensino fundamental. São oito empresas na área educacional que têm a Bozano como sócia, sendo três delas com foco em educação à distância:  Q Mágico, plataforma de ensino digital, Wide, que produz e gerencia conteúdos digitais, e a Passei Direto, rede social para universitários. As outras têm também segmentos voltados à educação à distância.

O assunto sequer é tratado com discrição. No programa de Bolsonaro, há uma defesa enfática da educação à distância: “deveria ser vista como um importante instrumento e não vetada de forma dogmática. Deve ser considerada como alternativa para as áreas rurais onde as grandes distâncias dificultam ou impedem aulas presenciais”. Sua defesa da educação à distância é ampla para todos os níveis. Em entrevista, o candidato reforçou a ideia e ainda pregou a redução do investimento em universidades públicas: “Vamos tirar mais recursos de cima (universidade), e jogar mais no ensino infantil, fundamental”, disse à Globonews. 

Outra área prioritária de investimentos da empresa de Guedes é a energia. Entre as empresas nas quais há participação acionária, estão a Equatorial, a Energisa e a CTEEP (Companhia de transmissão de Energia Paulista), três empresas distribuidoras de energia que atuam na maioria das regiões do país, como Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, informa do repórter Rodrigo Matos. Quanto mais for aplicado o programa do candidato da ultra-direita, de privatização em massa, mais a Bozano Investimentos encherá seus cofres.

Guedes é mais que um ‘Posto Ipiranga’. É como um jogador de futebol mitológico, capaz de bater o escanteio (fazer o programa de governo de Bolsonaro) e correr para cabecear e fazer o gol (para a Bozano Investimentos). Um fenômeno.

FONTE: https://www.brasil247.com/pt/247/economia/371028/Programa-de-Bolsonaro-favorece-empresa-do-‘Posto-Ipiranga’.htm


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/04/propostas-de-bolsonaro-favorecem-investimentos-de-empresa-de-paulo-guedes.htm

Candidatos do partido de Bolsonaro vandalizam placa póstuma de Marielle Franco. O que isso nos mostra sobre eles?

 A depredação da homenagem póstuma a Marielle Franco, barbaramente executada em março, realizada por 2 candidatos do PSL de Bolsonaro (ver imagem abaixo).

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Eles são Rodrigo Amorim, que tenta a vaga de deputado estadual e foi candidato a vice em 2016 na chapa de Flávio Bolsonaro para a Prefeitura do Rio, e Daniel Silveira, candidato a deputado federal.

Agora, me digam, se esses dois são capazes de fazer este tipo de atentado à memória de alguém que foi assassinada por defender o direito dos mais pobres e socialmente marginalizados enquanto seu líder Jair Bolsonaro não está no poder, o que fariam depois se ele vier a ser eleito?

E, mais , o que estes dois poderão contribuir para a melhoria do parlamento brasileiro se forem eleitos?

Esqueçam Trump, Bolsonaro está mais para Duterte

De tempos em tempos leio um apoiador de Jair Bolsonaro comparando-o ao presidente estadunidense Donald Trump. Na verdade,  Bolsonaro tem um presidente que defende e pratica muitos dos seus desejos mais extremos, mas ele é Rodrigo Duterte, que controla as Filipinas com a mão no gatilho.

Advogado e político profissional, Rodrigo Duterte foi prefeito de Davao, uma cidade localizada na ilha de Mindanau, por sete mandatos de três anos, o que o faz estar entre os prefeitos com mais tempo de mandato em seu país. Ele também foi vice-prefeito e deputado por um distrito localizado na cidade.

Duterte ficou conhecido como “o justiceiro” durante os 22 anos em que governou Davao por fazer “justiça pelas próprias mãos” e defender a criação de esquadrões da morte.  Duterte é acusado por organizações de Direitos Humanos de ter ordenado execuções extrajudiciais de mais de mil prisioneiros durante o seu governo.  

No entanto,  Rodrigo Duterte foi eleito presidente do país em 2016 depois de ter protagonizado uma campanha eleitoral centrada na guerra contra as drogas.

Como candidato presidencial, Duterte chamou “filho da puta” ao Papa Francisco por ter provocado engarrafamentos no trânsito durante uma visita às Filipinas, onde 80% da população é católica [1].

Além disso, nos primeiros 78 dias de mandato como presidente, 3500 alegados traficantes de droga foram mortos. Isso valeu críticas da ONU e do Presidente Barack Obama,  a quem também chamou de “filho da puta”.

Em outro momento de sinceridade extrema, Duterte, comparou-se ao ditador Adolf Hitler e afirmou que quer matar os três milhões de toxicodependentes que diz existirem no país. “Hitler massacrou três milhões de judeus. Agora, há aqui três milhões de viciados. Gostaria de matá-los a todos”.

Recentemente, Duterte confessou em uma entrevista que o seu único pecado é  ter ordenado as execuções extra-judiciais que ordenou contra supostos traficantes durante sua guerra contra as drogas nas Filipinas [2]. 

Por essas e outras, esqueçam da comparação com Trump, o perfil de Bolsonaro está mais para Duterte.


[1] https://www.rappler.com/nation/politics/elections/2016/114481-rodrigo-duterte-curses-pope-francis

[2] https://www.theguardian.com/world/2018/sep/28/duterte-confesses-my-only-sin-is-the-extrajudicial-killings