Situação tensa na Colômbia: Bogotá a caminho da guerra

O governo colombiano está cada vez mais angustiado com os massacres de civis por militares, enquanto os mortos são apresentados como guerrilheiros

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Assumindo o controle do antigo território das FARC: soldados colombianos em sua cerimônia de formatura (Nilo, 17/02/2017)

Por  Frederic Schnatterer para o Neues Deutschland

É apenas um dos crimes mais recentes cometidos pelas forças armadas colombianas – e, no entanto, é um exemplo do esforço de guerra do governo de direita em Bogotá. Em 28 de março, 11 pessoas foram mortas em uma operação militar no município de Puerto Leguízamo, no sul do Departamento de Putumayo. Até hoje, o governo legitima a operação alegando que as vítimas eram “criminosos” e “dissidentes” dos ex-guerrilheiros de esquerda das FARC.

Grupos de direitos humanos e moradores locais, por outro lado, falam de um massacre da população civil. Há indícios de que uma mulher grávida, um menino de 16 anos e um líder da comunidade indígena estavam entre os mortos. De acordo com um comunicado da Rede de Direitos Humanos do Putumayo, as forças invadiram as instalações de um centro comunitário no início da manhã depois de uma festa, se passando por dissidentes das FARC. Em seguida, abriram fogo. Mais tarde, os militares acusaram os presentes, que os detiveram por várias horas, de serem membros da guerrilha.

A operação militar no Putumayo é uma reminiscência dos chamados falsos positivos. Oficialmente, 6.402 homens, a maioria jovens, foram sequestrados pelos militares durante o conflito armado, mortos e posteriormente apresentados como guerrilheiros caídos. Grupos de direitos humanos assumem significativamente mais vítimas. Eles também duvidam que a prática sistemática tenha terminado com a assinatura do tratado de paz entre o então governo colombiano e os guerrilheiros das FARC em Havana em 2016.

A ONU também sabe que o conflito armado não acabou, mas está se intensificando. Carlos Ruiz Massieu, chefe da missão da ONU na Colômbia, disse ao Conselho de Segurança das Nações Unidas na terça-feira que seu órgão reconheceu o progresso feito na implementação do acordo de paz. No entanto, os “obstáculos e riscos que ainda ameaçam a consolidação da paz no país” não devem ser “minimizados”. As comunidades indígenas e afro-colombianas, em particular, estão sofrendo com a recente onda de violência. Nos departamentos de Arauca e Putumayo, a ameaça de atores armados está aumentando, assim como o recrutamento de menores, segundo Ruiz Massieu.

Ele exigiu uma investigação sobre a operação militar em Putumayo por Bogotá – a Comissão Interamericana de Direitos Humanos fez o mesmo no mesmo dia. Um comunicado afirmou que as investigações devem ser realizadas “com a devida diligência” e “medidas preventivas concentradas junto a grupos étnicos e comunidades rurais” devem ser tomadas e “os compromissos assumidos no acordo de paz devem ser implementados de maneira prática e eficaz”.

O ministro da Defesa, Diego Molano, é o centro das críticas no cenário político de Bogotá. Na terça-feira, um grupo de deputados da oposição apresentou uma moção de desconfiança ao Parlamento sobre a operação no Departamento de Putumayo. O pedido provavelmente só será discutido após as férias da Páscoa. No entanto, o debate chega em um mau momento para a direita governista: o primeiro turno da eleição presidencial acontecerá no dia 29 de maio, em que a esquerda, na pessoa de Gustavo Petro, já está à frente.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

O caos nos presídios apenas reflete o país que as elites construíram

Não tenho me detido em análises sobre os seguidos massacres que estão ocorrendo em presídios brasileiros e que tem produzido cenas dantescas e caóticas para sobressalto de alguns e regojizo de outros. É que existem analistas da área que são, ao contrário de mim, capazes de dar opiniões sólidas e amparadas num olhar mais abrangente do problema.

Mas após assistir por pouco mais de um minuto a cobertura da GloboNews sobre o que está ocorrendo no presídio de Alcaçuz no Rio Grande do Norte, não resisto e vou dar uns pitacos.

A surpresa e o espanto que transparecem na fala dos jornalistas da GloboNews refletem algo maior do que o seu despreparo para cobrir a matéria.  Para mim, essa surpresa reflete o nosso desconhecimento coletivo (e muitas vezes propositais) não apenas sobre as condições de prisões que mais parecem masmorras da Idade Média, mas principalmente do sistema de (in) justiça que criou uma das maiores populacionais prisões do planeta.

Afinal, quem são os presos e quais foram seus crimes? Algumas das matérias que li sobre a situação prisional no Brasil mostram que a maioria dos prisioneiros são réus primários e que sequer foram julgados.  Essa maioria é empurrada para as masmorras para se tornarem massa de manobra de facções criminosas que, curiosamente, também são desconhecidas daqueles que não precisam habitar as regiões mais pobres das nossas metrópoles. 

O curioso é que agora toda essa violência é jogada para as costas dessas mesmas facções como se não houvesse no Brasil um poderoso aparato policial, ou mesmo que não existisse inúmeros casos documentados de alianças entre políticos e lideranças dessas facções criminosas.

Por outro lado, o que a maioria das pessoas se recusa a admitir é que o grau de violência que impera nos presídios não é muito diferente daqueles que as populações das nossas periferias sofrem cotidianamente. Assim, qual é afinal a surpresa com essa situação agora?

Um elemento adicional é que toda essa guerra no interior dos presídios é também um reflexo do caos econômico e político em que o Brasil está imerso neste momento. O fato é que vivemos numa sociedade completamente tensionada política, social e economicamente. Deste modo, como poderia se esperar que a violência externa não servisse como um combustível adicional para que tensionar ainda mais o interior dos presídios? E para piorar esse cenário, temos ainda um governo “de facto” completamente inepto para produzir saídas que não representem um aprofundamento ainda maior do caos.

O mais trágico é que boa parte da população brasileira não está preparada para entender que é a nossa estrutura social que gera esse ciclo interminável de violência onde as vítimas são quase sempre das camadas mais pobres e marginalizadas da nossa sociedade. E que a única solução para mudar essa realidade seria transformar radicalmente a distribuição da riqueza nacional que hoje está nas mãos de pouquíssimas famílias, incluindo a dos proprietários da GloboNews.