Mandetta usa termos duros para definir decisão do governo Bolsonaro de mudar divulgação dos dados da COVID-19

mandettaPara o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a decisão de mudar a divulgação dos dados da COVID-19 seria resultado de uma mentalidade militar que prioriza promoções.  Imagem: Andressa Anholete/Getty Images

Em entrevista que deverá ter amplas repercussões políticas no Brasil e no mundo, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, imputou à ala militar do governo Bolsonaro, as decisões que resultaram nas mudanças de estratégia do Ministério da ?Saúde para a divulgação de dados da pandemia da COVID-19.

Em termos particularmente duros, Mandetta afirmou que pessoas ligadas à carreira militar, e não à Saúde, priorizam outro tipo de abordagem, “que chegue às suas promoções por atos de bravura ou de lealdade extrema, mesmo que burra e genocida“. 

É importante notar que até agora o uso da palavra “genocida” (ou ainda de “genocídio”) estava restrita a menções indiretas para se referir à gestão errática da pandemia da COVID-19, sem que ninguém do porte de um ex-ministro da Saúde do próprio governo Bolsonaro tivesse tido a disposição de proferir isso em público.

Ao fazer isso, Luiz Henrique Mandetta deu uma imensa contribuição para aprofundar a crise política no Brasil, na medida em que ele colocou em xeque a capacidade técnica dos membros das forças armadas que hoje ocupam cargos estratégicos dentro do Ministério da Saúde, a começar pelo general Eduardo Pazuello, uma espécie de ministro interino permanente da Saúde.

Como Mandetta fez uma série de afirmações particularmente duras contra a estratégia de divulgação dos dados da COVID-19 pelo governo Bolsonaro, é bem provável que ele o fez de caso pensado, já que não é conhecido por ter um temperamento explosivo, ao menos em público.

Assim, se as manifestações programadas pela oposição para este domingo precisavam de um ingridiente a mais, Mandetta acabou de fornecer um bem agudo.

Com ministro da Saúde “Bolsonarista raiz”, Jair Bolsonaro abre as portas para implantar a via equatoriana no Brasil

bolsonaro teichjO presidente Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich

A confirmação da anunciada queda de Luiz Henrique Mandetta e o anúncio de um “Bolsonarista raiz”, o médico oncologista e empresário da área da saúde, Nelson Teich, para dar continuidade aos esforços de controle e combate à pandemia da COVID-19.  Um rápido passeio pela internet já mostra bem o perfil empresarial de Teich, o que explica sua proximidade com o agora ex-Posto Ipiringa, o ministro da Fazenda, Paulo Guedes que o levou para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro.

As posições públicas de Nelson Teich em relação ao ponto nevrálgico do desentendimento entre Jair Bolsonaro e Luiz Henrique Mandetta é, no mínimo, dúbia, pois, apesar de defender o isolamento social como ferramenta de controle da difusão do coronavírus, em um artigo na rede social Linkedin, o novo ministro da Saúde defendeu isolar apenas as pessoas infectadas e seus contatos mais próximos. Como o nível de testagem do Brasil em relação à infecção pelo coronavírus é um dos piores do mundo, não será surpresa se Teich rapidamente evoluir (ou involuir) para a proposta favorita dentro do governo Bolsonaro que é a do isolamento vertical, concentrando-se nos grupos de idades mais avançada.

Mas esqueçamos de Nelson Teich por um segundo para nos concentrar nas declarações de vários membros do governo Bolsonaro no sentido de que não apenas é aceitável que haja mortos no Brasil por causa da infecção pelo coronavírus, mas que também que isso seria até desejável, como declarou o presidente do Banco Central, o Sr. Roberto Campos Neto, que declarou para um grupo de investidores (ou melhor, especuladores financeiros) que “quanto maior for o número de novos casos e mortes por coronavírus melhor para a economia”.

Entretanto, não pode ser esquecido que o presidente Jair Bolsonaro também já relativizou o impacto das mortes de cidadãos brasileiros em nome de um suposto funcionamento da economia, dizendo que “Alguns vão morrer? Vão morrer, lamento, lamento, mas essa é a realidade…” (ouça  áudio abaixo).

Mas voltando a Nelson Teich, eu não tenho a menor dúvida de que a sua presença à frente do Ministério da Saúde parte do entendimento de Jair Bolsonaro e seus ministros de que a atividade econômica (seja qual for ela) está acima das necessidades de proteção da saúde dos brasileiros.  Com isso, o que me parece estar sendo preparado é a abertura geral das portas, o que inevitavelmente nos levará a um cenário a la Equador, país que hoje está com dificuldade até para recolher seus mortos, com cadáveres sendo incenerados até em vias públicas.

Por isso, que ninguém se engane, o cenário “a la Equador” só será evitado no Brasil se houver a devida reação social, pois, do contrário, é isto que teremos nas próximas semanas.

Finalmente, algumas considerações sobre o agora ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.  Em minha opinião, Mandetta está deixando o ministério da Saúde de mansinho e posando de pessoa responsável, mas ele sabe bem a bomba relógio que deixou para Nelson Teich.  O Brasil não só está entrando em um período de aceleração dos casos de necessidade de internação porque muitas pessoas infectadas vão agora começar a entrar na fase mais crítica da COVID-19, mas como também nos próximos dias serão conhecidos os resultados de milhares de testes que continuam esperando seus laudos.

Aí o Brasil se verá de um cenário muito mais ameaçador e sombrio do que no dia de hoje.  Mas quando isto acontecer, o principal responsabilizado por oferecer respostas ao drama social que se descortinará não será nem Mandetta ou Nelson Teich, mas Jair Bolsonaro. É que ao insistir no fim do isolamento social para conter a difusão do coronavírus, Jair Bolsonaro se tornou o avalista da via equatoriana que, no Brasil, gerar não os 700 mortos que o próprio presidente da república citou para desqualificar as posições adotadas pelo governo paulista, mas um número muito maior de mortes. Quando isto acontecer, a crise política que já vivemos no Brasil subirá muitos degraus. A ver!

Com a demissão de Mandetta vem por aí a subnotificação da subnotificação

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A mais do que anunciada demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), poderá se concretizar nas próximas horas.  Mandetta sairá do ministério com um dos menores índices de testagem para a infecção do coronavírus no mundo, e, com isso, deixará (caso sua demissão seja confirmada) o Brasil sem uma política clara de enfrentamento da difusão exponencial da COVID-19. Em que pese as supostas refregas com o presidente Jair Bolsonaro, esse será o real legado de Mandetta.

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Número de testes para detecção do coronavírus no Brasil é irrisório e dificulta a coordenação ao controle e combate da pandemia

Mas como no Brasil as coisas sempre podem piorar, há que se ver quem será indicado para preencher o cargo hoje ocupado por Mandetta. É que apesar de fraco e compromissado com os setores privatistas da saúde brasileira, Mandetta acabou se sobressaindo no mar de incompetências que caracteriza o ministério formado por Jair Bolsonaro.  Em outras palavras, o ministro da Saúde acabou se tornando um rei porque tem pelo menos um olho nesse pandemônio em que o sistema político brasileiro se tornou. Outros ministros que antes eram tidos como o filé mignon do ministério de Bolsonaro simplesmente saíram de cena para preservar a própria pele, sendo Sérgio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Fazenda) os principais exemplos dessa postura de desaparecimento em momento de crise aguda. Agora, perigamos ver não apenas um negacionista da pandemia assumindo o cargo, mas alguém que se dedicará a dificultar ainda mais aquilo que Mandetta já tornou difícil.

Falo aqui da correta identificação do número de infectados e óbitos associados à infecção pelo coronavírus.  Essa será uma manobra óbvia que um ministro alinhado à visão negacionista de Jair Bolsonaro deverá realizar.  Mas também deverá ter dificuldades maiores ainda para a realização de testes para a verificação da infecção pelo coronavírus. Esses dois passos criarão em um primeiro momento o reforço de que o problema não é tão grave quanto cientistas e médicos tentam demonstrar, e, depois, uma aceleração exponencial da pandemia em todo o território nacional.

O problema é que como em países onde a COVID-19 já ceifou milhares de vida também no Brasil será difícil ocultar os milhares de cadáveres que vão ser geradas por uma política intencional de negligenciar um vírus cuja letalidade está mais do que demonstrada.  Com isso, saíremos do negacionismo para uma profunda crise política, a qual se encontrará com uma forte recessão econômica.

cemitério© FELIPE RAU/ESTADAO Enterro no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo 

Todo esse cenário reforça a necessidade de que se dissemine o mais amplamente possível a falaciosidade dos embates dentro do governo Bolsonaro em relação a essa pandemia. Todo meio de esclarecimento nesse processo deverá ser utilizado, pois ampliar a informação sobre a situação que realmente enfrentamos será fundamental para se alcancem soluções que, por um lado, minimizem o número de mortos e, por outro, preparem uma resposta organizada aos ataques aos direitos sociais e trabalhistas que estão sendo realizados enquanto grassa a confusão gerada propositalmente acerca da necessidade de enfrentar com a devida seriedade a pandemia que nos ameaça.

 

Brasil está em voo cego na pandemia por falta de testagem em massa

Virology Lab Work As Europe On Coronavirus High Alert

A realização de testes em massa associada ao uso de ferramentas de localização geográfica é a forma mais eficiente de conter a difusão da pandemia causada pelo coronavírus. Isso ficou evidente em lugares em que a testagem foi amplamente feita, tais como China, Singapura, Coréia do Sul e Alemanha.

No Brasil, a tática adotada pelo ministério da Saúde comandada por Luiz Henrique Mandetta tem sido a de aplicar o teste para a presença do coronavírus naquelas pessoas que já manifestam os sintomas da COVID-19.  Algo assemelhado a examinar um paciente que dá entrada em unidade hospitalar após receber vários tiros, apenas para saber quantos tiros foram.

A razão para isso é simplesmente econômica, pois o Brasil não tem capacidade instalada para produzir o número suficiente de testes para testar todos a população e, por isso, precisa importar. Diante dessa situação, o governo Bolsonaro resolveu economizar e reduzir propositalmente a população a ser testada aos que já manifestam os sintomas mais evidentes da COVID-19.

Ao fazer isso, o Ministério da Saúde está aumentando o nível de subnotificação dos casos de COVID-19, aumentando o grau de incerteza sobre quantas pessoas já foram infectadas. Com isso, é bem possível que estejamos adentrando o mesmo terreno em que já se encontram países como Itália, Espanha e EUA, onde a quantidade de mortes está superando a capacidade até dos serviços funerários de levar os corpos ao local de enterro ou incineração.

Um dado que explicita o nível de subnotificação que está ocorrendo é o do profissionais de saúde que já foram retirados de suas atividades apenas em dois hospitais paulistanos, o Albert Einstein e o Sírio-Libanês, que não são exatamente unidades destinadas aos pobres.  Um artigo assinado pelo jornalista Pablo Pereira para o “ESTADÃO” mostrou que só nesses dois hospitais, 450 profissionais foram afastados por terem contraído ou estarem sob suspeita de terem sido infectados pelo coronavírus (ver imagem abaixo).

sirio einstein

Outro indicador claro é o número de internações por  Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) do que a média histórica semanal registrada para este período do ano, apontou estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgado na quinta-feira (26). De acordo com a pesquisa da Fiocruz, na semana entre os dias 15 e 21 de março, 2.250 pessoas foram internadas com a síndrome respiratória aguda grave.  O detalhe sinistro é que a média semanal em outros anos era de apenas 250 a 300 internações para os meses de fevereiro e março. Ainda que a  SRAG possa ser causada por outros vírus,  não há como desassociar este aumento explosivo à infecção pelo coronavírus.

O que esses dois fatos juntos indicam é que o Brasil precisa urgentemente disseminar os testes para determinar se as pessoas estão contaminadas ou não com o coronavírus, de modo a não apenas estimar a real extensão das pessoas já infectadas, mas, principalmente, para que as autoridades de saúde em estados e municípios possam orientar as melhores medidas a serem adotadas para se controlar a difusão do coronavírus. 

Sem a testagem em massa, o Brasil continuará seu voo cego e o número de mortos pela COVID-19 alcançará o previsto os piores cenários possíveis.  A hora é de se colocar a vida na frente do controle fiscal que é tão caro ao governo Bolsonaro. Testagem em massa, já!