Aliança entre Temer e ruralistas pode custar meta climática ao Brasil

Estudo publicado em revista internacional indica que descontrole do desmatamento pode levar à emissão de 1,8 bilhão de toneladas em 2030 na Amazônia e no cerrado, estourando promessa de Paris

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O presidente “de facto” Michel Temer assinando a MP 759 que anistiou a grilagem de terras. 

DO OC – A aliança do governo de Michel Temer com os ruralistas no Congresso pode ter salvo o presidente de ser investigado no STF por corrupção, mas deixou um monte de mortos pelo caminho. Um deles pode ser a meta brasileira de redução das emissões de gases que causam o aquecimento global, conforme sugere um estudo publicado nesta segunda-feira (9).

Um grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Brasília mostrou no periódico Nature Climate Change como as barganhas políticas feitas desde 2016 afetam o controle do desmatamento na Amazônia e no cerrado. No pior caso, isso faria as emissões de gases-estufa por desmatamento retornarem aos patamares do século passado. Dessa forma, o Brasil estouraria em 2030 todos os limites de emissões compatíveis com o cumprimento de sua meta no acordo do clima de Paris.

Só por desmatamento o país emitiria, nesse cenário, 1,8 bilhão de toneladas líquidas de gás carbônico em 2030 – um valor 50% maior do que a meta indicativa da NDC, o compromisso brasileiro em Paris, que é de 1,2 bilhão de toneladas naquele mesmo ano.

No cenário mais provável, a conta da aliança com os ruralistas sobraria para outros setores, como a indústria e os transportes. E seria salgada: para o Brasil se manter na meta em 2030, o restante da economia teria de desembolsar US$ 2 trilhões (mais que valor total do PIB em 2017) para adotar tecnologias ainda imaturas ou não testadas e zerar suas emissões, de forma a compensar o carbono emitido a mais no setor florestal.

Para fazer o estudo, o grupo liderado por Roberto Schaeffer, da COPPE-URRJ, e Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, usou modelos de computador que fazem simulações de como o uso da terra evolui no território e de como as relações entre uso da terra e energia se desenvolvem em resposta a contextos diversos. Para isso, eles alimentaram o modelo com as taxas de desmatamento e as condições de governança ambiental em três momentos: antes de 2005, quando não havia controle sobre a devastação das florestas; entre 2005 e 2012, quando medidas foram adotadas e a taxa de desmatamento caiu; e entre 2012 e 2017, quando a tendência de queda se rompeu na esteira do enfraquecimento do Código Florestal e da crise política.

Nos últimos dois anos, o quadro de governança pós-2012 se agravou. Para tentar aprovar o impeachment, depois reformas impopulares, depois para salvar a própria pele, Michel Temer fez uma série de concessões à bancada ruralista, que representa cerca de 40% dos votos na Câmara dos Deputados: a grilagem de terras de até 2.500 hectares foi legalizada, a demarcação de terras indígenas foi congelada, unidades de conservação tiveram propostas de redução de limites e o licenciamento ambiental passou a ser ameaçado por vários projetos de lei.

Os ruralistas não ganharam tudo ainda. “Mas, para o desmatamento, a sinalização negativa que o governo dá tem uma importância enorme”, diz Raoni Rajão, da UFMG, coautor do estudo.

Com base nessas informações, os modelos produziram três cenários. Num deles, a governança ambiental é fortalecida, algo que soa pouco factível hoje. Neste caso, o desmatamento do cerrado alcança 3.794 km2 em 2030, comparado aos mais de 9.484 km2 hoje. O da Amazônia cairia dos atuais 7.000 km2 para 3.920 km2.

No cenário intermediário, considerado pelo grupo o mais provável, o desmatamento no cerrado vai a 14.759 km2, e o da Amazônia, a 17.377 km2 em 2030. No pior cenário, a governança ambiental é totalmente abandonada e o desmatamento anual retorna aos níveis mais altos: 18.517 km2 no cerrado e 27.772 km2 na Amazônia.  

O carbono emitido por perda de florestas e savanas nos três cenários foi comparado com o chamado “orçamento de carbono” do Brasil, ou seja, quanto CO2 o país ainda pode emitir para cumprir sua parte na meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento da Terra abaixo de 2oC em relação à era pré-industrial. Dado o tamanho da economia e da população do Brasil, esse orçamento foi calculado em 24 bilhões de toneladas líquidas de CO2 equivalente entre 2010 e 2050. Como já emitimos 4,6 bilhões de 2010 a 2017, o orçamento remanescente é de 19,4 bilhões de toneladas.

No cenário mais provável, o intermediário, as emissões acumuladas apenas por desmatamento entre 2010 e 2030 chegam a 16,3 bilhões de toneladas. O Brasil só consegue se manter dentro do orçamento de carbono se impuser ao setor industrial e energético as tais tecnologias mais caras a custo de US$ 2 trilhões.

A NDC também vai para o vinagre já no cenário intermediário. “O compromisso assumido no Acordo de Paris é de chegar a 2030 com 1,2 bilhão de toneladas de emissões no conjunto da economia. Mas no cenário tendencial somente as emissões por desmatamento já alcançariam esse valor”, afirma Rajão.

O cenário mais grave é um alerta, mas por ora não é o mais provável, já que o Ministério do Meio Ambiente continua agindo para controlar a devastação. No governo Temer, paradoxalmente, o orçamento do Ibama para a fiscalização ambiental foi incrementado em relação ao do segundo mandato de Dilma Rousseff, com dinheiro doado pela Noruega.

Na semana passada, o órgão anunciou que concluirá neste mês a Operação Panopticum, que consiste no envio de 25,2 mil cartas e e-mails a proprietários de terra de 59 municípios com risco de desmatamento. O objetivo é informar os proprietários de que eles estão sendo monitorados por satélite e serão punidos em caso de desmatamento ilegal.

“O Ibama continua melhorando, mas no caso da Amazônia, isso vai diminuir no máximo um terço do desmatamento total, que está em terras privadas que já estão no Cadastro Ambiental Rural”, disse Rajão, que concebeu a Operação Panopticum juntamente com Jair Schmitt, diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. Segundo ele, é mais difícil fazer esse controle em áreas privadas fora do CAR, em unidades de conservação, terras devolutas, terras indígenas e assentamentos.

“O estudo mostra que o Brasil está praticando hoje um tipo de política do século 19, o que faz com que talvez tenhamos que recorrer a tecnologias do século 21, muitas delas ainda não maduras ou comercialmente disponíveis, para compensar o aumento das emissões de gases de efeito estufa advindas do aumento do desmatamento decorrentes desta política”, disse Roberto Schaeffer.

FONTE: http://www.observatoriodoclima.eco.br/alianca-entre-temer-e-ruralistas-pode-custar-meta-climatica-ao-brasil/

Mudanças climáticas estão aqui para transformar a Terra e o jeito que vivemos nela

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O mapa, rotulado como Índice da Miséria, acima mostra a sensação de calor com base na temperatura, umidade relativa do ar e sensação térmica.  As cores mais quentes significam mais miséria.

Em meio às desventuras da Copa FIFA 2018,  muitas informações passaram sem ser sequer notadas pela maioria das pessoas e, por que não, pela mídia corporativa brasileira. Uma dessas informações tem a ver com a informação de que foram registradas as temperaturas mais altas em diversas partes da Terra, o que é mais uma prova de que as mudanças climáticas estão aqui para ficar [1].

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Análise do modelo europeu de altas temperaturas no norte da África no dia 5 de julho mostrando valores máximos sobre a Argélia em torno de 51,3 graus Celsius. (WeatherBell.com)

E pior do que termos recordes de tempeatura é a constatação de que paulatinamente está ocorrendo uma elevação nas temperaturas médias dos dias e noites, com uma perda da capacidade dos ventos de amenizar o aquecimento que está ocorrendo no planeta. A figura abaixo, por exemplo, mostra a consistente elevação das temperaturas médias diurnas e noturnas na parte continental dos EUA a partir de 1950, deixando claro que as temperaturas em ambos períodos estão ficando mais altas.

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Para a maioria das pessoas, a informação de que estamos alcançando recordes de temperatura não chega a ser nada alarmante, visto que uma parte considerável da população humana está envolvida em questões mais mundanas, tais como obter comida e água, sem falar em um teto sobre suas cabeças [2].

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Mas é aí que mora o problema. As mudanças climáticas irão certamente impactar de forma mais aguda aqueles que já estão sofrendo as piores consequências da forma perdulária e irresponsável com que os ultrarricos usam a Terra para lhes garantir um modo de vida que não possui nenhuma sustentação ecológica. 

No caso brasileiro, a atual conjuntura política não apenas ignora compromissos multilaterais que o país assinou em décadas recentes em termos da agenda pró-controle dos efeitos das mudanças climáticas, mas como estamos embarcados numa jornada em que um dos pontos mais dramáticos é justamente a profunda regressão nos poucos avanços que haviam sido duramente alcançados no manejo de ecossistemas naturais e no controle da desvastação em diversos biomas brasileiros, incluindo a Amazônia e a Mata Atlântica.

O problema é que o desmatamento que está consumindo grandes porções dos biomas florestais brasileiros está contribuindo para que haja um aumento das temperaturas nas regiões que mais estão perdendo vegetação, contribuindo não apenas para alterar o clima dessas áreas, mas também a disponibilidade de água. Em  outras palavras, é uma espécie de tempestade perfeita, onde toda as coisas que podem dar errado separadamente, acabam dando errado juntas.


[1] https://www.washingtonpost.com/news/capital-weather-gang/wp/2018/07/06/africa-may-have-witnessed-its-all-time-hottest-temperature-thursday-124-degrees-in-algeria/?noredirect=on&utm_term=.cb7e290aa436

[2] https://www.forbes.com/sites/marshallshepherd/2018/06/05/imagine-life-without-water-not-possible-but-earths-water-supply-is-changing/#3fc5dc833941

Estudos mostram que gelo da Antártida está derretendo mais rápido do que nunca

A taxa de derretimento triplicou nos últimos cinco anos e pode contribuir com 25cm no aumento do nível do mar sem uma ação urgente

Por Matthew Taylor para o jornal “The Guardian” [1]

O gelo na Antártida está derretendo a uma taxa recorde e os subsequentes aumentos no mar podem ter consequências catastróficas para as cidades ao redor do mundo, de acordo com dois novos estudos.

Um relatório liderado por cientistas do Reino Unido e dos EUA descobriu que a taxa de derretimento da camada de gelo da Antártida acelerou três vezes nos últimos cinco anos e agora está desaparecendo mais rápido do que em qualquer outro período registrado anteriormente [2].

Um estudo separado adverte que, a menos que uma ação urgente seja tomada na próxima década, o derretimento do gelo poderia contribuir com mais de 25 cm para um aumento global do nível do mar de mais de um metro até 2070. Isso poderia levar ao colapso de todo o gelo ocidental da Antártida. Cerca de 3,5m de elevação do nível do mar.

Andrew Shepherd, da Universidade de Leeds e principal autor do estudo sobre a aceleração da perda de gelo, disse: “Há muito tempo suspeitamos que as mudanças no clima da Terra afetarão as camadas de gelo polar. Graças aos nossos satélites que nossas agências espaciais lançaram, agora podemos rastrear suas perdas de gelo e a contribuição global do nível do mar com confiança”. Shepherd disse que a taxa de derretimento foi “surpreendente”.

“Isso tem que ser motivo de preocupação para os governos em que confiamos para proteger nossas cidades e comunidades costeiras”, acrescentou Shepherd.

O estudo, publicado na revista Nature, envolveu 84 cientistas de 44 organizações internacionais e afirma ser o relato mais abrangente da camada de gelo da Antártida até hoje. Isso mostra que antes de 2012, a Antártida perdeu gelo a uma taxa constante de 76 bilhões de toneladas por ano – uma contribuição de 0,2 mm por ano para a elevação do nível do mar. No entanto, desde então, houve um aumento acentuado, resultando na perda de 219 bilhões de toneladas de gelo por ano – uma contribuição do nível do mar de 0,6 mm por ano.

O segundo estudo, também publicado na revista Nature, alerta que o tempo está se esgotando para salvar a Antártida e seu ecossistema único – com consequências potencialmente terríveis para o mundo [3]. Os cientistas avaliaram o provável estado da Antártida em 2070 sob dois cenários. O primeiro em que a ação urgente sobre emissões de gases de efeito estufa e proteção ambiental é tomada nos próximos anos, a segunda se as emissões continuarem a crescer sem parar e se a Antártida for explorada por seus recursos naturais. O cenário que se desenrola em grande parte depende das escolhas feitas na próxima década, tanto na mudança climática quanto na regulamentação ambiental, eles concluem. 

O coautor Prof. Martin Siegert, do Instituto Grantham, disse que “Algumas das mudanças que a Antártida enfrentará já são irreversíveis, como a perda de algumas plataformas de gelo, mas há muito que podemos prevenir ou reverter”. “Para evitar os piores impactos, precisaremos de uma forte cooperação internacional e regulamentação efetiva apoiada por uma ciência rigorosa. Isso dependerá de governos que reconhecem que a Antártida está intimamente ligada ao resto do sistema terrestre, e danos que ocorrerem lá causarão problemas em todos os lugares”.

Além de ser uma das principais causas do aumento do nível do mar, os cientistas dizem que os oceanos ao redor da Antártida são um importante “sumidouro de carbono”, que – absorvendo enormes quantidades de gases do efeito estufa ajudando a mitigar os impactos da mudança climática. Siegert disse: “Se a paisagem política de uma futura Antártida estiver mais preocupada com a rivalidade e como cada país pode tirar o máximo proveito do continente e dos seus oceanos, então todas as proteções podem ser derrubadas”.

“No entanto, se reconhecermos a importância da Antártida no ambiente global, existe o potencial de cooperação internacional que usa evidências científicas para promulgar mudanças que evitem ‘pontos de inflexão’ – fronteiras que, uma vez cruzadas, causariam uma mudança descontrolada, como o colapso do manto de gelo do oeste da Antártida.” O Greenpeace, que está fazendo campanha para que uma grande parte do oceano em torno da Antártica seja transformada no maior santuário oceânico do mundo, disse que os governos devem prestar atenção ao aviso.

Louisa Casson, da campanha Protect the Antarctic do Greenpeace do Reino Unido, disse: “Os governos podem dar um passo histórico em outubro deste ano se decidirem criar um Santuário Antártico, protegendo 1,8 milhão de quilômetros quadrados na maior área protegida da Terra”. “Os santuários oceânicos criam refúgios para a vida marinha para construir resiliência a um oceano em mudança, mas também ajudam a evitar os piores efeitos da mudança climática, preservando ecossistemas saudáveis ​​dos oceanos que desempenham um papel vital no armazenamento de carbono.”


[1] https://www.theguardian.com/environment/2018/jun/13/antarctic-ice-melting-faster-than-ever-studies-show

[2] https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y

[3] https://www.nature.com/articles/s41586-018-0173-4

Campos rupestres brasileiros são as novas vítimas do crescimento econômico “a qualquer custo”

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Artigo publicado por um grupo de pesquisadores brasileiros,  mostra que as áreas de campos rupestres existentes no Brasil foram convertidas em mais uma fronteira de desmatamento. Em função disso, o artigo traz um grave alerta: a previsão de perda de 82% das áreas de campos rupestres no país, impactando o acesso à água e a segurança alimentar de 50 milhões de pessoas.

O artigo atribuiu esse avanço na destruição de campos rupestres à implementação de políticas  equivocadas que levam à intensificação de atividades de mineração, turismo descontrolado e à construção de estradas não planejadas. De fato, a descoberta de grandes reservas minerais, a adoção de políticas de conservação ineficazes e, a partir de agora, as mudanças climáticas estão ameaçando esse ecossistema hiper-diversificado.

Quem desejar acesso este artigo, basta clicar [Aqui!].

Leandro Narloch e sua insensibilidade climática

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Por Cláudio Angelo*

Leandro Narloch mandou mal.

O guru do pensamento politicamente incorreto virou best-seller desmontando “mitos” sobre história, política e comportamento. É bonitinho. Às vezes acerta ou, no mínimo, provoca as pessoas a questionar verdades estabelecidas pouco apoiadas em evidências. Só que às vezes ele mesmo se afasta das evidências para forçar um argumento ou dez. E aí dá ruim. Sua última coluna no site da Folha é um exemplo: uma diatribe antiambientalista que escorrega em fatos e produz – para sermos politicamente corretos – um samba do afrodescendente com problemas psiquiátricos.

Narloch tenta argumentar que ambientalistas são obcecados com o Apocalipse, mas que esse Apocalipse nunca chega, mas que mesmo assim eles continuam insistindo no Apocalipse porque isso vende livro e dá dinheiro para ONGs.

Nada de novo aqui. Frequentemente o ambientalismo é criticado por fazer previsões catastrofistas que não se realizam, mas frequentemente elas não se realizam precisamente por mudanças de comportamento induzidas pelos ambientalistas. Doh. É evidente que ambientalistas exageram e cometem equívocos de vez em quando: trata-se, afinal, de um empreendimento humano. Destacá-los por isso, porém, é preconceito. E visões pré-concebidas costumam estar erradas; Narloch deveria saber disso melhor do que ninguém.

Um exemplo: o colunista critica Rachel Carson, a fundadora do ambientalismo moderno, por ter “apostado” em seu livro Silent Spring (1962) que o DDT e os pesticidas provocariam “extinção de pelicanos na costa Oeste americana”. Na real, não há nenhuma menção a pelicanos no livro de Carson, que tampouco faz qualquer “aposta” – apenas colige dados científicos da época. Mas o banimento do DDT, que ocorreu cinco anos depois de sua publicação, possivelmente permitiu o retorno de pelicanos que estavam quase extintos na Louisiana, na costa Leste.

Especificamente, Narloch cita três fins do mundo que não chegaram: o armageddon das abelhas, que teria sido revertido; a seca no Sudeste, que teria acabado mesmo sem ninguém reflorestar a Amazônia; e o aquecimento global, que não seria tão grave assim.

Sobre este último, diz o nosso politicamente incorreto guru:

“E um novo estudo, publicado em janeiro pela “Nature”, revisou para baixo a sensibilidade climática (a variação do clima de acordo com a variação da emissão de carbono e outros fatores). Segundo os pesquisadores da Universidade de Exeter e do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, se a concentração de CO2 na atmosfera dobrar, o planeta vai esquentar no máximo 2,8°C, e não 4,5°C, como o IPCC previa.”

Há um erro conceitual crasso nessa conclusão. Demanda uma explicação longa, mas não vá embora.

O estudo citado tem como primeiro autor Peter Cox, hoje na Universidade de Exeter. Cox ficou famoso no começo do século por formular a hipótese de que a Amazônia sofreria mortandade em massa num cenário de aquecimento global descontrolado. Não é exatamente um cético do clima.

Como Narloch aponta, o artigo de Cox trata de um valor chamado “sensibilidade climática em equilíbrio”. É uma estimativa de quanto o planeta aqueceria caso o nível de COna atmosfera duplicasse instantaneamente. É um componente fundamental dos modelos computacionais de clima.

A sensibilidade climática foi estimada pela primeira vez em 1896 pelo sueco Svante Arrhenius (aquele mesmo, dos ácidos e das bases). Ele previu um aumento de 5oC a 6oC com o CO2 duplicado na atmosfera. Em 1975, o primeiro modelo de clima em computador chegou a um número bem menor: 2,4oC.

Por uma série de problemas que têm a ver com, por exemplo, a representação de nuvens e aerossóis, os modelos têm dificuldade em “resolver” esse parâmetro, e os números têm patinado há 40 anos entre 2oC e 5oC, mais ou menos. Cada um dos cerca de 20 modelos globais usados hoje em dia pelo IPCC, o painel do clima da ONU, tem uma estimativa diferente de sensibilidade climática. Alguns “enxergam” a Terra mais resiliente ao aumento dos gases-estufa; outros, mais sensível. Na soma de todos os resultados, o IPCC considerou, em seu relatório mais recente, o AR5, que a sensibilidade climática em equilíbrio varia entre 1,5oC e 4,5oC, com uma melhor estimativa de 3,2oC.

Cox e seus colegas – e, de resto, todos os modeleiros de clima do mundo – vêm tentando reduzir essa incerteza. Seu trabalho de janeiro aponta um caminho diferente para fazer a estimativa, e dá como resultado uma faixa de 2,2oC a 3,4oC, com uma melhor estimativa de 2,8oC. Descarta as pontas extremas da faixa de possibilidades do AR5. No entanto, sua melhor estimativa é muito parecida com os 2,9oC publicados pelo IPCC em seu quarto relatório, de 2007, para uma concentração de CO2 na atmosfera de 550 partes por milhão (o dobro da máxima pré-industrial).

“Isso não quer dizer nunca que o planeta vai esquentar menos ou que está esquentando menos agora. As medidas mostram que os modelos estão acertando razoavelmente as previsões dos últimos cem anos”, diz Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, membro do IPCC. Se você quiser saber quão bem os modelos vêm prevendo as temperaturas, assista a este vídeo sensacional do Skeptical Science.

O problema é que Narloch confunde sensibilidade climática com projeção de aquecimento. E, como diz Zeca Pagodinho, é igual, mas é diferente.

A projeção de aumento de temperatura depende de quanto CO2 lançarmos na atmosfera nas próximas décadas – pode ser menos ou mais do que o dobro do que havia antes da era industrial. O IPCC traça quatro cenários de aumento de temperatura em seu último relatório: no melhor, o chamado RCP 2.6, o aumento médio no fim do século em relação à média observada entre 1986 e 2005 será de 1oC; no pior, o chamado RCP 8.5, o aumento médio é de 3,7oC em relação à mesma média. Elevações maiores que 6oC são consideradas muito improváveis, mas não foram descartadas.

Portanto, não, o IPCC não “previu” um aquecimento global de 4,5oC que foi repentinamente desmentido por um único paper.

Eu também acho uma merda o IPCC ser tão confuso em relatórios que são chamados de “Sumários para Formuladores de Políticas Públicas” (e que portanto deveriam ser compreensíveis para qualquer cidadão com segundo grau completo). E eu também já confundi sensibilidade climática com projeção de aquecimento dezenas de vezes, e de maneiras vergonhosas. Mas a vida é dura mesmo: se Leandro Narloch quiser fazer disso um cavalo de batalha contra o ambientalismo, vai precisar estudar mais.

*Claudio Angelo é autor de A Espiral da Morte – como a humanidade alterou a máquina do clima (Companhia das Letras, 2016), vencedor do Prêmio Jabuti 2017 na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

FONTE: http://scienceblogs.com.br/curupira/2018/04/insensibilidade-climatica/

Nature publica artigo mostrando que circulação oceânica está mais lenta no Atlântico Norte

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Venho há alguns anos utilizando um artigo assinado pelos pesquisadores Maria Lúci A.M. Campos e Wilson Jardim onde é feita uma previsão teórica  de que uma das possibilidades de uma colapso da circulação oceânica por causa das mudanças climáticas, levantando ainda a hipótese de que isso poderia ocorrer por volta de 2030 [1]. 

Pois bem, o que era uma mera hipótese teórica pode estar se confirmando e mais rápido do que o estimado no artigo de Campos e Jardim. É que no dia de  ontem (11/04), a respeita revista Nature publicou um artigo assinado pela Dra Summer K. Praetorius, do United States Geologic Service (USGS), que aponta, a partir de dois estudos diferentes, para o fato que está ocorrendo uma diminuição no chamado sistema de “Circulação oceânica do Atlântico Sul”, algo que não teria precedentes pelo menos nos últimos 1.600 anos [2].

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Figura mostra a  Circulação do Atlântico Sul (AMOC) e o giro subpolar. O AMOC é um sistema de circulação oceânica que consiste de correntes superficiais quentes (laranja) e fluxos frios de retorno a águas profundas (azul), como mostrado nesta representação simplificada. As correntes superficiais incluem a Corrente do Golfo, que alimenta uma ramificação do AMOC conhecida como Corrente do Atlântico Norte. Os fluxos de retorno em águas profundas partem de três ramos que se fundem na Águas Profundas do Atlântico Norte.

O problema é que o chamado “Sistema de Circulação Oceânica do Atlântico Sul” joga um papel fundamental na passagem de calor das águas oceânicas para a atmosfera, e uma eventual diminuição de sua velocidade trará impactos significativos no comportamento climático da Terra, especialmente sobre a Corrente do Golfo que ocupa um papel importante na chegada de calor nas latitudes mais altas ao norte,

Um efeito esperado dessa perda de velocidade seria a ocorrência de invernos mais frios no norte da Europa, o que poderia ser traduzido em um decréscimo de 3 a 5 o
C na temperatura, o que seria equivalente a 30 ou até 50% da queda de temperatura que ocorreu nas maiores glaciações que já ocorreram na Terra. Em seu artigo, a Dra. Praetoreus alerta ainda que poderá haver uma modificação importante nos padrões de precipitação.

Uma lacuna que ainda precisará ser respondida por novos estudos tem a ver com a determinação de quando esse enfraquecimento da circulação oceânica teria começado e, evidentemente, quais seriam as causas deste processo. De toda forma, o que parece ter sido resolvido é sobre a ocorrência desse enfraquecimento. 


[1] http://qnesc.sbq.org.br/online/cadernos/05/hidrosfera.pdf

[2] https://www.nature.com/magazine-assets/d41586-018-04086-4/d41586-018-04086-4.pdf

Livro de download gratuito do INCT Mudanças Climáticas traz olhar interdisciplinar

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O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT)  Mudanças Climáticas está disponibilizando de forma gratuita o livro “Mudanças climáticas em rede:  um olhar interdisciplinar“.  Este livro aborda 13 temas integradores: Observações e Atribuição de Causas da Variabilidade e Extremos Climáticos; Segurança Alimentar; Segurança Hídrica; Segurança Energética; Saúde; Biodiversidade e Ciclos Biogeoquímicos; Desastres Naturais; Emissão de Gases de Efeito Estufa; Dimensões Humanas e Econômicas das Mudanças Climáticas; Zonas Costeiras; Amazônia e REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação); Modelagem do Sistema Terrestre; e Cenários Futuros de Clima para Estudos de Impactos-Vulnerabilidade-Adaptação (IVA).

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Donald Trump e as razões para seu conveniente ceticismo climático

Um assumido cético das teses científicas que postulam que o clima da Terra está passando por transformações causadas pelo funcionamento da sociedade capitalista, o presidente estadunidense Donald Trump aproveitou as baixas temperaturas que grassam no leste dos EUA neste início de 2018 para renovar seus ataques anti-ciência do clima.

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As razões para esses ataques de Donald Trump contra as abundantes evidências de que atravessamos um período de mudanças climáticas são evidentemente econômicas e geopolíticas [1]. É que do ponto de vista de seus principais apoiadores, qualquer modificação estrutural na forma de funcionamento do sistema capitalista implicará em alterações nos padrões de consumo, principalmente no que se refere aos combustíveis fósseis.

Mas teses anti-científicas estão encontrando um terreno fértil para florescer na medida em que a persistente crise que afoga o sistema capitalista desde 2008 vem gerando uma guerra de contra-informação para que se mantenha tudo mais ou menos como está nas relações de produção e circulação de mercadorias.

Mas vamos ao que interessa. Donald Trump pode ser uma pessoa básica, mas está longe de ser o idiota que alguns tentam pintá-lo. Ele deve saber que existe uma diferença fundamental entre tempo atmosférico e clima. É que enquanto tempo se refere a um período curto de dias e semanas para que sejam feitas previsões com um mínimo de chance de acerto, os cálculos climáticos são muito mais complexos, já que se medem períodos acumulados na escala de décadas. 

Em outras palavras, o fato de estar frio por alguns dias não determina de forma alguma que a Terra está esfriando. Aliás, uma das muitas hipóteses acerca das mudanças que o aquecimento da atmosfera trará sobre o clima da Terra será a ocorrência de eventos extremos, tanto em termos de temperatura como de precipitação. Assim, podemos ter muita chuva em poucas horas para depois passarmos meses sem uma mísera chuva. O mesmo vale para as temperaturas. E, acreditem, Donald Trump e seus assessores que defendem o ceticismo climático sabem disso.

Então por que a negação do que 95% da comunidade científica postula como sendo o que se passando com o clima da Terra?  Ora, porque essa verdade inconveniente atenta contra os interesses econômicos e estratégicos das grandes corporações que Donald Trump efetivamente representa.

Para aqueles que ainda não viram um daqueles vídeos que mostrando o derretimento das calotas polares, posto um abaixo.

E após assistirem este vídeo lembrem que o que lhes pareça catástrofe ambiental iminente é visto por Donald Trump e associados como oportunidades econômicas colossais, a começar pelo aumento de tráfego de navios no Ártico [2]!

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[1] https://www.eenews.net/stories/1060069603

[2] https://www.nytimes.com/interactive/2017/05/03/science/earth/arctic-shipping.html

Furacão Irma como exemplo didático do impacto das mudanças climáticas

Ainda não recuperados dos efeitos devastadores do furacão Harvey, os estadunidenses estão agora presenciando a presença do Irma que está quebrando todos os recordes já estabelecidos para este tipo de fenômeno climático.

Ainda que furacões sejam uma realidade anual no Caribe e na América do Norte, o que está surpreendendo até os mais céticos é a combinação de fatores que normalmente ocorrem na passagem de qualquer furacão, mas que com Harvey e Irma tomaram proporções épicas.

Talvez agora possamos ter uma discussão séria sobre o que está por vir a partir das inevitáveis mudanças climáticas que estão sendo causadas pela sociedade capitalista. Melhor ainda se começando pelos EUA, possamos ter um debate pautado pelo que já foi estabelecido pela ciência e não pelo ceticismo com que este problema muitas vezes é tratado.

Abaixo um dos muitos vídeos que já foram postados no Youtube sobre a chegada do Irma na Flórida. 

DW Brasil: Dossiê denuncia perigoso retrocesso na legislação ambiental brasileira

Relatório da organização WWF estima que projetos no Congresso podem tirar uma área do tamanho da Áustria do mapa de unidades de conservação do Brasil. Medida beneficiaria bancada ruralista em troca de apoio a reformas.

Brasilien Abholzung der Regenwälder (Getty Images/AFP/R. Alves)

Por Deutsche Welle Brasil

O maior programa de áreas protegidas do mundo está em risco, alerta o WWF Brasil. Um território de 80 mil km2 – quase o tamanho da Áustria – pode sumir do mapa de unidades de conservação a qualquer momento, segundo um relatório publicado pela organização nesta quarta-feira (17/05).

Criado há 15 anos com recursos internacionais, o Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) pode desmoronar com o impacto de decisões tomadas em Brasilia. Segundo a organização, as medidas partem de setores do governo e do Congresso Nacional, impulsionados por produtores rurais e indústria da mineração, e mexe com reservas do Norte ao Sul do país.

Um dos projetos em tramitação do Congresso invalida unidades de conservação criadas onde havia proprietários privados e que não receberam a indenização no período de cinco anos. A aprovação da proposta pode levar ao desaparecimento de 56 mil km2 de reservas, segundo estimativas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o equivalente a 10% do território das unidades de conservação federais.

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Moeda de troca

O Observatório do Clima classifica o momento como um “ataque sistemático coordenado”. Para aprovar reformas polêmicas, como a da Previdência, o Palácio do Planalto tem cedido às pressões da bancada ruralista, com seus mais de 200 votos, acusa Carlos Rittl, secretário-executivo.“É uma agenda de retrocesso, como a Medida Provisória que literalmente regulariza a grilagem de terra”, diz, em referência à Medida Provisória 759, que tramita no Senado em regime de urgência.

Na avaliação da Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde da Alemanha, o pacote de medidas que vem tramitando no Parlamento brasileiro “é um retrocesso sem precedentes na legislação ambiental nacional, que antes da aprovação do novo Código Florestal, em 2012, era considerada uma das legislações ambientais mais completas e avançadas do mundo”, pontua Maureen Santos.

Pesquisadores da área de meio ambiente também demonstram preocupação. “A comunidade científica brasileira tem se manifestado fortemente contra a atual política implementada pelos ruralistas no Congresso e no governo de destruição das leis que protegem o rico patrimônio ambiental brasileiro”, afirma Paulo Artaxo, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e um dos pesquisadores do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).Consultado, o Ministério do Meio Ambiente não respondeu ao pedido de entrevista da DW Brasil.

Desmatamento e crise

O dossiê do WWF chama atenção para outro dado: o aumento do desmatamento dentro das áreas de conservação na Amazônia.

“O desmatamento crescente nas unidades reflete a tendência atual de redução de proteção. Várias delas vêm sendo alteradas por dois motivos principais: produção e distribuição de energia e ocupações irregulares”, ressalta Elis Araújo, pesquisadora do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Em toda a Amazônia, o corte da floresta aumentou 60% em 2016 – num momento de desaceleração da economia, classificada como pesquisadores da Unicamp como “a pior crise da história nacional”.

Maureen Santos vê indícios de que o governo transfira à iniciativa privada o monitoramento das florestas do Brasil, o que ela considera perigoso. “Estão reduzindo o papel do Estado na proteção ambiental e jogando para o setor privado essa tarefa”, critica.

“Todos esses retrocessos e avanço do desmatamento não trazem beneficio para sociedade brasileira. O custo é altíssimo. Todos arcamos com custos muito altos para o benefício de muito poucos”, afirma Carlos Rittl.

Clima de retrocesso

A votação das leis em Brasilia pode comprometer as metas assumidas pelo país – e votadas pelo Congresso – de combate às mudanças climáticas. “Vai na contramão do acordo de Paris recentemente ratificado pelo Brasil”, pontua Rodrigues dos Santos, do WWF Brasil. “É um contrassenso você dizer ao mundo que tem compromisso em cuidar das Arpas e internamente agir na direção contrária.”

Além do corte de emissões de CO2, o principal gás causador do efeito estufa, o país se comprometeu em acabar com o desmatamento até 2020 e reflorestar 12 milhões de hectares até 2030.

“Isso é essencial para minimizar os impactos das mudanças globais e sequestrar carbono da atmosfera, além de garantir o correto funcionamento dos ecossistemas brasileiros”, explica Paulo Artaxo, citando exemplos como a manutenção dos fluxos de água das bacias hidrográficas brasileiras e a biodiversidade.

Trocar Floresta Amazônica por áreas de pastagens e plantios não é um bom negócio, alerta o pesquisador. “Vai reduzir a emissão de vapor de água para a atmosfera, essencial para a formação de nuvens e chuva em toda a América Latina”, prevê.

FONTE: http://www.dw.com/pt-br/dossiê-denuncia-perigoso-retrocesso-na-legislação-ambiental-brasileira/a-38867444