Em meio ao silêncio sepulcral da comunidade científica, trash science chega ao nirvana

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Depois de terem se livrado da incômoda lista produzida por  Jeffrey Beall, usando para isto sabe-se lá quais mecanismos de convencimento, os editores de  revistas de “trash science” devem estar mais felizes do que nunca. 

É que venho constatando cada vez mais a inclusão de artigos publicados por tradicionais editoras de trash science em minha própria contagem de citações na tradicional  base de dados de citação conhecida como “Web of Science”, e que foi criado pelo Institute for Scientific Information (ISI), que foi propriedade da Thomson Reuters, e que hoje está sob o controle da empresa Clarivate Analytics [1].

O primeiro efeito dessa entrada das revistas de “trash science” no Web of Science é, mais do que certamente, o encarecimento das publicações do chamado “open access” que ganharam uma importante chancela de legitimidade ao serem incluídas em uma plataforma que antes estava reservada a revistas que, em tese, publicavam ciência que tivesse passado pelo crivo do sistema de “peer review” (ou revisão por pares em português) . Nesse caso, os proprietários das editores de “trash science” são os claramente vencedores, visto que seus lucros deverão aumentar de forma estratosférica.

O segundo efeito é o que considero mais nefasto para a ciência enquanto um campo intelectual em que os elementos de rigor deveriam guiar aquilo que é publicado. É que a validação dada a revistas de “trash science” implica também na validação daquilo que elas publicam. Tal fato tornará basicamente o artigo científico em algo não apenas ultrapassado em termos de divulgação científica, mas principalmente em um veículo de de divulgação não de resultados científicos que tenham passado pelas provas de acurácia e precisão, mas daquilo que muitas vezes falhou nestas duas dimensões essenciais para que algo seja considerado uma verdade científica.

Um terceiro efeito é que, especialmente em países onde esses índices são usados para decidir a alocação de recursos públicos em fomento à ciência, teremos cada vez mais a premiação de pesquisadores que se sirvam das editoras predatórias para turbinar seus currículos para aumentar indevidamente as suas chances de obterem suporte para seus projetos de pesquisa. Tal efeito será desastroso não apenas para o avanço da ciência pura, mas também da aplicada, representando um vexaminoso exemplo de desperdício de recursos públicos.

O assombroso, ao menos para mim, é o completo silêncio que está cercando a chegada das editoras “trash science” ao nirvana dos indexadores de citação como é o caso do Web of Science.  Este silêncio é mais do que uma simples omissão, mas representa uma opção de cumplicidade em relação ao processo de validação do que pode ser considerado ou não como sendo ciência de qualidade.

E viva o trash science!


[1] https://clarivate.com/

Ciência em risco: a emergente venda de falsas cartas de aceite

Fake journal acceptance letters

A entrevista abaixo foi publicada originalmente em inglês no site “Retraction Watch” que é uma espécie de vigilante da boa ciência e que se especializa em acompanhar a “despublicação” de artigos científicos cujos conteúdos são fisgados com todo tipo de problemas, incluindo plágios e falsificação de dados [1].

A entrevista em questão, com a Editora Associada da Sociedade Americana de Engenheiros Civis (ASCE), Angela Cochran, trata de mais um tipo de esquema ilegal para pegar pesquisadores incautos (ou não) por meio da venda de cartas falsas de aceite em revistas científicas de renome.

Como Angela Cochran alerta, o problema pode ser muito maior do que já se sabe neste momento, e o conhecimento acerca do tamanho deste tipo de esquema ilegal pode estar sendo minimizado pelo fato de que os pesquisadores que tenham sido enganados não estão se apresentando por várias razões.

De toda forma, a leitura desta entrevista pode ser útil a quem não quer ser a próxima vítima do esquema das cartas de aceite falsas.

Parabéns! Seu papel foi aceito. (Exceto se a carta de aceite for falsa).

counterfeit bill

Você trabalhou duro em sua pesquisa, passou um tempo escrevendo e, finalmente, a boa notícia vem: o periódico com o qual você se inscreveu aceitou seu artigo. O problema é que, para vários autores, essa boa notícia fica ruim – a aceitação era falsa.

Recentemente, em Scholarly Kitchen, Angela Cochran, Editora Associada da Sociedade Americana de Engenheiros Civis (ASCE), revelou uma nova tendência perturbadora na publicação predatória: Intermediários que prometem ajudar pesquisadores a obter suas descobertas publicadas, mas, em vez disso, cobrem as taxas. Conversamos com Cochran sobre sua experiência com esse novo tipo de falsificação e como ela acha que editores (e autores) podem reagir.

Retraction Watch (RW): parece um truque bastante elaborado para fazer alguém acreditar que um periódico aceitou o trabalho quando não o fez. Como você suspeita que o processo funciona?

Angela Cochran (AC): Eu não sei o quão complicado isso precisa ser, na verdade. Suspeito que um intermediário fraudulento esteja, de alguma forma, anunciando seus serviços a autores que normalmente têm problemas para navegar pelo sistema ou para obter documentos após a revisão por pares. No caso mais antigo que descobrimos, o autor enganado nos enviou uma foto de um cartão postal em seu quadro de avisos do departamento, oferecendo ajuda para ser publicado em três periódicos na mesma área de assunto. Outro autor nos falou de uma conexão mais pessoal. Esse autor encontrou alguém que disse que era amigo do editor da revista. Mais recentemente, recebemos três cartas de aceitação fraudulentas com pelo menos um autor em cada trabalho proveniente da mesma universidade iraniana.

O intermediário está cobrando uma taxa ou dizendo aos autores que cobramos as taxas de submissão e publicação de artigos. Nós também não cobramos. Em pelo menos um caso, os autores receberam até comentários de revisores falsos. Os autores, em seguida, recebem uma carta de aceitação e, eventualmente, entre em contato conosco para perguntar quando o jornal irá publicar ou por que ele não apareceu na edição prometida da revista.

RW: Dos sete autores que você conhece e que foram enganados, dois estão baseados no Irã e cinco na China. Você apresenta um dilema: você deve alertar suas instituições sobre o que aconteceu? Você pode dizer mais sobre por que você acha que deveria (ou não deveria) fazê-lo?

AC: Recebemos uma 8ª carta desde o meu post do Google Scholarly Kitchen sobre o assunto. Alertar as instituições pode ser complicado. Quando pedimos aos autores mais informações, eles geralmente ficam em silêncio [2]. Eu suponho que eles estão ou envergonhados ou preocupados que eles estarão em apuros. Até recentemente, não vimos um padrão. No entanto, recebemos uma terceira carta do Irã e uma instituição é a mesma em todos os três. Pretendemos notificar a universidade como alguém claramente está tirando proveito dos pesquisadores daquela instituição em particular.

RW: Em um exemplo, você conseguiu rastrear a falsificação para um serviço de edição baseado na China. Como você fez isso, e você tem algum plano para agir sobre a informação?

AC: Nesse caso, o autor nos forneceu algumas correspondências por email. Eu pesquisei o endereço de e-mail e ele foi vinculado a um serviço. Eu verifiquei o site, que não estava em Inglês, para ver se eu poderia encontrar qualquer menção de nossos periódicos. Muitos desses sites, seja na China, na Rússia ou na Ucrânia, realmente publicam capas de periódicos e convidam autores a se submeterem a esses periódicos. Não consegui encontrar nenhuma menção aos periódicos da ASCE no site chinês. Sem um caso de representação falsa, não tenho certeza se há algo que um editor possa fazer. Suponho que o editor cuja assinatura forjada aparece em cartas de aceitação poderia apresentar algum tipo de queixa, mas isso provavelmente seria uma perda de tempo.

RW: Em um exemplo, você conseguiu rastrear a falsificação para um serviço de edição baseado na China. Como você fez isso, e você tem algum plano para agir sobre a informação? 

AC: Nesse caso, o autor nos forneceu algumas correspondências por email. Eu pesquisei o endereço de e-mail e ele foi vinculado a um serviço. Eu verifiquei o site, que não estava em Inglês, para ver se eu poderia encontrar qualquer menção de nossos periódicos. Muitos desses sites, seja na China, na Rússia ou na Ucrânia, realmente publicarão capas de periódicos e convidarão autores a se submeterem a esses periódicos. Não consegui encontrar nenhuma menção aos periódicos da ASCE no site chinês. Sem um caso de representação falsa, não tenho certeza se há algo que um editor possa fazer. Suponho que o editor cuja assinatura forjada aparece em cartas de aceitação poderia apresentar algum tipo de queixa, mas isso provavelmente seria uma perda de tempo. 

RW: Desde que você compartilhou sua experiência com cartas de aceitação falsas, outros editores se manifestaram para compartilhar histórias semelhantes? Quantos incidentes você conhece agora? 

AC: Em resposta a minha postagem no Google Scholarly Kitchen, vários editores comentaram que viram cartas de aceitação fraudulentas. Curiosamente, os números parecem baixos, mas suspeito que há muito mais por aí do que sabemos. Os editores só descobrirão essas cartas fraudulentas se o autor entrar em contato conosco. 

RW: Você escreve: “Esses serviços falsos prejudicam a reputação dos serviços de edição de idiomas legítimos e dos editores freelancers da mesma maneira que os jornais predatórios tiram uma mordida de periódicos responsáveis.” Você pode falar mais sobre isso? 

AC: Existem muitos serviços legítimos que ajudam os autores com edição de idioma, formato de manuscrito e até mesmo encontrar um diário apropriado para trabalhos. Serviços fraudulentos que não cumprem o que prometeram podem deixar os autores de países em desenvolvimento desconfiados de serviços legítimos que podem realmente ajudá-los. 

RW: Você sugere fazer alterações nas diretrizes do autor para que os autores fiquem menos propensos a serem enganados. Você pode explicar algumas das mudanças e como elas podem ajudar a evitar isso? 

AC: Acho que se os editores forem mais explícitos sobre o que acontecerá durante o processo de submissão e revisão por pares, os autores terão uma melhor compreensão de quando as promessas são boas demais para ser verdade. Por exemplo, se as diretrizes do autor deixam claro de onde os e-mails do autor virão (como um sistema de submissão), como será o número do manuscrito, quanto tempo levará um processo típico, se os artigos serão aceitos sem alterações e tipo de informação será contida na correspondência, eles podem identificar melhor a fraude. Por outro lado, muita informação dá aos serviços fraudulentos uma ideia de como falsificar o processo.


[1] https://retractionwatch.com/2018/06/05/congrats-your-paper-was-accepted-or-was-it/

[2] https://scholarlykitchen.sspnet.org/2018/04/18/paper-acceptedunless-letter-forged/

Índia remove 4.305 revistas científicas de baixa qualidade da lista de publicações aceitas para avaliar desempenho acadêmico

Lucas Vallecillos/Alamy Stock Photo

A agência de consultoria de ensino superior na Índia está removendo revistas consideradas de baixa qualidade do seu registro de revistas aprovadas, mas acadêmicos dizem que a lista deve ser abolida.

Por Smriti Mallapaty*

A University Grants Commission (UGC), que financia e supervisiona o ensino superior na Índia, removeu 4.305 revistas espúrias de uma lista de cerca de 30.000 publicações usadas para avaliar o desempenho acadêmico no país. O Comitê Permanente de Notificação de Periódicos da UGC avaliou o subconjunto de periódicos originalmente enviados para inclusão pelas universidades ou listados no Indian Citation Index, e os considerou de baixa qualidade ou para conter informações incorretas ou insuficientes.

O Comitê avaliou as revistas em resposta à reclamações sobre credibilidade. Em março, pesquisadores na Índia e no Canadá publicaram um artigo na Current Science, que descobriu que a grande maioria do subconjunto recomendado pela universidade era de baixa qualidade [1]. As instituições acadêmicas devem consultar a lista ao indicar o corpo docente, avaliar o desempenho do pessoal e conceder o doutorado.

O UGC anunciou as mudanças em seu site esta semana e está revisando mais 191 periódicos no Indian Citation Index. “Este é um processo dinâmico”, diz Virander Chauhan, presidente do comitê de UGC. “Não é uma lista congelada.”

Bhushan Patwardhan, primeiro autor do artigo da Current Science e biólogo da Universidade Savitribai Phule Pune, diz que a decisão de remover os periódicos ilusórios “é boa, embora um pouco atrasada”.

 Tolerância zero

A UGC criou a lista de periódicos aprovados em abril de 2017 como uma forma de ajudar os pesquisadores a distinguir entre periódicos legítimos e predatórios. A lista de cerca de 30.000 títulos foi selecionada a partir de vários índices de citação, como o Web of Science e o Scopus, além de recomendações de comitês de especialistas e universidades. Mas muitos acadêmicos criticaram por dar licença às próprias publicações que procuravam proteger. Em particular, eles questionaram a qualidade de um subconjunto de cerca de 5.500 periódicos apresentados por universidades. Patwardhan queria verificar quantitativamente essas alegações.

Para conduzir a análise, ele se juntou ao epidemiologista clínico David Moher, do Ottawa Hospital Research Institute. Moher já havia analisado 1.907 artigos em mais de 200 supostos periódicos predatórios nas ciências biomédicas e descobriu que a maioria dos artigos vinha da Índia (os Estados Unidos eram o segundo maior contribuinte).

Os pesquisadores avaliaram 1.009 dos periódicos submetidos à universidade, dos quais apenas 112 (11,1%) preencheram os critérios básicos para boas práticas de publicação. Um terço dos periódicos foi desclassificado por não fornecer informações essenciais (ou apresentar detalhes incorretos), tais como endereço, site e editor da revista. Os demais periódicos que não ultrapassaram o limite de qualidade fizeram declarações incorretas ou enganosas sobre sua indexação, detalhes de contato e afiliação de editores, ou processo de revisão por pares. “Nós aplicamos tolerância zero para informações falsas”, diz Patwardhan. Uma análise inédita de todo o subconjunto de periódicos recomendados por universidades corresponde a esses resultados, diz ele.

Subhash Lakhotia, coautor e zoólogo da Universidade Hindu de Banaras, diz que o CGU deveria dispensar inteiramente a lista, concentrando-se em “emitir diretrizes gerais sobre como avaliar a qualidade do trabalho de um pesquisador”.

“As universidades não podem escapar de sua responsabilidade”, diz Lakhotia. “Criamos as condições, participamos e promovemos.”

Integridade da pesquisa

Alguns culpam a crescente prevalência de periódicos duvidosos na Índia sobre regulamentações institucionais que determinam a publicação para o sucesso na carreira. Em 2010, a UGC introduziu Indicadores de Desempenho Acadêmico baseados em pontos para o recrutamento e promoção de professores e professores acadêmicos em faculdades e universidades, o que incluiu uma categoria para trabalhos de pesquisadores. Em 2013, também exigiu que os candidatos ao doutorado publicassem dois trabalhos antes de apresentar sua tese. Isso criou um “desespero” para publicar, diz Patwardhan, que é um convidado especial do comitê de CGU.

O UGC planeja eliminar a exigência de publicação obrigatória para professores universitários.

Outros argumentam que o acesso à tecnologia digital e o modelo pay-to-publish adotado por muitas publicações de acesso aberto criaram condições favoráveis para aqueles que querem ganhar dinheiro rapidamente. “Por que isso acontece? Porque tem dinheiro”, diz Chauhan.

Patwardhan planeja estabelecer um Centro Internacional de Ética na Publicação na Universidade Savitribhai Phule Pune, que manterá uma lista independente de periódicos confiáveis, além de conscientizar sobre boas práticas de publicação. “Pesquisadores publicam hoje em revistas duvidosas por desespero”, diz ele. “Precisamos construir integridade acadêmica em nossa comunidade.”

“A trajetória desse problema é acentuada”, diz Moher no Canadá. “Não vai desaparecer a menos que alguma ação seja tomada.”

“A trajetória desse problema é acentuada”, diz Moher no Canadá. “Não vai desaparecer a menos que alguma ação seja tomada.”

*Smriti Mallapaty é Senior Editor da Nature Index da Nature Publishing Group. Artigo originalmente publicado em inglês pela Nature.index [2]


[1] https://www.researchgate.net/publication/323942993_A_Critical_Analysis_of_the_%27UGC-Approved_List_of_Journals%27

[2] https://www.natureindex.com/news-blog/india-culls-four-thousand-three-hundred-dubious-journals-from-approved-list

Nature publica duas cartas que lamentam o fim da Lista de Jeffrey Beall

beall´s

A respeitada revista Nature publicou na sua edição do último dia 27 de Abril duas cartas de lamento sobre o encerramento da lista de revistas predatórias (trash science) do professor Jeffrey Beall (ver abaixo).

Beall Naure

De forma geral as cartas assinadas pelos professores Vinicius Giglio e Osmar Luiz e a do professor Wadim Strielkowski apontam na mesma direção: a Beall´s List cumpria um papel inestimável na identificação de editores e revistas predatórias, e seu desaparecimento deixou muita gente perdida na selva formada pelas publicações “trash”.

Mas ambas as cartas vão além do lamento e cobram que editoras e instituições de pesquisa estabeleçam critérios que contribuam para a identificação de revistas científicas meritórias de publicação, bem como a necessidade de que sejam estabelecidos bancos de dados que permitam a rápida identificação destes reprodutores de lixo científico, de modo a que a comunidade científica os evite. 

Por fim, a carta assinada por Strielkowski aponta para a necessidade de que sejam estabelecidos comitês de ética cientifica para que estes estabeleçam diretrizes que possam facilitar a identificação das revistas e editoras predatórias.

Ainda que eu considere todas essas considerações mais do que necessárias, tendo a ficar cético quanto à disposição da comunidade cientifica mundial,  e a brasileira em particular, de atacar frontalmente o problema representado pelas revistas reprodutoras de “trash science“.  É que as revistas predatórias apenas suprem um nicho de mercado que está diretamente associado à aceitação explícita do dogma do “publicar ou perecer” que guia premiações individuais e alocação de verbas estatais e privadas para a pesquisa científica em todo o mundo. A verdade é que enquanto a cultura do produtivismo, que premia quantidade em vez de qualidade, não for revista como critério de alocação de verbas e estabelecimento de padrões salariais, o mais provável é que as revistas predatórias continuem a florescer como cogumelos em pastagens em dias de chuva.

Assim, até que se mudem os padrões de premiação, o mais provável é que cada vez mais tenhamos lixo acadêmico sendo apresentado como ciência genuína.  E de lá da sua trincheira na Universidade do Colorado, é bem provável que Jeffrey Beall ainda seja quem mais saiba os caminhos que deveriam ser trilhados para que se evite essa verdadeira hecatombe que ronda a ciência mundial. Resta saber se alguém vai procurá-lo para ouvir o que ele tem a dizer. A ver!

Jeffrey Beall publica lista de 2017 e mostra o trash science em franco crescimento

beall

Graças ao trabalho voluntário do professor Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado-Denver, que lança desde 2011 a sua lista de editoras e revistas predatórias, pesquisadores de todo o mundo vem gradativamente sendo municiados com as informações necessárias para que evitem contribuir para a expansão do que eu rotulei como “trash science”.  Esse trabalho é particularmente importante para países como o Brasil que vivem sobre a pressão crescente para que seus cientistas publiquem mais, mesmo que o ambiente de financiamento de suas pesquisas enfrentem cenários de completa incerteza como o que é atualmente oferecido pelo governo “de facto” de Michel Temer.

Pois bem, o professor Beall acaba de liberar a sua lista anual de editoras e revistas predatórias, e ainda acrescentou dados relativos a métricas fajutas e revistas legítimas que foram sequestradas por editoras predatórias (Aqui!).   Uma rápida olhada nas tabelas abaixo vai mostrar que a invasão do “trash science” está se tornando um problema crucial para a ciência mundial, pois o avanço em todos os indicadores escolhidos é impressionante.

Esse crescimento exponencial na produção de “trash science” se deve a uma combinação de variáveis que estão invariavelmente ligadas à s da produção científica em mais uma commodity. Mas obviamente sobram os aspectos relacionados à distribuição de verbas públicas e privadas para pesquisadores, bem como benefícios funcionais, seja no aumento de salários ou na obtenção da almejada estabilidade empregatícia dentro de universidades e instituições de pesquisa.

No caso brasileiro, todas as evidências apontam para a penetração irrestrita das editoras e e revistas predatórias dentro da nossa comunidade científica. Um fato que vem contribuindo para isso é a adoção de uma opção quantativa (no caso o número de publicações alcançadas por um determinado pesquisador) para se definir todo tipo de premiação, seja no plano individual ou dos programas de pós-graduação. 

E, pior, a única manifestação pública que ouvi nos últimos anos sobre a lista preparada pelo professor Beall foi um repúdio coletivo por parte de editores de revistas científicas brasileiras contra uma postagem que ele publicou acerca do alcance limitado da plataforma Scielo  (Aqui!).

Mas como nunca é tarde para se aprender, espero que os pesquisadores e instituições de pesquisa brasileiros comecem a prestar mais atenção no trabalho de Jeffrey Beall. É que se isso não acontecer, corremos o risco de virarmos uma espécie de mais um paraíso do “trash science” ao modo do que já ocorre em muitos países da periferia capitalista.   A verdade é que continuar fingindo que o problema não existe vai atrasar ainda mais a evolução do nosso sistema nacional de ciência.

Nunca é demais lembrar que os próximos anos serão marcados por uma forte contenção de verbas para a pesquisa científica no Brasil.  Isto nos obriga a cobrar critérios mais claros para o que vai ser distribuído. Do contrário, acabaremos vendo o grosso dos recursos indo para as mãos dos que não hesitam recorrer ao trash science para turbinar seus currículos.

Por ora, resta-me saudar o incansável trabalho de Jeffrey Beall. É que sem ele não teríamos a menor ideia do tamanho do problema ou de como evitar cair nas milhares de arapucas que vendem gato por lebre.

 

Trash science: as conferências caça-níqueis são apenas a ponta do iceberg

As atribulações dos últimos dias não me permitiram abordar de forma rápida ao material que o jornalista Maurício Tuffani publicou na plataforma “Direto da Ciência” acerca da volta com força total das conferências científicas caça-níqueis ao Brasil (Aqui!).

O fato das conferências caça-níqueis serem as irmãs gêmeas das revistas de “trash science” apenas reforça o caráter predatório das mesmas. É que como já mostrou o próprio Maurício Tuffani em determinados casos há uma espécie de ligação direta entre a conferência caça-níquel e uma revista predatória, a qual é normalmente publicada online pelos mesmos “empreendedores” da área da publicação científica.

Para mim a pergunta que realmente importa é de porque pesquisadores em diferentes níveis de desenvolvimento de sua carreira científica se submetem a este tipo de esquema de vulgarização da ciência. As respostas são muitas, mas a principal parece ser a preferência dada pelos órgãos de fomento por premiar a quantidade e não a qualidade do que é publicado como sendo produto de investigação científica.

Algo que chama a minha atenção toda vez que este assunto surge é o quase completo silêncio que se forma por parte da ampla maioria da comunidade científica, e não apenas da brasileira. Esse é definitivamente um fenômeno global e que responde a um processo de comodificação da ciência. A diferença é que no Brasil enquanto muitos participam ativamente dos eventos e revistas que produzem e disseminam lixo científico, poucos falam aberta e criticamente do problema.

Felizmente um núcleo de resistência a este processo de vulgarização do conhecimento científico está se formando, graças ao trabalho de indíviduos como Maurício Tuffani e Jeffrey Beall que vem apontando não apenas para a existência do problema, mas também para a necessidade urgente de que saiamos de uma posição de negação do óbvio para outra que recoloque a produção da ciência dentro dos marcos rigorosos que permitiram avanços impressionantes no entendimento de processos naturais e sociais nos últimos quatro séculos.

Finalmente, para os interessados em não cair nas malhas das conferências caça-níqueis, sugiro a leitura dos critérios propostos pelo professor Jeffrey Beall para identificar quando nos deparamos com esse tipo de pseudo evento científico, o qual pode ser acessado (Aqui!).

O crescimento acelerado do “trash science”. Um caso clássico de oferta e demanda?

Ao longo de 2015 tratei aqui neste blog do problema do crescimento e validação do “trash science” e de seus efeitos perversos sobre o processo de disseminação de conhecimento científico, bem como da distribuição de verbas estatais para pesquisadores.

Para minha pouca surpresa, a reação inicial que obtive de muitos pesquisadores foi de rejeição à publicização até da existência deste problema. Apesar de não concordar, acho até compreensível que muitos não queiram nem ouvir falar sobre qualquer esforço de separar “o trigo do joio”. Afinal, além de se manterem num Olimpo com pés de barros, esses pesquisadores estão sendo beneficiados pela concessão de verbas pelas principais agências de fomento brasileiras.

O pior é que ao longo do ano passado tive ainda que presenciar a tentativa de linchamento do Professor Jeffrey Beall por causa de uma postagem em seu blog acerca da eficiência da plataforma Scielo em disseminar artigos e revistas ali hospedados.  O ultraje que acometeu dezenas de editores de revistas brasileiras só tem paralelo no imenso silêncio que existe acerca do problema e das consequências do “trash science” para a ciência, e especificamente a brasileira.

Agora, já nos primeiros dias de 2016 estou sendo novamente procurado para publicar em revistas predatórias, como mostra a imagem abaixo.

trash science

Além de deixar curioso sobre como meu endereço eletrônico institucional foi “fisgado” pelos editores do “International Journal of Environmental and Agriculture Research“, não posso deixar de pensar que se eles estão me alcançando, o mesmo estará ocorrendo com centenas de outros docentes de universidades brasileiras. É que dentro das leis estritas de mercado, raramente há oferta se não houver um mínimo de demanda. Em outras palavras, tem gente que está respondendo positivamente a este pedido de convite.

Mas será por falta de ignorância e excesso de boa fé, combinadas com a necessidade de engordar o CV Lattes, que isto ocorre? A minha resposta é… dificilmente. É que, apesar do incômodo gerado pela “black list” do Professor Beall, quase todo mundo já sabe da sua existência e das formas de acessá-la.

No caso do convite acima, bastou identificar a editora do “International Journal of Environmental and Agriculture Research“, a AD Publications (ver cabeçalho da sua página na internet) e depois acessar a lista do Professor Jeffrey Beall (Aqui!) para saber a resposta.

trash science 1

E não deve ser surpresa que a AD Publications está na Beall´s List of Predatory Publishers.  Mas isto também deixar claro que estar listado não é um fator de inibição para os editores que o próprio professor Beall continuam a se reproduzir como cogumelos em pastagens após dias de chuva intensa.

trash science 2

Entretanto, a pergunta que me parece mais relevante é a seguinte: quantos pesquisadores se sentem na obrigação de verificar listas como a formulada pelo Professor Beall? E mais importante ainda: será que o trabalho iniciado pela CAPES para remover jornais “trash” do Qualis Capes vai continuar sem a pressão de jornalistas como Maurício Tuffani que é um dos poucos a tratar do problema de forma aberta na mídia corporativa (Aqui!)?

Eu diria que em tempos de forte restrição financeira e das imensas pressões pela validação meritocrática do trabalho das universidades, deixar de atacar o problema do “trash science” será um tremendo tiro no pé.  É que nada melhor para quem justificar cortes orçamentários do que fisgar publicações “trash” para desvalorizar toda a comunidade científica brasileira. 

E, sim, continuo esperando uma posição coletiva dos editores de revistas científicas brasileiras sobre o problema, de preferência no mesmo tom de ultraje com que procuraram demonizar o trabalho do Professor Jeffrey Beall. Caso contrário, o ultraje não terá passado de uma tentativa de se assumir responsabilidades.

Jeffrey Beall toca na ferida dos impactos das publicações predatórias sobre a cultura científica (e seus sistemas de premiação)

beall

Ao longo deste ano tive a oportunidade de falar para diferentes audiências sobre o problema das revistas científicas predatórias e de seus impactos não apenas na qualidade das publicações, mas também na distribuição de verbas por agências de fomento, e também no processo de avaliação da qualidade do trabalho dos professores e da progressão funcional dos mesmos. A reação que venho tendo é um misto de inquietação e letargia.  Essa postura é para um reflexo de uma situação de deterioração da cultura que cercava a produção científica, onde publicar alguma coisa tinha normalmente como pré-requisito a existência de algo meritório de ser mostrado ao resto da comunidade de cientistas.

No caso brasileiro, a aceitação do engordamento de currículos via a colocação de trabalhos em revistas predatórias possui um efeito especialmente pernicioso que é de atrasar um processo de desenvolvimento científico no qual o nosso país já embarcou de forma tardia.  É que ao aceitarmos a penetração do “ethos” do “trash science” acabamos por investir recursos escassos e preciosos em publicações que efetivamente apenas objetivam recolher dinheiro, sem medir a qualidade do acaba sendo publicado.

Mas como já observei em várias ocasiões, o problema da expansão exponencial do “trash science” não se resume ao Brasil. Pelo contrário, o crescimento de publicações predatórias só é possível porque existe um amplo mercado a ser ocupado em escala global. O problema é que a expansão deste mercado acabou por criar graves deformações na forma de avaliar e valorar a produção científica.

Felizmente, existem vozes que estão soando o alarme sobre os impactos da expansão do “trash science“, e uma delas é o professor Jeffrey Beall da Universidade do Colorado-Denver que considero ser um dos pioneiros no alerta sobre os impactos prejudiciais das revistas predatórias sobre a qualidade das publicações científicas.  O Prof. Beall é o criador do que é provável a mais ampla listagem de editoras e revistas predatórias, e que se transformou num instrumento bastante útil a todos aqueles que querem evitar cair na armadilha dos “trash publishers(Aqui!).

Agora, o Prof. Beall acaba de publicar uma análise na revista “Information Development” que eu considero ser um ótimo ponto de partida para todos que querem entender melhor as modificações trazidas, bem como os desafios que isto criou, para a cultura científica.  O artigo cujo título é “Predatory journal and the breakdown of research cultures” pode ser baixado de forma gratuita (Aqui!). 

Beall predatory pubs

Aliás, o que gostaria de ver é como reagem aquelas dezenas de editores de revistas científicas brasileiras que recentemente embarcaram numa espécie de “vendetta” coletiva contra o Prof. Beall por causa de uma postagem em que ele questionava a capacidade da plataforma Scielo de tornar conhecida o conteúdo das revistas que são ali hospedadas. É que passada aquela verdadeira tempestade num copo d´água, o Prof. Beall continua tocando na ferida exposta das revistas predatórias, as quais, interessantemente, ocupam principalmente o espaço de publicações de acesso aberto que procuram preencher.

E agora, será que teremos alguma reação aos comentários que estão contidos na peça produzida pelo Prof. Beall ou vamos ter que continuar assistindo a caçada impiedosa ao mensageiro, enquanto o “trash science” se expande a um custo financeiro altíssimo? A ver!

Os riscos e impactos do “trash science”. Entrevista especial com o Professor Jeffrey Beall

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Em meio ao debate sobre os impactos da disseminação do lixo científico na ciência brasileira me deparei com a lista de editoras e revistas predatórias (o que eu chamo de “trash science” ou simplesmente “lixo científico” produzida pelo professor Jeffrey Beall, da University of Colorado-Denver (Aqui! ).  E a partir do conhecimento da Beall´s List (ou Lista de Beall) tenho identificado editoras e revistas predatórias, muitas das quais têm atraído muitos pesquisadores brasileiros.

No intuito de saber mais sobre as origens e objetivos da Beall´ List, enviei um e-mail para o professor Jeffrey Beall solicitando uma entrevista para aprendermos mais sobre a sua lista e ele gentilmente concordou em responder às minhas perguntas. A entrevista com o Professor Jeffrey Beall segue abaixo na íntegra, e creio que a leitura das respostas que ele ofereceu serão bastante úteis para todos aqueles pesquisadores – dos mais jovens aos mais experientes- que desejem evitar ter suas pesquisas publicadas em revistas predatórias a custos nem sempre baratos, apenas para serem confundidas com lixo científico. 

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BLOG DO PEDLOWSKI: Qual é a sua atual filiação institucional, e principais interesses de pesquisa e atividades profissionais?

Jeffrey Beall (JB): Eu sou professor associado com estabilidade (tenure track) na University of Colorado-Denver. Eu faço pesquisas sobre publicações acadêmicas, métricas de publicações científicas e a ética na publicação.  Eu trabalho na biblioteca da universidade onde eu sou o bibliotecário responsável pelas comunicações acadêmicas.

BLOG DO PEDLOWSKI: Por que o senhor decidiu iniciar uma lista de editoras e revistas predatórias?

(JB): Inicialmente eu criei a lista em um blog que eu mantinha e fiz isto apenas por curiosidade. Um ano depois de ter criado a primeira lista, no final de 2011, eu criei a lista atual e ela começou a atrair a atenção. Agora, o objetivo da lista é ajudar pesquisadores a evitarem revistas e editoras predatórias e de baixa qualidade.   

BLOG DO PEDLOWSKI: Muitos dos seus críticos sugerem que o seu nível de treinamento acadêmico e áreas de especialização não o habilitam a atuar como um juiz de integridade científica. Como o senhor responde aos seus críticos?

(JB): A questão parece implicar que para julgar um dado periódico, você deve ser um especialista no campo que o mesmo ocupa, como, por exemplo, Engenharia Elétrica. Mas eu analiso as editoras e as revistas em termos de sua ética e suas normas de publicação. Eu olho para o uso de mentiras, falta de transparência, e desvio dos padrões acadêmicos que prevalecem no ramo das publicações científicas. Eu uso critérios documentados que me guiam na análise dos periódicos.

Ainda assim, muitas revistas publicam lixo científico, e na maioria das vezes sou capaz de identificar quando isso ocorre. Por exemplo, eu vi recentemente um artigo que discutia as civilizações que teriam existido no planeta Marte, e eu não tive a necessidade de ser um especialista em ciência planetária para determinar que tanto o artigo como a revista eram lixo científico.

Editoras predatórias visam enganar pesquisadores honestos para pensar que suas revistas são legítimas. Infelizmente, às vezes eles são bem sucedidos. Então, ocasionalmente, nós vemos boas pesquisas publicadas em revistas ruins.

BLOG DO PEDLOWSKI: Em sua opinião, como o fenômeno das editoras predatórias pode afetar o desenvolvimento futuro de revistas de acesso aberto?

(JB): Editoras e revistas predatórias que estão usando o modelo de ouro (autor paga) do acesso aberto tem um conflito de interesse interno, pois quanto mais artigos eles aceitam, mais dinheiro elas fazem. Muitas pessoas estão promovendo a publicação de acesso aberto, e o modelo tem suas vantagens, mas os defensores do acesso aberto não estão contando a toda à história. O número de publicações acadêmicas de acesso aberto está crescendo rapidamente, mas também o número de revistas e editoras corruptas. O registro científico está sendo cada vez mais contaminado com pseudociência e por ciência de baixa qualidade que serve como “ruído” e torna mais difícil encontrar e acessar ciência de qualidade e outros tipos de pesquisas qualificadas.

BLOG DO PEDLOWSKI: Quais têm sido as principais respostas da comunidade científica à sua lista de editoras e revistas predatórias?

(JB): Estou honrado de ter recebido muitos e-mails me agradecendo por meu trabalho. Eu venho tendo a oportunidade de falar sobre a minha lista em conferências científicas e de conhecer novos colegas. Nem todo mundo gosta de mim, e está tudo bem com isso. Mas eu acho que até meus inimigos usam minhas listas.

BLOG DO PEDLOWSKI: O senhor tem alguma recomendação para cientistas interessados em evitar o risco de ser atraído e/ou enganado por editoras predatórias?

(JB): Sim. Por favor, consultem as minhas listas. Sejam muito cuidadosos com a aceitação de ofertas que cheguem via e-mails do tipo “spam”, incluindo as ofertas de revistas e conferências. Aprendam quais são as principais revistas em seus campos disciplinares, e as leiam. Leiam cada número das principais revistas, e aprendam o estilo delas. Em seguida, façam sua pesquisa, escrevam e submetam seus artigos às revistas que estejam no topo do ranking.

BLOG DO PEDLOWSKI: Existe alguma coisa que o senhor gostaria de acrescentar?

(JB): Sim, existem novas formas de fraude e aqui está uma: muitos periódicos agora afirmam que ganharam um fator de impacto, quando isto realmente não aconteceu Existem hoje novas empresas, principalmente da Índia, que vendem fatores de impacto falsos para as revistas predatórias. Verifique todos os fatores de impacto antes de submeter um manuscrito para uma dada revista.  

Editora trash e seus múltiplos convites para “pagar e publicar”

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Faz algum tempo que a minha caixa de mensagens eletrônicas no servidor da Uenf vem sofrendo uma enxurrada de convites de editoras predatórias (trash science) que invariavelmente anunciam facilidades para publicar a preços, ao menos inicialmente, módicos. Mas nesta segunda-feira (22/06) fui surpreendido com dois e-mails de uma mesma editora trash para revistas bastante díspares, conforme mostro abaixo, mas que possuem a semelhança de serem anunciadas pelo mesmo endereço eletrônico.

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O primeiro convite mostrado acima, que chegou às 6:53, se refere à revista Advances in Research, e o endereço de envio pertenceria a senhora Isita Sen, editora do ScienceDomain.org

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Como se vê, o segundo convite, que chegou às 9:08, já se refere a um tal de British Journal of Applied Science and Technology, e também foi enviado pela senhora Isita Sen.

Ao consultar a lista de editoras predatórias (trash science) preparada pelo professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver pude verificar que a editora e as revistas anunciadas estão listadas. Essa inclusão aponta para o fato de que estou diante de mais um caso de convite para “pagar e publicar”. 

Uma coisa que me deixa curioso é sobre como meu endereço eletrônico foi obtido por essa editora, já que nunca tive qualquer contato com a mesma. E como tenho notícias que outros colegas também receberam a mesma mensagem fica demonstrado que a entrega na minha caixa postal não foi por acaso. Essa pode ser uma pergunta que se bem respondida poderia nos mostrar o caminho de um comércio bem valioso que é o da entrega de endereços eletrônicos de pesquisadores brasileiros a essas editoras.

E nunca é demais lembrar que tem muito CV Lattes recheado com esses “artigos” neste momento, inclusive por pesquisadores detentores das ambicionadas “Bolsas de Produtividade” do CNPq. Deve ser por isso que o mercado de artigos trash não para de crescer, o que explica essa chuva de e-mails dos editores predatórios.