Estudo registra recorde de anomalias em peixes no litoral do ES e aponta desastre de Mariana como hipótese

60,5% dos peixes da espécie Stellifer naso analisados pelos cientistas apresentaram malformações nos otólitos, estruturas localizadas na cabeça

Estudo analisou 38 indivíduos da espécie peixes da espécie Stellifer naso. Foto: Rafael Lima Oliveira / Acervo Pesquisadores 

No litoral do Espírito Santo, cientistas verificaram a maior taxa de anomalias já documentadas em peixes costeiros de todo o Brasil, de acordo com a literatura científica disponível. No local, 60,5% dos peixes da espécie Stellifer naso têm deformidades nos otólitos sagitais, estruturas calcificadas localizadas na cabeça, assemelhadas a pequenas “pedrinhas”, que servem para a orientação no espaço e percepção sonora.

Publicado na revista Ocean and Coastal Research, o estudo analisou os otólitos de 38 espécimes que foram coletados na foz do Rio São Mateus, nas proximidades do município capixaba de Conceição da Barra, em maio de 2022. A equipe encontrou anomalias em duas regiões específicas dos otólitos – a porção ventral e a margem caudal do sulco acústico –, sinalizando um padrão específico nas alterações morfológicas.

Os resultados foram comparados aos percentuais relatados em estudos anteriores com outras espécies – para se ter uma ideia, a maior taxa de deformações em otólitos observada até então havia sido de 27,11%, referente ao bagre Cathorops spixii.

A alta incidência de malformações pode estar relacionada à contaminação ambiental severa e prolongada causada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), no ano de 2015. O desastre liberou toneladas de rejeitos de mineração de ferro no Rio Doce, que acabaram se depositando no sedimento oceânico. Peixes como o Stellifer naso, que vivem no fundo do mar em águas rasas, ficam expostos aos poluentes presentes na lama e na areia.

“Comparando com outros trabalhos similares no Brasil e também expandindo para outras regiões, o nosso trabalho teve um resultado bem acima da média em quantidade de peixes com anomalias, o que possivelmente está relacionado às marcas do desastre”, destaca o pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que assina o artigo com Marcelo R. Britto, da mesma instituição, e com Rafael Menezes, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Os autores observam que a persistência desse cenário evidencia a lentidão na recuperação do ecossistema costeiro do Espírito Santo. Os peixes utilizados na pesquisa foram coletados quase sete anos após o rompimento da barragem, e ainda assim apresentaram altas taxas de malformações.

A equipe pondera que a ausência de amostras de peixes coletadas na região antes de 2015 impossibilitou uma comparação exata e irrefutável entre os cenários pré e pós-tragédia. Para Andrade, isso mostra a urgência de se financiar coleções biológicas regionais de referência em universidades locais, para que futuros estudos possam avaliar efeitos precisos da contaminação ambiental sobre os organismos.

Agora, os cientistas planejam compreender a fundo a gravidade da contaminação a partir de análises químicas para identificar a composição dos minerais retidos nos otólitos. Eles pretendem expandir o escopo do estudo para observar anomalias externas, como deformações nas nadadeiras dos peixes.

A equipe também buscará atuar em parceria com instituições locais focadas na recuperação do ecossistema e planeja repetir a pesquisa na região daqui a cinco ou dez anos. O objetivo a longo prazo é monitorar a área de forma contínua para avaliar se o ambiente costeiro impactado apresentará algum sinal positivo de recuperação com o passar do tempo. “Mais do que um diagnóstico de contaminação, o estudo reforça a necessidade de diálogo entre a ciência e a sociedade para garantir a segurança do ecossistema e das populações locais”, conclui Jonas Andrade.


Fonte: Agência Bori

Poluição sonora de turismo e embarcações afeta a comunicação de peixes em recifes, mostra estudo

O ruído produzido pelo turismo e por embarcações como lanchas e jet skis pode interferir diretamente na comunicação entre os peixes recifais, afetando atividades fundamentais para a sobrevivência dessas espécies, como reprodução, alimentação e defesa de território. Isso ocorre porque a poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes, já que os ruídos ocupam a mesma faixa de frequência sonora que os animais utilizam para interações biológicas. As conclusões são de artigo publicado na segunda (20) na revista científica Neotropical Ichthyology por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em duas praias pernambucanas. Alef Morais/Unsplash

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em pontos com diferentes tipos de exposição a atividades humanas em duas localidades turísticas no litoral de Pernambuco – a Praia dos Carneiros, que recebe turistas o ano todo, e Praia de Tamandaré, que tem pico de visitantes no verão. Os registros foram realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada, e em abril de 2023. Os pesquisadores instalaram nesses pontos um sistema de gravação subaquática para captar de forma contínua todos os sons do ambiente.  Simultaneamente, um membro da equipe acompanhava na superfície todas as atividades humanas geradoras de ruído, enquanto mergulhadores realizavam censos visuais para verificar a composição da comunidade de peixes nesses locais.

O estudo identificou cinco tipos de poluição sonora nos locais amostrados – jet skis, lanchas, barcos de pesca, parapente motorizado e presença de banhistas, além de nove diferentes tipos de sons de peixes. Três desses sons emitidos pelos animais deixaram de ser registrados em locais expostos ao movimento humano. Ambientes mais ruidosos também tiveram redução de sua complexidade acústica – índice que mede a variação de padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo.

Túlio Freire Xavier, pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE e um dos autores do artigo, explica que a poluição sonora pode impactar comportamentos importantes das espécies, como a atração de parceiros, a defesa de áreas de alimentação e outras interações sociais, comprometendo a estrutura das comunidades a longo prazo.

O censo visual registrou de 18 a 23 espécies diferentes em cada ponto de amostragem, sendo a família das donzelinhas a mais abundante. Xavier ressalta que os peixes da região são fundamentais para a saúde dos recifes de coral, contribuindo para processos como a ciclagem de nutrientes e a manutenção do equilibro das cadeias alimentares. “Esses recifes sustentam atividades importantes para a economia da região, como o turismo e a pesca artesanal. Portanto, quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem”, detalha o pesquisador.

Para a equipe, os dados do estudo reforçam a importância de englobar a poluição sonora como um dos fatores de planejamento e de gestão das áreas marinhas protegidas. “Como identificamos quais atividades geram maior interferência acústica e quais áreas são mais vulneráveis ao ruído, esses dados podem ajudar gestores na definição de estratégias como o ordenamento do tráfego de embarcações, a criação de áreas de menor velocidade para barcos, a delimitação de zonas mais sensíveis à atividade humana e até a definição de horários de uso turístico em períodos biologicamente importantes para os peixes”, explica Xavier.

O pesquisador aponta que, além de contribuírem para a geração de conhecimento científico, os resultados do trabalho vêm sendo compartilhados com gestores e comunidades locais. E com o intuito de dar continuidade ao monitoramento do impacto dos ruídos, os pesquisadores já atuam em um projeto de longo prazo em uma escala espacial maior na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais. “Nosso objetivo é que esse conhecimento possa contribuir para políticas públicas e estratégias de manejo que conciliem o uso turístico da região com a conservação da biodiversidade e da paisagem sonora dos recifes”, finaliza Xavier.

Quem desejar ter acesso ao artigo publicado na Neotropical Ichthyology  , basta clicar [Aqui!].


Fonte: Agência Bori

Microplásticos de pneus: como partículas de desgaste afetam peixes e camarões em estuários

A tire is half submerged in a pool of water on a coastline. Tree trunks or wood pieces are also poking out of the sand in the background.

Por Mariana Figueiredo Nascimento para “NewEnergyBrasil” 

Sempre que um carro trava, faz uma curva ou simplesmente segue pela estrada, os pneus liberam fragmentos microscópicos de borracha. Com a chuva, esse resíduo vai parar em córregos e estuários – e, ao que tudo indica, representa um risco para a vida marinha muito maior do que os cientistas imaginavam.

Um estudo recente indica que essas partículas podem alterar a forma como peixes e camarões crescem, se alimentam e se comportam, sobretudo depois de passarem por um período de “envelhecimento” no ambiente.

Para se aproximar do que ocorre de fato nos cursos d’água, os investigadores expuseram duas espécies típicas de estuários a uma combinação de partículas de pneu envelhecidas e partículas “novas”, procurando evitar testes limitados a borracha fresca, sem uso.

Um poluente negligenciado

Quando o tema é microplásticos, a discussão costuma girar em torno de lixo de embalagens e microesferas.

Já os pneus quase nunca entram na conversa – apesar de figurarem entre as maiores fontes desse tipo de contaminação. Há trabalhos que sugerem que o desgaste de pneus pode responder por quase metade dos microplásticos encontrados tanto em ambientes terrestres como em sistemas aquáticos.

“Dirigir um carro ou até mesmo andar de autocarro é um pouco como arrastar uma borracha pelo planeta, só que as migalhas são microplásticos. Microplásticos tóxicos”, disse Britta Baechler, diretora de investigação em plásticos no oceano da Ocean Conservancy, à AGU.

Um motivo para a subestimação está na classificação. Só há pouco tempo a investigação ambiental passou a reconhecer os fragmentos de pneus como partículas nano e microplásticas; por isso, a dimensão real do problema provavelmente ficou subcontada durante anos.

O que realmente há em um pneu

Um pneu não é apenas “borracha”. Ele reúne borracha natural e sintética, além de químicos, aditivos e metais – componentes que, à medida que o pneu se desgasta, podem acabar a integrar a dieta de peixes e de outros animais marinhos.

Grande parte dos estudos existentes concentrou-se nos químicos provenientes de pneus novos, e não no material que o uso real na estrada gera. Com isso, permanece uma lacuna sobre o que, de facto, está a entrar nos cursos de água.

“Vai haver maior contaminação [por partículas de pneu] ao longo das bermas, por exemplo, e não apenas nos cursos de água”, disse à AGU Susanne Brander, ecotoxicologista da Universidade Estadual do Oregon.

As partículas menores tornam-se suspensas no ar assim que se formam. Depois, a chuva arrasta o restante do pavimento para sarjetas e bueiros, frequentemente conduzindo diretamente a mananciais de água doce.

“É aí que o ciclo começa. Essas partículas de pneu são pequenas, conseguem deslocar-se; algumas são transportadas pelo ar, outras pela água, e é assim que se tornam tão disseminadas”, afirmou Baechler à AGU.

Entre os ingredientes, um chama atenção pela toxicidade: o 6PPD, adicionado para evitar que a borracha rache, é capaz de matar salmões mesmo em concentrações surpreendentemente baixas.

Recriando as condições da estrada

Para simular o que realmente vai parar nos cursos de água, os investigadores usaram uma mistura de pneus que corresponde ao tráfego típico dos EUA: 14% de veículos utilitários leves, 41% de carros de passageiros e 45% de camiões e autocarros.

As partículas foram “envelhecidas” ao serem mantidas em suspensão em água com matéria orgânica e, em seguida, degradadas mecanicamente por meio de agitação e autoclavagem. Assim, formaram-se micropartículas entre 1 e 20 micrômetros e nanopartículas ainda menores.

Num segundo conjunto, o material foi processado para isolar o lixiviado – os compostos químicos libertados pelas partículas de pneu na água.

Para representar diferentes níveis de contaminação do mundo real, os investigadores expuseram larvas do peixe prateado-do-interior e camarões misídeos a uma faixa de concentrações de partículas de pneu e de lixiviado.

Efeitos em peixes e camarões

Em comparação com as partículas novas, as partículas de pneu envelhecidas levaram a taxas de ingestão consideravelmente maiores nas duas espécies.

“Observámos taxas de ingestão significativamente mais altas em ambas as espécies quando foram expostas a partículas de pneu envelhecidas”, disse à AGU a autora principal Clarissa Raguso, investigadora de pós-doutoramento em ciência marinha na Universidade Estadual de Portland.

Não houve mortalidade relevante em nenhuma das espécies, mas o material envelhecido reduziu o crescimento em ambas. Os camarões mostraram-se mais sensíveis: reagiram a quantidades menores de resíduo e, no total, consumiram mais partículas – provavelmente por se alimentarem no fundo.

“Fiquei surpresa com as respostas específicas de cada espécie”, disse Raguso. “Esperávamos que as partículas de pneu envelhecidas tivessem, de forma consistente, os efeitos mais fortes em ambas as espécies e em todos os desfechos.”

Também houve alterações comportamentais, mas não de maneira igual. Nos peixes, a resposta comportamental foi mais marcada com partículas novas; nos camarões, o impacto foi maior com as partículas envelhecidas.

“Embora tenhamos observado efeitos mais fortes em crescimento e ingestão em ambas as espécies, o aumento de alterações comportamentais associado ao envelhecimento só foi observado em [camarões misídeos], o que sugere que a vulnerabilidade à poluição por pneus varia entre espécies”, acrescentou Raguso.

Microplásticos na teia alimentar

Algumas exposições desencadearam hiperatividade e respostas ao estresse atenuadas; outras fizeram os animais desacelerarem. Em ambiente natural, qualquer uma dessas mudanças pode facilitar a captura por predadores ou atrapalhar alimentação e reprodução, com efeitos em cascata por toda a teia alimentar.

“Os camarões misídeos são um alimento muito importante para espécies críticas”, disse Brander à AGU. “As baleias-cinzentas, por exemplo, comem milhões desses organismos por dia.”

“Os peixes maiores que capturamos como alimento do mar comem misídeos. Mesmo que estejamos a olhar para esses peixes e camarões larvais pequenos que humanos não comem, eles são um caminho para chegar ao que nós comemos.”

Reduzindo a poluição por pneus

As soluções já começam a avançar. Uma linha de investigação procura formulações de pneus que libertem menos partículas nocivas durante o uso.

Na Universidade Estadual de Portland, outros grupos testam armadilhas concebidas para reter o resíduo de pneus no escoamento pluvial antes de ele alcançar ambientes marinhos. Em paralelo, um projeto distinto está a desenvolver dispositivos que capturam poeira de pneus diretamente nos veículos, antes mesmo de tocar no asfalto.

“Este estudo é importante porque aproxima a investigação sobre microplásticos das condições do mundo real, do tipo de partículas a que os organismos realmente ficam expostos na natureza”, disse Baechler à AGU.

“E compreender como essas partículas se comportam depois de envelhecerem é fundamental para avaliar o risco ecológico e orientar futuras estratégias de prevenção e mitigação.”


Fonte: NewEnergyBrasil

Metade de peixes analisados no litoral fluminense apresenta mercúrio acima do limite seguro

Exemplar de bonito-pintado (Euthynnus alletteratus) analisado na pesquisa

Um artigo publicado na revista Neotropical Ichthyology na sexta (15) mostra que 50% das amostras do peixe bonito-pintado (Euthynnus alletteratus) comercializadas em Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro, apresentaram concentrações de mercúrio acima do permitido. Um exemplar atingiu concentração de até 1,980 miligramas por quilo, quase o dobro do limite máximo estabelecido pelas legislações brasileira e internacional para peixes carnívoros, que é de 1 miligrama por quilo.

O estudo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF), Campus Cabo Frio, em colaboração com pesquisadores das universidades do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Federal Fluminense (UFF) e do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), analisou o tecido muscular de peixes capturados na região. O objetivo era determinar as concentrações de mercúrio total (HgT) no músculo de espécimes de bonito-pintado, comparar as concentrações entre machos e fêmeas, além de verificar se essas concentrações estavam em conformidade com os limites de segurança alimentar. Os pesquisadores coletaram 30 indivíduos de peixes no Mercado Municipal de Peixe de Cabo Frio, contemplando capturas em diferentes épocas do ano.

Os achados são preocupantes quando contextualizados com estudos similares, pois as concentrações encontradas no bonito-pintado, um atum de médio porte, superam as de espécies de atuns muito maiores analisadas em estudos anteriores.

Quanto à origem do metal, não há indícios de contaminação ambiental histórica ou fontes industriais diretas nas cidades de Cabo Frio e Arraial do Cabo. Os autores salientam que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês), a elevada contaminação de mercúrio em espécies de atuns é um indicativo da ampla e elevada poluição global desse elemento nos oceanos.

Peixes predadores que ocupam níveis superiores na cadeia alimentarpossuem mercúrio em concentrações elevadas no organismo, explicam os cientistas. Isso ocorre devido à capacidade desse elemento biomagnificar nesses animais — ou seja, a concentração de mercúrio aumenta através da ingestão de organismos menores por organismos maiores. “A principal via de absorção de mercúrio (Hg) em vertebrados marinhos é através da alimentação, que juntamente com a baixa taxa de excreção desses animais, leva ao aumento das concentrações do Hg ao longo da cadeia trófica”, observam.

Um estudo prévio em Arraial do Cabo já havia detectado a presença de mercúrio em diversos organismos de diferentes níveis da cadeia alimentar. Para os pesquisadores, isso evidencia a necessidade de vigilância constante desse metal em áreas de ressurgência – em que as águas frias e profundas sobrem para a parte mais quente e superficial do oceano, estimulado a circulação de nutrientes. Juntamente com as áreas costeiras marinhas, elas possuem um importante papel econômico, sendo responsáveis por 98% da produção pesqueira mundial.

Os dados fornecem base científica para que agências reguladoras revisem os limites de tolerância para contaminantes como o mercúrio e implementem diretrizes de consumo mais rígidas, especialmente para grupos vulneráveis, como gestantes e crianças. Além disso, os autores reforçam que programas de monitoramento de mercúrio são ferramentas essenciais para reduzir os riscos associados ao consumo de peixes com esse contaminante e garantir a segurança alimentar da população local.


Fonte: Agência Bori

Estudo revela que exposição prolongada a clorpirifós acelera o envelhecimento em peixes

peixe

Por Shannon Kelleher para “The New Lede” 

De acordo com um novo estudo, a exposição crônica a pequenas quantidades de um agrotóxico aprovado para quase uma dúzia de culturas agrícolas nos EUA acelera o envelhecimento dos peixes e reduz sua expectativa de vida, aumentando as preocupações sobre os riscos do produto químico para a saúde humana.

O inseticida clorpirifós tem sido associado a danos cerebrais e problemas de desenvolvimento cerebral em crianças, e um estudo recente descobriu que pessoas expostas ao produto químico durante anos em comunidades agrícolas da Califórnia tinham mais do que o dobro da probabilidade de desenvolver a doença de Parkinson em comparação com residentes não expostos a ele.

Pesquisas anteriores demonstraram que o clorpirifós é tóxico para peixes mesmo em doses muito baixas . Sabe-se também que o produto químico é tóxico para pombos, patos, abelhas e outros animais selvagens , e uma avaliação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) constatou anteriormente que o inseticida estava prejudicando 97% das espécies protegidas. Em março, um juiz federal ordenou ao Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA que reduzisse os danos causados ​​pelo clorpirifós, juntamente com outros quatro agrotóxicos, às espécies ameaçadas de extinção.

O novo estudo é “o mais recente de uma longa série de publicações científicas sobre esse inseticida organofosforado, que exemplificam as deficiências dos processos regulatórios atualmente em vigor, os quais não conseguem fornecer proteção adequada à saúde e segurança de todos”, afirmou Sara Grantham, cientista do grupo Beyond Pesticides, que não participou do estudo.

“O clorpirifós é apenas um dos mais de mil ingredientes ativos de agrotóxicos que representam riscos não só para os organismos aquáticos, mas também para toda a vida selvagem, o meio ambiente e a saúde humana”, acrescentou ela.

O clorpirifós encurta os telômeros e reduz a expectativa de vida dos peixes em lagos afetados na China. (Crédito: Jason Rohr/Universidade de Notre Dame.)

Em um novo estudo, publicado em 15 de janeiro na revista Science , cientistas detectaram clorpirifós e outros 18 pesticidas nos tecidos de mais de 24.000 peixes-olho-de-boi em lagos na China. Eles descobriram que os peixes contaminados com níveis mais altos de pesticidas apresentavam capas protetoras mais curtas nas extremidades de seus cromossomos, chamadas de “telômeros” – à medida que os telômeros encurtam, o DNA se degrada e as células envelhecem mais rapidamente. Testes adicionais revelaram que apenas o inseticida clorpirifós estava associado a telômeros mais curtos nos peixes de dois lagos contaminados. 

Em seguida, os pesquisadores expuseram peixes de um dos lagos contaminados, bem como peixes de um lago não contaminado, a 10 nanogramas por litro (ng/litro) ou 50 ng/litro de clorpirifós durante quatro meses. Os resultados mostraram que a exposição aumentou os sinais de envelhecimento celular nos peixes, com efeitos mais acentuados quando expostos a doses mais altas. A exposição ao clorpirifós também reduziu a taxa de sobrevivência dos peixes do lago contaminado, mas não afetou a sobrevivência dos peixes do lago mais limpo – possivelmente porque esses peixes já possuíam telômeros mais longos, especularam os pesquisadores.  

“A exposição crônica a baixas doses desses produtos químicos pode representar riscos semelhantes relacionados ao envelhecimento em humanos, contribuindo potencialmente para doenças associadas à idade”, escrevem os autores. “Embora as toxicidades letais agudas (de horas a dias) e subletais crônicas (de dias a meses) tenham tradicionalmente orientado as regulamentações de segurança química, nossos resultados destacam a necessidade de uma maior consideração dos efeitos letais crônicos dos produtos químicos na tomada de decisões regulatórias.” 

Há mais de 25 anos, órgãos reguladores federais e fabricantes chegaram a um acordo para eliminar gradualmente a maioria dos usos do clorpirifós, mas agricultores em certos estados ainda têm permissão para usá-lo em maçãs, cerejas, pêssegos, trigo e outras culturas. Grupos de saúde e ambientalistas pressionaram com sucesso a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) para proibir o agrotóxico em culturas alimentares em 2021, mas a proibição foi parcialmente revogada dois anos depois.

Alguns estados dos EUA proibiram o clorpirifós ou restringiram seu uso , incluindo Havaí, Califórnia, Maine, Maryland, Nova York e Oregon. A União Europeia proibiu o agrotóxico em 2020, embora uma investigação de 2023 tenha revelado que empresas europeias continuaram exportando os produtos químicos nocivos para países do Sul Global com regulamentações mais brandas.

Em maio de 2025, uma reunião da Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes, em Genebra, na Suíça, concordou com uma proibição global do clorpirifós, com isenções para 22 usos do pesticida. 

Jayakumar Chelaton, presidente da Rede Internacional de Ação contra Agrotóxicos (PAN, na sigla em inglês), afirmou em comunicado que as isenções foram concebidas para proteger os lucros corporativos, “enfraquecendo, assim, a tomada de decisões baseada na ciência”.

“Falhamos em proteger o futuro de nossos filhos”, disse Chelaton. “Instamos os países que se preocupam com as pessoas a interromper todos os usos sem exceções.”

Imagem em destaque: Jennifer Chen/Unsplash + 


Fonte: The New Lede

Brasil: Peixes introduzidos por transposição de água apresentam parasitas

peixes parasitas introduzidosPesca de tilápia, um peixe invasor altamente explorado comercialmente e consumido popularmente. Crédito da imagem: Prefectura del Guayas/Flickr , sob licença Creative Commons BY-NC-SA 2.0 Deed .

As espécies com maior número de parasitas foram a piaba Astyanax bimaculatus) também chamada (tetra-fortuna ou lambari), a tilápia do Nilo ( Oreochromis niloticus ), o tucunaré ( Cichla Monoculus ) e a traíra (pertencente ao gênero hoplia), segundo estudo publicado no Journal of Helminthology.

No total, 42% dos peixes analisados ​​apresentavam algum tipo de parasita.

Entre as espécies de parasitas encontradas, os pesquisadores identificaram três tipos associados à anisaquíase humana, uma parasitose gastrointestinal causada pela ingestão de peixe cru ou malpassado.

“Sempre ouvimos que a traíra tem parasitas. Houve um tempo em que era difícil vender esse peixe porque as pessoas diziam que tinha parasitas. Agora, as pessoas esqueceram. Estamos preocupados, mas não temos outra maneira de sobreviver”, disse Antonio Valdivino Muniz, 54 anos, um dos 300 pescadores que tiram seu sustento da barragem de Acauã, na Paraíba, nordeste do Brasil, ao SciDev.Net .

Esta barragem é um dos 27 reservatórios vinculados ao PISF, um projeto de megatransferência que leva água do caudaloso Rio São Francisco até o Catinga, bioma predominante no semiárido brasileiro.

O projeto de 477 quilômetros visa fornecer água para 12 milhões de pessoas.

“A transferência de água é uma ação humana que pode causar um desequilíbrio ecológico porque altera o ambiente natural”, explicou ao SciDev.Net a bióloga Vitória Maria Moreira de Lima, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e principal autora do estudo.

“Hoje, não temos essas zoonoses no Rio Paraíba, mas imagine o que aconteceria se, no futuro, tivéssemos doenças parasitárias associadas a peixes que não existiam aqui antes. Como eles as relacionariam com a transferência se ninguém soubesse delas? É por isso que o monitoramento é tão importante”, acrescentou.

A bióloga Ana Carolina Lacerda, do Departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB e uma das coautoras do estudo, ressalta que o país ainda carece de dados sobre doenças parasitárias em peixes que tenham potencial de causar doenças em humanos.

“Se as espécies de parasitas que encontramos têm potencial zoonótico, então sim, elas podem causar doenças em humanos. Mas precisamos registrá-las no sistema público e garantir que o parasita se originou do peixe que foi ingerido”, observou.

“No Brasil, embora exista um sistema nacional de registro de zoonoses, é provável que haja subnotificação devido à falta de diagnóstico”, acrescentou.

Entre os grupos de parasitas mais abundantes encontrados, dois deles eram hospedados por espécies invasoras não nativas da região: a tilápia do Nilo e o tucunaré.

O Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, responsável pelo PISF, afirma que não há certeza se o deslocamento de peixes hospedeiros é responsável pela introdução desses parasitas com potencial zoonótico, ou se [os parasitas] já estavam presentes na área e infectaram as populações de peixes quando chegaram aos reservatórios locais.

“Existem vários cenários possíveis para a introdução de peixes e seus parasitas, pois os peixes podem estar parasitados em seu ambiente original e podem ou não perder seus parasitas durante o processo de transferência, ou podem não ter sido originalmente parasitados e se tornarem colonizados por parasitas de peixes no novo ambiente”, explicou o ministério em uma resposta ao SciDev.Net .

O ministério afirma que o surgimento de espécies invasoras de peixes estava entre os impactos previstos e que, desde 2012 — fase de instalação do projeto —, monitora 73 pontos nos dois eixos (leste e norte) em 10 bacias hidrográficas do Nordeste.

Em relação aos parasitas, a agência afirma que “somente com estudos prévios sobre a presença das águas do PISF nesses ambientes é possível vincular qualquer impacto dessa natureza ao Projeto”.

A chave é entender o nível de estabelecimento dessas novas populações de parasitas e seu potencial para infectar espécies nativas. Isso pode levar a extinções locais, afetando muitas comunidades ribeirinhas associadas a reservatórios e dependentes desses peixes.

Vitória Maria Moreira de Lima, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba, Brasil

Ana Carolina Lacerda explica que essas organizações não são vilãs. “Eles fazem parte da preservação e do equilíbrio dos ecossistemas”, ressalta. Entretanto, quando chegam de outros ambientes, tornam-se uma ameaça a esse equilíbrio.

Das mais de 50 espécies de parasitas identificadas no estudo, realizado no eixo leste do projeto, 32 não haviam sido identificadas anteriormente na bacia do Rio Paraíba do Norte.

“A chave é entender o nível de estabelecimento dessas novas populações de parasitas e seu potencial para infectar espécies nativas. Isso pode causar extinções locais, afetando muitas comunidades ribeirinhas associadas a reservatórios e dependentes desses peixes”, enfatiza Moreira de Lima.

Isso afetaria o trabalho de pessoas como Antonio Valdivino Muniz, o pescador mencionado no início desta reportagem: pescar 150 quilos de peixe por semana lhe garante uma renda de R$ 450 (cerca de US$ 80). “Não temos nenhum incentivo da prefeitura, nem o pessoal da transferência de água vem aqui, se reúne e vai embora”, reclamou.

Preocupados com sua sobrevivência, os pescadores locais desconhecem a ameaça representada pela introdução de peixes invasores, como o tucunaré e a tilápia. O primeiro acaba dominando o ambiente por ser predador, e o segundo, pela facilidade de reprodução.

A tilápia do Nilo, apesar de ser um peixe invasor, é altamente explorada comercialmente no Brasil. Crédito da imagem: Bernard Dupont/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 2.0 Deed .

“Quem vive da pesca prefere espécies nativas pela qualidade de muitas delas. Economicamente, é melhor. Mas elas estão desaparecendo”, enfatizou o biólogo Ricardo Takemoto, pesquisador da Universidade Estadual de Maringá, que não participou do estudo.

“O tucunaré é bom para a pesca esportiva, mas não tem importância comercial devido à sua baixa qualidade. A tilápia, em termos de produção, tem sido bastante explorada economicamente. Ela já está se adaptando à água do mar, como uma praga”, explicou ele ao SciDev.Net .

Introduzido no Brasil na década de 1960, esse peixe hoje domina o mercado: segundo o Anuário Peixe BR 2024 , o país produziu quase 900 mil toneladas de peixes, dos quais 65,3% eram tilápias, 29,7% peixes nativos e 5% outras espécies.

“Qualquer mudança ambiental causa desequilíbrio, então estudos desse tipo são importantes porque abordam o problema dessas introduções”, acrescentou Takemoto.


Fonte: SciDev.Net

Como a seca na Amazônia afeta a segurança alimentar da região

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Seca em outubro de 2023 no Rio Negro, no Amazonas

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Por Gabriel Costa Borba

Na Amazônia estima-se que a pesca produza em média 173 mil toneladas de peixe por ano, gerando cerca de 389 milhões de reais. A região é considerada uma das maiores do mundo em consumo de peixe que varia de 135 a 292 kg per capita ao ano, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Esse contexto de pesca abundante está em risco por causa da seca dos rios da região.

captura de peixe é fortemente dependente das flutuações no nível de água com períodos de águas baixas e altas, que regulam a disponibilidade de alimento e abrigo para os peixes nos rios amazônicos. Esses rios estão em risco devido ao impacto de atividades humanas. Ao alterar as flutuações no nível de água e o padrão de chuvas, os eventos climáticos extremos geram drásticas consequências para a pesca.

Além de rios com menos água, temos, no atual contexto, péssimas condições hídricas, como temperatura elevada e falta de oxigênio — o que resulta em uma maior mortalidade natural de peixes. Com menos peixes disponíveis, a própria segurança alimentar de populações locais se vê ameaçada.

O interessante de se observar é que ainda não temos total conhecimento sobre os prejuízos gerados pelos cenários de seca deste mês na pesca da região. A resposta das populações de peixe sob efeito de flutuações no nível de água leva um tempo, ou seja, os impactos da frequência e intensidade de eventos extremos nas últimas décadas só serão mapeados, totalmente, mais para a frente.

As espécies disponíveis para a captura no momento estiveram sob influência das flutuações no nível de água de anos anteriores. Por exemplo, o jaraqui, peixe emblemático da região amazônica, que é capturado hoje, levou, em média, dois anos para atingir um tamanho corporal para ser pescado. Se os anos anteriores foram adequados para a espécie, com disponibilidade de alimento e abrigo, esse jaraqui sobreviveu e se desenvolveu, sendo capturado para fins comerciais.

Há, no entanto, uma percepção geral nas comunidades tradicionais indígenas e não indígenas da Amazônia de que houve uma diminuição na captura de espécies e uma redução do tamanho de peixes de interesse comercial nos últimos anos. Para elas, a pesca é fonte de subsistência importante, gerando renda e alimento.

O contexto se torna ainda mais drástico num país que não tem monitoramento oficial de desembarque pesqueiro na Amazônia desde o ano de 2011. O monitoramento tem o objetivo de conhecer quais são as comunidades pesqueiras que utilizam o acesso próximo ao porto para desembarque da sua produção, gerar informações e dados estatísticos sobre o desembarque pesqueiro e gerar análises dos possíveis impactos dos eventos climáticos extremos na pesca. A falta de dados afeta a capacidade de resposta de comunidades e a tomada de decisões políticas para preservar a pesca na região em tempos de eventos climáticos extremos.

Para enfrentar essa situação, é preciso criar planos de manejo da pesca adequados ao contexto de crise climática, unindo conhecimento tradicional e científico sobre a atividade e as flutuações no nível de água. Só assim se poderá minimizar os graves danos às populações locais que comercializam peixes e vêem, agora, sua subsistência ameaçada.


Sobre o autor

Gabriel Costa Borba é doutorando em Fish and Wildlife Conservation na Virginia Tech e mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)

Peixes com “níveis mais altos de herbicidas no mundo” são encontrados em bacia dominada por monoculturas de soja na Argentina

sabalo-Parana-996x567Curimbatás (Prochilodus lineatus) são altamente consumidos em toda a bacia do Paraná. Crédito da imagem: Jonas Techy Potrich/Wikimedia Commons, sob licença Creative Commons (CC BY-SA 3.0)

Os peixes do Río Salado, afluente do Paraná (o maior rio sul-americano depois do Amazonas), mostrarão restos de novos inseticidas, herbicidas e fungicidas aplicados em cultivos transgênicos de soja, milho e algodão que abundam nessa bacia fluvial.

Embora os efeitos em peixes e humanos ainda não estejam completamente certos, os autores aconselham sobre a necessidade de medidas extremas de precaução em um dos cursos de água mais importantes do país, que provê alimento tanto no âmbito local como para exportação.Estudio planta que “se necessita urgentemente aumentar a distância entre os cultivos transgênicos dependentes de agrotóxicos e os ecossistemas aquáticos, assim como melhorar a abordagem dos riscos ambientais”. Rafael Lajmanovich, responsável pela pesquisa,  disse ao SciDev.Net que essa distância deveria ser de 1.000 metros como mínimo.

Os pesquisadores analisam sedimentos do rio, músculos e vísceras de 16  peixes comprados de pescadores ao longo de 100 quilômetros de alta produtividade agrícola.

No tecido muscular, há “concentrações muito altas” do inseticida cipermetrina (até 204 microgramas por quilo); do fungicida piraclostrobina (50 μg/kg); dos herbicidas glifosato (187 μg/kg), junto com seu ácido de degradação AMPA (3116 μg/kg), e glufosinato de amônia (677 μg/kg).

Antes deste trabalho, os maiores níveis de glifosato registrados em peixes eram “menores a 10 ug/k” e “não havia” informações sobre a presença de glufosinato, assegurou Lajmanovich em um correio eletrônico.

“É necessário aumentar urgentemente a distância entre os cultivos transgênicos dependentes de pesticidas e os ecossistemas aquáticos, assim como melhorar o tratamento dos riscos ambientais”.

Publicado em: “Cocteles de residuos de plaguicidas en peces Prochilodus lineatus del río Salado (América del Sur): Primer registro de altas concentraciones de herbicidas polares”.

Um estudo sobre os efeitos de herbicidas polares publicado em 2021 detectou níveis máximos de AMPA de 300 ug/k no tecido muscular e de 650 ug/k no fígado de peixes Hoplosternum littorale (mais conhecidos como cascudos) da mesma província, precisou em outro e-mail Andrea Rossi, uma das autoras. Embora não tenho sido encontradas  evidências de danos celulares ou efeitos neurotóxicos, é possível encontrar alterações nos parâmetros hematológicos dos espécimes amostrados.

A exposição aguda às quantidades encontradas nesta ocasião, sem nenhuma dúvida, poderia gerar efeitos “múltiplos”, tanto em peixes como em humanos, que incluíam genotoxicidade (capacidade de causar danos genéticos) e disrupção hormonal, associada ao aparecimento de tumores, malformações , disfunções do aparelho reprodutor, neurotoxicidade ou problemas imunológicos, explica Lajmanovich.

Entre 2019 e 2022, o mesmo investigador ―professor titular da Cátedra de Ecotoxicologia da Universidade Nacional do Litoral― fez várias advertências semelhantes sobre os efeitos combinados do glifosato com o arsénico e com os microplásticos .

Os autores reconhecem que a alta solubilidade dos agrotóxicos faz com que a determinação dos níveis de contaminantes seja “problemática”, embora essa mesma solubilidade provoca que sua toxicidade aumente em ambientes aquáticos, onde as membranas dos peixes facilitam a absorção.

Nesse sentido, o médico  Eric Speranza – que há 14 anos encontrou altos níveis de hidrocarbornetos em curimbatpas próximos da cidade de Buenos Aires – disse por telefone que está satisfeito que foi possível medir o glifosato e o glufosinato no tecido muscular do peixe.

“Está evidenciando o impacto da atividade agrícola sojeira”, avisou o investigador do Laboratório de Química Ambiental y Biogeoquímica das universidades argentinas de La Plata e Arturo Jauretche.

Em relação a uma possível vedação provincial sobre a pesca, Speranza é cautelosa, já que se trata de uma medida que “requer ter em conta fatores econômicos e sociais, como as próprias pessoas que vivem dessa atividade”.

Fontes do Servicio Nacional de Sanidad y Calidad Agroalimentaria –encarregado de controlar a segurança dos alimentos de origem animal e vegetal na Argentina – diz ao SciDev.Net que o relatório “recebeu relativa importância”, pois eles têm dúvidas sobre sua metodologia,  , por exemplo, em relação à quantidade de exemplares analisados.

A agência atualmente não mede vestígios de herbicidas em peixes; limites máximos de resíduos (LMR) são estabelecidos apenas para vegetais. Mesmo assim, eles sugerem que os valores encontrados não representam risco à saúde humana. No caso da soja para consumo, por exemplo, o LMR para glifosato é de 5.000 μg/kg.

No entanto, os autores do trabalho insistem em que “a contaminação por agrotóxicos do Rio Salado representa uma ameaça prejudicial à viabilidade da população de peixes e outros organismos aquáticos, e um grande risco para os consumidores”.

Propõe-se uma regulação clara sobre os níveis máximos toleráveis ​​para essas substâncias, permitindo uma melhor abordagem da situação.

Diversas tentativas da SciDev.Net para obter uma declaração oficial sobre medidas futuras por parte do governo de Santa Fé foram infrutíferos até o fechamento deste texto

Link para o resumo do artigo na Science of the Total Environment


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui!].

Hidrelétricas no Rio Madeira reduzem significativamente estoques de peixes

Novo estudo científico confirma declínio de 40% nos estoques de peixes no Rio Madeira

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Também há declínios significativos nas populações de peixes na barragem de Belo Monte, no rio Xingu. Foto: Christian Russau

Por Christian Russau para a Kobra

O que os oponentes da construção de barragens no Rio Madeira alertam há anos já ocorreu e foi confirmado cientificamente. A construção de duas barragens no Rio Madeira, Jirau e Santo Antônio, reduziu o estoque de peixes em 40%. Este é o resultado de um novo estudo científico da Universidade Federal do Amazonas, do qual a mídia brasileira relata. Segundo Rogério Fonseca, da Universidade Federal do Amazonas, e coautor do estudo resumido na revista ambiental Revista Ambio, as mudanças no fluxo de água causadas pela construção da barragem e a permeabilidade do peixe, dificultada pela função da barragem, levaram a um declínio maciço nas populações de peixes e, consequentemente, no rendimento dos pescadores. led. Somente no município de Humaitá, as perdas de rendimento totalizaram 342 milhões de reais, atualmente o equivalente a 65 milhões de euros. Em alguns casos, os pescadores relataram que os resultados de suas capturas caíram de 200 para 300 quilos para cerca de 50 quilos. O comunicado de imprensa não fornece uma explicação do prazo para esses tamanhos de captura. Além disso, segundo Rogério Fonseca, alguns dos pescadores

Jirau e Santo Antônio são duas velhas conhecidas da mídia. Jirau e Santo Antônio tornaram-se notórias em 2011 devido aos protestos dos trabalhadores de dezenas de milhares de trabalhadores que se defenderam contra salários insatisfatórios, acomodações e alimentos inadequados. Anos depois, foram principalmente a greve trabalhista e a revolta que causaram disputas legais entre o Brasil e a Grã-Bretanha, porque as seguradoras e as empresas de construção estavam em disputa sobre quem deveria arcar com os custos da revolta dos trabalhadores e qual o local de jurisdição responsável por esclarecer essas questões: os tribunais no Brasil que são realmente responsáveis ​​ou os que estão nos contratos de compras ( Ilegal por causa da violação da Constituição Brasileira), local de jurisdição escrito em Londres do tribunal arbitral privado Arias. Também aqui, apenas de passagem, para lembrar os nomes das duas grandes companhias de seguros da Alemanha, que participaram dos serviços de seguro para as barragens no Rio Madeira e sempre enfatizaram que eram energia “verde” e as avaliações de impacto ambiental estavam sendo cuidadosamente estudadas, não há perigo para o meio ambiente,

Na questão das espécies de peixes ameaçadas pela construção de barragens na Amazônia e o declínio no rendimento da pesca dos inúmeros pequenos pescadores, também houve muitos problemas durante a construção da terceira maior barragem do mundo, Belo Monte (novamente aqui, entre outros: Allianz e Munich Re). Disputa e inconsistências. Após o comissionamento das primeiras turbinas, não só foi descoberto que as turbinas literalmente cortam grandes estoques de peixe. Havia problemas antes: “Nós vivíamos da pesca, agora não resta mais nada”, relataram os residentes do rio em 2011, pois os estoques de peixes no rio já haviam diminuído devido às obras de construção da enseada. No mesmo ano, um tribunal federal interrompeu temporariamente as obras devido à ameaça à pesca ornamental local. O peixe no Xingu não é apenas uma fonte de alimento para os residentes locais dos rios, pois a captura e exportação de peixes ornamentais no exterior cria empregos e renda para centenas de famílias locais e garante sua sobrevivência. Em 2012, 800 pescadores ocuparam o canteiro de obras de Belo Monte por vários dias para indicar o acentuado declínio no estoque de peixes.

A avaliação de impacto ambiental (UVP), encomendada pelo cliente, não previa tudo isso. As espécies de tartarugas ameaçadas de extinção chegaram à EIA, ovos de tartaruga foram implementados na mídia, mas as câmeras de televisão também registraram a colocação inadequada dos ovos, empilhados em banheiras desprotegidas. A AIA viu algumas populações locais de peixes temporariamente afetadas pela construção, mas não ameaçadas de extinção. Em nota divulgada em novembro de 2009, até o órgão ambiental Ibama reclamou que estava sendo exercida pressão política e que não estava claro o que aconteceria à população de peixes nos 100 quilômetros do rio Xingu, 80% dos quais seriam drenados pela construção da barragem . Apenas:

Em 2015, um grupo de cientistas se apresentou para estudar as populações de peixes de 400 espécies do rio Xingu. Os pesquisadores da Universidade Federal do Pará relataram que pelo menos um dos peixes que antes eram considerados endêmicos no Grande Rio Loop do Xingu, pacu-capivara (Ossubtus xinguensis), não estava ameaçado de extinção por Belo Monte. Pacu-capivara, um peixe pequeno, também foi visto a montante em populações não afetadas por Belo Monte. Então não há perigo? Só que a Agência Federal do Meio Ambiente do Ibama já havia explicitamente classificado esse peixe como ameaçado pela construção da barragem em 2010. Quem estava agora? O cientista Philip Fearnside, que vive e pesquisa na Amazônia há décadas, se refere explicitamente à ameaça de pescar. A construção da barragem dificulta enormemente os movimentos de migração dos peixes – e os efeitos locais no Great River Loop, que não corresponderiam mais ao habitat local dos peixes com um fluxo de água de apenas 20%, também contribuem para a extinção das populações. Não basta dizer que, antes da construção da barragem, havia populações de peixes acima e abaixo da barragem, porque sempre é necessário um tamanho mínimo de população para sobreviver, assim como o peixe migratório precisa da permeabilidade do peixe. 

A construção da barragem dificulta enormemente os movimentos migratórios dos peixes – e os efeitos locais no Great River Loop, que não corresponderiam mais ao habitat local dos peixes com um fluxo de água de apenas 20%, também contribuem para a extinção das populações. Não basta dizer que, antes da construção da barragem, havia populações de peixes acima e abaixo da barragem, porque sempre é necessário um tamanho mínimo de população para sobreviver, assim como o peixe migratório precisa da permeabilidade do peixe. A construção da barragem dificulta enormemente os movimentos migratórios dos peixes – e os efeitos locais no Great River Loop, que não corresponderiam mais ao habitat local dos peixes com um fluxo de água de apenas 20%, também contribuem para a extinção das populações. Não basta dizer que, antes da construção da barragem, havia populações de peixes acima e abaixo da barragem, porque sempre é necessário um tamanho mínimo de população para sobreviver, assim como o peixe migratório precisa da permeabilidade do peixe.

Além disso, sempre há ameaças ao mudar de fluxo para água de retorno com conteúdo de oxigênio reduzido em camadas mais profundas da água. Em 2009, uma equipe semelhante de 40 cientistas de universidades chegou a conclusões semelhantes sobre Belo Monte. Os cientistas criticaram duramente os estudos ambientais incompletos, tricotados com um alfinete, apontaram as contradições dos estudos e alertaram que as conseqüências sociais e ambientais do projeto da barragem de Belo Monte seriam graves. Segundo a análise, cerca de 100 espécies de peixes estão ameaçadas por Belo Monte. Até o momento, são conhecidas 26 espécies de peixes que ocorrem apenas no Xingu. Se todas as barragens planejadas na Amazônia fossem construídas,

Até o momento, no entanto, dificilmente existem informações confiáveis ​​sobre a extensão real da perda de espécies, porque a biodiversidade local ainda é muito pouco pesquisada para ser capaz de estimar quais perdas são causadas por projetos de grande escala. A lista oficial de espécies de peixes ameaçadas de extinção no Brasil conta com 133, cientistas independentes falaram de um estudo de 2015 de 819 espécies de peixes ameaçadas de extinção no Brasil. Muitos estudos, assim como muitas opiniões. Quem está agora? Difícil dizer. Isso não pode ser descoberto sem estudos sistemáticos em larga escala.

Os jornalistas do portal de jornalismo investigativo “A Pública” também apontaram outro ponto bastante negligenciado em 2015: os estudos de impacto ambiental sobre questões sociais, flora e fauna na construção de barragens são realizados pelos consultores em nome das construtoras, o que já é motivo suficiente de críticas. . Mais ainda: às vezes, as consultas também participam dos projetos que eles examinaram anteriormente. Por exemplo, a Engevix Engenharia criou o EIA para a barragem de Belo Monte – e a Engevix Construções (do mesmo grupo), juntamente com Toyo Setal, assumiu posteriormente o equivalente a cerca de 300 milhões de euros para Belo Monte: consulte “A insustentável leveza das avaliações de impacto ambiental“. Um brincalhão que é mau …

O exemplo do projeto da barragem de São Luiz do Tapajós, que foi fortemente planejado pelo governo no planejamento até meados de 2016, mas depois foi interrompido em agosto de 2016 devido a inconsistências na compatibilidade ambiental, ilustra a situação problemática das populações de peixes que estão desaparecidas ou até mesmo morrendo devido à construção da barragem e o que isso significa para os pescadores e Fischer significam: Embora os autores da AIA no projeto da barragem de São Luiz do Tapajós e seus críticos concordem que essas barragens têm efeitos e conseqüências, as opiniões diferem quanto à magnitude e gravidade das mesmas. . É indiscutível que a construção da barragem de São Luiz do Tapajós resultaria em perda de biodiversidade local. O próprio EIA incluía 1. 378 espécies de plantas, 600 espécies de aves, 352 espécies de peixes, 109 espécies de anfíbios, 95 espécies de mamíferos e 75 espécies de serpentes. No entanto, onde o EIA fala, por exemplo, de populações de tartarugas, golfinhos e peixes, que podem ser mitigadas por medidas apropriadas, críticos como os autores do estudo do Greenpeace publicado em 2016 acusam o EIA de não ter avaliado adequadamente os dados, já que essas populações são ameaçadas por sua população de represas (geralmente endêmica, que é única apenas lá).

E essas questões têm conseqüências adicionais – também para questões sobre o direito ameaçado à alimentação e a soberania alimentar da população afetada – como mostra claramente o exemplo das populações de peixes.

Para a avaliação do impacto ambiental da barragem de São Luiz do Tapajós, foram realizadas as atividades econômicas dos moradores do rio que vivem na bacia hidrográfica afetada. De acordo com isso, a maioria dos afetados vive na subsistência, como pequenos agricultores que praticam agricultura e pecuária, cuja principal atividade econômica consiste na produção de farinha de mandioca a partir de raízes de mandioca plantadas e pesca. Isso ocorre porque o excedente que produzem na farinha de mandioca e na pesca é vendido a garimpeiros que trabalham localmente, mas não são residentes lá. É por isso que os pequenos agricultores que realmente vivem na subsistência também são contados no setor de serviços em pesquisas,

55% das pessoas que vivem na bacia hidrográfica da barragem de São Luiz do Tapajós no rio praticam pesca, sendo que 31% delas é sua principal atividade econômica, de acordo com o EIA do planejador de barragens (Eletrobras / CNEC / Worley Parsons: RIMA. AHE São Luiz do Tapajós, julho de 2014, p. 67.). O uso do peixe como subsistência predomina, apenas uma pequena parte é tratada nas pequenas cidades Jacareacanga (80 t / ano) e Itaituba (400 t / ano) nos poucos mercados de peixes existentes (Ronaldo Barthem, Efrem Ferreira e Michael Goulding: As migrações do jaraqui e do tambaqui no rio Tapajós e suas relações com as usinas hidrelétricas, em: Ocekadi: Hidrelétricas, Conflitos Socioambientais e Resistência na Bacia do Tapajós / Daniela Fernandes Alarcon, Brent Millikan e Mauricio Torres [Hrs. Brasília, 2016, p.483.). Das 352 espécies de peixes encontradas na avaliação de impacto ambiental dos planejadores de barragens nas proximidades da barragem planejada de São Luiz do Tapajós (estudos mais antigos sobre o Tapajós, no entanto, contaram 494 espécies de peixes, consulte Ricardo Scoles: Caracterização ambiental da bacia do Tapajós, em: Ocekadi: Hidreléos socicambient, Conflit e Resistência na Bacia do Tapajós / Daniela Fernandes Alarcon, Brent Millikan e Mauricio Torres [ed.], Brasília 2016, p.35.) são apenas 42% de peixes migratórios (ver Eletrobras / CNEC / Worley Parsons: RIMA. Relatório de Impacto Ambiental AHE São Luiz do Tapajós, julho de 2014, p. 60.), mas as vendidas nos mercados de Jacareacanga e Itaituba, Segundo pesquisas, os peixes capturados localmente são compostos de 50 a 90% dos peixes migratórios sazonais que visitam outros habitats para desova devido à sua abundância no rio (ver Ronaldo Barthem, Efrem Ferreira e Michael Goulding: As migrações de jaraqui e tambaqui no rio Tapajós e suas relações com as usinas hidrelétricas, em: Ocekadi: Hidrelétricas, Conflitos Socioambientais e Resistência na Bacia do Tapajós / Daniela Fernandes Alarcon, Brent Millikan e Mauricio Torres [ed.], Brasília 2016, p.479.). Cientistas de vários estudos alertam expressamente que a migração desses peixes migratórios será interrompida pela construção da barragem e que isso poderá resultar na extinção das populações nas áreas isoladas umas das outras pela construção da barragem (ver Ronaldo Barthem,

Isso ilustra o que se trata: o direito à soberania alimentar e nutricional.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela Kobra Kooperation Brasilien [Aqui! ].

Mortandades de peixes continuam no Rio Doce

Lançamentos periódicos de rejeito de minério matam peixes, que continuam sendo consumidos pela população

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Por Fernanda Couzemenco para o Século Diário

“É contínuo. O rejeito fica no fundo, quando começa a prejudicar as turbinas das hidrelétricas, eles abrem as comportas e os peixes morrem”, declara o presidente da Associação de Pescadores de Conselheiro Pena e região (Aspec), Lélis Barreiros, ao final da reunião do Comitê Interfederativo (CIF) realizada nestas quarta e quinta feiras (27 e 28) em Vitória.

O CIF foi criado em 2016 para fiscalizar a execução dos programas de compensação e reparação dos danos ambientais e socioeconômicos advindos do rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco/Vale-BHP, ocorrido em cinco de novembro de 2015, o maior crime ambiental da história da mineração mundial e o maior do Brasil.  Realiza reuniões itinerantes mensais, assim como as Câmaras Técnicas a ele associadas.

Conhecedor da realidade dos pescadores atingidos no Espírito Santo e Minas Gerais, Lélis questionou, mais uma vez à Fundação Renova e outras entidades presentes à reunião, sobre os estudos que mostrem o grau de contaminação do pescado no Rio Doce, para que a população seja devidamente informada sobre os riscos que corre ao consumidor o pescado.

“A Fundação dificulta muito as coisas. Dizem que vão fazer os estudos, mas não apresentam nada”, irrita-se. “E mente, também. Já tive de chamar um funcionário da Renova de mentiroso durante uma videoconferência, porque ele dizia que os cadastros de todos os pescadores estava tudo certo”, conta.

Atualmente, a pesca está totalmente liberada na parte capixaba do Rio Doce e, no litoral, proibida apenas entre Barra do Riacho/Aracruz e Degredo/Linhares, na profundidade de até vinte metros. Em Minas, a proibição de pesca é apenas para as espécies nativas. As exóticas estão liberadas.

E entre as espécies mais pescadas pelos pescadores mineiros, na região da divisa com o Espírito Santo, está a corimba. “Ela é recente na região e tem um gosto forte, tipo salmão, por isso o preço é baixo. Mas é um peixe grande, chega a 12 kg, é muito pescado”, conta Lélis.

corimbaNa foto ao lado, um exemplo de uma corimba encontrada morta na região entre Baixo Guandu/Es e Aymorés/MG, e devorada por piranhas, pouco após a abertura da represa Baguari, a cerca de 30 km de Governador Valadares. “Quando o rio sobe 80 cm, eles abrem a represa e a água volta a baixar”, descreve.

Essas aberturas de comportas também acontecem na Represa Risoleta Neves, próximo a Mariana, que tem, segundos dados informados nas reuniões de Câmaras Técnicas do CIF, 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos depositados. Da última vez, conta Lélis, a água jogou poeira pro ar. “Nunca vi isso, água jogar poeira”, diz.

A Aspec está acionando o Ministério Público para que intervenha no caso e explique porque os peixes exóticos estão liberados para pesca. “Em novembro 2015, sugeri a proibição total da pesca. Eles aceitaram. Mas em maio de 2017, liberaram os exóticos. Se não sabe qual o grau de contaminação, então tem que proibir tudo. Prevenir é melhor do que contaminar a população toda”, afirma o pescador.

As críticas à liberação da pesca no Rio Doce é feita também por pescadores capixabas, sem qualquer atendimento por parte dos governos estaduais ou do Ministério Público.


Este artigo foi originalmente publicado pelo site “Século Diário” [Aqui!]