O IPCC considera o decrescimento a chave para mitigar as mudanças climáticas

mudança climática

Mudança climática

Por Juan Bordera e Fernando Prieto para o site Contexto y Acción

Em 23 de junho, algo muito incomum aconteceu. A AFP (Agence France Press) vazou parte do conteúdo do sumário para políticos do Grupo II do IPCC ( Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas ) – responsável por analisar os impactos das mudanças climáticas. A notícia correu o mundo, e a manchete mais repetida – tirada do próprio relatório – foi: “A vida na Terra pode se recuperar de grandes mudanças climáticas evoluindo para novas espécies e criando novos ecossistemas. Não a humanidade ” . A anomalia reapareceu em dois meses. Outra violação no outrora hermético IPCC, outro vazamento. 

O CTXT teve acesso ao conteúdo de outra parte do Sexto Relatório do IPCC, a organização na qual cientistas de todo o mundo, de diferentes áreas do conhecimento, colaboram voluntariamente e a título de prestígio, numa das mais promissoras cooperações internacionais esforços que existem. No IPCC buscam formar uma série de relatórios que, ultimamente a cada 5-6 anos, atualizem o conhecimento sobre o desafio – com duas faces que se entrelaçam – o mais importante que temos: adaptar-se ao caos climático que já geramos, e elucidar como caminhar em direção a uma economia e um modelo de energia que pode durar no tempo. Seus esforços são divididos em três grupos para preparar relatórios relacionados entre si: Ciência (Grupo I), Impactos (Grupo II) e Mitigação (Grupo III).

A explicação de por que esses vazamentos estão ocorrendo não admite dúvidas: há muita gente dentro da própria organização muito preocupada com a atual situação de emergência, pela tepidez de algumas das conclusões dos sucessivos relatórios, e também pelo manifesto dificuldade de captar nas políticas as medidas propostas. O IPCC está em funcionamento desde 1990 e, de então até agora, nada aconteceu além de um aumento muito evidente das emissões e dos efeitos colaterais negativos, embora isso seja responsabilidade da inércia econômica, social e política. É por isso que o conteúdo das sínteses para os políticos está a ser filtrado, para evitar que o relatório se transforme em demasia no processo e para chamar a atenção para isso numa década em que vamos arriscar tudo. 

Qual e a situação atual? Resumindo: recordes extraordinários de temperatura não param de acontecer em todos os lugares, como o do Canadá há um mês, onde o recorde anterior foi quebrado por três dias consecutivos para chegar a cinco graus a mais de uma vez, muito perto de 50ºC. Também há inundações além de qualquer lógica,  como as da Alemanha, Bélgica ou China, com centenas de desaparecidos e mortais, e claro, enormes prejuízos econômicos, além de enormes  incêndios em grande parte do planeta . Nos últimos dias, a Grécia e a Turquia têm sido os bilhetes perdedores na loteria climática. Uma loteria em que todos os países têm muitos números e não haverá ganhador.

Feitas as  apresentações , passemos ao relatório. Nesse caso, o vazamento é sobre a primeira minuta do sumário para os políticos do Grupo III, encarregado de analisar como reduzir emissões, mitigar e mitigar impactos. Algumas das diretrizes que podemos extrair da minuta do relatório, cujo conteúdo final será publicado em março de 2022, são:

– “Seria necessário que as emissões de CO2 atingissem o seu máximo antes de 2025 e atingissem o zero líquido entre 2050 e 2075”. Isso implica maior ambição no curto e médio prazo, e ações aceleradas e efetivas de implementação, que esbarram em obstáculos políticos, econômicos e sociais. O que pode ser mais eficiente do ponto de vista econômico pode ser politicamente inviável ou eticamente inaceitável. E isso é fundamental, as mudanças devem levar em conta a desigualdade para serem aceitas (veja o caso dos coletes amarelos).

– “Não devem ser construídas novas centrais a carvão ou a gás, devendo as actuais reduzir a sua vida útil”, que normalmente é superior a 30 anos, para cerca de 10 anos.

– É reconhecido que alcançar emissões líquidas zero requer um certo grau  de captura e sequestro de carbono e remoção de carbono  (CDR-CCS-BECCS). Tecnologias que não se desenvolvem muito longe disso, e que representam mais um pontapé de saída do pensamento de que a evolução tecnológica sempre virá em seu socorro. Contrariando absolutamente um dos princípios básicos da ciência:  o princípio da precaução.  Como se não bastasse, há  pesquisas que levantam questões sobre o potencial do solo em armazenar tanto carbono . Ainda mais em um planeta em aquecimento. 

– “A mudança tecnológica implementada até agora em nível global não é suficiente para atingir os objetivos climáticos ou de desenvolvimento. Desde 2010, o custo das tecnologias renováveis ​​caiu acima das expectativas (especialmente solar -87%, e baterias -85%), mas no total, solar e eólica respondem por 7% do fornecimento de eletricidade. ” Os avanços esperados em outras tecnologias, como captura e sequestro de carbono, energia nuclear e CDR (remoção de dióxido de carbono), têm sido muito menos promissores.

– “O crescimento do consumo de energia e materiais é a principal causa do aumento dos Gases de Efeito Estufa (GEE). A ligeira dissociação do crescimento do uso de energia [e em grande parte motivada pela realocação da produção] não tem sido capaz de compensar o efeito do crescimento econômico e populacional ”. Isso mostra que os desenvolvimentos tecnológicos que permitem melhorias de eficiência e a mudança para fontes de energia de baixa emissão não são suficientes. Portanto, uma transição muito massiva no consumo de materiais ao redor do mundo pode até, temporariamente, disparar as emissões.

– Espera-se ser capaz de fazer uma transição do veículo leve de combustão para o veículo elétrico, enquanto para máquinas pesadas é reconhecido que ainda não há tecnologia apropriada (daí o compromisso questionável com o hidrogênio), e mais pesquisas devem ser feitas . O risco de ficar sem materiais essenciais para a bateria é explicitamente mencionado, mas depende muito da reciclagem de materiais.

A temperatura média na Terra é de cerca de 15 graus Celsius. Aumentar apenas dois graus seria como aumentar quase cinco graus em um corpo humano

–O aquecimento global associado aos vários cenários de emissão publicados varia de menos de 1,5ºC a mais de 5ºC em 2100 em comparação com os níveis pré-industriais. Os cenários de linha de base sem novas políticas climáticas levam a um aquecimento global médio entre 3,3ºC e 5,4ºC. A temperatura média na Terra é de cerca de 15 graus Celsius. Aumentar apenas dois graus seria como aumentar quase cinco graus em um corpo humano. Talvez essa comparação ajude a entender o motivo de tanta preocupação com os famosos dois graus. A estabilidade climática seria impossível e  o risco de vida enorme.  O problema é que a trajetória atual não só vai exceder diretamente esses dois graus, mas vai desencadear ainda mais os temidos  mecanismos de feedback, que se os freios de emergência do sistema não fossem acionados imediatamente, eles nos levariam a uma mudança climática que já está completamente desenfreada. Apesar disso, não é necessário paralisar, há possibilidades de evitar os piores cenários, embora seja necessário atuar de forma coordenada. Já.

– “Não é incompatível lutar contra a pobreza energética e as alterações climáticas. Isso porque os maiores emissores são os mais ricos: os 10% mais ricos emitem dez vezes mais do que os 10% mais pobres. É por isso que aumentar o consumo dos mais pobres aos níveis básicos de subsistência não aumentaria muito as emissões ”.

– Destaca-se também a expansão de algumas atividades econômicas intensivas em emissões, por exemplo “a aviação aumentou 28,5% de 2010 a 2020”. Apesar disso, neste momento, o governo espanhol  está feliz em dar milhões para a expansão dos aeroportos de Barajas e El Prat. Se forem seguidos os relatórios sucessivos que o IPCC vai tornar públicos nos próximos meses, esses projetos devem ser vistos como o mais absoluto absurdo que são, exceto para aqueles que lucram com eles. Evitar essas extensões seria um bom ponto de inflexão positivo, o que poderia significar uma mudança na dinâmica.

–Reconhecimento de que existe um problema não resolvido com os plásticos.

–É implicitamente aceito que os cenários de mitigação pressupõem perdas de PIB.  No fundo, admite-  se o que a própria Agência Europeia do Ambiente disse: a preservação do ambiente não é compatível com o crescimento econômico De fato, o relatório aponta: “Em cenários que contemplam uma redução na demanda de energia, os desafios de mitigação são significativamente reduzidos, com menor dependência de remoção de CO2 (CDR), menor pressão sobre a terra e menores preços. Do carbono. Esses cenários não supõem uma diminuição do bem-estar, mas sim uma prestação de melhores serviços. ” Este é literalmente um cenário de adaptação ao decrescimento.

Em relação às medidas e medidas a serem tomadas, o relatório destaca que não existe um mecanismo de política ou sistema de governança único que possa, por si só, acelerar a transição necessária. Seria necessária uma combinação destes que serão diferentes em cada contexto.

Exemplos de mecanismos seriam os legislativos, que podem incentivar a mitigação ao fornecer sinais claros aos diferentes atores, através do estabelecimento de objetivos; ou a criação de instituições e mecanismos de mercado, como estabelecer um preço sobre o carbono, desde que a justiça social seja levada em consideração. Outros fatores que podem ajudar seriam os movimentos sociais climáticos – o IPCC está reconhecendo o trabalho das greves climáticas – que ajudam a provocar um aumento em outro dos fatores-chave: um alto percentual de pessoas comprometidas. Também enfatiza que as medidas para alcançar as reduções devem ser mudanças no comportamento social: menos transporte, realocação de trabalho, uma dieta mais vegetariana, etc. 

E aqui está uma das chaves, a mudança radical essencial em um sistema econômico cuja operação perversa de acumulação e reprodução do capital na perpetuidade nos trouxe ao ponto crítico atual não é claramente mencionada. Um ponto em que é difícil esconder a evidência de que outro ponto, o sem volta, está, pelo menos, muito próximo. Como já aconteceu com a Amazônia,  que emite mais carbono do que absorve, ou com a  Groenlândia, que quebrou recordes de temperatura e despejou água doce e fria no oceano , aumentando o risco de  desaceleração e colapso da corrente termohalina , o transportador cinto, vital para a estabilidade do nosso sistema climático. E cujo colapso teria consequências incalculáveis.

Se os freios de emergência do sistema não fossem acionados imediatamente, eles nos levariam a uma mudança climática que já está completamente descontrolada.

Aí podemos vislumbrar a pequena / grande falha do corpo, que por definição parece difícil de resolver e que fará com que esses vazamentos continuem a ocorrer: o IPCC trabalha na busca de consensos amplos, o que dificulta a tomada de posições mais ousadas. em conta no relatório final, e não estamos falando de cientistas radicais solitários: além da Agência Europeia do Meio Ambiente, a  Nature, uma das revistas acadêmicas de maior prestígio do mundo já publicou estudos mostrando que a única “solução” tanto para a transição energética quanto para a emergência climática é assumir que continuar crescendo sem causar mais danos é obviamente impossível e, conseqüentemente, uma estabilização e / ou diminuição da energia precisa ser planejada. esfera material. Distribua para viver bem, mas dentro dos limites. 

Recentemente, o barômetro do consumo responsável francês mostrou que a opinião pública é mais aberta do que muitos gostariam que você acreditasse. 52% dos franceses acreditam que o modelo baseado no mito do crescimento infinito deve ser totalmente abandonado . Assim, aumenta a esperança de trabalharmos na linha de aceitar o problema e ao mesmo tempo trabalhar para remediá-lo globalmente da forma mais justa possível, pois nossas chances de continuar crescendo sem travar na tentativa diminuem. 

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* Agradecemos aos membros do coletivo  Scientist Rebellion  por colaborarem em nos enviar o vazamento. Ao cientista do CSIC Antonio Turiel, pela orientação na realização deste artigo. E a alguns cientistas que não querem ser identificados – para evitar riscos ocupacionais – que também ajudaram. Eles sabem quem são.

* Será realizada nesta segunda-feira, dia 9 de agosto, a coletiva de imprensa de apresentação do relatório final do Grupo I.

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Juan Bordera  é roteirista, jornalista e ativista da Extinction Rebellion and València en Transició.

Fernando Prieto  é doutor em Ecologia, pelo Observatório de Sustentabilidade.

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Este texto foi escrito inicialmente em Espanhol e publicado pelo site “Contexto y Acción”  [Aqui!].

Como previsto em 2005, áreas protegidas e terras indígenas viraram a nova fronteira do desmatamento em Rondônia

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No já longínquo ano de 2005, eu e um grupo formado por pesquisadores brasileiros e estadunidenses publicamos o artigo intitulado “Conservation units: a new deforestation frontier in the Amazonian state of Rondônia, Brazil” (ou em bom português “Unidades de Conservação: a nova fronteira do desmatamento no estado amazônico de Rondônia, Brasil”) na prestigiosa revista científica “Environmental Conservation“.   

Nesse artigo, a partir de dados de sensoriamento remoto fizemos uma série de previsões sobre o destino de unidades de conservação e terras indígenas seriam a próxima fronteira do desmatamento em Rondônia, lançando ainda a previsão sombria de que a invasão dessas áreas por grileiros e madeireiros resultaria na sua inviabilização, com pesados custos para o fornecimento de serviços ambientais e graves impactos sobre o meio ambiente regional.

Ao longo dos últimos 16 anos, as tendências apontadas naquele artigo têm sido acentuadas, concluindo-se com a recente diminuição dos territórios da reserva extrativsta de Jaci Paraná e do Parque Estadual de Guajará-Mirim por uma legislação sancionada sem vetos pelo governador bolsonarista de Rondônia, coronel Marcos Rocha (sem partido), e que foi aprovada em ritmo ‘the flash” pela Assembleia Legislativa de Rondônia.

Eis que hoje recebi imagens mostrando as linhas de invasão de outras duas áreas (uma da Terra Indígena Karipuna e outra do que restou do Parque Estadual de Guajará-Mirim (ver abaixo).

Apenas à guisa de clarificação, as linhas brancas dentro dos blocos verdes representam estradas que foram construídas ilegalmente, muitas vezes em um combinação entre grileiros e madeireiros, para facilitar o saque de recursos naturais e, posteriormente, o desmatamento.  E é precisa que se frise que estas invasões ocorrem em áreas públicas, representando assim crimes contra o patrimônio natural do povo brasileiro.

Há que se notar que já existem evidências científicas, a começar pelas mostradas recentemente em um artigo publicado na revista Nature, de que o avanço do desmatamento na franja sul da Amazônia brasileira irá causar a médio prazo uma alteração profunda do regime de precipitação, com custos bilionários para o agronegócio exportador brasileiro. Mas claramente quem está invadindo e quem permite que as invasões ocorram impunemente não estão preocupados com o dia seguinte. O que move esses personagens é a geração de renda (que é muito pouca em relação ao custo associado) em curtíssimo prazo, e a abertura de mais áreas para a especulação de terras.

Assim, que fique claro que o que está se permitindo e até incentivando na Amazônia neste momento são crimes contra o patrimônio público e ambiental dos brasileiros, enquanto os custos acabarão recaindo sobre todos nós, especialmente sobre os segmentos mais pobres da nossa população.  Mas que fique claro que a dinâmica por detrás desses processos de saque, bem como suas consequências, já está bem documentada pela comunidade científica.  Desta forma, que ninguém queira fingir surpresa quando as previsões mais dantescas começarem a se confirmar.,

No “Diálogos Futuro Sustentável 2021”, especialistas apresentam o papel das cortes no combate às mudanças climáticas

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A Embaixada da Alemanha e o iCS – Instituto Clima e Sociedade realizaram, ontem, 10 de agosto, o painel “Diálogos Futuro Sustentável 2021 – Litigância Climática e o Papel das Cortes Constitucionais”. No evento, foram discutidas maneiras pelas quais as cortes e tribunais federais atuam e ainda podem atuar na missão de defesa do meio ambiente e cumprimento de acordos internacionais. O relatório do IPCC lançado na segunda-feira, dia 9, trouxe conclusões que apresentam um desafio enorme para o combate às mudanças climáticas que exigem respostas jurídicas dos países. 

Caio Borges, coordenador do Portfólio de Direito e Clima do iCS, foi o mediador do painel, que contou com a participação de Gabriele Britz, juíza do Tribunal Constitucional Federal da Alemanha; de César Rodríguez Garavito, advogado e professor da Universidade de Nova York; e de André de Carvalho Ramos, professor da faculdade de direito da Universidade de São Paulo. A abertura foi feita por Marcelo Rocha, ativista em educação, negritude e mudanças climáticas no Fridays For Future Brasil e FFF MAPA.

A juíza Gabriele Britz compartilhou a preocupação da corte alemã com as leis atuais, que permitem emissões até 2030 e fazem com que, após esse ano, as emissões precisem ser reduzidas drasticamente, podendo limitar as liberdades da população. É possível que, no futuro, a tecnologia permita a diminuição dos gases na atmosfera, porém, não se pode contar com isso. “O caminho da redução de CO2 precisa ser trilhado em tempo hábil para que os desenvolvimentos e os processos de implementação possam acontecer em tempo hábil. Precisamos ter pressão de desenvolvimento, mas também alguma segurança de planejamento”. 

César Rodrigues Garavito chamou a atenção para o entendimento de que a proteção do meio ambiente não impossibilita o crescimento econômico e destacou a atuação das cortes no combate às mudanças climáticas. “É necessário ter a clareza de que a litigância climática não se torna um impedimento ao progresso dos países, a litigância climática trata-se de uma discussão, de uma ação para estimular o comprometimento. Quando nós consideramos o Acordo de Paris e a comunidade internacional, precisamos ter em mente como os governos e os países vão realmente manter os comprometimentos estabelecidos. Portanto, as cortes podem agir como conectores, para que elas estimulem a ação jurídica e legal”. 

O panorama do combate às mudanças climáticas no Brasil foi analisado pelo professor André de Carvalho Ramos. Segundo ele, desde que o atual presidente da República, Jair Bolsonaro, assumiu seu mandato, a área ambiental perdeu muito investimento. “Há vários exemplos dessa contração da atuação governamental federal na área ambiental. Assim, o futuro da litigância em tema de direito ambiental deve também ter que se debruçar sobre o desejo da maioria do congresso brasileiro de por limite aos gastos sociais e também ambientais. Deverá, o Supremo Tribunal Federal, decidir se a ausência de recursos é justificativa para não proteger o meio ambiente, ao risco de um estresse constitucional, causado pela constitucionalização do limite de gastos estatais de um lado, mas com a permanente existência de direitos que exigem obrigações positivas por parte dos estados”. 

Destaques

– O novo relatório do IPCC, lançado na segunda-feira, dia 9, traz informações muito relevantes e drásticas do cenário atual de mudanças de clima e provavelmente terá impacto no cenário mundial de litigância climática.

– Ao considerar o Acordo de Paris e a comunidade internacional, é preciso ter em mente como os governos vão realmente manter os compromissos estabelecidos. 

– As cortes podem agir como conectores para estimular a ambição climática através da ação jurídica e legal. 

– O Supremo Tribunal Federal tem sido chamado a atuar de forma ativa, em sua atribuição contra majoritária, para impedir os recentes retrocessos na concretização de políticas públicas de proteção ao meio ambiente e para garantir a integridade do sistema normativo ambiental brasileiro.

– Um grande desafio brasileiro é a existência da constitucionalização de limite a gastos estatais desde 2016, a partir da edição da emenda constitucional 95, chamada de emenda do teto, pela qual congelou-se por 20 anos o crescimento das despesas públicas, aceitando-se somente a correção pela inflação.

– Vivemos hoje um cenário de contração de recursos vindos do governo federal para a área ambiental. Frente à urgência do tema, cabe à área de litigância ambiental fazer frente ao limite imposto para gastos sociais e ambientais e, ao Supremo Tribunal Federal, decidir se a ausência de recursos é justificativa para não proteger o meio ambiente.

Palestrantes

Gabriele Britz

Juíza do Tribunal Constitucional Federal (Alemanha)

É formada em Direito pela Universidade Johann Wolfgang Goethe. Desde 2011 é professora de Direito Público e Direito Europeu na Universidade Justus Liebig.

César Rodríguez Garavito

Advogado e professor da Universidade de Nova York

Diretor do Centro de Estudos de Direito, Justiça e Sociedade (Dejusticia) e professor-fundador do programa de Justiça Global e Direitos Humanos da Universidade de Los Andes. Diretor-fundador da Climate Litigation Accelerator e editor-chefe da Open Global Rights. Foi professor visitante da Universidade de Stanford, da Universidade de Brown, da Fundação Getúlio Vargas (Brasil), da Universidade de Pretoria (África do Sul), do Åbo Center for Human Rights (Finlandia), da Central European University, ITAM (México) e da Universidade Andina de Quito. Além disso, é diretor-fundador do Human Rigths Lab e membro do recém-criado Science Panel for the Amazon.

André de Carvalho Ramos

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

É professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e professor-titular de Mestrado e Doutorado da Faculdade Autônoma de Direito. Foi Visiting Scholar no Lauterpacht Centre for International Law (Universidade de Cambridge). É Coordenador do Grupo de Trabalho sobre Migrações e Refúgio da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (2020-2022). Foi Secretário de Direitos Humanos e Defesa Coletiva da Procuradoria-Geral da República (2017-2019).

 Marcelo Rocha

Ativista em educação, negritude e mudanças climáticas. Ativista no Fridays For Future Brasil e FFF MAPA (Most Affected Peoples and Areas). Foi uma das vozes brasileiras na COP 25. Atua principalmente nas periferias de São Paulo, onde idealizou o Festival Favela em Casa e o Fundo Emergencial de Apoio a Artistas e Coletivos de Favela. No campo da ciência, atua como pesquisador em Racismo climático e TEDx Speaker “Favelas e Mudanças Climaticas”. 

Mediação

Caio Borges, coordenador do Portfólio de Direito e Clima

Instituto Clima e Sociedade

Bacharel em Direito pela UFPB, Mestre em Direito e Desenvolvimento pela FGV-SP e Doutorando em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP. Foi coordenador dos programas de Empresas e Direitos Humanos e Desenvolvimento e Direitos Socioambientais (2014-2019) da Conectas Direitos Humanos. Possui mais de 10 anos de experiência em financiamento sustentável, empresas e direitos humanos, litigância estratégica em direitos humanos e em mudanças climáticas. É non-resident fellow do Center for BRICS Studies da Universidade de Fudan (China) e do Centro para Estudos sobre África, América Latina e Caribe da O.P. Jindal Global University (Índia).

Novo relatório do IPCC é “alarmante” e mostra pequena janela de oportunidade para limitar o aquecimento a 1,5°C até 2100

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O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou hoje um novo relatório sobre as ciências físicas que explicam as mudanças climáticas passadas, presentes e futuras.

O relatório apresenta as projeções mais recentes para o aumento da temperatura, avanços na atribuição de eventos climáticos extremos às mudanças climáticas, riscos maiores de alcançarmos pontos de inflexão em que impactos significativos se tornam irreversíveis e muito mais. Duas descobertas são especialmente relevantes:

• O mundo pode atingir 1,5°C de aquecimento nas próximas duas décadas.
• Ainda resta uma pequena janela de oportunidade para limitar o aquecimento a 1,5°C até 2100, mas será necessária agir de maneira decisiva e muito rapidamente para conter as emissões nesta década, bem como zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050.

Leia o posicionamento de Helen Mountford, vice presidente de Clima e Economia do World Resources Intitute (WRI):

“Se este relatório do IPCC não o assustar ao ponto de agir, deveria. O relatório elabora um quadro muito sério do mundo implacável e inimaginável que nos espera se nosso vício em queimar combustíveis fósseis e destruir florestas continuar. Uma das conclusões mais impressionantes é que podemos atingir 1,5°C de aquecimento uma década antes do que o IPCC havia previsto anteriormente”.

“As manchetes recentes sobre enchentes mortais, incêndios florestais e secas que acontecem ao redor do mundo parecem cenas de um romance distópico de ficção científica, mas são manifestações do aquecimento global que nossa poluição climática já induziu no sistema. Os impactos perigosos e custosos que estamos experimentando agora parecerão moderados em comparação com o que enfrentaremos se não limitarmos o aquecimento a 1,5°C até o final deste século. Isso reforça a urgente necessidade de as nações ricas fornecerem muito mais recursos financeiros aos países em desenvolvimento que são os mais vulneráveis ​​aos impactos climáticos e os menos responsáveis ​​pelas emissões. Este financiamento é essencial para que possam proteger pessoas, fontes de alimentos e recursos hídricos das consequências inevitáveis ​​de um clima em transformação”.

“Embora as descobertas do IPCC sejam alarmantes, elas não podem se traduzir em desesperança ou falta de ação. Pelo contrário, a necessidade de cortar rapidamente as emissões de gases de efeito estufa ficará cada vez maior à medida que as temperaturas aumentam e os impactos climáticos pioram mais e mais. Esse relatório deve estimular cada país, empresa, cidade e cidadão a lutar com todas as forças para evitar todo aquecimento possível”.

“A boa notícia é que sabemos o que é necessário para evitar um futuro calamitoso e ao mesmo tempo gerar empregos e um crescimento econômico de baixo carbono. O relatório mostra que temos uma pequena janela de oportunidade para limitar o aquecimento a 1,5°C, mas só o faremos se agirmos de forma decisiva. Fazer isso exigirá mudanças rápidas e radicais na maneira como usamos e produzimos energia, alimentos, administramos o uso da terra e transportamos pessoas e bens”.

“Nossa oportunidade de evitar impactos ainda mais catastróficos tem uma data de validade. O relatório sugere que esta década é nossa última chance de adotar as medidas necessárias para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C. Se falharmos coletivamente em reduzir de forma rápida as emissões de gases de efeito estufa até o fim da década, essa meta ficará fora de alcance”.

“Por muito tempo, diferentes interesses impediram o progresso e lançaram dúvidas sobre a ciência do clima, que é sólida como uma rocha. Esses dias devem ficar no passado”.

“Fique atento aos líderes mundiais que estão no cargo hoje. Nosso destino coletivo será determinado por suas escolhas. Este é um momento em que todos precisam remar na mesma direção e exigir que seus líderes tomem medidas climáticas corajosas, como se nosso futuro dependesse disso – porque realmente depende”.

Leia o posicionamento de Carolina Genin, diretora de Clima do WRI Brasil:

“O relatório do IPCC é explicito, temos 10 anos críticos diante de nós para conter o aumento da temperatura média da Terra. O papel do Brasil é acelerar a transição da sua economia para um modelo bem menos dependente de combustíveis fósseis. Nós podemos fazer isso através de energia limpa e biocombustíveis, e gerando empregos e novos mercados para empresas nacionais como a Petrobrás. Há oportunidades para o país de modernização e revitalização nesta crise global, mas quanto mais demorarmos para nos posicionarmos competitivamente, mais perderemos oportunidades e mercados.”

“Os desmatamentos na Amazônia e em outros biomas brasileiros contribuem para o aquecimento do planeta e não beneficiam o país, seu povo e sua economia formal. A ciência e a história recente do país revelam claramente que podemos produzir mais e melhor sem desmatar, e que os biomas são fundamentais para a agricultura e para garantir a segurança hídrica e energética de nossas cidades.”

IPCC: a hora de agir é agora

Política negacionista de Jair Bolsonaro pode minar esforços climáticos globais e isolar o Brasil ainda mais no cenário econômico e político global

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2021 poderá ser lembrado no futuro como o ano em que a natureza e os cientistas se uniram para dar o alerta: a janela de oportunidade para manter o aquecimento global em níveis minimamente seguros para a humanidade está se fechando. Eventos climáticos extremos simultaneamente nos dois hemisférios do planeta ocorreram justamente nas semanas que antecederam o lançamento do primeiro relatório da nova série de avaliações do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), ocorrido nesta segunda-feira (09/08).

A ciência do clima nunca foi tão precisa e tão clara: a influência humana sobre o clima é um fato estabelecido e indiscutível e a hora de agir é agora. Embora alguns impactos climáticos não sejam mais reversíveis, como no caso do derretimento de geleiras e elevação do nível dos oceanos, o cenário geral ainda não está definido e essa é a grande mensagem deste relatório: as escolhas que fizermos agora determinarão nosso futuro. Limitar o aumento da temperatura em níveis relativamente seguros ainda é cientificamente possível. O que fizermos agora, o que empresas e políticos fizerem agora definirá nosso futuro.

Estamos no início da década mais decisiva da História para a ação climática. Com o novo relatório do IPCC, temos a mais abrangente e certeira avaliação do estado do clima no mundo e do que está por vir, dependendo do curso que escolhermos agora. Nos cenários de menor ação climática, as perspectivas são desastrosas: cada meio grau adicional de aquecimento global causa um aumento estatisticamente significativo nos extremos de temperatura.

O que o mundo está vivendo em 2021 já é afetado por um aumento médio de 1°C na temperatura e as perspectivas de curto prazo não são animadoras: o novo relatório do IPCC mostra que o mundo ultrapassará a meta de 1,5°C já na próxima década, antes do previsto pelo relatório anterior. Isso não significa que a meta de 1,5°C no longo prazo esteja comprometida. Embora os níveis de aquecimento global de 1,5°C e 2°C acima dos níveis pré-industriais sejam excedidos até o final do século 21 em todos os cenários projetados pelo IPCC, o cenário de menor emissões mostra que no longo prazo o limite de 1,5°C ainda é possível – e essa é a boa notícia e também o principal alerta que este relatório traz: não podemos abrir mão dessa meta. Não podemos permitir que interesses pessoais, eleitorais e setoriais se sobreponham aos interesses da humanidade presente e futura.

Todos os cenários analisados pelo IPCC apontam para uma mesma conclusão: é preciso cortar emissões e cortá-las o mais rápido possível. Para isso, é preciso que todos se empenhem para alcançar a neutralidade de carbono antes de 2050: governos nacionais, subnacionais e empresas devem estabelecer planos consistentes, com ações concretas imediatas e metas intermediárias.

Para o Brasil e demais países da bacia amazônica, o conteúdo do relatório do IPCC traz alertas adicionais: ele confirma que já não basta zerar as emissões – é preciso remover o carbono já existente na atmosfera. Como a floresta amazônica é um dos grandes sumidouros naturais de carbono do planeta, sua preservação é mais importante que nunca. Estudos indicam que partes da floresta já estão emitindo mais carbono do que capturando, em função de sua degradação que, se persistir nos níveis atuais, poderá pressionar todo o bioma além de seu ponto de equilíbrio, afetando o clima em todo o planeta, mas mais especialmente na América do Sul, colocando em risco a segurança alimentar, hídrica e energética do Brasil. Infelizmente, esse é o cenário para o qual o presidente Jair Bolsonaro está conduzindo nosso país.

Outro alerta do IPCC que tem relação direta com o Brasil diz respeito ao melhor entendimento dos gases não-carbono que também têm efeito estufa, como o metano. As emissões diretas da agropecuária representaram 28% do total brasileiro em 2019 segundo o 8º relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), realizado pelo Observatório do Clima. Desse total, 61,1% vieram da fermentação entérica. Ou seja, além de ser um fator de pressão sobre a floresta, a pecuária é também emissora de gases para os quais o IPCC pede mais atenção.

Em um ano em que a conta da luz e o preço da comida subiram vertiginosamente por conta de fatores climáticos, o relatório do IPCC adverte: o aquecimento global intensificará ainda mais as mudanças nos ciclos da água, incluindo a variabilidade ano a ano e a severidade dos ciclos úmidos e secos.

“Certamente não precisamos de um novo relatório para nos dizer que estamos em uma emergência climática: ela já afeta milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde já pagamos mais caro pela energia elétrica, por nossa comida e estamos em sério risco hídrico por causa do clima. O que o novo relatório do IPCC sinaliza são as opções que podemos fazer hoje para que o amanhã seja seguro para todos. Em todo o mundo, o desafio é mudar a matriz energética. No Brasil, onde boa parte de nossa energia já é limpa, o desafio é zerar todo o desmatamento, que é o que nos coloca como sexto maior emissor de gases de efeito estufa no mundo. A melhor ciência do planeta está nos mostrando que o Brasil de Bolsonaro escolheu o caminho da catástrofe e é isso que não podemos aceitar: interesses eleitorais e setoriais não podem prevalecer sobre o bem comum da nação.”
Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

Exemplo de como somos afetados pelas mudanças climáticas

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Geada afeta áreas de restauração florestal na região da Serra da Mantiqueira
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Mudas nativas plantadas em novembro e abril foram as mais atingidas

As geadas e temperaturas negativas registradas em julho na região da serra da Mantiqueira (divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais) afetaram diretamente até 80% das áreas em restauração do projeto Raízes do Mogi Guaçu, o equivalente à 47 hectares, em apenas uma das 18 áreas atingidas a estimativa é de que mais de 20.000 mudas já plantadas tenham sido afetadas. As geadas poderão atrasar os trabalhos de restauração em até um ano na região.

De acordo com Ana Balderi, co-fundadora e coordenadora de restauração florestal da Associação Ambientalista Copaíba, o fenômeno foi inédito na região. “Por meio da rede do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica , aplicamos técnicas e compartilhamos experiências com produtores da região sul do país, normalmente mais habituados com geadas. Infelizmente, ainda assim mais de 68.000 mudas foram atingidas ainda no viveiro e ainda não sabemos exatamente a extensão dos danos causados”, explica Balderi.

Das mais de 100 espécies nativas utilizadas para a restauração na região poucas apresentaram resiliência para eventos extremos. O Raízes do Mogi Guaçu é uma iniciativa do WWF-Brasil e da International Paper com apoio da HP, e prevê restaurar até 200 hectares nas áreas de nascentes do rio Mogi-Guaçu.

O que é o WG1 do AR6

O IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – foi criado em 1988 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial com o objetivo de sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas. O IPCC não produz pesquisa original, mas reúne e resume o conhecimento produzido por cientistas de alto nível independentes e ligados a organizações e governos para embasar políticas mundiais globais e nacionais.

Desde sua fundação o IPCC produziu cinco grandes relatórios – o que começa a ser divulgado em 2021 é o sexto, daí a sigla AR6 (de Assessment Report, em inglês). Dada a amplitude e complexidade desses relatórios, eles são produzidos e divulgados em partes. O AR6 é composto por quatro partes: em 2021, é divulgada a parte de ciência física, resultado dos esforços de cientistas de todo o mundo, incluindo Brasil, reunidos no Grupo de Trabalho 1 (WG1, de working group, em inglês).Em 2022, virão as seções sobre impactos, vulnerabilidade e adaptação, mitigação, e uma síntese geral será lançada em 2022).

O Grupo de Trabalho I é formado por especialistas que combinam coisas como observações de concentrações de gases de efeito estufa, medições de temperatura e precipitação, degelo e medidores do nível do mar. Eles executam modelos sofisticados em supercomputadores para obter uma imagem do sistema climático e como e por que ele está mudando. É aqui que obtemos nossa compreensão das mudanças climáticas passadas, presentes e futuras. No caso de projeções, os cientistas apresentam perspectivas para vários cenários de emissões: desde uma redução drástica e rápida das emissões até a continuidade do padrão atual.

Sobre o WWF-Brasil
O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 25 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados numa rede interdependente que busca soluções urgentes para a emergência climática. Saiba mais em wwf.org.br

Novo relatório do IPCC é ultimato para governos e empresas

Cientistas afirmam que para reduzir impacto sobre o clima único nível tolerável de emissão de CO2 é zero

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Que as mudanças climáticas atuais são causadas pelos humanos apenas os negacionistas duvidam. Mas os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) descobriram mais detalhes sobre essa contribuição antrópica: do aquecimento de 1,09oC observado entre 2011 e 2020 em comparação com o período pré-industrial (1850-1900), 1,07 oC – quase tudo – provavelmente deriva de atividades humanas como o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis.

Esta é uma das conclusões do Grupo de Trabalho 1 para o Sexto Relatório de Avaliação (AR6) divulgado nesta segunda-feira (9/8). As afirmações do IPCC têm sempre algum indicador de probabilidade, o que já fez o Painel ser acusado de “conservadorismo” e de facilitar o trabalho dos negacionistas. É exatamente por isso que o relatório de hoje causa apreensão.

Na linguagem do IPCC, o conjunto de eventos climáticos extremos recentes seria extremamente improvável de ocorrer sem influência humana. E ela provavelmente contribuiu para um aumento global da precipitação desde os anos 1950 e mais aceleradamente desde a década de 1980. Há alta confiança sobre a influência humana no aumento da precipitação extrema associada a ciclones tropicais, e é virtualmente certo que a frequência e a intensidade de extremos de calor e a intensidade e duração de ondas de calor aumentaram na maior parte do planeta desde 1950.

No relatório de hoje, o AR6 apresenta uma nova série de cenários de emissões – cinco no total – batizado de Projeto de Intercomparação de Modelos Climáticos Versão 6 (CMIP6). São dois cenários de baixas emissões (SSP1-1.9 e SSP1-2.6), um de médias (SSP2-4.5) e dois de altas (SSP3-7 e SSP5-8.5).

Em todos os cenários, a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris – limitar o aquecimento a 1,5o -, é ultrapassada no começo da próxima década, dez anos antes do previsto. No cenário SSP1-1.9, de emissões mais baixas, o aquecimento voltará a estar abaixo desse patamar somente no fim do século e em resposta a um corte ambicioso de emissões que começasse já.

A temperatura global entre 2081 e 2100 será muito provavelmente 1oC a 1,8oC mais alta do que entre 1850 e 1900 no melhor cenário de emissões e de 3,3oC a 5,7oC mais quente no pior cenário.

Algumas regiões semiáridas e a chamada Região da Monção da América do Sul, que engloba parte do Centro-Oeste brasileiro, da Amazônia, da Bolívia e do Peru, deverão ter os maiores aumentos de temperatura nos dias mais quentes do ano – até duas vezes acima da taxa de aquecimento global.

Outra novidade do AR6 são as estimativas regionalizadas de médio prazo (próximos 30 anos), que podem orientar medidas de adaptação. Todas as regiões do planeta sofrerão mudanças do clima nesse período, e essas mudanças serão maiores com 2oC do que com 1,5oC de aquecimento. Em 2050, se o limite de 2oC for atingido, muitas regiões terão aumento na probabilidade de vários eventos extremos simultâneos ou sequenciais, afetando, por exemplo, regiões produtoras de alimentos.

Longo passado pela frente

As emissões do passado já tornaram irreversíveis algumas consequências do aquecimento global, como o degelo, o aumento no nível do mar e as mudanças nos oceanos.

É virtualmente certo que o nível dos oceanos continuará subindo, já que a expansão térmica é irreversível na escala de centenas a milhares de anos, mas a elevação neste século dependerá do cenário de emissões: de 28 cm a 55 cm no melhor cenário (SSP 1.9) em relação à média 1995-2014; 63 cm a 1,02 m no pior (SSP 8.5). Neste pior cenário, picos de maré alta extrema que ocorriam uma vez a cada século poderão ocorrer uma vez por ano em 80% das localidades com medições de maré do mundo. Desde o início do século 20, o nível do mar subiu 20 cm, mas a taxa de elevação está crescendo: passou de 1,35 mm por ano entre 1901 e 1990 para 3,7 mm por ano entre 2006 e 2018.

Também é virtualmente certo que o oceano aqueceu nos últimos 50 anos e é extremamente provável que a influência humana seja o principal causador desse aquecimento, assim como da acidificação dos mares. Somente entre 2011 e 2020, o aquecimento da temperatura dos oceanos foi de 0,88oC. Neste século, o aquecimento do oceano pode ser duas vezes maior no melhor cenário (SSP1-2.6) e até oito vezes maior no pior (SSP5-8.5), em comparação ao período de 1971 a 2018. As ondas de calor marinhas também estão mais frequentes e a influência humana muito provavelmente contribuiu com 84% a 90% delas desde 2006.

O derretimento de geleiras como as dos Alpes, dos Andes e do Himalaia é a maior causa isolada (41%) do aumento do nível do mar entre 1901 e 2018, enquanto o degelo da Groenlândia e da Antártida respondem por 29%. Na última década a cobertura de gelo marinho no Ártico e nas geleiras atingiu a sua menor extensão em 170 anos no inverno e em mil anos no verão. O derretimento atual das geleiras é o mais acelerado em 2 mil anos.

E a massa das geleiras continuará diminuindo durante décadas mesmo se a temperatura global for estabilizada. Uma previsão de alta confiança é a de que os mantos de gelo da Antártida e da Groenlândia continuarão a perder massa neste século.

A circulação meridional do Oceano Atlântico muito provavelmente se enfraquecerá no século 21 em todos os cenários de emissão. A magnitude deste declínio ainda têm alto grau de incerteza. A confiança de que ela não sofrerá um colapso abrupto é média, o que impactaria nos padrões de tempo e no ciclo da água em grande parte do mundo, alterando os padrões de chuvas na África, Ásia e América do Sul.

Emissões zero ou caos

Segundo o IPCC, para diminuir em qualquer medida o aquecimento global em curso é fundamental que as emissões líquidas de dióxido de carbono (CO2) sejam zeradas. Cada trilhão de toneladas de CO2 emitidas cumulativamente na atmosfera causa um aquecimento global de 0,27oC a 0,63oC, o que é conhecido como resposta climática transitória às emissões. Além disso, a concentração de outros gases de efeito estufa, como o metano (CH4), precisam ser substancialmente reduzidas.

As concentrações dos três principais gases de efeito estufa – CO2, metano e óxido nitroso (N2O ) – são as maiores em 800 mil anos. Somente em relação ao CO2, as concentrações atuais não se repetem há pelo menos 2 milhões de anos.

Desde 1850, a humanidade já emitiu 2,390 trilhões de toneladas de CO2. Para que a chance de estabilizar a temperatura em 1,5oC seja a maior possível, a humanidade não poderá emitir mais do que 300 bilhões de toneladas de CO2, o equivalente a seis anos de emissões mundiais atuais de gases de efeito estufa.

O relatório do IPCC está disponível aqui .

Crise climática: cientistas detectam sinais de colapso da Corrente do Golfo

Uma paralisação teria impactos globais devastadores e não deve ser permitida, dizem os pesquisadores

amocO derretimento da água doce do manto de gelo da Groenlândia está desacelerando o AMOC mais cedo do que os modelos climáticos sugeriam. Fotografia: Ulrik Pedersen / NurPhoto / REX / Shutterstock

Por Damian Carrington Editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Cientistas do clima detectaram sinais de alerta do colapso da Corrente do Golfo, um dos principais pontos de inflexão em potencial do planeta.

A pesquisa constatou “uma perda quase completa de estabilidade no último século” das correntes que os pesquisadores chamam de Circulação Meridional Virada do Atlântico (AMOC). As correntes  estão em seu ponto mais lento em pelo menos 1.600 anos, mas a nova análise mostra que elas podem estar perto de uma paralisação.

Tal evento teria consequências catastróficas em todo o mundo, interrompendo severamente as chuvas das quais bilhões de pessoas dependem para se alimentar na Índia, América do Sul e África Ocidental; aumento das tempestades e redução das temperaturas na Europa; e elevando o nível do mar no leste da América do Norte. Também colocaria em risco ainda mais a floresta amazônica e os mantos de gelo da Antártica.

A complexidade do sistema AMOC e a incerteza sobre os níveis de aquecimento global futuro tornam impossível prever a data de qualquer colapso por enquanto. Pode ser dentro de uma ou duas décadas, ou vários séculos de distância. Mas o impacto colossal que isso teria significa que nunca deve ser permitido que aconteça, disseram os cientistas.

“Os sinais de desestabilização já visíveis é algo que eu não esperava e que acho assustador”, disse Niklas Boers, do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, na Alemanha, que fez a pesquisa. “É algo que você simplesmente não pode [permitir que] aconteça.”

Não se sabe qual nível de CO2 desencadearia um colapso do AMOC, disse ele. “Portanto, a única coisa a fazer é manter as emissões o mais baixas possível. A probabilidade desse evento de impacto extremamente alto acontecer aumenta com cada grama de CO2 que colocamos na atmosfera ”.

Os cientistas estão cada vez mais preocupados com os pontos de inflexão – mudanças grandes, rápidas e irreversíveis no clima. Boers e seus colegas relataram em maio que uma parte significativa da camada de gelo da Groenlândia está à beira da borda , ameaçando um grande aumento no nível do mar global. Outros mostraram recentemente que a floresta amazônica agora está emitindo mais CO2 do que absorve, e que a onda de calor da Sibéria em 2020 levou a liberações preocupantes de metano .

O mundo já pode ter cruzado uma série de pontos de inflexão , de acordo com uma análise de 2019, resultando em “uma ameaça existencial à civilização”. Um importante relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, previsto para segunda-feira, deve definir o agravamento da crise climática.

A pesquisa de Boer, publicada na revista Nature Climate Change, é intitulada “ Sinais de alerta antecipado baseados em observação para um colapso do AMOC ”. Núcleos de gelo e outros dados dos últimos 100.000 anos mostram que o AMOC tem dois estados: um rápido e forte, como visto nos últimos milênios, e um lento e fraco. Os dados mostram que o aumento das temperaturas pode fazer o AMOC alternar abruptamente entre os estados ao longo de uma a cinco décadas.

O AMOC é impulsionado pelo afundamento densa e salgada da água do mar no oceano Ártico, mas o derretimento da água doce da camada de gelo da Groenlândia está retardando o processo antes do que os modelos climáticos sugeriam.

Boers usou a analogia de uma cadeira para explicar como as mudanças na temperatura e salinidade do oceano podem revelar a instabilidade do AMOC. Empurrar uma cadeira altera sua posição, mas não afeta sua estabilidade se as quatro pernas permanecerem no chão. Inclinar a cadeira altera sua posição e estabilidade.

Oito conjuntos de dados medidos independentemente de temperatura e salinidade que remontam a 150 anos permitiram que Boers mostrasse que o aquecimento global está de fato aumentando a instabilidade das correntes, não apenas mudando seu padrão de fluxo.

A análise concluiu: “Este declínio [da AMOC nas últimas décadas] pode estar associado a uma perda quase completa de estabilidade ao longo do século passado, e a AMOC pode estar perto de uma transição crítica para seu modo de circulação fraca.”

Levke Caesar, da Maynooth University na Irlanda, que não esteve envolvido na pesquisa, disse: “O método de estudo não pode nos dar um momento exato de um possível colapso, mas a análise apresenta evidências de que o AMOC já perdeu estabilidade, o que considero como um aviso de que podemos estar mais perto de uma gorjeta da AMOC do que pensamos. ”

David Thornalley, da University College London no Reino Unido, cujo trabalho mostrou que o AMOC está em seu ponto mais fraco em 1.600 anos, disse: “Esses sinais de estabilidade decrescente são preocupantes. Mas ainda não sabemos se ocorrerá um colapso, ou quão perto podemos estar dele.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Facebook ganhou ao menos US $9,5 milhões para promover petróleo e gás em 2020

Pico de anúncios ocorreu após Biden apresentar plano trilionário para renováveis

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O Facebook ganhou US$ 9,6 milhões em 2020 para promover anúncios pró-combustível fóssil nos EUA, afirma um estudo publicado nesta quinta-feira (5/8). Cerca de 25 mil anúncios destinados a garantir um lugar no futuro para o petróleo e o gás foram vistos pelo menos 431 milhões de vezes na plataforma.

A pesquisa realizada pela InfluenceMap fez o rastreamento de quando estes anúncios foram colocados no ar e descobriu um pico significativo logo após Joe Biden anunciar seu plano climático de 2 trilhões de dólares durante a campanha eleitoral. Este impulso foi mantido até as eleições americanas de novembro.

O maior anunciante foi a ExxonMobil (US $5,04 milhões), seguida pela American Petroleum Institute (API; US $2,97 milhões) e OneAlaska (US $330.000), num total de 25 organizações de petróleo e gás ou seus grupos de defesa.

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Principais compradores do setor petrolífero de espaço publicitário no Facebook (valores e milhões de dólares)

Mensagens customizadas

A análise categorizou o conjunto de mensagens altamente sofisticado do setor em quatro temas principais: (1) A indústria do gás petrolífero é parte da solução climática; (2) os benefícios pragmáticos do petróleo e gás; (3) a indústria do petróleo e gás apoia as comunidades locais e a economia; e (4) o setor de petróleo e gás é patrioticamente importante para a independência energética dos EUA.

Dos 25.174 anúncios analisados, 48% incluíram a narrativa de que o setor de combustíveis fósseis era “parte da solução” para a crise climática. Os 12.140 anúncios nesta categoria foram vistos 122 milhões de vezes, sendo que os usuários mais jovens (25-34 anos de idade) tiveram maior probabilidade de estar no público-alvo desta mensagem.

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Tipo de categorias de mensagem, número de anúncios, custo envolvido e visualizações no Facebook

Dentro desta categoria havia anúncios promovendo a noção de gás como uma fonte de energia ‘limpa, verde e de baixa emissão de carbono’, apesar da advertência do IPCC de que o metano tem um efeito estufa até 87 vezes maior que o dióxido de carbono (CO2) durante um período de 20 anos. O maior distribuidor de anúncios com esta mensagem foi o American Petroleum Institute, que tem entre seus membros ExxonMobil, Chevron, BP, Shell, e outras petroleiras.

O estudo indica que foram gastos US $4,4 milhões destacando o petróleo e o gás como parte de um “mix energético pragmático”. Os anúncios nesta categoria foram vistos 174 milhões de vezes e foi direcionado a grupos etários mais velhos e homens.

ONGs climáticas iniciaram uma petição chamando as ‘Big Tech’s para proibir anúncios da indústria de combustíveis fósseis.

Quem desejar ler o relatório completo produzido pelo InfluenceMap sobre a compra de espaço de propaganda no Facebook pelas grandes petroleiras, basta clicar [Aqui!].

Sobre o InfluenceMap

InfluenceMap é um grupo de reflexão baseado em Londres que fornece análises de dados aos investidores, empresas e a mídia sobre questões relacionadas à energia e à mudança climática. Nossas métricas para medir a influência corporativa sobre a política climática estão em uso pelos investidores, incluindo o processo global Climate Action 100+ de engajamento de investidores. Nosso conteúdo tem sido amplamente coberto na mídia global e é utilizado por grupos de campanha.

A torneira está secando

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A imensidão do mar dá a impressão de que a água é recurso ilimitado; afinal, ela cobre 70% do planeta. Mas a ilustração deste texto, baseada num modelo criado por pesquisadores do Serviço Geológico dos EUA, nos dá a real dimensão de sua finitude. A bolha azul maior representa toda água do mundo, seja doce ou salgada, líquida ou congelada, subterrânea ou à flor da terra. Ela tem um diâmetro nove vezes menor que a parte sólida. A outra bolha corresponde a toda água doce que temos. Seu diâmetro é de 272,8 km, 46 vezes menor que o da Terra. O planeta azul, como se vê, não é tão azul assim na prática.

Há ainda uma terceira bolha, que equivale a toda água disponível na superfície terrestre para o consumo, como rios e lagos. Mas ela é tão pequena diante do tamanho da Terra que precisaríamos de uma lupa para enxergá-la: são apenas 56 quilômetros de diâmetro – 226 vezes menor que o do planeta. Parece pouco, não parece? E é, alertam os pesquisadores. Para piorar, 40% das reservas hídricas da Terra podem desaparecer até 2030, segundo a ONG WaterResources. Repetindo: 2030. Daqui a 9 anos. Adivinhem quem está por trás desse embrulho? Acertou quem pensou nas mudanças climáticas.

O Brasil detém 13% de toda a água doce e 20% das reservas subterrâneas (chamadas aquíferos) do mundo. Ainda assim, o país enfrenta a maior crise hídrica dos últimos 90 anos: o fantasma do racionamento de energia volta a nos assombrar, duas décadas depois do anterior. A maior hidrelétrica brasileira, a Itaipu Binacional, que atende cerca de 10% da população, teve em 2021 a menor geração de energia dos últimos 27 anos e já precisou desligar oito de suas 20 turbinas. Na vizinha Argentina, a seca dos rios Paraguai, Paraná e Iguaçu, a maior em 77 anos, levou o governo a decretar emergência hídrica por 180 dias.

A falta de chuvas – que é a mais grave desde 1931 – levou o Operador Nacional do Sistema (ONS) a divulgar uma nota técnica na semana passada alertando para a dificuldade de atender a demanda de energia do país “com o esgotamento de praticamente todos os recursos no mês de novembro”. Quatro dias depois, o governo federal publicou uma chamada pública para contratar usinas térmicas como uma alternativa para a escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas, que ainda respondem por 63% da geração de energia no Brasil.

A crise hídrica também vem provocando impactos na economia brasileira, com reflexos no aumento da inflação e, sobretudo, perda de produção rural e prejuízos na agricultura, que consome mais de 70% da água doce do Brasil – e desperdiça de 60% a 80% desse total por usar métodos de irrigação inadequados. A safra de milho, por exemplo, apesar de ter aumentado em 7% a área cultivada em 2021, deve cair 6% em relação a 2020, informa a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A mesma tendência deve se confirmar em outras culturas, como o feijão, a laranja, o café e também na pecuária.

E o aumento dos preços dos alimentos e da inflação não são os únicos impactos para o brasileiro, que está sentindo no bolso o preço dessa crise. Em junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovou um reajuste de 52% na bandeira tarifária vermelha, para custear o funcionamento de usinas térmicas, mais caras e poluentes. Mesmo assim, especialistas não descartam a possibilidade de um novo aumento em 2022, diante das previsões de chuvas abaixo da média e reservatórios secos. Especialmente em se mantendo os níveis de desperdício na distribuição de água no Brasil, onde 39% do que se produz é perdido em vazamentos e furtos na distribuição, segundo o Instituto Trata Brasil.

Se a geração de eletricidade está comprometida, para muitos brasileiros falta também o básico: água na torneira e saneamento. No Brasil, mais de 16% da população ainda não têm acesso a água tratada e cerca de 46% não contam com os serviços de coleta e tratamento de esgoto – mais de 100 milhões de pessoas. A baixíssima cobertura do saneamento básico, sobretudo em cidades da região Norte, onde apenas 57% da população têm acesso à rede de água e pouco mais de 10% têm o esgoto coletado, se reflete também na incidência de doenças como diarreia e infecções intestinais, que estão entre as principais causas de morte de crianças na região. Uma verdadeira tragédia brasileira. E, segundo a Organização Mundial de Saúde, para cada dólar investido em saneamento básico, deixa-se de gastar quatro com saúde pública.

E isso não é uma exclusividade nossa: em todo o mundo, 1,2 bilhão de pessoas (35% da população) não tem pleno acesso a água tratada e outras 2,1 bilhões não têm água potável em suas casas. O WaterResourcesGroup estima que, anualmente, cerca de 829 mil pessoas morrem de diarreia provocada pelo consumo de água não potável, ausência de saneamento básico e higiene inadequada em todo o mundo, sendo 300 mil delas crianças menores de 5 anos.

Com isso, a responsabilidade do governo brasileiro sobre a gestão de nossos recursos hídricos passa a ter uma relevância ainda maior: afinal, temos condições favoráveis para assumir um papel de liderança no enfrentamento à crise climática global. Só nos falta um líder.

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Este foi originalmente publicado no site “Uma gota no oceano” [Aqui!].

Site investigativo francês mergulha “no reino do agronegócio” brasileiro na Amazônia

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Grande parte do deflorestamento amazônico vem do agronegócio. CARL DE SOUZA / AFP

O site investigativo francês Mediapart publicou na quinta-feira (29), a quinta parte de uma grande reportagem especial na Amazônia brasileira. Depois da “imposição da doutrina paranoica do regime militar brasileiro na Amazônia”, ou “como o mito da Natureza infinita permite a economia da destruição”, “Como a estrada e as obras abrem o caminho para o desmatamento” e “Amazônia: terra, fogo e violência”, dessa vez os jornalistas franceses se debruçaram sobre o “reino do agronegócio”  brasileiro.

 “O onipotente setor do agronegócio está se organizando para se apresentar como imprescindível no Brasil”, afirma a reportagem do site investigativo francês Mediapart. Para a equipe de jornalistas franceses, trata-se “uma batalha de ideias e uma luta política que envolve campanhas publicitárias recorrentes e que tem dramáticas consequências ecológicas e sociais na Amazônia”.

“Ao longo da BR-364 que corta o estado de Rondônia, o agronegócio está espalhando sua força até onde a vista alcança. Milhares de caminhões de transporte de grãos desfilam sem parar diante dos olhos do gado impassível”, relata Mediapart. “A paisagem alterna entre pastagens, campos de cultivo e terras devastadas ou em vias de se tornarem. A entrada de cada pequena cidade é adornada com estátuas de vacas ou seus tratadores, acompanhadas de outdoors em apoio a Jair Bolsonaro, ilustra a reportagem, dando o clima local em Rondônia.

“Desamazonização”

“Com o novo presidente do Congresso [Arthur Lira] eleito no início de 2021, particularmente sensível aos seus temas, os ruralistas consideram o momento ‘extremamente favorável’ para avançar seus muitos projetos”, diz o texto. O pesquisador Ricardo Gilson, da UNIR (Universidade Federal de Rondônia), entrevistado por Mediapart, afirma que “há um processo de ‘desamazonização’, a destruição é considerada um elogio ao progresso”, lamenta.

O site francês contextualiza dizendo que, “além de sua ofensiva política, os ruralistas aumentaram suas campanhas de comunicação. Eles não usam mais o termo ‘negócios’, renomeando-se apenas como ‘agro’, falam em ‘agrocidadãos’ com um discurso nacionalista e recrutando personalidades conhecidas, como o ex-jogador de futebol Pelé. Nessa batalha ideológica, triunfa a cultura do agronegócio, contra a cultura da floresta e de quem vive nela”, afirma Mediapart.

Guerra de dados

Segundo o site francês, para apoiar essa nova doutrina, uma “verdadeira batalha sobre o controle de dados está em andamento”. “Apesar do reconhecimento internacional, os dados dos satélites que monitoram o desmatamento são regularmente questionados pelo atual governo, e os funcionários do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que os administram sofrem pressão do governo Bolsonaro”, publica o site.

Mediapart faz questão de destacar que embora a contribuição do agronegócio para o PIB brasileiro seja inegável, o desenvolvimento prometido na verdade afeta apenas um pequeno número de beneficiários. “Existem mais de 5 milhões de agricultores no Brasil, mas 25 mil são responsáveis ​​por 50% do PIB agrícola”, diz Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa, ao site investigativo.

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Este texto foi originalmente publicado pela RFI [Aqui!].