Em tempos de Coronavírus, o Brasil é o país da subnotificação e da falta de prevenção

corona02Sem testagem em massa e com uma rede de saúde insuficiente, o Brasil não terá como saber o número de infectados por coronavírus

Em meio às manifestações de empresários, políticos, e do presidente da república Jair Bolsonaro no sentido de que a pandemia do coronavírus não é o bicho papão que os governos do resto do mundo estão fazendo parecer (o da Índia, por exemplo, acaba de colocar 1,3 bilhão de pessoas em confinamento total). 

Um grande problema para qualquer apreciação realista da amplitude que a pandemia do coronavírus poderá ter no Brasil é o fato de que os sistemas de controle para detectar se os indivíduos estão doentes ou não são historicamente falhos.

Tomemos por exemplo o caso das notificações de intoxicação por agrotóxicos.  Em 2015, a pesquisadora Rosany Bochner, vinculada ao Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnologia em Saúde (Icict/Fiocruz) e  então coordenadora do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox),  trouxe à tona um problema grave de saúde pública. A partir de dados coletados pelo Sinitox, Bochner chegou à conclusão de que para cada caso de intoxicação registrado (ou seja notificado), outros 50 casos passavam em branco, gerando uma estrondosa taxa de subnotificação de 50:1.

No caso do coronavírus, esta subnotificação estaria no Brasil na ordem de 11:1 segundo estudo realizado pelo insuspeito Centro para Modelagem Matemática de Doenças Infecciosas (CMMDI)  da London School of Tropical Medicine, do Reino Unido, que fez um cálculo da subnotificação da COVID-19 em vários países. O levantamento feito pelo CMMDI sugere que no Brasil apenas 11% do total de casos  teriam sido diagnosticados. Como a testagem por aqui ainda está sendo restrita aos casos que já deram entrada em hospitais, os dados do CMMDI também poderia estar subestimados, pois efetivamente não há um controle sobre aqueles que já foram infectados e não atingiram o grau necessário para procurarem unidades hospitalares.

Supondo que a incidência real de infectados por Coronavírus esteja na faixa de 11% a 50% do número sendo difundido pelo Ministério da Saúde até agora, o que temos pela frente é efetivamente um desafio que a nossa rede de hospitais não tem como enfrentar sem que ocorra um grande números de óbitos. Há que se notar que o total de mortes não ficará nos números estimados pelo proprietário da rede Madero que estimou que teremos algo entre 5.000 e 7.000 fatalidades causadas pelo coronavírus até que haja o achatamento da curva.

Para que se veja o tamanho do problema que se aproxima no horizonte, o site “The Intercept Brasil” publicou hoje uma matéria indicando que um relatório da Agência Brasileira de Informação (Abin), se a mesma curva de progressão de países como China, Itália e Irã for aplicada, o nosso país chegará a 6 de abril com 5.571 mortos e 207.435 casos de infectados pela doença. Também é importante notar que as curvas dos países citados tem possui uma taxa de subnotificação, o que torna as previsões da Abin ainda mais graves.

evolução coronavírus

Fonte: Abin, 22/03/2020

Então como explicar as manifestações do presidente Jair Bolsonaro e de determinados empresários de que governadores e prefeitos estão exorbitando em face de uma “gripezinha”?  Como a matéria do “The Intercept Brasil”,  pelo menos o presidente Jair Bolsonaro não o faz por falta de informações já que ele recebeu o citado relatório da Abin.  Daí que o motivo para tentar reabrir o que está fechado, desconsiderando o efeito que teria sobre o agravamento da difusão já subnotificada da pandemia do coronavírus, atende a outros interesses que não o da saúde da maioria do povo brasileiro.  Quais interesses são esses é que esta aberto para debate, pois quanto ao tamanho do desafio que estamos enfrentando não há.

 

Porto do Açu vira foco potencial do coronavírus no Norte Fluminense

Este blog vem desde sua criação acompanhando e notando várias das mazelas envolvendo a implantação e funcionamento do Porto do Açu que está localizado no município de São João da Barra na região Norte Fluminense.

Aqui já se falou sobre desapropriações escabrosas, greves causadas por violações dos direitos trabalhistas, contaminação de águas por sal oriundo do aterro hidráulico, erosão costeira, várias das mazelas mais evidentes que o Porto do Açu trouxe para São João da Barra.

Mas eu realmente não esperava que o Porto do Açu também se transformasse em um ponto focal para a disseminação da pandemia do coronavírus em função da insensibilidade e descaso de empresas que ali operam com a saúde de seus trabalhadores. Contudo, hoje o jornalista Roberto Barbosa informou em matéria publicada no cadernos Cidades do jornalO REBATE que as empresas TechnipFMC e a Gercon, duas empresas que operam juntas no Porto do Açu, e estão tentando os seus trabalhadores dentro de expediente normal, apesar da orientação governamental seja para que todos fiquem em casa.

porto do açu

Se esta situação não for revertida, o risco que corremos é que todos os bons esforços que estão sendo realizados nos municípios que circundam o Porto do Açu para conter a expansão do coronavírus serão inúteis, já que ao retornar para suas casas os trabalhadores do Porto do Açu poderão agir como difusores (ainda que contrariados) do vírus que hoje aterroriza o mundo inteiro.

Aguardemos o que farão as autoridades que hoje se debatem com a calamidade sanitária que está foi deflagrada pela chegada do coronavírus no Norte Fluminense.

Em meio à pandemia, Bolsonaro edita MP que permite suspender contratos de trabalho por 4 meses

bolsonaro vendaJair Bolsonaro, indo de encontro ao que resto do mundo está fazendo, pune ainda mais a classe trabalhadora ao permitir a suspensão de contratos de trabalho em meio à pandemia do coronavírus

Seguindo os passos diametralmente opostos da maioria dos governos mundiais que estão liberando grandes volumes de dinheiro para proteger os trabalhadores, o presidente Jair Bolsonaro fez publicar uma Medida Provisória (a MP 927) que permitirá aos patrões suspender por até 4 meses o contrato de trabalho de seus empregados, segundo informam os jornalistas William Castanho e Alexa Salomão em matéria publicado pelo jornal “Folha de São Paulo”.

mp suspensão

Que Jair Bolsonaro possui uma grande dívida política com as elites nacionais não há dúvida. Sem o dinheiro e o apoio político dos ultrarricos brasileiros nas eleições de 2018, é bem possível que hoje tivéssemos um  outro presidente no Brasil neste momento.  E como naquela máxima de quem “paga a orquestra, escolhe a música”, o governo Bolsonaro acaba tentando jogar sobre as costas dos trabalhadores o ônus de uma pandemia que continua a ser negligenciada por Jair Bolsonaro, que a a apresenta como uma “gripezinha“.

O problema é que o Brasil possui uma das maiores concentrações de renda do planeta, o que possibilita que nesta hora de grande dificuldade, o patronato possa ser chamado a dar a dose de sacrifício que as vastas fortunas acumuladas às custas do suor alheio permite.  Como disse o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, em relação aos ricos salvadorenhos, os ricos podem viver facilmente por várias gerações com uma perda mínima nas suas fortunas neste momento.

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Já os trabalhadores, cujo volume de sacrifícios tem sido gigantesco ao longo dos últimos anos, já se encontravam em graves dificuldades antes da erupção da pandemia do coronavírus.  Esperar que eles aceitem ficar com contratos suspensos (e sem salários) é uma grande maldade que, entretanto, poderá gerar uma convulsão social sem precedentes na história do Brasil. Assim, até por motivos de autopreservação, caberá ao grande empresariado brasileiro recusar esse passe livre que está sendo ofertado pelo governo Bolsonaro. É que não haverá como impedir saques a supermercados e empresas se esse plano  sinistro for concretizado.

Da Revolta da Vacina às praias lotadas: do que riem aqueles que desafiam uma pandemia

wp-1584877198437.jpgGravura que retrata a “Revolta da Vacina” que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro em 1904.

Por Luciane Soares da Silva*

Não há como pensar o coronavírus e a descrença por parte da população sem lembrar das razões pelas quais esta parcela, principalmente do povo, não acredita que algo possa acontecer. Os áudios que tenho recebido apresentam um hipotético carioca desconstruindo por dois minutos toda a gravidade da pandemia. Este carioca afirma que  seria necessário, para o vírus firmar-se no país, aguentar engarrafamento na avenida Brasil, Luís Paulo Conde, Rosinha Garotinho, Pezão, Sérgio Cabral, Crivella, Eduardo Paes, a família Bolsonaro e sua relação com a milícia, a crise hídrica vivida recentemente na cidade, a Igreja Universal. E ainda, o Comando Vermelho, o Terceiro Comando, o Comando Amigos dos Amigos, o Primeiro Comando da Capital e a Assembleia Legislativa. E o que seria um vírus diante do cotidiano do enfrentamento com a Polícia Militar?  Ao relembrar o sumiço das vigas da Perimetral e as falsas notícias nas eleições, completa sua fala com a condição do transporte público em bairros como Bangu. Para uma população que convive com tiroteios, que gravidade poderia superar sua realidade concreta?

No final de década de 1980, em um país com boa parte da população vivendo nas cidades, mas com práticas herdadas do mundo rural, as formas de cura eram absolutamente fundadas na ação de benzedeiras, na frequência a terreiros de candomblé e umbanda, nas operações feitas pelo espaço, como as operadas pelo doutor Fritz. Além disto, centros espíritas eram responsáveis por passes, tratamentos e sessões de psicografia que explicavam aos familiares as razões da morte de um ente querido. Importante lembrar que no Brasil em 2014, um advogado apresentou uma carta psicografada em um processo de homicídio. Ela foi aceita como prova testemunhal em Uberada . E muitos advogados antes deste se valeram do mesmo expediente.

A criação das Faculdades de Medicina no Brasil foi tardia, ocorrendo apenas com a chegada de D. João VI em 1808. A preocupação dos primeiros estudiosos, ocupava-se mais com temas de medicina legal e em como “curar um país doente”.  O importante aqui é compreender como a relação entre povo e doença é estabelecida em pesquisas que advogavam os males sustentados no sangue que era apresentado enquanto raça. Ou melhor, cruzamento racial e degenerescência.

Todos conhecemos popularmente expressões como “raça ruim”. E conhecemos também as formas pelas quais as populações acessaram a cura e as formas de tratamento ao longo destes séculos. O privilégio de acesso médico criou em cidades do interior e figura do “doutorzinho”. O médico, branco, filho de algum fazendeiro que voltava à pequena Ilhéus, ou a pequena Itaperuna para praticar a medicina. Existia no Brasil também a figura do médico vocacionado que bradando contra o poder, aliava sua medicina ao combate a fome e ao analfabetismo. Era o sanitarista, o médico que cobrava pouco, uma espécie de vocacionado social. Em outros casos, era o “milagreiro” como José de Camargo, um ex-escravo que construiu uma igreja em Sorocaba, incomodando a elite católica local e nacional. Sem cobrar pela cura.

Seria impossível encontrar entre as classes populares até a década de 1990, alguém que não conhecesse de alguma forma o médium Chico Xavier. E não era incomum encontrar entre as famílias católicas brasileiras, pessoas que já tivessem recorrido a psicografia e aos centros de passe existentes em todo o Brasil. Centros administrados por engenheiros, médicos, advogados que encontravam ali, uma forma segura de fazer caridade ao próximo sustentados pelas leis de Alan Kardec. Estes centros sobreviveram e existem até hoje em muitas cidades do Brasil. E são eles, junto com as igrejas neopentecostais que produzem as narrativas mais próximas do povo de como tratar doenças que ao fim, estão na alma e por isto, exigem fé. A fé sempre foi um vetor de organização social e política no Brasil. Se a pobreza é a condição de entrada para o reino do céu católico, a doença tem uma função essencial para purgar pecados, destas e de outras vidas. Assim, como a morte é um destino seguro para os que acreditam. Não há como vencer estes discursos sem compreender sua sustentação. Não são crendices e tampouco ignorância. Porque asseguraram a vida de gerações. Ervas, orações, chás, remédios caseiros aliados a certeza de quem não teria mais outra possibilidade a não ser esta aposta.

Uma busca rápida com os termos “descrença” e “coronavírus”  é reveladora. De manchetes sobre população exposta a constantes intervenções policiais e tiroteios, da descrença nos políticos, da descrença na mídia e na justiça. A quantidade de situações absurdas de mortes sem resolução e a continuidade de práticas antidemocráticas parece enfraquecer o apelo de que “é um momento de união”.

Para fechar este texto, volto ao cenário da Revolta da Vacina na capital federal em 1904. O próprio nome remete a uma revolta popular contra a vacinação obrigatória. Mas não são poucos os pesquisadores, principalmente historiadores que observam outras variáveis tais como : a obrigatoriedade aliada a presença policial na entrada em casas do centro da cidade, uma nova ordem econômica mundial que impõe uma compreensão de ciência, empregada pelo Estado sem preocupação com a informação à população, o remodelamento de áreas centrais com expulsão de seus moradores, o alto preço dos alimentos, o alto preço dos aluguéis aliado a crescente especulação imobiliária[1].

Um dos fatos essenciais para entender a relação entre ciência e fé: a varíola para muitos dos moradores negros da área portuária estava sob a proteção de  Omulu, dentro do panteão africado, ligado a saúde e a doença. Ao evocarem tambores e sofrerem a repressão das autoridades policiais, aumentaram a fúria da população. Dados oficiais dão conta de 200 mortos e vários feridos e presos.

A informação contra o coronavírus é parte essencial de seu combate. Mas fica evidente a cada dia que questões básicas sobre saúde, saneamento e  emprego e renda serão temas mobilizados no cotidiano. As resoluções dadas as condições básicas de saúde da população não excluem a debate sobre periferias, acesso a saúde e formas de comunicação. Por isto, não se trata de simples ignorância do povo ou má fé. Trata-se de pensar a relação entre Estado e sociedade civil. Crença e capacidade de ação.

[1] Para mais informações ler A Revolta contra a vacina: A vulgarização científica na grande imprensa no ano de 1904, de Aline Salgado, disponível em https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/31112/2/dissertacao_aline_salgado.pdf

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*Luciane Soares da Silva é docente do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

O potencial devastador do coronavírus sobre os pobres e o que isso nos diz sobre o futuro do Brasil

Tendler-2Os chamados para distanciamento social ignora as flagrantes diferenças econômicas que separam ricos e pobres nas cidades brasileiras

Estou há alguns dias aplicando regras de distanciamento social que poderão me poupar da contaminação por coronavírus.  Essa distância foi facilitada por decisões do governo Witzel e da reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sendo uma delas a possibilidade de que eu possa trabalhar na modalidade de “home office”  Como possuo carro, não estou tendo que utilizar os precários serviços de transporte público que existem em Campos dos Goytacazes. Por fim, moro em uma casa ampla que compartilho com uma gata, e aqui não há falta de espaço para nós dois.

Essas condições descritas acima mostram como sou um privilegiado, e como as condições pelas quais estou me preparando para a pior fase da pandemia do coronavírus me diferencia de milhões de brasileiros que vivem em habitações diminutas, sem esgotamento sanitário e com acesso precário a água. De quebra, muitos desses brasileiros não possuem fonte de renda, não tendo como se alimentar e, em consequência, não possuem as reservas energéticas para manter seus sistemas imunológicos funcionando de forma adequada.

Não podemos nos enganar ou tentar enganar. Neste momento, milhões de brasileiros pobres estão sendo contaminados pelo coronavírus, e em breve isto se tornará evidente, formando uma onda de doentes que precisará acorrer ao sistema público de saúde. O problema é que os serviços públicos de saúde foram gravemente sucateados que já se encontram sob forte pressão de outras epidemias que correm o Brasil de uma forma relativamente silenciosa, a começar pela dengue e chegando na tuberculose.  O quadro que se desvela é, desta forma, assustador, principalmente para os habitantes das áreas mais pobres das nossas cidades.

Enquanto isso, ao contrário da maioria dos governos mundiais, o do Brasil se comporta com insensibilidade e indiferença singulares, enquanto tenta aprofundar as reformas ultraneoliberais que foram iniciadas no governo de Michel Temer.  Assim, em vez de assegurar renda mínima para todos os brasileiros pobres, as medidas anunciadas pelo dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, indicam ainda mais ataques contra os direitos sociais e trabalhistas de que os trabalhadores ainda possuem. As parcas medidas adotadas por Paulo Guedes vão no sentido de proteger os interesses das grandes corporações financeiras que controlam a economia brasileira com mão de ferro.

Por outro lado, os panelaços que ocorreram por duas noites seguidas, mormente nas áreas ricas das principais cidades brasileiras, revelam que uma parcela significativa dos que elegeram Jair Bolsonaro presidente começou a se descolar do programa ultraneoliberal de Paulo Guedes.  Esse descolamento vai se aprofundar quando os efeitos econômicos da pandemia do coronavírus se agravarem, pois esses setores já se encontram estressados por uma recessão que se prolonga desde o início do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Entretanto, não há ainda uma pressão organizada que possa impor a quebra do teto de gastos que hoje asfixia o SUS e impede uma resposta ampla que impeça que o Brasil seja engolido pelo tsunami que o coronavírus irá criar sobre um sistema de saúde que já funciona em condições crítica.  Desta forma, a principal tarefa política do momento é garantir que haja dinheiro para dotar a rede pública de saúde dos equipamentos e insumos que serão necessários para impedir que o Brasil viva uma crise sanitária sem precedentes.

Finalmente, não haverá como conter esse cenário quase apocalíptico se não houver a devida solidariedade social com os mais pobres que hoje se encontram totalmente despreparados para enfrentar esta pandemia. Se não praticarmos solidariedade de forma genuína, que pelo menos façamos em nome da sobrevivência e a saúde de nossas próprias famílias.  É que não haverá como impedir as piores projeções do impacto do coronavírus no Brasil se os pobres forem deixados à mercê da própria sorte.

Não, a mídia não está exagerando em relação à pandemia do Coronavírus

pandemia

Vindo de diferentes segmentos da sociedade brasileira, estamos ouvindo a afirmação de que a pandemia causada pelo Coronavírus não é o bicho papão que mídia estaria fazendo crer. A essas pseudo vozes de uma razão irracional que não, a mídia não está exagerando em relação ao grave problema de saúde coletiva que está forçando países inteiras a simplesmente fecharem seus cidadãos em casa para diminuir a velocidade do contágio. 

Um dos problemas do Coronavírus, especialmente em países que privatizaram as suas redes de saúde e enfraqueceram o serviço público é que agora há um inevitável choque entre a demanda do bem comum e o único interesse dos capitalistas que controlam a maioria dos hospitais que é simplesmente aumentar suas taxas de lucro.

Por causa desse desencontro entre o bem comum e a busca do lucro que a Espanha acaba de nacionalizar (em outras palavras colocou sob controle do Estado) a rede particular de saúde do país para melhor fazer frente aos desafios postos pela pandemia do Coronavírus.

Mas voltando ao Brasil, o que estamos vivenciando é uma demora em determinar medidas duras para diminuir a circulação de pessoas, o que poderá elevar o número de óbitos de forma exponencial. É que, como já mostrou com extremo sucesso a Coréia do Sul, a ferramenta mais eficaz para diminuir a sobrecarga dos hospitais é diminuir a circulação de pessoas logo no início do surto. Ao não fazer a mesma coisa que os coreanos do sul, estamos criando uma bomba de tempo que rapidamente explodirá e deixará nossas cidades em situação de calamidade pública.

O caso brasileiro é ainda complicado pelo fato de que cerca de 100 milhões de pessoas não possuem serviços de esgotos, enquanto que 35 milhões não possuem fontes de água de tratada. Essa precariedade total impedirá que uma parcela significativa da população não possa realizar as medidas profiláticas básicas para se proteger do coronavírus, aumentando ainda a possibilidade contaminação dos que possuem.

Para complicar o que já é bastante complicado, vivenciamos uma situação em que ocupantes de diferentes níveis de governo estão entre aqueles que negam a periculosidade associada ao coronavírus, a começar pelo presidente da república, o ex-capitão do exército Jair Bolsonaro.  Com seu negacionismo obtuso, esses governantes estão atrasando a adoção de medidas que poderiam conter a disseminação exponencial do coronavírus. Para melhor entendimento do problema que resultará desse negacionismo oficial, posto abaixo duas simulações feitas pelo jornal “The Washington Post” sobre disseminação do coronavírus: a primeira sem restrição de movimento e a segunda com restrição.

1) Disseminação do coronavírus com livre movimentação de pessoas

2) Disseminaçaõ do coranavírus com restrição de movimentação de pessoas

Finalmente, é essencial que saiamos da posição de expectantes dessa pandemia e passemos a ser ativos disseminadores do conhecimento existente sobre o coronavírus. Falo isso especialmente para membros da comunidade científica que, por má fé ou desconhecimento, estão negando a gravidade da situação.  Que ocupantes de cargos públicos possam se dar à liberdade de brincar com fogo e atuar como negacionistas da pandemia do coronavírus, dos membros da comunidade científica seria esperado que ajam guiados pela aplicação das regras básicas do método científico em que lógica e racionalidade, e não preconceito ou interesses particulares, devem resultar em uma informação mais rigorosa sobre o que está de fato acontecendo.

E não, a mídia brasileira não está exagerando o problema da pandemia do Coronavírus. Na verdade até aqui vem se omitindo em prol das ditas reformas do governo Bolsonaro.

O coronavírus avança: Já são 13 os contaminados na comitiva que esteve com Bolsonaro em Miami

bolso atoO presidente Jair Bolsonaro tira fotos com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, depois de participar de protestos contra o STF e o Congresso Nacional

O número cabalístico para o Bolsonarismo já foi alcançado entre os membros da comitiva que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro em seu recente tour em Miami. É que o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson Andrade, é o 13o. a ser declarado oficialmente como estando contaminado pelo coronavírus.

Entre os já oficialmente declarados como portadores do coronavírus estariam quatro seguranças pessoais do presidente Jair Bolsonaro, o que coloca esses servidores públicos em uma distância mínima do chefe do executivo federal. Tal constatação torna ainda mais “sui generis” a declaração de que Jair Bolsonaro testou negativo para essa infecção, visto que seguranças pessoais estão sempre muito próximos daquele cuja pessoa estão protegendo.

Mas o que importa aqui é que diante de uma situação de saúde coletiva, a opção do presidente da república de abandonar o confinamento em que estava colocado para participar de um ato público em que apertou mãos e manuseou telefones celulares de vários participantes me parece algo que beira o inexplicável.

A questão de fundo aqui é que ao desprezar orientações médicas que indicavam a necessidade de confinamento até segunda ordem, o presidente da república enviou mais um sinal anti-ciência para seus apoiadores mais apaixonados. Estes apoiadores que podem não ser muitos numericamente compensam a falta de massa com um inegável aguerrimento para seguir os passos anti-ciência de seu “mito”. E esse aguerrimento poderá consequências nefastas se for aplicado para impedir a aplicação as decisões de várias instâncias de governo, resultando em conflito aberto como aquele que passou o governador de Goiás e ex-líder da União Democrático Ruralista, Ronaldo Caiado, quando tentou sensibilizar os participantes do ato pró-Bolsonaro em Goiânia sobre o potencial devastador do coronavírus (ver vídeo abaixo).

Que ninguém se engane ou se deixe enganar: o combate à pandemia do coronavírus necessitará de uma quase perfeita articulação entre diferentes esferas de governo, forte apoio da comunidade científica, alta integração dos serviços de saúde e um alto grau de cooperação da população.  E não será com bravatas e descuido como as oferecidas ontem pelo presidente Jair Bolsonaro que o Brasil irá conseguir isso. Simples assim!

Asfixiada financeiramente e perseguida ideologicamente, ciência brasileira terá papel chave no combate ao Coronavírus

Virus Outbreak Brazil

Depois de indicar que a pandemia do coronavírus era uma fantasia criada pela mídia, o presidente Jair Bolsonaro teve de se submeter a testes para verificar se estava contaminado.

No dia 11 de janeiro de 2019 concedi uma entrevista ao Diário de Notícias, jornal publicado em Lisboa, e apontei para um fato que já estava mais do que anunciado, qual seja, o ataque ideológico que a ciência iria sofrer por parte do recém-empossado presidente Jair Bolsonaro. Desde então, tenho presenciado a lamentável confirmação das minhas próprias previsões, visto que o governo Bolsonaro impôs fortes retrocessos não apenas no orçamento da Ciência e Tecnologia que já vinha definhando, mas também em termos da autonomia de ação dos cientistas brasileiras. O resultado disso foi o início de uma forte evasão de cérebros, tal como já havia ocorrido durante o período da ditadura de 1964.

Resultado de imagem para evasão de cérebros bolsonaro

Um dos aspectos mais notáveis da ação do governo Bolsonaro tem sido a desqualificação do saber científico em prol de versões mal acabadas do que efetivamente está ocorrendo na realidade. Um exemplo disso é a posição negacionista em face do processo de mudanças climáticas sobre o qual há uma robusta concordância de que a Terra passa hoje por um inédito processo de ajuste do funcionamento do seu sistema climático, o qual deverá impor fortes impactos sobre assentamentos humanos e suas áreas de produção de alimentos. Em função desse negacionismo é que o Brasil regrediu décadas em seus esforços para ter um modelo de governança que nos permitisse fazer frente aos eventos climáticos extremos que iremos inevitavelmente presenciar.  O fato é que, em vez de se orientar pelo conhecimento científico já comprovado, o presidente Jair Bolsonaro e vários de seus ministros preferiram abraçar a versão que associa as mudanças climáticas a um complô marxista.

A mesma posição foi oferecida até poucos dias em relação à pandemia causada pelo coronavírus. Apesar de todas as evidências científicas que imputam ao Coronavírus uma letalidade considerável em determinados segmentos da população mundial, o presidente Jair Bolsonaro imputou à mídia a criação de uma fantasia acerca do alcance e riscos deste vírus. Agora que está comprovado que vários de seus auxiliares diretos estão contaminados (e ele próprio sob suspeita de haver contraído o coronavírus), o presidente Jair Bolsonaro resolveu sair de sua posição negacionista para um reconhecimento pálido de que estamos no limiar de uma grave crise de saúde pública.

Aqui é preciso que se diga que pandemias não são superadas sem muito investimento público em ciência e tecnologia e saúde pública. Mas não estou aqui falando de um investimento pontual para vencer uma situação pontual, mas de financiamento continuado, daquele tipo que permita que grupos de pesquisa se consolidem e tenham condições de realizar pesquisas longitudinais que sejam capazes de gerar conhecimento compreensivo. E a comunidade científica brasileira não poderia estar mais longe dessa condição de sustentabilidade do que no atual momento, muito em função do desinvestimento realizado pelo governo Bolsonaro que dizimou grupos de pesquisas e exilou jovens pesquisadores em outras partes do mundo. 

Como os cientistas brasileiras são acima de tudo otimistas insuperáveis e com alta resiliência, é provável que avanços importantes sejam alcançados no conhecimento sobre o coronavírus e nas melhores formas de combatê-lo. Mas é preciso que se diga que os pesquisadores brasileiros foram deixados em uma condição de penúria e desmoralização e entrarão nessa guerra em condições muitos desiguais, visto que o “inimigo” (no caso o Coronavírus) já demonstrou sua alta efetividade em países cujos investimentos em ciência tem sido muito mais alto do que os feitos pelo governo Bolsonaro.

Finalmente, há que se lembrar que enquanto não se vence pandemia sem ciência, não há como fazer ciência sem dinheiro. Essa verdade óbvia vai ter que ser entendida pelo presidente Bolsonaro e seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes. Do contrário, não haverá disposição para a luta que segure o coronavírus e tantos outras doenças que correm soltas pelo Brasil neste momento. Simples assim!