Por que Boulos é traço? Perguntem ao PSOL

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Pesquisas eleitorais são, quando muito, retratos de determinados momentos em uma campanha eleitoral.  Além disso, há sempre que se desconfiar de determinados “institutos de pesquisa” que brotam do nada para disparar estatísticas mal explicadas e sem oferecer os fundamentos metodológicos de como as mesmas foram produzidas.

Mas, tendo escrito no dia 10 de março a postagem intitulada “A candidatura Boulos é o ocaso do PSOL” onde critiquei a forma pela qual o PSOL determinou que o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos seria candidato a presidente pelo partido, quase que imediatamente após ele ter se tornado um filiado [1].

Agora, exatos 5 meses desde aquela postagem, vejo o aguerrido e inteligente Guilherme Boulos estacionado nas pesquisas eleitorais na quantidade conhecida como “traço”. Como Boulos não é um despreparado como muitos outros dos postulantes ao cargo máximo da repúblico e também não é desprovido de base social para apoiá-lo, fica pergunta de porque ele não consegue superar um destino eleitoral que, mantidas as projeções das pesquisas, será o pior desempenho do PSOL em campanhas presidenciais.

Alguns poderiam mencionar o fato de que Boulos tem gasto mais tempo prestando mais solidariedade ao ex-presidente Lula do que divulgando a sua candidatura. Mas eu já acho que apesar da crítica ser parcialmente pertinente, a culpa está mais para a natureza incipiente e fragmentada do PSOL do que para uma culpa pessoal de Guilherme Boulos.  Me arrisco a dizer que  como aconteceu com outros candidatos anteriores do PSOL (Heloísa Helena, Plínio de Arruda Sampaio e Luciana Genro) é bem provável que Boulos termine saindo maior do que entrou, mas o mesmo não deverá ser dito sobre o partido.

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É que por mais que eu tenha simpatia pelo PSOL e por muitos dos seus parlamentares , o que me parece óbvio é que o crescimento do partido, que nasceu com a obrigação de oferecer uma opção pela esquerda após abandono da maioria do PT das suas bandeiras históricas, está sendo limitado por sua excessiva dependência de agendas identitárias e também pela sua fraca inserção na classe trabalhadora. 

O problema é que se os dirigentes das múltiplas correntes que existem dentro do PSOL continuarem ignorando a necessidade de consolidar a candidatura de Guilherme Boulos, e de quebra o alcance político do partido, o que teremos nos próximos será não apenas a hegemonia do PT nos sindicatos e movimentos sociais, mas também a manutenção de um estado letárgico frente ao avanço avassalador da agenda ultraneoliberal que embala as atuais políticas do governo “de facto” de Michel Temer e dos candidatos que a apoiam. E isso, meus caros leitores, terá consequências trágicas para a maioria dos brasileiros.  É que, com todas as suas limitações e erros, o PSOL é ainda a melhor opção para a construção de uma saída pela esquerda no Brasil. O risco aqui, entretanto, é que o PSOL continue sendo apenas uma espécie de viúva Porcina da esquerda brasileira (aquela que deixou de ser sem nunca ter sido).


[1] https://blogdopedlowski.com/2018/03/10/a-candidatura-boulos-e-o-ocaso-do-psol/

MBL: neoliberais até quando não dói o calo

FAKE NEWS 1

O autodenominado “Movimento Brasil Livre” (MBL) está desde ontem gritando ao mundo e acionando os seus aliados no aparelho de Estado contra a decisão da rede social Facebook de desativar 196 páginas e 87 contas que estariam sendo utilizadas para disseminar fake news e mensagens propugnando conteúdos que estimulam ódio e violência [1, 2].

Nesse esforço de denúncia do que seria a ação de uma empresa socialista (na verdade uma corporação estadunidense que obtém seus lucros bilionários de forma bem capitalista), o pessoal do MBL está utilizando suas redes de apoio no legislativo e no judiciário para tentar reverter ou, pelo menos, criminalizar a decisão da Facebook [3].

Como se vê, a defesa dos princípios do ultraneoliberalismo de Kim Kataguiri et caterva só servem para quando se trata de cassar direitos sociais e para perseguir partidos e programas alinhados com a esquerda. Quando a coisa é defender seus próprios interesses, o pessoal do MBL gosta mesmo é da proteção do Estado.

Uma pergunta que já foi feita e que carece de resposta: quem financiou a construção de uma rede tão complexa de desinformação? É que construção de páginas não é coisa para amadores e mais ainda a atualização diárias das mesmas.  Tudo indica que se seguirmos a trilha dos financiadores, entenderemos ainda mais a quais interesses realmente serve o MBL.


 

[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/25/politica/1532531670_089900.html

[2] https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2018/07/25/facebook-retira-do-ar-rede-de-fake-news-ligada-ao-mbl-antes-das-eleicoes-dizem-fontes.ghtml

[3] https://www.tecmundo.com.br/redes-sociais/132586-deputado-quer-criar-cpi-facebook-exclusao-rede-fake-news.htm

 

Um exame necessário sobre o governo de Rafael Diniz e seus menudos neoliberais: matriz ideológica e origem de classe

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Conversando hoje com uma colega que frequenta conselhos municipais, ouvi fatos horrorosos de como a coisa anda funcionando em alguns deles sob a batuta dos menudos secretários neoliberais do jovem prefeito Rafael Diniz. Pelo que ouvi, a coisa anda tão feia que já há quem sinta saudade do traquejo rústico dos tempos dos secretários da prefeita Rosinha Garotinho.

O que parece prevalecer agora é mesmo alguma cartilha emprestada do Instituto Mises onde reina a supremacia do Deus capital, e inexistem espaços para quaisquer arranjos que não sejam controlados por empresas privadas.  Nas palavras de um destes jovens menudos, mas um com título de doutor, até se ouve os movimentos sociais, mas quem decide é ele, o sábio convertido aos preceitos da eficiência neoliberal (eficiência essa que é apenas um sinônimo para privatização da coisa pública).

Um dos ideólogos do grupo que hoje isola o prefeito Rafael Diniz da ira popular crescente até cunhou uma expressão que epitomiza a ideologia Rafaelista quando se trata de desclassificar a atuação de quem ousa levantar alguma crítica de dentro das universidades para um governo que hoje já matou qualquer esperança de mudança na forma de governar em Campos dos Goytacazes. Falo aqui da figura do “intelectual ideológico”, que aparentemente serve para definir aqueles que criticam práticas por não praticarem.

Pois bem, reconheço que dessa bacia de menudos neoliberais não pode se esperar muita coisa, muito menos que seus membros, mesmos os que saíram de Morro do Coco para o mundo (ou pelo menos para a sede do poder executivo municipal) que conheçam toda a magnitude de definições teóricas para o que vem a ser “ideologia”.  Eu particularmente me sinto contemplado pela definição apresentada por Karl Marx em seu emblemático “Ideologia Alemã”, mas existem várias outras, incluindo a formulada pelo pessoal da Escola de Frankfurt [1 e 2].

Entretanto, suspeito que ao formular a expressão “intelectual ideológico”, o menudo neoliberal em questão estivesse se atendo a usos mais coloquiais de ideologia que se resumem a uma separação chão a chão entre teoria e prática ou em uma separação radical entre capital e trabalho. Desconfio ainda que quando se aplica o jargão de ideológico haja ainda um componente de classe, onde quem recebe é visto como um inimigo sem justa causa do capital e dos capitalistas.

Mas, convenhamos, é difícil saber o que esse pessoal realmente sabe ou sequer se deram a ler algo minimamente denso sobre o conceito de Ideologia (ou mesmo se leram o famoso “O que é Ideologia” que a filósofa Marilena Chauí escreveu para a coleção “Primeiros Passos” da Editora Melhoramentos [3]).  Apesar disso, penso que pode ser útil não apenas levantar a matriz ideológica dos menudos neoliberais e do jovem prefeito Rafael Diniz, bem como a origem de classe de cada um deles.

É que enquanto a matriz ideológica me parece de inspiração neoliberal, a coisa aqui vai além em alguns aspectos, e fica aquém em outros tantos, daquilo que foi formulado por Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Por isso, seria útil estabelecer linhas mestras do que esse grupo tem dito e feito desde que entrou porta adentro na sede do executivo municipal.

Outro elemento essencial para entendermos algumas nuances dentro deste grupo seria levantar a origem de classe de cada um deles, já que se sabe que  quase todos foram colegas de um mesmo estabelecimento de ensino, onde aparentemente herdaram a preferência pela roupa bem passada e pela barba bem feita, isto no caso dos homens. 

Assim, afinal, qual seria a árvore genealógica capitalista desses jovens governantes que tanto parecem amar o privado, enquanto demonstram clara ojeriza contra os pobres e desvalidos do município? Seriam eles todos descendentes de usineiros e latifundiários, ou temos aí uma amalgama mais complexa, unindo comércio, especulação financeira e serviços? Eu diria que se essa esfinge for decifrada, várias das idas e vindas que já ocorreram até em contratos de licitação anulados pelo Tribunal de Contas do Estado talvez sejam mais bem compreendidas.

A questão é que sempre quando ouço alguém utilizando do conceito de ideologia para desclassificar críticas, sempre tendo a ver que este é um gesto que tende a ocultar práticas e obediências que sempre emergem no trato da coisa pública.  Por isso, para mim, tentar usar o conceito de ideologia como uma ferramenta de combate político é o mais ideológico dos atos. Pena que seja sempre o ato de um covarde ou, quando não, de um grupo de covardes.

E para ninguém dizer que eu não falei das flores, coloco abaixo um vídeo com Cazuza cantando a sua ideologia. Aliás, essa música me parece cada vez mais atual, e Cazuza cada vez mais essencial.

 

 


[1] http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/ideologiaalema.pdf

[2] https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/viewFile/9168/8507

[3]  https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/388158/mod_resource/content/1/Texto%2014%20-%20O%20que%20%C3%A9%20ideologia%20-%20M.%20Chau%C3%AD.pdf

O que realmente querem, mas ainda não dizem, os que pedem um novo golpe militar no Brasil

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Recentemente li alguns capítulos do livro “Neoliberalismo”, do geógrafo inglês David Harvey, para uma disciplina que estou dividindo com um colega no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte  Fluminense [1]. Em um desses capítulos, Harvey descreve de forma simples e direta como é que os postulados neoliberais, historicamente marginais na teoria econômica, passaram a ser o principal paradigma de gerência do estado em escala planetária.

Segundo Harvey, a fórmula para o sucesso da ideologia neoliberal resultou de uma captura de setores da classe trabalhadora que passaram a servir como aliados do grande capital, tendo como justificativa a busca do êxito individual e a acumulação de bens, bem como o pleno acesso ao consumo de bens, a maioria deles inúteis.  Para se chegar a essa espécie de Nirvana do capitalismo, os defensores dos ideais neoliberais não hesitaram em abandonar preocupações originais da sociedade capitalista, tais como a solidariedade e a justiça social, enviando-as para uma espécie de cemitério das boas intenções.

Se olharmos o que anda acontecendo neste momento no Brasil, onde minorias ruidosas se reúnem à frente de quartéis do exército para clamar pela realização de um golpe militar, só será possível entender o raciocínio de quem apresenta essa demanda a partir da frustração cada vez maior com a negação do reino dourado prometido por sucessivos governos neoliberais. 

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Manifestantes se ajoelham em posição de rendição em frente do quartel do 33o. Batalhão de Infantaria Mecanizada em Cascavel (PR) para demandar um novo golpe militar no Brasil [2]

Assim, o uso da palavra de ordem de luta contra a corrupção para justificar a volta dos militares ao poder político é apenas uma cobertura tênue para a demanda real que esses grupos realmente desejam apresentar: o extermínio puro e simples de todos aqueles que apareçam como impedindo a realização do corolário neoliberal que os levaria para um plano superior de capacidade de empreender para poder consumir cada vez mais.

Em outros tempos se diria que essa ojeriza ao oposto seria a manifestação da defesa de uma sociedade fascista. Mas estou convencido que é conceitualmente equivocado chamar essas pessoas de fascistas, pelo simples motivos que o nazifascismo de meados do Século XX, apesar se basearem em ideologias de extermínio físico dos diferentes, ainda buscavam garantir a implantação de formas de capitalismo centradas na ação do estado e na consolidação de projetos nacionais.

A diferença é que os que hoje demandam uma intervenção militar no Brasil parecem tomados por uma ideologia neoliberal que ecoa as demandas dos chamados anarco capitalistas, e o que eles querem mesmo, repito, é terem a garantia de que poderão empreender e consumir sem que sejam atrapalhados por aqueles que demandam formas societárias mais justas e solidárias. É por causa dessa diferença fundamental que se vê tanta raiva e ódio sendo disseminados por grupos que, felizmente, ainda são minoritários no Brasil.

Mas apesar de serem minoritários, isto não quer dizer que tais grupos não sejam perigosos, especialmente para todos os que explicitam a impossibilidade de seus sonhos neoliberais. E é por isso que ainda lhes falta ainda a coragem de dizer o que realmente querem que seja feita pelas tropas militares contra todos os que não comungam com seu ideal neoliberal.  E o que eles querem é aprofundamento do estado de sítio informal que já vigora na maioria das regiões pobres das cidades brasileiras, onde prevalece o extermínio dos seus habitantes. 

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O jornalista Vladimir Herzog assassinado em 25 de outubro de 1975 após se apresentar voluntariamente ao Centro de Operações de Defesa Interna

E não me venham me dizer que esses grupos estão clamando por um golpe militar o fazem por desconhecer a história recente do Brasil. Em minha opinião eles demandam o golpe justamente por saber o que foi cometido durante o regime de exceção que perdurou no nosso país entre 1964 e 1985. O que eles querem é o cometimento rotineiro de tortura e assassinato dos diferentes, especialmente se os diferentes forem pobres e negros. Simples assim.


[1] https://www.estantevirtual.com.br/livros/david-harvey/o-neoliberalismo-historia-e-implicacoes/3737565868

[2] https://cgn.inf.br/noticia/294858/manifestantes-se-ajoelham-em-frente-ao-exercito-e-clamam-por-intervencao-militar

Luta identitária e a perpetuação da exploração, um velho texto para um tema cada vez mais atual

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O texto abaixo foi publicado no número 200 da revista Somos Assim que circulou nas bancas em Campos dos Goytacazes no final de outubro de 2011. Passados sete anos, reencontrei este texto vejo que, apesar de algumas mudanças que o mesmo merece após quase 7 anos,  algumas das minhas indagações originais continuam me perturbando todos os dias.

A questão principal para mim é de como a fragmentação identitária, ainda que explicite elementos justíssimos, tem servido para um propósito oposto dos seus defensores que éo de ampliar o controle burguês sobre a sociedade capitalista. E, com isto, aumentando o grau de opressão sobre a classe trabalhadora e a juventude. 

Desta forma, estou republicando o texto com o intuito de explicitar a minha posição de que a identidade essencial dentro do Capitalismo, pelo menos para todos os segmentos oprimidos pelo capital, é o da classe, ainda que não se negue a importância das demais. É que só a classe pode unificar todos os oprimidos na luta por uma sociedade onde não seja mais necessário levantar quaisquer identidades, pois teremos retomado aquela que nos unifica que é a de seres humanos.

As novas múltiplas identidades e o seu papel na perpetuação da exploração

       Em uma das minhas visitas a uma rede social na internet encontrei um adesivo apontando para uma nova utopia “por um mundo sem racismo, machismo e homofobia”.  Em tese essa é uma utopia positiva, pois ninguém com uma visão democrática de vida iria querer viver ameaçado por alguma destas facetas opressivas. Mas uma coisa que me intriga é por que subitamente fomos tomados por uma consciência tão fracionada da violência cotidiana em que vivemos submetidos dentro do sistema capitalista. Aliás, pior, por que aceitamos tantas identidades para os oprimidos sem que ninguém se questione sobre quem foram seus criadores.

    Uma primeira observação necessária é a de que, pelo menos no âmbito do Brasil, essas identidades foram introduzidas pela Fundação Ford em meados da década de 90 do Século XX.   Em uma visita que fiz à sede da Fundação Ford no Rio de Janeiro, após retornar do meu doutorado nos Estados Unidos, tive uma conversa com tintas de premonição dado que meu interlocutor me adiantou uma agenda de ações que se materializou dentro dos nossos discursos cotidianos na década seguinte.  Não devo ser o único a apontar a gênese norte-americana dessa multiplicidade de identidades que hoje conformam o discurso politicamente correto, usado por governantes e membros de organizações não-governamentais como se fosse um mantra da libertação social de supostas minorias oprimidas. Mas o fato é que esta gênese continua sendo meticulosamente escondida dos seus promotores.

     Mas qual seria a razão da omissão da maternidade para os setores oprimidos pelo funcionamento das engrenagens sociais? A resposta para esta charada precisa ser buscada na utilidade que as mesmas tiveram no contexto da sociedade estadunidense. Se olharmos para o levante dos direitos civis a favor dos negros que ocorreu nos EUA ao longo da década de 60 do Século XX, veremos que a maioria das lideranças não possuía uma visão de questionamento da sociedade capitalista. Pelo contrário, buscava-se incluir os negros nos circuitos de consumo que historicamente estiveram reservados aos brancos. Ainda que num primeiro momento estas lideranças tenham sido perseguidas e algumas assassinadas (como no caso de Martin Luther King), esta agenda de inclusão progressiva acabou servindo para manter a maioria das estruturas sócio-econômicas e políticas basicamente intocadas.  Em suma, um movimento que nasceu com potenciais revolucionários, acabou sendo domesticado e assimilado.

     Ainda que os norte-americanos tenham tentado exportar o seu modelo de inclusão conservadora mesmo antes da queda do Muro de Berlim, foi justamente este evento que ofereceu a oportunidade que precisavam para fazê-lo.  O desmantelamento da URSS e a hegemonia neoliberal que se seguiram também contribuíram para a disseminação das tentativas de fragmentar a identidade dos oprimidos, coisa que acabou ocorrendo na década seguinte. Neste sentido, o aparecimento de múltiplas minorias como resultado do fracionamento das identidades que vigoraram desde quando Karl Marx lançou o Manifesto Comunista em 1848 (isto é burgueses e proletários) só foi possível devido ao desaparecimento de um dos contendores da Guerra Fria. Em outras palavras, estas múltiplas identidades são uma expressão direta do fracasso do socialismo real e da hegemonia, ainda que momentânea, da ideologia neoliberal.

     Por outro lado, o fato de que até partidos e movimentos sociais que se pretendem revolucionários tenham assimilado estas novas identidades expressa a força da ideologia neoliberal. Ainda que alguns desses partidos e movimentos tenham adotado o discurso politicamente correto e as identidades que o acompanham por motivos táticos (e até oportunistas), isto não diminui o fato de que a hegemonia neoliberal impôs uma nova e fragmentada visão dos oprimidos.  Essa fragmentação, aliás, implicou numa falácia muito eficaz que consiste em desviar a gênese da opressão das relações de classe para outros tipos de relação, como as raciais, étnicas, religiosas e de gênero.  É preciso reconhecer que esta é uma estratégia muito eficaz, pois agora chega a ser brega (senão coisa de dinossauros ideológicos) tentar explicar todas essas facetas da opressão como algo intrínseco ao próprio Capitalismo.

Mas em que pesem as dificuldades de se retomar um debate que privilegie a classe como categoria explicativa para as opressões de todos os tipos, a crise sistêmica que o sistema capitalista atravessa auxilia a sua retomada.  A verdade é que determinadas situações, como a que ocorreu recentemente na Praça Porta do Sol em Madri, demonstram de forma cabal que sem um entendimento de classe da realidade pouco adianta galvanizar as energias geradas pelo descontentamento social. E pior, o que começa com um potencial de impor transformações no status quo acaba servindo para alimentar aquelas facetas mais sombrias da sociedade contemporânea, já que em face da despolitização causada pela fragmentação identitária, a tendência sempre será de que o potencial de transformação seja anulado, resultando em frustração e raiva.

Finalmente, retornando ao inicio desta reflexão, eu me pergunto o que aconteceria se repentinamente o mundo acordasse sem racismo, machismo e homofobia. Será que estaria cessada toda a violência e opressão que vemos hoje pelo mundo afora?

Reformas ultraneoliberais e o ressurgimento de epidemias do Século XIX

Assistindo a um desses telejornais que pouco informam assisti a uma matéria dando conta do aumento de mortos no estado de São Paulo por causa do vírus da Febre Amarela que está aparecendo forte em cidades localizadas nos limites da região metropolitana da sua capital [1]. Essa notícia ainda veio acompanhada de imagens de filas imensas de cidadãos preocupados que procuram a rede de saúde pública apenas para descobrir que não inexistem vacinas suficientes para toda a população.

Para começo de conversa, a Febre Amarela é apenas uma das muitas doenças que infestavam o Brasil no Século XIX e que estão dando as caras no Século XXI, As razões para isso não são assim tão difíceis de serem encontradas. Parte do problema está no modelo de desenvolvimento urbano desigual que joga os mais pobres para áreas onde determinados vetores tem maior facilidade de proliferaram em meio à completa falta de saneamento básico. É literalmente juntar a fome com a vontade de comer, pois se oferece não apenas a chance para os vetores proliferaram, mas também um contingente populacional com uma série de deficiências orgânicas que, para culminar, não têm a ele garantido o acesso à saúde pública.

Em meio a todo esse processo que tem uma natureza histórica e social, vivemos ainda um período de completa retração dos investimentos públicos, tanto na área da saúde como no da melhoria da infraestrutura urbana. É que em nome de uma lógica ultraneoliberal houve a redução da capacidade do investimento público em áreas nas quais a iniciativa privada não possui o menor interesse ou disposição de investir.  Aliás, esse quase colapso dos serviços básicos de saúde e de saneamento mostram a falácia de que em se privatizando tudo se resolve.

Não esqueçamos ainda que os seguidos cortes em investimentos em pesquisa para a produção de vacinas e medicamentos estão comprometendo a capacidade de instituições de pesquisa estratégicas como a Fundação Oswaldo Cruz de conduzirem suas atividades [2]. É em meio a esse processo de desinvestimento em ciência que temos então algo que pode se transformar numa tempestade perfeita juntando todos as dimensões de uma situação bastante complexa.

Aliás, recomendo a leitura de uma matéria do jornalista Paulo Luiz Carneiro para o jornal “O GLOBO” onde é narrada a trajetória e a luta de Oswaldo Cruz para debelar as epidemias que infestavam a cidade do Rio de Janeiro no começo do Século XX [3]. Ao se ler a matéria fica ainda mais visível o quão pouco as elites econômicas aprenderam com as complexas condições socioambientais existentes no Brasil e o papel do Estado via suas estruturas na mitigação dos problemas a elas associadas.

E nisso tudo fica ainda mais desnuda a ideia de que ao Estado cabe o papel de mero facilitador do avanço das forças de mercado na sociedade brasileira.


[1] https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2018/01/09/morre-a-quarta-vitima-da-febre-amarela-em-sao-paulo.htm

[2] https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/fiocruz-divulga-oficio-sobre-suspensao-das-bolsas-do-cnpq

[3] http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/cientista-medico-sanitarista-oswaldo-cruz-erradicou-febre-amarela-no-rio-20894450

 

 

 

A política neoliberal massacra a UENF… mas ela resiste!

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Por Bruno Costa*

Querem deixar a Universidade Estadual do Norte Fluminense no escuro. Sem iluminação no espaço, sem luz para as pesquisas e com salários atrasados de seus servidores, a instituição resiste com sua greve de professores em busca direitos irrestritos. A proposição nos remete a uma política neoliberal de esfacelamento das universidades públicas. A velha faceta dos sombrios anos FHC da reprovação das instituições públicas para ali na frente privatizá-las.

Foi assim com a Vale, Embratel, CERJ, será com a CEDAE caso não haja uma grande mobilização, será com a Petrobras e também com as universidades estaduais: UERJ, UEZO e UENF. Dentro de um processo sistêmico e planejado pelas elites dominantes, articula-se o crime perfeito. Vendas subfaturadas apoiadas pela população passam às mãos de um mesmo nicho dominante, sistematicamente encabeçados por políticos ou laranjas, uma meia dúzia de milionários (até bi) que se apropriam dos recursos da nação com a retórica da corrupção estatal e da necessidade da gestão privada para garantir a qualidade dos serviços, deixando a população amargando na miséria. Tal fato sabemos que não é verdade visto a precariedade dos serviços de telefonia, elétricos, educação privada nas universidades, planos de saúde, dentre tantos outros, mas os lucros continuam exorbitantes e quando contrário, perdões de dívidas e financiamentos com dinheiro público.

Assim estão buscando concretizar esta política neoliberal de privatização da UENF. Percebi estupefato que alguns alunos da universidade compactuam com tal arbitrariedade e covardia. Não tenho informações sobre a origem secundarista e nem quais graduações cursam na instituição idealizada por Brizola e Darcy. Observei boquiaberto algumas publicações como:

“Da próxima assembleia, proponha um abaixo-assinado para doarmos a UENF pra vcs, grevistas, porque daqui a um tempo vai sobrar só vcs ai dentro!!!!”; “A pergunta que não quer calar. A quem interessa a greve? Já são quase um ano parados na aula, prejuízo em cima de prejuízo.”; “Sera que os senhores estão pensando no futuro dos estudantes e nas famílias que estão bancando alimentação, aluguel, etc…..”

Provoca-se, então, uma triste inversão dos fatos: as vítimas se tornam culpadas. O desastroso governo Pezão que deveria ser rechaçado, governo este que recheia o bolo de grandes empresários com isenções fiscais é o mesmo que massacra as universidades, um governo respaldado numa crise seletiva – para uns setores há crise, para outros não. Enquanto isso, professores-doutores sem salários são criminalizados e o campus continua sem qualquer estrutura mínima de funcionamento. O momento é de luta! Há tempos a Aduenf denuncia o descaso com as pesquisas e com os profissionais da instituição (leia Aqui!).

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Fui aluno do Mestrado em Políticas Sociais na UENF e neste período houve greve. Fiz técnico e tecnológico (ETFC/Cefet), hoje IFF, e passei por diversas greves. Fui aluno nos anos 80 de escola pública estadual em minha cidade e passei por inúmeras greves. A história nos mostra que só com mobilização, paralisação, articulação e greve o funcionalismo, o cidadão, consegue ainda buscar um lugar digno na sociedade. O que se tem de direito hoje aí que muitos usufruem foi pela luta de muitas lá atrás, inclusive com a própria vida. O capital que nos domina prefere o status quo e a tranquilidade da ociosidade reivindicatória. Banqueiros lucram bilhões com apoio governamental e bancários mínguam. Políticos corruptos saqueiam os cofres públicos e a população na miséria.

Neste ritmo, alunos que reclamam que pagam aluguel em momento de greve, passarão a pagar também mensalidades absurdas e pior, sem qualquer qualidade no ensino universitário. Há os que defendem esta barbárie. Tentam sabotar o movimento, mas a UENF há de resistir.

*Bruno Costa é jornalista e Mestre em Políticas Sociais pela UENF.

Rio de Janeiro: (des) governo opera como despachante das corporações. E o povo que se exploda!

A cada notícia de uma nova isenção fiscal bilionária fica mais evidente até para o mais ingênuo dos habitantes do Rio de Janeiro que não vivemos meramente uma crise econômica. Aqui se concentra uma combinação particularmente nefasta de crises: econômica, financeira, fiscal, política e moral.

Como já se desnudou diversas das mentiras alardeadas pelo (des) governo do Rio de Janeiro para explicar a barafunda em que estamos metidos, essa combinação de crises demanda mais do que uma mera denúncia de usos e práticas do grupo que se apossou do controle do estado a partir da entrada de Sérgio Cabral no Palácio Guanabara. É que apenas apontar para os evidentes desvios praticados com a coisa pública, e que emerge de diversas formas nefastas sobre a vida da população, não é suficiente para entendermos porque tudo o que é de ruim parece ser abater sobre o Rio de Janeiro, numa forma muito particular das sete pragas do Egito.

A questão de fundo que merece ser analisada com a devida profundidade se refere à concepção de Estado que está por detrás de tantos malfeitos evidentes. A partir da análise dos discursos e práticas predominantes é possível verificar que há uma evidente inclinação para a aplicação de uma forma particularmente aguda das receitas Neoliberais. Essa receita combina a ação de pilhagem do Estado a partir de contratos superfaturados nas diversas áreas privatizadas com uma generosa política de isenções fiscais para todo tipo de empresa, desde pequenos empreendimentos que incluem termas, restaurantes, cabeleireiros, joalherias até corporações multinacionais como a Jaguar Land Rover, Coca Cola e Nissan.

Enquanto isso acontece como política oficial de (des) governo, a coisa pública vai se desmanchando com uma velocidade impressionante. Nesse terremoto de sucateamento estão sendo engolidos escolas, hospitais e universidades e programas sociais voltados para as camadas mais pobres da população.  A marcha desse desmanche cirurgicamente programado dos serviços públicos é inclemente, mesmo porque não existe uma oposição forte o suficiente para reverter este processo.   E esse é para mim o maior problema que estamos enfrentando, pois tudo parece prosseguir como nada de anormal estivesse acontecendo, inclusive os arranjos e alianças para as próximas eleições municipais.

Esse é o Rio de Janeiro transformando em pasto das corporações onde o Estado se resume a ser um mero despachante de empresas e grupos privados. Resta apenas saber até quando a população vai assistir a tudo de forma pacífica. E se um vagalhão de violência vier, que não se culpe os que reagem a este processo acintoso de destruição da coisa pública que apenas pune quem já é historicamente marginalizado. 

A lógica da guinada ultraneoliberal de Temer: privatização e precarização e o aumento da heteronomia

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Não sou ingênuo a ponto de acreditar de que todos aqueles cidadãos brasileiros de pele geralmente alva e cabelos claros que foram às ruas pedir a saída de Dilma Rousseff já se tocaram de que ajudaram o Brasil a recuar várias décadas em pouco menos de um mês no tocante do estabelecimento de mecanismos básicos de proteção social. E que a questão da corrupção não tinha realmente nada a ver com os movimentos financiados pelos partidos de oposição.

Aliás, se fosse para combater a corrupção, o presidente interino Michel Temer não teria nomeado pelo menos 10 ministros arrolados nas investigações da Lava Jato, e dois ministros já tivessem que ter sido sacados, justamente por articularem secretamente formas de impedir o avanço do trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

A coisa está se tornando tão escancarada que além de Temer ter aprovado um rombo bilionário de R$ 170 bilhões, implicando em aumentos salariais generosos para o judiciário e outros setores da burocracia estatal, ele terá que chancelar uma lei que aumenta o número de cargos federais em mais de 14.000 vagas.  

Outra via de expressão das reais intenções do governo interino de Temer é a sanha privatizadora que promete avançar sobre áreas estratégicas como a exploração do pré-sal de uma forma que deixará, caso se concretize, a privatização feita por FHC como um tímido ensaio da entrega das riquezas nacionais.  O negócio de Temer está claro: Brasil, heteronomia pouca é bobagem.

Tudo isso acontece nu momento em que até o Fundo Monetário Internacional (FMI) que as receitas do neoliberalismo têm trazido mais prejuízos do que soluções. Mas Temer parece, me desculpem-me o trocadilho, temer o julgamento da História. O negocio dele parece ser tornar o Brasil irremediavelmente dependente dos humores do mercado global, ainda que com isso tenha que recolocar milhões de brasileiros na pobreza extrema. E, pasmemos todos, sem que tenha tido que passar pelo crivo das urnas.  

 

O governo Dilma Rousseff expõe de vez sua face neoliberal. E agora, o que fazer?

dilma levy

As medidas anunciadas pelo governo de Dilma Rousseff apontam para cortes orçamentários em torno de R$ 26 bilhões, o que avaliado de perto não representa nada significativo do ponto de vista de um verdadeiro ajuste no déficit público. É que os cortes atingem os salários servidores públicos e programas sociais, deixando de fora o principal problema que são as escorchantes taxas de juros que são o sustentáculo da economia financeirizada que nos levou a essa crise. Tanto isso é verdade que o primeiro apoio explícito às medidas veio da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

O fato é que a questão real que esses cortes explicitam é a submissão da presidente Dilma Rousseff à lógica rentista que implica na asfixia dos direitos sociais e trabalhistas em nome de uma estabilidade que se sabe é impossível, mesmo porque estamos imersos numa crise de natureza sistêmica e que é alimentada pelo desaquecimento da economia da China e pela incapacidade dos EUA e da União Européia de fazerem suas economias funcionarem de modo minimamente positivo.

É essa submissão que esta em jogo nesses cortes, pois além de manter a ordem rentista intacta, também aprofunda a precarização do serviço público e a privatização de serviços essenciais. Além disso, também joga para as calendas quaisquer possibilidades de iniciarmos as necessárias reformas na propriedade da terra no campo e na cidade.

Aos apoiadores do governo do neoPT resta o argumento surrado de que essa pílula amarga é uma necessidade para que o Brasil volte a crescer e que os sacrifícios de hoje são antevéspera de momentos melhores. É que basta olhar para a situação de países como Grécia, Espanha e Portugal para saber que isto simplesmente é mentira, E que o arrocho financeiro, seja no plano individual ou institucional, serve principalmente aos interesses das grandes corporações financeiras que, parafraseando o ex-presidente Lula, acumulam lucros nunca antes visto na história deste pais. 

E antes que venham me dizem que eu sou um ultra-esquerdista que não quer entender a importância das supostas mudanças trazidas pelo PT desde que chegou ao Palácio do Planalto em 2003, tenho a dizer que esse argumento está sendo superado pelas mudanças que estão ocorrendo no plano político-partidário na Europa até em locais onde a recessão ainda foi sentida plenamente, como foi o caso da Inglaterra onde o Partido Trabalhista escolheu um líder anti-austeridade para seu posto máximo de liderança. E como todos sabemos, o Partido Trabalhista nunca exatamente um partido de ultra-esquerda.

A questão para mim é ver como as forças que se dizem de esquerda vão agir nos próximos meses. Se vão se orientar por uma estratégia que privilegia um combate estratégico contra o controle rentista do Estado ou vão se apegar a ações táticas para vencer eleições para prefeituras e câmaras municipais. É que apesar de não desconhecer o papel que o debate eleitoral cumpre na disputa política, me parece que o pior dos mundos será esquecer o combate político estratégico em prol de ganhos táticos minguados. 

A questão é que temos que rejeitar a tentação de equivaler a falência política do PT com uma crise da “esquerda”. É que desde a trágica “Carta aos Brasileiros” de 2002, a direção nacional do PT escolheu caminhar até um beco sem saída.  E, pior, não vejo qualquer movimento interno para que se faça algo semelhante ao que acaba de ocorrer no Partido Trabalhista inglês.  Em suma, quem está em crise é o PT e não a “esquerda”. Esta, por sua vez, possui problemas sérios para entender ou, pelo menos vislumbrar, o seu próprio papel num momento tão crucial da nossa história. 

Assim, se concentrar na construção de um programa que rompa efetivamente com o governo Dilma Rousseff é a tarefa da vez para muitos ativistas e militantes que não querem a manutenção da ditadura dos bancos.  O resto, me desculpem, são chorumelas, e o resultado certamente será a prostração e a depressão psicológica e econômica. Simples assim!