Observatório dos Agrotóxicos: a pandemia dos agrotóxicos avança com mais 27 liberações, totalizando 212 em 2020

pandemia pesticidesEm meio à pandemia da COVID-19, governo Bolsonaro continua avançando a boiada na liberação de agrotóxicos, incluindo produtos banidos na União Europeia e nos EUA

Em uma nova demonstração de que naquilo que se faz eficiente o governo Bolsonaro não para, o Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial da União da última 4a. feira (16/06) o Ato No. 36 de 05 de junho que libera mais 27 agrotóxicos para comercialização no mercado brasileiro.  Com essa nova rodada de aprovações, o total de agrotóxicos liberados em 2020 já alcança 212, o que implica em um total de 715 ao longo dos 18 meses que já dura o mandato do presidente Jair Bolsonaro, o que se configura em um recorde histórico de liberação de venenos agrícolas liberados no Brasil.

Ao examinar a lista de aprovados foi possível detectar mais uma vez a aprovação de cerca de 30% de produtos contendo princípios ativos proibidos na União Europeia, e a continuidade de uma prática peculiar que é produzir formulações que contém de conterem produtos proibidos e aprovados pela EU (ver gráfico abaixo).

ato 36 status euStatus dos agrotóxicos liberados pelo Ato 36 na União Europeia

Outro aspecto que se mostra persistente nessa nova rodada de aprovações é o fato de que a China continua sendo o país que mais vende os produtos técnicos (em outras palavras, a matéria prima de onde são geradas as formulações vendidas no mercado brasileiro) (ver gráfico abaixo).

ato 36 paises

País de origem do fabricante primário dos 27 agrotóxicos liberados pelo Ato 36

Este padrão a crescente dupla dependência da agricultura de exportação brasileira em relação à China, na medida em que os chineses compram a maior parte da soja produzida no Brasil, enquanto são os principais fornecedores de agrotóxicos que terminam abastecendo principalmente essa cultura. Tal dependência tende a se agravar, na medida em que crescem as possibilidades de boicote às commodities agrícolas brasileiras em outras partes do mundo, justamente por causa do uso excessivo de agrotóxicos considerados como altamente perigosos e que, por isso, já foram banidos por alguns dos principais parceiros comerciais do Brasil, a começar pela União Europeia.

Em relação aos produtos aprovados, os mesmos consistem do que pode se chamar de um “museu de velhas novidades”, na medida em que a maioria deles já estão sendo vendidos no Brasil. Entretanto, vale ressaltar a aprovação de outra formulação do herbicida Dicamba que teve sua venda proibida recentemente proibida nos EUA por ter tido seus impactos tóxicos subestimados durante o seu processo de liberação.

A verdade é que o argumento de que a verdadeira pandemia de novos agrotóxicos no mercado brasileiro, que já é o maior do mundo, serviria para trazer ao Brasil produtos mais modernos e menos tóxicos não se confirma na prática, visto que a maioria dos produtos liberados já estão no mercado. Resta saber agora se o argumento do barateamento dos novos/velhos produtos sobreviverá na prática. Aliás, há que se frisar que chega a ser inacreditável que produtos proibidos  na União Europeia estejam sendo colocados na Categoria 5  (Inprovável de causar dano agudo) para toxicidade humana no Brasil.

Quem desejar acessar a planilha específica do Ato 36, basta clicar [Aqui!]. Já para acessar a base completa de 2020, basta clicar [Aqui!]

Os impactos da COVID-19 na desigualdade de gênero dentro de lares

COVID GENERO

Por Giuliana Schunck e Tricia Oliveira, advogadas do escritório Trench Rossi Watanabe

Nos últimos anos, o mundo vem celebrando a conquista do mercado de trabalho pelas mulheres. São muitas as reportagens e notícias exaltando mulheres em cargos de liderança em grandes multinacionais ou posições políticas importantes. Tais conquistas são de extrema relevância e devem, sim, ser festejadas e propagadas, no entanto, há muito ainda pela frente a ser conquistado no âmbito da igualdade profissional e, mais ainda, no âmbito doméstico.

Em reunião com o grupo de gêneros, parte do Comitê de D&I de nosso Escritório, surgiu a discussão de como o isolamento social decorrente da pandemia da COVID-19 colocou em evidência a sempre existente desigualdade na divisão do trabalho doméstico e dos cuidados com as crianças e idosos. Antes do isolamento, apesar de a desigualdade já ocorrer, ela de certo modo era mascarada pelo fato de as crianças irem para a escola, algumas até em período integral e por vezes haver uma “participação” maior do homem que auxiliava no transporte ou em tarefas de casa, sem contar com a possibilidade de maior ajuda com profissionais que realizam tarefas domésticas (isso, claro, para uma parcela de privilegiados), muitos dos quais tiveram que ser afastados para também cumprirem o distanciamento.

Nesse momento, com todos em casa, lições remotas, sem auxilio externo, mais do que nunca se mostra absolutamente acertado o ditado que diz que “é necessária uma vila para cuidar de uma criança”, pois de fato é preciso toda a comunidade para participar dos cuidados com as crianças. Mesmo antes do isolamento, como padrão em uma sociedade patriarcal, as mulheres já tinham a maior carga de conciliar o trabalho remunerado com as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos ou parentes idosos. Com o home office, esse cenário se intensificou.

Não há dúvida de que o cenário que temos hoje em termos de divisões de tarefas aparenta ser melhor do que tínhamos há 50, 20 ou até mesmo 10 anos atrás. Mas ainda assim, a situação, talvez na maioria dos lares, é de alguma (ou até mesmo grande) desigualdade.

Na prática, o que se vê são as mães muito mais preocupadas (a chamada carga mental de pensar em tudo) e ocupadas com as questões da casa (comida, limpeza etc.), com as tarefas da escola, e com o entretenimento das crianças em tempos de pandemia.

Essa situação acaba, de forma perversa, refletindo no desempenho profissional das mulheres, que já tanto lutam para poder ocupar espaços de maior destaque, sem contar seus reflexos em sua saúde mental e física.

Uma reportagem do portal The Lily (do The Washington Post) aponta que as mulheres acadêmicas estão produzindo menos artigos científicos durante a pandemia por conta, justamente, do aumento dos cuidados domésticos. Por outro lado, homens da academia estão submetendo 50% a mais de artigos, porque supostamente têm mais tempo de dedicação ao trabalho. E essa realidade, medida no meio acadêmico, certamente pode ser transposta para diversos outros setores profissionais. Isso sem contar outras camadas da população mais vulneráveis, como as trabalhadoras informais.

A ONU Mulheres emitiu relatório sobre os impactos da COVID-19 sobre as mulheres, em diferentes aspectos, desde profissionais e de remuneração, saúde, trabalhos domésticos e não-remunerados, até questões de violência doméstica, demonstrando como esse recorte de gênero é importante e necessário durante a pandemia.  A ONU Mulheres também sugere algumas ações, tais como compartilhar os trabalhos de casa, ler, assistir e compartilhar histórias sobre mulheres, conversar sobre a desigualdade com a família, continuar o ativismo de forma online, entre outros. Mas a verdade é que a eliminação da desigualdade passa por diferentes espectros sociais.

Sem dúvida, é importante fomentar a igualdade dentro de casa, dividindo as tarefas entre parceiros, educando meninos e meninas da mesma forma, mostrando à comunidade que todos ganham em uma sociedade mais igualitária. Porém, os esforços são também importantes em outras searas, como empresas, organizações, escolas, universidades entre outras entidades. É preciso educar a sociedade, de forma geral, que pais e mães devem dividir as responsabilidades com a casa e com os cuidados dos filhos e idosos. Não há nenhuma razão – a não ser aquelas de machismo e patriarcado, – que efetivamente justifique que as mulheres sejam as cuidadoras de todos na sociedade.

Em tempos de pandemia, há de se aproveitar o momento e fomentar mudanças sociais, que inclusive já estavam ocorrendo gradualmente. Já se viu que o home office funciona e as organizações estão se tornando mais empáticas com as necessidades de seus empregados, com a flexibilidade de tempo, entre outras iniciativas que ajudam na questão da igualdade. Outras mudanças também podem acontecer na sociedade: companheiros e pais mais participativos, organizações mais atuantes e engajadas na mudança, uma sociedade mais atenta, mais aberta ao debate e à efetiva necessidade de mudança de comportamento. Esperamos que seja possível aproveitar a experiência do isolamento para que esses novos olhares e atitudes se incorporem na rotina das pessoas e empresas. Não há como voltar ao “normal” depois de tudo isso, justamente porque o “normal” não estava funcionando, impunha um peso muito maior às mulheres e outras minorias, mostrava que nossa sociedade não estava em equilíbrio.

Que possamos refletir, agir e criar uma nova maré para ser seguida por todos, modificando e melhorando a nossa sociedade.

O que o embate das cruzes em Copacabana nos ensina sobre o Brasil

As cenas do protesto realizado na Praia de Copacabana contra a gestão desastrosa da pandemia da COVID-19 pelo governo Bolsonaro já correm o mundo, como bem mostra o vídeo abaixo mostrado na Alemanha sob o título de “Túmulos em Copacabana“.

O protesto que teria sido apenas mais um foi marcado pela atuação de um apoiador do governo Bolsonaro que, inconformado, se pôs a derrubar todas as cruzes que haviam sido fincadas nas areias de Copacabana para marcar o crescente número de mortos no Rio de Janeiro e no Brasil. Esse ato de completa falta de empatia com o drama que atinge um número crescente de famílias teve como resposta a ação de um pai que perdeu seu filho de 25 anos para a COVID-19 que reagiu colocando as cruzes de pé. Esse embate acabou aparecendo também na mídia internacional, sendo mostrado como parte da corrosão de valores éticos e morais básicos no Brasil.

Pois bem, hoje o site UOL publicou uma pedagógica entrevista realizada pelo jornalista Chico Alves com o taxista Marcio Antonio do Nascimento Silva, o pai que recolocou as cruzes em pé, dando-lhe a oportunidade de explicar porque acabou reagindo da forma que reagiu em relação ao ato do apoiador do governo Bolsonaro.  Em uma retórica bastante objetiva, Márcio Antonio disse que viu um homem viu um homem atacar as cruzes que homenageavam as vítimas da pandemia, e que não hesitou em reagir, pois considerou um desrespeito às vítimas da COVID-19. 

marcio cruzesO taxista Márcio Antonio do Nascimento Silva recoloca cruzes em Copacabana, enquanto ao fundo o apoiador do governo Bolsonaro que as havia arrancado posa com a bandeira do Brasil

Um aspecto que considero como um dos mais marcante da entrevista concedida ao UOL foi quando Márcio Antonio reconheceu que “Não sei nem o que é comunismo, pra falar a verdade, eu não estudo isso. Também não chamo ninguém de fascista, porque eu não sei o que é fascismo, eu não estudo isso. Eu nunca li livros sobre isso. Agora, desrespeito eu sei o que é. Intolerância eu sei o que é“.  Talvez esteja nesta frase a resposta que muitos esperam para desenvolver uma vacina para o vírus da intolerância que possibilita a expansão desenfreada do coronavírus.  É que muitas vezes se menospreza a inteligência coletiva da população ao se procurar dar lições sobre o momento histórico que vivemos quando os enfrentamentos práticos já estão gerando o tipo de consciência que vai nos ajudar a mudar de patamar nos embates que hoje ocorrem no Brasil.

Outra passagem memorável do relato de Márcio Antonio ocorre quando ele diz que “aquele fato (a retirada das cruzes) me fez perguntar até onde chega a desumanidade de não ter empatia com o outro. Esse pessoal parece que procura inimigos o tempo todo. Todos que não pensam como eles são inimigos. Fiquei muito triste com essas pessoas, porque estou vendo isso em amigos próximos. Parece que perderam a razão, não dá nem para você conversar. Parece que não pensam mais. É puro ódio. Tudo para eles é política, mesmo onde não existe. Por isso, o ato simbólico é mais importante.” 

Podem até me chamar de empiricista, mas penso que não vai ser levando o enfrentamento na base dos chavões que vamos obter ganhos significativos na elevação da consciência política da maioria dos brasileiros. Há primeiro que se ouvir pessoas como Márcio Antônio para que se possa desenvolver as formas de diálogo que as pessoas que se dizem apolíticas (quando são na verdade despolitizados) possam abraçar para se colocar em movimento em defesa de seus direitos em uma sociedade que está sendo propositalmente levada à beira do precipício justamente para se permitir o avanço do processo de desconstrução dos poucos direitos sociais que existem no Brasil.

E antes que eu me esqueça, Márcio Antonio também condenou a apatia dos que veem os malfeitos acontecendo e a necessidade de não se ser omisso e covarde quando atos como o do embate ocorrido nas areias de Copacabana acontecem. Márcio Antonio, um pai em luto, sintetizou para quem quiser ouvir, os caminhos para a saída da crise que hoje corrói o Brasil. Que ele possa agora, ao menos, exercer o seu direito ao luto pela perda do seu filho em paz.

Quem desejar ler a íntegra da entrevista de Márcio Antonio do Nascimento Silva, basta clicar [Aqui!].

Forbes sintetiza a situação brasileira: até quando esta loucura vai continuar?

O Brasil realmente pode ser tão ruim assim, mas por quanto tempo?

bolso choro

Uma paciente do Covid-19 reage enquanto se prepara para ser transferida de barco de ambulância para um hospital em Breves … [+] AFP VIA GETTY IMAGES

Por Kenneth Rapoza para a revista Forbes

O Brasil está sendo espancado na política da pandemia, e os investidores, embora capazes de ganhar dinheiro por lá, ainda estão coçando a cabeça. Quanto tempo essa loucura pode durar?

O presidente Jair Bolsonaro está no comando. Ele é odiado pela mídia, incluindo a maioria da imprensa estrangeira que é muito crítica a ele.

Bolsonaro é fácil de criticar, é claro. Ele gosta de lutar contra a mídia e dar joelhadas no que ela diz. O coronavírus é mortal! Não, não é, é apenas um resfriado.

A revista científica britânica The Lancet, conhecida por mergulhar na política, pediu sua demissão. Não foi baseado em ciência. Foi baseado na opinião de celebridades e professores de esquerda. Não, sério.

walkingAs pessoas andam por uma rua comercial após a reabertura, no centro de São Paulo, em 10 de junho de 2020. O município de São Paulo autorizou a reabertura de ruas comerciais sob medidas de segurança, como o uso de álcool gel e máscaras faciais.  Foto de NELSON ALMEIDA / AFP (Foto de NELSON ALMEIDA / AFP via Getty Images) AFP VIA GETTY IMAGES

O Brasil está sendo completamente envergonhado pelos erros do governo Bolsonaro em combater o coronavírus, ao mesmo tempo em que é elogiado pelo mercado por fazer um bom trabalho em impedir as consequências econômicas por meio de estímulos recordes aos brasileiros, especialmente à classe trabalhadora.

As ações do Brasil, conforme medidas pelo ETF iShares MSCI Brazil (EWZ), caíram 33% no acumulado do ano, muito piores do que outros mercados emergentes no benchmark MSCI Emerging Markets. Eles caíram apenas 8,8%.

O horário de pré-mercado diminuiu o EWZ mais 6,04%, embora seja principalmente uma realização de lucros. O Brasil, como um investimento amplo, é totalmente sobrecomprado.

Em 9 de junho, a Fitch Ratings atualizou as previsões econômicas e fiscais brasileiras de estáveis para negativas. Eles reduziram a previsão de crescimento do PIB real do país em 26 de maio e isso ainda permanece em uma contração de 6% em relação aos 4% anteriormente, em grande parte devido à atual crise de saúde pública.

Brasília agora é um novo epicentro.

No geral, o país tem 772.416 casos confirmados e 39.680 mortes até quarta-feira (10/06) à noite.

As medidas de distanciamento social continuarão pesando na atividade doméstica, apesar da variação da conformidade nos estados, escreveram analistas da Fitch, liderados por Shelly Shetty, em nota aos clientes na terça-feira.

bolsaApós um grande impulso, as ações do Brasil perderam força. (Foto de Cris Faga / NurPhoto via … [+] NURFHOTO VIA GETTY IMAGES

Quão ruim isso pode ficar e quão ruim pode ser?

A contração do PIB no primeiro trimestre foi menor do que o esperado, mas quedas mensais acentuadas na produção industrial em março (9%) e abril (18,8%), queda na confiança dos negócios e do consumidor e aumento progressivo do desemprego indicam que o impacto do impacto será sentido na economia. segundo trimestre, que termina em cerca de três semanas.

As receitas do governo federal caíram 32% em abril, enquanto as despesas aumentaram 45% devido aos pacotes de ajuda. Isso resultou em um déficit fiscal recorde de R $ 93 bilhões (US $ 18,6 bilhões) em abril, observa Gustavo Medeiros, analista da Ashmore, especialista em mercados emergentes em Londres.

A produção industrial caiu 18,8% em abril, a pior queda já registrada, “mas isso foi melhor do que a expectativa de um declínio de 28,3% do consenso”, diz Medeiros.

Uau …

O Brasil voltou a ser uma jogada da China. A recuperação chinesa é boa para as exportações brasileiras – todas commodities, é claro. A China importa principalmente soja e minério de ferro brasileiros.

Mas, à medida que o sul e o sudeste do Brasil se curam, e esses são os motores econômicos do Brasil, o país deve ter uma sensação de normalidade nas próximas quatro semanas, mesmo que o coronavírus se manifeste nos estados do centro-oeste a seguir.

O alto custo de capital no Brasil prejudicou a inovação e o empreendedorismo local no passado, mas as taxas de juros nunca foram tão baixas quanto são agora.

As empresas podem emprestar mais barato agora.

Para Wall Street, o argumento é que Bolsonaro pode ser uma biruta, mas investir no Brasil é mais atraente do que nunca. Os mercados estão procurando uma mudança de momento. O Brasil tem sido um trem descontrolado. É hora de pisar no freio. Mas isso não vai durar para sempre. Nem o coronavírus,  por mais ruim que esteja no Brasil.

“De nossa perspectiva de baixo para cima, estamos entusiasmados com as oportunidades em todo o universo de investimentos, onde quer que as encontremos”, diz John Paul Lech, gerente de fundos de mercados emergentes da Matthews Asia.

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela revista Forbes [Aqui!].

Em plena pandemia, atos públicos contra o governo Bolsonaro ocorrem em todo o Brasil. A democracia brasileira respira

wp-1591565026599.jpgTomada aérea do ato público em defesa da democracia em Brasília.   Foto: Ricardo Stuckert.

Encarando uma pandemia letal, ameaças de truculência policial e pedidos de intelectuais tensos com a possibilidade de um golpe militar, milhares de pessoas saíram às ruas de cidades brasileiras neste domingo em defesa da democracia (ver cenas do ato realizado em Brasília).

Ainda que não seja possível realizar um balanço definitivo em termos numéricos, especialmente na comparação daqueles que saíram às ruas nos últimos meses para defender o fechamento do congresso nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), o que temos no Brasil é uma situação alvissareira, pois depois de quase um ano e meio de contenções e recuos,  aparecem os primeiros sinais de que haverá reação de massas ao “não projeto”  do governo Bolsonaro (que é só um governo de negações e não de proposições para resolver a grave crise econômica, política e sanitária que temos no Brasil neste momento).

Ato antirracismo na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio Foto: Bruno MarinhoAto em defesa da democracia na Avenida Presidente Vargas na cidade do Rio de Janeiro. Foto: Bruno Marinho

Um dos aspectos mais óbvios dos atos do dia de hoje é que a maioria deles (a exceção foi no Rio de Janeiro onde a Polícia Militar usou da usual força excessiva contra os manifestantes em um aparente esforço de diminuir a afluência aos atos que acabaram ocorrendo em diferentes pontos da cidade) transcorreu de forma pacífica, sem uma intervenção truculenta das forças policiais, como temia o cientista político Luiz Eduardo Soares (abaixo uma imagem do ato realizado no Largo da Batata em São Paulo mostrando os cantores rap Mano Brown, Thaíde e Dexter)

wp-1591565295544.jpgMano Brown, Thaíde e Dexter participam do ato público no Largo da Batata em São Paulo.

Ainda que seja cedo para fazer maiores análises sobre o porquê da aparente tranquilidade dos atos de hoje, eu me arriscaria a dizer que muito disso teve a ver com a ação desastrada do Ministério da Saúde que criou uma espécie de vazio informacional sobre a situação da pandemia da COVID-19, e colocou o governo Bolsonaro sobre uma pressão cada vez maior perante a maioria da população no tocante à qualidade da gestão realizada para evitar o avanço desenfreado do coronavírus no Brasil.

Esse novo desgaste não só empurrou mais gente para protestar contra o governo federal para as ruas, como também inibiu parte da truculência que se dizia estava preparada para ocorrer, inclusive abrindo as portas para um golpe militar segundo Luiz Eduardo Soares.

O avanço da pandemia e o aumento do número de mortos ainda colocará muita pressão não apenas sobre o governo federal, mas também sobre governadores e prefeitos que decidirem relaxar o isolamento social em um momento em que a curva de contaminação continua em franca ascendência.

Por mais arriscado que tenha sido para os participantes dos atos de hoje, o fato é que essa coragem de enfrentar o vírus e as ameaças de truculência mostra que, como eu já disse aqui, o jogo em defesa da democracia continua sendo jogado. E como mostram as cenas nos EUA e em outras partes do mundo, é bem possível que os opositores do governo Bolsonaro saiam rapidamente da posição defensiva para outra mais questionadora do estado de coisas que vige neste momento no Brasil.

Minas de carvão podem ser novo foco de COVID-19, alerta entidade

Trabalho em locais subterrâneos e aglomerados favorece surtos de doenças respiratórias

Carvão-1

Contaminações pelo novo coronavírus estão aumentando em minas de carvão em todo o mundo. Embora os dados sobre surtos não tenham sido disponibilizados de maneira transparente e sistemática, o Global Energy Monitor documentou mais de uma dúzia de minas com surtos confirmados desde o final de março. A necessidade de trabalhar em ambientes apertados ou subterrâneos é apontada como condição crítica para o espalhamento da doença entre os trabalhadores.

Os casos foram verificados na Polônia, República Tcheca, Turquia, Índia, EUA e Rússia. A maioria dos casos foi relatada na Polônia (16% do total de casos no país) e na República Tcheca – as duas nações somam quase 4 mil casos. Já os países com o maior número minas de carvão subterrâneas – China, Índia e Estados Unidos – forneceram muito pouca informação sobre a prevalência da doença nesses locais.

“Por mais alarmantes que sejam os muitos casos que já estamos vendo, é provável que seja apenas a ponta do iceberg, devido a uma cultura de sigilo que assola a indústria: sete milhões de pessoas trabalham em minas de carvão em todo o mundo, mais da metade no subsolo”, explica Ted Nace, diretor executivo do Global Energy Monitor. “As empresas de mineração de carvão devem adotar imediatamente uma postura de transparência”, declara.

Em todo o mundo, mineradores de carvão e sindicatos passaram a protestar publicamente contra o risco de exposição à doença. Esses trabalhadores têm maior incidência de doenças respiratórias em relação à população geral. No caso específico da COVID-19, o setor de mineração não tem divulgado a extensão dos testes realizados nesse grupo, dificultando a modelagem das taxas de transmissão. As minas de carvão continuaram a operar como atividades essenciais em muitas partes do mundo durante a crise do novo coronavirus, escapando de bloqueios nacionais, os chamados lockdowns.

Os primeiros casos de COVID-19 em minas de carvão foram relatados em 30 de março, quando dois mineiros da companhia Bailey Mine da Consol Energy Inc. na Pensilvânia, EUA, testarem positivo para a doença. Desde então, operadores nos Estados Unidos passaram a implementar quarentenas e bloqueios para minimizar a exposição, decisão também adotada na Índia. Na Turquia, o governo proibiu viagens à província da mina de Zonguldak devido ao alto número de casos na região.

“Os mineiros de carvão lutam há gerações para proteger sua saúde e segurança no trabalho e esses trabalhadores merecem relatórios transparentes sobre os surtos de COVID-19”, afirma Ryan Driskell Tate, analista de pesquisa no Global Energy Monitor. “Vimos na Polônia e na República Tcheca que as minas de carvão estão na iminência para se tornarem focos de coronavírus. Como os cientistas pedem mais testes e rastreamento de contatos para impedir a propagação do vírus, é imperativo que as empresas de carvão e as agências reguladoras mantenham o público informado sobre o que está acontecendo nesses locais de trabalho e nas comunidades”, completa.

O Global Energy Monitor é um think-tank sediado nos EUA, sem fins lucrativos e que desenvolve pesquisas sobre combustíveis fósseis em todo o mundo. Por meio da plataforma Global Tracker (GCPT), a entidade produz dados do setor que são usados por organismos multilaterais como a Agência Internacional de Energia (AIE), a Diretoria de Meio Ambiente da OCDE, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Banco Mundial, além do Departamento do Tesouro dos EUA.

Os impactos do COVID-19 nas minas de carvão continuarão sendo rastreados aqui: http://www.gem.wiki/Coal_Mine_Impacts_from_COVID-19

As informações produzidas pela entidade são licenciadas pela Bloomberg LP e UBS Evidence Lab e são usados ​​pela Economist Intelligence Unit e pela Bloomberg New Energy Finance.

Informações detalhadas: surtos de COVID-19 em minas de carvão

# 1 POLÔNIA

No final de abril, a maior mineradora estatal de carvão da Polônia, a Polska Grupa Górnicza (PGG), suspendeu operações em três minas de carvão devido à disseminação de COVID-19 entre seus trabalhadores: na mina de Jankowice, 204 mineiros testaram positivo; na mina de Sośnica, 53; e na mina Murcki-Staszic, foram 38 casos.

Outra estatal de carvão, a JSW SA, relatou 1.648 casos confirmados entre funcionários nas minas de Pniowek, Jastrzębie-Bzie, Budryk e Borynia-Zofiówka. Devido à rápida disseminação de casos, o governo polonês anunciou em 7 de maio que passaria a testar mil mineiros por dia em sistemas de drive-through. Em 26 de maio, cerca de 3.640 mineiros de carvão e membros de suas famílias já tinham contraído o vírus, compreendendo cerca de 16% dos casos do país.

# 2 REPÚBLICA CHECA

Em 19 de maio, um surto de casos na mina de Darkov, perto da cidade de Karvina, foi responsável pelo registro diário de casos de COVID-19 na República Tcheca. Inicialmente 139 mineiros de carvão testaram positivo, e o número subiu para mais de 212 após a realização sistemática de testes nos trabalhadores e suas famílias. A empresa OKD, que opera a mina, suspendeu as atividades e pediu assistência dos médicos do exército tcheco.

# 3 ESTADOS UNIDOS

Em 30 de março, a mineradora Bailey Mine da Consol Energy Inc., na Pensilvânia, suspendeu as atividades após dois trabalhadores terem testado positivo para COVID-19. No mesmo dia, cinco mineradoras de carvão da Virgínia interromperam as operações para impedir a propagação de coronavírus entre os trabalhadores, nas minas de Buchanan No.1, Osaka, Pombo Creek, North Fork e D-31.

Em 21 de abril, a mina Arch Coal Inc.’s West Elk, no Colorado informou ter quatro funcionários infectados, e no Alabama, duas minas também registraram casos em abril (Peabody Energy’s Shoal Creek e Warrior Met Coal’s, mina número 7).

Em maio, a Administração de Saúde e Segurança de Minas dos EUA (Mine Safety andHealth Administration) anunciou que estava coletando dados sobre as taxas de infecções por COVID-19 em minas de carvão do país. Antes, em abril, funcionários da entidade disseram a imprensa que as planilhas com informações sobre a COVID-19 no setor seriam mantidas sob sigilo. Até o momento, nenhum número foi divulgado oficialmente.

# 4 ÍNDIA

Em 2 de abril, a mineradora Singareni Collieries Company Limited (SCCL) demitiu seus mineiros subterrâneos no estado de Telangana, na Índia, para mitigar a disseminação do COVID-19. Os dados do Global Energy Monitor indicam que a empresa opera duas dezenas de minas subterrâneas no estado e produz 27 milhões de toneladas de carvão por ano. De acordo com Miriyala Raji Reddy, líder sindical, cerca de 2.000 mineiros estavam envolvidos em operações subterrâneas no momento das demissões. Em 3 de abril, a Coalfields do Sudeste Limited, maior produtora de carvão do país, ordenou que 83 funcionários ficassem em quarentena depois de terem participado de uma cerimônia religiosa em que foram expostos a um portador do vírus.

# 5 TURQUIA

Em abril, o Presidente Recep Tayyip Erdoga incluiu a região mineira de Zonguldak no rol de proibições de viagens interurbanas e impôs um toque de recolher de fim de semana devido à “prevalência de doenças pulmonares” na região. Zonguldak, maior produtora de carvão metalúrgico na Turquia, relatou 463 casos COVID-19.

Contato para entrevistas: Ryan Driskell Tate, Research Analyst Global Energy Monitor. ryan.driskell.tate@gmail.com +1-763-221-3313

Depoimento para marcar as 30.000 mortes por COVID-19 no Brasil

30 MIL

Meu depoimento para marcar o dia em que o Brasil ultrapassou a marca de 30 mil mortos pela COVID-19, gravei o depoimento que segue abaixo. É preciso lembrar que o Brasil sequer chegou ao pico da curva de contaminação, o que torna imprevisível neste momento quantos brasileiros serão infectados e quantos morrerão pela infecção da COVID-19.

Uma imagem vale mais do que milhões de palavras para demonstrar a letalidade da COVID-19

Das lentes do fotógrafo Edmar Barros, o mesmo cemitério com 37 dias de separação, a clareza do impacto da COVID-19 em um cemitério em Manaus, capital do estado do Amazonas.

mesmo cemitério

Diante dessa evidência irrefutável da letalidade da COVID-19, especialmente entre os mais pobres, é que me parece que qualquer tentativa de flexibilizar o isolamento social no Brasil neste momento não pode ser caracterizado como algo menos do que um genocídio.

Por isso, aos leitores deste blog, reforço que é fundamental continuarmos o trabalho de solidariedade que é convencer todos os que são próximos, e também não tão próximos, que não é possível relativizar a gravidade que a pandemia da COVID-19 assumiu no Brasil. Cuidar de si e todos os que forem possíveis de serem alcançados. Depois a gente faz os devidos acertos políticos com quem permitiu que essa situação alcançasse o nível que está alcançando.

Cenas brasilienses mostram começo da reação política a Jair Bolsonaro

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Apesar de todos os riscos envolvidos na realização de aglomerações no Brasil neste momento de aceleração da pandemia da COVID-19, as imagens abaixo demonstram que o inconformismo que graça na sociedade brasileira em relação ao percurso adotado pelo governo Bolsonaro já está começando a extravasar para espaços públicos. 

Nenhuma descrição de foto disponível.

As imagens abaixo vêm da área dos palácios que expressão os três poderes da república em Brasília e trazem mensagens claras para o presidente Jair Bolsonaro.  Importante notar que essa manifestação ocorre no mesmo dia em que uma pesquisa de opinião realizada pela  XP/Ipespe mostrou uma aceleração significativa nos níveis de desaprovação do presidente Jair Bolsonaro e sua forma de tratar a pandemia.

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Como o isolamento social tem impactado no meio ambiente?

Em um mês de quarentena, uma única pessoa pode deixar de emitir cerca de meia tonelada de CO2

Pandemia-reduz-poluição-do-arSatélite mostra a redução de CO2 no planeta.  Foto: Reprodução/Web

Por Rafael Castelo*

A pandemia de coronavírus fez com que o mundo enfrentasse uma realidade totalmente inesperada. A cidade de São Paulo, por exemplo, que possui algumas das ruas e avenidas mais movimentadas do planeta, chegou a registrar 0 km de trânsito durante vários dias após o início da quarentena decretada no dia 24 de março. Os dados são da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Não coincidentemente, os números oficiais divulgados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) apontam que o índice de poluentes liberados diretamente no ar apresentou diminuições sensíveis, perto de 50%, neste período de isolamento.

Segundo o Relatório de Emissões Veiculares da CETESB, o Estado de São Paulo detém cerca de 40% da frota automotiva do país e chega a emitir, em um ano, mais de 400 toneladas de CO2. Um cálculo simples pode nos ajudar a entender o impacto de um único veículo a menos nas ruas.

Imagine que uma pessoa vá trabalhar usando seu veículo próprio todos os dias, e que a distância média entre o trabalho e sua casa é de 10 Km, portanto em ida e volta, serão 20 Km por dia. Considerando que esta pessoa trabalhe 22 dias uteis por mês, utilizando um veículo básico, flex 1.0, ela emitira 0,43 toneladas de CO2 (dióxido de carbono) por mês. Para compensar esta emissão seriam necessárias aproximadamente 3 árvores.

Ilhas de calor

Por sua vez, a queda na taxa de poluição, além de melhorar a qualidade do ar, também diminui a formação de ilhas de calor, fenômenos climáticos que ocorrem principalmente nas cidades com elevado grau de urbanização e se caracterizam por apresentar uma temperatura média mais elevada do que nas regiões rurais próximas.

A formação e presença de ilhas de calor no mundo são negativas para o meio ambiente, pois favorecem a intensificação do aquecimento global, e faz com que a umidade relativa do ar fique baixa nestas áreas.

A cidade de São Paulo também costuma sofrer muito com esse fenômeno, por sua grande concentração de asfalto (ruas, avenidas) e concreto (prédios, casas e outras construções), além do alto nível de poluição já comentado.

O que a quarentena nos deixa de lição?

Nesse período, percebemos que muito paradigmas e pré-conceitos quanto ao trabalho remoto foram desmistificados. As pessoas, e as empresas, perceberam que o que antes parecia improvável, e talvez impossível, tornou-se, por obrigação, possível e viável. Talvez esse seja um caminho sem volta.

Manter o trabalho remoto para as atividades que se mostraram viáveis durante o isolamento pode gerar ganhos mútuos para as empresas e colaboradores.

Podendo dispor de menos espaços físicos para alocar pessoas, horários mais flexíveis e uma infraestrutura mais simples e econômica, a empresa conseguirá gerar ganhos de produtividade e redução de custos e despesas. Para o indivíduo, passar um tempo muito menor no deslocamento, organizando melhor sua rotina de trabalho, é uma vantagem significativa.

E também há ganhos para as cidades: com uma ampliação desta modalidade de trabalho, as vias ficam mais liberadas (gerando redução de emissões de poluentes e economia no consumo de combustíveis) e a demanda pelo transporte público é reduzida (gerando uma oferta mais eficiente e racional). Ou seja, pontos importantes que não podem ser negligenciados.

* Rafael Castelo é professor do departamento de Engenharia Civil do Centro Universitário FEI.

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