Boulos lança sementes e sairá maior do que entrou na campanha presidencial

Manifestação contra o presidente interino Michel Temer

Já abordei por mais de uma vez os problemas cercando a candidatura do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, à presidência pelo PSOL. Esta candidatura nasceu sobre o desígnio de uma decisão de cima para baixo dos setores que hegemonizam a direção do PSOL que preferiu apostar num “outsider” a bancar uma figura que estivesse há mais tempo envolvido na construção do partido. 

Depois que a candidatura foi imposta e oficialmente lançada, o problema parece ter se movido para o campo dos pragmatismos que têm marcado a existência do PSOL, mormente a opção por aumentar as bancadas estaduais e a federal.  Em função disso, Guilherme Boulos tem sido deixado, com todas as suas próprias contradições, como se estivesse num barco à deriva, já que os recursos curtos são direcionados ao objetivo de aumentar bancadas. Por isso, Boulos continua marcando traço nas seguidas pesquisas eleitorais, perdendo ou empatando com os candidatos do PSTU (Vera Lúcia) e do Patriota (Cabo Daciolo).

Felizmente, Guilherme Boulos tem sabido navegar nas águas turvas em que foi jogado, e vem efetivamente abrindo canais de diálogo com setores com os quais o PSOL demoraria ainda algumas décadas (isto se o partido resistir à passagem do tempo) e lançando as bases para a construção de bases políticas que permitam o fortalecimento de uma perspectiva classista que se insira de forma decisiva na luta de classes no Brasil.

Assim, Guilherme Boulos, em que pesem suas vacilações em face do PT e do lulismo, vai se alçando a ocupar um papel de frente nos anos duros que teremos pela frente. É isto talvez a única notícia realmente positiva de toda a conjuntura política em que estamos imersos. É que finalmente está surgindo uma nova liderança política que aponta para a necessidade de se fortalecer o processo de organização dos pobres para que estes possam de forma autônoma lutar pelos seus direitos.  E mesmo que isto não se transforme imediatamente em votos, o fato é que Boulos está agindo para que possamos avançar para além da hegemonia que o PT efetivamente possui dentro da esquerda brasileira.

Como já disse antes, Guilherme Boulos sairia maior da campanha eleitoral do que entrou, e me parece que isto está efetivamente acontecendo por méritos essencialmente dele. Resta a expectativa de que as sementes que Boulos está lançando possam germinar e desabrochar, em que pese o terreno árido em que nos encontramos neste momento.

Por fim, para aqueles que acham que essas sementes devem germinar, o maior desafio é não cair na pressão do voto útil. Essa pressão visa e tão somente esterilizar as sementes que Guilherme Boulos está lançando. 

Seis meses após assassinato de Marielle, Anistia Internacional cobra solução do crime

Falta de solução para o assassinato de Marielle é inadmissível e o caso não pode ficar impune, alerta Anistia Internacional seis meses após o crime

marielle

 

– Mobilização em todo o mundo cobra Estado brasileiro por falhar na investigação adequada do assassinato de Marielle Franco
– É urgente a constituição de um grupo independente do Estado para o monitoramento das investigações
– Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público passa a atuar no caso

Seis meses se passaram desde que a defensora de direitos humanos e vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram brutalmente assassinados a tiros no bairro do Estácio, região central da cidade do Rio de Janeiro, no dia 14 de março deste ano. A cada dia que passa, aumenta a preocupação com a ausência de respostas sobre os autores, os mandantes e a motivação do assassinato de Marielle Franco.

“O assassinato de Marielle e Anderson completou seis meses. A falta de solução para o caso é inadmissível. A impunidade não pode estar no horizonte das autoridades. O Estado brasileiro, as autoridades federais e estaduais e as instituições do sistema de justiça criminal têm todos a responsabilidade de garantir que o assassinato de Marielle Franco seja devidamente investigado e que os verdadeiros responsáveis sejam identificados e levados à justiça”, disse Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.

Desde a noite de 14 de março, a Anistia Internacional vem exigindo que os órgãos competentes garantam uma investigação imediata, rigorosa, independente e imparcial do crime. Um dia após a execução, foi publicada uma nota urgente e, em seguida, aberta uma ação de e-mails para pressionar as autoridades responsáveis. Em seis meses de mobilização, mais de 165 mil pessoas se manifestaram pela resolução do caso com assinaturas vindas do Brasil e de países como Argentina, Bélgica, Canadá, Coréia do Sul, Irlanda, Itália, Japão, Noruega, Peru, Portugal, Espanha e Suécia.

Nesses 6 meses, a Anistia Internacional organizou também ações em frente à Divisão de Homicídios da Polícia Civil, da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Só após a pressão sobre as autoridades que representantes da Anistia Internacional e familiares de Marielle foram recebidos pelo procurador-geral de Justiça do estado, Eduardo Gussem, e pelo secretário de estado de segurança, general Richard Nunes.

No fim de agosto, o Ministério Público anunciou a inclusão do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) no caso, demanda feita pela Anistia Internacional no marco dos três meses do crime. Uma nova equipe do órgão assumiu a investigação em setembro e espera-se, desta equipe, celeridade.

“O Ministério Público tem papel fundamental para garantir a competência e independência na apuração do caso. A entrada do GAECO é bem-vinda, mas é preciso envolver também o GAESP (Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública) na investigação e monitorar a atuação da Polícia Civil. Além disso, é urgente a constituição de um grupo totalmente independente do Estado para o monitoramento das investigações, que verifique se o devido processo legal está sendo seguido”, afirmou Werneck.

A Anistia Internacional vem chamando a atenção para a necessidade do estabelecimento de um mecanismo externo e independente de monitoramento das investigações, que seja formado por especialistas (tais como peritos, juristas, entre outros) que não tenham qualquer conflito de interesses em relação ao caso e que seja totalmente independente do aparato estatal. Este mecanismo deverá monitorar o andamento das investigações, o cumprimento das diligências e verificar se está havendo algum tipo de influência indevida ou negligência no processo. O secretário de segurança, Richard Nunes, se posicionou favoravelmente à iniciativa em reunião com familiares de Marielle e representantes da Anistia Internacional no dia 20 de agosto.

Assassinato pode ter tido a participação de agentes do Estado e das forças de segurança

Embora as investigações estejam sob sigilo, algumas informações veiculadas pela imprensa indicariam que o assassinato de Marielle Franco teria sido cuidadosamente planejado, um crime sofisticado, que teria contado com a participação de agentes do Estado e das forças de segurança.

Dois carros teriam sido usados no assassinato e teriam placas “clonadas”. Imagens de vídeo mostram um dos veículos aguardando a saída de Marielle de um evento em que era debatedora para seguir o carro da vereadora minutos antes do crime. No vídeo, é possível ver que o motorista usa em diversos momentos um aparelho pequeno que parece ser um celular. No entanto, o momento do crime não foi gravado porque algumas câmeras de segurança, parte do sistema que alimenta o Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) do Rio de Janeiro, que cobririam especificamente o local do assassinato, teriam sido desligadas às vésperas do crime.

Além disso, os disparos, cerca de 13, teriam sido feitos com os carros em movimento e quatro disparos teriam atingido com precisão a cabeça de Marielle. A munição utilizada seria de calibre 9mm, calibre de uso restrito no Brasil, e seriam do lote UZZ-18, um lote pertencente à Polícia Federal que teria sido desviado há alguns anos. Munição pertencente a este mesmo lote teria sido utilizada em uma chacina em São Paulo em agosto de 2015, que contou com a participação de policiais que seriam parte de um grupo de extermínio.

Embora inicialmente tenha sido divulgado que a arma utilizada seria uma pistola 9mm, veio à público a informação de que a arma utilizada seria uma submetralhadora HK-MP5, de origem alemã, que também é de uso restrito e não muito comum no Brasil. Cinco unidades de submetralhadoras deste mesmo modelo teriam desaparecido do arsenal da Polícia Civil, o que teria sido identificado em um recadastramento feito em 2011.

Ainda teriam ocorrido algumas negligências e procedimentos equivocados nas perícias necessárias: não teria sido feito raio-X dos corpos de Marielle Franco e Anderson Gomes possivelmente por falta de equipamento em estado de funcionamento; e o carro não teria sido armazenado de forma adequada, teria ficado num pátio exposto indevidamente.

Por fim, diversas supostas linhas de investigação também foram veiculadas pela imprensa ligando o assassinato de Marielle Franco a policiais militares do 41º Batalhão da Polícia Militar, a grupos de milícias atuantes na Zona Oeste, a vereadores da Câmara Municipal Rio de Janeiro e a deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Nomes de supostos suspeitos e a existência de testemunhas delatoras também foram divulgadas pela imprensa.

“Estamos diante de um cenário muito preocupante. O assassinato da defensora de direitos humanos e vereadora Marielle Franco muito provavelmente contou com a participação de agentes do estado. O crime possivelmente tem por trás um grupo poderoso o suficiente para acreditar na garantia de impunidade a ponto de cometer tal execução em uma das cidades de maior visibilidade do mundo, durante o período de intervenção federal na segurança pública e em ano eleitoral”, disse Werneck.

Marielle Franco e a defesa de direitos humanos

Marielle Franco atuava há mais de dez anos defendendo os direitos humanos de jovens negros, de mulheres, de moradores de favelas, de pessoas LGBTI e denunciava as execuções extrajudiciais e outras violações de direitos cometidas por policiais e agentes do estado. Foi eleita vereadora e iniciou seu mandato em janeiro de 2017. Alguns dias após o decreto de intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, foi nomeada relatora da Comissão Representativa da Câmara de Vereadores criada para monitorar a intervenção federal.

“A cada dia que passa, o reconhecimento internacional do exemplo de vida de minha filha aumenta e é transformado em luta por justiça, em cobrança para o estado brasileiro. Marielle foi uma liderança em tudo que participou, sempre com o pensamento de ajudar o próximo, acreditando que a organização coletiva e solidária poderia transformar o mundo. Ao fazer pelo outro ela se sentia bem. Minha família não vai descansar enquanto não tiver uma resposta sobre a motivação deste crime”, disse Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco.

O Brasil tem um preocupante histórico de alto número de homicídios de defensores de direitos humanos. A maioria dos casos não é investigada e nem responsabilizada e nos poucos casos que são levados à justiça são apenas os executores que vão à julgamento. Raramente os mandantes dos assassinatos são responsabilizados, o que perpetua a violência contra os que defendem direitos humanos no país.

“O homicídio de um defensor de direitos humanos é uma tentativa de gerar medo e silêncio, um ataque não apenas ao defensor assassinado, mas a um grupo social mais amplo. É uma mensagem para desmobilizar a luta por direitos e é um ataque aos direitos humanos como um todo. Assim, o Estado Brasileiro deve responder com firmeza e seriedade aos homicídios de defensores de direitos humanos para que este processo de silêncio e medo não se amplie e para romper com o ciclo de violência contra defensores de direitos humanos”, finalizou Werneck.

FONTE: Assessoria de Comunicação Anistia Internacional

O PSOL, sua crença no “gordinho”, e o risco da despolitização

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Tenho acompanhado a campanha eleitoral do PSOL no Rio de Janeiro com certa impaciência, pois vejo a repetição de receitas que centram no apelo identitário e contribuem para a manutenção de um discurso essencialmente despolitizado.  Para mim o maior exemplo dessa estratégia está na forma com que o candidato a governador, o professor Tarcísio Motta, está sendo reapresentado ao eleitorado fluminense em sua segunda postulação ao cargo de governador do Rio de Janeiro. 

Essa estratégia não está centrada em apresentá-lo como o candidato mais bem preparado para gerir o aparelho de estado em prol dos interesses da maioria da população (coisa que ele efetivamente é), mas sim em criar um processo de empatia a partir da figura do “gordinho” (ver exemplo de material de propaganda abaixo). 

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É como se a aproximação dos eleitores com o PSOL e seu candidato a governador dependesse da carga de  quilos em excesso que Tarcísio Motta carrega consigo, e não da plataforma eleitoral que a candidatura dele deve expressar (plataforma essa completamente ausente na chamada que selecionei, um problema que se repete em tantas outras que já vi). 

Como sabemos que a maioria dos cidadãos está mais preocupada com saídas para a crise profunda em que os anos de governo do PMDB colocaram o Rio de Janeiro, a aposta em criar mais uma camada identitária para aumentar o alcance eleitoral do PSOL , o que sinceramente é desapontador.  É que o PSOL já está inundado de propostas identitárias, e mais uma, ainda mais uma que recorre ao aspecto bonachão do “gordinho”, não serve para que sejam feitas as discussões necessárias para que o Rio de Janeiro possa sair do pântano financeiro, social e político em que Sérgio Cabral et caterva nos colocaram.

Ainda que eu não seja um especialista em campanhas eleitorais, precisamos que haja um programa eleitoral que faça a ligação entre as dificuldades diárias da população fluminense com os elementos estruturais que hoje impõe uma carga descomunal de sofrimento à maioria pobre do povo brasileiro (por ex: o tamanho da dívida pública, a estagnação da indústria fluminense). Há que se explicar a necessidade de se romper com a lógica rentista que hoje impõe a destruição dos serviços públicos, incluindo saúde e educação, e o estabelecimento de um estado de sítio contínuo para controlar a revolta diária dos que sofrem.

Ao fazer isto, haverá a necessidade de que se eleve o grau de politização da população mais pobre, pois só assim teremos condições de ampliar o necessário processo de organização política que poderá permitir o enfrentamento dos problemas estruturais que citei acima.  E não me parece que será com a opção da campanha do “gordinho boa gente” que isto será feito.

E é sempre preciso lembrar que vitórias eleitorais não são medidas apenas pelo número de votos que se consegue, mas, fundamentalmente, no tipo de educação política que as campanhas logram alcançar. Esse parece ser o principal dilema que o PSOL ainda não conseguiu resolver como partido: se quer apenas concorrer para eleger candidatos e acessar o aparelho de estado para “governar diferente”, ou se quer efetivamente se apresentar como uma alternativa aos processos de luta que estão se apresentando no horizonte do povo brasileiro, independente de quem for eleito nas próximas eleições.

Como outro portador da identidade “gordinho”, espero que Tarcísio Motta supere o limiar da propaganda proposta pelos marqueteiros do PSOL e nos leve mais adiante no processo de conscientização que precisa ser urgentemente criada para impedirmos que o Rio de Janeiro continue sendo o principal laboratório das reformas ultraneoliberais em curso no Brasil.

Por que Boulos é traço? Perguntem ao PSOL

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Pesquisas eleitorais são, quando muito, retratos de determinados momentos em uma campanha eleitoral.  Além disso, há sempre que se desconfiar de determinados “institutos de pesquisa” que brotam do nada para disparar estatísticas mal explicadas e sem oferecer os fundamentos metodológicos de como as mesmas foram produzidas.

Mas, tendo escrito no dia 10 de março a postagem intitulada “A candidatura Boulos é o ocaso do PSOL” onde critiquei a forma pela qual o PSOL determinou que o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos seria candidato a presidente pelo partido, quase que imediatamente após ele ter se tornado um filiado [1].

Agora, exatos 5 meses desde aquela postagem, vejo o aguerrido e inteligente Guilherme Boulos estacionado nas pesquisas eleitorais na quantidade conhecida como “traço”. Como Boulos não é um despreparado como muitos outros dos postulantes ao cargo máximo da repúblico e também não é desprovido de base social para apoiá-lo, fica pergunta de porque ele não consegue superar um destino eleitoral que, mantidas as projeções das pesquisas, será o pior desempenho do PSOL em campanhas presidenciais.

Alguns poderiam mencionar o fato de que Boulos tem gasto mais tempo prestando mais solidariedade ao ex-presidente Lula do que divulgando a sua candidatura. Mas eu já acho que apesar da crítica ser parcialmente pertinente, a culpa está mais para a natureza incipiente e fragmentada do PSOL do que para uma culpa pessoal de Guilherme Boulos.  Me arrisco a dizer que  como aconteceu com outros candidatos anteriores do PSOL (Heloísa Helena, Plínio de Arruda Sampaio e Luciana Genro) é bem provável que Boulos termine saindo maior do que entrou, mas o mesmo não deverá ser dito sobre o partido.

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É que por mais que eu tenha simpatia pelo PSOL e por muitos dos seus parlamentares , o que me parece óbvio é que o crescimento do partido, que nasceu com a obrigação de oferecer uma opção pela esquerda após abandono da maioria do PT das suas bandeiras históricas, está sendo limitado por sua excessiva dependência de agendas identitárias e também pela sua fraca inserção na classe trabalhadora. 

O problema é que se os dirigentes das múltiplas correntes que existem dentro do PSOL continuarem ignorando a necessidade de consolidar a candidatura de Guilherme Boulos, e de quebra o alcance político do partido, o que teremos nos próximos será não apenas a hegemonia do PT nos sindicatos e movimentos sociais, mas também a manutenção de um estado letárgico frente ao avanço avassalador da agenda ultraneoliberal que embala as atuais políticas do governo “de facto” de Michel Temer e dos candidatos que a apoiam. E isso, meus caros leitores, terá consequências trágicas para a maioria dos brasileiros.  É que, com todas as suas limitações e erros, o PSOL é ainda a melhor opção para a construção de uma saída pela esquerda no Brasil. O risco aqui, entretanto, é que o PSOL continue sendo apenas uma espécie de viúva Porcina da esquerda brasileira (aquela que deixou de ser sem nunca ter sido).


[1] https://blogdopedlowski.com/2018/03/10/a-candidatura-boulos-e-o-ocaso-do-psol/

Morte de Marielle Franco mobiliza mais de 1,16 milhão de menções no twitter, aponta FGV DAPP

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A morte da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, na noite de quarta-feira (14), após um evento na Zona Central da capital fluminense, mobilizou 1,16 milhão de menções no Twitter entre as 22h do dia 14/03 e as 16h desta sexta-feira (16/03). Apenas nas últimas 24h (entre as 16h de 15/03 e as 16h de 16/03), foram 611,1 mil menções. O maior pico de menções foi identificado às 21h do dia 15/03, com cerca de 1,14 mil tuítes por minuto. Nessa hora, aconteciam manifestações em diversas cidades do país em homenagem à vereadora.

Leia mais: No Facebook, 75% das reações à morte de Marielle Franco destacam luto

O nome da vereadora aparece na grande maioria das publicações (82% do debate), em 952 mil menções. Além de palavras relacionadas a Marielle, entre as dez palavras mais usadas no debate estão “mulher” e “negra” , em 116,1 mil menções (ou 10%) cada; “assassinato” , “execução” e “assassinada” (8%, 92,9 mil cada); e “executada” (7%, 81,3 mil).

A hashtag #mariellepresente foi a mais usada no debate, aparecendo em 150,9 mil postagens (ou 13%), seguida das hashtags #mariellefranco e#nãofoiassalto, em 34,8 mil postagens (ou 3%) cada. Outras hashtags muito usadas são #mariellefrancopresente#luto e #andersonpresente, em cerca de 11,6 mil postagens (ou 1%) cada. Essa última se refere ao motorista do carro em que Marielle estava no momento do ataque, Anderson Pedro Gomes, que também acabou morto.

Veja também: Pesquisa da FGV DAPP identifica uso de robôs em até 5% do debate no Twitter sobre morte de Marielle Franco

A postagem mais compartilhada nesse período, com mais de 32 mil retuítes, rebate críticas direcionadas a Marielle. Essa postagem faz coro com a maior parte das menções no debate, que levanta questionamentos a respeito das motivações da morte da vereadora. Outras postagem com grande repercussão fazem referência ao motorista Anderson Pedro Gomes, também morto no ataque, bem como à repercussão que o fato teve no cenário internacional.

Os três perfis que tiveram maior influência no debate â?? cujas postagens foram mais compartilhadas, citadas e comentadas â?? são o da usuária onika (@badgcat); o do PSOL (@PSOLOficial), partido ao qual Marielle era filiada; e o da usuária Renata Ventura (@rehventura), que comentou sobre a repercussão internacional da morte da vereadora.

Repercussão mundial

De 22h da quarta (14) às 18h de sexta-feira, a FGV DAPP identificou 84,6 mil tuítes em inglês e 133 mil em espanhol, com uníssona manifestação de apoio a Marielle, cobrança de respostas e em defesa das agendas que a vereadora proclamava, como os direitos humanos, a atuação da polícia e a proteção a minorias.

Entre as menções em inglês, os Estados Unidos respondem por 38% do debate geolocalizado, com 8% do Reino Unido e 3% do Canadá. Entre as menções em espanhol, a América Latina responde por quase todo o debate, com a Argentina concentrando 32% das menções, a Espanha, 13%, o Chile, 11%, a Venezuela, 9%, e México e Colômbia, ambos com 5%.

FONTE: Insight Comunicação

A execução de Marielle Franco explicita a farsa da intervenção militar no Rio de Janeiro

Vereadora Marielle Franco foi a quinta mais votada das últimas eleições e tinha base na favela da Maré

A  execução sumária da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ) quando saia de uma atividade pública na noite de ontem chocou seus amigos e parentes, pois não havia sobre ela nenhuma ameaça conhecida. O que havia sim era a sua militância política em prol dos pobres, especialmente daqueles que vivem nas favelas da cidade do Rio de Janeiro.

Não conheci Marielle Franco pessoalmente, mas conheço pessoas que conviveram com ela em diversos níveis e tudo o que estou ouvindo agora indica que essa é uma grave perda política, mas também pessoal.  Dentre as muitas qualidades que Marielle Franco carregou em vida estavam a sua disposição para lutar pelos menos favorecidos, mas também a  de ignorar as limitações que foram postas sobre ela mesma por uma sociedade profundamente desigual e marcada por amplas diferenças de oportunidades.

Quem assassinou friamente Marielle Franco certamente já fez isso antes, pois a ação foi de profissionais. Esse profissionalismo indica que não houve nada de acidental na execução de uma parlamentar que vinha exercendo seu mandato nas linhas que havia prometido que faria.  Esse padrão de profissionalismo é marca de uma indústria de extermínios que existe no Rio de Janeiro sob a sombra do Estado e, muitas vezes, sob o comando de quem deveria evitar que isso acontecesse. Basta lembrar a execução da juíza Patrícia Accioly em 2011 quando se descobriu posteriormente que sua morte havia sido planejada e realizada por policiais militares que ela estava julgando.

A morte de Marielle Franco também revela que todo o discurso que justificou a intervenção militar em curso no Rio de Janeiro acaba de ser definitivamente desmascarado. Afinal, se o objetivo da intervenção era coibir a ocorrência de casos de violência, a execução de uma parlamentar deixa evidente que a razão alegada não foi alcançada.

Mais ainda, como se suspeita que a execução de Marielle Franco está associada às denúncias que ela vinha fazendo sobre execuções sumárias em favelas do Rio de Janeiro que estão ocupadas pelas forças armadas e policiais, agora fica ainda mais claro que o único resultado prático desta intervenção tem sido o aumento da violência contra os pobres.

Assim, se o presidente “de facto” Michel Temer pretendia fazer uma jogada de mestre ao determinar a intervenção militar, a morte de Marielle Franco acaba de assegurar que de mestre essa jogada não tem nada. Aliás, tem tudo para ser o Waterloo de Michel Temer.

Aos amigos e companheiros de Marielle Franco, meus pêsames. Luta que segue, pois certamente seria isso que ela nos diria para fazer.

 

Nova esquerda ou esquerda neoliberal?

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Ainda refletindo sobre a indicação de Guilherme Boulos para ser o candidato do PSOL para presidente do Brasil,  vejo que essa opção pelos dirigentes do partido abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre o que vem a ser, ao menos no caso brasileiro, o aparecimento de um suposta “nova esquerda” que é uma referência clara a uma suposta superação da “velha esquerda”.

Como ando lendo uma série de materiais sobre a economia política do Neodesenvolvimentismo,  tenho visto vários autores associando os anos Lula/Dilma a uma opção pela manutenção do estado neoliberal que foi inaugurado por Fernando Collor, aprofundado por Fernando Henrique Cardoso, e mantido de forma dissimulada por Lula, e explicitado por Dilma Rousseff.

É bom lembrar que no período em que perdurou o Neodesenvolvimentismo lulista, qualquer cidadão que ousasse criticar as políticas do governo de conciliação de classes centrado nas parcerias público-privadas era logo rotulado de “ultra esquerdista”. Esse rótulo era aplicado sobre uma gama de posições, que iam desde os setores moderados do PSOL até os mais radicais do PSTU.  Todos cabiam no balaio do ultraesquedismo dos neopetistas.

Dada a hegemonia mantida pelo PT na classe trabalhadora  brasileira é evidente que o rótulo de ultra esquerdista colou e pressionou os partidos de esquerda que não aderiram, ou foram excluídos propositalmente, das alianças engendradas por Lula. Essa pressão fez com que houvesse o fortalecimento de posturas identitárias que passaram a excluir a classe social como elemento norteador das estratégias de luta política.  Nesse sentido, o PSOL passou a ser o lócus de todo tipo de luta identitária em detrimento da luta de classes e da unificação das lutas que os trabalhadores realizam mundialmente.  

Um exemplo extremo disso é o ex-BBB e deputado federal Jean Willys que passou a cumprir o papel de defensor “pela esquerda” do estado de Israel (ironicamente um dos ícones da defesa de Israel  “pela direita” é Jair Bolsonaro) , basicamente pelas supostas liberdades que os gays desfrutam naquele país. Nem as centenas de crianças  transformadas em prisioneiras por Israel para sufocar a luta pela libertação nacional palestina parecem comover Jean Willys e, muito menos, a leva-lo a questionar o caráter anti-democrático das políticas do governo israelense.  E os que ousam questionar essa posição claramente míope acabam sendo duramente atacados nas redes sociais, como foi o caso recente de Milton Temer.

Mas o parlamentar fluminense está longe de ser um caso solitário. É que, com raras exceções, a maioria dos poucos parlamentares eleitos pelo PSOL se vale desta ou daquele identidade para angariar votos. Já os que centram sua ação pelo viés da classe são inexistentes.

Uma decorrência adicional dessa opção pela identidade é que quando o problema é claramente de classe, a nova esquerda  identitária simplesmente se dissolve e desaparece da cena política. Um exemplo disso foi a luta dos servidores do Rio de Janeiro para receberem seus salários em 2017. Ainda que os parlamentares do PSOL  na Alerj fossem os mais vocais na defesa dos servidores, o PSOL como partido nunca deu exatamente as caras nos muitos atos realizados sob forte repressão policial.   Uma explicação para mim é que salário lembra classe e ultrapassa as eventuais identidades contidas dentro dos servidores públicos, tornando a luta dos servidores em uma pauta desinteressante.

O interessante é que quanto mais o capitalismo se financeiriza, mais suas práticas anti-trabalhadores se aprofundam. Vivemos efetivamente um período de extrema reação política cujo o saldo é ampliar a extração da chamada “mais valia”, o que contribuiu para a precarização exponencial da condição de vida dos trabalhadores. Mas sobre isso, a “nova esquerda” não quer ou não tem condições de abordar.  É que se fizer isso, os postulados pós-modernos e pós-classe da nova esquerda serão reduzidos à insignificância e as múltiplas identidades que eles legitimam serão mostradas como o que realmente são, um abandono da classe como elemento de formulação política.

Lamentavelmente num contexto histórico tão complexo, a supremacia da “nova esquerda” desarma os trabalhadores do cidade e do campo e os torna “sitting ducks” das forças mais reacionárias que sustentam o atual modelo de exploração neoliberal.