Morte de Olavo de Carvalho deixa Jair Bolsonaro sem seu anti guru em uma hora crucial

A mídia corporativa e as redes sociais anunciam com diferentes tons a morte do “jack-of-all-trades” e auto proclamado filósofo Olavo de Carvalho. Com isso, o presidente Jair Bolsonaro perde seu anti guru e a cola improvável de seu discurso nacionalista que esconde, na prática, uma vertente anti-nacionalista. A repercussão mais direta da morte de Olavo será um aumento na dificuldade já existente para Jair Bolsonaro de manter em torno toda uma malta de indivíduos que professam alergia ao coletivo e ao combate das desigualdades abissais que marcam a realidade brasileira.

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Jair Bolsonaro perdeu o seu anti guru com a morte de Olavo de Carvalho

De minha parte não celebrarei ou lamentarei a morte de Olavo de Carvalho, pois tomado como pessoa ele não me suscita grandes repercussões emocionais. Além disso, como muitos outros, Olavo não era o problema, mas sintoma dele.  É que há que se perguntar como tanta gente se dispôs a seguir as ideias de um indivíduo que quando examinado de perto nunca passou de uma figura histriônica e sem qualquer contribuição até para as ideias de manutenção da ordem capitalista, como tantos outros pensadores o fizeram no passado.  De certa forma, Olavo representou muito bem uma espécie de lumpesinato da intelectualidade de direita, e mesmo assim amealhou “alunos” para seus cursos presenciais ou online.

Mas não é possível esquecer o papel que a mídia corporativa ocupou para consolidar a figura de Olavo de Carvalho, a começar a Folha de São Paulo, como alguém que tinha algo para falar que merecia ser ouvido. Foi esse espaço legitimador que possibilitou a Olavo depois se desprender do jornalismo oficial e adentrar os espaços criados pela internet. Aliás, há que se notar aqui que essa ocupação foi feita de forma muito eficaz, explicando a relevância que ele logrou ocupar na reação ultraconservadora que ocorreu no Brasil para impedir o aprofundamento das concessões mínimas que foram realizadas pelos governos do Partido dos Trabalhadores na forma de políticas sociais pontuais.

Entretanto, há que se lembrar que a morte física de Olavo de Carvalho pode representar muito pouco em termos da desconstrução do seu legado antimodernista, na medida em que seus seguidores deverão aprofundar a crença de que ele estava certo ao apontar para a decadência capitalista como algo distinto do que é. Mas a manutenção (ao menos momentânea) da coesão das tropas olavistas não deverá minimizar os problemas que Jair Bolsonaro enfrentará para manter seus seguidores juntos. É que neste caso, a função de cola que Olavo exercia foi inegável, mesmo que o próprio negasse isso de tempos em tempos.

Finalmente, ainda que possivelmente não se venha a divulgar a causa da morte de Olavo de Carvalho, há que se notar que ela ocorreu poucos dias após a notificação de que ele havia contraído a COVID-19, a quem ele chamou de “historinha de terror para acovardar a população”. Dentre todas as ironias que circundaram a vida de Olavo de Carvalho, essa parece ter sido a chave de ouro.

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