Boicote sueco: Estadão publica entrevista com Johannes Cullberg

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O jornal Estado de São Paulo publicou hoje uma entrevista realizada pelo jornalista Douglas Gavras com o fundador e CEO da rede sueca de mercearias orgânicas Paradiset, Johannes Cullberg, sobre o boicote a produtos agrícolas brasileiras que foi iniciado em junho quando o governo Bolsonaro havia autorizado a comercialização de 197 agrotóxicos (hoje este número atingiu 353!).

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A publicação desta entrevista é revestida de caráter especialmente simbólico, pois ocorre em um momento em que o Brasil se encontra sob forte pressão internacional não apenas em função do ritmo “the flash” das aprovações de agrotóxicos altamente perigosos para o meio ambiente e para a saúde humana, mas também por causa das altas taxas de desmatamento que estão ocorrendo na Amazônia brasileira após a instalação do governo Bolsonaro.  É que, como está explícito nas respostas de Johannes Cullberg, estas duas questões foram as que o motivaram a iniciar o seu boicote em junho.

Também é interessante notar que, segundo Cullberg,  vem aumentando a possibilidade de que o boicote iniciado por ele atinja setores ainda mais amplos, justamente por causa da falta de disposição do governo Bolsonaro em reverter o curso adotado de desmantelar a governança ambiental existente no Brasil, bem como de desmantelar os mecanismos de comando e controle que inibiam a ação mais aguda de atores que contribuem para o avanço da degradação ambiental na Amazônia.

 

H&M amplia boicote sueco ao Brasil. Outras grandes empresas podem ser juntar ao movimento

H&MA cadeia H&M é a segunda maior do mundo no ramo da modo e o boicote da empresa contra o couro produzido no mundo deverá ter consequências amplas para a produção brasileira de couro.

A multinacional sueca Hennes & Mauritz (ou simplesmente H&M) anunciou hoje que suspenderá suas compras de couro brasileiro em função da devastação que está ocorrendo por causa das queimadas na Amazônia brasileira.

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A H&M é a segunda maior cadeia de produtos de moda do mundo comunicou oficialmente que “devido aos graves incêndios na parte brasileira da floresta amazônica e às conexões com a produção de gado, decidimos proibir temporariamente o couro do Brasil”. E seu comunicado a H&M afirmou ainda que a “a proibição permanecerá ativa até que existam sistemas de garantia credíveis para verificar se o couro não contribui para danos ambientais na Amazônia”.

Há que se lembra que foi na Suécia que em junho de 2019 foi lançado o primeiro boicote formal conta produtos brasileiros por causa do uso excessivo de agrotóxicos e do desmatamento na Amazônia. Naquela ocasião, o boicote foi declarado pelo fundador e CEO da rede de mercearias especializadas em produtos orgânicos Paradiset, Johannes Cullberg. 

Se naquela ocasião a embaixada brasileira em Estocolmo enviou uma carta para pressionar Cullberg a suspender o seu boicote aos produtos brasileiros. Entretanto,  Johannes Cullberg não apenas não cessou o boicote, mas como começou uma campanha na Suécia e em toda a Europa para ampliar o processo que ele iniciou em sua empresa. O esforço de Cullberg já está causando fortes pressões por partes de consumidores suecos sobre as grandes redes de supermercados da Suécia.

icaA cadeia de supermercados sueca Ica não descarta um boicote aos produtos brasileiros.

Agora, vamos ver como se comporta o governo Bolsonaro em face de ampliação do movimento de boicote a commodities agrícolas que já causando perdas milionárias ao agronegócio brasileiro, de onde saiu um vigoroso apoio à candidatura presidencial de Jair Bolsonaro.

Após recusa de Bolsonaro ao G-7, líder de boicote aos produtos brasileiros lança campanha para financiar a proteção da Amazônia

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Após recusa do governo Bolsonaro em receber doação do G-7, líder do boicote a produtores brasileiros na Suécia lança campanha de apoio financeiro à proteção da Amazônia

O fundador e CEO da rede sueca de mercearias orgânicas Paradiset, Johannes Cullberg, que iniciou em junho uma campanha de boicote a produtos brasileiros por causa do uso de agrotóxicos banidos na União Europeia e do aumento no desmatamento na Amazônia, reagiu hoje à recusa do governo Bolsonaro em aceitar o apoio financeiro do G-7 para combater as queimadas na Amazônia.

Em vídeo, Cullberg informou que está lançando uma campanha financeira nas redes sociais e na rede Paradiset para levantar fundos que não serão entregues ao governo Bolsonaro, mas sim à ONG Earth Alliance, que é apoiada publicamente pelo ator Leonardo DiCaprio, e ao chamado Amazon Forest Fund

Johannes Cullberg também está convocando outras redes de supermercado e  quaisquer outros negócios na Suécia e na Europa a seguirem o caminho que ele está apontando, pois esta seria a hora de agir, não importando o a quão grande ou pequeno o tamanho da empresa que decida participar do movimento.

A mensagem política de Cullberg fica ainda mais clara quando ele afirma que é preciso  mostrar a Jair Bolsonaro “o incrível poder de muitos quando estamos unidos para proteger o futuro de nossos filhos” (ver abaixo o vídeo explicando o lançamento da campanha).

Essa decisão de Cullberg, mesmo que se concentre inicialmente na Suécia, tem tudo para atingir outros países da Europa em função da esperada repercussão negativa que a recusa do governo Bolsonaro em receber os recursos oferecidos pelo G-7 definitivamente terá na Europa.

Se essa campanha tiver o alcance esperado por Johannes Cullberg, estaremos diante de um exemplo claro de como arrogância misturada com forte virulência verbal tende a causar fortes prejuízos econômicos. No caso atual do atual cenário econômico do Brasil, isto terá efeitos desastrosos, e não adiantará o presidente Jair Bolsonaro ou seus ministros anti-ambiente espenearem. É que eles vão acabar colhendo o que estão plantando. Simples assim!

 

O boicote ao Brasil virá, resta agora saber apenas a sua amplitude

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As ações arrogantes e mal educadas de membros do governo federal, a começar pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, em relação às críticas ao atual ciclo de desmatamento e queimadas na Amazônia já causaram um dano diplomático significativo.  A coisa é tão grave que neste final de semana os líderes da 7 maiores economias do mundo (o G-7) estarão debatendo medidas para conter o estrago ambiental que ameaça a sustentação do clima da Terra, sem que o Brasil seja sequer convidado a dar explicações sobre o que está acontecendo ou, tampouco, sobre o que fará (em tese) para conter o fogo que consome áreas derrubadas e não derrubadas em toda a Amazônia brasileira.

Ainda que não existe unanimidade sequer dentro da União Europeia sobre como proceder em relação ao Brasil (fato que deve estar sendo festejado dentro dos gabinetes do governo Bolsonaro), há que se lembrar que para a ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul todos os países que compõe o bloco europeu precisam aprovar  a medida em seus respectivos congressos nacionais. E já se sabe que pelo menos na França, Irlanda e Finlândia, a oposição a essa ratificação será enorme.

Mas indo além dos interesses representados pelos governos nacionais há algo que parece não estar sendo considerado pelos analistas de plantão.  O fato é que há um crescente movimento social em toda a Europa e em outras partes do mundo contra a destruição da Amazônia. Os membros do governo Bolsonaro e seus apoiadores dentro da sociedade brasileira parecem não compreender que vivemos em um tempo que a informação é distribuída com velocidade extrema, mas não apenas para disseminar a visão canhestra de nacionalismo entreguista que eles parecem abraçar, o que despreza ferozmente as consequências políticas e econômicas do abraço mortal entre os interesses das grandes corporações econômicos e  a destruição ambiental. 

Protesto realizado na última 6a. feira (23/08) em frente da Embaixada do Brasil em Zurich na Suiça

O fato inescapável é que as centenas de manifestações que ocorreram pelo mundo afora contra o Brasil e seu governo anti-ambiental estão colocando em marcha um processo político que terá fortes impactos econômicos. É que movimentos de boicote a produtos agrícolas brasileiros, como o que foi iniciado pelo chefe executivo da rede sueca de supermercados Paradiset, Johannes Cullberg, estão começando a tocar corpo e caminham para um processo de unificação.  O centro gravitacional destes movimentos é a rejeição da compra de todo produto brasileiro que possa ser associado ao desmatamento da Amazônia, a começar por soja e carne bovina. 

cullbergJohannes Cullberg, CEO da rede sueca de mercearias orgânicas Paradiset, foi o primeiro a lançar o boicote a produtos brasileiras por causa do uso excessivo de agrotóxicos e do desmatamento na Amazônia.

Alarmados com o espectro de um boicote generalizado, os barões do agronegócio brasileiro estão buscando formas de impedir que isso aconteça. Mas conspira contra eles o fato de que já foi formada a imagem de que o governo brasileiro, sob a batuta de Jair Bolsonaro, representa um risco para a sobrevivência do planeta. E contra esse tipo de imagem poderosa há muito pouco o que possa fazer em termos de campanhas publicitárias. É que para cada peça que defenda o agronegócio logo surgirão centenas de imagens e vídeos mostrando didaticamente a destruição que eles e outros agentes econômicos estão causando legal ou ilegalmente nas florestas da Amazônia.

fogoMosaico de imagens de satélite Landsat criado pela National Space Agency (NASA) mostra os principais pontos de fogo na América do Sul.

Em suma, um boicote aos produtos agrícolas se tornou inevitável. Resta saber o tamanho e a amplitude que ele terá.  E o principal culpado pelo aprofundamento da crise econômica brasileira tem nome e endereço: Jair Messias Bolsonaro, Palácio do Planalto, D.F., Brasil.

Após acordo com Mercosul, empresário sueco promete cruzada contra produtos brasileiros

Em entrevista, empresário revela que está articulando ampliação de boicote entre outros supermercados europeus e lança plataforma para angariar apoio da população ao veto

Por Mariana Simões, Agência Pública/Repórter Brasil

“Um dia de manhã li no jornal que o governo Bolsonaro estava enlouquecendo com os pesticidas e que quase 200 pesticidas tinham sido liberados no mercado. Eu fiquei muito chateado e frustrado” explica, em tom indignado e com um sotaque carregado, o empresário sueco Johannes Cullberg, ao telefone. “Eu decidi que eu não posso apoiar esse tipo de comportamento. Percebi que a única maneira de demonstrar a minha insatisfação é boicotando todos os produtos brasileiros em nossas lojas”.

Johannes Cullberg é fundador e CEO do Paradiset, a maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia. Em junho, as suas lojas começaram a boicotar produtos brasileiros como suco de laranja, cacau, café, uma variedade de melões e outras frutas. Após ler sobre o acordo com o Mercosul, ele agora promete convencer outros varejistas a fazerem o mesmo.

Empresários bem-sucedido do varejo, Cullberg estabeleceu na Noruega a filial da Lidl, uma das maiores redes de supermercado de desconto do mundo. Johannes atuou como Diretor de Compras da Lidl por dois anos e nesse tempo inaugurou 25 lojas com mais de 1200 produtos. Em 2014, e interessou em promover a saúde e a sustentabilidade e por isso decidiu participar ativamente desse movimento.

“Nós temos três redes de supermercados grandes na Suécia e elas são todas muito parecidas. Então há quatro anos eu decidi fundar a minha própria rede,” conta o empresário. “O mercado se chama Paradiset, o que significa paraíso. Eu queria criar um estabelecimento que preza pelos meus valores. Na prática isso significa que as minhas lojas têm menos produtos porque só temos comida de verdade. O foco é a saúde e a sustentabilidade,” conclui.

publica 1Johannes Cullberg é fundador da maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia

Com quatro anos de vida, Paradiset já tem 4 lojas e 100 funcionários e a tendência, segundo Johannes, é expandir. Há um ano, o empresário liderou a primeira campanha de crowdfunding do mundo para beneficiar uma rede de supermercados. Levantou quase 2 milhões de euros em apenas 20 dias. Johannes acredita que a crescente influência da sua rede de supermercados vai ajudar a impulsionar a sua campanha contra os produtos brasileiros.

Quando a embaixada do Brasil na Suécia respondeu ao boicote enviando uma carta aberta, Johannes percebeu que a sua iniciativa já estava começando a surtir efeito. A carta frisava que “é preocupante que, embora muitos outros países tem um uso de pesticidas muito mais alto, só o Brasil tem sido mencionado na imprensa e na mídia”. Isso, segundo o comunicado, porque “o Brasil é o quinto ou sétimo colocado no mundo de acordo com parâmetros aplicados a pesticidas em estudos mundiais, sendo que esses rankings se baseiam em volume total por hectare ou por capita.”

A embaixada não mencionou o fato de que, no mesmo estudo mundial, feito pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) em 2013, o Brasil aparecia como líder mundial se considerarmos o total de agrotóxicos usados. Não há dados globais mais recentes.

“Na verdade, eu fiquei contente de ter recebido a carta da embaixada porque demonstrou que eu havia incomodado pessoas de alto escalão. Isso é um bom sinal. Espero que da próxima vez eu receba uma carta do governo brasileiro. Esse é o próximo passo”, diz o empresário.

Johannes decidiu também publicar uma resposta ao comunicado do governo brasileiro. “Deixa-me explicar novamente porque eu acho que um boicote de produtos brasileiros é necessário,” diz a carta. “De acordo com o European Network of Scientists for Social and Environmental Responsibility só em 2016 o Brasil registrou 4,208 casos de intoxicação por exposição a pesticidas e 355 mortes por químicas agrícolas. Eu contesto que esses números estão longe de ser aceitáveis para mim e não deveriam ser aceitáveis para ninguém.”

O boicote ganhou atenção na mídia brasileira e sueca e motivou Johannes a lançar depois uma campanha nas redes sociais com a hashtag #boycottbrazilianfood e uma petição online.

Mas Johannes diz que foi a notícia do acordo entre o Mercosul e a União Europeia que o motivou para elevar a discussão para um novo patamar. “Quando eu vi essa notícia sobre o acordo com a União Europeia e ainda por cima sabendo que a Comissária do Comércio da Comissão Europeia é sueca, eu fiquei muito chateado,” contou Johannes à reportagem.

“Agora eu vou em cima do governo sueco para ver como eu posso agitar as coisas na Suécia e na União Europeia porque me deixa louco que o Bolsonaro pode afetar tanta gente agora que está à frente do governo brasileiro. Se você pulveriza agrotóxicos nas comidas produzidas no Brasil, a gente também está consumindo isso na Suécia.”

Johannes já está começando a trilhar o caminho para levar a sua campanha adiante. O próximo passo, diz, é persuadir concorrentes na Suécia a aderirem ao boicote. “O segundo maior supermercado da Suécia está pensando em aderir ao boicote. Eu conheço os CEOs de todos os mercados. Eu acho que vou conseguir persuadi-los porque a campanha pode ser estrategicamente boa para eles em termos de relações públicas”.

O empresário acredita que os seus mais de quinze anos de experiência vão ajudá-los a impulsionar o boicote, em relação ao qual ele mantém a determinação.

“Se você não sabe como funcionam as grandes corporações vai ser difícil. Eu já fui CEO de empresas de grande porte cotadas na bolsa de valores. Então eu entendo o que motiva esse tipo de empresa. Eu sei conversar com os CEOs,” diz Johannes. “Eu quero que isso se transforme em uma iniciativa corporativa,” conclui.

Para poder conversar com os seus concorrentes Johannes diz que é importante traçar uma estratégia de divulgação baseada na ciência. Por isso, ele está se alinhando a comunidade científica e construindo com eles a linguagem da sua campanha.

“Estou contando com a ajuda de alguns professores de diversas universidades. Então eu vou juntar todos eles para utilizar o poder e o conhecimento dos especialistas. Eu acredito que é sempre bom utilizar a expertise de quem conhece melhor para poder utilizar uma linguagem [na campanha] que as corporações e outros possam compreender,” diz.

Além de atuar na frente empresarial, Johannes diz querer construir um movimento maior junto à sociedade civil na internet. Ele pretende usar o boicote para lançar luz sobre o uso alarmante de pesticidas na produção agrícola brasileira nas redes sociais e assim mobilizar as pessoas para deixar de consumir produtos brasileiros.

“Eu acho que isso tem tudo a ver com o poder do consumidor. O que eu estou dizendo é que se [os outros supermercados] não aderirem ao boicote agora, nós temos que mostrar a eles que não vamos consumir mais os produtos brasileiros. Então é isso eu estou tentando fazer é construir um movimento de baixo para cima porque acredito que isso é mais eficiente hoje,” diz o empresário.

publica 2Johannes lançou a campanha #boycottbrazilianfood para boicotar produtos brasileiros por uso de agrotóxicos

O dono do Paradiset diz que a sua determinação para lutar contra o uso de agrotóxicos está relacionada com uma profunda preocupação que ele tem pelo estado do nosso planeta. Inspirado pela ativista sueca de 16 anos Greta Thunberg, que lidera um movimento na Europa para frear os avanços das mudanças climáticas no mundo, Johannes diz também querer contribuir para um movimento maior.

“A minha motivação é deixar o planeta em um estado melhor do que eu o encontrei quando nasci. Para isso, vamos precisar tomar medidas sérias. Precisamos impedir homens como o Bolsonaro de fazer o que estão fazendo,” diz Johannes. “Temos que seguir o Acordo de Paris e atingir as metas impostas pela ONU e o que me preocupa é que o Bolsonaro e outros líderes mundiais estão dando meia volta e estão acelerando na direção oposta”.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela Agência Publica [Aqui!]. Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

A modernidade envenenada de Tereza Cristina, a musa do veneno do governo Bolsonaro

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina-1024x585Os ministros Ricardo Salles e Tereza Cristina são os principais responsáveis pelo sucesso da desconstrução das políticas ambientais no Brasil: o primeiro permite o avanço explosivo do desmatamento na Amazônia e a segunda acelera a aprovação de venenos agrícolas, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Indubitavelmente o governo Bolsonaro acumula muitas vitórias na implantação de sua pauta anti-ambiental, a maioria delas capitaneada pelo anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, e a pela ministra da Agricultura e “musa do veneno” Tereza Cristina (DEM/MS).

Graças à ação célere da dupla, o Brasil hoje vê-se imerso em uma disparada nas taxas de desmatamento na Amazônia e na aprovação “fast track” de venenos agrícolas que estão transformando o Brasil numa espécie de Chernobyl dos agrotóxicos, já que somente nos primeiros 7 meses de 2019 foram aprovadas 290 agrotóxicos para comercialização em diferentes partes do território nacional.

Hoje, a jornalista Lorena Rodrigues do “ESTADÃO” nos brinda com uma matéria em que Tereza Cristina faz uma espécie de celebração do seu sucesso como aprovadora mór de venenos agrícolas. Um detalhe para lá de instigante é o fato de que Tereza Cristina equipara a aprovação recorde de agrotóxicos altamente tóxicos para o ambiente e para a saúde humana como uma espécie de chegada à modernidade na agricultura brasileira.

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Ainda segundo o relato de Lorena Rodrigues, Tereza Cristina teria alegado que “os produtos autorizados atualmente têm menos toxicidade e são melhores para o País”. Faltou à ministra dizer que para conseguir o feito de ter produtos aprovados sob a égide de serem menos tóxicos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mudou repentinamente seu sistema de classificação de graus de toxicidade, o que fez que dos 600 produtos anteriormente classificados como os mais tóxicos, tenham sobrado meros 98. Assim, convenhamos, até eu conseguiria o feito que Tereza Cristina está clamando ser seu.

Como examinei os 290 produtos aprovados pelo governo Bolsonaro e verifiquei o grau de toxicidade ambiental e humana, só posso concluir que a ministra e dublê de musa do veneno padece do desconhecimento do que anda aprovando ou é simplesmente cínica. A verdade é que os produtos que foram autorizados não são nem mais modernos do que os existentes no mercado e, tampouco, são menos tóxicos. Entre os agrotóxicos temos o Acefato e a Ametrina,  banidos pela União Europeia por causarem graves danos à saúde humana e ao meio ambiente. Só essas duas substancias tornam no mínimo falaciosa a declaração de Tereza Cristina de que “O Brasil não utiliza defensivos banidos lá fora, não é bem assim. Tem pesticidas que são usados aqui e não na Europa porque eles não têm a mesma cultura. O Brasil não utiliza nada que não pode ser usado“. O fato é que o Brasil utiliza sim substâncias banidas não apenas na União Europeia, mas também na China como é o caso do Paraquate

Um momento de sinceridade (talvez o único) que Tereza Cristina demonstrou foi de reconhecer a preocupação em não “assustar o consumidor estrangeiro”.  Mas, neste caso, o exemplo do alerta russo sobre o excesso de glifosato na soja brasileira e o boicote promovido pelo CEO da rede sueca Paradiset, Johannes Cullberg, indicam que o temor de Tereza Cristina é tardio, e que evidentemente cresce a sombra de que brevemente boa parte da produção agrícola brasileira seja impedida de entrar nos principais mercados mundiais. Seja por excesso de agrotóxicos banidos internacionalmente e aprovados pelo governo Bolsonaro sob a batuta de Tereza Cristina, seja pelo aumento explosivo das taxas de desmatamento na Amazônia.

Quando o isolamento sanitário acontecer e o Brasil ficar impedido de vender o grosso da sua produção agrícola, vamos ver como se comportarão Ricardo Salles e Tereza Cristina para explicar para o presidente Jair Bolsonaro (também autointitulado como “Johnny Bravo” que focinho de porco não é tomada.  A ver!

Desmatamento e farra dos agrotóxicos ampliam boicote aos produtos brasileiros na Suécia

Empresário Johannes Cullberg diz que campanha conta com universidades, organizações ambientais e a população. E deve crescer com o fim das férias no país

 
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Em suas lojas, Cullberg comercializa melões, suco de laranja, café, chocolate e água de coco, entre outros produtos brasileiros

São Paulo – Dono de uma rede de mercearias especializadas na venda de alimentos orgânicos na Suécia, a ParadisetJohannes Cullberg ficou conhecido internacionalmente no começo de junho, quando mandou retirar de todas as suas prateleiras os produtos brasileiros que comercializava – melões, suco de laranja, água de coco, café e chocolate, entre outros. A iniciativa de propor a outros lojistas que fizessem o mesmo, em reação à farra dos agrotóxicos no Brasil, desagradou o governo de Jair Bolsonaro (PSL).

Uma semana depois, em 12 de junho, a embaixada brasileira em Estocolmo divulgou carta aberta ao empresário, negando que o Brasil ocupe o primeiro lugar no ranking do consumo de agrotóxicos. Estaria entre o quinto e sétimo lugar, segundo o comunicado. Sobre as novas liberações, que já somam 290 em sete meses de governo, afirmou se tratar de uma necessidade do país de clima tropical, onde há grande variedade de pragas, insetos, fungos e bactérias e taxas de proliferação maiores que na Europa. E que isso aumenta os desafios e a exigência de agrotóxicos específicos para conter os elementos que prejudicam a agricultura e a produção. A embaixada destacou ainda que, como nas regiões tropicais é possível produzir até três safras por ano, a demanda por esses produtos acaba sendo bem maior.

resposta da Paradiset foi dada no dia seguinte. Também em carta aberta, Cullberg afirmou ser inaceitável para ele, como para qualquer pessoa, que a exposição a agrotóxicos tenha causado 4.208 casos de intoxicação e 355 mortes somente em 2016, como mostram dados da Rede Europeia de Cientistas para a Responsabilidade Socioambiental.  E salientou que, caso isso não fosse o bastante, em maio deste ano foi desmatada na Amazônia uma área de 739 quilômetros quadrados.  Como se uma área do tamanho de dois campos de futebol fosse desmatada a cada minuto.

Cullberg também se referiu ao anúncio de Bolsonaro de permitir a mineração na floresta Amazônica. “É totalmente incompreensível para mim, considerando que ele, como presidente, deveria ser o modelo para o país inteiro”. E clamou aos diplomatas brasileiros na Suécia: “Agora é tempo, mais do que nunca, em que precisamos proteger e cuidar da melhor maneira do nosso planeta. E não acelerar no sentido contrário, como o Sr. Bolsonaro está fazendo. As ações de Bolsonaro não afetam apenas o Brasil, mas o mundo inteiro”.

Ainda em sua carta, o sueco se voltou para a sociedade como um todo:  “Mesmo que o mercado do seu bairro escolha não boicotar os produtos brasileiros, você pode. Qualquer ação, por menor que seja, faz a diferença. Então, por favor, junte-se a mim nesta luta para que nosso planeta sobreviva. Nós não teremos uma segunda chance.”

Desde então, o empresário passou a liderar a campanha #BoycottBrazilianFood, que conta com a adesão crescente da população em geral, de organizações ambientalistas e de universidades. O crescente alarme sobre o aumento do desmatamento na Amazônia e da aprovação de novos agrotóxicos, segundo crê, têm contribuído para a conscientização da situação crítica não só para o Brasil como para todo o mundo.

Na semana passada, Cullberg concedeu entrevista por e-mail à RBA. Confira:

O que você pensa sobre a carta aberta do governo brasileiro?

Meu primeiro pensamento foi que, se a embaixada me pediu para parar, eu devo estar fazendo a coisa certa. Obviamente eu irritei alguém importante no governo Bolsonaro. Isso motivou-me ainda mais, e assim decidi ir além – o que, obviamente, não era a intenção da carta. Uma réplica mais madura teria sido convidar-me para discutir soluções potenciais, o que talvez possa ser um próximo passo. Como podemos ver, estamos apenas começando.

Desde que você anunciou o boicote, outros supermercados aderiram à campanha?

Na Suécia, há um oligopólio com três grandes cadeias cobrindo 86% do mercado. Todos eles seguem a mesma regra de não boicotar países a não ser que a Federação Sueca de Varejistas de Alimentos assim determine, o que depende da recomendação do governo sueco, da União Europeia ou Nações Unidas ou a União Europeia de fazê-lo. Por isso que agora estou em contato com líderes políticos suecos, no governo e na UE para apoiar o boicote. Eu também estou conversando separadamente com proprietários de mercados que têm ignorado as recomendações nacionais em alguns casos, para também tê-los junto. Mas a maioria deles está de férias. Portanto, é um trabalho em andamento, já que não é uma decisão pequena a ser tomada.

Qual é a situação atual da mobilização?

Logo após as férias suecas, iremos para a segunda fase. A meta é unir forças com companhias maiores que as minhas, e também com a indústria de alimentos, trazer políticos, somar forças com grandes organizações ambientais com aquelas pessoas que podem exercer pressão com sua “faca e garfo”, escolhendo não comprar mantimentos do Brasil que não sejam orgânicos, como carne bovina da JBS, por exemplo. Isso será feito pela educação nas mídias sociais.

Há muito apoio? Esse apoio vem de que setores?

Devido ao crescente alarme nos meios de comunicação sobre o aumento do desmatamento e da aprovação de mais agrotóxicos no Brasil, mais e mais pessoas estão se conscientizando da situação. Atualmente, o apoio vem das universidades, organizações ambientais e da população em geral, por isso, é atualmente um movimento ascendente. Grandes corporações são mais lentas para reagir devido a suas políticas e também porque o período de verão começou justamente quando eu lancei o boicote. Mas era preciso lançar.

Em janeiro, autoridades sanitárias russas advertiram o Brasil sobre a necessidade de reduzir o uso de agrotóxicos. Desde então, Bolsonaro já liberou 290 novos agrotóxicos. Na Europa, esse tema tem sido discutido?

Esse assunto não foi discutido o suficiente por duas razões: primeiramente há grandes forças econômicas de companhias como Bayer e Basf, que ativamente tentam silenciar qualquer discussão. Em segundo lugar eu penso que o conhecimento sobre o impacto dos agrotóxicos é muito baixo e as pessoas não percebem que todos nós somos afetados pelo aumento do uso de agrotóxicos no Brasil, já que recebemos parte deles em nossa alimentação, mesmo na Europa. Isso é algo que estou discutindo atualmente com especialistas da área. Penso em fazer podcasts para ajudar a educar as pessoas na Suécia sobre os efeitos negativos para a saúde.

Os jornais The Economist e The New York Times publicaram reportagem especial em que clamam aos líderes mundiais advertir Jair Bolsonaro, à indústria de alimentos para que deixe de comprar soja brasileira e que o comércio com o Brasil deve estar condicionado à proteção da Amazônia. Quais as suas expectativas a respeito?

É sempre bom quando uma mídia prestigiada como The Economist ou New York Times escreva sobre a situação, já que é mais “legítimo” e mais pessoas e líderes de negócios se tornam conscientes. Um artigo não vai mudar as coisas, mas quando a mensagem é repetida muitas vezes pode criar mudanças. O artigo do The Economist pode ser como uma faísca para criar o fogo selvagem necessário para ferir o Sr. Bolsonaro no único lugar que ele se importa: sua carteira.

Você acredita que a pressão internacional deve aumentar?

Eu também acredito que outros ativistas, como a sueca Greta Thunberg e o maravilhoso trabalho que ela está fazendo, pode ajudar o público em geral a entender que nós precisamos agir agora, não amanhã. É importante notar também que a Europa e os estados Unidos, historicamente, já destruíram muitos dos nossos recursos. E como a Amazônia é uma das poucas que ficaram no mundo, tem de ser protegida. Nós não podemos cometer os mesmos erros cometidos nos nossos ou em outros países no passado.

Outra coisa a ser observada é que a maioria dos agrotóxicos são vendidos a partir de países europeus e nós somos os que compram alimentos do Brasil, onde as lavouras avançam sobre áreas desmatadas e muitas vezes fazendas impõem condições de trabalho horríveis, a fim de tornar o custo dos alimentos produzidos a níveis insustentavelmente baixos.  Então somos todos, de um jeito ou de outro, responsáveis ​​pelo que está acontecendo no Brasil e em muitas outras partes do mundo. Mas também temos o poder de mudar isso.

Bolsonaro tem anunciado que pretende explorar a Amazônia em parceria com os Estados Unidos. O que você pensa sobre isso?

Bem, eu penso que Bolsonaro e Trump são as duas pessoas mais perigosas hoje em dia. E me impressiona como essas pessoas podem chegar ao poder em grandes nações como o Brasil e os Estados Unidos. A julgar pelas ações anteriores do Sr. Trump, eu acho que ele provavelmente se tornará o melhor amigo de Bolsonaro, o que deve ser evitado a todo custo. Seria uma amizade mortal para o planeta Terra.

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Esta entrevista foi originalmente publicada pela Rede Brasil Atual [Aqui!].