Após acordo com Mercosul, empresário sueco promete cruzada contra produtos brasileiros

Em entrevista, empresário revela que está articulando ampliação de boicote entre outros supermercados europeus e lança plataforma para angariar apoio da população ao veto

Por Mariana Simões, Agência Pública/Repórter Brasil

“Um dia de manhã li no jornal que o governo Bolsonaro estava enlouquecendo com os pesticidas e que quase 200 pesticidas tinham sido liberados no mercado. Eu fiquei muito chateado e frustrado” explica, em tom indignado e com um sotaque carregado, o empresário sueco Johannes Cullberg, ao telefone. “Eu decidi que eu não posso apoiar esse tipo de comportamento. Percebi que a única maneira de demonstrar a minha insatisfação é boicotando todos os produtos brasileiros em nossas lojas”.

Johannes Cullberg é fundador e CEO do Paradiset, a maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia. Em junho, as suas lojas começaram a boicotar produtos brasileiros como suco de laranja, cacau, café, uma variedade de melões e outras frutas. Após ler sobre o acordo com o Mercosul, ele agora promete convencer outros varejistas a fazerem o mesmo.

Empresários bem-sucedido do varejo, Cullberg estabeleceu na Noruega a filial da Lidl, uma das maiores redes de supermercado de desconto do mundo. Johannes atuou como Diretor de Compras da Lidl por dois anos e nesse tempo inaugurou 25 lojas com mais de 1200 produtos. Em 2014, e interessou em promover a saúde e a sustentabilidade e por isso decidiu participar ativamente desse movimento.

“Nós temos três redes de supermercados grandes na Suécia e elas são todas muito parecidas. Então há quatro anos eu decidi fundar a minha própria rede,” conta o empresário. “O mercado se chama Paradiset, o que significa paraíso. Eu queria criar um estabelecimento que preza pelos meus valores. Na prática isso significa que as minhas lojas têm menos produtos porque só temos comida de verdade. O foco é a saúde e a sustentabilidade,” conclui.

publica 1Johannes Cullberg é fundador da maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia

Com quatro anos de vida, Paradiset já tem 4 lojas e 100 funcionários e a tendência, segundo Johannes, é expandir. Há um ano, o empresário liderou a primeira campanha de crowdfunding do mundo para beneficiar uma rede de supermercados. Levantou quase 2 milhões de euros em apenas 20 dias. Johannes acredita que a crescente influência da sua rede de supermercados vai ajudar a impulsionar a sua campanha contra os produtos brasileiros.

Quando a embaixada do Brasil na Suécia respondeu ao boicote enviando uma carta aberta, Johannes percebeu que a sua iniciativa já estava começando a surtir efeito. A carta frisava que “é preocupante que, embora muitos outros países tem um uso de pesticidas muito mais alto, só o Brasil tem sido mencionado na imprensa e na mídia”. Isso, segundo o comunicado, porque “o Brasil é o quinto ou sétimo colocado no mundo de acordo com parâmetros aplicados a pesticidas em estudos mundiais, sendo que esses rankings se baseiam em volume total por hectare ou por capita.”

A embaixada não mencionou o fato de que, no mesmo estudo mundial, feito pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) em 2013, o Brasil aparecia como líder mundial se considerarmos o total de agrotóxicos usados. Não há dados globais mais recentes.

“Na verdade, eu fiquei contente de ter recebido a carta da embaixada porque demonstrou que eu havia incomodado pessoas de alto escalão. Isso é um bom sinal. Espero que da próxima vez eu receba uma carta do governo brasileiro. Esse é o próximo passo”, diz o empresário.

Johannes decidiu também publicar uma resposta ao comunicado do governo brasileiro. “Deixa-me explicar novamente porque eu acho que um boicote de produtos brasileiros é necessário,” diz a carta. “De acordo com o European Network of Scientists for Social and Environmental Responsibility só em 2016 o Brasil registrou 4,208 casos de intoxicação por exposição a pesticidas e 355 mortes por químicas agrícolas. Eu contesto que esses números estão longe de ser aceitáveis para mim e não deveriam ser aceitáveis para ninguém.”

O boicote ganhou atenção na mídia brasileira e sueca e motivou Johannes a lançar depois uma campanha nas redes sociais com a hashtag #boycottbrazilianfood e uma petição online.

Mas Johannes diz que foi a notícia do acordo entre o Mercosul e a União Europeia que o motivou para elevar a discussão para um novo patamar. “Quando eu vi essa notícia sobre o acordo com a União Europeia e ainda por cima sabendo que a Comissária do Comércio da Comissão Europeia é sueca, eu fiquei muito chateado,” contou Johannes à reportagem.

“Agora eu vou em cima do governo sueco para ver como eu posso agitar as coisas na Suécia e na União Europeia porque me deixa louco que o Bolsonaro pode afetar tanta gente agora que está à frente do governo brasileiro. Se você pulveriza agrotóxicos nas comidas produzidas no Brasil, a gente também está consumindo isso na Suécia.”

Johannes já está começando a trilhar o caminho para levar a sua campanha adiante. O próximo passo, diz, é persuadir concorrentes na Suécia a aderirem ao boicote. “O segundo maior supermercado da Suécia está pensando em aderir ao boicote. Eu conheço os CEOs de todos os mercados. Eu acho que vou conseguir persuadi-los porque a campanha pode ser estrategicamente boa para eles em termos de relações públicas”.

O empresário acredita que os seus mais de quinze anos de experiência vão ajudá-los a impulsionar o boicote, em relação ao qual ele mantém a determinação.

“Se você não sabe como funcionam as grandes corporações vai ser difícil. Eu já fui CEO de empresas de grande porte cotadas na bolsa de valores. Então eu entendo o que motiva esse tipo de empresa. Eu sei conversar com os CEOs,” diz Johannes. “Eu quero que isso se transforme em uma iniciativa corporativa,” conclui.

Para poder conversar com os seus concorrentes Johannes diz que é importante traçar uma estratégia de divulgação baseada na ciência. Por isso, ele está se alinhando a comunidade científica e construindo com eles a linguagem da sua campanha.

“Estou contando com a ajuda de alguns professores de diversas universidades. Então eu vou juntar todos eles para utilizar o poder e o conhecimento dos especialistas. Eu acredito que é sempre bom utilizar a expertise de quem conhece melhor para poder utilizar uma linguagem [na campanha] que as corporações e outros possam compreender,” diz.

Além de atuar na frente empresarial, Johannes diz querer construir um movimento maior junto à sociedade civil na internet. Ele pretende usar o boicote para lançar luz sobre o uso alarmante de pesticidas na produção agrícola brasileira nas redes sociais e assim mobilizar as pessoas para deixar de consumir produtos brasileiros.

“Eu acho que isso tem tudo a ver com o poder do consumidor. O que eu estou dizendo é que se [os outros supermercados] não aderirem ao boicote agora, nós temos que mostrar a eles que não vamos consumir mais os produtos brasileiros. Então é isso eu estou tentando fazer é construir um movimento de baixo para cima porque acredito que isso é mais eficiente hoje,” diz o empresário.

publica 2Johannes lançou a campanha #boycottbrazilianfood para boicotar produtos brasileiros por uso de agrotóxicos

O dono do Paradiset diz que a sua determinação para lutar contra o uso de agrotóxicos está relacionada com uma profunda preocupação que ele tem pelo estado do nosso planeta. Inspirado pela ativista sueca de 16 anos Greta Thunberg, que lidera um movimento na Europa para frear os avanços das mudanças climáticas no mundo, Johannes diz também querer contribuir para um movimento maior.

“A minha motivação é deixar o planeta em um estado melhor do que eu o encontrei quando nasci. Para isso, vamos precisar tomar medidas sérias. Precisamos impedir homens como o Bolsonaro de fazer o que estão fazendo,” diz Johannes. “Temos que seguir o Acordo de Paris e atingir as metas impostas pela ONU e o que me preocupa é que o Bolsonaro e outros líderes mundiais estão dando meia volta e estão acelerando na direção oposta”.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela Agência Publica [Aqui!]. Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

A modernidade envenenada de Tereza Cristina, a musa do veneno do governo Bolsonaro

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina-1024x585Os ministros Ricardo Salles e Tereza Cristina são os principais responsáveis pelo sucesso da desconstrução das políticas ambientais no Brasil: o primeiro permite o avanço explosivo do desmatamento na Amazônia e a segunda acelera a aprovação de venenos agrícolas, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Indubitavelmente o governo Bolsonaro acumula muitas vitórias na implantação de sua pauta anti-ambiental, a maioria delas capitaneada pelo anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, e a pela ministra da Agricultura e “musa do veneno” Tereza Cristina (DEM/MS).

Graças à ação célere da dupla, o Brasil hoje vê-se imerso em uma disparada nas taxas de desmatamento na Amazônia e na aprovação “fast track” de venenos agrícolas que estão transformando o Brasil numa espécie de Chernobyl dos agrotóxicos, já que somente nos primeiros 7 meses de 2019 foram aprovadas 290 agrotóxicos para comercialização em diferentes partes do território nacional.

Hoje, a jornalista Lorena Rodrigues do “ESTADÃO” nos brinda com uma matéria em que Tereza Cristina faz uma espécie de celebração do seu sucesso como aprovadora mór de venenos agrícolas. Um detalhe para lá de instigante é o fato de que Tereza Cristina equipara a aprovação recorde de agrotóxicos altamente tóxicos para o ambiente e para a saúde humana como uma espécie de chegada à modernidade na agricultura brasileira.

tereza cristina venenos

Ainda segundo o relato de Lorena Rodrigues, Tereza Cristina teria alegado que “os produtos autorizados atualmente têm menos toxicidade e são melhores para o País”. Faltou à ministra dizer que para conseguir o feito de ter produtos aprovados sob a égide de serem menos tóxicos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mudou repentinamente seu sistema de classificação de graus de toxicidade, o que fez que dos 600 produtos anteriormente classificados como os mais tóxicos, tenham sobrado meros 98. Assim, convenhamos, até eu conseguiria o feito que Tereza Cristina está clamando ser seu.

Como examinei os 290 produtos aprovados pelo governo Bolsonaro e verifiquei o grau de toxicidade ambiental e humana, só posso concluir que a ministra e dublê de musa do veneno padece do desconhecimento do que anda aprovando ou é simplesmente cínica. A verdade é que os produtos que foram autorizados não são nem mais modernos do que os existentes no mercado e, tampouco, são menos tóxicos. Entre os agrotóxicos temos o Acefato e a Ametrina,  banidos pela União Europeia por causarem graves danos à saúde humana e ao meio ambiente. Só essas duas substancias tornam no mínimo falaciosa a declaração de Tereza Cristina de que “O Brasil não utiliza defensivos banidos lá fora, não é bem assim. Tem pesticidas que são usados aqui e não na Europa porque eles não têm a mesma cultura. O Brasil não utiliza nada que não pode ser usado“. O fato é que o Brasil utiliza sim substâncias banidas não apenas na União Europeia, mas também na China como é o caso do Paraquate

Um momento de sinceridade (talvez o único) que Tereza Cristina demonstrou foi de reconhecer a preocupação em não “assustar o consumidor estrangeiro”.  Mas, neste caso, o exemplo do alerta russo sobre o excesso de glifosato na soja brasileira e o boicote promovido pelo CEO da rede sueca Paradiset, Johannes Cullberg, indicam que o temor de Tereza Cristina é tardio, e que evidentemente cresce a sombra de que brevemente boa parte da produção agrícola brasileira seja impedida de entrar nos principais mercados mundiais. Seja por excesso de agrotóxicos banidos internacionalmente e aprovados pelo governo Bolsonaro sob a batuta de Tereza Cristina, seja pelo aumento explosivo das taxas de desmatamento na Amazônia.

Quando o isolamento sanitário acontecer e o Brasil ficar impedido de vender o grosso da sua produção agrícola, vamos ver como se comportarão Ricardo Salles e Tereza Cristina para explicar para o presidente Jair Bolsonaro (também autointitulado como “Johnny Bravo” que focinho de porco não é tomada.  A ver!

Desmatamento e farra dos agrotóxicos ampliam boicote aos produtos brasileiros na Suécia

Empresário Johannes Cullberg diz que campanha conta com universidades, organizações ambientais e a população. E deve crescer com o fim das férias no país

 
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Em suas lojas, Cullberg comercializa melões, suco de laranja, café, chocolate e água de coco, entre outros produtos brasileiros

São Paulo – Dono de uma rede de mercearias especializadas na venda de alimentos orgânicos na Suécia, a ParadisetJohannes Cullberg ficou conhecido internacionalmente no começo de junho, quando mandou retirar de todas as suas prateleiras os produtos brasileiros que comercializava – melões, suco de laranja, água de coco, café e chocolate, entre outros. A iniciativa de propor a outros lojistas que fizessem o mesmo, em reação à farra dos agrotóxicos no Brasil, desagradou o governo de Jair Bolsonaro (PSL).

Uma semana depois, em 12 de junho, a embaixada brasileira em Estocolmo divulgou carta aberta ao empresário, negando que o Brasil ocupe o primeiro lugar no ranking do consumo de agrotóxicos. Estaria entre o quinto e sétimo lugar, segundo o comunicado. Sobre as novas liberações, que já somam 290 em sete meses de governo, afirmou se tratar de uma necessidade do país de clima tropical, onde há grande variedade de pragas, insetos, fungos e bactérias e taxas de proliferação maiores que na Europa. E que isso aumenta os desafios e a exigência de agrotóxicos específicos para conter os elementos que prejudicam a agricultura e a produção. A embaixada destacou ainda que, como nas regiões tropicais é possível produzir até três safras por ano, a demanda por esses produtos acaba sendo bem maior.

resposta da Paradiset foi dada no dia seguinte. Também em carta aberta, Cullberg afirmou ser inaceitável para ele, como para qualquer pessoa, que a exposição a agrotóxicos tenha causado 4.208 casos de intoxicação e 355 mortes somente em 2016, como mostram dados da Rede Europeia de Cientistas para a Responsabilidade Socioambiental.  E salientou que, caso isso não fosse o bastante, em maio deste ano foi desmatada na Amazônia uma área de 739 quilômetros quadrados.  Como se uma área do tamanho de dois campos de futebol fosse desmatada a cada minuto.

Cullberg também se referiu ao anúncio de Bolsonaro de permitir a mineração na floresta Amazônica. “É totalmente incompreensível para mim, considerando que ele, como presidente, deveria ser o modelo para o país inteiro”. E clamou aos diplomatas brasileiros na Suécia: “Agora é tempo, mais do que nunca, em que precisamos proteger e cuidar da melhor maneira do nosso planeta. E não acelerar no sentido contrário, como o Sr. Bolsonaro está fazendo. As ações de Bolsonaro não afetam apenas o Brasil, mas o mundo inteiro”.

Ainda em sua carta, o sueco se voltou para a sociedade como um todo:  “Mesmo que o mercado do seu bairro escolha não boicotar os produtos brasileiros, você pode. Qualquer ação, por menor que seja, faz a diferença. Então, por favor, junte-se a mim nesta luta para que nosso planeta sobreviva. Nós não teremos uma segunda chance.”

Desde então, o empresário passou a liderar a campanha #BoycottBrazilianFood, que conta com a adesão crescente da população em geral, de organizações ambientalistas e de universidades. O crescente alarme sobre o aumento do desmatamento na Amazônia e da aprovação de novos agrotóxicos, segundo crê, têm contribuído para a conscientização da situação crítica não só para o Brasil como para todo o mundo.

Na semana passada, Cullberg concedeu entrevista por e-mail à RBA. Confira:

O que você pensa sobre a carta aberta do governo brasileiro?

Meu primeiro pensamento foi que, se a embaixada me pediu para parar, eu devo estar fazendo a coisa certa. Obviamente eu irritei alguém importante no governo Bolsonaro. Isso motivou-me ainda mais, e assim decidi ir além – o que, obviamente, não era a intenção da carta. Uma réplica mais madura teria sido convidar-me para discutir soluções potenciais, o que talvez possa ser um próximo passo. Como podemos ver, estamos apenas começando.

Desde que você anunciou o boicote, outros supermercados aderiram à campanha?

Na Suécia, há um oligopólio com três grandes cadeias cobrindo 86% do mercado. Todos eles seguem a mesma regra de não boicotar países a não ser que a Federação Sueca de Varejistas de Alimentos assim determine, o que depende da recomendação do governo sueco, da União Europeia ou Nações Unidas ou a União Europeia de fazê-lo. Por isso que agora estou em contato com líderes políticos suecos, no governo e na UE para apoiar o boicote. Eu também estou conversando separadamente com proprietários de mercados que têm ignorado as recomendações nacionais em alguns casos, para também tê-los junto. Mas a maioria deles está de férias. Portanto, é um trabalho em andamento, já que não é uma decisão pequena a ser tomada.

Qual é a situação atual da mobilização?

Logo após as férias suecas, iremos para a segunda fase. A meta é unir forças com companhias maiores que as minhas, e também com a indústria de alimentos, trazer políticos, somar forças com grandes organizações ambientais com aquelas pessoas que podem exercer pressão com sua “faca e garfo”, escolhendo não comprar mantimentos do Brasil que não sejam orgânicos, como carne bovina da JBS, por exemplo. Isso será feito pela educação nas mídias sociais.

Há muito apoio? Esse apoio vem de que setores?

Devido ao crescente alarme nos meios de comunicação sobre o aumento do desmatamento e da aprovação de mais agrotóxicos no Brasil, mais e mais pessoas estão se conscientizando da situação. Atualmente, o apoio vem das universidades, organizações ambientais e da população em geral, por isso, é atualmente um movimento ascendente. Grandes corporações são mais lentas para reagir devido a suas políticas e também porque o período de verão começou justamente quando eu lancei o boicote. Mas era preciso lançar.

Em janeiro, autoridades sanitárias russas advertiram o Brasil sobre a necessidade de reduzir o uso de agrotóxicos. Desde então, Bolsonaro já liberou 290 novos agrotóxicos. Na Europa, esse tema tem sido discutido?

Esse assunto não foi discutido o suficiente por duas razões: primeiramente há grandes forças econômicas de companhias como Bayer e Basf, que ativamente tentam silenciar qualquer discussão. Em segundo lugar eu penso que o conhecimento sobre o impacto dos agrotóxicos é muito baixo e as pessoas não percebem que todos nós somos afetados pelo aumento do uso de agrotóxicos no Brasil, já que recebemos parte deles em nossa alimentação, mesmo na Europa. Isso é algo que estou discutindo atualmente com especialistas da área. Penso em fazer podcasts para ajudar a educar as pessoas na Suécia sobre os efeitos negativos para a saúde.

Os jornais The Economist e The New York Times publicaram reportagem especial em que clamam aos líderes mundiais advertir Jair Bolsonaro, à indústria de alimentos para que deixe de comprar soja brasileira e que o comércio com o Brasil deve estar condicionado à proteção da Amazônia. Quais as suas expectativas a respeito?

É sempre bom quando uma mídia prestigiada como The Economist ou New York Times escreva sobre a situação, já que é mais “legítimo” e mais pessoas e líderes de negócios se tornam conscientes. Um artigo não vai mudar as coisas, mas quando a mensagem é repetida muitas vezes pode criar mudanças. O artigo do The Economist pode ser como uma faísca para criar o fogo selvagem necessário para ferir o Sr. Bolsonaro no único lugar que ele se importa: sua carteira.

Você acredita que a pressão internacional deve aumentar?

Eu também acredito que outros ativistas, como a sueca Greta Thunberg e o maravilhoso trabalho que ela está fazendo, pode ajudar o público em geral a entender que nós precisamos agir agora, não amanhã. É importante notar também que a Europa e os estados Unidos, historicamente, já destruíram muitos dos nossos recursos. E como a Amazônia é uma das poucas que ficaram no mundo, tem de ser protegida. Nós não podemos cometer os mesmos erros cometidos nos nossos ou em outros países no passado.

Outra coisa a ser observada é que a maioria dos agrotóxicos são vendidos a partir de países europeus e nós somos os que compram alimentos do Brasil, onde as lavouras avançam sobre áreas desmatadas e muitas vezes fazendas impõem condições de trabalho horríveis, a fim de tornar o custo dos alimentos produzidos a níveis insustentavelmente baixos.  Então somos todos, de um jeito ou de outro, responsáveis ​​pelo que está acontecendo no Brasil e em muitas outras partes do mundo. Mas também temos o poder de mudar isso.

Bolsonaro tem anunciado que pretende explorar a Amazônia em parceria com os Estados Unidos. O que você pensa sobre isso?

Bem, eu penso que Bolsonaro e Trump são as duas pessoas mais perigosas hoje em dia. E me impressiona como essas pessoas podem chegar ao poder em grandes nações como o Brasil e os Estados Unidos. A julgar pelas ações anteriores do Sr. Trump, eu acho que ele provavelmente se tornará o melhor amigo de Bolsonaro, o que deve ser evitado a todo custo. Seria uma amizade mortal para o planeta Terra.

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Esta entrevista foi originalmente publicada pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Johannes Cullberg se dirige aos brasileiros para explicar sua campanha de boicote a produtos nacionais contaminados por agrotóxicos e desmatamento

cullberg

Johannes Cullberg, fundador e CEO da rede de supermercados orgânicos sueca Paradiset, está aumentando seus esforços para ampliar os participantes do boicote a produtos agrícolas brasileiros não orgânicos por causa de alta utilização de agrotóxicos e da associação direta com o desmatamento na Amazônia.

Para isto, Johannes Cullberg organizou um grupo de apoiadores na rede social Facebook, o #BoycottBrazilianFood, e também está utilizando a sua página oficial no Instagram para disseminar sua mensagem contra a aprovação em ritmo alucinado de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro e contra o desmatamento na Amazônia.

Johannes Cullberg também acaba de produzir um vídeo direcionado ao público brasileiro onde ele explica as razões do boicote que ele impôs dentro da rede Paradiset contra produtos contaminados por agrotóxicos vindos do Brasil.

No vídeo mostra acima, Cullberg informa sobre suas razões e conclama aos brasileiros para que se juntem ao boicote contra alimentos contaminados por agrotóxicos, dizendo que:

” Sou Johannes Cullberg, fundador da Paradiset, uma cadeia de supermercados de alimentos naturais e orgânicos na Suécia. Eu comecei minha empresa para que meus filhos e todos na Suécia pudessem obter comida que fosse boa para as pessoas e boa para o planeta. Quando vi o que Bolsonaro estava fazendo com vocês, o povo brasileiro e também o resto do mundo, usando pesticidas para produção de alimentos tão venenosos que não permitiam na Europa e também aumentando o desmatamento da Amazônia, fiquei muito zangado e chateado! Então decidi boicotar todos os produtos alimentícios não orgânicos do Brasil para mostrar que não podemos aceitar esse desenvolvimento. Em 2019, precisamos cuidar melhor do nosso planeta, não matá-lo. Nós já produzimos mais alimentos no mundo do que podemos comer e 1/3 de toda a comida é desperdiçada. Então não precisamos de mais comida. E nós não precisamos de mais comida venenosa. Precisamos de comida melhor para todos, não apenas para os ricos! A embaixada brasileira na Suécia me disse para parar a campanha, mas eu não vou. Em vez disso, vou me esforçar mais. Com a ajuda do povo da Suécia e da Europa, espero poder mostrar ao governo Bolsonoro que precisamos parar de envenenar o Brasil e o resto do mundo e começar a cuidar dele. Por favor, junte-se a mim neste boicote. Juntos podemos mover montanhas. E governos. Muito Obrigado!”

Dentre as informações importantes oferecidas por Johannes Cullberg no vídeo dirigido aos brasileiros está a que nos diz que a Embaixada do Brasil pediu para que ele suspendesse a sua campanha de boicote aos produtos contaminados por agrotóxicos e associados ao desmatamento da Amazônia. Esse é um gesto típico de quem não entende como os países democráticos realmente funcionam, além de demonstrar um parco entendimento do tipo de efeito colateral que esse tipo de cobrança indevida acabaria gerando.

De toda forma, o gesto de Johannes Cullberg de se dirigir diretamente aos brasilei, ros demonstra que ele vai continuar mobilizando esforços para ampliar o boicote à produção agrícola brasileira que não siga os padrões de sustentabilidade que ele almeja. Essa informação é fundamental para dinamizar os esforços contra a política de aprovação “fast track” de agrotóxicos altamente tóxicos pelo governo Bolsonaro.

E uma coisa é certa, aos se dirigir diretamente aos brasileiros e conclamar que eles se juntem ao boicote contra produtos contaminados por agrotóxicos e associados ao desmatamento na Amazônia, Johannes Cullberg mostra mais preocupação com a saúde brasileira do que todos os ministros do governo Bolsonaro juntos.

Medo de boicote à produção agrícola brasileira força ruralistas a pedirem controle do desmatamento “ilegal” a Ricardo Salles

amazon deforestationMedo de boicote faz bancada ruralista pressionar Ricardo Salles por controle do “desmatamento ilegal” na Amazônia.

O ClimaInfo traz hoje a informação de que membros da chamada Frente Parlamentar da Agropecuário (FPA) (leia-se os representantes do latifúndio agro-exportador) se encontraram ontem (25/06) com o ainda ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para pedir medidas para o combate ao chamado “desmatamento ilegal” nas florestas brasileiras.

clima info desmate ilegalRuralistas se encontram com Ricardo Salles para pedir controle do “desmatamento ilegal” na Amazônia. Medo de boicote é a razão mais provável para o gesto.

Há quem possa ver nessa visita da FPA a Ricardo Salles apenas uma manobra diversionista para enganar observadores internacionais menos atentos (ou quiçá os negociadores da União Europeia que estão negociando o acordo comercial com o Mercosul).

Mas eu tendo a concordar com os editores do ClimaInfo que apontam para um possível medo da bancada ruralista em relação às pressões pela realizações de boicotes à compra da produção agrícola brasileira seguindo os exemplos de Johannes Cullberg, da rede de supermercados sueca Paradiset) que já baniu produtos brasileiros da maior cadeia de venda de produtos orgânicos da Escandinávia e de Sônia Guajajara, importante liderança indígena e candidata a vice-presidente pelo PSOL nas eleições presidenciais de 2018, que recentemente defendeu em Bonn, Alemanha, o boicote à produtos agrícolas vindos de áreas de conflitos sociais no Brasil.

Johannes Cullberg e Sônia Guajajara são duas das faces mais visíveis de um crescente movimento de boicote à produção agrícola brasileira que está ocorrendo principalmente na Europa e ameaça se alastrar no resto do mundo.

O problema é que a não ser que o governo Bolsonaro faça um giro de 180 graus no processo de destruição da governança ambiental que vem sendo executado de forma diligente por Ricardo Salles, há a possibilidade concreta de que haja uma unificação dos diferentes movimentos de boicote aos produtos brasileiros.  É que, ao contrário do que alardeiam os membros da FPA, a situação brasileira está sendo acompanhado de perto por pesquisadores, lideranças políticas e ativistas sociais estrangeiros que, por isso mesmo, são praticamente imunes a qualquer jogo de cena que venha a ser feito apenas com finalidade de distração (vide a carta dos 602 pesquisadores e o manifesto das mais de 340 organizações sociais que pedirem que a EU condicione suas negociações com o Mercosul à contenção do desmatamento na Amazônia).

A verdade é que sem a combinação de uma intensa pressão externa e a ação política interna, o Brasil e suas florestas serão devastados por defensores de uma forma arcaica de avançar a fronteira agrícola.  Os números do desmatamento que está ocorrendo na Amazônia são a prova irrefutável de que sem o devido processo de pressão política e econômica, o ritmo da devastação será incontrolável.

Resta saber agora se Ricardo Salles terá disposição ou capacidade de reverter o seu curso atual que é o de um cético das mudanças climáticas globais que está literalmente deixando a motosserra cantar na Amazônia brasileira.

 

Para conter o “#BoycottBrazilianFood”, embaixada em Estocolmo envia carta falaciosa para Johannes Cullberg

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Em uma evidente demonstração de que o governo Bolsonaro sentiu o golpe causado pelo boicote convocado pelo fundador e Chief Executive Officer (CEO) da rede sueca de supermercados Paradiset a produtos originados do Brasil por causa da contaminação de agrotóxicos, a embaixada brasileira na capital da Suécia enviou uma carta onde tenta rebater os argumentos de Johannes Cullberg (ver carta abaixo)

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A carta é uma coleção de falácias, e começa por um ataque subliminar aos motivos que levaram a Johannes Cullberg a retirar os produtos brasileiros de suas prateleiras ao afirmar que os autores da carta não sabem se a rede Paradiset  realmente importa produtos orgânicos do Brasil.

Um argumento que é repetido à exaustão por representantes do latifúndio agro-exportador quando confrontados com os dados que dão conta que o Brasil é hoje o campeão mundial do consumo de agrotóxicos, a carta também sugere que Cullberg verifique bases de dados que mostram apenas uma taxa que efetivamente oculta o impacto dos agrotóxicos no modelo viciado por venenos que predomina na agricultura brasileira. Falo aqui da taxa composta pelo custo do volume consumido em relação à área total do Brasil, que coloca o Brasil em 7o. lugar do mundo e o Japão em 1o.  

A falácia desse argumento é, contudo, facilmente desmontada quando se verifica que o Brasil ocupa o primeiro lugar do mundo em termos de valor gasto com a compra de agrotóxicos (ver figura abaixo com dados de 2013).

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A carta omite ainda o fato cabalmente documentado em relatório publicado em 2019 pela organização não-governamental suiça “Public Eye” que apontou para o fato de que em 2017 o Brasil representava 18% do consumo mundial de agrotóxicos, empatado com os EUA. Além disso, o mesmo relatório mostrou que o Brasil se tornou uma espécie de piscina tóxica onde agrotóxicos banidos em outras partes do mundo são despejados.

A embaixada repete ainda a cantilena falaciosa de que o Brasil está fazendo esse uso intenso de agrotóxicos para alimentar o mundo, quando, na verdade, a cultura que mais ocupa área e recebe mais agrotóxicos é a soja, cujo destino não é alimentar seres humanos diretamente, mas ser usada como ração animal.

A carta da embaixada ainda faz uma relação indecorosa entre clima e uso de agrotóxicos, pois se esquece que a origem da necessidade dos agrotóxicos são as grandes monoculturas que são a raiz da proliferação de determinados organismos.  A carta tampouco relaciona a relação entre grandes monoculturas e a ampliação do uso de venenos altamente tóxicos. Isto sem falar no papel dessas mesmas monoculturas na ampliação do desmatamento na Amazônia brasileira e no Cerrado.

Felizmente, a resposta de Johannnes Cullberg não apenas não tardou, mas veio com o tom e conteúdo que a “carta” da embaixada brasileira em Estocolmo merece. Cullberg não apenas dizimou o argumento climático, como apontou para os crescentes casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil, e ainda lembrou o problema da explosivo aumento do desmatamento na Amazônia brasileira. De quebra, Cullberg ainda convidou os membros da embaixada brasileira a se juntar ao boicote que ele está impulsionando, mesmo que as redes brasileiras de supermercados não o façam, pois, segundo ele, “toda ação, ainda que pequena, faz a diferença“, e que  “nós não iremos ter uma segunda chance” (ver a carta de Johannes Cullberg logo abaixo).

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Trocados em miúdos, alguém na embaixada brasileira em Estocolmo pensou que estava falando com um ignorante sobre a situação dos agrotóxicos no Brasil, e acabou aprendendo que não.

De minha parte, fico com a certeza de que o “BoycottBrazilianFood” não pode ser um movimento que ocorra apenas por causa da decisão de consumo consciente do CEO de uma rede de supermercados que vive a 10.000 km do Brasil.  A demanda pelo direito de consumir alimentos saudáveis se transformou em uma das principais bandeiras políticas que os brasileiros devem assumir nessa primeira década do Século XXI. Ou forçamos as redes brasileiras de supermercados a adotarem a mesma posição da rede Paradiset ou estaremos condenando nossas filhas e filhos e os filhos deles a terem um futuro marcado por doenças graves e fatais.

Johannes Cullberg leva sua campanha contra o excesso de agrotóxicos na comida brasileira para o Facebook

cullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede de supermercados Paradiset, que baniu produtos brasileiros por causa do excesso de agrotóxicos, também lançou grupo no Facebook para aumentar pressão sobre o governo Bolsonaro.

O fundador e CEO da rede de supermercados sueca Paradiset, Johannes Cullberg, não parou apenas na decisão de remover das suas prateleiras alimentos produzidos no Brasil por causa da farra de liberação de agrotóxicos altamente tóxicos que está sendo comandada pela ministra Tereza Cristina (DEM/MS) a serviço da bancada ruralista.

É que para aumentar a divulgação de sua campanha em prol do banimento dos alimentos brasileiros até que se tome alguma medida para diminuir a contaminação por agrotóxicos, muitos deles banidos na União Europeia, Cullberg levou a sua batalha em prol de alimentos saudáveis para a rede social Facebook com a criação do grupo “#BoycottBrazilianFood”  (ver imagem abaixo).

cullberg facebook

A posição e as razões da criação do #BoycottBrazilianFood ficam claras na descrição do grupo onde está dito que “Inscreva-se e compartilhe com seus amigos para reunir o maior número possível de pessoas. O uso de agrotóxicos perigosos na produção de alimentos brasileira precisa parar agora! Só em 2019, 197 pesticidas foram aprovados pelo Sr. Bolsonaro. Isso põe em perigo a saúde da população brasileira, o meio ambiente e nosso planeta como um todo. Este é um convite a todos para se juntarem e mostrarem ao senhor Bolsonaro que já chega! Ele não deveria ter mais permissão para destruir nosso planeta e nossos filhos!

É como eu tenho dito aqui após essa verdadeira orgia de aprovações de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo: o Brasil corre o risco de se tornar um pária ambiental no circuito das Nações, e de sofrer um forte boicote sanitário a seus produtos agrícolas em função da posição irresponsável de apostar em um modelo agrícola viciado em agrotóxicos.

Agora,  para mim é quase certo que a partir do movimento iniciado pelo fundador da rede Paradiset, outros empresários e dirigentes de cadeias de supermercados europeus (especialmente aquelas comprometidas com a comercialização de produtos orgânicos, mas não só elas) venham a adotar posições semelhantes. Se isso acontecer, o governo Bolsonaro e a bancada ruralista que pressiona pela adoção de medidas regressivas contra a conservação ambiental serão os principais responsáveis.

Finalmente, fico curioso sobre o silêncio dos donos e dirigentes das grandes cadeias de supermercados que atuam no Brasil e que, até agora, estão completamente calados em relação à aprovação de tantos agrotóxicos banidos em outras partes do mundo. Precisamos ter uma rede de supermercados sueca para soar um alarme que deveria ter sido soado primeiro no Brasil.  Haja descompromisso com a nossa saúde.