O caos nos presídios apenas reflete o país que as elites construíram

Não tenho me detido em análises sobre os seguidos massacres que estão ocorrendo em presídios brasileiros e que tem produzido cenas dantescas e caóticas para sobressalto de alguns e regojizo de outros. É que existem analistas da área que são, ao contrário de mim, capazes de dar opiniões sólidas e amparadas num olhar mais abrangente do problema.

Mas após assistir por pouco mais de um minuto a cobertura da GloboNews sobre o que está ocorrendo no presídio de Alcaçuz no Rio Grande do Norte, não resisto e vou dar uns pitacos.

A surpresa e o espanto que transparecem na fala dos jornalistas da GloboNews refletem algo maior do que o seu despreparo para cobrir a matéria.  Para mim, essa surpresa reflete o nosso desconhecimento coletivo (e muitas vezes propositais) não apenas sobre as condições de prisões que mais parecem masmorras da Idade Média, mas principalmente do sistema de (in) justiça que criou uma das maiores populacionais prisões do planeta.

Afinal, quem são os presos e quais foram seus crimes? Algumas das matérias que li sobre a situação prisional no Brasil mostram que a maioria dos prisioneiros são réus primários e que sequer foram julgados.  Essa maioria é empurrada para as masmorras para se tornarem massa de manobra de facções criminosas que, curiosamente, também são desconhecidas daqueles que não precisam habitar as regiões mais pobres das nossas metrópoles. 

O curioso é que agora toda essa violência é jogada para as costas dessas mesmas facções como se não houvesse no Brasil um poderoso aparato policial, ou mesmo que não existisse inúmeros casos documentados de alianças entre políticos e lideranças dessas facções criminosas.

Por outro lado, o que a maioria das pessoas se recusa a admitir é que o grau de violência que impera nos presídios não é muito diferente daqueles que as populações das nossas periferias sofrem cotidianamente. Assim, qual é afinal a surpresa com essa situação agora?

Um elemento adicional é que toda essa guerra no interior dos presídios é também um reflexo do caos econômico e político em que o Brasil está imerso neste momento. O fato é que vivemos numa sociedade completamente tensionada política, social e economicamente. Deste modo, como poderia se esperar que a violência externa não servisse como um combustível adicional para que tensionar ainda mais o interior dos presídios? E para piorar esse cenário, temos ainda um governo “de facto” completamente inepto para produzir saídas que não representem um aprofundamento ainda maior do caos.

O mais trágico é que boa parte da população brasileira não está preparada para entender que é a nossa estrutura social que gera esse ciclo interminável de violência onde as vítimas são quase sempre das camadas mais pobres e marginalizadas da nossa sociedade. E que a única solução para mudar essa realidade seria transformar radicalmente a distribuição da riqueza nacional que hoje está nas mãos de pouquíssimas famílias, incluindo a dos proprietários da GloboNews.

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