Dilma e o golpe: o pior ainda está por vir

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Não votei em Dilma Rousseff em ambos os pleitos que ela venceu para a presidência da república do Brasil. Considero que suas ações, sob a tutela do ex-presidente Lula e do neoPT, abriram o caminho para que os partidos burgueses atacassem a democracia brasileira e os frágeis direitos que a classe trabalhadora amealhou ao custo de muito suor e sangue.

Agora, que ninguém se engane. O que está em curso no Brasil é um golpe de estado! E a finalidade deste golpe de estado é clara: iniciar um brutal processo de recolonização do Brasil sob as mãos das corporações multinacionais que ameaçam jogar o nosso país de volta ao Século 19. Resta apenas saber se a recolonização proposta pelos setores mais socialmente retrógrados vai incluir alguma forma velada de retorno da escravidão. É que o resto do script já foi declarado publicamente: privatização do Estado, entrega da soberania naiconal, regressão brutal nos direitos dos trabalhadores e uso sistêmico da violência contra quem se insurgir contra este estado de coisas.

Mas os setores que estão perpetrando esse golpe “light” já sabem que haverá resistência, pois a maioria dos brasileiros não vai aceitar que um conjunto de propostas que foi derrotado em 4 eleições presidenciais seja executado por quem não angariar os votos necessários para fazê-lo. Ainda mais que o presidente interino que lidera o golpe, Michel Temer, não tem votos nem para se eleger para síndico de prédio.

Em síntese: bem vindos à luta de classes e ao fim dos governos de conciliação. E que a classe trabalhadora possa falar mais alto!

E, sim, a saída é pela esquerda!

MPF instaura inquérito para apurar nomeação de ex-deputada estadual cassada para Superintendência do Ibama em SP

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Vanessa Damo Orosco (na foto abraçando o presidente interino Michel Temer) tem permitido que pessoas sem vínculo com a autarquia acessem processos, documentos e informações privilegiadas

O Ministério Público Federal instaurou inquérito para apurar possíveis riscos à administração pública e ao meio ambiente em virtude da nomeação de Vanessa Damo Orosco para o cargo de superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Estado de São Paulo. Em abril deste ano, a ex-deputada estadual teve o mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral e foi declarada inelegível até 2020.

O MPF quer saber qual é a experiência da superintendente recém-empossada na área ambiental. Isso porque as agências reguladoras e empresas estatais exigem que seus dirigentes tenham experiência comprovada de, no mínimo, 10 anos na área de atuação da instituição, tendo em vista a necessidade de alto conhecimento técnico. Além disso, o Decreto 6.099/2007 determina que os cargos em comissão do Ibama sejam preenchidos preferencialmente por servidores públicos de órgãos integrantes do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama).

Informações preliminares revelam que a ex-deputada estadual não teria experiência de trabalho nem no Poder Executivo, nem na área ambiental. Soma-se a isso o fato de ela ter afirmado que participará ativamente da campanha eleitoral de seu cônjuge, José Carlos Orosco Júnior, possível candidato à vice-prefeito do município de Mauá, na região metropolitana de São Paulo.

ACESSO DE VISITANTES

 O MPF também foi informado de que pessoas sem qualquer vínculo com o Ibama têm acessado as dependências da Superintendência, por determinação de Vanessa Orosco. Em menos de uma semana de exercício no cargo, ela permitiu que tais visitantes utilizassem equipamentos e salas, conduzissem reuniões e tivessem livre acesso a processos, documentos, rede interna de computadores, servidores de dados e outras informações privilegiadas.

“Tal conduta origina risco para a segurança das informações ambientais mantidas pela Superintendência, para o eventual sigilo dos dados constantes de processos administrativos (autuações e licenciamentos), para a eficiência das operações de fiscalização e, ao fim e ao cabo, para o adequado cumprimento, pelo Poder Público, dos deveres impostos pelo artigo 225 da Constituição Federal”, ressalta o procurador da República Adilson Paulo Prudente do Amaral Filho, responsável pelo inquérito civil. O procedimento questionou a presidência do Ibama/SP sobre as normas que regulamentam o acesso de pessoas aos prédios da autarquia.

FONTE: Assessoria de Comunicação, Procuradoria da República no Estado de S. Paulo

O Brasil e uma descoberta incômoda: a luta de classes está viva e manda lembranças

Quando Karl Marx formulou o conceito de luta de classes e associou a ele a ideia de que ela seria o motor que faz girar a história, quase certamente não pensou no Brasil. É que toda a experiência histórica que levou Marx a estabelecer os canones de sua dialética materialista estavam fortemente ancorados na Europa e na Revolução Industrial que ali se consolidava.

 Mas nos últimos tempos, especialmente após a onda conservadora que foi formada para tirar Dilma Rousseff da presidência da república, vejo pessoas sinceramente surpresas com o tipo de virulência que as pessoas de direita são capazes de mostrar e escrever.  Os alvos costumeiros da ira da direita são os pobres, nordestinos, gays, negros e pessoas de esquerda.  Em função disso temos não apenas lido, mas assistido ao que pensam e fazem segmentos da população brasileira que deixam as pessoas médias completamente embasbacadas.

Temos como resultado desse embasbacamento pedidos para que as pessoas se respeitem nas redes sociais e evitem romper amizades por causa das diferenças ideológicas.  Muitos dizem que é preciso evitar a conflagração e o espírito de “um time contra o outro”. 

Pessoalmente acho que quaisquer pedidos para que as pessoas se comportem civilizadamente é inócuo. É que a sociedade brasileira contém elementos que são completamente incivilizados, e que são fruto de sua construção ancorada na escravidão negra e na exploração colonial de nossas riquezas naturais.  Assim, enquanto não houver uma superação do legado histórico que carregamos, qualquer chamado à civilização óu é cínico ou é ingênuo (ou talvez uma mistura dos dois).

Além disso, dada a volúpia com que as forças políticas que ocupam o poder em Brasília a partir do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff atacam direitos sociais e as estruturas do Estado brasileiro, qualquer perspectiva que aponte para necessidades de pacificação é inócuo. É que essas forças não hesitarão em usar o aparato repressivo contra quem se insurgir contra o processo de recolonização do Brasil que elas estão colocando em marcha. E está cada vez mais claro para mim (é só ver os graves ataques em curso contra o SUS e as universidades públicas) que a opção dessas forças é pelo confronto com a maioria da população que rejeitos suas políticas nas últimas quatro eleições presidenciais. 

Em outras palavras, estamos num período em que a luta de classes vai se aprofundar no Brasil. E é preciso ter isto claro, pois, do contrário, os planos de desmanche do Brasil serão aplicados sem dó nem piedade. Afinal, se alguém tinha ilusão de que a burguesia nacionalestava minimamente disposta a ver uma melhora mínima nas condições de vida da maioria pobres do Brasil, a realidade tratou de enterrá-la.

Enquanto isso, Karl Marx manda lembranças de lá do cemitério de Highgate no norte de Londres.

A charge do jornal peruano La Republica diz tudo. E os golpistas ainda cham que ninguém sabe o que anda acontecedno no Brasil!

A charge abaixo foi publicada hoje pelo jornal peruano “La Republica” (Aqui!) e dispensa maiores comentários. Mas eu faço um: os golpistas que assumiram o poder via esse golpe parlamentar branco que tirou a presidente Dilma Rousseff de um posto para o qual foi eleita já estão bastante manjados e enganam ninguém. Também, pudera, está tudo muito à vista!

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Caso “Odebrecht versus José Serra” quebra recorde olímpico de desaparecimento de assunto na mídia corporativa

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A revelação de que o tucano José Serra recebeu a bagatela de R$ 23 milhões da empreiteira Odebrecht, ministro das Relações Exteriores do governo interino de Michel Temer (PMDB), que foi noticiado ontem pelo jornal Folha de São Paulo desapareceu com uma velocidade digna de Usain Bolt nos 100 metros rasos. 

A notícia que foi veiculada ontem pelo jornal Folha de São Paulo (Aqui!) é de tal potencial destrutivo que se um petista que tivesse sido apanhado, as manchetes e veiculações das mesmas seriam quase instantâneas ao longo do dia de hoje por todos os veículos da mídia corporativa. 

Aliás, eu desconfio que se fosse um petista o delatado, já teríamos tido um desfilhe de camburões com contingentes fortemente armados da Polícia Federal para ir apanhar o incauto.

Mas não penso que esse sumiço midiático tem a ver só com o fato de que José Serra é um tucano de fina plumagem.  O problema é que o pessoal da Odebrecht também delatou o próprio Michel Temer como beneficiário de recursos vindos do chamado “Petrolão”, o que torna toda a narrativa vigente de que só os petistas são corruptos totalmente inválida. Não que os petistas sejam vestais nesse mundo obscuro dos financiamentos ilegais de campanha, mas apenas não são os únicos.

Nunca é demais lembrar que no plano municipal de Campos dos Goytacazes, as revelações em torno de Michel Temer e José Serra atingem tanto a situação quanto a oposição. É que o candidato a vice-prefeito na chapa governista é o vereador Mauro Silva que está filiado ao PSDB. Ao mesmo tempo, todos os principais candidatos da oposição têm algum tipo de relação (direta ou indireta) com o PMDB no plano estadual.

Em função disso é que a mídia local decidiu literalmente ignorar a situação delicada em que José Serra e Michel Temer se encontram após a delação dos executivos da Odebrecht (que, aliás, já tinham delatado também o ex (des) governador Sérgio Cabral).  Esse silêncio pode não ser lá muito jornalístico, mas é compreensível.  É que estando todo mundo junto e misturado, o melhor mesmo é se fingir de morto para não ter que dar explicação.

 

A estupidez da repressão aos protestos nos Jogos Olímpicos ganha cobertura internacional

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 O “The New York Times” e o “Washington Post, Dois dos principais jornais estadunidenses publicaram matérias sobre a repressão que está ocorrendo contra os protestos feitos por opositores ao presidente interino Michel Temer nas competições dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (Aqui! Aqui!) (ver reproduções parciais  nas imagens abaixo).

Essa repercussão internacional mostra que atos de repressão feitos em frente de uma mídia minimamente disposta a mostrar o que está acontecendo é uma grande estupidez. É que melhoria seria deixar quem se dispor a protestar que o faça livremente. Até porque até onde eu vi essas ações são minoritárias. Agora, a repressão truculente não apenas produz péssima cobertura jornalística, mas como também acaba incitando a que outros se juntem ao protesto, como parece já estar ocorrendo, e de forma cada vez mais criativa, como bem mostra a imagem abaixo.

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A verdade é que as circunstâncias conspiram em prol de protestos cada vez mais fortes e organizados dentro e fora das áreas onde as competições estão sendo realizadas. A persistir a repressão, é bem provável que a cerimônia de encerramento seja ainda pior para Michel Temer, caso ele se arrisca a comparecer.

A abertura dos Jogos Olímpicos do COI e a incumprível tarefa de abafar as vaias que virão para Michel Temer

A cobertura midiática dos Jogos Olímpicos, principalmente pelos veículos da Organização Globo, está indo dentro do esperado “Brasil ame-o ou deixe-o” que era tão caro ao regime militar. Não falo apenas do estilo de cobertura, por exemplo, dos primeiros jogos de futebol onde o esforço para esconder estádios vazios e jogos relativamente ruins. 

Falo mais da ocultação das manifestações públicas que ocorreram na maioria dos municípios fluminenses por onde a cara cerimônia da passagem da tocha olímpica passou. Invariavelmente ocorreram protestos contra o uso de gordos recursos pelas prefeituras para receber a tocha, enquanto escolas e hospitais municipais estão em condição crítica. Em resposta aos protestos o que se deu, também invariavelmente, foi o uso da repressão policial contra os manifestantes, incluindo até crianças, como ocorreu no município de Duque de Caxias (RJ).

Agora leio que a organização da edição Rio-2016 do megaevento do Comitê Olímpico Internacional (COI) está preparando uma inusitada operação “abafa vaia” durante os 10 segundos que está prevista para durar a fala do interino Michel Temer  (Aqui!).

Pois bem, ao julgar pelas faixas que estão em um prédio localizada na Avenida Presidente Vargas no centro do Rio de Janeiro, área onde foi instalada a chamada “pira olímpica”, abafar a vaia para uma fala de 10 segundos será o menor dos problemas que Michel Temer e seus amigos no comitê organizador local dos jogos vão enfrentar antes, durante e depois da cerimônia de abertura. 

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E, sim, curioso é o detalhe de que se não tiver como voltar para São Paulo após o rega-bofe que será dado aos 45 líderes estrangeiros que vão estar na cerimônia de abertura (que fiasco!), Michel Temer ficará hospedado numa base militar que está sendo mantida sob sigilo. Pois é, nada como estar com alta popularidade!

Brasil à venda: como um golpe legal abriu o caminho para a privatização

Mais austeridade e a venda de valorizados bens públicos vão piorar uma já demolidora recessão econômica.

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Instalações da vila olímpica do Rio de Janeiro (Ricardo Moraes/ Reuters)

Por Andy Robinson*

“Eu sou o ‘Papa Mike- Policial”, diz o policial montado em sua moto BMW. Ele está pronto para escoltar o novo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em seu período de experiência, no seu trajeto de ida e volta no renovado Porto Maravilha com seu reluzente Museu do Amanhã projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava. indo do meio do centro antigo do Rio de Janeiro até  Aeroporto Santos Dumont que provavelmente será privatizado em breve. “Tenho ordens para impedir as pessoas de serem atropeladas”, ele explica enquanto o trem se afasta, passando por um sinal de alerta que diz: “Cuidado! O VLT não faz barulho”.

Quem poderia questionar a preocupação do prefeito Eduardo Paes com o bem-estar dos pedestres da cidade-sede dos Jogos Olímpicos? No entanto, aqueles que estão dentro do vagão lotado, assim como eles estão todos os dias em ônibus lotados percorrendo trajetos intermináveis vindos da vasta periferia ocupada pela classe trabalhadora da cidade do Rio de Janeiro, devem se perguntar por que as mesmas precauções não foram tomadas para evitar o perigo real: a falência do estado do Rio, que vem suspendendo o pagamento de salários e pensões de milhares de trabalhadores do setor público. Cortes draconianos têm sido feito nos orçamentos de escolas, hospitais e transporte de massa, enquanto 39 bilhões de reais (cerca de US $ 10 bilhões) foram gastos com os Jogos Olímpicos. Dois em três brasileiros entrevistados nesta semana pela Folha de São Paulo disseram que os Jogos Olímpicos têm trazido mais problemas do que vantagens.

Outros escoltados a bordo VLT podem se perguntar por que proteções similares não estão sendo oferecidas para os 3 milhões de trabalhadores que perderam empregos desde 2013. A recessão, a pior da história do Brasil, desfez décadas de progressos na redução da pobreza em um país cuja desigualdade de renda chocou o mundo, quando a desigualdade ainda conseguia chocar. Até o final de 2016, a recessão vai ter dizimado cerca de 9% do PIB do país em dois anos. A economia tende a se contrair ainda mais, com um programa radical de austeridade agora oficialmente consagrado em Brasília, sob o governo interino de direita de Michel Temer, que assumiu o poder em maio, após o que muitos chamam de um golpe de Estado legal.

De muitas maneiras, Temer está partindo de onde a agora suspensa presidente Dilma Rousseff parou, após sua conversão à austeridade em um segundo mandato desastroso. Agora, no entanto, os cortes de gastos estão coincidindo com um programa de privatização radical. “Eles estão aplicando muitas das mesmas políticas que Dilma aplicou, mas mais descaradamente e com um chapéu neoliberal suas cabeças”, diz Luiz Eduardo Melin, assessor econômico, em tempos mais felizes, durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2007-11). “Eles querem impulsionar a economia em uma espiral descendente, mas eles não se importam porque eles não concorrer a uma reeleição”.

“Normalmente, no Rio, a depressão vem depois do Carnaval; mas mesmo antes da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos já estamos de ressaca”, comenta Joel Birman, um psicoterapeuta que trabalha duro no bairro afluente da Gávea onde os aterrorizados membros da classe média do Rio de Janeiro procuram sua ajuda. Para as massas empobrecidas, os mega templos evangélicos executam uma função similar. Aqui, o crescente conservadorismo cristão- um elemento-chave do movimento que derrubou Rousseff- furtivamente constrói sua base entre mais de um quinto da população.

“Eu encontrei a liberdade; agora eu me preocupo só sobre a vida após a morte”, diz Luís, que está sentado na fileira detrás da Igreja Universal do Reino de Deus, no bairro de Botafogo. Luís trabalha para receber um salário de 1.500 reais (US $ 500) por mês como a assistente de cozinheiro em um restaurante próximo e gasta 200 reais por mês em transporte para ir e vir da sua residência, que fica a 1:30 h de viagem no município de Duque de Caxias. A crise do petróleo representou um duro naquele município, dizimando empregos na refinaria e em toda a área industrial, acabando com os ativos da estatal Petrobras.

Uma vez considerada a joia da coroa do Partido dos Trabalhadores, a Petrobras foi dilacerada pelo colapso do preço do petróleo e por uma enorme investigação anticorrupção. A Petrobras pode estar agora na primeira fase de sua privatização. Nas salas de reuniões subterrâneas sob o edifício do Congresso futurista de Oscar Niemeyer em Brasília, um projeto de lei que abriria a exploração do Atlântico reservas do pré-sal da Petrobras para as multinacionais estrangeiras está sendo analisado. Os ativos da empresa na Argentina e no Chile estão à venda.  O enorme banco de desenvolvimento estatal, o BNDES, cuja sede fica ao lado dos arranha-céus da Petrobras no centro do Rio, foi forçado a vender a sua participação em empresas como a Petrobras e no conglomerado de mineração, Vale. Em um monumental encolhimento, o BNDES que já emprestou mais dinheiro do que o Banco Mundial “será deixado sem dinheiro e vai cobrar os empréstimos feitos para empresas brasileiras já em dificuldades devido à recessão”, diz Melin. “Uma vez que estão à beira da falência, elas serão vendidas para alguém a preços excelentes.”

Esse alguém poderá ser encontrado em Wall Street ou em Houston. O governo Temer está “tentando criar as condições” para a privatização da Petrobras e dos bancos públicos, Lula avisou na semana passada. Pedro Parente, o novo presidente da Petrobras negou a acusação, afirmando que “eu não acredito que a sociedade brasileira esteja madura o suficiente” para a venda de um dos mais valiosos ativos estatais na América Latina. Os investidores internacionais, por sua vez, estão se preparando para esta liquidação. “Porque a recessão afetou os lucros das empresas, os ativos podem ser adquiridos a preços que são mais atraentes para os compradores”, aconselhou um novo relatório pelo Conselho do Atlântico em Washington, alegremente intitulado “Petróleo e Gás no Brasil: Uma Nova Fresta de Esperança”.

As vendas, que também incluem os aeroportos e a empresa de correios, vão diminuir cosmeticamente o déficit orçamentário do Brasil, que a 10 % está aumentando a dívida pública. No entanto, como a economista da Universidade de São Paulo, Laura Carvalho alertou, a liquidação privatista vai piorar finanças públicas em longo prazo, porque os dividendos para o estado vão desaparecer. “Este é um truque de ilusionismo fiscal; até o FMI sabe isso”, diz Carvalho.

A ironia é raramente reconhecida pela mídia brasileira, mas o impeachment de Dilma foi, alegadamente,  provocada pelo utilização de “pedaladas fiscais”, uma técnica de contabilidade comum e inócua, para reduzir temporariamente o déficit. O termo refere-se à intrincada manobra usada por jogadores de futebol brasileiros para enganar pelo adversário. No mês passado, uma comissão especial de impeachment no Senado Brasileiro declarou que o uso de pedalada não representa uma ofensa que possa resultar no afastamento definitivo da presidente Dilma. No entanto, há pouca chance de que o Senado irá inverter sua posição inicial pró-impeachment em sua segunda votação em Agosto. “A decisão do comitê não faz diferença em tudo-isso é um golpe suave e parlamentar, e a Pedalada foi apenas um pretexto”, diz Vladimir Safatle, um filósofo da Universidade de São Paulo.

Sob pressão da outrora poderosa federação de indústrias de São Paulo (Fiesp), que financiou o movimento pró- impeachment, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, recuou de suas promessas de aumentar impostos e, em vez disso colocou o fardo do programa de austeridade sobre os novos cortes de despesas e investimentos públicos. Isto ameaça os fundamentos do programa de combate à pobreza adotado pelo Partido dos Trabalhadores. Pior ainda, uma proposta irá condicionar o financiamento de governos estaduais e municipais já sitiados em sua capacidade de reduzir o número de famílias pobres que recebam subsídios para reduzir a pobreza. Pior, uma nova proposta de lei poderá impor limites constitucionais sobre os gastos, impondo a austeridade “ad infinitum”, e também eliminando a alocação orçamentária mínima para a educação e saúde.

Os mercados financeiros estão muito satisfeitos com tudo isso. Os investimentos mais rentáveis do mundo nos últimos seis meses têm sido o índice de ações da BM&F IBOVESPA em São Paulo e do real, que se valorizou cerca de 20 % desde sua baixa em 2015.  Analistas de mercado como o FMI acreditam que a economia brasileira já chegou ao fundo e vai começar a se recuperar em 2017. Os lucros dos bancos- liderados pelo pró-impeachment Itaú, o maior banco da América Latina, aumentaram de forma espetacular já que as taxas de juros estratosféricos do Brasil oferecem oportunidades lucrativas para a especulação financeira no mercado da dívida pública “A queda de Dilma foi selada quando ela tentou usar os bancos estatais para tentar forçar os bancos privados a diminuir suas taxas de juros”, disse um economista do BNDES.  

A esquerda está agora dividida entre aqueles que pensam que Lula-ainda o político mais popular no Brasil, pode arrastar o cadáver do Partido dos Trabalhadores para a vitória eleitoral em 2018, e os que defendem a construção de alternativa. “Lula poderia fazê-lo em silêncio, se eles não colocá-lo na prisão”, diz o economista BNDES, se referindo à investigação sobre a corrupção na Petrobras. Mesmo que o ex-presidente evite o julgamento, Lula precisa de um partido para liderar, e a existência do Partido dos Trabalhadores não pode ser garantida após as próximas eleições municipais de outubro, que incluirão mais de 20 milhões de eleitores nas megalópoles do Rio e de São Paulo, “O único argumento é o de criar medo do que a direita irá fazer; eles não têm nenhum programa alternativo”, diz Safatle.

Para alguns, a melhor esperança para a esquerda pode ser Marcelo Freixo, o jovem candidato socialista, para suceder Eduardo Paes como prefeito do Rio. “Freixo deve ser a prioridade agora”, diz Tania, uma eleitora do PT no Rio que cresceu no exílio em Paris durante anos de ditadura militar do país. “Não há nenhum ponto em desperdiçar tempo com Dilma e Lula.”

* Andy Robison trabalha como repórter para o La Vanguardia de Barcelona, e já escreveu sobre a Espanha para o “The Guardian”, para the New Statesman, e para o The Nation. Agora trabalhando no Brasil, ele é o autor do livro ” Um Reporter na Montanha Magica” que trata do Fórum Econômico de Davos e a desiguladade.

Este artigo foi originalmente publicado pelo “The Nation” (Aqui!)  em inglês e a tradução acima é de minha autoria e responsabilidade.

Quando “modernizar” quer dizer simplesmente “retirar direitos”

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De tempos em tempos, as forças mais retrógradas do Brasil aparecem com uma palavra que é o próprio antônimo ambulante do que elas mesmas significam para o nosso país: Modernizar.

Olhando em qualquer dicionário “modernizar” significa basicamente “tornar(-se) moderno, acompanhando a evolução e as tendências do mundo atual.”.  

E é aí que começa o problema, pois o mundo capitalista está cheio de tendências a partir de elementos particulares de evolução que se dão em cada Estado-Nação. No caso de países como a Noruega, “modernizar” significa, por exemplo, a adoção da política de desmatamento Zero. Já no Brasil, a “modernização”´é justamente liberar o desmatamento em todos os biomas,condições topográficas e importância ecológica. A modernização aqui é embalada por uma sonota onde a motosserra é o principal instrumento.

Mas a palavra “modernizar” está sendo atualmente mais utilizada para justificar mudanças profundas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), as quais possuem aspectos que mereceriam serem modernizadas, como a questão da unicidade e o pagamento obrigatório de taxas sindicais.  

Contudo, não são as partes efetivamente atrasadas que se quer modernizar. O alvo da sanha do patronato, do governo interino de Michel Temer e de incontáveis analistas da mídia corporativa são as garantias e direitos que a CLT concede aos trabalhadores brasileiros.  Pelos discursos que vejo e as matérias que leio, se depender dessa gente, teremos uma regressão tão profunda que as condições de trabalho existentes nos “sweatshops” existentes Bangladesh e em países da América Central serão vistas como o modelo a ser seguido.

Agora modernizar a estrutura de taxação fiscal e cobrar as dívidas bilionárias que os mais ricos possuem com o Tesouro nacional, é óbvio que não há nenhuma disposição sequer para se falar do assunto. Nessa área, o “atraso” é muito mais do que bem vindo.

Como os planos regressivos estão claros e evidentes, a minha expectativa é de que haja uma forte reação da classe trabalhadora, apesar da posição pelega que hoje domina a maioria das centrais sindicais brasileiras.  Aliás, é bem provável que aquilo que marcou a reação da classe trabalhadora francesa ao pacote de “modernização” de François Hollande também ocorra aqui, qual seja, a revolta das bases sindicais que terminaram obrigando a que as direções sindicais a se mobilizarem para evitar seu desaparecimento da cena política. A ver!

Deputada cassada do PMDB vira superintendente do IBAMA em São Paulo

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A ex-deputada Vanessa Damo (PMDB/SP) é mais uma prova viva da materialização do velho adágio que diz que “quem tem padrinho, não morre pagão”. É que tendo tido a cassação de seu mandato de deputada estadual confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e estando inelegível até 2020 por crime eleitoral cometido nas eleições de 2012, Vanessa Damo acaba de ser nomeada superintendente do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA) do estado de São Paulo pelo presidente interino Michel Temer (Aqui!)

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A coisa que mais me impressiona neste caso é a total desconsideração pelas qualidades técnicas que um dirigente de um órgão fundamental como o IBAMA deveria ter para ocupar um cargo de direção. Em vez disso, o que temos é o uso partidário da máquina pública para alocar uma pessoa que perdeu seu mandato por práticas ilegais. Em se tratando de um órgão como o IBAMA, é  mesmo o fim da picada!