A liberdade de imprensa não pode virar salvo-conduto para escolher o palco

A reação de entidades da imprensa e da própria TV Globo ao cancelamento do debate presidencial está sendo apresentada como uma defesa da liberdade de expressão. Mas a invocação desse princípio não encerra a discussão: é preciso olhar para o que estava em jogo — a exibição de uma cadeira vazia para Lula e a exclusão de Renan Santos do debate.

A decisão do TSE impediu que a ausência de Lula fosse transformada em parte do espetáculo televisivo: a emissora não poderia destacar o púlpito vazio nem permitir que os demais candidatos simulassem perguntas dirigidas a ele. Já a decisão do STF determinou a participação de Renan Santos, invocando a liberdade de expressão e o pluralismo político. Pode-se discutir o momento e os fundamentos dessas decisões, mas elas não equivalem a uma proibição de realizar o debate.

A cadeira vazia, afinal, não era um detalhe neutro de cenário. Sua exibição — acompanhada de perguntas dirigidas a um candidato ausente — poderia converter a transmissão em instrumento para marcar sua ausência diante do eleitorado. Impedir esse recurso não significa impedir que a emissora informe que Lula não compareceria, nem que os candidatos presentes critiquem sua decisão. Significa limitar o uso de um formato que poderia transformar o debate em peça de campanha.

Também é preciso colocar a sequência dos acontecimentos em ordem. Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria depois das decisões judiciais; a Globo, então, decidiu cancelar o debate. Portanto, quem retirou sua participação foi Flávio, e quem cancelou o evento foi a emissora. A Globo tinha essa prerrogativa, mas não cabe atribuir exclusivamente ao Judiciário uma decisão que ela própria tomou. A cobertura registrou a desistência de Flávio e, em seguida, o cancelamento anunciado pela emissora.

A presença de Renan Santos alterava o quadro político do debate e, evidentemente, desagradava a Flávio. O senador apresentou publicamente outra justificativa — chamou de censura a decisão do TSE sobre o púlpito vazio —, enquanto reportagens também registraram que ele se preparava para responder a ataques de Renan. O dado incontornável é que Flávio desistiu e o debate deixou de acontecer; a Globo não pode transformar essa sequência em prova automática de que a Justiça suprimiu a liberdade de imprensa. Há ainda uma contradição que merece ser discutida. As organizações Globo reivindicam ampla liberdade para definir quem participa, quais regras serão aplicadas e como o evento será apresentado. Mas a liberdade de imprensa não elimina a responsabilidade pública de veículos que ocupam posição central no debate eleitoral.

Quando decisões editoriais e formatos de cobertura parecem favorecer determinados candidatos, a defesa abstrata da liberdade perde força e passa a soar seletiva — especialmente quando a mesma imprensa denuncia interferência judicial, mas trata suas próprias escolhas como se fossem politicamente neutras.  Isso não autoriza afirmar que toda cobertura pró-Flávio decorreu de uma decisão coordenada ou de uma intenção comprovada. Autoriza, sim, questionar os critérios editoriais, comparar o tratamento dado aos candidatos e cobrar transparência. Liberdade de expressão não é um princípio que se invoca apenas quando protege as preferências de quem controla o microfone; vale também para os candidatos excluídos do palco e para o público que tem direito a um debate plural.

O debate cancelado prejudicou os eleitores, que perderam a oportunidade de comparar propostas e ouvir os candidatos em confronto direto. Mas a responsabilidade não pode ser empurrada integralmente para o STF e o TSE: Flávio Bolsonaro desistiu, e a Rede Globo cancelou. Transformar essa sequência em denúncia simples de censura é uma maneira conveniente de escapar da pergunta central: por que o debate não pôde continuar com quem estava disposto a participar?

Rolex de R$ 305 mil, festas e suspeita de lobby: as revelações do ex-sócio de Flávio Bolsonaro

Reportagem do PlatôBR reúne relatos sobre festas com garotas de programa, um Rolex de R$ 305 mil, despesas pessoais pagas por terceiros e uma possível intermediação junto ao ministro Kassio Nunes Marques

A reportagem publicada pelo PlatôBR em 29 de setembro reúne mensagens, documentos e relatos de Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio Bolsonaro. Segundo o veículo, esse material aponta que o senador teria participado de festas com garotas de programa, recebido presentes e despesas de alto valor pagos por pessoas próximas e atuado para aproximar interesses de um cliente do ex-sócio do ministro Kassio Nunes Marques, do STF. Entre os itens citados estão um Rolex avaliado em R$ 305 mil e equipamentos de academia que teriam custado mais de R$ 90 mil. São alegações que exigem apuração rigorosa, contraditório e respostas dos envolvidos — não conclusões antecipadas sobre responsabilidade criminal.

Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas relatadas pelo UOL e, questionado por jornalistas, evitou comentar o caso. A assessoria de Nunes Marques afirmou que o ministro recebe parlamentares de todos os partidos e que isso não compromete sua imparcialidade; essa resposta, porém, não esclarece por si só as circunstâncias específicas mencionadas na reportagem.

O aspecto que merece atenção para além do conteúdo da denúncia é a dimensão dada a ela pelos grandes veículos. Há uma diferença entre publicar uma matéria e incorporá-la de fato à agenda pública: acompanhar os desdobramentos, cobrar explicações, contextualizar as relações políticas e manter o assunto visível. Uma cobertura concentrada em notas breves, ou que rapidamente desaparece das manchetes, pode reduzir o peso público de revelações relevantes justamente quando o personagem envolvido disputa a Presidência.

Não é correto afirmar que toda a mídia corporativa ignorou o caso: UOL e Folha, por exemplo, publicaram matérias sobre a reportagem, e outros veículos também repercutiram seus elementos. A questão, portanto, não é uma ausência absoluta, mas a intensidade, a continuidade e o destaque concedidos. É aí que a comparação com a cobertura de notícias envolvendo Lula e sua família se torna pertinente: quando denúncias atingem o presidente ou seus parentes, elas frequentemente ocupam o centro do noticiário por dias, com sucessivas entrevistas, análises e cobranças. Se revelações sobre Flávio Bolsonaro recebem tratamento mais discreto ou episódico, a assimetria precisa ser exposta e discutida.

Essa diferença de tratamento não prova, por si só, uma coordenação editorial para favorecer uma candidatura. Mas seus efeitos são políticos, ainda que não haja uma ordem explícita: o que ganha destaque se torna assunto nacional; o que recebe pouca atenção corre o risco de ser tratado como ruído. Em uma eleição presidencial, a seleção e a hierarquização das notícias influenciam o que os eleitores conseguem conhecer e comparar.

O caso também não pode ser reduzido à vida privada do filho primogênito de  Jair  Bolsonaro. O interesse público está nas perguntas sobre presentes de alto valor, despesas pessoais pagas por terceiros e possíveis intermediações em favor de interesses privados junto a um ministro do STF. Se confirmadas, essas circunstâncias levantarão questões éticas, políticas e, dependendo das provas e do enquadramento jurídico, legais. Desta forma, cabe à mídia corporativa esclarecer o que os documentos comprovam, o que permanece como alegação e quais respostas ainda faltam.

A mídia corporativa tem a obrigação de tratar todos os candidatos com os mesmos critérios. Mas, quando reserva manchetes, comentários e cobranças insistentes para Lula e sua família e oferece a Flávio Bolsonaro um noticiário mais contido diante de revelações  claramente graves, deixa de apenas selecionar notícias: pratica dois pesos e duas medidas com consequências eleitorais. Depois, será difícil invocar com credibilidade o direito à liberdade de expressão para se apresentar como vítima de censura, se esse direito tiver sido usado seletivamente para favorecer uma candidatura e poupar seus candidatos de um escrutínio público proporcional. O silêncio também comunica — e, neste caso, pode funcionar como peça de campanha.

Crise? Que Crise? O Porto do Açu e a Operação “Sorria para a Foto”

Tudo indica que a equipe responsável pelo controle de mídia do Porto do Açu recebeu uma orientação bastante clara: iniciar uma ofensiva midiática para tentar conter os danos causados pela revelação de que a empresa assumiu o controle do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMMADS) de São João da Barra — façanha viabilizada por um assento garantido por sua subsidiária, a discretamente conveniente “RPPN Fazenda Caruara”.

Digo isso porque, nos últimos dias, voltamos a assistir àquele velho roteiro: visitas às redações da mídia corporativa local, acompanhadas de fotos sorridentes em que representantes do porto aparecem lado a lado com os proprietários dos veículos de comunicação. Talvez cientes de que a mídia corporativa já não tem o mesmo poder de moldar percepções como antes, observa-se também a mobilização de uma tropa auxiliar bastante útil: os chamados influencers, agora empenhados em “vender o peixe” do Porto do Açu — ainda que, ao que tudo indica, o odor do produto não seja exatamente dos mais agradáveis (vide a imagem abaixo como exemplo).

No que diz respeito ao item destacado na imagem — os supostos “projetos voltados para a comunidade” — vale sugerir uma leitura menos publicitária e mais instrutiva: a dissertação da agora mestre em Políticas Sociais pela UENF, Jesa Mariano. No trabalho, os chamados projetos sociais do empreendimento são analisados com o tipo de rigor analítico que, curiosamente, costuma faltar nas peças promocionais distribuídas pelo próprio porto.

Há, no entanto, um fato que nenhuma estratégia de comunicação consegue disfarçar: a ascensão do Porto do Açu à chefia do CMMADS de São João da Barra constitui um descalabro difícil de qualificar sem recorrer a uma boa dose de ironia. A notícia provocou um misto de incredulidade e indignação entre muitos sanjoanenses, que seguem aguardando — talvez com uma paciência já digna de estudo científico — algum retorno positivo capaz de compensar os elevados custos socioambientais que o empreendimento vem impondo ao município.

As reinações de Cláudio Castro: em uma dia “uma megaoperação”, no outro a “bot farm” entra em ação para legitimar a matança

Cláudio Castro se tornou um símbolo da guerra híbrida: o cantor católico transformado em governador acidental, agora nada em um mar de sangue, enquanto número de seguidores nas redes sociais sobe exponencialmente

A suposta “megaoperação policial” determinada pelo governador Cláudio Castro ganha ares de outro tipo de guerra, a híbrida, ao se ver a mídia corporativa propalanda acriticamente a informação de que o ex-cantor católico amealhou o impressionante número de 1 milhão de novos seguidores enquanto a população empilhava os corpos dos mortos pelas forças policiais que ele enviou para os complexos de favelas da Penha e do Alemão.

A primeira coisa que me ocorreu foi uma reportagem que eu acabei de ver sobre as chamadas “bot farms” (ou grosseiramente traduzidas como “fazendas de cliques”) que na prática são redes organizadas que utilizam grandes quantidades de contas automatizadas (bots) e, por vezes, até mesmo dispositivos físicos como celulares, para manipular a percepção online e simular um comportamento humano e engajamento falsos em larga escala. A Thales relata que, em 2024, o tráfego automatizado de bots representou 51% de todo o tráfego da web , a primeira vez em uma década que ultrapassou a atividade humana online.

Fazenda de Bots controlada por IA.

Quem estuda as bot farms já detectou que a operação delas se baseiam em: a) automação onde são Utilizados softwares programados para executar tarefas repetitivas automaticamente, imitando ações humanas como clicar, seguir, curtir, comentar e visualizar conteúdo; b) uso de infraestrutura física que milhares de dispositivos móveis (como celulares empilhados em racks) para executar as tarefas, tornando mais difícil para os sistemas de detecção identificarem as atividades como não-humanas, e c) na criação de contas falsas que gerenciam inúmeras contas em plataformas de redes sociais, lojas de aplicativos, sites de streaming e e-commerce. Também é sabido que as bot farms contribuem para a degradação do ambiente digital, tornando difícil distinguir entre engajamento real e artificial, o que prejudica a confiança nas informações e plataformas online.

O que nem sempre é dito é que as bot farms são operadas por todas as forças políticas, e estudos de instituições como a Universidade de Oxford e a Freedom House indicam que o uso de bots e “ciber-tropas” é prevalente tanto por governos e partidos de direita quanto de esquerda, dependendo do país e do momento político. Assim, em princípio, esta ferramenta é ideologicamente neutra; o que varia é quem a emprega para atingir seus objetivos. Mas é mais prevalente por aquelas forças que possuem recursos financeiros poderosos e que utilizam as farm bots para controlar a narrativa pública, silenciar a dissidência e solidificar o apoio ao poder estabelecido.

Um caso que tornou o Brasil um país notório pelo uso das bot farms foi a operação massiva pela forças de extrema-direita durante as eleições gerais de 2018, onde foi notório que redes de bots foram usados para realizar disparos em massa de mensagens via WhatsApp para influenciar o debate público e disseminar desinformação. 

Há ainda que se dizer que a mídia corporativa ao propalar certas versões da realidade são grandes alimentadoras das bot farms, na medida em que elas não apenas reproduzem os conteúdos disseminados pela mídia, mas como também orientam a produção de mais conteúdo, em uma espécie de retroalimentação de versões falsas da realidade (ou seja há uma combinação/parceria entre a mídia corporativa e operadores das bot farms para orientar a percepção de realidade entre pessoas reais).

É nesse contexto de cooperação que a mídia corporativa legitima de forma inquestionada e acrítica, a informação de que Cláudio Castro amealhou 1 milhão de novos seguidores poucos dias após a “megaoperação” nos complexos de favelas do Alemão e da Penha. Simples, mas tragicamente óbvio.

What Are Bot Farms & How Do They Work? | Anura

O que também me parece óbvio é que em 2026, a bot farms vão estar funcionando a todo vapor, e que será inútil tentar vencer o combate político nas redes sociais. Se as forças de esquerda desejarem ter alguma chance, elas terão que gastar muita sola de sapato. É que nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, a extrema-direita reinará soberana por causa dos investimentos que já estão sendo feitos para favorecê-las, incluindo a grana que virá de outros países.

Conflito Israel/Palestina e mais uma cobertura enviesada da mídia corporativa

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O agravamento do conflito entre Israel e as forças da resistência palestina que teve como estopim a inesperada invasão e bombardeamento do território israelense por forças combinadas dos grupos Hamas e Jihad Islâmica tem mais um capítulo de uma cobertura enviesada (obviamente em prol de Israel) por parte da mídia corporativa nacional e global.

Ao não oferecer a devida base para a origem e sustentação de um conflito que está centrado na reação palestina à crescente perda de território, inclusive na Cisjordânia ocupada, o que acaba sendo apresentada é uma versão precária que apenas contribui para a demonização dos palestinos, como se do outro lado existissem paladinos da democracia no Oriente Médio.

O fato é que desde 2007 quando o Hamas forçou a retirada das tropas israelenses, a denominada Faixa de Gaza, incluindo a cidade de Gaza, tem sido submetida a um cerco implacável, com a negação de serviços básicos como água e esgoto, mas também hospitais e escolas.  Dentro da Faixa de Gaza, tudo é tratado como alvo legítimo por Israel, sempre com a cobertura generosa dos grandes jornais e demais veículos da mídia corporativa, e que tem como resultante um balanço altamente desproporcional entre o número de mortos e feridos de cada lado (ver imagem abaixo).

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Com esse ataque inesperado e eficiente, a liderança do Hamas e da Jihad Ilâmica certamente sabem que a reação israelense que conta com forças militares formidáveis será implacável, repetindo bombardeamentos de escarumuças anteriores. O problema para Israel e os seus apoiadores confortavelmente sentados em capitais do mundo industrializado é que esse cálculo já deve ter sido feito pelas facções palestinas.

Disso tudo o que se pode prever é que os esforços em andamento para a normalização das relações diplomáticas entre Israel e os estados árabes que o circundam vai ser postergada por tempo indeterminado. Com isso, Hamas e Jihad Islâmica já terão atingido o seu objetivo mais importante, deixando todo o Oriente Médio em compasso de espera.

Quanto à cobertura da mídia corporativa a este novo capítulo sangrento do conflito palestinos e israelenses, o melhor mesmo é não usá-la para firmar julgamentos na maior parte dos casos. É que não estamos sendo informados, mas apenas recebendo propaganda disfarçada de informação.

Patrões da mídia corporativa são antes de tudo ávidos rentistas que amam Jair Bolsonaro e sua política de fome

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Neste domingo dois grandes veículos de mídia (O Globo e Folha de São Paulo) fizeram editoriais cobrando clareza nos planos econômicos do ex-presidente Lula. O primeiro fincando a demanda nos planos de reindustrialização e o segundo veio com uma manchete tirada do estrategista de Bill Clinton,  James Carville Jr., que cunhou o engenhoso mote “É a economia, estúpido”, que a Folha sacanamente substituiu por Lula.

E as perguntas a serem feitas por Jair Bolsonaro? Para esse nem editorial, nem uma matéria que questiona suas políticas econômicas centradas na desindustrialização que Lula promete reverter.  Mas um analista minimamente informado dos investimentos feitos pelas famílias Marinho e Frias vai logo saber porque seus veículos de mídia não perguntam para Bolsonaro. É que eles estão muito felizes com as altas taxas de juros que propiciam uma renda muito maior do que sua atividade formal que é o da comunicação.

Aliás, se estendermos a teia analítica para outros veículos, a Band TV por exemplo, encontraremos representantes do agronegócio que vem se refastelando com as políticas de desmanche ambiental do governo Bolsonaro.

Assim sendo, muito se fala das redes invisíveis de “fake news” do Bolsonarismo, que são reais e que distribuem uma ampla gama de mentiras, mas se olharmos mais perto, veremos que os grandes veículos de mídia também distorcem a realidade a partir de suas notícias para continuarem propriciando a seus donos as rendas milionárias que o rentismo impulsionado por Jair Bolsonaro lhes oferece.

O papel da mídia corporativa no debate eleitoral é ajudar a eleger Jair Bolsonaro

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Tendo lido notícias propaladas pelos maiores veículos da mídia corporativa acerca da ampliação (falsa) do arco de alianças em torno de Jair Bolsonaro só posso concluir, mais uma vez, que seus proprietários são condutores diretos da propaganda em prol de sua reeleição.

Fatos que comprovam isso? A repetição quase ad nauseum do suposto fortalecimento da candidatura de Jair Bolsonaro após as declarações de adesão dos governadores Cláudio Castro (RJ, Romeu Zema (MG) e Rodrigo Garcia (SP), e também do agora senador Sergio Moro e do recém eleito deputado federal Deltan Dallagnol. Ora, essas figuras todas não só apoiaram Jair Bolsonaro no primeiro turno, como também se apoiaram (com exceção de Rodrigo Garcia em São Paulo) nele para se elegerem.  

Então qual é a novidade desses apoios? Zero! Se é zero, por que então tantas manchetes dando luz a uma velha notícia? Nada mais, nada menos, do que um museu de velhas novidades. O problema é que isto sendo usado não apenas naturalizar Jair Bolsonaro como um candidato que não carrega nas costas quase 700 mil mortos e um empobrecimento brutal da maioria da população, mas também para ocultar a ampliação do arco de alianças que o ex-presidente Lula já conseguiu em menos de 48 horas, incluindo o PDT de Ciro Gomes.

Por isso é que não há dúvida de que os grandes veículos da mídia brasileira (incluindo as Organizações Globo) fazem parte do que o teórico da comunicação de massa, o filósofo canadense Marshall McLuhan, denominou como “agenda setting” que, trocando em míudos, é o estabelecimento de pautas para hegemonizar o debate (seja ele econômico, político ou cultural).

Mas por que os veículos da mídia corporativa cumprem esse papel nefasto? Porque seus donos estão nadando de braçadas no regime econômico estabelecido por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, e não querem que haja qualquer perturbação no sistema de acumulação gerado pelo rentismo.

Então, na próxima vez que alguém vier gritar pela liberdade de expressão desses veículos de mídia, pense duas vezes, É que na prática eles querem a liberdade apenas para naturalizar Jair Bolsonaro e seu governo de destruição nacional.

Morte de Olavo de Carvalho deixa Jair Bolsonaro sem seu anti guru em uma hora crucial

A mídia corporativa e as redes sociais anunciam com diferentes tons a morte do “jack-of-all-trades” e auto proclamado filósofo Olavo de Carvalho. Com isso, o presidente Jair Bolsonaro perde seu anti guru e a cola improvável de seu discurso nacionalista que esconde, na prática, uma vertente anti-nacionalista. A repercussão mais direta da morte de Olavo será um aumento na dificuldade já existente para Jair Bolsonaro de manter em torno toda uma malta de indivíduos que professam alergia ao coletivo e ao combate das desigualdades abissais que marcam a realidade brasileira.

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Jair Bolsonaro perdeu o seu anti guru com a morte de Olavo de Carvalho

De minha parte não celebrarei ou lamentarei a morte de Olavo de Carvalho, pois tomado como pessoa ele não me suscita grandes repercussões emocionais. Além disso, como muitos outros, Olavo não era o problema, mas sintoma dele.  É que há que se perguntar como tanta gente se dispôs a seguir as ideias de um indivíduo que quando examinado de perto nunca passou de uma figura histriônica e sem qualquer contribuição até para as ideias de manutenção da ordem capitalista, como tantos outros pensadores o fizeram no passado.  De certa forma, Olavo representou muito bem uma espécie de lumpesinato da intelectualidade de direita, e mesmo assim amealhou “alunos” para seus cursos presenciais ou online.

Mas não é possível esquecer o papel que a mídia corporativa ocupou para consolidar a figura de Olavo de Carvalho, a começar a Folha de São Paulo, como alguém que tinha algo para falar que merecia ser ouvido. Foi esse espaço legitimador que possibilitou a Olavo depois se desprender do jornalismo oficial e adentrar os espaços criados pela internet. Aliás, há que se notar aqui que essa ocupação foi feita de forma muito eficaz, explicando a relevância que ele logrou ocupar na reação ultraconservadora que ocorreu no Brasil para impedir o aprofundamento das concessões mínimas que foram realizadas pelos governos do Partido dos Trabalhadores na forma de políticas sociais pontuais.

Entretanto, há que se lembrar que a morte física de Olavo de Carvalho pode representar muito pouco em termos da desconstrução do seu legado antimodernista, na medida em que seus seguidores deverão aprofundar a crença de que ele estava certo ao apontar para a decadência capitalista como algo distinto do que é. Mas a manutenção (ao menos momentânea) da coesão das tropas olavistas não deverá minimizar os problemas que Jair Bolsonaro enfrentará para manter seus seguidores juntos. É que neste caso, a função de cola que Olavo exercia foi inegável, mesmo que o próprio negasse isso de tempos em tempos.

Finalmente, ainda que possivelmente não se venha a divulgar a causa da morte de Olavo de Carvalho, há que se notar que ela ocorreu poucos dias após a notificação de que ele havia contraído a COVID-19, a quem ele chamou de “historinha de terror para acovardar a população”. Dentre todas as ironias que circundaram a vida de Olavo de Carvalho, essa parece ter sido a chave de ouro.

500 mil mortos é o limite da paciência nacional?

As capas dos principais veículos da mídia corporativa brasileira trazem hoje menções aos 500 mil mortos causados pela pandemia da COVID-19 no Brasil dando referências diretas sobre a parcela de culpa do governo Bolsonaro para que tenhamos chegado a um número tão assombroso (ver imagem abaixo).

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O problema é que apenas capas não vão mudar as políticas do governo Bolsonaro que bloqueiam uma ação mais efetiva do Ministério da Saúde para ampliar o alcance e a velocidade do processo de vacinação, única garantia de que a pandemia será controlada no Brasil.

A mudança de posição dos proprietários da mídia brasileira em relação às capas deste domingo pode ser o prenúncio de que até a paciência deles com um governo anti-ciência e anti-pobres está chegando ao limite. É que os barões da mídia vem ganhando com as políticas ultraneoliberais da dupla Bolsonaro/Paulo Guedes e uma mudança de postura só ocorrerá se o ambiente político for mudado nas ruas pela classe trabalhadora e pela juventude.

O simples fato de que as mobilizações que ocorreram ontem não foram ocultadas como as que tinham acontecido no dia 29 de maio já é positivo, e certamente acrescentará mais pressão sobre os partidos que sustentam o governo Bolsonaro no congresso nacional.

Assim, lamentavelmente dado o risco sanitário que todos correm ao se aglomerarem, o caminho é o das ruas. Afinal, são as ruas cheias que garantem mudanças políticas que precisamos neste momento, e que começam por exigir vacina para todos os brasileiros. Do contrário, em breve iremos ultrapassar o número de mortos pela pandemia nos EUA, que lembro possuem cerca de 110 milhões de habitantes a mais do que o Brasil.

Mídia corporativa oculta sucesso das manifestações e mostra que segue o projeto ultraneoliberal de Bolsonaro e Guedes

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Pelo que pude acompanhar nas redes sociais, o sucesso das manifestações políticas contra o governo Bolsonaro ocorridas no dia de ontem surpreendeu até os seus organizadores. É que, convenhamos, sem um comando unificado e com pedidos de dentro da dita oposição institucional para que as pessoas ficassem em casa,  a presença nas manifestações foi acima daquelas que colocaram pessoas nas ruas para apoiar o presidente Jair Bolsonaro (ver imagem abaixo).

antes depois

Mas se não fosse pelo jornal inglês “The Guardian“, o mundo acharia que tudo foi dentro do normal aqui no Brasil, visto que a imensa maioria dos veículos da mídia corporativa (local, regional e nacional) decidiu ignorar os atos que ocorreram em cerca de 200 cidades brasileiras e no mundo. É como se as cenas de ruas e avenidas lotadas por oposicionistas nunca tivessem ocorrido.

A razão para esta omissão de reportar os fatos é muito simples: os proprietários da mídia corporativa brasileira podem até fingir que são oposição ao governo Bolsonaro, muito em parte por causa de seus supostos arroubos discursivos, mas estão firmemente comprometidos com a agenda ultraneoliberal desenhada por Paulo Guedes e aplicada de forma integral por Jair Bolsonaro.  Na prática, o que os barões da mídia corporativa gostariam de ter um Jair Bolsonaro “de punhos de renda”,  de modo a permitir que Paulo Guedes sua agenda de extermínio do Estado brasileiro na penumbra e sem ser notado. Essa é a verdade inescapável diante da clara omissão de informar aos seus leitores o que ocorreu ontem nas ruas brasileiras e de várias capitais europeias. 

Por isso é que eu digo, com todos os seus defeitos e exageros, a melhor informação que podemos ter não vem mais dos jornalões da mídia corporativa, mas das redes sociais.  É essa capilaridade que, inclusive, deixa a mídia corporativa cada vez menos atraente para quem quer ter informação, explicando também a decadência da maioria dos veículos que vivem cada vez mais a proximidade do fechamento.